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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Philip Guston e o regresso à realidade tangível.

 

'O sentido de que o trabalho dos anos 50 e início dos 60 foi forçado a parecer abstrato constituiu a parte maior do absurdo/cómico da questão. Na altura eu sabia disso mas não podia dizê-lo a ninguém.', Philip Guston, 1979

 

O livro de Manuel Botelho, 'Guston em contexto. Até ao regresso da figura.' (2007) revela o momento em que Philip Guston (1913-1980)  abandona a arte puramente subjetiva e existencialista, que desenvolveu desde o final dos anos quarenta.

 

Os anos sessenta são, para este pintor, anos de confrontação, de renovação e de abertura à vida. As suas pinturas profundamente inseridas no contexto existencialista do expressionismo abstrato (onde se afirmava acima de tudo a subjetividade da criação artística e um entrosamento entre as ações de pensar e fazer), iriam sofrer por estes anos uma grande transformação. 'Guston estava a aproximar-se de uma das fases mais despojadas e radicais da sua pintura.' (Botelho, 2007)

 

Botelho declara que desde sempre, as pinturas de Guston demonstraram ser uma constante luta de um homem consigo próprio. Até ao fim da década de sessenta, a inconstância foi dominante - o mundo da arte mudava de rumo e a vida de Guston ameaçava resvalar para um abismo. Para Guston, parecia-lhe impossível abandonar a abstração. Mas, no início de sessenta já se adivinhavam algumas formas destacadas do fundo das suas pinturas. Já havia indícios de uma aproximação a uma quase figuração.

 

Por essa altura, Andy Warhol e Sol LeWitt faziam já a apologia a uma arte impessoal, mecânica e despojada de interferências subjetivas - começava a generalizar-se a ideia de que a existência de um conceito, no sistema criativo, deveria ser banido para todo o sempre, e que arte deveria poder ser realizada por qualquer pessoa.

 

Na verdade, nestes anos de mudança, Guston gostaria de poder pintar sem nada abdicar, de encontrar uma forma de expressão livre e de evocar o mundo de modo a conseguir aliar pensar e sentir: 'Há tantas coisas no mundo, nas cidades, tanta coisa para ver. Pode a arte ser livre? As dificuldades começam quando compreendemos tudo aquilo que a alma impede a nossa mão de realizar.' (Guston, 1965)

 

E as possibilidades passam, então, a ser infinitas. No início de 60, as cores começaram a desaparecer. Em 1966, Guston expôs no Jewish Museum um conjunto de obras 'intensas e completamente despojadas' resultado de um trabalho com os meios mais simples - porém as referências à impossibilidade da pintura, ao carácter existencial, evasivo e indeterminado da forma ainda estavam bem presentes. Apesar do desfasamento em relação ao mundo exterior, Guston acreditava serem eles a verdadeira fundação do seu processo criativo. (Botelho, 2007)

 

'Na minha forma de trabalhar, pretendo eliminar a distância ou espaço de tempo entre pensar e fazer.' (Guston, 1966)

 

Ao contrário das atitudes que criam a distância entre o eu e a obra, e que cada vez ganhava mais seguidores, Guston acreditava nessa forte significação pessoal como o elemento vital que permite a evolução e fornece novos pontos de partida.

 

Mas havia também uma profunda necessidade de mudança. E foi aliado a uma América dividida, à guerra do Vietname, aos movimentos sociais, às confrontações, ao choque de opiniões, a uma instabilidade emocional e após um período de tempo sem pintar surgiram os primeiros desenhos despojados que mais tarde denominaria de 'pure drawings'.

 

E a pouco e pouco, a figuração do mundo regressou. O vocabulário era muito reduzido e essencial - num primeiro momento desenhava apenas uma ou duas linhas na folha branca, e seguia ainda a sequência das suas últimas pinturas apresentadas no Jewish Museum; mas depois, assumia finalmente o regresso à figuração, através da representação de objetos simples mas reais. Aos desenhos puros, associa cada vez mais o desenho de objetos - livros, sapatos, edifícios, mãos - e sentia um enorme alívio em lidar com coisas tangíveis. 

 

Em 1969, a abstração tinha sido finalmente abandonada e Guston tinha encontrado um novo tipo de pintura. Uma pintura encaixada no mundo real e com preocupações sociais: 'A guerra, aquilo que acontecia na América, a brutalidade do mundo. Que espécie de homem era eu, sentado em casa, a ler revistas, furioso e frustrado com tudo, para logo regressar ao meu estúdio e ajustar um vermelho com um azul? Achei que devia haver algum modo de resolver esse assunto. Sabia que tinha pela frente um caminho. Um caminho tosco e incipiente. Queria ser de novo completo, como quando era criança... Queria encontrar a unidade entre o que pensava e sentia.' (Guston, 1977)

 

Estes desenhos de objetos abriram a Guston a possibilidade a uma pintura de direta alusão à dimensão política e social, ao esbatimento das fronteiras entre o erudito e o comum, e fugir ao simples formalismo e à obsessiva necessidade modernista da constante afirmação do novo.

 

Ana Ruepp 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Acho graça: com a divulgação que fazes de algumas das minhas cartas, muitos amigos me perguntam pela "Princesa de mim", como se eu fosse dono dela. Mais acertariam se discursassem também em sentido inverso, pois que digo "Minha Princesa de mim". Até já me ocorreu responder-lhes que eu talvez seja, simplesmente, "Princesárquico"... Mas já falei de tudo isto, faz anos que expliquei como afinal continuei as cartas do meu antigo homónimo - e predecessor na família - à sua, dele, "Princesa de mim". As tais de que traduzi algumas, a serem brevemente publicadas em livro ou cadernos... Talvez por nada mais, além desta necessidade íntima de me expor à carga do meu passado, quero dizer, de reconhecer em mim o que antes de mim já era, isso que será, ou é, parafraseando Simone Weil, a filósofa, simultaneamente, pesanteur et grâce... Aí, quiçá, possa descobrir esse misterioso elo genético, chamado memória, que é o segredo mais eloquente da condição humana. Mas não quero comover-me, volto a falar-te de outras estranhas saudades.

 

   No número deste mês da Revue des Deux Mondes - de que te falei em carta anterior - surge também um artigo de Sébastien Lapaque, jornalista no Fígaro e no Monde Diplomatique, além de escritor por responsabilidade própria, com o título curioso de La République et le Roi Caché. Aí, retoma o que escreveu Emmanuel Macron, ministro socialista no governo Valls, no semanário le 1, de 8 de julho de 2015. Continuo aqui esse texto de Macron, que, se estiveres lembrada, rezava assim: O Terror cavou um vazio emocional, imaginário, coletivo: o Rei já cá não está! E eis o que então acrescenta: Tentou-se depois reinvestir esse vazio, colocar nele outras figuras: são os momentos napoleónicos e gaulistas, designadamente. No tempo restante, a democracia francesa não enche o espaço. Vemo-lo bem, com a interrogação permanente acerca da figura do presidente, que se faz desde a partida do general de Gaulle. Depois dele, a normalização da figura presidencial reinstalou um assento vazio no coração da vida política. Contudo, o que esperamos do presidente da República é que ele assuma essa função... Para o próprio autor do artigo, Sébastien Lapaque, a França reclama um homem em redor do qual os seus filhos se possam reunir. Nenhum desses super-homens com que muito se sonhou no século XX, mas um homem como os outros, no qual a Idade Média cristã muitas vezes reconheceu Cristo. Um pai, um irmão, um vizinho. "O primeiro que aparecer", explicava maliciosamente Jean Paulhan, que preferia entregar os seus destinos a esse tipo de homem, do que a um hábil arrivista, no zénite do poder após muitas renunciações e manobras. E, penso eu, Princesa, que vale a pena traduzir-te aqui um trecho de Paulhan, tirado de Choix de Lettres, 1937-1945, Traité des Jours Sombres (edição de 1992, Gallimard): Um rei é precisamente um vizinho, não tem de ser especialmente inteligente (e em geral não é), nem especialmente genial ou corajoso, é um homem como vós ou como eu, e admitindo que ele é rei, e amando-o como tal, admitimos que qualquer pessoa pode governar, o que é o sentimento democrático por excelência... [Ocorre-me - cito de memória - um dito de Paulhan, algo assim: "o próprio da evidência é passar despercebida"... Homem curioso, resistente preso pela Gestapo e, mais tarde, acérrimo defensor da Argélia Francesa, fundador da Nouvelle Revue Française, prefaciador de Histoire d´O, e amante da respetiva autora, que escreveu o livro para ele, membro da prestigiada Académie Française, ocupando o assento n.º 6, em que, à morte, lhe sucedeu Ionesco, o que também pode ser visto com alguma benevolente malícia...]

 

   Estas cartas que te escrevo não são discursos, são deambulações... Mas quero voltar ao tema da minha carta anterior, onde relacionava (i)legitimidade do poder político e crise de identidade nacional. Tocando nisso, respigo, do artigo do Lapaque, um texto pertinente do historiador Raoul Girardet (em Mythes et Mythologies politiques, Le Seuil, 1986): Parece que temos o direito de falar em crise de legitimidade quando, às questões levantadas acerca do exercício regular do poder, as respostas deixam de ser evidentes, de se imporem como "pertinentes e peremptórias". É então que o dever de lealdade perde o seu valor de exigência primeira. Que, silenciosa ou violentamente, se desfazem ou se quebram os laços da confiança ou da adesão...  ... O poder, os princípios sobre que assenta, as práticas que põe em funcionamento, os homens que o exercem ou incarnam, são doravante ressentidos como "outros", fazem figura de inimigos ou de estrangeiros... E tal é mesmo a situação de vacuidade que a França teve a originalidade de ter conhecido com especial frequência no decurso dos dois últimos séculos da sua história...

 

   Sabes bem como, no fundo de mim, não passo de um pobre idealista. Só não serei lunático porque, contrariamente a Calígula, nunca exigi a lua a minha mãe. Mas, quase no mesmíssimo sentido em que o Aragon dizia que a mulher era o porvir do homem, também eu pensossinto que certas utopias são, afinal, os não-lugares a que teremos de chegar. Eu talvez seja, minha Princesa de mim, animal de espécie em vias de extinção: um conservador-progressista. Não renego nada do que me fez e faz, antes o interiorizo mais e medito. Sempre na esperança de lhe encontrar o tesouro escondido, latente, como semente coberta de terra, para dar fruto. Procuro responder à lição da parábola dos talentos: o pouco, ou muito, que nos foi dado não é para ser ciosa e teimosamente guardado. É para dar fruto. Acontece-me pensar que, de uma perspetiva individualista e psicológica, uma pessoa totalitária não se define por forte identidade própria, mas pela ânsia de que todos tenham a mesma. De um ponto de vista político, ou do exercício do respetivo poder, tal levará às perseguições consideradas necessárias ao apagão das diferenças intoleradas, ou à propaganda que vise a desejada formatação dos povos. Neste particular, e nos casos europeus, o ocaso dos antigos regimes monárquicos e o vazio deixado pela ausência das figuras tutelares e históricas dos soberanos por direito divino e aclamação popular abriram portas à democracia romântica, que ao passado foi procurar os fundamentos e os moldes das identidades nacionais. Todos sabemos como evoluíram tais nacionalismos, inclusive a afirmação territorial de impérios coloniais, e em ideologias de superioridade de raças, de culturas, ou, simplesmente, na crença de papéis históricos relevantes e de missões civilizacionais. Se recordarmos tudo isso, Princesa de mim, compreenderemos melhor as crises de identidade presentes, com latentes ressentimentos e revanchismos. Não só no mundo islâmico mediterrânico, mas também nas nossas pátrias cristãs. Crises tanto mais difíceis de ultrapassar, e riscos tanto mais ameaçadores da paz, quanto a condição das economias da maioria dessas sociedades não dá sinais de melhoria, com alguma degradação dos benefícios sociais. Num quadro de globalização dos problemas enfrentados, quer por via dos rapidíssimos avanços da possibilidade de comunicação, quer por força dos fluxos migratórios.

 

   Acresce que questões deste teor e ordem de grandeza não são abordáveis apenas por critérios ou teorias políticas e diplomáticas, já que o modo como as diversas populações e grupos sociais as encaram tem sobretudo a ver com o modo como sentem afetados os seus interesses e aspirações, as suas condições de vida. Muito os separa e antagoniza, desperta-lhes receios e desconfianças, medos e ódios. E a situação geral das culturas e convívios - que podia e devia ser pacífica e mutuamente enriquecedora - vai sofrendo, no tempo e espaço das pessoas, constrangimentos propícios a movimentos perturbadores da serenidade necessária à busca de ambientes que permitam que, no reconhecimento autêntico e respeito das identidades próprias e das naturais diferenças, encontrar soluções justas. Nesse sentido, devo estar atento à constante mudança das circunstâncias e à cultura e realidade dos outros, ainda que me reconheça nas palavras de Jean Yves Riou, diretor da CODEX, revista de história, arqueologia, cultura e património, que nos fala de 2000 anos de aventura cristã: Num mundo que hoje se tornou plural, não se trata de erguer frente a frente identidades concorrentes mas, antes, de fazer uma aposta: só as identidades reconciliadas consigo mesmas favorecem o encontro e o diálogo entre as culturas e entre os homens. Há toda uma herança para ser reconquistada. Não para ser levantada e imposta contra ou acima de outras, nem constituída em definição sectária. Mas para que nós mesmos entendamos melhor o caminho que percorremos antes de por cá andarmos, com seus acertos, desvios e sobressaltos, de modo a vislumbrar melhor os passos que devem ser os nossos numa nova circunstância. Escandalizado com o que tem visto em cenas do debate político francês (e não só), Guy Sorman, autor do livro J´aurais voulu être français, escreveu recentemente: A febre identitária que se apodera do debate político é um horror, é a máscara do racismo e da xenofobia. Não existe a identidade no singular. A França e os franceses são complexos e variáveis; a cultura é o que evolui, só os cemitérios são imutáveis... E relembra a denúncia que, em 1927, Julien Benda fazia da adesão de alguns intelectuais a ideologias como o nacionalismo reacionário: Benda escrevia que se reconhece um intelectual por colocar o imperativo moral acima de qualquer ideologia, e não se exprimir a não ser em nome dessa moral, sem espreitar a aprovação, a popularidade, o poder. Pois bem: o imperativo moral é evidente, é reconhecer o direito imprescritível à diferença, seja ela religiosa, cultural, étnica, sexual... O imperativo moral exige acompanhar os humildes, os danados da terra, que mais vezes se chamam Aïcha  ou Saïd do que João Paulo ou Kevin. Dantes, chamavam-se Luigi, Wenceslau ou Raquel. Todos se tornaram bons franceses: mudaram a França, tal como os romanos tinham metamorfoseado os gauleses.


   No fundo, Princesa, o que te quero dizer é como, no meio disto tudo, eu sinto que o eixo do nosso destino deverá mover-se no sentido de podermos ser melhores cristãos e portugueses. Não in illo tempore, mas no tempo que é o nosso.

 

    Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

"Possibilidade expectável"

 

Ao ler um texto recentemente, registei que era citado Paulo Freire:

«Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo» e Steiner sublinha “e pobres dos que se educam entre si sem se melhorarem”.
 

Registe-se que este ano os laureados para o Prémio Nobel da Física foram os que escolheram o tema, a transição da matéria para estados exóticos, ou seja, estados que não seriam expectáveis de encontrar na natureza. Do nada que sei deste mundo da Física, tem sido ele, contudo, sempre uma semente irrequieta que me lança na busca.
 

E então qual é o quarto estado da matéria? Perguntamos:
 

O quarto estado natural da matéria é o plasma (um gás que em vez de um comportamento neutro tem cargas positivas e negativas e propriedades distintas dos outros estados da matéria).

Aprendemos, desde o ensino básico, que a matéria pode aparecer em três estados – gasoso, líquido e sólido – e que estes estados podem mudar de um para o outro consoante as condições do ambiente, como temperatura e pressão. Pensemos no vapor de água, na água líquida ou no gelo, que são todos estados da matéria (água) e que facilmente podemos fazer variar recorrendo apenas a alterações da temperatura. São três estados que podem existir na natureza – pelo menos, na Terra – e em três dimensões.

Mas as descobertas destes cientistas foram muito além disto, entraram no campo das transições da matéria que não acontecem naturalmente na natureza.

Ora para conseguirem chegar a estes resultados, estes laureados recorreram a conceitos de topologia, uma área da Matemática que descreve as propriedades que apenas mudam passo a passo.

Basicamente podemos dizer que a Física é um termo que significa “natureza”, e que é a ciência que estuda as leis que regem os fenomenos naturais e que alguns dos físicos mais conhecidos da História são Galileu Galiei, Isaac Newton e Albert Einstein. Então, como não atentar no primeiro parágrafo:
 

Dizia Paulo Freire: «Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo» e Steiner acrescenta “e pobres dos que se educam entre si sem se melhorarem”. Como se não questiona a ignorância que obsta a qualquer surpresa à nossa felicidade profunda e que é tão distante da transição da matéria para estados exóticos, estados que não seriam expectáveis de encontrar na natureza, tal como o amor na sua capacidade de ser superior ao vulgar.
 

Sabem os sentires que o silêncio é um privilégio da leitura que afugenta o nível de ruído das sociedade de hoje. A eclosão da barbárie expõe a parafernália tecnológica com que os investigadores têm de lutar para que a leitura silenciosa seja uma idade de ouro. Os poetas das palavras-estrelas expõem as auroras boreais nas alexandrias que permitem o trânsito aos pensamentos para estados exóticos, enquanto a Astrofísica também explica o campo gravitacional dos Buracos Negros, sendo que nada sai dessa região, nem a própria luz se consegue evadir. E no entanto os seres continuam a comportar-se de maneira conveniente, diria mesmo que a sua única indiscrição é a da capacidade para se manterem decisivamente iguais, ou nulos na mestria do nada.
 

A nossa época é parca nas promessas de um sentido que envolvam o seu cumprimento. A propensão do homem para a mentira e para uma alternância sem perguntas, constitui o inimigo de tudo. A Física é uma linguagem fundamental para comunicar significações, e muito grande é o meu desejo que ela assim me aceite pelos ângulos possíveis com que a espreito. Sinto-a também como uma mãe no deserto que nos acompanha passo a passo se a quisermos, educando-nos para a consciência.
 

Valham-nos as clandestinidades dos laureados e sobretudo dos não laureados deste mundo, afinal únicos viventes e sobreviventes da palavra exótica e não expectável que um dia se lhes colou ao pensamento e lhes desabrochou um esboço, depois outro e outro ainda e eis o big bang no seu labor…

 

Teresa Bracinha Vieira

O Teatro Azul e o Forum de Espetáculos de Almada


EXPRESSÃO DA MODERNIDADE ARQUITETÓNICA

 

Há que valorizar a expressão urbana e arquitetónica da cidade de Almada e a tradição histórica que, no que respeita ao teatro, em muito transcende o conceito, errado e injusto de dormitório de Lisboa. Almada envolve uma dimensão histórica especifica, que remonta a figuras e referencias, por exemplo Fernão Mendes Pinto ou Manuel de Sousa Coutinho, que Garrett simbolizou no “Frei Luis de Sousa” onde a tragédia decorre… E vale lembrar que, precisamente, Romeu Correia aqui situa a sua peça denominada “O Andarilho de Sete Partidas”, evocativa da figura e obra de Mendes Pinto.

E é por isso adequada a iniciativa da Câmara Municipal de Almada, ao recordar Romeu Correia no Forum de Espetáculos a que deu precisamente o nome de Romeu Correia, projeto do arquiteto João Lucas Dias. Evocamos aliás a tradicional Sociedade Filarmónica Incrível Almadense (SFIA): e recordo, desde os anos 50/60 do século passado, espetáculos de teatro e mesmo concertos sinfónicos na sala da SFIA. Romeu Correia, noutro lado o escrevi, é um dramaturgo emblemático de Almada, inclusive pela frequência dos temas respeitantes ao ambiente específico da margem sul do Tejo e das suas gentes. (cfr.”Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” ed. CNC e Mediatexto pags 97/98).

Quanto ao moderno Teatro Azul de Almada, projeto dos arquitetos Manuel Graça Dias e Francisco José Viegas com participação do arquiteto Gonçalo Afonso Dias e outros: trata-se de um excelente recinto de espetáculos, inaugurado na temporada de 2005/6 e notável pela expressão moderna da sua estrutura arquitetónica e da sua especificidade de casa de cultura.

Também como já escrevi, o nome de Teatro Azul deriva do revestimento em mosaico cerâmico vitrificado de cor obviamente azul, que deu leveza a um edifício complexo, encravado numa rua estreita. E essa topografia desnivelada, digamos assim, enquadra uma empena curva, vasta e cega até à cobertura: uma espécie de triângulo abaulado, passe a expressão talvez pouco rigorosa aplicada a um notável edifício, mas que se prolonga até à cobertura.

Fernando Mota de Matos especifica: “De linhas exteriores geométricas e integralmente pintado de azul, é formado por corpos paralelos, uns totalmente cegos, outros rasgados por grandes vãos envidraçados”… (in “Portugal Património” vol. VII ed. Circulo de Leitores, pag. 303) 

No interior, sobressai uma escultura de bronze da autoria de José Aurélio. Comporta duas salas para espetáculo, a principal, com lotação variável entre 386 e 466 lugares, conforme a natureza do evento, pois foi previsto um fosso de orquestra adaptável à extensão da plateia. E são de assinalar decorações e pinturas de Pedro Calapez, desde logo a chamada tela de boca que muito valorizaram, na sala e no foyer, a modernidade do edifício.

E o envolvimento cultural e social é rentabilizado, ainda, por áreas diversas de espetáculo, cultura e convívio.

Assim, a chamada sala- estúdio, com lotação de 90 lugares, “prolongada” e rentabilizada por um chamado na origem café-concerto com lotação de mais 100 lugares e acesso direto à rua.  Uma galeria de exposições, sala de vídeo e até um espaço para acolher e entreter um púbico infantil. Foi prevista uma área para livraria. E debaixo do palco e com as mesma dimensões, existe uma zona de ensaios que, no limite, poderá “duplicar” a atividade cénica.

A vista a partir do Teatro, através de vastos janelões, valoriza mais o interior. E o espectador sente-se confortável…

Fernando Mota de Matos, em “Portugal Património” (ed. Circulo de Leitores vol. VII) descreve: “De linhas exteriores geométricas e integralmente pintado de azul, é formado por corpos paralelos, uns totalmente cegos, outros rasgados por grandes vãos envidraçados “.

E assim é!

DUARTE IVO CRUZ  

LONDON LETTERS

 

When fish fly, 2016

 

Wow. O SNP prefere Brussels a Westminster, anuncia consultas para um segundo referendo separatista e abre concurso de ideias sobre como baixar o colossal défice nas contas de Holyrood numa eventual pertença a imaginária European Union sem o veto de Madrid. Os Remainers abandonam as marchas e centram esforços nas quentes Houses of Parliament para travar a Brexit.

Mr Bob Dylan ganha o 2016 Nobel Prize for Literature pela lírica das canções de protesto, após figurar na estante dos Cambridge Companions. Kumbuka foge do London Zoo e são horas de suspense enquanto o gorila passeia em Regent Park até o narcotizarem. — Chérie! Il n'est bois si vert qui ne s'allume. O novíssimo Project Pain ataca nos supermercados. O Secretary of State for Foreign and Commonwealth Affairs confessa nos Commons desconhecer a bandeira azulada dos 52 da Commonwealth of Nations. — Hum! Do not always expect good to happen, but do not let evil take you by surprise. O Home Affairs Committee censura o Labour ‘Corbyn’ Party por acolher “a safe space” para o antisemitismo no reino. A central de Brewers Green protesta. America assiste divertida à mais peculiar campanha da sua história política. London pede misericórdia a Moscow em nome dos inocentes em Aleppo. Forças iraquianas e aliados curdos lançam o assalto a Mosul, no que se pretende seja o começo do fim do pretenso califado do Isis. “Tutankhamun” ficciona na ITV a aventura arqueológica de Mr Howard Carter no Egypt dos 20s.

Bright but breezy days with some isolated showers at Central London.

Permitam que abra com particular declaração de interesses: Não, não sou agente sionista, nem aderi à conspiração zionazi ou pertenço à obscura elite Illuminati que governa o mundo, por aqui e além criticar as ideias de The Right Honourable Jeremy Bernard Corbyn. Até que acho o senhor nice, tão amigável quanto interessante, nomeadamente como resistente espécime de uma esquerda que vive em realidade própria e se alheia das suas objetivas raízes. Tão só, cedo estremeci ao observar o strange mindset que avançava nas alas e acaba a colonizar a liderança do Labour Party. Se politicamente o partido deserta do centrismo que lhe dá acesso ao poder, a bem da classe trabalhadora que aspira representar, socialmente converte-se em algo problemático. Agora, porém, é oficial! O Home Affairs Committee da House of Commons publica um relatório sobre "Antisemitism in the UK" e avisa o Lab que “it needs to get serious on the problem." Preto no branco, MPs de todos as cores expressam unanimemente pesadas preocupações pelo “hate speech and abuse” que circula na militância e amiúde visa os deputados hebreus. Entre as conclusões do inquérito figura que RH Jez C ignora “the distinct nature of contemporary anti-Semitism” apesar de um passado de luta contra o racismo e antes apresenta a “lack of consistent leadership” em contrariar “vile attitudes towards Jewish people.” Dada a “demonstrable incompetence” face ao fenómeno, o HAC elenca várias recomendações a fim de sanitizar a atmosfera. Já Jezza acusa o comité de preconceito e de fomento de “political controversies.”


A batalha das ideias em torno da Brexit continua também sobreaquecida. A Scotish First Minister RH Nicola Sturgeon abre nova frente de conflito e agita com segundo referendo independentista sob o pretexto do voto maioritário escocês para permanecer na European Union: 62% pró Remain em 23rd June (e 55,3% a favor do UK em September 2014). O gesto era esperado e é apenas retórico, mas é de anotar a descida de tom da líder do SNP entre a abertura e o fecho da Party Conference em Glasgow. Começando por declarar que “Scotland will become an independent country”, a senhora liga a Brexit a xenófoba austeridade para fixar ambígua mensagem que Holyrood “intends to remain at the very heart of Europe”, Visando silenciosa Prime Minister Theresa May, nas palavras de Mrs Sturgeon, "if [Wesminster] insists on taking Scotland down a path that hurts our economy, costs jobs, lowers our living standards and damages our reputation as an open, welcoming, diverse country, then be in no doubt Scotland must have the ability to choose a better future”. A voz soa forte mas o argumento surge fraco. Para political framing da causa «separados, mas com a Pound e na EU», tal qual o seu antecessor RH Alex Salmond tweeta, esperava mais, diferente e melhor.


A reação varia na altura do sobrolho, denotando pouco apetite das gentes para voltar a disputar um jogo esperando diferentes resultados com os mesmos jogadores. Mais consequente é o deflagrar das hostilidades nos supermercados. A cadeia de distribuição Tesco opõe-se à subida de preços das marmeladas e afins pela Unilever. Enquanto o Liberal Democrat Brexit Spokesmen RH Nick Clegg agita nos media que a libra fraca e a inflação alta atacarão os frigoríficos britânicos sem dó ou chocolates e queijos, a Marmite war resolve-se com discrição e regresso dos bens às prateleiras. Também divertida é a gota-a-gota do… Get Boris II Game. Na tentativa de descredibilizar o líder dos Brexiters, e com o Tory Michael ‘Knife’ Gove de regresso à cena política, vem a público a célebre coluna de jornal que o antigo Mayor of London e atual Foreign Secretary escreve dias antes da sua big decision ― então, a apoiar a ancoragem continental. O exercício serve para comparar os argumentos de RH Bojo quanto a ficar ou a sair do euroclube, avultando a desilusão face ao Cameron’s deal com os 27: "Yes, folks, the deal's a bit of a dud, but it contains the germ of something really good. I am going to muffle my disappointment and back the prime minister." O resto é History.


No meio de efémera agitação mediática e em véspera da chegada ao reino das primeiras crianças de Calais, com o estatuto formal de refugiados, o Rt Hon Alexander Boris de Pfeffel Johnson acolhe em London “talks with other western powers on how to end the wars in Syria and Yemen.” Presentes na Lancaster House está o US Secretary of State John Kerry, depois de mais uma reunião de adiadas tréguas sírias com o Russia's Foreign Minister Sergei Lavrov em Switzerland, e ainda altas delegações diplomáticas de France e Germany, do Kingdom of Saudi Arabia e dos United Arab Emirates. O encontro aborda a segurança regional no Middle East e delicadas sanções económicas a roçar a New Cold War, enquanto concerta posições para aumentar a pressão global sobre o “Assad regime and on its puppeteers in the form of the Russian Government. Also of course the Iranians, and what we can do to put pressure there.” Já hoje o Foreign Secretary reúne com o EU Foreign Affairs Council, para debater “a bit about the future architecture of Europe”, na qual “we hope to be supportive and offer helpful suggestions if we can”, e ainda a aguda crise do cerco em Aleppo, “that shames humanity frankly; the bombing of civilians, the indiscriminate slaughter of innocent women and children taking place in that City.” Sem dúvida que a retórica do Foreign Office tem ganho em coloração verbal, mas permanece por provar se ganha em eficácia com a batuta de um apreciador das clássicas Satires and Epistles de Horace.

Nas areias egípcias decorre o novo drama dos serões dominicais. A suceder à must-see “Victoria”, a ITV move-se para nova aposta certa com “Tutankhamun.” A série de quatro episódios foca a mais importante descoberta arqueológica de sempre, com o achamento, entrada e quebra do selo mítico na pirâmide do King Tut por Mr Howard Carter. A abrir encontramos o arqueólogo nascido na Kensington de 1874 ocupado nos primeiros trabalhos em Valley of The Kings, maverick and eccentric, ainda distante das “wonderfull things” com que em November 1922 resume para Lord Carnarvon o que primeiro vê na intata câmara real. Aqui começa a curse of the pharaohs, de quantos violam o espaço sagrado de Luxor. Várias misteriosas mortes carimbarão o segredo da esfinge e das suas câmaras secretas no Nile River. Nos jardins da Central Intelligence Agency (CIA) em Langley (Virginia, US) persiste hoje a busca do significado de Kryptos. Já no ecrã tudo começa em 1905. Mr Max Irons é Carter, secundado por Mr Sam Neill (Lord Carnarvon), Ms Amy Wren (Lady Evelyn Carnarvon) e Mrs Catherine Steadman (Maggie Lewis). A equipa é segura, sob direção de Mr Peter Webber e produção de Mr Simon Lewis, com talentos vindos de êxitos como Woman In Gold, Jurassic Park, Downton Abbey, Sherlock ou Game of Thrones. — Well! As Master Will puzzlingly echoes with that sapphire magic Prospero in The Tempest: — We are all made of dreams, and our life stretches from sleep before birth to sleep after death. (…) We are such stuff as dreams are made on, and our little life is rounded with a sleep.

 

 

St James, 17th October 2016

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS


   De 17 a 23 de outubro de 2016

 

Os desafios que as Nações Unidas põem a António Guterres novo Secretário-Geral das Nações Unidas são de uma complexidade que exigem ponderação, reflexão e trabalho.

 

 

UM PENSAMENTO PROFUNDO

Quando em julho de 1996 Michael Walzer, um dos mais importantes pensadores políticos contemporâneos, visitou Portugal para falar da cidadania numa sociedade em mudança, encontrou-se com António Guterres, então primeiro-ministro, e falaram longamente – sobre os efeitos do fim da guerra fria, sobre as oportunidades e as ameaças numa sociedade desigual e injusta, sobre a pobreza, sobre as economias de casino e sobre a necessidade de novas políticas sociais. No final da conversa, em S. Bento, o filósofo norte-americano de Princeton ficou deveras surpreendido. Não esperava ter com um governante, diretamente e sem intermediários, uma conversa tão aprofundada sobre os seus temas de eleição, a igualdade de oportunidades, a correção das desigualdades, a justiça complexa, a justiça como equidade de Rawls (com os desenvolvimentos mais recentes) ou o pensamento de Habermas… E, longe da teoria, Walzer quis saber o que era o rendimento mínimo, que dava os primeiros passos e com que ele concordava, ou como se concretizava a prioridade dada à educação – com ênfase no pré-escolar ou na escola a tempo completo… Nessa noite, a jantar no restaurante «Via Graça», tendo Lisboa a nossos pés, o filósofo voltou ao tema – tinha ficado impressionado e com uma grande admiração por Guterres, e considerava-o um dos políticos e governantes mais bem preparados de todos quantos conhecera, acrescentando que muito poucos se disporiam a ouvir e a ter uma conversa com um filósofo político, com recusa dos temas de circunstância. Lembrei-me deste episódio, quando, ao longo da candidatura a secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres demonstrou, de novo, uma capacidade extraordinária na defesa do seu pensamento na preparação e argumentação e na estratégia de não descurar nenhum dos atores relevantes para a decisão. À semelhança do que tinha acontecido com o pensador americano, também agora muitos dos que presenciaram as suas prestações ficaram certos das qualidades intelectuais, de experiência, de determinação e de entrega ao trabalho do antigo primeiro-ministro português. Se dúvidas houvesse, a estabilidade das votações e a clareza das mesmas atestam bem do reconhecimento das qualidades do candidato. Associaram-se, assim, as excecionais qualidades pessoais à ação de uma diplomacia, a portuguesa, de elevadíssima qualidade, que pôde ligar um programa eficaz a uma mobilização dos votos e dos equilíbrios necessários em todos os continentes e em todas as famílias de Estados.

 

A PENSAR EM PORTUGAL E NO MUNDO

Quem ler o livro de António Guterres «A Pensar em Portugal» (Presença, 1999) pode aperceber-se de como um homem essencialmente de ação, um político do terreno, um militante social pôde construir uma estratégia coerente, que contrasta com as cedências de curto prazo e de mera oportunidade, que têm posto em xeque a política do centro-esquerda e do socialismo democrático. No campo ideológico há uma grande clareza – que vai da recusa da idolatria do mercado à prioridade dada ao combate à pobreza e às desigualdades injustas. O fundo cristão associa-se à tradição socialista democrática. Registemos alguns pontos fortes desse pensamento. Antes do mais, a invocação da célebre afirmação de John F. Kennedy: «Se uma sociedade livre não pode ajudar os muitos que são pobres, não pode apoiar os poucos que são ricos». E ouvimos ainda a afirmação contra o populismo e a demagogia: «Mesmo aos mais egoístas eu lembro que (a pobreza) está em grande parte na origem do crime, do tráfico de droga, da intranquilidade nas ruas, de que todos nós e as nossas famílias podemos ser vítimas» (outubro de 1994). E sobre a economia e a riqueza ao serviço das pessoas disse: «não podemos permitir uma modernização conduzida sob o signo da tecnocracia. A modernização da nossa economia, o aumento da sua competitividade terão de ser compatíveis com o respeito da dignidade humana, em todas as circunstâncias, com a valorização e o reconhecimento dos direitos de quem trabalha e com um forte sentido de solidariedade para com aqueles que correm o risco de ir ficando para trás» (novembro de 1995). E quais as marcas que desejou evidenciar na política pública? Uma nova cultura democrática, assente na participação de todos e no diálogo; a Educação como a prioridade das prioridades, na ação do Estado e na vida em sociedade; a pobreza como uma preocupação central na sociedade portuguesa – não a escondendo, mas tornando-a uma causa de toda a sociedade. Na linha dos nossos melhores, como Garrett, Herculano ou Antero, tratar-se-ia de ultrapassar o atraso estrutural que nos separa do centro da Europa, através do desenvolvimento humano, da formação, da ciência, da cultura… «Tomando sempre como referência fundamental as pessoas e a sua realização», importa garantir que «os portugueses possam triunfar na vida e que Portugal possa triunfar no mundo» (novembro de 1995).

 

UMA MARCA DE LONGO PRAZO

Cada um destes pontos constitui uma marca de longo prazo, que mantém atualidade, sobretudo num momento em que há quem pense erroneamente que o pensamento político pode ser substituído por dizer o que as pessoas querem ouvir. Esse é o caminho do populismo que tem tido resultados desastrosos… Depois de dez anos como Alto-Comissário dos Refugiados, António Guterres reforçou a marca do militante social. E o seu programa agora põe a tónica no humanismo, no respeito e na salvaguarda dos direitos humanos e da dignidade. Daí a necessidade de potenciar o papel das NU na hora de prevenir as crises, o que obriga a uma profunda alteração cultural. «As causas das guerras estão cada vez mais ligadas à pobreza, à desigualdade, à violação dos direitos humanos e à degradação das condições ambientais». Daí que os governos devam coordenar estratégias e visões e mobilizar a diplomacia para afrontar os desafios coletivos – devendo o secretário-geral das Nações Unidas ser um facilitador e nunca alguém que quer dar lições… No livro, António Guterres fala ainda de três perfis de coragem – Salgado Zenha, Mário Soares e Olof Palme. Poderia também falar de João XXIII… São figuras que marcaram a sua vida política. De Salgado Zenha nota a referência moral do estoico, do iluminista e humanista cristão (mais na tradição luterana), que um dia lhe disse: «Muitos dos que estarão à tua volta não pretendem valorizar-te para serem melhores do que tu, mas querem apenas que tu nunca tenhas condições que te permitam parecer melhor do que eles». Quanto a Mário Soares, lembra que «levou por todo o mundo o nome de Portugal e os ideais dos portugueses, bateu-se pelos direitos humanos, agitou o universo da ciência, investiu razão e coração para trazer a cultura ao primeiro plano dos hábitos de todos os cidadãos». De Olof Palme recorda a afirmação significativa do governante sueco: «a minha adesão ao socialismo democrático não pode ser vista como a reação de um menino-bem contra o seu meio social. Cheguei ao socialismo através de um processo gradual com base em leituras e longas reflexões pessoais». Ao ler atentamente a invocação de Palme, sentimos um impulso pessoal e autobiográfico, de quem valoriza a dimensão internacional e as causas da paz e do desenvolvimento – e de quem, como agora fica demonstrado, de novo, assume com nitidez a «alegria da causa pública», ou seja, «the joy of politics». E essa paixão liga-se à emancipação das pessoas. Por isso, como nas antigas experiências do CASU, da Curraleira ou das inundações de 1967, foi ensinar Matemática na Quinta do Mocho quando deixou de ser primeiro-ministro, nunca esquecendo, afinal, o velho conselho de Tag Erlander: «num político o pensamento, a palavra e a ação devem sempre constituir um todo coerente».

 

 

Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

  

   O tema da edição de outubro de 2016 da Revue des Deux Mondes é a saudade do Rei, La Nostalgie du Roi. Logo a abrir, o editorial assinado pela diretora da revista, Valérie Toranian, recorda uma declaração do mais jovem e mais moderno dos ministros de esquerda, Emmanuel Macron, estrela ascendente do PS francês, ao semanário Le 1, em 8 de julho de 2015: Há no processo democrático e no seu funcionamento um ausente. Na política francesa, esse ausente é a figura do rei, cuja morte - penso eu fundamentalmente - o povo francês não quis. O Terror cavou um vazio emocional, imaginário, coletivo: o rei já não está cá! [...] Todavia, o que esperamos do presidente da República é que ele ocupe essa função. Tudo se construiu sobre este mal-entendido.

 

   E a editorialista prossegue perguntando a que é que essa tal ausência dá nome? Deceção, desconfiança, lassidão, para com a classe política e o executivo? Mas também o sinal de que a nossa época, que virou costas ao sagrado, não cessa de lhe sentir a falta e tenta compensá-la evocando os valores que tem dificuldade em definir. E cita então Régis Debray, filósofo agnóstico que, neste mesmo número da revista, assina um artigo (Que faut-il entendre par sacré?). Dois trechos: quando uma sociedade sente fragilidade, possibilidade de naufrágio, risco de abandono, o seu primeiro reflexo é consagrar, para consolidar, reafirmar, fortalecer...   ...nos tempos hodiernos, só é legítima e valorizadora, nos nossos meios oficiais, a linguagem dos valores, esse adoçante "cidadão", que é, para o sacro cívico, o que Walt Disney é para Sófocles, a Nutella para o creme inglês, ou o McDo para o restaurante... O que Debray quer salientar é ter-se posto fora de moda e uso a noção do sagrado, substituindo-a por sucedâneos, já que o sacro se tornou tabu por se definir como o que legitima o sacrifício e interdita o sacrilégio...   ... Já não temos qualquer vontade de nos sacrificar seja pelo que for, e detestamos visceralmente os interditos, a não ser quando temos a gloriazinha de os violar...   ...no fundo, conjuramos o medo ou o embaraço que hoje suscitam o amor sagrado da pátria e outros versículos republicanos que nos cheiram demasiadamente a terra e a mortos, ao cântico das armas e à hecatombe dos corpos. Assim se ausenta o sagrado dos nossos discursos políticos, e é proscrito dos nossos textos legislativos...   ...os nossos infelizes ministros, para se adaptarem aos ares do tempo, ao jeito da moralita, complemento do reino dos números, barram o pão dos seus discursos com os "valores da República", e percebemos porquê: esse doce não custa nada. Os nossos valores não têm penalizações. Não obrigam a nada de sério nem de preciso, pois são desprovidos de infrações, prestação de contas e sanções, enquanto que onde há sagrado estipulado há imperativo categórico, com coercivo e obrigatório. O valor é mole, o sagrado é duro. O valor agrada a todos - é a função do kitsch e o recurso dos políticos. O sagrado afasta. 
 

   Outros autores, como Jacques de Saint Victor, professor universitário em Paris, evocam a figura do general De Gaulle: Em 1958, em razão da incapacidade do regime de partidos para resolver a questão argelina, o general de Gaulle conseguiu pôr fim ao "parlamentarismo absoluto" (Raymond Carré de Malberg). A Constituição de 1958 instituiu o que alguns juristas, como Maurice Duverger, designaram de "monarquia republicana". Recordo o significativo título do livro que Duverger publicou pela Robert Laffont em 1974: La Monarchie républicaine. Comment les démocraties se donnent des rois. E o historiador Jean-Christian Petitfils, autor de vasta obra escrita, incluindo as biografias de quatro reis de França (todos eles Luís: XIII, XIV, XV e XVI) assina um interessantíssimo artigo (De la monarchie absolue à la monarchie impossible), que é também uma reflexão sobre a soberania e o seu exercício. Traduzo-te, Princesa de mim, o trecho final: Quanto a Charles de Gaulle, deitará sobre a monarquia hereditária a última pazada de terra, criando a sua "monarquia republicana", que dura há quase 60 anos, e da qual os franceses, agarrados à personalização do poder e à eleição do seu presidente por sufrágio universal, não estão dispostos, diga-se o que se disser, a desembaraçarem-se. Adeus estremecimento sagrado da bandeira da flor de lis! Doravante, segundo o famoso dito de Charles Péguy, "a república única e indivisível é o nosso reino de França!"

 

   Este paradoxal gosto por figuras tutelares numa sociedade de forças populares e politicamente democrática, para além da presença invisível do prestígio do passado, é um elemento incontornável de uma certa tensão francesa. Falar-te-ei adiante, Princesa, de outros sintomas ou contradições do presente mal-estar gaulês. Por agora deixo-te esta resposta de Emmanuel Le Roy Ladurie à pergunta "E Charles de Gaulle?"  que lhe foi feita pela revista: Aí, estamos noutra dimensão. De Gaulle é uma mistura extraordinária de Joana d´Arc, de Henrique IV e de Luís XIV. É o género de figura excecional que encontramos uma vez por século, e às vezes ainda menos... Neste preciso momento em que te escrevo, ocorre-me, não sei porquê, que quiçá o grande De Gaulle tenha optado pela solução que deu ao problema argelino por pensar que aquele povo não era, não podia ser francês. Pois foi ele que afirmou, em 1959: Nós somos, antes do mais, um povo europeu de raça branca, de cultura grega e latina e de religião cristã... Enganava-se: basta vermos a seleção francesa de futebol na tv, ou olharmos para a composição demográfica da França hodierna, para percebermos que mais perto da realidade estava Éric Besson, gaulista e ministro da Imigração, Integração e Identidade Nacional, ao dizer, em 2010, que a França não é nem um povo, nem uma língua, nem um território, nem uma religião; é um conglomerado de povos que querem viver juntos. Não há francês de raiz, há tão somente uma França de mestiçagem.
 

   Sei bem que muitos franceses, e não só, não concordarão com tal ideia. Também sei que a realidade presente - e a sua evolução étnica e cultural - é sobretudo uma interrogação, quiçá factor de mal-estar. Mas poderá evitar-se? Está aí. Le Magazine Littéraire, na sua edição de outubro de 2016, em secção oportunamente intitulada L´esprit du temps, debruça-se sobre vários livros agora publicados, todos, afinal, pretendendo responder à questão Qu´est-ce qu´être Français? Ali respiguei alguns trechos de prosas diversas, que aqui te traduzo, com intenção de nos fazer pensarsentir melhor a dimensão humana das diferentes condições, o tempo e os modos vários das nossas circunstâncias. Magyd Cherfi é vocalista do grupo Zebda, e argelino de nascimento. Publica agora um livro intitulado Ma Part de Gaulois, onde escreve: Sempre quis ser francês. Sinto-me pirenaico, sou flaubertiano, respiro só pela cultura francesa. Até ao dia em que percebi que não ser branco era não ser francês. Desde então, passo o tempo a tentar sê-lo um pouco menos. Decidi tornar fortaleza o que pensei ser uma maleita: o esquartejamento...   ... Que símbolos há, na nação francesa, para que eu, filho da Argélia, nela me reveja? Quando a equipa da Argélia ganha um jogo de futebol e os jovens do bairro desfilam nos Campos Elísios levantando a bandeira argelina, isso choca-me. Mas pode ser-se francês arvorando a bandeira argelina. Devemos declarar-nos cosmopolitas e redefinir uma identidade francesa que não seja estática. Houve gauleses, mas já não há. Há franceses. Então, o comunitarismo já não será um problema: deste, aliás, apenas existem farrapos alimentados pela frustração.
 

   Denis Tillinac, no prólogo ao L´Âme française (2016), escreve algo diferente, uma achega ao título desse seu livro: A França, parece-me, é mais de direita nas profundezas e mais de esquerda nos humores. Quando o estalinista Aragon, numa ode à glória do seu partido, se descobre patriota em 1944, não é a França "republicana" que os seus versos invocam, mas a França imemorial, logo sempre igual: "Vejo Joana correr, Rolando toca a trombeta". Tal como acredito na realidade da clivagem, assim aprecio esses momentos em que a trégua das lutas políticas nos permite saborear em conjunto a felicidade de ser francês. O mesmo Tillinac dirá que Cioran não tinha razão ao afirmar que uma pátria é uma língua e nada mais, pois ela é também outra coisa. Mas a argelina Kaoutar Harchi, no seu Je n’ai qu´une langue, ce n´est pas la mienne, escreve: A França é uma nação literária, onde se dá uma forte fusão do ideal nacional com uma língua. Esse magistério vai muito para além do território. E diz mais, acrescenta que os escritores argelinos se tornaram escritores franceses pela resistência e pela relação de forças. Cada vez mais, a França não é percebida como o território colonial, mas como o território da liberdade. Aqueles escritores acham-se franceses, sem por isso quererem viver em França. A nação literária não morreu, mas deslocou-se para fora de França.
 

   Tudo isto nos dá muito para pensar, Princesa. Vivemos, na Europa e não só, tempos de mudança, com ameaças de afrontamentos, mas também com promessas de entendimentos em terrenos onde consigamos acertar referências. A esta luz, a cultura ganha nova dimensão e importância nas nossas vidas. As artes e a música, a literatura, podem ajudar-nos a contruir a paz.
 

   E, também, o pragmatismo do bem, a prática do mandamento evangélico: amai-vos uns aos outros. Sermos capazes de um olhar para os outros e os problemas de todos nós, olhar que veja mais longe e mais certo do que os nossos preconceitos. Eis o que nos propõe o atual diretor executivo da conceituada revista americana Foreign Affairs, Jonathan Tepperman, diplomado em direito por Oxford e New York, num livro ora publicado (The Fix: How Nations Survive and Thrive in a Worl in Decline). Aí identifica uma dezena de problemas mais ou menos universais, como a desigualdade, a imigração, a guerra civil, a corrupção e a paralisia política. E defende que serão resolúveis se os líderes agirem com coragem e diligência. Dá alguns exemplos ilustrativos: a Bolsa de Família do presidente Lula da Silva, que tirou muita gente da miséria extrema, distribuindo pequenas somas a mães, para alimentarem e educarem os filhos; os líderes democráticos da Indonésia depois de Suharto, que conduziram políticas de erradicação do fundamentalismo islâmico. O bem querer, a solidariedade e o bom senso, afinal, ainda fazem sentido.


Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O Homem Unidimensional e as tendências do modernismo.

 

‘Free election of masters does not abolish the masters or the slaves.’
Herbert Marcuse

 

Em ‘Tudo o que é sólido se dissolve no ar’, de Marshall Berman, lê-se que no final dos anos sessenta do séc. XX, 'O Homem Unidimensional' de Herbert Marcuse (1898-1979) estabeleceu um novo paradigma em que as massas não têm ego, nem identidade, porque as suas almas carecem de tensão interior e dinamismo. Marcuse acreditava que as suas ideias, as suas necessidades, até os dramas 'não são delas mesmas'; as suas vidas interiores são inteiramente administradas, programadas para produzir exatamente os desejos que o sistema social pode satisfazer, nada mais. E Marcuse afirmava que o povo prefere reconhecer-se no seu conforto e encontra a sua alma nos seus automóveis, nos seus aparelhos eletrónicos, nas suas casas e nas suas cozinhas equipadas. E para Marcuse, a modernidade, é assim somente constituída pelas suas máquinas, e por isso os homens e mulheres modernos não passam de reproduções mecânicas.

 

‘The so-called consumer society and the politics of corporate capitalism have created a second nature of man which ties him libidinally and aggressively to the commodity form. The need for possessing, consuming, handling and constantly renewing the gadgets, devices, instruments, engines, offered to and imposed upon the people, for using these wares even at the danger of one’s own destruction, has become a “biological” need.’
Herbert Marcuse


Ora, as lutas sociais dos anos sessenta ansiavam por mudanças radicais, que pudessem tornar o povo de novo capaz de controlar as suas vidas - Marcuse sugeria que o sistema democrático em que vivemos é na verdade um sistema autoritário, porque é, um número reduzido de indivíduos, que dita a nossa perceção de liberdade, ao conceder-nos a possibilidade de escolha na 'compra para a felicidade'.

 

The truth of art lies in its power to break the monopoly of established reality to define what is real.
Herbert Marcuse

 

E assim Berman declara que, no campo da arte, a atmosfera volátil, dos anos sessenta, gerou um amplo e vital pensamento sobre o sentido do modernismo, que passou a dividir-se em três tendências, a partir de então:

 

Ausente: ao retirar-se o modernismo das impurezas e das vulgaridades da vida moderna, gerou-se uma arte-objeto pura e auto referencial, uma arte desprovida de sentimentos pessoais e de relações sociais.

 

Negativo: concretiza-se na procura pela destruição violenta de todos os valores e pela afirmação do modernismo como revolução interminável e apenas como subversão. Em alguns círculos a palavra ‘modernismo’ tornou-se código para todas as forças rebeldes que se nutriam da verdadeira perturbação das ruas modernas, transformando os seus ruídos e dissonâncias em beleza e verdade. E por isso, alguns artistas procuram por uma vanguarda no substrato dos proscritos e marginais, os explorados e perseguidos por outras raças e outras cores, os desempregados e os incapazes de conseguir um emprego. Porém, este modernismo implica um modelo ideal de sociedade, isenta de desigualdades e de contradições – é um modernismo que se pudesse ser expulso do mundo moderno permitiria a reordenação do espaço, do tempo e do cosmos.

 

Afirmativo: este ideal estabelece-se no abrir-se o homem à imensa variedade, complexidade e riquezas materiais e ideais que o mundo moderno inesgotavelmente oferece. Isto, porque, o modernismo da forma pura ou o modernismo da pura revolta está condenado. O modernismo afirmativo coincide com o aparecimento da arte pop e recriou uma espécie de abertura ao mundo, mas também ao passado e à história.

 

 

Ana Ruepp

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Volto, repito, reitero, não me fico. Verifico que, ao longo de tantos anos (quatro décadas?) passados "fora", aí pelo mundo que não conhecia, por inconsciente razão fui olhando para Rembrandt. De muitos modos, de exposições a livros, com olhares diferentes e, todos, um mesmo olhar: este, o de querer ver... Terá sido por esse apelo, misterioso e tenaz, à transcendência de si, de nós mesmos  --  que as dezenas de autorretratos seus, pinturas, desenhos, gravuras, sempre perscrutantes, nunca narcísicos, incansavelmente nos gritam? Quiçá assim seja, já Van Gogh dizia que não se pode ver um Rembrandt sem acreditar em Deus... Ficou-me, fica-me sempre, calada no coração, esta impressão tão profunda de ser, mesmo eu, todos nós, uma casa de Deus. Até ouso dizer que Deus não existe sem o ser humano... Essência ontológica será o Ser enquanto ser... Mas existência, peço perdão, é mesmo existir, é estar aqui, é o Manuel, o Deus connosco. Aliás, a cena bíblica que, salvo erro meu - e muito me falha a memória, Princesa de mim! - Rembrandt mais pintou é a refeição partilhada pelo Cristo ressuscitado com os seus companheiros de caminho, em Emaús: o reconhecimento da presença de Deus pela partilha do pão. O cristianismo nada tem de feitiçaria, nem de ordens sacras. É, de modo divinamente simples, o sacramento do amor de Deus pelo amor dos homens. Antes de te contar cenas da convivência de Rembrandt com a sua Igreja e as de outros, incluindo judeus, deixa-me traduzir-te um trecho de Georges Bernanos: Ele amou como um homem, humanamente, a humilde herança do homem, a sua mesa, o seu pão, o seu vinho - os caminhos cinzentos e dourados depois das chuvas, as aldeias com seus fumos, as casinhas nas sebes de espinheiros, a paz da tarde que cai, e as crianças brincando à porta de casa... Tudo isso ele amou humanamente, à maneira de um homem, mas como nenhum outro amara nunca, nem amaria jamais. A ênfase de Bernanos, posta num francês tão tocante e bonito que nem sei como traduzi-lo, talvez se exagere: esse amor do Deus humano que nos habita, creio eu, qualquer de nós poderá pensarsenti-lo.     

  

Já te contei, Princesa de mim, que Rembrandt nasceu em Leyde, cidade universitária e calvinista, bastião da resistência ao domínio da Espanha católica. O pai do pintor convertera-se à Igreja Reformada de Calvino, a mãe talvez tenha permanecido fiel a Roma. Mas ele próprio era calvinista, claramente depois do seu casamento, em Amsterdam, com Saskia van Uylenburgh, que lhe deu quatro filhos, todos batizados na Igreja Reformada Holandesa, dos quais só um, Titus, chegou a adulto. Mesmo esse não sobreviveu ao pai, que enviuvara de Saskia, morta de tuberculose pouco depois do nascimento desse filho. Todavia, as relações do pintor com a puritana Igreja não foram pacíficas: escandalizava-a por viver em concubinagem (se voltasse a casar-se perderia o direito à herança de Saskia). Hendrickje, sua segunda companheira, foi excomungada por equiparação da sua concubinagem a prostituição, numa altura em que Rembrandt já não frequentava a igreja. Mas a casa em que vivia, na Rua Larga de Santo António (presumo que Antão), não só lhe dava vizinhança com católicos e protestantes, mas também com muitos judeus, designadamente sefarditas ibéricos, muitos deles portugueses que, aliás, ali perto construíram a Esnoga, a célebre sinagoga portuguesa de Amsterdam, onde, hoje ainda, a oração pela rainha é dita em português do século XVII: pela Rainha e a Madama sua Mãe, assim os ouvi rezar, no princípio dos anos 1970, quando por já andava em trabalho diplomático e, por ser português, me convidaram a assistir a um ofício. Ainda me lembro de alguns nomes portugueses que ali li, gravados em lápides tumulares e outras: Ribeiro, Osório, Pinto, Castro, Teixeira da Mota. Desta última família, recordo, um dos descendentes foi, há alguns anos, ministro dos Negócios Estrangeiros da Holanda...

 

   Vizinho próximo de Rembrandt foi o filósofo Bento (ou Baruch) Espinoza, judeu de Portugal, que, com o pintor, é das figuras mais gradas do Século de Ouro dos Países Baixos. E se as cenas bíblicas do Antigo e do Novo Testamento constituem temas para grande parte da obra pictórica de Rembrandt, muitos dos modelos que para elas pousaram foram judeus (e portugueses) daquele bairro, hoje, aliás, denominado Bairro Judeu. Além do diferendo com Daniel Pinto, que já te referi, Rembrandt teve, tanto quanto eu saiba, mais dois casos judiciais com judeus portugueses: um comerciante de arte chamado Samuel de Orta, e um destacado membro de rica família, Diego de Andrada. Neste caso, tratou-se da encomenda, ao pintor, do retrato de uma jovem familiar dos Andrada, quiçá hoje perdido, mas que alguns peritos identificam como a ainda existente, no Museu de Belas Artes de Montreal, Jovem Mulher, talvez retrato de Beatriz (Raquel) Nunes Henriques que contraiu matrimónio judaico, em Hamburgo, em 1654, com um Manuel Teixeira de Sampayo, de família com a qual os Andrada celebraram vários casamentos. Seriam também portugueses os modelos da famosa Noiva Judia? Não sabemos, como tampouco podemos afirmar se se trata de um retrato comemorativo, encomendado pelos próprios figurantes ou seu familiar, ou de uma cena bíblica (Isaac e Rebeca) com modelos contratados para o efeito.


Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO



XV - DIMENSÃO ESTRATÉGICA E DE VANGUARDA

 

Após longas viagens, Portugal sente-se inseguro em arrumar tantas memórias num espaço geográfico territorial tão estreito. Desfeito o império, regressa a casa e sente-se detido. O fim dos impérios coloniais converteu as antigas potências colonizadoras numa espécie de depressão pós-parto. Antigas colónias, como o Brasil, e mais recentemente as outrora possessões ou províncias ultramarinas, como Angola, emergem e assumem-se como protagonistas a vários níveis. O mesmo sucede com o fim do império inglês, francês, espanhol e holandês. Com reflexos culturais, por exemplo, na literatura, na música popular, artes plásticas e desporto. Tendo como representantes principais um número cada vez maior de autores, intérpretes, artistas e desportistas de origem americana, africana ou asiática. Também em Portugal essa presença já é notória: Mariza, Sara Tavares, Kalaf, Da Weasel, Buraka Som Sistema, Luanda Cozetti, Nelson Évora, Patrícia Mamona, Susana Costa, Luciana Diniz, Pepe, Éder, Renato Sanches, etc. Sem esquecer a cada vez mais consagrada e presente literatura lusófona, de procedência brasileira ou africana, música, telenovelas e séries do Brasil.

 

Ao português, como língua de estratégia e de vanguarda, importa delimitar objetivos e prioridades na sua divulgação e promoção a nível planetário e das culturas que a partilham, como meio de alcançar intentos e fins mais amplos de natureza comercial, cultural, diplomática, económica, jurídica, política. Tendo sempre presente ser a língua, para além da sua imaterialidade, um assunto e um produto cultural economicamente relevante e rentável, com consequências tecnológicas, de imagem e marca externa do país, ultrapassando meras referências simbólicas.

 

Em linhas gerais, são enumerados como argumentos básicos de defesa dessa estratégia e vanguarda, os da coesão, da disseminação pelos descobrimentos, da diáspora portuguesa, lusófona, contemporânea, da dimensão de mercado, da globalização e do seu potencial geoestratégico. Quanto a nós, importa ainda falar do português como idioma de cultura, pluricultural, de exportação, intercontinental, transoceânico, como língua informática, internauta, sendo predominantemente, e cada vez mais, não-europeia, tendo como referência, a este respeito, a sua distribuição espacial e demográfica.

 

No imediato, a curto e médio prazo, o estatuto universal da língua portuguesa não está em perigo. Não, no essencial, por aquilo que nós, portugueses, tenhamos feito ou fazemos, pois temos feito pouco. Mas pelo peso e poder emergente, demográfico e económico do Brasil, sem prejuízo de outros de independência recente, onde sobressai Angola e Moçambique. Tem de se compreender que, a nível global e internacional, não há futuro, de momento, para a língua portuguesa sem o Brasil e sem os futuros falantes do continente africano, segundo as previsões demográficas para os próximos cinquenta anos. Não está em causa uma questão de liderança, mas sim de realismo.

 

Ao invés, o estatuto europeu do nosso idioma está ameaçado, desde logo na União Europeia, onde Portugal é parte integrante, onde não fizemos, nem fazemos, o suficiente para a defender, promover e valorizar. O que põe em risco o seu estatuto universal, a sua dimensão estratégica e de vanguarda. Imagine-se os demais povos, não residentes na Europa, que partilham connosco um idioma comum, aperceberem-se que para falar com os europeus e a UE, ou estes com eles, de nada os beneficiar falarem português, concluindo que Portugal abdicou das suas responsabilidades históricas.

 

Daí a necessidade de o português se impor como uma língua de comunicação global, de estratégia e de vanguarda, entre a Europa e outros continentes, e nunca, ou apenas, como uma língua intraeuropeia, local e regional, a par das outras línguas oficiais da Europa e UE.

 

10 de outubro de 2016
Joaquim Miguel De Morgado Patrício