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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

   

   

 

   Minha Princesa de mim:

 

   A inesperada carreira da equipa de futebol do País de Gales no campeonato europeu, em tempos de surto de "Brexit", trouxe-me à lembrança um livro notável, publicado em 1998 pela Sutton, intitulado The English Nation - the great myth. É seu autor um galês católico, o doutor Edwin Jones, dedicado à investigação historiográfica, e que trabalhou na Universidade de Cambridge. Lá o fui tirar do sono da minha biblioteca, e vou-me deliciando. Sem cerimónia, logo no prefácio que ele mesmo escreveu para a primeira edição desta obra, chama a nossa atenção para o facto de todos sermos grandemente afetados pela nossa história, que pode ser vista como a única memória de um indivíduo ou como a coletiva memória de uma nação. Eis o que nos dá um sentido de identidade em relação a uma comunidade. E aponta então para a fabricação quinhentista (Thomas Cromwell e Henrique VIII) de uma falsa visão do passado inglês como raiz da singularidade com que o povo inglês se irá identificar. Só muito recentemente nos mostraram em pormenor como uma nova teologia política e nacional, com a obediência ao rei - representando a "palavra de Deus" - no seu centro, foi utilizada com propósitos políticos e, depois, por Thomas Cromwell, para propaganda governamental. De modo semelhante, uma nova visão de todo o passado inglês, baseada nessa mesma teologia política, foi criada como propaganda pelo governo henriquino, a fim de justificar a revolução a que chamamos Reforma.

E é por causa desta deliberada incompreensão da sua história que os ingleses se iriam esquecer de que são europeus [e cita V. Bogdanor em Remembering and Forgeting: "England once lay in the mainstream of European development and after the sixteenth century it became an eccentric tributary"...]. Iriam tornar-se crescentemente nacionalistas e insulares na apresentação, com o peso da aquisição de um grande império ultramarino. Desenvolveram outras qualidades inspiradas pela sua própria visão do passado, incluindo um sentido de "especifidade", auto suficiência, superioridade e separação de todos os outros povos do mundo. Esta falsa memória influenciou a sua psicologia e o seu olhar para o mundo. Isto a longo prazo explica as particulares dificuldades que encontraram, quando a Inglaterra finalmente perdeu o seu império e teve de lutar para encontrar um novo papel no mundo, e quando as forças da mudança política e económica lhe impuseram ser outra vez parte da Europa. Em meados do século XX, poucas vozes apoiaram tal perspetiva, e ainda há muita gente, no fim deste século, que muito dificilmente a aceita.

 

   Escritas em 1998, estas palavras de Edwin Jones ganham hoje mais força e repercussão. A Reforma que origina a Igreja Anglicana não é fundamentalmente religiosa, ainda hoje a doutrina e o culto anglicanos - tal como acontece nas suas descendentes episcopalianas - se aproximam muito dos da Igreja Católica Romana, sobretudo se os compararmos com os de outras Igrejas Reformadas, como a Luterana ou a Calvinista. A Reforma Anglicana tem uma motivação política que foi em busca de uma raiz teológica, para justificar a obediência nacionalista ao rei - logo tornado chefe da Igreja de Inglaterra - acima de qualquer outra.

 

   Outros reinos europeus, continentais, também adotariam, com os seus respetivos soberanos, a Reforma de Lutero ou Calvino, como a Dinamarca, a Suécia, a Holanda, mas manter-se-iam no concerto europeu, no qual, aliás, também ficaram, protestantes ou católicos - de acordo com o princípio ejus regio cujus religio - os vários estados germânicos. Os italianos, o Império Austríaco, como o dos Habsburgos de Espanha, e os reinos de Portugal e de França permaneceram católicos. E foi esta Europa católica que, na tradição da Cristandade de antanho, se opôs à progressão do Império Otomano, finalmente derrotado na batalha de Lepanto. Terá sido o canto do cisne da Europa como Cristandade. Porque mesmo as nações católicas iriam enveredar por uma crescente independência do papado e afirmação do poder régio como diretamente proveniente de Deus. O nacionalismo triunfa.

  

   A insularidade como natureza ou o isolacionismo inglês e, por extensão, britânico afirma-se, pois, apenas no século XVI, pela emancipação henriquina da tutela papal, símbolo da sua secessão da Europa católica. Antes disso - e ainda no século XV - a Inglaterra, não só comungava na cultura europeia e latina, como participava intensamente e intervinha nos movimentos, afrontamentos e conflitos continentais. Aliás, o próprio casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão ("a woman of most gentleness, of most humility, and buxomness" [amabilidade], dizia dela o rei seu marido) é sinal dessa atualidade. Mas dali em diante, ainda que desenvolvendo relações comerciais com o continente, a Inglaterra concentra-se no seu império ultramarino, e os próprios conflitos com outras nações europeias acontecem além-mar. Só já no século XIX, com as guerras napoleónicas e o bloqueio continental, o Reino Unido voltará a entrar na Europa e no jogo político europeu.

 

   Na segunda metade desse século, desenha-se outro mosaico de nações e potências europeias, quer em função da unificação da Alemanha e do Risorgimento italiano, como em virtude da ocupação das terras africanas - que irá ditar os acordos e tratados da Conferência de Berlim - e do enfraquecimento e desmembramento do Império Otomano, que colocará o norte de África e o Médio Oriente sob tutela, sobretudo, da França e do Reino Unido, tal como permitirá a independência da Grécia.

 

   A época vitoriana (a rainha Vitória era de sangue alemão), não só coincidirá com a colocação de príncipes da família Saxe-Coburgo em tronos europeus (Grécia, Bélgica, Bulgária e, por via do casamento de Fernando, primo de Alberto, consorte de Vitória, com a rainha Maria da Glória, em Portugal), como reforçará a ingerência dos britânicos na política europeia, iniciada pelas guerras napoleónicas, ainda que pragmaticamente definindo os seus limites: estar com a Europa, sem ser europeu. É interessante observarmos, Princesa, como se repetiram as origens alemãs da realeza britânica: depois dos Hanover, os Saxe-Coburgo: o serem protestantes ajudava, o serem alemães era um aviso à tentação expansionista da França. Mas a 1ª Grande Guerra levaria os Coburgo de Inglaterra a anglicizarem o nome para Windsor, traduzindo igualmente, à letra, o dos seus próximos Battenberg para Mountbatten.

  

   Tal "naturalização" de nomes e famílias significa também o fim de uma afinidade anglo-alemã, e o princípio de nova aproximação à França, apesar de diferendos e rivalidades, quiçá mais fora do que dentro da Europa. Os impérios germânicos (alemão e austríaco) saem derrotados da guerra, tal como o otomano, que Mustafá Kemal (Ataturk) transformará numa república laica. A Áustria fica diminuta, sem peso estratégico. Só a Alemanha, na sua inteireza, e com o seu ressentimento, se virá a afirmar como ameaça, sobretudo a partir do advento do nacional-socialismo. Contra ela, na Europa e não só, o Reino Unido só pode contar com um aliado natural, porque na linha da frente: a França. Na verdade, os EUA reiteram a sua opção isolacionista. Ou então, se isso for ainda possível, poderá apostar na aproximação pacífica da Alemanha e da França. Será essa a "doutrina" de Churchill, logo em 1930, num conhecido artigo publicado no Saturday Evening Post, a 15 de Fevereiro, em que defende a ideia de uns Estados Unidos da Europa, mas com os ingleses de fora: É uma ideia justa. Todas as iniciativas nesse sentido são boas, podem acalmar ódios do passado e recordações de tiranias. Fomentam trocas de bens e serviços, levam os povos a desistirem de se armarem, o que será bom para eles e para todos... [fica aqui bem clara a preocupação de Churchill: nada tinha a opor, antes pelo contrário, à prosperidade económica da Alemanha, só não a queria armada]... Nós estamos com a Europa, mas não fazemos parte dela. Embora tendo interesses em comum, não queremos ser integrados.

Já no pós 2ª Guerra, entregar-se-á à sua cruzada europeia - assim lhe chama François Bédarida no seu Churchill (Paris, Fayard, 1999) – em que se destacam uma conferência na Universidade de Zurique, a 19 de Setembro de 1946 e, sobretudo, o discurso de 7 de Maio de 1948 no Congresso Europeu da Haia.

 

   Descobri, entre as fotografias muitas que ilustram o Churchill - a Life de Martin Gilbert (na edição de Londres, Random House, 2000), uma comovente: com 73 anos, sentado à tribuna donde falou para a oito centenas de participantes, Winston Churchill enxuga as lágrimas abundantes que lhe provocou o aplauso unânime e caloroso ao seu discurso. Rodeiam-no, batendo palmas, o Dr. Kerstens (Holanda), Paul Ramadier (França), o Dr. Retinger (Secretário Geral do Congresso), e Denis de Rougemont (um dos fundadores do Movimento Europeu).

 

   Já em Zurique Churchill havia proposto uns Estados Unidos da Europa, que, por espantoso que fosse, deveriam começar assim: The first step in the re-creation of the European family must be a partnership between France and Germany, não sendo qualquer renascença europeia possível without a spiritually great France and a spiritually great Germany. Na Haia, reitera o apelo à unidade, mesmo que tal implique renúncias a atributos de soberania nacional e, pensando certamente na potência soviética, também promove a NATO e a OCDE. A referência a essas duas organizações não é despicienda: na verdade, ambas pressupõem parceria com os EUA, quer para a defesa comum (o facto de os americanos possuírem bomba atómica é importante), quer para a recuperação económica da Europa (pensa no plano Marshall). Mas significa algo mais: na altura, senhor ainda de um império ultramarino (que, aliás, Churchill zelosamente amava), o Reino Unido fazia deste a sua prioridade; depois, vinha os EUA, esteio importante do mundo anglófono e da cultura anglo-saxónica; só em terceiro lugar surgia a Europa, parceiro comercial que se poderia formar e se desejava próspero, aliado que se queria forte, pois geograficamente encostado ao bloco do Pacto de Varsóvia.

 

   Tal doutrina será exposta ao Congresso do Partido Conservador, ainda em 1948, por um Churchill que, apesar de tudo, era, ao tempo, além de ferrenho defensor do British Empire (e, consequentemente, seria do Commonwealth), se tornara já também oponente do bloco soviético, fervente pró americano (filho de americana, seria também feito primeiro cidadão honorário dos EUA), e defensor da "sua" união europeia. Esta última opção, todavia, não era popular nos círculos políticos britânicos. Por isso, aliás, se constituiria a EFTA, em Maio de 1960, o grupo ou associação dos outer seven (Áustria, Dinamarca, Noruega, Portugal, Reino Unido, Suécia e Suíça) contraposto à CEE dos inner six (Alemanha Federal, Bélgica, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos). Esta era já uma união aduaneira, enquanto a EFTA era apenas uma zona de livre-câmbio, agremiação mais pragmática e menos vinculativa. Quando, finalmente, e apesar da oposição de De Gaulle, virá a integrar, em 1973, a CEE, fá-lo também por razões pragmáticas: sentia os prejuízos advenientes da perda do império, não podia ficar de fora de um novo bloco económico e financeiro em construção.

 

   Por tudo isso, Princesa de mim, já escrevi que o BREXIT não me surpreende, nem me apavora. Nem estranho o "apoio" que lhe deu Donald Trump. Vejo sobretudo o regresso a uma situação conhecida, sem grandes sustos nem novidades. Mais preocupante, para mim, é verificar o progresso de alguma cegueira para o mundo novo que se desenha, bem como o egoísmo reacionário motivador de várias outras insistências em "exits" que por aí vão surgindo: o receio xenófobo da necessária convivência num mundo em que tudo e todos somos, seremos, cada vez mais ubíquos. Sobre isso, Princesa, temos o dever moral de nos interrogarmos. Tal como, por outro lado, perguntar como reorganizar, democrática e eticamente, uma unidade europeia de nações e regiões, de culturas e povos... Temos de reaprender a olhar para nós e para o mundo, tentar perceber o muito que ideias feitas nos esconde. Quando acima te falo do Henrique VIII ou do Churchill, não procuro identificar causalidades, apenas aponto circunstâncias e exemplos.

 

   Ainda esta manhã me lembrava da nomenclatura das civilizações do Huntington - de que discordo, como já te disse - de como ele separa a cultura ibero-américa da civilização ocidental, esta abrangendo apenas a Europa Ocidental, a América anglófona e a anglófona Oceânia. Isto é: para Samuel Huntington e muitos outros, o mundo anglo-saxónico é outro universo (será quiçá, a "Europa" seu vassalo?). Assim como ao jeito daquela brincadeira entre o Michael Bloomberg e o Boris Johnson a falarem de trocarem entre ambos New York e London... O Michel Rocard, francês e huguenote, lá sabia porque é que apontava brexit aos britânicos: só porque estes vivem noutro mundo, não se acomodam com europas... E tal não é ficção, apenas realidade, sem que mal algum venha por isso ao mundo.

 

   Aliás, todo esse alarido em redor do BREXIT mais parece conversa de comentadores de futebol do que análise serena de uma situação que, afinal, não é muito diferente do que já sabíamos e, até à data, incomodou sobretudo aqueles especuladores financeiros, a quem, erradamente, por aí se chama "investidores"... Há pouco, dei comigo a perguntar se o Tony Blair - que tão obedientemente seguiu George W. Bush no disparate dramático da guerra do Iraque, cujas consequências continuamos a sofrer - terá sentido muito o BREXIT, ou simplesmente achado nova oportunidade de "brilhar", como o Durão Barroso, vazio e vaidoso, a aconselhar outro qualquer Goldman Sachs... Não terei esquecido tão cedo aquelas imagens dos Açores, com os chefes dos governos ibéricos a juntarem-se aos anglo-americanos da guerra no Iraque. Ainda ontem, as associei, instintivamente às imagens chocantes do atentado em Nice.

 

   Afinal, bem vistas as coisas, a Europa sofre mais pelos "políticos" que tem, e por oportunismos, demagogias, ganâncias e preconceitos, do que pela riqueza que possui na diversidade das suas identidades culturais... O projeto europeu foi, e terá de ser, um pacto de convivência na paz, na abertura aos outros. Sejamos pragmáticos e fraternos, deixemo-nos de voluntarismos constitucionalistas "à la Delors" ou rigorismos financeiros "à la Schäuble". Vale bem mais a pena sabermos viver uns com os outros, para o bem maior de todos, do que estafarmo-nos em intermináveis reuniões com o propósito de definir e impor regras que, mais do que governar-nos, nos incomodam, quando também não injustiçam muita gente. Não nos faltam leis nem regulamentos, falta-nos essa ética elementar que se chama amor do próximo. Quiçá seja mais acertado dizer-te o tanto quanto sinto a falta de um espaço espiritual de liberdade, nesta Europa circunscrita por receitas económicas e financeiras, minada por vaidades consumistas e apetites de dinheiro, deformada por desequilíbrios, desigualdades, esquecimentos.

 

   Devo estar a envelhecer. Definitivamente. Mas mentiria se escondesse que acho loucura esse estafado "sonho europeu" (?) de construção de uma nova grande potência. Posso estar gagá, mas não sou, nem quero ser, russo "à la Poutine" ou chinês com pretensões hegemónicas. Quero estar onde se abram portas e janelas de convivência e criatividade.

 

      Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

 

LONDON LETTERS

 

A tale of two conventions, 2016

 

Que escreveria Mr Charles Dickens entre Cleveland e Philadelphia após visionar as convenções partidárias republicana e democrata nas eleições para a US White House? Aquele é o melhor dos candidatos, aquele é o pior dos candidatos, é o discurso da sabedoria, é o discurso da temeridade, é o voto do acreditar, é o voto da incredulidade, é a mensagem da luz, é a mensagem das trevas, é a primavera da esperança, é o inverno do descontentamento, tudo temos diante de nós, nada temos diante de nós, todos vamos diretos para o céu, todos vamos diretos no caminho contrário.

As arenas da aclamação de Mr Donald J Trump e Mrs Hillary R Clinton dizem tanto das dissemelhanças presentes quanto dos futuros imperfeitos. — Chérie! Aux grands maux, les grands remèdes. O novo comissário britânico em Brussels recebe a pasta da segurança em pleno European bloody Summer. Com o Isis a reivindicar ataques em France e Germany, dois jihadistas assassinam um padre católico numa igreja da Normandy. Face à barbárie sacrílega, crentes da cruz e do crescente oram juntos na catedral de Notre Dame (Paris) — Humm! Do not burn the candle at both ends. A IMF Director Christine Lagarde vai a julgamento como negligente ministra das finanças, pelo pagamento de €400m públicos a famoso empresário num diferendo com um banco estatal. Três banqueiros irlandeses são condenados a penas de cadeia por fraude financeira de €7bn. Pope Francis medita no Auschwitz Camp (Poland).

 

Rainy and cloudy summertime at the City. O habitual murmurinho em torno do Thames River sobe de volume no weekend. Não bastara a tradição corbynista dos protestos em Westminster Disctrict como nova modalidade de repouso semanal para as massas em processo apressado de consciencialização classista, eis ruas e pontes fechadas ao trânsito em virtude da invasão de milheirais ciclistas na RideLondon 100. A cor da corrida é escoltada pela tensão dos nativos. Problemático é circular nas 100 milhas condicionadas entre a partida do Queen Elizabeth Olympic Park, em Stratford, as voltas pelo Surrey e a meta em pleno Mall! Uma emoção, todavia, aberta com excêntricos amadores na Saturday’s RideLondon FreeCycle rodando desde a Central Lon de Blackfriars, Trafalgar Square e Chelsea Embankment ao East de Tower Hill ou West Knightsbridge. A quadrar os espíritos, HMaj Government delay o projeto Hinkley Point C. Para aferir do alvo, interesse pátrio e efeitos externos, note-se que a primeira central nuclear do UK em 20 anos vale £18bn a edificar em Somerset e tem financiamento chinês e tecnologia gaulesa. Na valsa política avulta analogamente um aviso à navegação emitido pela House of Lords. Os pares eurófilos querem a Brexit sob escrutínio prévio e prefiguram uma crise constitucional se acaso enveredarem por refrear a vontade popular expressa no referendo de June 23rd. Já a Prime Minister RH Theresa May prossegue impassível nos preparativos de an orderly departure da Union. Recebe no No. 10 o Irish Taoiseach Enda Kenny e visita Rome, Warsaw e Bratislava, avistando-se com os homólogos Mr Matteo Renzi, Mrs Beata Szydło e Mr Robert Fico. O tom tranquilo destes encontros é sintetizado na capital italiana pela Premier: ― “[W]e have talked not just about a successful Brexit but also about how we work together (…) to respond to the complex global challenges we face.” Donde: terrorismo e emigração sobre a mesa. 

 

A suavidade diplomática da senhora contrasta com agendado furor legado pelo seu antecessor. Na hora de dizer adeus a Downing St, RH David Cammeron elabora listagem de honrarias para amigos, aliados e… Remainers. Destinadas a premiar feito ou serviço mor. as reações de insatisfação variam no tom e no grau, não no sentido. Uns recordam ter o autor distinguido o seu cabeleireiro com notável MBE (Member of the British Empire) já em 2014, enquanto outros comparam o gesto atual com o cash for honours’ scandal que prende RH Tony Blair a censura de trocar peerages por apoios que salvam o Labour Party da bancarrota em 2006. Seja como seja, o dignificado rol declara a grandeza pública de privadíssimo thank you a pessoas que o ido PM quer inscritas na restrita elite de cavaleiros e damas radicada na ordem de cavalaria criada pelo King Edward III em 1348 ― em cujo livro fundacional de Bruges surgem os brasões de João I de Portugal e dos Algarves. A seleção de Cam tropeça no eixo gregário das insígnias. Exemplo dos novos virtuosos? Ms Isabel Spearman, conhecida como "Samantha Cameron’s Girl Friday" por organizar as roupas e o calendário social de Mrs Cameron, bem como Mrs Thea Rogers, a special adviser do ex Chancellor George Osborne a quem são creditados moderno penteado e sã dieta do outrora residente no No. 11. O apreço pela domesticidade escolta a estima por quantos ainda andaram com o honorável Dave na desafortunada campanha euroreferendária. Aqui aparecem Mr Ian Taylor e Mr Andrew Cook (que pede excusa), duo com doações milionárias a Tories e ao Stronger In, a par do trio de estrategas do Project Fear — Mr Will Straw, Mr Dan Korski e o mastermind RH G Osborne. Afinal. esta é linhagem de meritocratas que tem por divisa o eduardino Honi soit qui mal y pense.

 


Também o turismo político que regularmente disputa o centro histórico de London traz consigo coisas de pasmar. A última tirada digna de nota sai de protesto contra o racismo e o fascismo, no segmento anti escravatura. Depois da maré contra as estátuas dos arquitetos do império, guilty of colonialism, avança vaga dos justiceiros históricos. O pregão honra o melhor costume de piratas e flibusteiros, porquanto algures coteja com engenhoso mapa do tesouro.

Os ativistas sustentam com estridência que o reino deve triliões de libras a quantas terras demandou e aos descendentes de quantos nos séculos por lá adquire, trafica e escraviza. Uma destas profissionais de cartazes marchados pelas ruas explica caso particular: o justo face ao passado do comércio humano de há 500, 400 ou 300 anos é agora pagar-lhe cheque por slavery post traumatic disorder. Aprecio a inventiva. Cá por casa, sugerem-se as ricas embaixadas em volta para envio de merecidas faturas. As invasões bárbaras são campo fértil. Dos vikings aos romanos e teutónicos passa-se para saxões e a cada investida equivale reparação com vários zeros na coluna do haver. A soma final não terá sequer centúria, latitude ou senso como limite. — Ho-ho! Even Master Will puts the fallen king claiming for peculiar trade with the slave Catesby in Richard The Third: A horse, a horse! My kingdom for a horse! | Withdraw, my lord; I'll help you to a horse. | I have set my life upon a cast, / And I will stand the hazard of the die.

 

St James, 2nd August

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de agosto de 2016.

A melhor tradução em língua portuguesa do «Leviatã» de Thomas Hobbes (INCM, 1995), obra fundamental do pensamento político ocidental, deve-se a João Paulo Monteiro, com o apoio de sua mulher Maria Beatriz Nizza da Silva. Trata-se de um português, que fez o seu magistério no Brasil e que foi um dos grandes pensadores mundiais contemporâneos da Filosofia Política.

 

UM DOS NOSSOS MAIORES
Fomos surpreendidos pelo desaparecimento inesperado de um dos mais prestigiados cidadãos luso-brasileiros na contemporaneidade. E não se pense que se trata de qualquer excesso nosso para com um amigo. O tempo confirmará o que dizemos – uma vez que não é possível estudar David Hume ou Thomas Hobbes em qualquer Universidade do mundo, em especial as mais prestigiadas, sem conhecer e compreender o criterioso contributo de originalidade e rigor deste indiscutível mestre. E o certo é que são raras as referências mundiais por parte dos nossos pensadores – merecendo, por isso, especial invocação um dos nossos maiores. A notícia passou despercebida, mas não pode ser deixada em claro. João Paulo Monteiro foi uma referência cívica e académica da cultura portuguesa atual. Filho de Adolfo Casais Monteiro seguiu seu Pai no caminho do exílio por razões políticas, afirmando desde muito cedo a sua independência de espírito e qualidades excecionais de pensador e filósofo. Não esquecemos o modo principesco como recebia seus amigos em S. Paulo e a simplicidade do seu trato. Era casado com a historiadora Maria Beatriz Nizza da Silva, outra grande amiga, com quem partilhou um trabalho académico excecional, sobretudo considerando que é uma das maiores especialistas da História de Portugal e Brasil. Trata-se de uma dupla singularíssima, onde encontramos uma complementaridade de primeiro plano. É difícil encontrarmos uma convergência tão rica e uma reunião tão evidente de qualidades científicas de exceção. Na Universidade de S. Paulo (USP), onde fez carreira universitária e era Professor Emérito, destacou-se desde cedo como um dos grandes especialistas mundiais do pensamento de David Hume. Em 1967, apresentou a dissertação sobre os «Ensaios Políticos» de David Hume, tendo como orientador o Professor Bento Ferraz Júnior. Em 1973 obteve o grau de Doutor em Filosofia com «Teoria, Retórica, Ideologia: Ensaio sobre a Filosofia Política de David Hume». Em 1975 obteve aprovação para a livre-docência ainda na USP no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, com a tese «Natureza, Conhecimento e Moral na Filosofia de Hume». A sua paixão por Hume deve-se à importância crucial deste no desenvolvimento da filosofia do século XVIII – «só a filosofia de Kant lhe pode ser comparada. E todo o estudante sabe, pelo menos, que o grande filósofo alemão só soube desenvencilhar-se da submissão à metafísica tradicional a partir do momento em que a leitura das obras de Hume o despertou desse “sono dogmático”. Hume tem assim a honrosa responsabilidade de duas grandes filosofias: a sua própria, e essa outra que ajudou a despertar. Para não mencionar a sua persistente influência, sob formas diversas, na filosofia francesa do seu século e parte do seguinte, e na filosofia de língua inglesa até aos nossos dias».

 

FILÓSOFO DE PRIMEIRA ÁGUA
João Paulo era um filósofo criterioso, investigador probo, pedagogo aberto e próximos dos seus alunos, ensaísta de excecional qualidade – nunca tendo deixado o seu empenhamento cívico e político, numa perspetiva sempre independente, próxima da social-democracia moderna, na linha de Norberto Bobbio, centrado na liberdade e na autonomia individuais e na igual consideração e respeito por todos. Tendo apoiado a candidatura de Mário Soares (1986), esteve próximo dos Estados Gerais de António Guterres, tendo sido Presidente do Instituto Camões. Com a natural distância crítica, o filósofo, no sentido mais rigoroso do termo (contra uma certa tradição nacional algo avessa à filosofia), pôde seguir criticamente os passos e a atitude do mestre britânico: «Dos empiristas, Hume conserva especialmente uma atitude metodológica, a recusa de aceitar a validade de qualquer teoria que não se submeta à prova da experiência. Atitude que é hoje praticamente a da totalidade dos homens de ciência e de grande número de filósofos. Mas evitou transformar a experiência num fetiche: a sua linguagem é a de que sabe que recorrer aos factos não garante o saber, que, o conhecimento humano é uma empresa em permanente transformação». Assim se entende que a filosofia de Hume tivesse como principal objetivo o estudo da natureza humana. Se foi qualificada como empirista, o certo é que a sua maior relevância deveu-se à crítica radical do empirismo. Mas não há aqui contradição, já que o fundamental é o sentido crítico, que leva Hume também a ser severo perante o racionalismo de inspiração cartesiana. Foi esse sentido crítico que animou igualmente a atitude do filósofo português – que procurou, com perspetiva aberta, independente e não dogmática, compreender o papel desempenhado por David Hume não só na mudança de paradigma da filosofia ocidental, mas também a necessidade de abrir caminhos novos no mundo das ideias. Aliás, notam-se ainda aproximações de João Paulo Monteiro relativamente à atitude e ao método de Karl Popper, nas conjeturas e refutações e nas consequências na organização da sociedade aberta. Por outro lado, há uma preocupação especial com os fatores de caráter histórico. O fenómeno da moralidade ou do direito não pode ser entendido independentemente da sociedade que se considera. Ao invés da vontade e do contrato social, importaria considerar a história e as raízes das instituições na organização das sociedades humanas. 

Indo até Hobbes, o nosso pensador encontra um fenómeno muito peculiar que corresponde a um «estado de natureza» profundamente agressivo, que exigiria um exercício de poder centralizado que tenta contrariar a lógica do «homo lupus homini». E João Paulo Monteiro salienta: «O espírito do Iluminismo contribuiu para produzir historicamente tempos e situações que, de modo geral, nos apraz acreditar um pouco menos difíceis do que a época de Hobbes, pelo menos no que diz respeito ao ocidente europeu na segunda metade do século XX. Mas os horrores contemporâneos ainda são de molde a permitir-nos compreender a obsessão hobbesiana pela paz e pela ordem, senão a fazer-nos desculpar os seus excessos autoritários. A nossa época permitiu que se encontrassem soluções outras, que da nossa perspetiva aparecem como mais racionais e mais moderadas. Mas mesmo que possivelmente tenhamos razão, contra Hobbes, tal não deve impedir de reconhecer ao grande filósofo a razão que lhe assistia contra a sua própria época». Só o conhecimento rigoroso dos autores permite evitar simplificações. João Paulo Monteiro ensinou-o sempre. A comunidade científica e do conhecimento portuguesa não deixará, por certo, em momento oportuno de homenagear quem foi um dos seus membros mais proeminentes.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

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