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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Michel de Montaigne (capa do livro de Stefan Zweig)

 


     Minha Princesa de mim:
 

   Michel de Montaigne começa assim o capítulo II do livro III ( Du Repentir) dos seus Essais: Outros formam o homem, eu recito-o e represento um em particular, bem mal formado; o qual, se tivesse de o moldar de novo, eu faria mesmo bem diferente do que é; mas já está feito. Ora os traços da minha pintura não se extraviam, ainda que se mudem e diversifiquem. O mundo não passa de um baloiço perene. Nele, todas as coisas baloiçam sem cessar, a terra, os rochedos do Cáucaso, as pirâmides do Egipto. De balanço público e do delas. Mesmo a constância mais não é do que um balouçar mais lânguido. Não consigo segurar o meu objeto: lá vai ele, turvo e vacilante, de natural embriaguez. Apanho-o nesse momento, tal como está, no instante em que trato dele. Não pinto o ser, pinto a passagem; não a passagem de uma a outra idade ou, como diz o povo, de sete em sete anos, mas dia a dia, minuto a minuto.  Tenho de ajustar a minha história a cada hora. Poderia entretanto mudar, não só de fortuna, mas também de intenção: é um rol de diversos e mutáveis acidentes, e de imaginações irresolutas, por vezes até contrárias. Ou porque eu seja outro eu-mesmo, ou porque agarre nos assuntos por outras circunstâncias e considerações. Tanto é assim, que bem me contradigo na aventura, mas, como dizia Demades, de modo algum contradigo a verdade. Se a minha alma pudesse ter pé, não me ensaiaria, resolver-me-ia: ela está sempre em aprendizagem, e em prova... Penso, Princesa de mim, que este trecho diz bem o porquê do título da obra: Ensaios. E diz muito sobre o que eu chamaria realismo crítico de Montaigne, em vez de ceticismo ou relativismo. Já te disse como pensossinto que interrogar não é afirmar a dúvida como princípio, meio e fim, condição fatal do conhecimento; antes, pelo contrário, é acreditar e querer que a visão seja possível. Mas só a cegueira não vê que todo o mundo é composto de mudança, que tudo é relativo, posto que nada vemos nem conhecemos sem ser em relação. As nossas próprias categorias mentais básicas - o tempo e o espaço - são relatividade. Eis a nossa humana condição: só conhecemos de perspetiva, jamais possuímos o fruto da árvore da sabedoria. A verdade ontológica só a Deus pertence, e de Deus-mesmo nada sabemos ainda; por isso tantas vezes me repito o dito de São Paulo aos hebreus: a fé é a substância das coisas que devemos esperar. E gosto de pensarsentir que a fé é a íntima revelação da esperança, que se transmite pelo amor, nossa única certeza aquém e além da morte. Com a idade - quero dizer com o envelhecimento de um corpo que vai perdendo capacidades, alertas e amenidades - faço por me entender melhor, isto é, tenho menos respostas e mais interrogações, quiçá pela imensa paz de pensarsentir este poder de perguntar sem inúteis insistências, pois me vou aproximando da luz que fui perseguindo. Da surpresa final. E surpresa será, finalmente, mais para mim, talvez, do que para tantos outros que vejo, à minha volta, em luta - ora dolorosa, ora inconsciente - com o esquecimento ou a estranheza de tudo. Esses já terão passado pelo purgatório, ou vão atravessando essa inquietação do incógnito, onde já nem dogmas são referências, porque tudo parece mentira.

 

   É certo que, com a velhice, vamos mirrando, ficando mais pequeninos. Assim como o filho pródigo, minha Princesa de mim, quando regressa à casa de seu pai. Acabamos, afinal, por ser mais humildes. Já não agitamos, com soberba, verdades nossas, tampouco insistimos em impô-las. Percebemos que só o quanto tanto que soubemos amar terá dado algum sentido às nossas vidas, e que Deus exalta os humildes só por darem sem reclamar. O reconhecimento de mim, pensossinto, Princesa, só poderá ser isso mesmo, essa descoberta de uma qualquer misteriosa capacidade de dádiva do que sou, tenho e posso, sem pretensões. Aceitar-me é a forma inicial da humildade. Gosto de reler este passo de Montaigne, que traduzo: Quanto a mim, posso desejar, em geral, ser outro; posso condenar e desgostar-me da minha forma universal, e suplicar a Deus que me reforme inteiramente e dê desculpa à minha natural fraqueza. Mas a tanto não posso chamar arrependimento, nem sequer, parece-me, desgosto por não ser nem Anjo nem Catão. Os meus atos são regulados e conformes ao que sou, e à minha condição. Não consigo melhor; e o arrependimento não toca propriamente as coisas que não dependem da nossa fortaleza: talvez o lamento o faça. Imagino infinitas naturezas mais altas e disciplinadas do que a minha; mas todavia não corrijo as minhas faculdades, posto que, nem o meu braço, nem o meu espírito, se tornarão mais vigorosos só por eu conceber outro que o seja. Se imaginá-lo, e desejar um comportamento mais nobre do que o nosso, produzisse o arrependimento do nosso agir, teríamos de nos arrepender das nossas mais inocentes ações... Chegado à idade da pequenez, que, no final da vida, é o momento da última conversão - esse abandono do filho pródigo ao Pai - lembro-me de que a Boa Nova nos fala de misericórdia e não de sacrifício, e de que tudo o que Jesus disse à mulher adúltera foi, tão só: também eu não te condeno, vai e não voltes a pecar...
 

     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira