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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de janeiro de 2017.

 

A longa entrevista realizada por Maria João Avillez, intitulada «Soares» (1996-1997) e publicada em três volumes - «Ditadura e Revolução», «Democracia» e «O Presidente» - constitui um importante percurso, esclarecido a par e passo pelo seu protagonista. É uma obra fundamental, reveladora dos mais ínfimos pormenores de um percurso riquíssimo, sem o qual não é possível compreender Portugal hoje. A releitura dessa obra é assim obrigatória para quem queira conhecer e compreender o homem e a sua ação.


MEMÓRIA RICA E MULTIFACETADA
É difícil ser completo na invocação da memória de Mário Soares. Falta ainda muito para dizer relativamente a quem deu o melhor de si à causa da liberdade e da democracia. Como político de corpo inteiro foi ao longo da vida alguém que soube assumir a qualidade de cidadão ativo, sempre disponível para assumir o risco de dizer o que pensava, de modo a contribuir para o bem comum no pensamento e na ação. Sendo a democracia o modo de assumir construtivamente a imperfeição – com respeito dos direitos humanos, do pluralismo e da limitação mútua de poderes – Mário Soares impôs-se como o cidadão comum que sabia tirar lições dos erros que, como qualquer um, poderia cometer. Apresentava-se, pois, como cidadão disponível para partilhar as dificuldades e as dúvidas, sempre empenhado em pôr a responsabilidade em primeiro lugar e em correr riscos com coragem, para defender os valores democráticos em que acreditava. Foi, desse modo, no seu tempo, um dos grandes políticos europeus, com um papel fundamental na consolidação da democracia portuguesa e na afirmação do projeto europeu de paz e de desenvolvimento. Profundo conhecedor da história portuguesa, filho de uma personalidade marcante da I República e do mundo pedagógico, pôde, antes da Revolução democrática de 25 de abril de 1974, preparar o terreno para uma «República moderna» onde todos pudessem ter lugar, para além das oposições tradicionais. Quando, ao lado de Salgado Zenha, Jorge Sampaio, graças à iniciativa de António Alçada Baptista, participou na criação de «O Tempo e o Modo», estava em causa a prefiguração de um regime aberto, de liberdade e pluralismo – capaz de mobilizar todos. Foi nesse momento que esteve profundamente ligado ao Centro Nacional de Cultura. Prevenindo os erros da Primeira República, em especial no tocante às questões religiosa e social, preservando a matriz democrática, Mário Soares congregou os republicanos históricos, o Diretório democrato-social de António Sérgio, os jovens dos movimentos estudantis, os católicos inconformistas, os defensores do socialismo democrático e da social-democracia (na linha de Willy Brandt, Helmut Schmidt, Mendès-France e Olof Palme), os marxistas não-dogmáticos - compreendendo os movimentos de emancipação das jovens nações de língua portuguesa. Assim pôde lançar as bases de um compromisso heterogéneo e amplo, baseado no respeito mútuo e na consolidação de uma cidadania ativa e de uma democracia inclusiva. Maria de Jesus Barroso teve, aliás, um papel fundamental nesse caminho – como resistente serena, determinada e inteligente, capaz de ser um porto de abrigo e de suscitar caminhos novos. Simbolicamente a amizade do casal Soares com Sophia de Mello Breyner e Francisco Sousa Tavares foi um excelente exemplo desse espírito autenticamente democrático, de diferença e complementaridade.

 

DEFESA INTRANSIGENTE DA LIBERDADE
O meu querido e saudoso António Alçada Baptista tantas vezes me disse que era a defesa intransigente da liberdade que mais admirava em Mário Soares. E sabia que este tinha a coragem necessária para tirar todas as consequências desse combate fundamental. Posso dizer, por isso, com o conhecimento de causa, pelo longo período de convívio e de trabalho em comum que tivemos, que a liberdade e a cultura foram as duas marcas indeléveis da ação do antigo Presidente da República. Sophia de Mello Breyner na Assembleia Constituinte definiu lapidarmente essa marca inesquecível: “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução é exatamente porque é capaz de criar a cultura” (2.9.1975). Entende-se, assim, que a autora de “Mar Novo” tivesse a maior confiança política e pessoal no seu amigo Mário Soares. Afinal, a democracia – e esse é o grande desafio do presente – precisa de estar apta a responder aos anseios dos cidadãos, como sistema sempre incompleto, mas suscetível de se aperfeiçoar permanentemente. Não há democracia sem partidos, não há liberdade sem o voto livre dos cidadãos, mas é preciso ir ao encontro da legitimidade do exercício, garantir o cumprimento das responsabilidades – ou seja, prestar contas dos compromissos assumidos, garantir uma permanente avaliação do serviço público e assegurar uma ligação efetiva entre o Estado e a sociedade, o Governo e os cidadãos. Se hoje há uma crise nas sociedades democráticas, que suscita a emergência dos populismos, tal deve-se ao défice de orientação política e à tentação de governar para contentar no imediato a sociedade, como se os cidadãos fossem clientes e a governação um mero fornecedor de benefícios de curto prazo. Na questão europeia ou na intransigência quanto à democracia pluralista (contra as tentações vanguardistas), prevaleceu a determinação política da participação de Portugal num espaço de desenvolvimento e de modernidade e da criação de defesas contra o autoritarismo.

   

EUROPA, DEMOCRACIA, LIBERDADE E CULTURA
Quando Mário Soares levantou a bandeira «Europa Connosco», entendeu que a democracia obrigaria a termos uma voz respeitada internacionalmente. José Medeiros Ferreira compreendeu-o muito bem. Só seríamos ouvidos no mundo, se tivéssemos lugar e relevância entre os países mais desenvolvidos. No entanto, o projeto europeu sofreu nos últimos anos um nítido enfraquecimento. Em lugar do cosmopolitismo e da abertura, temos fechamento e idolatria. Isso preocupava profundamente o antigo Presidente, que reclamava uma União mais política e a necessidade de mais justiça bem como de coesão social e económica. Ao invés da tendência que se vem impondo, torna-se necessário haver um maior orçamento europeu, capaz de aumentar o crescimento, o investimento reprodutivo e o emprego. Com desgosto, via, no entanto, prevalecerem os egoísmos nacionais e uma lógica do salve-se quem puder – em lugar da solidariedade. O ideal europeu de paz e desenvolvimento desvaneceu-se… Daí a concordância com os alertas de Bento XVI contra as economias de casino, e com a posição do Papa Francisco contra as desigualdades, as injustiças e o mercado que mata. Infelizmente, os últimos acontecimentos só agravaram as perspetivas futuras, confirmando os alertas oportunamente lançados. “Só é vencido quem desiste de lutar”. Em diversas circunstâncias na sua vida política Mário Soares demonstrou como o lema tem de ser compreendido e vivido. Na resistência democrática, na implantação da democracia, na luta contra todas as ameaças à liberdade, na afirmação da Economia Social, na crítica ao mercantilismo – houve altos e baixos, vitórias e derrotas, no entanto o legado fundamental é o do constitucionalismo da Res Publica, que tem de continuar a ser aprofundado. O primado da Liberdade e da Cultura significa, no fundo, que a cidadania se deve preservar através da autonomia, da responsabilidade, da inovação e da criatividade. Educação, Ciência e Cultura são cada vez mais cruciais. São essas as marcas verdadeiras do patriotismo prospetivo…  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Está, creio que de passagem, como tudo, um dia de inverno e céu azul, cheio de sol e respirando um ar quieto, silencioso. Cedo de manhã, os campos à minha vista estavam brancos, como se tivesse nevado. Era a geada, a humidade humilde da terra dada ao frio da noite. Fiquei a ver o sol acordar e a levantar do chão, envolvendo as vides tolhidas e as árvores nuas, pelo ar pálido, um só manto de névoa etérea e fina. E deixei-me levar também, como se me aquecesse uma calada lembrança de Deus...

 

   Ao recordar agora esse momento telúrico de grande paz, ocorre-me um passo da carta do poeta Christian Bobin ao monge beneditino François Cassingena-Trévedy, a agradecer-lhe ter escrito um livro, que a Desclée de Brouwer recentemente publicou: Cantique de l´Infinistère, relato de um percurso místico pela natureza do Auvergne, simultaneamente caminhada física de longo curso. Escreveu Bobin: Gosto desse passeio a seu lado e do seu modo de fazer estalar a língua francesa, como neve azulada, sob a raridade de algumas palavras precisas, nunca preciosistas. Leva o leitor ao deserto, para que ele aí encontre anjos, anjos bons. Há duas noites que adormeço na neve, enamorado de uma vida tão elementar que acaba por ser a profundidade absoluta. Amar a vida é amar Deus sem o conhecer, e eis toda a ciência que podemos ter no coração. Para melhor entenderes, Princesa de mim, o que o poeta disse da escrita do monge, transcrevo, no francês original (terá de ser!), um trecho do livro que, em português, poderia ter o lindo título de Cântico de Infinisterra:

 

   La marche de longue haleine esseule, elle dessaoule de ce grand étourdissement, de cette distraction entretenue, de ce sacrilège continuel qu´est la vie courante (et pourtant si sédentaire). Elle exonere, elle débarasse l´homme, dans l´oubli de tout arriéré, et l´assortit au bleu, au vert, au brun, là-bas, vers lequel il pérégrine. Mais pour autant, c´est peu dire, c´est mal dire qu´elle spiritualise l´homme: elle l´incarne plutôt et l´enracine, elle l´installe solidement dans l´entier naturel de l´univers...

 

   Saboreado o francês do monge beneditino, sirvo-te também esta minha versão portuguesa: «A caminhada de fundo isola, desinebria dessa grande tontura, dessa distracção cultivada, desse contínuo sacrilégio que é a vida corrente (e contudo tão sedentária). Exonera, desembaraça o homem, em esquecimento de qualquer passado, e combina-o com o azul, o verde, o castanho, no além, para o qual peregrina. Mas todavia direi pouco, direi mal, se disser que ela espiritualiza o homem: antes o incarna e enraíza, instala-o solidamente na inteireza natural do universo».

 

   Esta manhã, bem cedinho, ainda estremunhado e medricas de frio, criei raízes na terra, sob a geada branca, fui descobrindo com o sol - que, afinal e sempre, se ergue para todos - fui descobrindo as cores da vida, e subi com elas, nessa névoa véu que voa... Assim envelheço, Princesa, como um rebento que espera a primavera. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A cidade de Aldo Rossi.

 

‘A cidade deve ser compreendida como arquitetura. Por arquitetura, designo não só a imagem visível da cidade e a soma das suas diferentes arquiteturas, mas a arquitetura como construção, a construção da cidade ao longo do tempo.’, Aldo Rossi

 

A cidade é produto da arquitetura, mas também repositório da história. Aldo Rossi (1931-1997) evoca a cidade de acordo com a memória coletiva, porque a sua construção é feita sobre o tempo, num lugar específico. Rossi analisa a cidade através dos seus artefactos, das suas permanências morfológicas e tipológicas. Ao actuar sobre a cidade, Rossi acciona o mecanismo da analogia.

 

Em ‘L’architettura della città’ Rossi descreve e analisa a cidade através de regras limitadas morfológicas e tipológicas. Permite voltar a fazer entender a cidade como lugar de complexidade e de memória urbana. Pretende-se a recuperação da tradição, a insistência na permanência das formas, a recriação das convenções (como reinterpretação do passado à luz do presente). A cidade constitui-se por valores construtivos (que servem de regra ou modelo e que conformam a cidade) e memória (recordação de coisas essenciais que se fundem em formas e ideias).

 

Rossi parte de uma vontade antivanguardista de reconstruir a ligação entre a arquitetura e a coletividade. Rossi insiste na tipologia como estrutura, fundadora da imagem da realidade arquitetónica e emocional. Rossi recorre ao mecanismo da analogia, porque esta permite associar à cidade a memória e a história, o individual e o coletivo, a objetividade e a subjetividade, o homem e o lugar. O Homem procura por uma cidade ordenada e consistente intimamente referenciada a um tempo. A expressão da analogia referencia-se a elementos formais preexistentes e que pertencem a uma determinada realidade. Rossi vê os programas modernos como veículos inadequados para a arquitetura e por isso procura por uma arquitetura analógica, extraída do vernáculo e da memória. Rossi, volta, assim aos programas tipológicos propostos na cidade do séc. XIX.

 

Rossi ao explorar a imagem da cidade através do tipo, modelo ou regra, dá um novo sentido à arquitectura. Os tipos transformam a cidade através de ideais intemporais geométricos. Para Rossi os elementos construídos de uma cidade podem, assim tomar a forma de um cubo, cone, cilindro, prismas octogonais e rectangulares. Cada forma está associada a uma determinada função. Rossi trabalha a partir de formas facilmente reconhecíveis e identificáveis para uma determinada comunidade – a habitação, a escola, o hospital, a prisão, o edifício religioso e civil (Montaner, 2001).

 

Por exemplo Aldo Rossi em Constructing the City Project, em 1978, define o cubo como espaço de encontro público; a torre octogonal como o centro cívico ou município; o cilindro como a escola, o teatro e a biblioteca; o cone como o monumento que permite a referenciar a cidade ao seu lugar; o paralelepípedo suspenso sobre pilares como habitação coletiva; as formas vernáculas italianas como habitação unifamiliar (Carlo, 2002).

 

Rossi descobre na tipologia a possibilidade de invenção de formas que evoluem no tempo - e ao ser uma constante da cidade, forma a arquitetura ao utilizar mecanismos que ultrapassam o mero funcionalismo moderno. Ora, Rossi trabalha a partir do processo da analogia retomando temas do vernáculo, valores e necessidades intemporais que busca no passado. Rossi dá, assim a possibilidade ao Homem de interpretar continuamente o seu tempo e o seu lugar através de permanências que estruturam a cidade.

 

Ana Ruepp

GLOBALIZAÇÃO E NACIONALISMO NO FUTEBOL

 

Sendo o futebol um desporto globalizado, o seu mercado internacionalizou-se, o que levou a que os melhores treinadores e jogadores nacionais, de vários países, como José Mourinho e Cristiano Ronaldo, entre nós, fossem contratados por clubes estrangeiros mais ricos. Constitui um fenómeno crescentemente global, que uma percentagem significativa ou maioritária de jogadores de uma seleção nacional de futebol sejam jogadores estrangeiros, naturalizados nacionais, ou jogadores nacionais que jogam em clubes estrangeiros. O que não impede os adeptos nativos de sentirem como nacionais as vitórias da seleção nacional. Mesmo quando para esse sucesso desportivo é reconhecidamente decisivo o desempenho de jogadores não brancos, nomeadamente na Europa. Igualando ricos e pobres, etnias e raças, num unanimismo emocional e coletivo desejável e desejado, o futebol igualiza em imagens idílicas de celebrações triunfalistas, rumo a uma globalização pacífica e ausente de conflito, ansiada e opinada por muitos.

 

Só que, analisando melhor, o fenómeno da globalização, tão patente e potente na economia e finanças, não aparenta ter penetrado no futebol, onde se indicia, cada vez mais, uma ligação nacionalista e clubística. Seja como disputa entre nações, como competição de autoafirmação nacional, como altar ou salvação da pátria, a que os próprios políticos e governantes prestam honras e vassalagem, o mundo futebolístico, com o seu ícone da bola salvífica, não resiste à ideia de divergência e diversidade, o que pode ser exemplificado com o campeonato europeu de futebol.

 

Integravam tal competição, em 2016, 24 seleções nacionais. Entre elas a de Portugal, que foi campeão europeu. Há 28 anos eram oito, passando para 16, em 2012.

 

Na União das Associações de Futebol Europeu (UEFA), há seleções que não correspondem a países, tendo como exemplo mais antigo o Reino Unido, com quatro equipas: Inglaterra, País De Gales, Escócia e Irlanda do Norte, a que se juntou, muito mais tarde, Gibraltar. Com o colapso da União Soviética, além da Rússia, há mais dez países associados: Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorússia, Ucrânia, Moldávia, incluindo os euroasiáticos Azerbaijão, Geórgia, Arménia e o asiático Cazaquistão. A divisão da Checoslováquia originou dois países: República Checa e Eslováquia. A da Jugoslávia, seis: Eslovénia, Croácia, Sérvia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedónia. Sem esquecer a Turquia, minoritariamente europeia, bem como o asiático Israel. Além das seleções de Andorra, San Marino, Liechtenstein, Malta, Chipre, Ilhas Faroé e, recentemente admitido, o Kosovo. Estando pendente a candidatura da Catalunha.  E por que não, no futuro, o País Basco, a Flandres, a Valónia e a Lombardia?

 

Esta diversidade e pluralidade de seleções, com tendência a aumentar, com a exibição  de bandeiras e exposição de outros símbolos nacionais, galvaniza sentimentos clubísticos e nacionais, mesmo que cada vez mais as seleções integrem jogadores de várias origens. Mas se a naturalização de jogadores é determinante para que possam ser parte de uma seleção, conclui-se que a nacionalidade e nacionalismo no futebol globalizado, ultrapassam e desatualizam as fronteiras territoriais e o princípio da territorialidade inerente aos Estados e sua soberania. Ao mesmo tempo, autonomizam, autodeterminam e dão visibilidade democrática a povos e nações que rompem a unicidade e peculiaridades da globalização.    

