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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

A MATA DO SOLITÁRIO

 

1. Faz tempo que não nos víamos. A 27 de agosto, bem avisei que nas próximas cinco semanas não ia haver eu. Mas prometi que voltava a 8 de outubro, "se Deus quiser". Temente a Ele, não posso dizer que foi Ele quem não quis (embora a conversa desse pano para mangas). Eu é que preguicei mais um bocado. Cumprir prazos nunca foi o meu forte nem a minha reputação. Para quem deu pela minha falta, aqui ficam as minhas desculpas.

 

2. Por onde é que eu andei? Tirando um saltinho a Veneza, para festejar em corpo e alma o segundo Leão de Ouro do meu querido Manoel de Oliveira (em 1985, nessas duas espécies, festejei o primeiro, contava ele apenas 76 anos e já libertava as almas cativas) fiquei-me pela Arrábida como é meu setembral costume. Mas, contra todos os costumes, consegui a proeza de não sair de lá entre 13 e 30, dezassete dias bem contados. Fui de retrato em retrato, como em próxima crónica contarei, andei pelas praias e nadei pelos mares, com a mercê do calor. Não se deve ser mal agradecido, mas prefiro, a estes verões póstumos de 2004, os setembros de antigamente, quando às 6 da tarde o tempo se fazia mui fresco e apetecia passear pela serra, bem sabendo embora que "em setembro, às 8, já é noite". Nem sempre me lembrei, donde algumas "aventuras", dessas que tanto assustavam os crescidos e faziam a felicidade da minha neta Sofia, agora juntinha a M. de La Palisse nas muralhas de Pavia. Este ano não houve aventuras nenhumas e a noite mais perdurável foi aquela em que, chegado ao Beira-Mar (é um restaurante no Portinho), me não apeteceu muito nenhum dos peixes que constavam da ementa. "Apetece-lhe salmonetes?" perguntou-me o simpático Lousão, dono do dito. Que sim ou como não, respondi-lhe em bom português, desse só aparentemente contraditório. Pediu-me dez minutinhos, o tempo de um copo. Acabado ele, apareceu-me com uma rede de salmonetes vivos, ainda a saltar, como aqueles que apareciam, nos anos 40 ou 50, à porta da cozinha da Vila Raul, noite dentro, trazidos pelos pescadores. Pedir salmonetes num restaurante e eles não virem do frigorífico mas direitinhos do mar é coisa que pensava não me voltaria a suceder. Sucedeu mesmo e tenho testemunhas. Trinta anos depois da revolução, a doçura de viver ainda existe. E salmonetes como os da Arrábida, não os há em nenhuma outra parte do mundo.

 

3. Volto do mar para a Serra. Num dos raros passeios deste Verão, tornei à Mata do Solitário, no vale entre o Monte do Guincho e a Serra do Risco. "Mata das bruxas", chamava-lhe a minha Mãe, quando éramos pequenos e continuei eu a chamá-la para os meus filhos e netos. Entre os adernos, os olhados, a aroeira e os grandes carvalhos e medronheiros, é uma das matas mais gloriosas da Arrábida e nunca ouvi a palavra floresta (como essa onde se perderam o Polegarzinho, o Joãozinho ou a Guidinha) que não a visse na minha frente, estivesse onde estivesse. Em miúdo, era capaz de jurar que vira mesmo bruxas por lá, depois do sol se pôr e antes da lua nascer. Vindo de Alportuche, onde então morava, onde agora moro, era um passeio pequeno, bem próprio para crianças. Estrada acima, nesse lado que, mais tarde, me ajudou a perceber o que era o lado de Guermantes, andavam-se uns dois quilómetros. Depois, a entrada na mata por um carreirinho do lado esquerdo da estrada, uns metros adiante de um centenário carvalho, que tem fama de já ter dado sombra ao Senhor D. João V, quando o Duque de Aveiro lhe oferecia uma batida aos javalis. Dez minutos, não mais, bastavam para chegar a uma vasta clareira, no coração do vale, sobranceira ao mar. Chamávamos-lhe (chamamos-lhe) o Calhau do Frederico, mas o termo é mal aplicado. O Calhau (termo da região para designar uma armação de pesca) ficava lá em baixo, junto ao mar e à Lapa do Peixe-Homem, a das águas mais verdes que já estes meus olhos viram. O caminho continua da clareira para o mar e dá mesmo o único acesso por terra ao tal Calhau. Só que essa segunda etapa já não fazia parte dos nossos passeios de criança, pois que, como o outeiro do Canto IX, era bastante mais fácil de descer que de subir e nem mesmo possantes adultos se achavam com força de nos trazer às cavalitas, de volta dos penhascos. Frederico porquê? Porque o dono da armação era um tal Frederico Fernandes, que também deu nome a um Poço na Charca ("Quem por este poço passar / e uma pedra não deitar / nunca mais se há de casar") e tinha uma lenda assaz curiosa. Fixou-se na Arrábida (no Portinho, zona de que era proprietário) cerca de 1870, aos vinte anos, época em que, para além dos pescadores, devia ser o único morador da região. Tinham-lhe diagnosticado uma tuberculose e pouco tempo lhe davam de vida. Segundo a fábula, curou-se na Arrábida, onde viveu até quase aos 90 anos. De cada vez que se aventurava até Azeitão tinha uma hemoptise. Regressado aos seus calhaus, os pulmões deixavam de lhe sair pelas goelas, se bem me lembro do meu José Duro, e ficava rosado como uma maçã reineta. A minha Mãe descrevia-mo como um velho alegre e prazenteiro, de cabelos e barbas muito brancas. Depois da morte dele, a armação ficou ao abandono e o ciclone de 41 acabou por a destruir. Mas os alicerces eram bem visíveis e quem saiba ainda pode detetar restos deles. Agora tudo está muito diferente. O caminho, só mesmo quem o conheça bem ainda é capaz de o achar e a clareira está reduzida a metade (ou nem isso) porque a vegetação rasteira cresceu imenso e quase a cobriu. Mesmo assim, continua a ser um sítio mágico, entre as duas colinas escarpadas e o mar vagarinhoso cá muito em baixo. Não se vê viv'alma nem sítio onde a mão do homem tenha posto o pé. Prolongando tradições ancestrais, tenho por hábito pedir aos miúdos que se calem e ouçam o silêncio. Este ano, a minha neta Maria, quando depois lhe perguntei o que o silêncio a fizera escutar, respondeu-me: "Os anjos." Não me admirava nada.

 

4. A mata chama-se do Solitário porque, segundo a tradição, nela viveu, no século XVII, um minorista que aí construiu habitação. O local era propício, pois muito próximo fica uma das raras fontes da Arrábida (a água é rara na Serra, devido à estrutura calcárea), a chamada Fonte do Solitário. Havia (se procurarem bem ainda há), mas está quase intransitável, um caminho que a ligava ao Convento, pois que os monges também se abasteciam ali. Minorista chamei-lhe, em consonância com as fontes mais fiáveis. Mas também ouvi dizer que era santeiro (da escola de olaria de Paio Pires) e curandeiro. E como as lendas na Arrábida são como as cerejas (que é coisa que lá não há) dizem-no ainda conspirador, envolvido na conjura de 1641 contra D. João IV, esse que levou à degola o marquês de Vila Real, o duque de Caminha, o conde de Armamar e D. Agostinho Manuel, entre vária outra gente de menos algo. O santeiro conseguiu fugir a tempo e refugiou-se na Serra da Arrábida. Até por razões políticas, o sítio não foi mal escolhido. A serra era pertença da casa de Aveiro, que os Filipes tinham sempre tratado com sumo favor. O 4º Duque, D. Raimundo, como sua mãe, a Duquesa de Torres Novas, D. Ana Manrique de Lara, aos quais se deve o Convento Novo e o maior fausto dos arrábidos, não escondiam simpatia pelos espanhóis em rocambolescas histórias (talvez justifiquem muitas das construções da serra, se as chamadas ermidas foram edificadas para fins militares e não pios) que duraram até 1666 e passaram pela execução em efígie de D. Raimundo, em 1661.

 

Seja como for, o Solitário terá estado bem acompanhado na Arrábida, sem temer delatores. Prosperou a ponto de aí fazer a tal casa, exercendo a sua arte em imagens para o novo Convento e sarando as gentes de Azeitão, que até à Mata viajavam pelo caminho do Regato, atravessando os Casais da Serra (esse caminho ainda existia quando eu nasci). Terá ali vivido entre 1641 a 1666. Um belo dia, desapareceu. Ou foi finalmente descoberto e pagou o crime antigo (é a versão mais plausível) ou foi engolido pela Serra, que tem fama de ter feito desaparecer muita gente. Esta ultima é a história mais popular e a que explica o nome da Lapa do Médico, gruta situada próxima do caminho entre a Fonte e o Convento. Quando a dita Lapa foi descoberta, algures no século XVIII (a habitual história do pastor que demandava ovelhas tresmalhadas) diz-se que, no fundo dele, foi achado um esqueleto. Existindo ainda memória do desaparecimento do Solitário, logo houve quem pensasse que as ossadas eram as dele, promovido na toponímia de curandeiro a médico, o que a evolução da ciência ajuda a explicar. Hoje, tudo isso (quero eu dizer, os restos materiais disso) desaparecem aos poucos, em meio à incúria a que a serra foi votada e de que já falei em crónicas pretéritas. Das ruínas da casa do Solitário, onde quer eu quer os meus filhos tantas vezes brincámos (ainda tinha paredes e tetos nos anos 60) já mal se advinham vagos restos, só possíveis de alcançar com as roupas esfarrapadas. Da última vez que o tentei (e já lá vai uma meia dúzia de anos) demorei uma tarde para chegar da Fonte do Solitário à Lapa do Médico, o que antigamente se fazia em vinte minutos, com uma perna às costas. 

 

Desapareceu, assim, uma das minhas aventuras favoritas da Serra. Conduzir "estrangeiros" até à entrada da gruta e vê-los recuar, aterrorizados, perante um buraco no chão por onde mal cabe um corpo humano. Quem vence o temor é compensado pela sucessão de galerias, estalactites e estalagmites, de enfilada até aos catafúndios, aí uns 100 metros abaixo do nível do solo. Mas ai de quem se aventure nela sem lhe conhecer os meandros e sem luz de sobra. Entrará, mas não sairá, a não ser eventualmente em esqueleto, como o Solitário da Mata, que, só por acaso, ou porque há Deus, não desapareceu já toda num dos incêndios como o de julho deste ano. Na Mata do Solitário, sinto-me cada vez mais solitário. "Alone with my memories", como dizia o Groucho Marx no "Room Service". Assim se passou um Verão de Setembro augustinado e de ocasos singulares.

 

por João Bénard da Costa
15 de outubro 2004, Público

A VIDA DOS LIVROS

 

De 3 a 9 de abril de 2017.

 

Luísa Ferreira acaba de publicar «Ao Encontro de Damião de Goes – Para José Mariano Gago» (2017) um imperdível pequeno livro de imagens, onde relata um singelo mas muito significativo ato de homenagem de José Mariano Gago ao grande humanista português Damião de Goes, que tanto admirava e que se apresenta como símbolo do combate determinado contra a mediocridade e a ignorância, contra a intolerância e o fechamento.

 

EXPEDIÇÃO A ALENQUER
Na Galeria da Livraria Sá da Costa, pudemos ver expostas as fotografias de Luísa Ferreira e ouvir Luís Filipe Barreto e Karin Wall a invocarem os dois percursos de vida que se misturam na memória longa, uma vez que José Mariano quis que alguns dos seus últimos passos se dirigissem ao Renascentista. Tratou-se de uma expedição a Alenquer, ao encontro de Damião de Goes, no dia 9 de março de 2015, segunda-feira. “Mariano falou-me (…) sobre Damião. O grande humanista português do século XVI nasceu e morreu em Alenquer, depois de ter passado muitos anos fora do país. Foi viver para a corte aos nove anos e o Rei enviou-o para a Europa. Conviveu com Erasmo de Roterdão, entre outros pensadores, comprou e partilhou obras de arte, voltou a Alenquer onde adquiriu uma quinta e sofreu com a Inquisição”. Foi com estas referências que Luísa Ferreira aceitou o desafio de ir com José Mariano, para este olhar de frente o retrato que o próprio cronista mandara gravar na pedra. Infelizmente, o busto está hoje bastante danificado, apresentando um rosto alterado pelo tempo. Mas ele queria ver a efígie de Damião de Goes, para poder olhá-lo, para sentir a sua presença e para oferecer a sua representação à Real Academia Belga, onde dele falara. “Fotografia é estar com os outros, mostrar-lhes, ver”. E sobre o ato de registar imagens, Mariano gostava de recordar Alhazen, o físico e matemático árabe do século XI, que escreveu “o primeiro tratado decente sobre Ótica”, construindo diversas câmaras escuras como meio de experimentar um novo modo de considerar e de conhecer a visão humana…

 

PERCEBER PORTUGAL
Durante um ano Damião de Goes acompanhou José Mariano. A Descrição da Cidade de Lisboa (1554) era revisitada com especial prazer. Tornou-se leitura de cabeceira. O pequeno opúsculo “foi por ele escrito (na Flandres) quando todos os dias chegavam a Antuérpia galeões portugueses com especiarias das Índias – e a Europa queria perceber Portugal – e entender Lisboa”. E lembramos o que está escrito relativamente a uma cidade que rivalizava “com todas as outras cidades da Europa, tanto pelo número de habitantes, como pela beleza e variedade das construções”… É a Cidade Global, documentada na exposição do Museu Nacional de Arte Antiga, descrita pela pena de Damião de Goes. “Passando a Rua Nova do Rei, que transborda de entalhadores, joalheiros, ourives, cinzeladores, fabricantes de vasos, artistas de prata, bronze e de ouro, bem como fanqueiros; cortando à esquerda, chegaremos a uma outra artéria que tem o nome de Rua Nova dos Mercadores, muito mais vasta que todas as outras ruas da cidade, ornada de um lado e de outro, com belíssimos edifícios. Para aqui confluem todos os dias, à compita, comerciantes de quase todas as partes do mundo e suas gentes, em concurso extremo de pessoas, por causa das vantagens oferecidas pelo comércio e pelo porto”. O livrinho “deu a volta à Europa e contou o que era Lisboa nessa época (um tanto desgraçada de ódios e guerras de religião). Sendo Damião de Goes o grande humanista português do século XVI e que sempre conseguiu defender a tolerância! Contra os ódios”. É a letra de José Mariano Gago que no-lo diz. Apesar de o rosto do humanista estar deteriorado, a verdade é que é, segundo testemunhos coevos, o mais próximo da realidade. Podemos, porém, recordar o epitáfio fotografado nos finais do século XIX, na igreja da Várzea, onde se vê o busto antes de ter sido danificado. O túmulo está na igreja de S. Pedro, desde 1941, vindo da Várzea. E o próprio Damião de Goes, na descrição de Lisboa, fala-nos da sua terra natal: “A meio, pouco mais ou menos, do curso do Tejo, na margem de cá, indo para o poente, fica a fortaleza de Alenquer – a terra onde nasci -, e que, segundo Resende, os antigos chamavam Gerobriga”. Na capela de S. Pedro, em Alenquer, estão representadas as armas de Damião de Goes, dadas pelo Imperador Carlos V, e as de sua mulher D. Joana de Hargen. “Ao maior e ótimo Deus, Damião de Goes, cavaleiro lusitano fui em tempos; corri toda a Europa em negócios públicos; sofri vários trabalhos de Marte; as musas, os príncipes e os varões doutos amaram-me com razão…”. A cabeça do humanista esteve guardada durante anos até ser colocada na igreja. E conta-se que antes foi vista a rolar na rua a servir de brinquedo para as crianças… Mas José Mariano quis confrontar-se com o estado atual da pedra, sabendo que foi ela que o humanista mandou esculpir, numa representação fiel. Depois dos tratos de polé a que foi submetida, importava recordar a memória do cronista e diplomata em pelo menos três facetas: a do espírito aberto e livre, lutador pela tolerância e companheiro de outros grandes humanistas; a do português regressado à pátria, incompreendido, perseguido pela injustiça inquisitorial e porventura assassinado; e a de um exemplo maior da cultura portuguesa cujo monumento funerário foi sujeito a um ignóbil tratamento, por ignorância e desmazelo.

 

UMA CARTA DE ERASMO
Simbolicamente, lemos ainda no Caderno de Alenquer uma Carta de Erasmo de Roterdão a Damião de Goes. Não está aí por acaso. Sentimos o azedume das incompreensões. “Os italianos a cada passo arreganham contra mim, em opúsculos maléficos. Em Roma foi imprensa (sic) a Defesa da Itália contra Erasmo, dedicada a Paulo III. A rixa nasceu de duas palavras minhas não entendidas e que estão nesta máxima: Micónio calvo, é dizer cita erudito ou italiano belicoso, - as quais eles interpretam como tendo eu censurado os italianos por serem pacíficos, quando a verdade é que nesta expressão a Itália foi louvada e não vituperada. Comer, beber, - são vocábulos médios; comilão, beberrão, palrador – toam como vício. De igual modo, belicoso não traduz louvor, que sim exprobação. Os citas, por seus costumes bárbaros e selvagens, desprezam todas as disciplinas liberais, inclinados só para as armas; os ítalos, esses cultivam a filosofia, as artes e a eloquência, que são fomentadoras de paz, diametralmente contrárias por isso às daqueles. Eis excelente matéria de defensão”. A presença de Erasmo, que conhecemos do Elogio da Loucura, significa a um tempo a crítica às mentes intolerantes e a necessidade de esclarecer as ideias pelo diálogo franco e aberto… Fica-nos um testemunho em prol do conhecimento e da tolerância, como valores assentes no respeito mútuo. “Criticar os costumes dos homens, sem atacar qualquer pessoa denominada, será efetivamente morder? Não será antes ensinar e aconselhar? Aliás, não faço incessantemente a crítica a mim próprio?” Erasmo dixit, e poderia tê-lo feito Damião de Goes… José Mariano pede-nos para não os esquecermos.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Perceberás adiante, nesta ou noutra carta, por que pergunto se o antónimo ou antinómico de edificante é deletério. Ocorreu-me tal interrogação ao cair-me nas mãos - no decurso desta atarefada arrumação de milhares de livros em que a mudança de casa me meteu - uma edição bilingue (Relógio d´Água, Lisboa, 2003) de Les Fleurs du Mal (1857) de Charles Baudelaire, com versão portuguesa de Maria Gabriela Llansol. Já tinha, e ainda conservo, duas edições francesas da obra, quando adquiri esta, num período em que apreciava cotejar originais e suas traduções por "nomes conhecidos" das letras portuguesas, como, entre outros amigos, Pedro Tamen, Vasco Graça Moura, etc...

 

   Sobre esta versão de As Flores do Mal, teimo em sentir que deparo com dois estilos distintos, a tal ponto que só posso afirmar que um poema é tradução de outro pela coincidência dos temas e a genealogia das inspirações, por vezes ainda porque uns e outros versos tocam as mesmas notas. A edição bilingue sublinha trechos do seu posfácio, que reproduz a Introduction que Paul Valéry escreveu para a edição francesa de 1926. Escolho um, assaz claro, de acordo com a editora portuguesa que, sabiamente, o destacou, quiçá para chamar a atenção para a tentação do original e o desafio da tradução:

 

   Há nos melhores versos de Baudelaire uma combinação de carne e de espírito, uma mistura de solenidade, de calor e de amargura, de eternidade e de intimidade, uma raríssima aliança da vontade com a harmonia, que os distingue nitidamente dos versos românticos, como os distingue nitidamente dos versos parnasianos...   ... Vemos hoje que a ressonância, passados mais de sessenta anos [este escrito de Valéry, não esqueças, Princesa, data de 1926], da obra única e muito pouco volumosa de Baudelaire preenche ainda toda a esfera poética, está presente nos espíritos, é impossível de ignorar, reforçado por um número notável de obras que dela derivam, que não são imitações, mas consequências, e que seria pois necessário, para ser equitativo, juntar à delicada recolha das "Flores do Mal" diversas obras de primeira ordem, e um conjunto de investigações mais profundas e mais subtis como nunca a poesia empreendeu. [Tradução de Manuel Alberto]

 

   Confesso - a ti, Princesa de mim, depositária de meus inauditos segredos - que não sei se prefiro a tradução que a Maria Gabriela Llansol fez de Un Cantique d´Amour (com o título, em português, de O Alto Voo da Cotovia - Relógio d´Água, Lisboa, 1999), de Therèse Martin, aliás, Santa Teresinha do Menino Jesus, à sua versão de Les Fleurs du Mal. Não confronto o pensadossentimento com que a escritora portuguesa verteu, para a sua língua, qualquer dessas obras tão diferentes. Tampouco me atrevo a pretender que uma ou outra se coaduna melhor com o pensarsentir o mundo, a alma e a vida de Gabriela. Só ela, ela e ninguém mais, poderia ter consciência disso. E mesmo esta não teria, ao calhar, a mesma densidade. Mas, por estranho que te possa parecer, vejo uma essência comum a ambas as versões, de obras aparentemente tão diversas e contrárias como flores do mal e lírios de castidade. Talvez lhe chame misericórdia, esse mistério de entreajuda universal, o primeiro dos nossos deveres e o eminente direito de cada um de nós. Caio aqui em pensarsentir a misericórdia como o poder gratuito de revelar e edificar a beleza escondida, de renovar o ser. Estranhamente, poucos entenderão que é precisamente essa gratuidade que Deus quer dar e que seja dada. Como nesse lema medievo: Deus la deu, Deus la há dado.

 

   Escreve, sobre Teresa de Lisieux, Gabriela Llansol: Perguntam-me se é escritora. Respondo-lhes que, em escassos quatro anos, a poesia foi servida como mandam os manuais. Mas vou responder-lhe de outro modo. A Teresa entrou, de facto, no armazém dos sinais da literatura. Noto que foi buscar imagens e ritmos a Musset, a Chateaubriand e a Lamartine. Que entrou, se serviu como entendeu, e fez poemas. Também foi buscar pensamentos e palavras aos Evangelhos, a São João da Cruz, à mística carmelita. As freiras, suas irmãs, apreciaram. Tudo rimava, apesar de quase nada respirar. As ideias pareciam ortodoxas, as sonoridades não chocavam, a mobilidade rítmica introduzia movimento, algum drama, as imagens vinham quase todas da natureza e da vida familiar, os versos eram fáceis de cantar. Sim, porque os poemas eram para ser cantados. Não é inconveniente ver freiras cantar versos que não são os do Ofício. Não é sequer inconveniente que as melodias sejam profanas...   ... Como não nos desviarmos, sem discordar? Sim "dis-cordar" é separar os corações. O teu   escondeste-o nos poemas e nas palavras estranhas que utilizas. Escreves Deus e não sabes o que é. Escreves vale de lágrimas / céu / divino-pai / paraíso / carmelo / coro celeste / pecadores / felicidade / eleitos / anjos / divino / e nenhuma dessas palavras dizem o que parecem. São estranhos de passagem. Como os Musset, Chateaubriand e outros Lamartine não disseram o que te ia na alma. Nem por instantes acreditariam no que os teus olhos viam. Nunca o teu jesus seria para eles o encontro arriscado de uma vida.  E para as tuas irmãs? / Imaginaram-no vindo do sagrado / quando / ele veio para ti vindo do fulgor, / «misericórdia», / como lhe chamaste.

 

   E na misericórdia se encontram as flores do mal e essas que Santa Teresinha canta no seu JÉSUS, MON BIEN AIMÉ, RAPELLE-TOI !... Rapelle-toi qu´au soir de l´agonie / Avec ton sang se mélêrent tes pleurs / Rosée d´amour, sa valeur infinie / a fait germer de virginales fleurs... A escrita francesa de Teresa vai crescendo num ritmo e num balanço sonoro que a versão de Gabriela não pretende imitar. Basta-lhe, magnificamente, colher o coração do poema e, adiante, traduzi-lo assim:

 

          Eis o mistério __ Esse orvalho fecundo,

          Tal um sémen __ virginizou as corolas floridas __

          Flores de um ventre invisível __ onde germinam

          E crescem __ inumeráveis corações maternos.

 

          Meu corpo cresceu nesse mistério __ Sou virgem __ Virginizada

          Por ti __ um corpo materno de corações sem fim

 

          Flores virginais que libertam os homens

          Da ilimitada tristeza

          De viver.

 

          Foste um condenado __ forçado ao extremo

          Sofrimento humano __ que se mirou no azur __ aflito,

          E exclamo __ «Mais um pouco e ver-me-eis

          Surgir glorioso __ na extrema mudez do Pai».

 

   Não, Princesa de mim, não me esqueci de Charles Baudelaire nem de Les Fleurs du Mal;  tampouco, ou ainda menos, olvidarei esta conversa em que se me aproximaram um poeta maldito e uma santa de altar (da qual, lembras-te?, ainda guardo uma relíquia que herdei da minha Avó Teresa...). Espera pela próxima carta.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS 150 ANOS DO TRINDADE (III) – UM LIVRO DE EVOCAÇÃO E CELEBRAÇÃO

 

 

Este é o terceiro texto que, nesta série, dedico ao 150º aniversário do Teatro da Trindade, inaugurado em 1867. Outros textos se seguirão, pois não é demais, penso, referir, evocar e novamente analisar o que é hoje e o que tem sido, neste período, a exemplar estrutura e prática de cultura teatral e musical do Trindade: e isto, a partir da qualidade arquitetónica de origem (projeto do arquiteto Miguel Evaristo) e consagrada nas sucessivas alterações que, ao longo de século e meio, têm sido efetuadas, sem de modo algum desvirtuar o edifício, a sua funcionalidade e o património cultural-teatral inerente.  

 

Nesse sentido, tive o gosto de participar, em 2014 num ciclo de conferências organizado pela Fundação INATEL, proprietária do Teatro da Trindade. E foi agora editado pela Fundação um volume, “Conferências do Trindade” que reúne intervenções e textos diversos de Inês de Medeiros, Joaquim Paulo Nogueira, Isabel Pires de Lima, Luís Soares Carneiro, José Sarmento de Matos, Guilherme d’Oliveira Martins, Nuno Domingues e José Carlos Barros e da minha, no ciclo acima citado. (cfr. “Conferências do Trindade – História Cultural e Artística do Teatro da Trindade” ed. Fundação INATEL 2017).

 

Os textos introdutórios - “Um Palco de Todos Para Todos” de Inês de Medeiros – Vice Presidente do INATEL e diretora do Trindade – e “Fazer do Teatro da Trindade um Acontecimento Cultural” de Joaquim Paulo Nogueira, realçam precisamente a oportunidade do ciclo evocativo.

 

Pois, tal como refere Inês de Medeiros, “o que ressalta das leituras destes textos é uma certa continuidade na evolução, mesmo quando atribulada, deste Teatro, o qual sempre foi pensado como uma sala de espetáculos popular, com uma programação variada – tanto de teatro como musical – distinta e mais acessível do que a programação dos dois grandes teatros nacionais vizinhos: o D. Maria II e o São Carlos”. (cfr. “Um palco de Todos para Todos” cit., pág. 10).  

 

Teve-se então em vista, no ciclo e agora no livro citado, uma análise historicamente evocativa mas sobretudo culturalmente bem atual da atividade do Trindade na política teatral-musical dos anos decorridos desse a sua fundação (1867), inserindo-a aliás na dupla perspetiva de antecedentes históricos e de projeção para anos vindouros: e isto porque o Teatro da Trindade, ao longo deste tão variado século e meio de existência, soube alternar intervenções históricas e projeções de modernidade, numa ação constante de divulgação da cultura nas suas expressões de música, ópera e teatro.

 

Basta recordar, nessa perspetiva abrangente, o que significou, numa ação de política de cultura, por exemplo a Companhia Portuguesa de Ópera-CPO, dirigida por Serra Formigal, que viabilizou o profissionalismo do espetáculo lírico português, até aí residual no contexto das temporadas e das atividades profissionais e artísticas inerentes da tradicional ópera do Teatro Nacional de São Carlos, mesmo quando esses espetáculos se repetiam no Coliseu. Sem questionar obviamente a qualidade, tenha-se presente que não havia, antes da CPO do Trindade, viabilização de carreiras de cantores portugueses e acessibilidade mais alargada de público.

 

Mas tal como recorda Nuno Domingues, no ciclo de conferências citado e agora publicado, “a Companhia Portuguesa de Ópera não foi a primeira a atuar no Trindade. Em 1908, o empresário Afonso Taveira organizou uma Companhia Portuguesa de Ópera, que durou um ano”. (cfr. “O Trindade e a Ópera” in ob. cit. pág.159).  

 

No que se refere ao teatro declamado, é interessante recordar, com aliás fiz na conferência agora publicada, e que intitulei precisamente “O Trindade e o Romantismo”, a inauguração do Teatro, em 10 de Maio de 1867, com um espetáculo de declamação com intervenções de Bulhão Pato e Júlio de Castilho, nada menos.

 

E ainda, como referi na conferência, “a 30 de Novembro é inaugurado o conjunto Teatro da Trindade com duas peças: «A Mãe dos Pobres» de Ernesto Biester e «O Xerez das Viscondessa» que foi adaptado pelo grande empresário e diretor do Trindade até morrer em 1899 Francisco Palha”.

 

Descrevi então a importância assumida pelo Trindade na expressão pujante do teatro romântico em Portugal, bem como os elencos das companhias que, no Trindade, em dezenas de anos, recriaram o espetáculo teatral. E pude recordar que a música e a ópera alternavam, desde o inicio da atividade, com o teatro declamado: e neste, ganhava expressão o temário romântico na sua expressão sentimental, mas também, note-se, na sua expressão político-social. (cfr. “O Trindade e o Romantismo” in ob. cit. págs. 21 e segs.).

 

Mas há que insistir na constante atualidade que, em termos globais, o Trindade sempre soube manter. Certamente porque, ao longo do seculo e meio, e não obstante períodos intercalados se bem que breves de exceção ou apagamento, o Trindade marcou as épocas sucessivas da sua atividade. Ou como disse na conferência deste ciclo Guilherme d´Oliveira Martins, “As humanidades correspondem ao entendimento do género humano. As Humanidades são a compreensão de que, no «Auto da Lusitânia», não sabemos se «Todo o – Mundo e Ninguém» são os gémeos que Almada desenhou na fachada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ou se são diferentes como Gil Vicente os representou”… (cfr. “Pode a Economia Viver sem as Humanidades?” in ob. cit. pág. 147).

 

Ora bem: nos 150 anos decorridos, o Trindade não parou. E por isso, também apraz recordar, num plano de atualidade, o papel do Trindade numa modernização/renovação do teatro declamado português, e na atividade de espetáculo inerente, em períodos complicados da vida teatral portuguesa.

 

Em próximo artigo, evocarei alguns dos grandes espetáculos do Trindade: por exemplo, o que foi “À Espera de Godot” de Samuel Beckett!...

 

E referirei então os textos dos outros colaboradores deste livro evocativo das Conferências do Trindade.

 

DUARTE IVO CRUZ

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