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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Subi à cidade, num qualquer destes dias. Digo subi, sem ofensa para ninguém, até me parece que Lisboa está lá mais em baixo. Mas faço sempre um exercício de alpinismo, por vezes quase acabrunhante, para lá chegar. E de vez a vez me vou sentindo mais ligeiro no regresso, deve ser alívio de pressão atmosférica... Entre consultas médicas e outras tarefas, ainda consegui dar um salto à Bertrand, em busca do último Agualusa, do recente Miguel Real, e, para trazer conforto às minhas insónias, trouxe A memória dos outros II, Caminhos e Destinos do meu velho amigo Marcello Duarte Mathias, cujo estilo de escrita sempre me delicia, e de quem muito aprecio o rigor de uma inteligência independente, seja eu concordante ou não... O Marcello não é correto politicamente, nem por força, obra ou graça de qualquer outro advérbio: apenas por fidelidade à sua inteligência e ao seu gosto, e respeito pelos de outros.  


   A leitura desta coletânea de textos que o autor já antes editara ou pronunciara não é necessariamente contínua e sequente, pelo que desde logo me conduzi aos que se debruçam e refletem sobre Albert Camus: Camus, um homem livre  -  prefácio à 3ª edição de A Felicidade em Albert Camus, do mesmo Marcello Mathias; Camus  -  um homem só  -  texto da participação do autor num colóquio realizado na Universidade do Porto, em 2013, sobre Albert Camus e Vergílio Ferreira; e ainda o texto da palestra proferida na Academia das Ciências, numa homenagem ao filósofo e escritor francês. Li com gosto despertador este último, que não conhecia, e reli os outros dois, com igual cumplicidade. Reencontrei-me em vários passos do Marcello a circunver Camus, como neste: ... o enraizamento é nele a expressão da sua mais íntima identidade. Numa palavra, Camus liberta-se ao ancorar-se na infância, eterna fonte redentora, ponto de encontro e renovado deslumbramento! E cita um trecho do autor de Noces, retirado da polémica política que, em 1948, o defrontou com Emmanuel d´Astier de la Vigerie: «Há a história, mas há também outra coisa, a simples felicidade, a paixão dos seres, a beleza natural. Também estas são raízes que a história ignora, e a Europa, porque as perdeu, é hoje um deserto.» E desse dito de Camus conclui: Sem dúvida: nós somos também as nossas fidelidades.

 

   O que acima para ti transcrevo, Princesa de mim, surgiu-me esta noite como remissão à última carta que te escrevi e que, afinal - vejo-o agora -, desce mais profundamente às raízes e circunstâncias dessa demanda de mim, peregrinação interior, liberdade de um caminho aberto por misteriosas fidelidades. Sabes bem que sou alguém diferente do Marcello Duarte Mathias, e por isso mesmo simpatizo com estes encontros avulsos de percursos pessoais estranhos, quiçá pela magia desses marcos de encruzilhadas de caminhos que são alguns autores lidos, semeadores de olhares e pressentimentos. Aconselho-te a leitura das páginas do Marcello sobre Camus, por esse reconhecimento de uma independência tantas vezes solitária, que me marcou, a mim também, na formação da juventude: Albert Camus e Georges Bernanos foram dois mestres que tive, ensinando-me que o rigor da coerência (ou a chamada honestidade intelectual) é condição necessária de uma autêntica abertura de um olhar humanista à nossa volta. Sem esquecer outros, entre eles François Mauriac, com quem Camus polemicou... e até chegou a reconhecer razão! Todos somos parcelas. 

 

   As trabalhosas arrumações em que me meti vão-me também descobrindo cartas, diários e outras intimidades. Hoje, curiosamente, encontrei-me com umas páginas minhas, datadas de 13/12/84 (23h30), provavelmente escritas logo depois de um jantar em família, em Scarsdale, New York: presumo que a minha filha Teresa - que na altura tinha os seus 17 anos - trouxe para a nossa conversa à mesa duas obras que estaria a ler. Uma delas, Le Malentendu, seria, como confessa o autor em carta a Jean Grenier, ao tempo da conclusão da primeira versão da peça, une histoire de paradis perdu et pas retrouvé. Um regresso à infância?... E/ou, como disse o próprio autor em outubro de 1944, será essa história a de um filho que quer ser reconhecido sem ter de revelar o seu nome [porque me lembro eu agora do Lohengrin?] e que é morto pela sua mãe e por sua irmã, na sequência de um mal entendido.  Registei eu, em 1984:

 

   «Ao jantar, a Teresa lançou a conversa sobre o Huis Clos do Sartre e o Malentendu do Camus. Falar da prisão que tantas vezes nos sentimos, ou da comunicação que é, tão frequentemente, precisamente o contrário...

 

   A mentira, que o dizer, na roda livre de códigos incontrolados, tende a ser. O suicídio que é recusar a comunicação, pelo desespero de ser autêntico.

 

   Compreender que a solidão se vence por dentro, nunca com conversas ou, por exemplo, como cantaria o Marceneiro: foi bem efémero o desejo / do teu coração que, vejo, / no bulício se treslouca...

 

   Entre ouvir a voz de Deus num poço tapado ou cantar a cantiga do infinito numa capoeira (estarão bem lembrados estes versos do Álvaro de Campos?) não há diferença alguma. A única abertura possível está cá dentro, porque só o silêncio nos comunica e só em silêncio ouvimos. Fazer algazarra é equivalente a tapar os ouvidos.

 

   Assim, o amor é secreto, ou seja, uma destilação do silêncio. O que fala por si e só dizemos porque nos ensinaram o hábito de falar.

 

   O pudor é como quem espera, no silêncio, que a liberdade aconteça. Tudo se comunica de dentro. A vida ativa - dizia São Gregório - é um serviço; a vida contemplativa uma liberdade.

 

   Ao amor chama São Tomás de Aquino (e na Summa Theologiae!) o sentimento de inerência mútua. Explica-se ele, quanto à potência afetiva:

 

   Diz-se que o Amado está no Amante, no sentido de se achar no seu afeto por uma certa complacência [gosto partilhado]. Quer dizer-se que o Amante se deleta no Amado se este está presente. Ou, se estiver ausente, que a ele aspira por um amor de desejo; ou ainda, por amor de amizade, pelo bem que quer ao Amado. Tudo isso, não por ação de causa extrínseca, como quando queremos uma coisa com vista a outra, ou como quando queremos bem a alguém por motivo estranho à sua pessoa. Mas, sim, por complacência no Amado, cuja origem está no intimíssimo do Amante. Por isso falamos de amor íntimo e das entranhas da caridade.»

 

   Voltarei, em carta próxima, a estas considerações que, sobre o misterioso Amor, eu tecera num caderno, num fim de serão, já lá vão 33 anos... Elas apenas couberam aqui, pela coincidência do sentimento da minha tensão interior, dessa necessidade do silêncio na construção da palavra livre, ou da solidão como condição fundadora do amor. Marcello Mathias refere no seu Camus - um homem só o conto O Hóspede, em que o professor Daru, a quem um polícia confiara um revoltoso árabe (passa-se isto durante a guerra da Argélia) para que o entregasse à prisão, explica ao árabe as duas opções possíveis - o atalho que o leva diretamente à penitenciária, e o outro, em sentido oposto, que o levará à liberdade, deixando a decisão final nas mãos do prisioneiro. E assim se despedem. Passados uns momentos, Daru olha para trás e avista o árabe a caminho da penitenciária. Por decisão própria. De regresso à escola, Daru lê rabiscado a giz no quadro preto da sala de aulas: «Entregaste o nosso irmão. Hás-de pagar.»

 

   E Marcello conclui assim o seu conto do conto de Camus: Daru está sozinho, vem até cá fora, olha em redor a imensa paisagem à sua volta, dele tão familiar. E Camus termina o conto com esta belíssima imagem: «Dans ce vaste pays qu´il avait tant aimé, il était seul.» 

 

   Estava só - assim se descobria - porque fora silenciosamente capaz desse supremo gesto de amor: deixara ao árabe uma decisão de liberdade, e este livremente escolhera o caminho da prisão. E porque não quisera impor nenhuma lei exterior à que a consciência do próprio revelasse, era agora considerado traidor. Assim também podemos entender a Paixão de Cristo.  

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

UM MINISTRO IMPOLUTO…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXVI) - 26 de agosto de 2017

  

No último Diário de Agosto («Acautelem-se os Anéis de Saturno») falava-se de um caso, bastante comum, infelizmente, de acusações difamatórias e da circunstância de tantas vezes os ministros da Fazenda serem acusados das mais torpes faltas ou intenções… só que também há a registar os casos edificantes, dignos de elogio.

 

Anselmo José Braancamp foi definido no «Álbum das Glórias» de Rafael Bordalo Pinheiro como «de vidro» - por ser macilento, com ar branco e doentio, mas sobretudo por ser transparente e seriíssimo.

 

Um dia, sendo Anselmo José ministro da Fazenda, o Tesouro foi chamado a pagar uma importante amortização da dívida pública, para que não havia disponibilidades de caixa. Perante tão séria dificuldade, envidaram-se os mais diversos procedimentos, mas sem sucesso. Como pagar? Então, o ministro solveu do seu próprio bolso a amortização em falta – no que correspondeu inteiramente à fama que tinha ganho de político impoluto e de cidadão exemplar…

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

VENTURA TERRA: EVOCAÇÃO DOS TEATROS E MAIS SALAS DE ESPETÁCULO

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Salão de entrada do Teatro de São Carlos

 

Em diversos artigos, tivemos já ensejo de evocar os 150 anos do nascimento do arquiteto Ventura Terra, ocorrido em 1866. Retoma-se hoje o tema, agora em função da exposição patente no Torreão Poente da Praça do Comércio, organizada pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa.

 

Dá-se especial relevo às intervenções de Ventura Terra diretamente ligadas às artes do espetáculo, como aliás temos aqui referido, mas não só: importa efetivamente enfatizar também algumas das conceções e intervenções de Ventura Terra em projetos, aliás quase todos devidamente construídos, destinados à abordagem de grande público.

 

“Do Util e do Bello” é a epígrafe do catálogo e da própria exposição em si, coordenada por Jorge Ramos de Carvalho. E nela se destaca, no conjunto da obra vasta e variada, o sentido e o objetivo de relacionamento com o público, seja em salas e edifícios de espetáculo propriamente duto, seja em edifícios destinados, não tanto a espetáculo, mas a receber “espetadores” / visitantes: desde logo, seguindo a cronologia da exposição, os dois Pavilhões de Portugal patentes na Exposição Universal de Paris de 1900.

 

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Estas não eram salas de espetáculo, é certo: mas tanto o chamado Pavilhão das Matas, Caça e Pescas como sobretudo o Pavilhão das Colónias Portuguesas constituíram, de acordo com o roteiro do exposição, uma notável criação de espaços públicos que, como tal, deixavam adivinhar o sentido de “espetáculo” que Ventura Terra iria ao longo da vida sucessivamente concretizar.

 

Em sucessivos textos que aqui já publicamos, faz-se referência detalhada ao Teatro Politeama, ao Teatro Clube de Esposende, ao átrio do Teatro de São Carlos (onde se suprimiram os frescos do teto de Cyrilllo Volkmar Machado) e ao Teatrinho do Palácio de Brejoeira (Monção). Mas o catálogo-guia da exposição que agora vimos citando, destaca ainda edifícios que, não sendo evidentemente salas de espetáculo, expressam uma vocação funcional de grande ajuntamento de participantes, e como tal exigem o sentido de “assistência coletiva”, chamemos-lhe assim, que as salas de espetáculo representam.

 

E desde logo o chamado na época Palácio das Cortes, em São Bento, como tal inaugurado em 1833 mas totalmente reformulado por Ventura Terra em 1885/1886, numa modernização epocal que dura até hoje e que incluiu o desenho do mobiliário e do equipamento, então extremamente atual.

 

Em 1902 surge a Sinagoga de Lisboa aliás muito próxima da casa do próprio Ventura Terra, casa que lhe valeu o Prémio Valmor de 1903.

 

O catálogo da exposição documenta também um esplendoroso projeto de Palácio do Congresso do Rio de Janeiro, que não chegou a ser construído.

 

E finalmente, refere os Liceus Camões (1907) e Maria Amália Vaz de Carvalho (1915), o que pode ser relacionado com o carater coletivo das “exibições” dos professores…

 

O catálogo da exposição, para além de estudos diversos, contem uma exaustiva tabela cronológica da vida e obra de Ventura Terra. Aí encontramos as funções político-administrativas que ao longo da vida desempenhou, com destaque para a Câmara Municipal de Lisboa, onde foi vereador por iniciativa de Bernardino Machado, de 1908 a 1913 e novamente em 1917.

 

No quadro dessas funções, remete-se para um documento da CML, datado de 28 de Agosto de 1909 e citado por Rute Figueiredo no seu estudo sobre “Arquitetura e Discurso Crítico em Portugal (1893-1918). – (ed. Colibri e HIA – FCSH da UNL págs. 252-252).

Lê-se no referido documento:

“Tendo a Câmara Municipal de Lisboa na sessão de 12 do corrente, tomado em consideração uma proposta do Ex.mo Sr. Vereador Ventura Terra a fim de melhorar quanto possível os serviços relativos à estética da cidade de Lisboa e o seu conforto sob o ponto de vista artístico, principalmente no que respeita à construção e conclusão de avenidas, praças, jardins, etc., e ao aproveitamento das suas magníficas perspetivas, foi pela mesma Câmara criada Cuma Comissão de Estética Municipal.

Ora, nessas “magníficas perspetivas” se inscrevem os teatros de Ventura Terra, e não só em Lisboa!...

 

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DUARTE IVO CRUZ 

 

 

 

 

 

 

ACAUTELEM-SE OS ANÉIS DE SATURNO…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXV) - 25 de agosto de 2017

 

A imprensa do século XIX era palco de severas, normalmente violentas, acusações pessoais, que andavam perto da difamação, quando não punham seriamente em causa a dignidade dos alvos do tiroteio político…O pior era ocupar a pasta da Fazenda. Quem fosse apanhado no lugar era certo e sabido que se tornava bombo de festa. O menos que os jornais da oposição diziam era que a vítima teria ido aos cofres do Estado...


Aconteceu que Mariano de Carvalho foi nomeado ministro da Fazenda. Emídio Navarro era um proeminente membro da oposição a esse governo e dirigia o jornal «Novidades», na altura particularmente verrinoso.


Mariano de Carvalho saiu de ministro da Fazenda e foi ocupar o lugar de Diretor do Observatório Astronómico. O Emídio Navarro deu assim a notícia no jornal: “O Senhor Mariano de Carvalho deixou a pasta das Fazenda e foi nomeado diretor do Observatório Astronómico. Lá vai ficar Saturno sem os anéis…”. 

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

André Gide. 1927 [Foto de Berenice Abbott]

 

XIX - CRISE E RUTURA DOS VALORES E CHOQUE DA GUERRA – I

 

No século XIX e até à primeira grande guerra, a Europa viveu um período eufórico de criatividade científica e intelectual, de inventos permanentes e sucessivos que faziam crer que o progresso estava intimamente ligado ao desenvolvimento científico. Desenvolveu-se o cientismo, corrente de pensamento de matriz positivista segundo a qual a resposta a todas as questões humanas estava na ciência, tida como superior a todos os outros meios de compreensão da realidade humana, como a filosofia, a metafísica, a política e a religião, dado o seu determinismo cognitivo e resultados práticos.

 

Mas a crença no sentimento de superioridade da razão e vontade humana, por oposição à resistência das forças da natureza, começou a declinar e a ficar ameaçada, no fim do século XIX, pelo próprio desenvolvimento científico das ciências. A sociologia, psicologia e psicanálise revelavam que o ser humano não é só conduzido pela razão, mas também por forças instintivas e naturais, onde impera o inconsciente. A biologia, a antropologia e a física demonstravam ser um ser natural como os demais e que as suas ações eram regidas pela natureza, o que conflituava com a ideia de liberdade e responsabilidade defendida pela moral estabelecida. Questionou-se o determinismo e a tentativa de aplicar os mesmos métodos das ciências naturais às restantes áreas do conhecimento.

 

Ante o derruimento de valores tradicionais, estes foram vistos como sendo tabus e preconceitos, pseudovalores de uma sociedade enganadora e falsa, apenas servindo para ferir e inibir a plena realização humana. Havia na ciência novos valores que revelavam novos caminhos, numa permanente experimentação de um sentimento de libertação e de uma nova ética assente na liberdade individual e realização total do indivíduo.

 

André Gide, em Les Nourritures Terrestres, no poema Nataniel, Eu Te Ensinarei o Ardor, proclama:

     Mandamentos de Deus, magoaste a minha alma.
     Mandamentos de Deus, sois dez ou vinte?
     Até onde os vossos limites?
     Ensinareis vós que há sempre mais coisas proibidas?

 

     Novos castigos prometidos à sede de tudo quanto achei de belo na terra?
     Mandamentos de Deus, tornastes a minha alma doente.
     Envolvestes de muros as únicas águas que me dessedentavam…

 

     … Foi por certo tenebrosa a minha juventude;
     Disso me arrependo.
     Não provei o sal da terra.
     Nem o do grande mar salgado.

 

     Julgava que era eu o sal da terra.
     E tinha medo de perder o meu sabor.
     O sal do mar não perde o seu sabor; mas os meus lábios estão velhos para o saborear. Ah, porque não respirei eu o ar marinho quando tinha na alma a avidez desse ar?
     Que vinho conseguirá agora embriagar-me?
     Ah! Nataniel, entrega-te à alegria enquanto ela sorri à tua alma - e satisfaz o desejo de amar enquanto os teus lábios estão belos ainda para beijar e o teu abraço é jubiloso.
     Porque tu pensarás, tu dirás:
     - Os frutos ali estavam; o seu peso já curvava, fatigava os ramos; - a minha boca ali estava e plena de desejo: mas continuou fechada e as minhas mãos não puderam estender-se porque estavam unidas em oração; - e a minha alma e a minha carne ficaram desesperadamente sequiosas. - Desesperadamente a hora passou.

 

O belicismo, a brutalidade e o choque da guerra agravaram angústias e interromperam esperanças e otimismos.

 

22.08.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 

 

SHAKESPEARE CENSURADO…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXIV) - 24 de agosto de 2017


Ainda há muito pouco, Luís Miguel Cintra recordou o momento em que Sophia de Mello Breyner disse ter terminado a tradução do «Hamlet» de Shakespeare. Foi um momento heroico. Trata-se de uma obra-prima da língua portuguesa. 

 

O mais curioso é que ocorreu em relação a esse texto de 1965 um episódio caricato que dá bem ideia do absurdo que é sempre qualquer ato de censura. 

 

António Alçada Baptista pretendeu publicar um excerto dessa magnífica tradução na revista «O Tempo e o Modo» - mas, como acontecia nesses casos, era necessário enviar as provas do texto à Comissão de Censura. Importa esclarecer que a revista foi das mais martirizadas pela censura, tendo sofrido a proibição de cerca de metade dos textos que, entre 1963 e 1969, foram a exame. 

 

Inesperadamente, o texto de Sophia veio totalmente cortado. António Alçada ficou estupefacto. Não esperava que tal acontecesse relativamente àquele texto clássico. Pegou no telefone e falou ao coronel dos serviços de censura. Eram coronéis reformados que normalmente estavam encarregados dessa tarefa… 

 

Do lado de lá da linha, o censor confirmou o corte total do texto. António, com uma paciência infinda, explicou quem era Shakespeare e que o texto era do século XVII. No entanto, inabalável, o coronel insistiu na decisão. Era assim, não havia volta a dar… Mas não dava razões…

 

Perante a insistência, lá veio a justificação. É que no «Hamlet» há uma personagem de nome Marcelo – e (ainda que Salazar estivesse de saúde) falava-se com insistência na hipótese de Marcelo Caetano poder suceder ao Presidente do Conselho – como aconteceria três anos depois… E o censor estava convencido que havia naquela publicação uma intenção politica qualquer… 

 

Não se conformava, porém, António Alçada – e, palavra puxa palavra, tudo acabou com um corte parcial, não se publicando a fala de Marcelo…

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

Da janela do Hotel Borges, a luz Jablochkoff iluminava orgulhosa os passeantes do início da noite. Não se sabe se alguém recordou a ténue claridade do anterior gás que, aceitando o jeito ténue de abat-jour, fora espécie cúmplice aos abraços dos apaixonados e não só. De qualquer modo, diz-se, que esta luz Jablochkoff imprimiu à cidade de Lisboa o cunho de uma cidade europeia. Com esta nova luz, muitos locais tornaram-se pensadores aprazíveis do que aos destinos do mundo respeita, ou, as medalhas e as joias e as plumas e os ares de casacas, se não tivessem tornado feitos extraordinários apenas por maior visibilidade na direção dos poderes.

 

É certo que o russo que inventou esta forma de luz não terá tido em conta que a clareza do poder importuna o próprio poder ou não lhe perguntasse:

 

- Vi-o ontem com o senhor x. Tenho a certeza que era V-Exa. Não estou a supor sequer que não seria. Creio bem que a grã-cruz lhe escapou justamente por essa clara companhia.

 

Aqui chegados todos se lembravam da importância da vela de sebo, verdadeira agente da escuridão, espartana o bastante para não revelar antes de entregue, qual a propina que ao criado caberia naquele dia.

 

O ditado ainda hoje reza:

 

Contente-se, que não vai mal de abat-jour!

 

Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2017

António Alçada: o rosário das falas escritas

 

(…) Esta minha relação com a Bárbara estava fora de todos os hábitos. Era exatamente o contrário de quem se ama para fazer uma história comum.

 

- Olha o que aqui escreveste, disse-me:

 

«Hoje a minha ideia de Deus não tem que ver com a criação do mundo, com a sua intervenção no meu dia-a-dia, nem com a condenação nem com a salvação. Diria que há coisas na natureza e na condição humana que me impõem a existência de um núcleo misterioso a que chamo Deus. Acho que a morte de Deus significa o necessário silêncio que é preciso fazer antes de Deus se tornar significativo.

 

(…) É evidente que não posso estar interessado num deus que aterrorizou toda a minha vida passada, que me cortou cruelmente de uma perspetiva de desenvolvimento humano que tem que ser vivido na terra (…)

 

Recuso uma conceção de Deus cujo caminho seja a tristeza e a angústia, já que o projeto humano pressupõe o amor e a alegria.»

 

António Alçada Baptista, in “O Tecido do outono” 1999, ed. Presença

 

António! António, digo-te que depois de aqui estarmos neste mundo, prendemo-nos numa grande teia e quanto mais nos debatemos mais nos enredamos. Nós somos mundo e artesão.

 

- Teresa, já escrevi e cada vez sinto mais que se não houvesse mulheres eu não tinha com quem falar.

 

Teresa Bracinha Vieira

MANJARES DE DEUSES E LITERATOS…

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DIÁRIO DE AGOSTO (XXIII) - 23 de agosto de 2017

 

Ao falar-se, cada vez mais, de património cultural imaterial, temos de considerar a gastronomia e a culinária como matérias fundamentais.

E a verdade é que só podemos compreender as tradições e os costumes cuidando dos alimentos, sejam eles mais ricos ou mais pobres, consoante as circunstâncias, os territórios, as culturas e as economias locais.

Da sopa da pedra ao gaspacho encontramos tudo – desde a abundância à penúria, mas sempre a capacidade humana de superar as dificuldades e constrangimentos… E há a gastronomia popular e a culinária erudita… Há manjares de deuses e literatos.

Se lermos uma das obras-primas da cultura portuguesa gastronómica, percebemos isso mesmo. Falo-vos de «O Cozinheiro dos Cozinheiros», publicado por Paulo Plantier em 1870. Aí encontramos as mais extraordinárias receitas, as suas variantes e a sua história.

Hoje, a sua celebridade é maior no Brasil do que em Portugal, mas lá encontramos as nossas maiores glórias literárias e artísticas. E lá estão, por exemplo, as receitas de caça de Bulhão Pato, o grande memorialista, autor de «Paquita», braço direito de Herculano. E percebemos por que razão as «Ameijoas ditas à Bulhão Pato» não são uma receita do escritor.

De facto, foi João da Matta, o célebre cozinheiro do Hotel Central (o Hotel de «Os Maias») que, em homenagem a Bulhão Pato lhe dedicou o renomado manjar – que, aliás, o literato nunca cozinhou…

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO

por Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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Lugar e espaço.
 
'If a place can be defined as relational, historical and concerned with identity, then a space which cannot be defined as relational, or historical, or concerned with identity will be a non-place.', Marc Augé
 
A hipótese avançada por Marc Augé, no livro 'Non-Places. An Introduction to Supermodernity.', é a de que a supermodernidade produz não-lugares, isto é, espaços que não são em si lugares antropológicos, são simplesmente lugares de memória circunscritos a um sítio específico.
 
Lugar e não-lugar são extremos opostos, mas o primeiro nunca deixa de existir e o segundo nunca chega a completar-se. 
 
Os não-lugares são a verdadeira medida do nosso tempo: 'one could quantify them by totalling all the air, rail and motorway routes, the mobile cabins called 'means of transports', the airports and railway stations, hotel chains, leisure parks, large retail outlets and finally the complex skein of cable and wireless networks.'
 
A distinção entre lugar e não-lugar é gerada na oposição entre lugar e espaço. Espaço, para Augé, é o lugar frequentado, é a intersecção dos corpos em movimento - porque é a presença do homem que transforma uma rua, geometricamente definida como lugar pelos projectistas, em espaço. Lugar é o conjunto dos elementos físicos que coexistem segundo uma determinada ordem. 
 
O espaço é existencial - ambíguo, transformável e influenciável. O lugar é geometria - área, volume, proximidade e distância. 
 
Uma narrativa, em forma de mapa ou itinerário, tem o poder de transformar o lugar em espaço e o espaço em lugar. As narrativas atravessam e reorganizam o lugar segundo um sistema de signos. 
 
A experiência de um espaço permite ao homem, reconhecer-se a si próprio e ser ao mesmo tempo, outro. O espaço é também a frequência de vários lugares que são entendidos segundo uma visão parcial e incompleta - é a memória que reconstitui a forma do lugar e constrói uma relação ficcional entre o olhar e o que se observa. 
 
'A lot of tourism suggests the position of spectator as the essence of the spectacle. The traveller's space may thus be the archetype of non-place. Thus it is not surprising that it is among solitary travellers of the last century that we are most likely to find prophetic evocations of spaces in which neither identity, nor relations, nor history really make any sense; spaces in which solitude is experienced as an overburdening emptying of individuality, in which only the movement of the fleeting images enables the observer to hypothesize the existence of a past and a glimpse the possibility of a future.', M. Augé
 
A experiência do não-lugar, como um retorno ao próprio ser, permite uma distância maior do espectador e do espectáculo. A existência do não-lugar permite ao homem perder-se na multidão com o poder absoluto de se afirmar inversamente na sua exacerbada consciência individual.
 
 
Ana Ruepp