 

17.01.2016

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

O’NEILL: UMA NOSSA TRAVESSIA

 

A beleza e o músculo dos seus poemas sempre me deixaram claro que o importante é viver na padaria da aldeia de cada um. E regar os gladíolos, e vestirmo-nos com traje de humor e em coração, a luta e a colcha que nos cobre os dias.


Ainda hoje leio o grande Alexandre O’Neill com a surpresa que me deixa sempre. A sua prosa, também marcada pelas influências surrealistas - ou não tivesse O’Neill sido um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa, com Mário Cesariny, José-Augusto França entre outros, tendo tido lugar as primeiras reuniões deste grupo na conhecida pastelaria Mexicana – utilizava um jogo de palavras lúdico e único e também se caracterizava por uma intensa sátira aos portugueses tão clara na expressão "meu remorso, meu remorso de todos nós".

 

O’Neill não conseguindo viver apenas da sua arte, chegou-se até ao campo da publicidade e é da sua autoria o lema

 

«Há mar e mar, há ir e voltar» ou, da campanha desse Verão «Passe um Verão desafogado».


Alçada que tanto admirava Alexandre O’Neill e que sempre foi seu grande amigo, relatou-me que um dia tinha perguntado ao O’Neill, qual seria a razão do bom entendimento deles, ao que Alexandre teria respondido, dizendo de imediato “A gente dá-se bem porque não se leva a sério”.

 

António Alçada considerava-se neste grupo de amigos, um crente entre os ateus e uma vez, num táxi, seguia O’Neill com José Cutileiro e disseram adeus ao António Alçada quando por acaso o avistaram. E o Alexandre terá dito para o José Cutileiro: “O António ficou a pensar: lá vão aqueles para o ateísmo”.

 

Um dia o António escrevia a sua crónica para a revista Máxima quando me disse: “Sabes que o José Cutileiro tinha bons versos? Recordo aquele “De si me sirvo amor como de tudo” e, como o declamou ao lado do Alexandre, este, fez-lhe o reparo

 

Falta aí uma vírgula. De si me sirvo, amor, vírgula, como de tudo.

 

Alexandre O’Neill sempre com humor era um prazer ouvi-lo, uma verdadeira fonte de achados linguísticos, assim me transmitiu o António Alçada num dos múltiplos dias em que do Alexandre me falou.

 

E tendo acordado naquele Domingo com um poema do Alexandre na memória, o António telefonou-me e lá fomos almoçar ao restaurante em Sintra. A verdade, é que a dada altura, subíamos a Serra de Sintra na 4L do António, enquanto eu lia em alta voz um poema do O’Neill que começava

 

Congresso de gaivotas neste céu

Como uma tampa azul cobrindo o Tejo

 

- Ó António!, gritei-lhe, olha que não estamos a subir. O carro não sobe?

- Olha Teresinha senti o mesmo, mas não queria interromper o poema.

- Ó António, não estás a ver que trazemos o caixote do lixo agarrado ao para-choques?

E continuei

Querela de aves, pios, escarcéu.

Ainda palpitante voa um beijo.

 

E o Alçada olhou-me e comovidamente disse-me:


Ó Teresa ainda bem que não paraste a leitura do poema do O’Neill. Foi a melhor homenagem que lhe fizeste: o caixote do lixo pode perfeitamente querer ouvir o poema de um beijo.

 


Teresa Bracinha Vieira

 

OBS: Há seis anos atrás este maço de palavras foi publicado no Blogue do CNC. Quando o escrevi achei-me num eixo de orações a galope na saudade. Reli-o hoje, e no avesso do ido encontrei o que sempre será.

SOCIEDADE DE INSTRUÇÃO TAVAREDENSE

 

REFERÊNCIA A UMA ASSOCIAÇÃO TEATRAL CENTENÁRIA
 

A cultura e a prática teatral, no que respeita à criação de infraestruturas e à produção de espetáculos, é pródiga em surpresas, quando assumida numa perspetiva de análise que transcenda o imediatismo da atividade profissional em termos globais. O que significa, portanto, que o espetáculo teatral transcende em si mesmo o âmbito imediato do exercício da profissão e da produção profissional. Os grupos de amadores, por esse país fora, constituem assim uma expressão muito marcante da cultura e da prática teatral.


É evidente que o profissionalismo surge num plano abrangente, sobretudo no que respeita a atores, encenadores e técnicos do espetáculo: e a montante, encontramos uma função didática e cultural que subjaz e viabiliza o espetáculo em si, seja ele amador, seja ele profissional, para usarmos uma classificação imediatista, digamos assim. E vale acrescentar que quem anda neste mundo da criação/produção cénico-dramatúrgica terá sempre presente a realidade do meio teatral português, onde tais classificações, por motivos que todos conhecemos, são no mínimo subtis e quantas vezes meramente formais!


Vem tudo isto a propósito de uma entidade que, no plano de exercício cultural/ não profissional de ação ligada ao teatro, atinge, há mais de um século, um notabilíssimo nível e mérito. E mais: desenvolve a sua atividade teatral a partir de uma infraestrutura notável também no ponto de vista de espaços edificados. Trata-se da Sociedade de Instrução Tavaredense (SIT), fundada em 1904 em Tavarede, concelho da Figueira da Foz: a qual, concretamente desde esse mesmo ano, mantem uma tradição de espetáculos teatrais de amadores, que dura até hoje, o que é realmente notável.


E pomos o maior destaque e elogio no termo e na expressão “amador”, aqui plena e exuberantemente justificada. É que efetivamente os atores que mantêm o grupo de teatro são amadores no duplo e integral sentido do termo: não são artistas profissionais, mas são artistas que amam, produzem e realizam, de forma digna e qualificada, a arte do teatro.


Em 2004, a SIT publicou um vasto volume de cerca de 300 páginas profusamente ilustradas, evocativo da ação centenária da agremiação. Sobressai a tradição de atividades teatrais, desde logo iniciadas. A inauguração deu-se precisamente com a estreia de um espetáculo a partir de duas comédias e um entreato cómico, tudo fruto de produção local: como de produção local foi o espetáculo seguinte, agora com uma opereta, da autoria de um compositor e maestro, de seu nome João Nunes da Silva Proa. E desde aí, e até hoje, encontramos centenas de produções teatrais e musicais, alternando autores-amadores com grandes nomes do teatro, sobretudo mas não só, do teatro português.


Citamos designadamente peças de Salvador Marques, Luis Maria Bordalo, Mark Twain, Manuel Laranjeira, Camilo, Bento Mântua , Octave Feuillet, Julio Dinis,, Ramada Curto, Jorge Ohnet, Pinheiro Chagas, Carlos Selvagem, Marcelino Mesquita, Manuel Frederico Pressler, Gil Vicente, Henrique Lopes de Mendonça, Rui Correia Leite, Alice Ogando, Garrett, Vasco Mendonça Alves, D. João da Câmara, Alexandre Casona, Luis Francisco Rebello, Shakespeare , Gervásio Lobato, Pirandello, Molière, Diego Fabri, Alves Redol, Camões, Molière, Marivaux, Henrique Galvão, Alfredo Cortez, Maria Rosa Colaço, Fernando de Passos, Adolfo Simões Muller, Gervásio Lobato, Bernardo Santareno, Anton Tchekov, José Régio…


Esta lista não é exaustiva, longe disso. E mais: acresce ainda uma larga referência a peças de teatro declamado e de teatro musical, de autores e temas ligados diretamente à região. Tudo isto referido, analisado e ilustrado numa excelente edição de Vítor Medina. (cfr. “Sociedade de Instrução Tavaredense – Cem Anos”).


Importa então recordar que a SIT se instalou, em 2004, num edifício conhecido como a Casa do Ourão ou Casa do Terreiro. Objeto de obras sucessivas, o edifício seria melhorado e como que reinaugurado em 1965, numa abrangência cultural que assume especial relevância da sala de espetáculos e na biblioteca, em fase aliás de nova remodelação. Trata-se, com efeito, de um excelente edifício de teatro, de convívio social e de cultura popular.


Em 1968, Luis Francisco Rebello referiu a ação da Sociedade de Instrução Tavaredense como a expressão de um ”verdadeiro amor pelo teatro”. De lá para cá, esse amor pelo teatro desenvolveu-se e consolidou-se: João Miguel Amorim, Vice Presidente da SIT e diretor cénico do grupo de teatro, que me acompanhou na visita, informou que no último triénio registou-se uma média de algo como 3 mil espetadores/ano.


O que é realmente notável.

 

DUARTE IVO CRUZ

LONDON LETTERS

 

The History begins, 17-20 January 2017

 

“I do solemnly swear.” Antes de proferir o oath of office a 20 January 2017 como 45th President of the United States of America, logo, por inerência: The Leader of The West, Mr Donald John Trump afirma em entrevista ao The Times clássica frase definidora: “I am not a politician.”

À altura de Quintus Tullius Cicero, pois, logo rasga o US Foreign Policy Playbook. Aplaude a Brexit como “a great thing,” censura Der Bundeskanzlerin pela sua política de abolição de fronteiras e ainda rotula a NATO como “obsolete” e prefetiza que a European Union está “doomed to break up.” A moderação não residirá na White House. — Chérie! Charbonnier est maître chez soi. Com promessa transatlântica de rápido acordo comercial e notável popularidade, a Prime Minister RH Theresa May aposta em “clean break” com a EU. O Sun tudo sintetiza como “Great Brexpectations.” — Well! A farmer has a fox, a bag of grain, and a rooster that wants to ferry across a river. Northern Ireland embrulha-se em nova eleição ao longo das suas velhas clivagens políticas. O Centre Pompidou comemora 40 anos e avança com restauração de €90m que reedita a controvérsia arquitetónica no centro histórico de Paris that we know. A Oxfam descobre a relatividade material quando oito bilionários possuem hoje metade da riqueza terrestre. Para a eternidade partem Lord Snowdon, o galã outrora casado com a Princess Margaret, e Mr Eugene Cernan, the last man to walk on the Moon.

 

We are were we are. And what a weird political week! Snow, full moon, strikes and The Donald! Se à neve por cá sobrevém chuva suave entre a torrente de greves e a crescente agitação no NHS, a semana é tempestuosa na Europe within extraordinary events in New York. De além oceano abundam desordenados sinais de que The US Inauguration não trará a mesma America com um diferente presidente. O Trump phenomenon espalha ondas de choque em torno do globo e o senhor ainda nem sequer tem as chaves do Oval Office. Incoming, tanto acusa a prestigiada CNN de ser “fake news” como aponta o dedo a Frau Angela Merkel como responsável de “a catastrophic mistake” nas políticas da emigração. Os episódios possuem lastro e consequências. A chanceler pede pronta audiência ao sucessor de Mr Barack Obama. No imediato, porém, fica sem resposta. Com eventual germanofobia no horizonte, pesa também a nebulosa visão de reforma na NATO: “big, bureaucratic, costly and obsolete.” Aqui, DJT estremece o continente europeu até aos Urals. E avulta a vontade indefinida do President-elected de apaziguar as glaciais relações entre Moscow e Washington, precisamente quando a CIA&co desbrava a cyberwarfare dos russos e Mr Vladimir Putin ocupa parcela da Ukraine. Mas visíveis são já os contornos de cedo Reykjavik Summit 2.0. Donde: aspirando a erguer uma nova ordem mundial, tem Mr Donald J Trump a estatura de um President Ronald Reagan? E qual o papel da special relationship?

 

Na entrevista ao Times, realizada em simultâneo com o Bild e conduzida por nenhum outro senão o Tory MP Michael ‘Knife’ Gove, o abrasivo eleito tem doces palavras para com o reino da mãe: Mrs Mary Anne MacLeod, uma escocesa de Tong (Stornoway) que, em November 1929, aos 17 anos, embarca no S.S. Transylvania rumo a New York City. O US President-elected DJ Trump promete agora tratado comercial com o UK, “fair, quickly and properly,” enfatizando querer conhecer a Queen Elizabeth II, cooperar com HMGovernment e ver a Brexit como “a great thing”. Dois dias depois é a vez de a Prime Minister Theresa May marcar a fogo a agenda mediática. Dentro de poucas horas, no cenário imponente de Lancaster House, em pleno Mall de London, num major key-speech, a PM repetirá que “Brexit means Brexit” e clarificará que o divórcio com Brussels será “a clean break.” Ou seja, diz não a qualquer acordo híbrido. Espera-se que o No 10 apresente a 12-point plan for Brexit, destilado dos quatro princípios de início traçados: “Certainty and clarity, A stronger Britain, A fairer Britain & A truly global Britain.” Nestes termos proporá Downing Street a "new and equal partnership" entre uma "independent, self-governing Global Britain" e os “friends and allies in the EU.” A frase-âncora é claríssima e sanguínea será a reação dos mercados: "Not partial membership of the European Union, associate membership of the European Union, or anything that leaves us half-in, half-out.” Depois, é o clarim real a reunir.

 

 

Na curiosa conjuntura que corre, na alva até de cimeira na Hofdi House em Reykjavik (Iceland), eis também a BBC a retomar a dramatização dos clássicos de espionagem de Mr John Le Carré. Com perfeito sentido de oportunidade face ao kompromat dossier em circulação sobre alegados laços do próximo inquilino do Oval Office com o Kremlin, 35 páginas da autoria de um ex profissional do MI6 saído da cepa de Cambridge e que um furioso Donald JT desmente por inteiro (na mais extraordinária conferência de imprensa de que há memória, e obrigatoriamente a ver), a companhia pública agenda a first onscreen adaptation de The Spy Who Came In From the Cold. Recordareis ainda a notável versão cinematográfica de Mr Martin Ritt, de 1965, também britânica, a preto e branco, protagonizada por Mr Richard Burton (como Alec Leamas), Mrs Claire Bloom e Mr Oskar Werner. Se o filme é um must-see e o livro é um best-seller, altas expetativas envolvem este regresso à intriga internacional no pico da Cold War, em torno do checkpoint Charlie, numa murada Berlin preenchida pelas subtilezas de agentes duplos em perigosa pirâmide de matrioskas. — Humm. Always beware of the swift metamorphose of all things as Master Will resonate in his Sonnet LXIV: — When I have seen by Time's fell hand defaced / The rich proud cost of outworn buried age; / When sometime lofty towers I see down-razed, / And brass eternal slave to mortal rage; / When I have seen the hungry ocean gain / Advantage on the kingdom of the shore, / And the firm soil win of the watery main, / Increasing store with loss, and loss with store; / When I have seen such interchange of state, / Or state itself confounded to decay…

 

St James, 16th January 2017

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS


   De 16 a 22 de janeiro de 2017

 

«Confiança e Medo na Cidade» de Zygmunt Bauman (Relógio d’Água, 2006) reúne um conjunto de conferências do sociólogo polaco recentemente falecido em Leeds (Inglaterra), onde se colocam os problemas mais prementes das sociedades contemporâneas, em especial no tocante à fragmentação social e à resistência às diferenças.

 

UM PENSADOR CRÍTICO
Nascido em Poznan em 1925 Bauman foi profundamente marcado pela história europeia do século XX. Quando a Polónia foi invadida pelas tropas nazis fugiu com a família, de origem judaica, para a União Soviética. Alistou-se na divisão polaca do Exército Vermelho, sendo condecorado em 1945. Depois da guerra regressou a Varsóvia, onde se casou com a futura escritora Janina Lewinson, sobrevivente do ghetto de Varsóvia, falecida em 2009. Militou no Partido Comunista e estudou profundamente a obra de Karl Marx, numa perspetiva aberta e crítica. A sua obra caracteriza-se, porém, pelo ecletismo e pela recusa de qualquer ortodoxia. O antissemitismo manifestado nas perseguições de 1968 por ocasião dos protestos de estudantes e intelectuais levaram-no a abandonar a Polónia, partindo para Telavive, onde viveu até 1972, momento em que partiu para Inglaterra, para exercer funções docentes na Universidade de Leeds. A guerra, as purgas e o exílio influenciaram a sua vida e o seu pensamento inconformista e heterodoxo. Foi o conceito de «modernidade líquida» que o celebrizou, do mesmo modo que em 1989 o seu «Modernity and Holocaust» teve uma grande divulgação. Aí considerou que o programa de extermínio levado a cabo pelo regime nazi foi um acontecimento ligado à modernidade, vista nas suas dimensões técnico-científica e político-ideológica. Para o sociólogo polaco, vivemos uma época que se caracteriza pela fluidez, pela precariedade, pela transitoriedade, pelo imediatismo e por aquilo que não se deixa apreender. A essa realidade chamou «sociedade líquida». Desde o domínio económico ao plano afetivo, vivemos essa tendência para a liquidez – de certo modo como Gianni Vattimo fala do “pensamento débil”. Como afirmou Fernando Vallespin há pouco: trata-se de uma «organização social em que nada permanece, em que tudo é fugaz, incompleto, indefinido, onde, com efeito, tudo o que é sólido se desvanece no ar» (El Pais, 10.1.2017). Daí uma séria preocupação com a perda da dimensão ética pública. Falta um sentido de missão coletiva, que esteve associado à modernidade. O poder deixou a esfera política e fugiu do controlo democrático. Os direitos económicos escaparam ao Estado Social. Os direitos políticos foram dominados pela teologia do mercado. Os direitos sociais foram enfraquecidos e reduzidos pelo individualismo fragmentário. Os cidadãos viram-se desprotegidos num mundo que não dá segurança, sofrendo a precariedade, que cria um novo proletariado, ainda que sem consciência de classe.

 

UM MUNDO INSEGURO
«O mal já não reside só nas guerras ou nas ideologias totalitárias (recorda ainda Vallespin), assenta também na indiferença ante o sofrimento dos demais, como na questão dos refugiados, ou nas “orgias verbais de ódio anónimo (…)” que encontramos na internet.» Bauman preocupou-se, por isso, com o consumismo, a imigração, a globalização e o fim das ideologias. É certo que na comunidade dos sociólogos muitos viram-no com desconfiança, no entanto compreendeu como poucos o que se estava a passar nas sociedades ocidentais, com os indignados em Espanha, o “Occupy Wall Street” em Nova Iorque e com os movimentos antiglobalização… Mas se se interessou pelas experiências, também criticou as suas debilidades e incongruências – dizendo que era mais fácil reunir um protesto do que construir propostas concretas. Contudo, se havia mal-estar importava dar-lhe resposta. O tempo confirmaria, aliás, essas preocupações – em especial perante o Brexit e a eleição de Donald Trump. Daí a crítica ao «ativismo de sofá», de quem julga possível mudar o mundo com um estalar de dedos ou das redes sociais, já que não se estabelece um verdadeiro diálogo entre pessoas e grupos de diferentes, limitando-se a funcionar em circuito fechado. Se alguns o consideraram pós-moderno, Bauman recusou o epíteto, porque falta perspetiva histórica para considerar terminada a modernidade. E apesar de analisar a pós-modernidade, dizia não se integrar nessa corrente, acrescentando, com o seu humor fino: afinal, um ornitólogo não precisa de ser um pássaro… Quanto muito vivemos uma versão privatizada da modernidade, «o fim da era do compromisso mútuo», segundo a lógica privada do interesse de cada um. Daí a crise da democracia, que deixou de pensar como se fazia na Ágora grega – onde se discutiam os interesses privados transformando-os em assuntos públicos, criando, a partir do interesse público, direitos e obrigações individuais. O símbolo da sociedade contemporânea deixou, assim, de ser o lar ou a casa (ethos e oikos) para se tornar o hotel, passageiro e incaracterístico. E a crise dos refugiados obriga, no fundo, à compreensão da ansiedade existente, contra a vergonha das valas e dos muros. Estava em causa a preocupação fundamental de Bauman – com a recusa do outro e com o medo relativamente ao diferente.

 

SOB O SIGNO DO MEDO
Em «Confiança e Medo na Cidade», Z. Bauman lembra que os medos modernos tiveram origem na redução do controlo do poder político sobre o poder económico, em especial com a desregulamentação dos mercados e a dissolução da solidariedade. Assim, a exclusão deixa de ser remediável, para aparecer como definitiva. E há uma polarização que leva os cidadãos da primeira fila a serem privilegiados e a reforçarem a sua importância e os que estão na outra ponta do espetro a perderem capacidade de agir e de satisfazerem as suas necessidades económicas. Os primeiros não estão ligados ao lugar onde moram, enquanto os segundos estão fora dos circuitos relevantes e condenados a permanecer no mesmo lugar. «Os poderes reais que criam as condições nas quais todos nós atuamos flutuam no espaço global, enquanto as instituições políticas permanecem de certo modo em terra, são locais». E as pessoas desarmadas perante a lógica global tendem a fechar-se sobre si mesmas – tornando-se as cidades espelho das contradições da globalização. Ghettos de ricos coexistem com ghettos de pobres, sem que haja fatores que os façam comunicar. Assim nasce o sentimento de medo do desconhecido ou do estrangeiro. A necessidade de segurança influencia a organização dos espaços e as construções – impondo uma lógica fundada na vigilância e na distância. O medo e a recusa do outro geram o medo de misturar-se (mixofobia) – mas há um desafio exigente para favorecer a mixofilia,. E Bauman é claro ao dizer-nos que «a fusão que uma compreensão recíproca exige só poderá resultar de uma experiência compartilhada e certamente não se pode pensar em compartilhar uma experiência sem partilhar um espaço». Eis por que razão o grande desafio das sociedades contemporâneas seja recuperar a dimensão comunitária do espaço público, como modo de aprender a arte de uma coexistência segura, pacífica e amigável.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Aqui tens o prometido texto, tirado de Um Beijo Dado Mais Tarde que, escreve João Barrento, arrasta consigo o estigma de um diferimento afetivo, de um atraso no tempo, de uma tensão dilemática com a memória. Ou, poderíamos também dizer já, pensando neste não romance de Maria Gabriela Llansol, um desfasamento entre a língua que nos é dada e a voz própria que um dia assumimos -  ou não. Por mim, encontro nele, também, quiçá sobretudo, a saída de um espaço-tempo real, mensurável, que eu próprio muitas vezes experimento, como já te disse, Princesa, ainda que sem o devaneio onírico de Maria Gabriela. Dou-lhe, a ela, a palavra:

 

   Bach canta pela voz de Anna Magdalena, é aquele que ocupa o centro do toucador, junto do espelho.

 

   Será uma profanação fazer diligência por encontrar a arte nos restos humanos? Será errado encontrar-me com o sagrado neste quarto, a olhar a forma sentimental destas figuras acompanhantes, e destes móveis? O que é meu não é meu, estou na parte do templo destinada aos que vivem envoltos em mistério. Assafora jacente é o fim de que nasce um ser, e faço-lhe uma festa tímida na testa, ou à silhueta de navio do seu ir-se embora; que toda a obscuridade seja móvel, e deslize para fora do quarto, mesmo a minha, pois não sei exprimir a ideia que me provoca aquele ser finito, com substância infinita. Será realmente infinita, ou engano-me nas palavras, manchando o canto com que entrei?

 

   A música já não é minha, percorre o corredor do espaço até à sala de jantar onde, numa certa cena, construí a minha infância. Que grande terror terem-me mandado até aqui, já não como filha da casa, mas como neblina muito densa de onde se espera a luz; ao fixar uma salva, tenho um sonho de prata desenhado a lápis no meu pulso; dos lagos, no seio das águas do mar   com um golpe de navalha; a partir do que nele leio, reconstituo a minha visão, que gostaria que fosse ouvida pela minha tia doente: estou na grande sala onde habitualmente vivo, e somos, no máximo, três; de modo natural, é noite lá fora, onde há um jardim com árvores soltas, cantadas por alguém que conhece o espaço; fitas douradas, lianas capazes de doçura, pendem dos ramos fixando nossos olhos; a noite ressai até dentro de nós e reparo na cómoda onde essas mulheres guardam os nomes que dão às coisas da sua conveniência; na primeira gaveta entreaberta, chove. Vou busca-la, e vejo que algumas palavras estão negras, enquanto que outras são azuis e douradas. - Também há tristeza no paraíso - diz-me Bach, que se liga a outra mão para a segurar. 

 

   Respiro. Fazem permutar as palavras. Inebriada por esse álcool, encontro-me na rua, também eu munida de desejo e de poder. Vou a uma loja que tem a porta quase coberta por um monte de palavras. Alguém, deitado no chão, procura penetrar o monte e eu baixo-me para impedir que as palavras se espalhem na rua; surge então, em lugar inferior às sílabas / letras e acentos, um ninho de gatos brancos que reconheci serem aves do paraíso. - Também há alegria sobre a terra - diz-me Bach.

 

   Gosto muito desta escrita. Não lhe faço comentários "técnicos", pois para tanto me faltam conhecimentos, competência e jeito. Creio que este texto não foi redigido no exílio belga da autora, mas já depois, talvez em Colares ou Sintra. Não sei. Mas tenho-o, para mim, que ele traz a marca indelével de um exílio interior, é mesmo sinal de uma vocação de exílio. Recordo um passo de carta que Maria Gabriela escreveu em 1980, em Herbais, Bélgica, lembrando a partida: Em dezembro de 1965 abandono Portugal. À falta de alguém ou de um animal para acompanhar-me na viagem aérea, levo nas mãos os "Salmos" de David; está presente a ideia do Êxodo. O Êxodo é uma aventura interior, não necessariamente uma viagem no espaço. Vivi mais de metade da minha vida fora do meu país, e trinta desses muitos anos de exílio passei-os entre gente que não falava a minha língua. Tudo isso aconteceu por opção minha, sem outras pressões além de uma vocação de desprendimento. Maria Gabriela Llansol emigrou para estar com seu marido, refratário à guerra de África. Mas assumiu o exílio como decisão sua, precisou de interiorizar uma presença fiel na ausência, a essência da saudade. Aí me encontro profundamente com ela, que nunca conheci. Não só pela vivência de um rasgão, mas pelo modo como se compensa: amor à língua materna, carinhosamente tratada e educada, e ainda a perceção de que, como Gabriela tão bem diz, para mim, o exílio faz parte da escrita, e não quero perdê-los; dá-me o afastamento de pressões, a distância para poder ver sem entraves e imaginar...   ... O exílio. A língua portuguesa já não a ouço quotidianamente à minha volta; nem a falo; os livros dos escritores portugueses são-me enviados e eu principio a criar as representações da língua ausente... E sobre o extremo ocidental do Brabante, onde se refugiou, escreve: Reconheço que sempre vivi nesse país sem tentar mergulhar nele, e torna-lo meu; mas como poderia ser diferente, se eu própria me afastava daquele em que tinha nascido e, pouco a pouco, não possuía do passado senão uma língua de que nada, nem ninguém, conseguiriam separar-me.

 

   E será acerca do seu primeiro livro, inteiramente escrito na Bélgica, que ela confessará, no esboço de uma carta dirigida à Moraes Editora, em 1977, publicado, mais tarde, no Livro de Horas II - Um Arco Singular (Lisboa, Assírio e Alvim, 2010) que momento tão importante como o da aprendizagem da escrita foi o da escolha do exílio. Exílio corporal, não presença, mas também a lenta aquisição do espírito da distância, onde "O Livro das Comunidades" nasceu e se vai apagando a cartilha das referências, hierarquias que estratificam a posse e o uso do poder, e a categorização espontânea do tempo; os livros que se seguem (como dizer?) continuam a luta contra a minha cultura. Sempre penseissenti o amor como fator de transformação, posto que não pode, não deve quedar-se; antes vive precisamente por ser atuante. No entendimento dos casais, como na educação dos filhos ou discípulos, o labor amoroso também sabe remar contra a maré. Assim nós, portugueses, devemos amar a língua portuguesa, a nossa Pátria, diria Pessoa, cultivando-a. E qualquer cultura implica uma forma de amorosa violência... A ousadia é o princípio do amor, a transformação renovadora o seu pão de cada dia. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira