Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Jean-Luc Nancy


     Minha Princesa de mim:
 

    Jean-Luc Nancy disse, falando de filosofia e Iluminismo: la raison ne suffit plus, afirmando que, depois do século XVIII, o das Luzes, o pensamento se terá virado essencialmente para o além, para o que está por detrás do existente, ou no fundo deste, e que a razão suficiente não encara. A começar pela morte, que é o grande impensado das Luzes: desde Espinoza, que as inicia, a Kant, que as encerra, a morte está totalmente ausente. Um dos pontos mais desnorteantes do racionalismo é, sem dúvida, ter pendurado a questão da morte. Tal não me parece, a mim, paradoxal. Pelo contrário, creio que é natural sentirmos a insuficiência da nossa razão perante a morte. Claro que não estou a falar da determinação clínica ou médico-legal do não funcionamento irreparável de um organismo, mas da morte como mistério, isto é, enquanto certeza interrogadora. Em si mesma, agora sim, um paradoxo. As Luzes, que para Kant eram a chegada do homem à maioridade, quiseram, como diz Nancy, circunscrever o mundo. E acrescenta: Penso que é preciso infinitizá-lo. Para este pensador da pós-modernidade, impõe-se desencerrar a clausura entre razão e não-razão. E faz, para tal, duas sugestões. Uma reconhece que a religião menos supersticiosa, a menos dogmática possível, pode permitir a alguns aceitar o que nos escapa, projetando confiança, uma redenção que nos salve do nada, do absurdo. A outra via, mais exigente, é a que chamo pensamento da adoração. Estou cada vez mais fascinado pela revolução do pensamento operada pelo cristianismo, que soube, no mundo romano, trazer uma consolação, um sentido, a homens que as religiões antigas já não conseguiam sossegar. Mas também penso, para citar Marcel Gauchet, que o cristianismo é "a religião de saída da religião", que traz nele uma dinâmica de secularização, de negação do mito. Entramos aqui, Princesa, num campo interior que, pelo próprio mistério da sua natureza, se revela, mas não se explica: uma visão da vida e da morte que surge de um encontro amoroso, que não é uma afirmação de princípios, mas, singelamente, uma experiência íntima do ser como alegria infinita. O filósofo de Estrasburgo, que muito deve a Heidegger e a Derrida, não tem a fé cristã, mas pensassente o gesto de Jesus Cristo, diz ele, esse gesto, esse modo de estar no mundo, que eu chamo adoração, isso que o cristianismo nos deixa, depois de apagados todos os seus aspetos religiosos e teológicos. De modo algum emprego esse termo no seu sentido religioso, mas na sua dimensão amorosa; é a adoração que dirigimos a alguma coisa, a alguém, à existência. Não se trata, nem de esperar um êxito, um sentido deste mundo, nem de esperar que outro mundo, depois da morte, nos traga finalmente respostas. Adorar é estar neste mundo, mas segundo um certo espírito, é aprender a aceitar a infinidade do sentido. Podes crer, Princesa de mim, que a minha fé se encontra profundamente com tal intuição da razão de outros. Àquilo a que chamam dinâmica de secularização, eu chamo energia da incarnação, essa presença de Deus no mundo e na vida dos homens, desse Deus que, em Jesus Cristo, abdicou da sua transcendência e se fez nosso igual sofredor, e no Espírito de Pentecostes todos os dias se nos revela e acompanha. Aceitar a infinidade do sentido é encontrar, no íntimo de nós, esse sopro do Espírito que nos diz que a nossa vida é maior do que nós, sobretudo quando a sentimos, na alma, seu paradoxo, como Álvaro de Campos, noite soleníssima e cheia / de uma oculta vontade de soluçar, / talvez porque a alma é grande e a vida pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo, / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar... Sabes bem, Princesa, já te lo disse muitas vezes, como penso e quanto sinto que o grande milagre é esta intimidade de Deus connosco. Por isso não sou devoto de aparições e milagres, e posso ser até avesso a histórias dessas, quando me parecem insistentemente forçadas e pouco respeitadoras da razão humana. Sendo, todavia, leitor assíduo da Legenda Aurea de frei Tiago Voragino, delicio-me com essas maravilhas do imaginário medievo, cheio de ternura respeito a ingenuidade clara desses contos de fé. Nunca abdicarei do espanto.


     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira