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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

Guilherme d'Oliveira Martins

De 20 a 26 de junho de 2016.

A «Crónica dos Feitos Notáveis que se passaram na conquista de Guiné por mandato do Infante D. Henrique» de Gomes Eanes de Zurara é um dos documentos fundamentais para a compreensão da decisão portuguesa de planear e concretizar as viagens pelos cinco continentes.

 

  

 

MOTIVOS PARA NAVEGAÇÕES


No capítulo sétimo da chamada «Crónica dos Feitos da Guiné», Gomes Eanes de Zurara apresenta cinco motivos para o interesse das navegações atlânticas. Antes de mais, lembra que o Infante D. Henrique não só manteve uma frota para defesa de Ceuta, mas também realizou o corso nas costas do Mediterrâneo. E quais as razões para a exploração da costa africana? A primeira era o desejo de conhecer a terra que estava para além das Canárias e do Cabo Bojador. A segunda correspondia à vontade de encontrar cristãos e portos seguros para estabelecer relações comerciais – pois se poderiam trazer para estes reinos muitas mercadorias que se haveriam de bom mercado. A terceira seria poder avaliar com rigor o poderio islâmico naquelas paragens africanas. A quarta dizia respeito ao facto de o Infante nunca ter encontrado na Cristandade aliado que o acompanhasse na guerra contra o poderio do Islão, pelo que desejava saber se em África haveria algum Príncipe cristão que se dispusesse a ajudá-lo em tal empresa. Finalmente, a quinta razão relacionava-se com o dilatar da fé cristã em novos territórios, ganhando para ela «todas as almas que se quisessem salvar. Como é sabido, Zurara escreve em 1452-53, em vida de D. Henrique, com acrescentos após a morte deste, em 1460. Deteta-se, assim, a crença na existência do Presbítero João (Preste João), rei mítico, primeiro localizado na Ásia, como refere o «Livro de Marco Polo», e depois em África, na Etiópia, onde se sabia haver uma tradição copta muito marcada. É já neste último sentido que D. João II envia a importante missão de Afonso de Paiva e de Pêro da Covilhã ao Cairo e ao Mar Arábico. Depois de inúmeros sinais contraditórios, desde a alusão aos cristãos nestorianos na Ásia até à comunidade de S. Tomé no Kerala, no sul do subcontinente indiano, tudo foi alvo de cuidadoso escrutínio, chegando-se à informação sobre a Etiópia. Fica sempre, porém, o enigma sobre o momento em que pode falar-se de Plano da Índia. Até 1460 é muito cedo, mas, designadamente pelas informações trazidas pelo Infante D. Pedro da sua viagem europeia, há a compreensão de que o comércio mediterrânico e o domínio político, militar e geoestratégico em torno da Terra Santa é crucial para o futuro. E a verdade é que Zurara se dá conta da necessidade de um plano que prolongue o espírito de cruzada, mas não esqueça a componente económica. Não se esqueça, além do mais, a queda de Constantinopla, cabeça do Império Romano do Oriente (1453), que dará uma importância acrescida à tentativa de chegada ao Mar Arábico pela rota à volta da costa de África… O apelo do Papa Calisto III (1455) para uma cruzada contra os turcos, depois da queda de Bizâncio, não tem eco ou sucesso, o que reforça a opção portuguesa de concentrar meios na intervenção africana. Importa, ainda, lembrar a sucessão de acontecimentos que afirmaram e consolidaram as navegações africanas dos portugueses. No muito curto reinado de D. Duarte (1433-1438) ocorre a passagem do Cabo Bojador (1434) e o desastre de Tânger (1437), tendo em 1441 tido sucesso a primeira operação comercial com aquisição de escravos (mercê dos aprisionamentos feitos por africanos), sendo em 1444 atingida a Costa da Guiné – então só um terço dos navios que navegavam nessa área pertenciam á iniciativa do Infante. Em 1455 a Bula do Papa Nicolau V concede ao Rei de Portugal a propriedade exclusiva das terras e mares conquistados ou a conquistar…


 

DEPOIS DA MORTE DO INFANTE D. HENRIQUE


Depois da morte de D. Henrique (1460), chegados os portugueses à Serra Leoa, há o arrendamento pela coroa ao mercador de Lisboa Fernão Gomes da exploração da costa africana – correspondendo à missão de explorar 100 léguas em cada ano. É o tempo da Costa do Ouro e da zona da Mina, num momento em que a intervenção do Estado abranda até pelo envolvimento de D. Afonso V na guerra da sucessão de Espanha (1475-76), sendo retomada a exploração direta com o Príncipe Perfeito. Entretanto, o acesso ao Golfo das Guiné permite o acesso ao comércio da malagueta, do marfim e do ouro – que irão permitir (com o comércio dos escravos) a sustentabilidade económica das navegações planeadas. O reinado de D. João II (1481-1495) marca uma viragem significativa na organização do Estado e na estratégia da expansão marítima – com a política do segredo e o reforço do «mar fechado». Houve avanços significativos no conhecimento e no domínio dos circuitos comerciais na costa ocidental africana, bem como na aprendizagem do regime de ventos e no cálculo da latitude a partir da inclinação solar e no tocante aos controlos costeiros do Sul do Atlântico. «Tempos de coruja, tempos de falcão» - eis o lema prático do Príncipe Perfeito. A centralização política, a limitação dos poderes da alta nobreza (com as mortes dos Duques de Bragança, D. Fernando, e de Viseu, D. Diogo, e de seus apoiantes), a aliança com Castela, o casamento do herdeiro com a filha dos Reis Católicos, a tentativa de criação de uma economia dominante na Península Ibérica que pudesse ser, na entrada do Mediterrâneo, base sólida de um Império universal – estas são as bases da política de D. João II. O comércio africano, não envolvia as mercadorias e o dinheiro do reino. Para trocar com os bens obtidos na costa de África, designadamente ouro e escravos, usava-se o trigo de Marrocos e das ilhas e as mercadorias da Europa, donde se recebia têxteis, tapetes, cavalos e latão. Em 1482 é fundada a importante feitoria de S. Jorge da Mina, entreposto fundamental para o financiamento das navegações, supondo-se que até 1530 os portugueses teriam transportado cerca de 150 mil escravos… Depois das expedições de Diogo Cão até ao Zaire e da chegada de Bartolomeu Dias ao Cabo da Boa Esperança, tendo sido trazido um emissário do Rei do Congo (1487), há a decisão de D. João II de destacar dois enviados para alcançarem a Etiópia, a fim de obterem informação sobre o comércio da Índia. Afonso de Paiva morreu, mas Pêro da Covilhã viajou pelo subcontinente indiano, pela Pérsia e pela África Oriental – tendo enviado a partir do Cairo uma relação do que vira e ouvira. Duvida-se, todavia, da chegada ao destino ou da utilidade efetiva dessa informação. Pêro da Covilhã fixar-se-ia na Etiópia, onde mais tarde partilhou algumas das suas informações… Atrás do envio destes espiões estaria o interesse nas especiarias da Ásia, cuja comercialização na Europa estava controlada pelos Venezianos, através do Mar Vermelho e do Mediterrâneo.


 

A INTERRUPÇÃO DAS NAVEGAÇÕES


Há diversos mistérios por desvendar relativamente à interrupção das navegações depois de 1488. A lista de razões é conhecida: teriam sido resistências cortesãs orientadas para beneficiar o comércio do Norte de África? Seria um tempo de espera para uma mais sólida preparação? Seria uma antecipação ou prevenção da eventual chegada de Colombo às Caraíbas? Seria a previsão de um conflito gerado pela reivindicação da conquista perante o reconhecimento pelo Papa aragonês Alexandre VI? O certo é que, entretanto, o casamento do Príncipe D. Afonso com D. Isabel filha dos reis católicos gorar-se-ia com a trágica morte (1491) do herdeiro de D. João. O Tratado de Tordesilhas (1494) torna-se necessário já não para regularizar as influências no Atlântico Norte, mas para definir a divisão do Mundo. O avanço do meridiano para ocidente do Arquipélago de Cabo Verde até 370 léguas, envolve um outro enigma: seria o Brasil já conhecido? Teria Duarte Pacheco Pereira feito o reconhecimento do território? A verdade é que as circunstâncias da segunda viagem à Índia capitaneada por Pedro Álvares Cabral apontariam nesse sentido. Em 1495 o Rei morre no Alvor e em 1497 retomam-se as navegações. E que buscam os navegadores da frota de Vasco da Gama? Na fórmula repetida: cristãos e especiarias. Mas oiçamos João de Barros no ponto crucial da decisão: «e porque D. Manuel com estes reinos e senhorios, também herdara o prosseguimento de tão alta empresa como seus antecessores tinham tomado – que era o descobrimento do Oriente por este mar Oceano – quis logo no primeiro ano do seu reinado acrescentar à Coroa deste reino novos títulos. Sobre o qual caso (…) estando em Montemor-o-Novo teve alguns conselhos gerais em que houve muitos e diferentes votos e os mais foram que a Índia não se devia descobrir». Mas o Rei decidiu avançar! Há, pois, um caminho gradual até chegar à Índia, que se inicia com o Infante D. Henrique, ainda sem objetivos últimos definidos, aliando o espírito de cruzada e finalidades político-económicas, que se encontram delineadas por Zurara, em temos que merecem uma especial atenção, pelo rigor estratégico e um especial aproveitamento das circunstâncias internacionais, em especial o reforço do poder turco no Mediterrâneo oriental.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Jean-Luc Nancy


     Minha Princesa de mim:
 

    Jean-Luc Nancy disse, falando de filosofia e Iluminismo: la raison ne suffit plus, afirmando que, depois do século XVIII, o das Luzes, o pensamento se terá virado essencialmente para o além, para o que está por detrás do existente, ou no fundo deste, e que a razão suficiente não encara. A começar pela morte, que é o grande impensado das Luzes: desde Espinoza, que as inicia, a Kant, que as encerra, a morte está totalmente ausente. Um dos pontos mais desnorteantes do racionalismo é, sem dúvida, ter pendurado a questão da morte. Tal não me parece, a mim, paradoxal. Pelo contrário, creio que é natural sentirmos a insuficiência da nossa razão perante a morte. Claro que não estou a falar da determinação clínica ou médico-legal do não funcionamento irreparável de um organismo, mas da morte como mistério, isto é, enquanto certeza interrogadora. Em si mesma, agora sim, um paradoxo. As Luzes, que para Kant eram a chegada do homem à maioridade, quiseram, como diz Nancy, circunscrever o mundo. E acrescenta: Penso que é preciso infinitizá-lo. Para este pensador da pós-modernidade, impõe-se desencerrar a clausura entre razão e não-razão. E faz, para tal, duas sugestões. Uma reconhece que a religião menos supersticiosa, a menos dogmática possível, pode permitir a alguns aceitar o que nos escapa, projetando confiança, uma redenção que nos salve do nada, do absurdo. A outra via, mais exigente, é a que chamo pensamento da adoração. Estou cada vez mais fascinado pela revolução do pensamento operada pelo cristianismo, que soube, no mundo romano, trazer uma consolação, um sentido, a homens que as religiões antigas já não conseguiam sossegar. Mas também penso, para citar Marcel Gauchet, que o cristianismo é "a religião de saída da religião", que traz nele uma dinâmica de secularização, de negação do mito. Entramos aqui, Princesa, num campo interior que, pelo próprio mistério da sua natureza, se revela, mas não se explica: uma visão da vida e da morte que surge de um encontro amoroso, que não é uma afirmação de princípios, mas, singelamente, uma experiência íntima do ser como alegria infinita. O filósofo de Estrasburgo, que muito deve a Heidegger e a Derrida, não tem a fé cristã, mas pensassente o gesto de Jesus Cristo, diz ele, esse gesto, esse modo de estar no mundo, que eu chamo adoração, isso que o cristianismo nos deixa, depois de apagados todos os seus aspetos religiosos e teológicos. De modo algum emprego esse termo no seu sentido religioso, mas na sua dimensão amorosa; é a adoração que dirigimos a alguma coisa, a alguém, à existência. Não se trata, nem de esperar um êxito, um sentido deste mundo, nem de esperar que outro mundo, depois da morte, nos traga finalmente respostas. Adorar é estar neste mundo, mas segundo um certo espírito, é aprender a aceitar a infinidade do sentido. Podes crer, Princesa de mim, que a minha fé se encontra profundamente com tal intuição da razão de outros. Àquilo a que chamam dinâmica de secularização, eu chamo energia da incarnação, essa presença de Deus no mundo e na vida dos homens, desse Deus que, em Jesus Cristo, abdicou da sua transcendência e se fez nosso igual sofredor, e no Espírito de Pentecostes todos os dias se nos revela e acompanha. Aceitar a infinidade do sentido é encontrar, no íntimo de nós, esse sopro do Espírito que nos diz que a nossa vida é maior do que nós, sobretudo quando a sentimos, na alma, seu paradoxo, como Álvaro de Campos, noite soleníssima e cheia / de uma oculta vontade de soluçar, / talvez porque a alma é grande e a vida pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo, / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar... Sabes bem, Princesa, já te lo disse muitas vezes, como penso e quanto sinto que o grande milagre é esta intimidade de Deus connosco. Por isso não sou devoto de aparições e milagres, e posso ser até avesso a histórias dessas, quando me parecem insistentemente forçadas e pouco respeitadoras da razão humana. Sendo, todavia, leitor assíduo da Legenda Aurea de frei Tiago Voragino, delicio-me com essas maravilhas do imaginário medievo, cheio de ternura respeito a ingenuidade clara desses contos de fé. Nunca abdicarei do espanto.


     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

Acerca de espaço urbano.

 

A manifestação mais visível, pelas suas dimensões, da descontinuidade e da desordem do espaço contemporâneo, é a cidade. A cidade contemporânea atinge assim uma forma dominadora, uma escala visual cujo domínio o homem não pode controlar, e domina e absorve no seu crescimento todo o espaço que a envolve.’
Fernando Távora, in ‘ Da Organização do Espaço’,1962

 

 

A cidade ideal é um módulo para o qual sempre é possível encontrar múltiplos ou submúltiplos que modifiquem a sua medida, mas não a sua substância.’
Giulio C. Argan, in ‘História da Arte como História da Cidade’, 1998

 

 

 

 

 

 

Espaço urbano: O que é?  
E
strutura formal flexível?

 

O espaço urbano é forma - ‘…apercebemo-nos de que não há uma forma, mas uma possibilidade de forma, que corresponde a uma possibilidade de vida dos seus ocupantes.’, Gonçalo Seiça Neves, In ‘A modernidade da Cidade Moderna’, Jornal de Arquitetos, n.º 207. Contrasta momentos materiais e não materiais. Os momentos materiais têm um carácter mais restrito, são o edificado. Os momentos não materiais evidenciam o edificado, permitindo a sua relação, ligação, perceção e encontro com o exterior.

O espaço urbano é determinado por uma estrutura dependente de usos e experiências – essa estrutura torna-se flexível, é susceptível de receber várias interpretações e pode ser influenciada, até mesmo transformada. A base estrutural do espaço soma situações diferentes, oferece continuamente novas oportunidades para novas utilizações. A flexibilidade é suficiente, para que no espaço urbano, se desempenhem funções diferentes sob circunstâncias variadas – concretiza-se, portanto, uma separação entre forma e função.


A forma do espaço urbano resulta de factores diversos, tais como: a vontade e criação humana; as demonstrações de poder; o acaso; as sujeições locais ao meio físico (ex. Relevo, clima, cursos de água); as preocupações sociais. A forma pode, então, estar entre um caráter espontâneo e um caráter controlado/planeado. O planeamento estabelece uma ordem urbanística que reflete uma ordem social, mas pretende, também, realizar um valor de qualidade que permanece com a mudança de quantidade.


O espaço urbano pode afirmar-se como um conjunto de diversas partes planimetricamente esquemáticas – reflexo de sucessivas adaptações ao meio físico e histórico. Não é a lógica da história, mas a desordem dos eventos que se reflete na realidade urbana. A proporção entre a qualidade e a quantidade determina a continuidade entre os núcleos históricos e os atuais. Os núcleos históricos manifestam-se em ciclos encerrados e os núcleos atuais em mutações contínuas. E, assim existe a cidade antiga e a cidade moderna que se distinguem e contrastam. Por um lado, a cidade antiga constrói-se pelo edificado – momento material. As ruas, as praças recortam-se no próprio edificado, Por outro lado, a cidade moderna tem como base o espaço livre – momento não material – e aí deposita os seus elementos essenciais – vias, blocos, espaços verdes.


É a existência de descontinuidades, rupturas, na cidade, que provoca a existência de áreas distintamente diferentes – núcleo antigo/periferia.


A degradação da paisagem de uma cidade não está nas descontinuidades que apresenta. A flexibilidade que a caracteriza fá-la frágil. A cidade está sujeita a excessivas individualizações na organização do seu espaço. Uma forma ao tornar-se espaço gera-se numa circunstância específica transformando-se de imediato, ela própria, numa condicionante, numa característica do local onde agora existe. Uma forma ao tronar-se espaço segue eventualmente as directrizes basilares da circunstância ou nega-as simplesmente.


A forma individualizada, particular que constitui o espaço urbano deve associar-se a um todo que a justifique, que a cumpra. O espaço urbano como forma deve aceitar e justificar as partes que o compõe. Assim, forma urbana é um processo de diversas dimensões e abrangências. O tempo e as suas sucessivas interpretações são factores de mutação da forma da cidade. Cabe à cidade resistir, absorver ou sucumbir a essas mutações constantes.


Haverá esquemas que garantam uma estrutura urbana que concilie diversidade com continuidade?

 

Ana Ruepp

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Michel de Montaigne (capa do livro de Stefan Zweig)

 


     Minha Princesa de mim:
 

   Michel de Montaigne começa assim o capítulo II do livro III ( Du Repentir) dos seus Essais: Outros formam o homem, eu recito-o e represento um em particular, bem mal formado; o qual, se tivesse de o moldar de novo, eu faria mesmo bem diferente do que é; mas já está feito. Ora os traços da minha pintura não se extraviam, ainda que se mudem e diversifiquem. O mundo não passa de um baloiço perene. Nele, todas as coisas baloiçam sem cessar, a terra, os rochedos do Cáucaso, as pirâmides do Egipto. De balanço público e do delas. Mesmo a constância mais não é do que um balouçar mais lânguido. Não consigo segurar o meu objeto: lá vai ele, turvo e vacilante, de natural embriaguez. Apanho-o nesse momento, tal como está, no instante em que trato dele. Não pinto o ser, pinto a passagem; não a passagem de uma a outra idade ou, como diz o povo, de sete em sete anos, mas dia a dia, minuto a minuto.  Tenho de ajustar a minha história a cada hora. Poderia entretanto mudar, não só de fortuna, mas também de intenção: é um rol de diversos e mutáveis acidentes, e de imaginações irresolutas, por vezes até contrárias. Ou porque eu seja outro eu-mesmo, ou porque agarre nos assuntos por outras circunstâncias e considerações. Tanto é assim, que bem me contradigo na aventura, mas, como dizia Demades, de modo algum contradigo a verdade. Se a minha alma pudesse ter pé, não me ensaiaria, resolver-me-ia: ela está sempre em aprendizagem, e em prova... Penso, Princesa de mim, que este trecho diz bem o porquê do título da obra: Ensaios. E diz muito sobre o que eu chamaria realismo crítico de Montaigne, em vez de ceticismo ou relativismo. Já te disse como pensossinto que interrogar não é afirmar a dúvida como princípio, meio e fim, condição fatal do conhecimento; antes, pelo contrário, é acreditar e querer que a visão seja possível. Mas só a cegueira não vê que todo o mundo é composto de mudança, que tudo é relativo, posto que nada vemos nem conhecemos sem ser em relação. As nossas próprias categorias mentais básicas - o tempo e o espaço - são relatividade. Eis a nossa humana condição: só conhecemos de perspetiva, jamais possuímos o fruto da árvore da sabedoria. A verdade ontológica só a Deus pertence, e de Deus-mesmo nada sabemos ainda; por isso tantas vezes me repito o dito de São Paulo aos hebreus: a fé é a substância das coisas que devemos esperar. E gosto de pensarsentir que a fé é a íntima revelação da esperança, que se transmite pelo amor, nossa única certeza aquém e além da morte. Com a idade - quero dizer com o envelhecimento de um corpo que vai perdendo capacidades, alertas e amenidades - faço por me entender melhor, isto é, tenho menos respostas e mais interrogações, quiçá pela imensa paz de pensarsentir este poder de perguntar sem inúteis insistências, pois me vou aproximando da luz que fui perseguindo. Da surpresa final. E surpresa será, finalmente, mais para mim, talvez, do que para tantos outros que vejo, à minha volta, em luta - ora dolorosa, ora inconsciente - com o esquecimento ou a estranheza de tudo. Esses já terão passado pelo purgatório, ou vão atravessando essa inquietação do incógnito, onde já nem dogmas são referências, porque tudo parece mentira.

 

   É certo que, com a velhice, vamos mirrando, ficando mais pequeninos. Assim como o filho pródigo, minha Princesa de mim, quando regressa à casa de seu pai. Acabamos, afinal, por ser mais humildes. Já não agitamos, com soberba, verdades nossas, tampouco insistimos em impô-las. Percebemos que só o quanto tanto que soubemos amar terá dado algum sentido às nossas vidas, e que Deus exalta os humildes só por darem sem reclamar. O reconhecimento de mim, pensossinto, Princesa, só poderá ser isso mesmo, essa descoberta de uma qualquer misteriosa capacidade de dádiva do que sou, tenho e posso, sem pretensões. Aceitar-me é a forma inicial da humildade. Gosto de reler este passo de Montaigne, que traduzo: Quanto a mim, posso desejar, em geral, ser outro; posso condenar e desgostar-me da minha forma universal, e suplicar a Deus que me reforme inteiramente e dê desculpa à minha natural fraqueza. Mas a tanto não posso chamar arrependimento, nem sequer, parece-me, desgosto por não ser nem Anjo nem Catão. Os meus atos são regulados e conformes ao que sou, e à minha condição. Não consigo melhor; e o arrependimento não toca propriamente as coisas que não dependem da nossa fortaleza: talvez o lamento o faça. Imagino infinitas naturezas mais altas e disciplinadas do que a minha; mas todavia não corrijo as minhas faculdades, posto que, nem o meu braço, nem o meu espírito, se tornarão mais vigorosos só por eu conceber outro que o seja. Se imaginá-lo, e desejar um comportamento mais nobre do que o nosso, produzisse o arrependimento do nosso agir, teríamos de nos arrepender das nossas mais inocentes ações... Chegado à idade da pequenez, que, no final da vida, é o momento da última conversão - esse abandono do filho pródigo ao Pai - lembro-me de que a Boa Nova nos fala de misericórdia e não de sacrifício, e de que tudo o que Jesus disse à mulher adúltera foi, tão só: também eu não te condeno, vai e não voltes a pecar...
 

     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 Convento de Cristo

 

VIII - O DIREITO DA LÍNGUA E DO PATRIMÓNIO CULTURAL



1. A língua é um bem cultural imaterial, parte integrante do direito cultural e, dentro deste, do direito do património cultural, “(…) que tem por missão a preservação e valorização do património cultural enquanto elemento vivificador da nossa identidade cultural comum, enquanto herança cultural que nos foi deixada pelas anteriores gerações para dela usufruirmos e, enriquecendo-a, a transmitirmos às gerações vindouras. (…), podemos dizer que o direito do património cultural é aquele setor do direito cultural que está encarregado de preservar e valorizar a matriz cultural ou, (…), o ADN cultural que faz de Portugal uma comunidade constituída por sucessivas gerações unidas por um percurso civilizacional singular” (José Casalta Nabais, Introdução ao Direito do Património Cultural, Almedina, março de 2004, pp. 60/1).


A defesa do património cultural é um direito e um dever dos cidadãos portugueses, como decorre do artigo 78.º, n.º 1, da Constituição da República Portuguesa (CRP), onde se lê: “Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural”, utilizando o direito de ação popular, se necessário (art.º 52.º, n.º 3, CRP). Ao nível dos “Princípios Fundamentais” da Constituição, o art.º 9.º, alínea e), prescreve que são tarefas fundamentais do Estado: “Proteger e valorizar o património cultural do povo português (…)”. A alínea f), acrescenta: “Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa”.


Sobressai, por um lado, o dever estatal de defesa ativa da proteção e valorização do património cultural e, por outro, a ligação da cultura ao ensino, sem esquecer a necessidade de proteger e difundir a língua portuguesa, na sua dimensão interna e externa. Em conjunção com os artigos 7.º e 8.º da CRP, no âmbito de uma cultura amiga da lusofonia e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP; cf. art.º 7.º, n.º 4), da Europa (cf. art.º 7.º, n.º 5 e 8.º, n.º 5), de todos os povos (cf. art.º 7.º, n.º 1) e do direito internacional (cf. art.º 8.º). Sendo a cultura portuguesa parte integrante da cultura europeia e mundial, não pode ser isolacionista e estritamente nacionalista, xenófoba ou racista, o que seria inconstitucional em face das citadas normas, entre outras. O mesmo em relação ao nosso idioma, um dos símbolos nacionais previstos no art.º 11.º da nossa lei fundamental (além da bandeira e hino nacional).

 

 

2. Embora do exposto se conclua ser a língua, em geral, e a portuguesa, em particular,  elemento constitutivo e poderoso da cultura e património cultural, bem como do direito cultural e do direito do património cultural, língua portuguesa e cultura lusa não se confundem, desde logo por aquela servir outras culturas além da portuguesa, o que vem reforçar a necessidade da autonomização do direito da língua, incluindo o do nosso, e não apenas nosso, idioma.
Para a desnecessidade da não autonomização do direito da língua, pode-se argumentar, por exemplo, no nosso direito interno, com a emancipação do já existente direito do património cultural, de que o fator língua é parte constitutiva, dado que na Lei n.º 107/2001, de 21/9, Lei de Proteção e Valorização Cultural (LPVPC), a língua portuguesa é tida como um bem culturalmente relevante, “(…) enquanto fundamento da soberania nacional (…) um elemento essencial do património cultural português” (art.º 2.º, n.ºs 1, 2 e 3). Por seu lado, o art.º 2.º, n.º 7, prevê: “O ensino, a valorização e a defesa da língua portuguesa e das suas variedades regionais no território nacional, bem como a sua difusão internacional, constituem objeto de legislação e políticas próprias”. Em nossa opinião, a LPVPC não inviabiliza a autonomia do direito da língua como disciplina jurídica. Por um lado, por a realidade língua que tal lei prevê não ser objeto, para efeitos dessa mesma lei, de proteção e valorização no seu todo, como decorre da exceção prevista pelo art.º 2.º, n.º 7. Por outro, sendo a língua um elemento cultural significativo, tem cada vez mais necessidade de se afirmar como um bem jurídico com caraterísticas que a particularizam, autonomizando-se crescentemente de outras disciplinas ou ramos jurídicos em que tradicionalmente se insere, total ou parcialmente, a que não é alheia a natureza da globalização, onde a língua é imprescindível na sua interação acelerada e velocista, nos fluxos imateriais e imaterialidade que ela própria transporta.


Sendo o português património comum de todos os seus falantes, natural e lógico que todo o mundo lusófono deva colaborar, nomeadamente o seu núcleo central, constituído pelos Estados-membros da CPLP. Além de que, se o art.º 7.º, n.º 4, da CRP prevê que “Portugal mantém laços privilegiados de amizade e cooperação com os países de língua portuguesa”, o mesmo prevendo, por exemplo, os artigos 11.º, n.º 6, 12.º, n.º 3 e 8.º, n.º 3 das Constituições de Cabo-Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, respetivamente, por que não beneficiar da vantagem assumida desses “laços privilegiados” decorrentes de uma língua comum? Independentemente dos consensos possíveis, deve o diálogo ser sempre promovido multilateralmente, partindo do conceito de que “a língua é nossa, para o conceito de que também é nossa”, numa adaptação das sugestivas palavras de Adriano Moreira.  

 

Joaquim Miguel De Morgado Patrício
06 de junho de 2016

 

JUAN MANUEL ROCA


MANO


Una mano traza la palabra pájaro, la otra escribe su jaula.
[“Parábola de las manos”, en Cantar de lejanía.]

 

Quando em Barcelona vi vários jovens com livros de Roca na mão, pensei na minha fidelidade a este poeta que também eu considero o mais importante da literatura colombiana. Agradece-se sempre que Nuno Júdice e Roca ofereçam uma tarde de leitura de poesia. Como diz o Embaixador da Colômbia em Portugal, Germán Barragán «Portugal é a literatura, e o seu idioma é talvez a língua da Terra onde melhor soa a lírica da poesia. Portugal (…) e nas ruas de Lisboa, a poesia está presente em cada antiga livraria (…) na roupa estendida ao colorido do sol das janelas (…) e o fantasma de Pessoa, respira-se na sua perfeita morada para existir». Congratula-se Germán Barragán que Roca tenha chegado ao português pela tradução de Nuno Júdice para quem Roca se não parece com ninguém. É talvez o poeta que não reflectindo nada se parece com o universo. E assim o senti e sinto.

 

Juan Manuel Roca vive em Bogotá onde o procurei. Sentei-me por lá em muretes e jardins a reler “Bíblia dos Pobres”, livro de 2009. Muitas vezes foram, as que equacionei a tradução da poesia, ainda que pela proximidade de visões e pela maturidade do conhecer colombiano, Júdice tenha sido a relação mais perfeita na tradução de Roca pois bem sabe o quanto a poesia é pergunta e o poeta seu tradutor.

 

Sempre me senti enfeitiçada pela poesia de Roca. A sua insubmissão e o seu rigor com os prismas de cristais das palavras utilizadas na literatura, sempre me lembraram que Sá de Miranda, Gil Vicente, entre outros, escreveram em espanhol com a mesma teia de seda fina, como que a prever que, a relação entre a Colômbia e a nossa língua, não nos chegaria pelos poetas brasileiros mas sim através dos portugueses. E tudo isto era um espelho para mim que me fazia sentir muito honrada por ter lido Memoria del agua (1973) que me chegara através do Padre Jesuíno da Capela do Rato.

 

“A poesia é a saúde da linguagem” como disse Roca quando, juntamente com Nuno Júdice estiveram juntos no Hay Festival, de Cartagena das Índias, e aí conviveram com o Jornal Expresso, cuja entrevista agitou.

 

E como não sugerir estas contidas e totais palavras de Juan Manuel Roca?

 

Con coronas de nieve bajo el sol cruzan los reyes.

 "País Secreto", Bogotá, 1987.

 

Ou

 

ATEOS
Hemos llegado al extremo de querer erigir la iglesia de los que no tenemos religión.
(Diario de la noche, cuaderno inédito.)

 

E sempre

DESAMOR
Dice el proverbio chino que no es posible atrapar un gato negro en un cuarto oscuro, sobre todo si el gato no está en él. Por eso mismo, quizá, es que no logro hallarte en mi corazón.
(
Diario de la noche, cuaderno inédito.)

 

Ainda este poema
 

PARÁBOLA DA SOLIDÃO

Quando se desdobrava a solidão,
Quando descia a sua máscara de proa,
Convidava-a para um passeio na praia.
Muitas vezes
Levei a solidão aos bailes
Ou ao grande concílio de solidões
Que se agride nos estádios.
Para não a ver maltratada
Uma vez levei-a ao alfaiate
No meio de fatos vazios.
O costureiro
Com a boca cheia de alfinetes
Como um boneco vudu,
Desdobrou na sua mesa um pano negro.
Tirou as medidas à arisca solidão
E traçou a giz o seu molde.
Tinha a mesma medida da minha sombra.
 

Já que a lucidez de Roca é também assim:
 

TRUEQUE
Mujer, te ofrezco mi soledad, dame tu compañía.
[Diario de la noche, cuaderno inédito.]
 

Afirmo eu agora e aqui o quanto gostava de ter aberto em dois um qualquer mar e parecer que lá moro desde sempre por ter lido e ler Juan Manuel Roca, e de continuar a escrever os meus poemas numa anarquia de sonhos provocados pelo dia em que visitei a lonjura. Assim mereça deitar pão às pombas na companhia silenciosa deste poeta.

 


Teresa Bracinha Vieira
Junho 2016

ATORES, ENCENADORES (LXXX)

Almada Negreiros

 

ALMADA E O ESPETÁCULO TEATRAL, NO “MANIFESTO ANTI-DANTAS”

Assinala-se este mês o centenário do “Manifesto Anti-Dantas e por Extenso”, texto referencial, não só da obra e da intervenção de Almada Negreiros através da análise polémica e veemente, mas de profunda atualidade, do meio cultural da época – e em tantas coisas, do meio cultural da nossa época: e isto, tanto pela singularidade e qualidade do texto em si mesmo, como das críticas que em grande parte e no global, ainda hoje se revelam atuais.

 

Façamos pois uma breve análise.

Antes de mais, há que referir a simbologia das críticas, a partir da obra, à época em plena criação e expansão, do próprio Júlio Dantas, realçando aliás dois aspetos hoje muito claros. De um lado, a simbologia em si mesma, considerando-se Dantas um símbolo de certa criação literária e artística da época, e daí a abrangência de tantos nomes e tantas formas de arte e literatura.

 

Mas de outro lado, o reconhecimento de que o “Manifesto” em si, notabilíssimo ainda hoje como expressão e rigor da critica, peca em certos aspetos por análises epocais que entretanto ou foram corrigidas por obras posteriores de cada um dos visados, ou revelam um excesso de criticismo: o que, porém, constitui em si mesmo um dos valores perenes do “Manifesto”, mesmo quando não se concorde inteiramente com a analise.

 

Ora bem: um dos aspetos que nos apraz salientar, por que menos lembrado, é a referência ao meio teatral – atores, encenadores – na época em plena atualidade, mas que, precisamente, hoje, é importante recordar. E tenha-se presente que essas referencias nem sempre são expressas, o que mais reforça a abrangência global, digamos assim, do “Manifesto” em si mesmo.

 

E isso é particularmente assinalável no que respeita a atores, pois a sua arte é, por definição e por essência, transitória e como tal tantas vezes esquecida. Por outro lado, as referencias diretas são escassas o eu não impede Almada de condenar, em termos genéricos mas veementes e abrangentes, “os atores de todos os teatros”, nada menos!

 

Sara Afonso Ferreira, que tem dedicado vasto e meritório labor à obra de Almada, procede, na edição critica do “Manifesto Anti Dantas”, a qual integra um CD com leitura e entrevista, pelo próprio Almada gravada em 1965, procede a um levantamento vasto dos atores relacionados com as companhias e espetáculos que direta ou indiretamente são referidos no próprio texto. Por vezes expressamente, outras vezes através dos espetáculos e companhias citados.    

 

Assim, temos “os Rosas” e “os Brazão” que correspondem a João Rosa, Augusto Rosa e Eduardo Brazão, em “A Ceia dos Cardeais” do próprio Dantas. E temos Maria Matos, Luísa Lopes, Celeste Leitão, a jovem Hermínia Silva, Francisco Mendonça de Carvalho e Mário Duarte na estreia de “Soror Mariana”, também de Júlio Dantas, no Teatro Ginásio em 21 de Outubro de 1915.

 

E surgem mais evocações, no livro de Sara Afonso Ferreira, de elencos de espetáculos citados no “Manifesto Anti-Dantas”, do próprio Dantas e de outros autores. E são sempre marcadas pela crítica irónica ou violenta de Almada.

 

Por exemplo, o ator Mário Duarte, na estreia da “Soror Mariana” é referido como “o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa”, alusão a um dentista homónimo da época.

 

E há mais citações de peças, atores e atrizes que marcaram a época, e são citados em espetáculos de autores diversos: Maria Matos, que na “Soror Mariana” interpreta a Abadessa com “a voz tão fresca e maviosa da tia Felicidade da Vizinha do Lado”, peça de André Brun; ou Mendonça de Carvalho, evocado num papel anterior, em “A Menina do Chocolate” de Paul Gavault; ou estreia de “Aljubarrota” de Rui Chanca, com Eduardo Brazão e Augusto Rosa, e “que deixou de ser a derrota dos castelhanos para ser a derrota do Chianca”; a atriz Palmira Torres, que em 1916 estreou uma comédia, “Como se Vingam Mulheres”, de Sousa Costa, dedicada a Julio Dantas …

E tantos mais!

(cfr. “Manifesto Anti-Dantas e por Extenso por José de Almada Negreiros Poeta d´Orpheu, Futurista e Tudo” edição de Sara Afonso Ferreira, Assírio e Alvim ed.)

DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

 

 

God Save The Queen, 1926-2016

 

Good heavens! Temos a Rainha! Dias encantadores nas comemorações do aniversário oficial de Elizabeth II, abençoados quer com a chuva do English Summer e a Trooping the Colour Parade, no recinto dos Horse Guards, aqui em Whitehall, quer ainda com momentânea pausa na arrebatada campanha do euroreferendo.

 

 O Happy 90th Official Birthday Your Majesty soa em múltiplos sotaques, pois as 3-days celebrations expandem-se por todo o United Kingdom e também pelos 53 países da Commonwealth. Momento alto é o Patrons Lunch, “the first big ever street party,” que reúne 10,000 pessoas no Mall e é razão de adorável curiosidade até nas janelas do Buckingham Palace. Também o Prince Philip lá completa uns rijos 95 anos. — Chérie. Jeunneuse pauresse, viellise pouilleuse. O contraste é imenso com os infortúnios do resto do mundo. — Hmm! The best things in life are free. O Euro 2016 de futebol vira batalha campal em Paris. E o horror volta a atacar em massacre nos USA. Notem as estatísticas: 50 mortos e 52 feridos em Orlando, somam a 5,963 pessoas assassinadas no país desde o início do ano, no 998.º mass shooting em 912 dias. O caso incendeia a White House Race, sob retórica explosiva de Mr DJ Trump, quando os democratas escolhem primeirísima mulher como candidata e Mrs  Hillary Rodham Clinton tem sérias possibilidades de ser the next President e the first female leader of the Free World

 

 

 

A beautiful English Summer at Central London. Marca até presença o fator que dá razão de ser ao duplo aniversário de Her Majesty: The British rain over us. Nascida a 21 April 1926, desde a coroação aos 25 que tem dia oficial de anos agendado para a Saturday in June. Desta feita recai a 11 June. A flutuante data deriva de as festas do nascimento de monarca implicarem uma parada militar e a coroa querer as hostes a marchar sob o sol do veraneio. O King Edward VII, bon vivant, nasce a 9 November e baila o official birthday entre May ou June nos dias de trono. A tradição remonta a George II e a crível intempérie na Birthday Parade de 1748. Ora, o céu sorri durante magnífico Trooping the Colour no quartel que outrora foi do Duke of Wellington (das guerras peninsulares) e com uma lovely Granny a passar revista a aprumados regimentos em carruagem vintage. Tudo cedo muda. Como anota o Duke of Cambridge, porém, “the Great British public doesn't let a little rain spoil a good day out.” Enjoying the weather, pois, eis longa procissão de cerimónias abertas em St Paul's Cathedral, com festas de rua pelo reino e pubs abertos fora de horas. A rainy party atmosphere envolve depois o nóvel Patron's Lunch, em plena alameda do Mall, com mesas de piquenique reunindo membros de 600 charities e toda a Royal Family em vivo exercício da art of small talk. Os sorrisos dizem da emoção geral. Em inesperado discurso final, “of gratitude,” The Queen tem o remate de ouro: ― “How I will feel if people are still singing “Happy Birthday” to me in December, remains to be seen!”

 

A constância real é epecialmente visível na conjuntura referendária. Os eventos da campanha sucedem-se a ritmo vertiginoso. Assim o determinam… The Physics of British Political Life. Em acelerada contagem decrescente e porque “when it rains it pours,” o Boris Factor marca a metereologia eleitoral. O RH Boris ‘Out’ Johnson participa no primeiro, televisivo e verdadeiro debate digno do termo, frente-frente, com alinhamento contrastado de argumentos e de visões. E não há volta a contrariar na reação: os Leavers tendem a maré cheia. Ora, se acaso os Brexitters obtiverem êxito na consulta do dia 23 sobre o In/Out do UK na European Union, decerto verei doravante os ilhéus como rebeldes gauleses em aldeia inteiramente rodeada por legiões romanas: The Few and, The Brave. Recordareis que as personagens de Hergé só temiam que o céu lhe caísse em cima! Pois bem, os weather man persistem em dramatizar o mágico cenário do medo maior. Ilustração? RHs Tony Blair e John Major unem as forças centristas para conjeturar, em Northern Ireland, que eventual Brexodus trará a quebra do United Kingdom e ainda do processo de paz irlandês! A desunião nacional, quiçá com terrorismo republicano, portanto, além dos riscos de World War 3 e recessão global, das retaliações europeias e isolamento atlântico, da subida das hipotecas e queda dos salários... Mais, e pior: nos recentes avisos de Barmagedeon, adverte o Prime Minister David Cameron que também as pensões e reformas cairão, o preço dos passes nos transportes subirá e até as free tv licences se esfumarão se os Brits instruirem HM Government para a porta de saída.

 

So: Darling you got to let me know / Should I Stay Or Should I Go? Cantam os Clash e equacionam os jornais do reino. Se The Guardian apoia a ala dos Bremainers e a BBC vota «nim», o mais popular tablóide cá do sítio faz capa com o título Be Leave in Britain embrulhado até nas tricores da Union Jack. The Sun traça a cruzinha do voto e editorializa na primeira página: “We must set ourselves free from dictatorial Brussels.” Ecoa teses de a EU massificar a emigração e ferir empregos, habitação e salários. A manchete é até um Ukip motto: “Believe in Britain. Together we can do great things.” O sinal pesa. O diário de Mr Rupert Murdock tem historial de escolher vencedores improváveis, da Tory Lady Thatcher ao Labour PM Blair. É o que é. A Brexit lidera o jogo, nalguns casos com 7% de avanço, mas a média dos 12% indecisos nas sondagens mantém o too close to call. Donde, no mais do enigmático voto de 23rd June: Only 9 days to go…

 

Com o suspense ao rubro e o desassossego a espiralar nas chancelarias do Atlantic aos Urals, tempo já para devido God save The Queen a par de delicioso apontamento de migração natural. O voo da gaivina é escoltado por cientistas da Newcastle University. Começa nas Fame Islands no último July e segue rota pelas costas de Northumberland até o Antarctica’s Weddell Sea, para regressar à ilha com os ventos quentes. No total são 59,650 milhas percorridas pelo little tern, de penugem brancocinza e bico vermelho, o equivalente a dupla circunferência planetária. Em semana de abertura da Royal Ascot Horse Race, há espécies que só podem mesmo suscitar a humana admiração. — Well! The order of things weights, but also commit to memory Master Will in “The Tragedy of Hamlet, Prince of Denmark:” We know what we are, but know not what we may be.

 

St James, 14th June
Very sincerely yours,
V.

  

A VIDA DOS LIVROS

 

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De 13 a 19 de junho de 2016

 

O último número de «Heritage in Action», órgão de «Europa Nostra», assinala a realização do Congresso Europeu do Património, e os quarenta anos da Hispania Nostra, instituição irmã do Centro Nacional de Cultura na defesa e salvaguarda do património cultural, material e imaterial.

Heritage in Action

 

 

LEMBRAR A BATALHA DE LEPANTO

 

Quando entramos no Palácio dos Marqueses de Santa Cruz, na Calle de San Bernardino, em Madrid, próximo da Calle de la Princesa, deparamo-nos de um lado e de outro da escadaria principal com as imponentes lanternas decoradas com golfinhos tomadas à Armada turca na Batalha de Lepanto (1571) pelo Capitão das Galeras de Espanha, D. Álvaro Bazán y Guzmán, primeiro Marquês de Santa Cruz. Álvaro, o atual Marquês, velho amigo de combates pelo Património Cultural na Europa Nostra, com a hospitalidade de diplomata irrepreensível, faz questão de explicar com pormenor cada uma das preciosidades que aquela fantástica casa alberga. É um edifício típico do século XVIII, com fachada neoclássica, que corresponde à reunião de três solares e se tornou morada da família no último quartel do século XIX. Mais do que das coisas extraordinárias, a alma de uma casa alimenta-se sobretudo de memórias que várias gerações foram transmitindo. As dedicatórias dos Reis de Espanha à Marquesa D. Casilda, mãe do amigo que nos acolhe, falecida há poucos anos, são prova de admiração, afeto e de reconhecimento de um trabalho intenso e persistente na defesa de um património que ilustra a História de quase cinco séculos. Se a vitória de D. João de Áustria no Mediterrâneo é a referência maior e primeira, a verdade é que há muitos outros acontecimentos relevantes e que merecem atenção. Em Lepanto os portugueses estiveram ao lado dos vencedores. Mas a vitória não enfraqueceu, por diversas circunstâncias políticas e arranjos imediatos, o império turco – ao contrário do que esperariam os estrategas envolvidos. Foi, aliás, essa vitória que levou o nosso rei D. Sebastião a encontrar motivos fortes para aventurar-se, do modo imprudente como o fez, em Marrocos, numa intervenção que terminaria tragicamente em Alcácer Quibir. Com cuidado e a simpatia de uma cumplicidade sincera e antiga, o meu Amigo Álvaro recorda a vitória importante de seu antepassado nos mares dos Açores, à frente da Armada do nosso Filipe I, contra D. António, Prior do Crato, o derradeiro resistente na crise dinástica. Mas falamos ainda de como os Bazán conservam as chaves de Tunis, desde o tempo do pai do primeiro Marquês, aquando da conquista da cidade pelas tropas de Carlos V, em 1535. E não podemos deixar de referir o funesto acontecimento que vitimou ambos os povos peninsulares, aquando da «Invencível Armada».

 

 

AS CASAS TÊM ALMA

 

Entrando nas salas do Palácio, sentimos uma residência vivida, onde coexistem quadros e objetos históricos e arte contemporânea. Goya está bem presente nas paredes de San Bernardino – desde o retrato do segundo Duque de San Carlos, ministro de Estado de Fernando VII, a quem acompanhou no exílio, até à invocação de S. Francisco de Borja (o fidelíssimo servidor da Imperatriz Isabel de Portugal, de quem Sophia disse - «Nunca mais / A tua face será pura limpa e viva / Nem o teu andar como onda fugitiva / Se poderá nos passos do tempo tecer»), sem esquecer os ambientes silvestres de um «Baile no Campo» e de uma «Merenda». Em frente de um célebre retrato da Rainha Vitória Eugénia, com manto de arminho (1908), de Joaquin Sorolla, percebemos a força singular do grande pintor. Está aqui uma das obras-primas de um artista que os historiadores de arte continuam a considerar um exemplo referencial do naturalismo. Cada quadro de Brueghel ou de Van Dyck, de Lucas Jordan, de Carreño de Miranda ou de Madrazo, cada peça de porcelana, cada tapeçaria, cada medalhão tem uma história - que é apenas a ponta de um iceberg num acervo documental riquíssimo, que D. Casilda e seus filhos, a começar no meu amigo Álvaro Santa Cruz, sempre fizeram questão de preservar e de pôr ao serviço dos investigadores e ao acesso do público. Basta apenas recordar que, além da ação do velho Almirante, a família obteve o privilégio do exclusivo do serviço de correio com as Américas… Afinal, o património cultural não é algo de distante e inacessível, faz parte da vida.

 

 

DEFESA DO PATRIMÓNIO CULTURAL

 

A minha vinda a Madrid teve a ver com a realização do Congresso Europeu do Património Cultural, promovido pela Europa Nostra, aproveitando a celebração dos quarenta anos da «Hispania Nostra». Álvaro Santa Cruz tem sido um exemplo de persistência e de uma rara coerência no tocante à defesa do património histórico, não encarado como realidade estática e retrospetiva, mas como fator dinâmico – na linha do que hoje se encontra consagrado na Convenção de Faro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (27.10.2005). Foi, por isso, justíssima a homenagem que foi prestada no Teatro da Zarzuela, onde lhe foi entregue a medalha de ouro da Europa Nostra por Plácido Domingo, presidente da instituição. Aliás, nessa ocasião, foram entregues os prémios europeus a dois projetos portugueses, que se destacaram pela grande qualidade, num certame em que houve uma afluência excecional de concorrentes de excecional qualidade. A Catedral e o Museu Diocesano de Santarém tiveram obras de conservação e restauro na fachada e interior, envolvendo pinturas, esculturas, objetos de culto e a consolidação arquitetónica – o que foi realizado com grande qualidade, devendo ser exemplo para situações semelhantes, designadamente para valorização da importante Rota das Catedrais. Deve, aliás, referir-se a obra sobre as «Catedrais Portuguesas», de grande qualidade, há pouco editada pelos Correios de Portugal. Foi ainda reconhecida a grande importância do projeto educativo sobre Desenvolvimento Sustentável no Planalto de Mourela, no Parque Nacional Peneda-Gerês. Para o júri: «este projeto é uma maravilhosa combinação de preservação do património material e imaterial, no âmbito da proteção do meio ambiente…». Estes dois prémios europeus para Portugal são motivo de regozijo, mas também de responsabilidade. E não poderemos esquecer ainda que a Europa Nostra está envolvida diretamente no incentivo a dois projetos de grande importância entre nós, no Convento de Jesus de Setúbal e nos Carrilhões do Convento de Mafra – tendo ainda recomendada a urgente recuperação do Palácio Valflores em Loures… O património cultural obriga a uma conceção que ligue a sua defesa e salvaguarda ao desenvolvimento humano. Cultura e economia ligam-se, assim, intimamente - percebendo-se que só a inovação no campo das ideias enriquece um entendimento dinâmico da criação de riqueza, não confundível com o curto prazo ou o imediatismo, com a indiferença e consumismo. Se a recente crise financeira deixou uma lição clara - essa foi a da necessidade de não confundir a ilusão sobre a riqueza com a exigência de ligar a capacidade de criação à satisfação das necessidades comuns. Como disse Octávio Paz: «hoje a cultura e as artes estão ameaçadas não por uma doutrina ou uma ideologia, mas por um processo económico fechado, sem rosto, sem alma e sem direção». Eis por que razão os exemplos são essenciais.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

«Stefan Zweig, ou esperer l’Europe à en mourir

 

     Minha Princesa de mim:
 

   Descobri, num livro da coleção Nouveaux Regards (Le Magazine Littéraire) dedicado a Stefan Zweig, trechos de uma conferência que o escritor austríaco proferira em Florença, em 1932, sobre O Pensamento Europeu no seu Desenvolvimento Histórico. Ao que parece, esses textos constam do livrinho que, sob a orientação do seu antigo reitor, Gabriel Fagnière, o Colégio da Europa, em Bruges, editara em 1993, com o título Stefan Zweig, ou espérer l´Europe à en mourir. Achei graça ao facto de, já lá vão quase oitenta e cinco anos, se ter refletido e debatido um tema que insistentemente me persegue, como sabes... Aliás, ele está subjacente a passos da última carta que te enviei. Leio e traduzo Stefan Zweig: A História, esse oceano de acontecimentos aparentemente sem maré, obedece na realidade a uma lei rítmica imutável, a uma espécie de jogo de ondas que divide as suas épocas em fluxos e refluxos, em avanços e recuos; como poderia ser de outro modo se ela é feita pelos homens e as leis psíquicas apenas refletem as do indivíduo? Em cada um de nós existe esta dualidade; o processo a que chamamos vida mais não é, afinal, do que uma tensão de polo a polo. Seja qual for o nome que dermos a essas duas forças opostas, que uma seja a centrífuga e a outra a centrípeta, ou, na linguagem da nova psicologia, que elas sejam a introvertida e a extrovertida, ou, na da moral, a egoísta e a altruísta, sempre e em toda a parte é sob tal forma que se exprime a dupla tendência que está em cada um de nós: por um lado, isolar-me do mundo enquanto eu; pelo outro, ligar o meu eu ao mundo. Nós queremos conservar a nossa individualidade, e mesmo reforça-la, mas somos simultaneamente impelidos a dissolve-la na comunidade. Eis como as nações, esses indivíduos coletivos, estão também sujeitas a essa tendência alternativa, consistindo em ora afirmar a sua personalidade intelectual e moral, ora em procurar comunidades supranacionais mais altas, que as fecundarão, mas às quais deverão abandonar uma parte do seu fundo e da sua individualidade. Ao longo da história, estas duas tendências de atração e repulsão, de paz e de guerra, a concêntrica e a expansiva, opõem-se incessantemente. Ora se formam grandes edifícios estatais e religiosos, ora se dissolvem; períodos de hostilidade sucedem a períodos de reconciliação e amizade; mas, no fundo, a humanidade, considerada de um ponto de vista cada vez mais elevado, tende constantemente para uniões cada vez mais altas e fecundas. Em todo este texto vibra uma corda emotiva, a de um homem que, um dia, já não poderá ser austríaco na sua terra, por ser judeu, e, depois, no exílio, quando se naturaliza britânico, também perceberá que facilmente o classificam com desconfiança, por ser austríaco, pertencer à esfera inimiga germânica. Em 1932, parece que adivinha. E agarra-se então a uma certa ideia de pertença, quase poderá dizer, parafraseando Pessoa, que "a minha pátria é a cultura europeia": Quero tentar, deitando um olhar sobre o desenvolvimento intelectual da Europa, dar-vos uma curta história desse eterno desejo de unidade de sentimento, de vontade, de pensamentos e de vida, que em dois mil anos criou o magnífico edifício comum que briosamente chamamos cultura europeia. E vai então buscar à Bíblia o conto que, a seus olhos, melhor diz como, afinal, esse desejo de unidade é um desafio gigantesco: a torre de Babel. Para Zweig, o projeto da sua edificação deve-se ao facto de que homens - ou a humanidade - viam um céu acima deles e, como eram homens, já sentiam o desejo do sobre humano e do inacessível, pelo que pensaram: "Construamos uma cidade e uma torre cujo cimo atinja o céu, a fim de ganharmos nome para a eternidade"...   ... Mas Deus viu do alto dos céus -  assim conta a Bíblia - esse esforço ambicioso, e deu-se conta do crescimento grandioso da obra. Reconheceu o poder do espírito que ele próprio tinha posto nos homens e a força imensa que existe, irresistível, nessa humanidade enquanto ela se mantiver unida. E para que a humanidade não se enchesse de orgulho e o atingisse, a Ele, o Criador na sua solitária altura, decidiu impedir a obra e disse: "Perturbemo-los, para que nenhum compreenda a linguagem do outro..."

 

   O recurso a esta parábola é estimulante de reflexões que farei adiante. Mas, antes disso, Princesa, deixa-me dizer-te que a visão do "desenvolvimento intelectual da Europa", que Zweig nos propõe, traz a marca do seu tempo, da sua classe social, do seu elitismo. Quando, por exemplo, ele escreve, sobre o humanismo renascentista europeu: Na era do humanismo, é completamente indiferente estudar-se em Bolonha, Praga, Oxford ou Paris. Os livros são em latim, os professores falam latim. O mesmo tipo de discurso, de pensamento e de conversa é comum a todos os intelectuais da Europa. Erasmo de Roterdão, Giordano Bruno, Espinoza, Bacon, Leibniz, Descartes, todos se sentem cidadãos da mesma república: a dos sábios. A Europa sente de novo que trabalha para uma obra comum, para um novo futuro da civilização ocidental. É também interessante observar como o gosto clássico, e o sentimento de estar acima do vulgo, o leva, por exemplo, a afirmar, de modo encomiástico e parcial: a verdadeira unidade política e intelectual da Europa, a história universal, só começa com Roma, com o Império romano. Aí, pela primeira vez, surge, de uma cidade, de uma língua, de uma lei, a vontade resoluta de dominar e administrar todos os povos, todas as nações do mundo de então, conforme a um só esquema, genialmente elaborado -  domínio conseguido não só, como até então, pela força das armas, mas baseado num princípio espiritual, domínio não como fim em si, mas como organização inteligente do mundo. Eis como, em toda a parte, se insinua uma qualquer tentação totalitária. Stefan Zweig, judeu e pacifista, fugido ao nazismo, consentia que o seu elitismo sonhasse com uma "organização inteligente do mundo", pelo modelo europeu, ça va sans dire. E, assim, defendia uns Estados Unidos da Europa, na convicção de que uma "União Europeia" seria a pátria da cultura por excelência, a nação superior. Ter-lhe-á escapado o risco da construção de uma superburocracia, controlada por interesses poderosos, ignorante de outras variedades de pessoas e soluções, legislando, regulamentando e governando quase tudo de acordo com regras concebidas por uns poucos... Mas devo ressalvar, com aplauso, que foi ele que disse: Mesmo a mais pura verdade, quando é imposta pela violência, se torna num pecado contra o espírito. O pior é que, pegando no exemplo do Império romano, o domínio do tal "princípio espiritual" se impõe na sequência de uma autoridade assegurada pela força das armas e da ocupação. Sobram casos históricos para o ilustrar e, se hoje tanto se tem falado de choque de civilizações, é porque acreditamos pouco no poder de convicção universal de uma ideia, mas, com pessimismo, vemos que mais facilmente se vai tomando partido por esta ou aquela, pretendendo, aliás, que, sendo superior, a nossa se imponha às outras.

 

   Assim estamos, Princesa, de volta à torre de Babel. Prefiro pensar comigo que o que Deus Nosso Senhor quis castigar não foi a natural aspiração dos homens a chegar até Ele -  Deus não tem medo - mas algo que eu chamaria "o orgulho do princípio de Peter" ou - para não entrarmos por análises da incompetência - a soberba como desafio da sabedoria, e, mais simplesmente, o orgulho de mandar. Na tradição cristã, a narrativa da torre de Babel é, depois da queda e expulsão de Adão e Eva, e da história de Abel e Caim, ou da proliferação do pecado que o dilúvio fustiga universalmente, uma ilustração dos conceitos de transgressão e castigo. Todavia, ela é posterior às outras, que são antediluvianas. Como se quisesse relembrar a permanência teimosa do pecado, mesmo na humanidade nova, que as águas do dilúvio purificaram. Para melhor entender Babel (se assim me posso exprimir), parece-me importante considerar o capítulo 9º do Génese, em que Deus reúne Noé e os seus filhos, para lhes repetir o conselho dado a Adão: Sede fecundos, multiplicai-vos, pululai sobre a terra e dominai-a. E com eles firmará uma aliança, cujo sinal será o arco do próprio Deus, posto nas nuvens. O Criador está acima das nuvens do céu, transcendente, mas presente e atento, amigo da humanidade nova. E esta, em paz com Deus, fala toda a mesma língua. No capítulo 10º, conta-se que Kush, filho de Cham, filho de Noé, gerou Nemrod, que foi o primeiro potentado sobre a terra, sendo a cidade de Babel um dos pilares do seu império. Nemrod foi lendário caçador e guerreiro, conquistador de Babilónia, cidade em cuja arquitetura - recorda, Princesa, os zigurates, torres que subiam alto, ladeadas de rampas de acesso ao templo ou observatório astronómico lá no topo - se inspiraram as representações cristãs de Babel, nome que significa Porta dos Deuses, mas que se pode aproximar do verbo hebraico que diz misturar, perturbar. Creio que Santo Agostinho, na Cidade de Deus, a opõe, cidade da perturbação, a Jerusalém, cidade da paz. [Lembro-me bem do quadro de Pieter Brueghel, o Velho, que hoje está no Kunsthistorisches, em Viena]

 

   O que me seduz, em tanta divagação, é precisamente o mistério permanente dessa alternativa entre a unidade e a diversidade, entre a ditadura e a anarquia, entre a imposição da subserviência e a liberdade da convivência. O problema da concórdia. Será que a solução se encontra no respeito da diferença? Facto é andarmos muito desentendidos, chego a perguntar-me se por Deus assim nos ter feito à nascença, ou por tal e qual nos ter querido pôr mais tarde, como conta a Bíblia. E, pelos vistos, só com alguém a mandar em todos entramos na ordem (na ordem de quem manda e pode, claro), e mesmo para tanto será preciso alguém poder mandar, geralmente depois de andar à pancada aos opositores. Praticamente, enquanto não nos passar o sentimento de superioridade e, sobretudo, de detentores exclusivos ou privilegiados da "verdade", não estaremos aptos a abrir espaços de convivência e concórdia. Curiosamente, o cristianismo alarga à humanidade inteira a boa nova da salvação de todos, pela graça de Deus em Jesus Cristo, chamando-nos ao cumprimento do mandamento novo: amai-vos uns aos outros. E a tradição cristã encontrará no Pentecostes a resposta redentora da maldição de Babel: Todos ficaram então cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito os fazia exprimirem-se...   ... a multidão reuniu-se e ficou admirada: cada um os ouvia falar no seu próprio idioma...   ... ouvimo-los anunciar, na nossa língua, as maravilhas de Deus! Sabemos, Princesa, que nem sempre a Igreja considerou adequadamente (e esta é fórmula eufemística) a diversidade religiosa e cultural como propiciadora de outros modos de escutar a vocação de Quem, esse mistério de sermos, antes e depois de nós. O Papa Francisco, pela naturalidade com que pisa o chão de todos ao encontro deles, traz luz e alegria à esperança de que será possível, num mundo ainda tão cheio de divisões e ameaças, irmos construindo a casa comum, onde a diferença de línguas, não lance a confusão, mas enriqueça a concórdia.

 

   Um estudo recente, feito em França pela Comissão Nacional Consultiva dos Direitos do Homem, mostra que, hoje em dia, 90% dos franceses pensa que todas as raças humanas valem o mesmo, ou que não existem enquanto diferenças. 71% defendem um combate contra o racismo, 68% contra o antissemitismo, 63% contra os preconceitos relativos a muçulmanos. No dia em que te escrevo esta carta, os eleitores londrinos vão depositando nas urnas os seus votos que, provavelmente levarão a Lord Mayor da capital britânica um muçulmano, cidadão do Reino Unido, mas de família oriunda do Paquistão, chamado Sadiq Khan. O pai dele é motorista de autocarro, mas parece que tal não o impedirá de ganhar as eleições ao candidato conservador, eurocético e ecologista, Zac Goldsmith, filho do multimilionário judeu, franco-britânico, Jimmy Goldsmith. Sinais dos tempos... Seja quem for o vencedor, terá de ser aceite por todos, por ser legítimo e legal Lord Mayor de Londres. Seja qual for a sua etnia, religião, origem social ou ideológica, terá simplesmente de exercer o seu mandato de acordo com o que a lei manda e lhe permite. Nenhum londrino terá de o considerar como judeu ou muçulmano, homem de cor ou branco, rico ou remediado, adepto do Arsenal ou do Chelsea, com raízes na imigração recente ou saxão de gema. Ele será, simplesmente, aquele que foi escolhido pela maioria dos oito milhões de londrinos (dos quais, dois milhões são muçulmanos) para seu Lord Mayor. A Europa hodierna, mais circunstanciadamente a União Europeia, vê-se ao espelho e surpreende-se mais como construção comercial, económica e financeira, interveniente e reguladora, do que como projeto humanista de uma sociedade transnacional fraterna e justa. E repara em como assim se vem tornando materialista, com diminutiva consciência moral e pouca respiração mística. Assusta-se com os estranhos povos e culturas que a habitam, pois que, tendo vindo a perder a sua alma, carece de fortaleza de cultura para conviver com a diferença. É sinal dos tempos a atribuição, hoje, 6 de Maio de 2016, do prémio Carlos Magno, ao papa Francisco: abafada em preconceito, egoísmo e falta de visão, a Europa oficial vira-se para um líder que apela à generosidade do reconhecimento da humanidade comum a todos, à fé que não exclui os outros e até abraça a multiculturalidade, e não se furta a acolher os desvalidos. A Europa precisa de abrir janelas, e deixar entrar ar fresco. E todos precisamos da alegria do amor e de com ela celebrarmos a graça da vida em comum.
 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira