Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Traduzo para ti um trecho do Vasco de Gama (Paris, Fayard, 1997) de Geneviève Bouchon, só porque, tendo sido escrito por uma historiadora francesa, traz outro sabor a uma história que todos conhecemos... Diz assim:

 

   A escala de Melinde permaneceria na memória coletiva portuguesa como momento privilegiado da história das descobertas. O acolhimento reservado aos portugueses pelo sultão foi logo atribuído à «vontade de Deus» que o inspirara. No dia de Páscoa, era a esperança reencontrada depois de tantas desventuras. Durante os nove dias de duração da escala, os homens da tripulação puderam regalar-se com laranjas doces, refastelar-se com carnes e legumes deliciosos, que os jardins da vizinhança, regados por noras, profusamente dispensavam. Comparavam a cidade à vila portuguesa de Alcochete, com as suas muralhas, as suas casas altas brancas de cal, sobre um fundo de palmeirais despenteados pelos primeiros ventos da monção nascente.

 

   Tudo lhes falava da Índia: as especiarias, os têxteis e os homens. Pela primeira vez descobriam a rede tecida à volta dela, de que Melinde era uma das extremidades. A maioria dos seus habitantes era bantu mas, quando a cidade se animava ao cair da noite, no porto se cruzavam também com árabes de turbante que andavam em tronco nu, com a parte baixa do corpo envolta num longo pano de algodão ou de seda. Encontravam também mercadores da Índia, esses chamados gujarates, nome que em breve se tornaria familiar aos ouvidos portugueses, pois em todo o lado os encontrariam. Vinham a Melinde buscar ouro, âmbar e marfim, que trocavam pelos seus algodões, cobre e mercúrio. Quatro navios estavam ancorados no porto, por conta de cristãos do Malabar. Os portugueses não queriam acreditar nesse novo signo da Providência, depois das falsas alegrias de Moçambique e dos dececionantes encontros de Mombaça. Mas parecia mesmo tratar-se aqui de verdadeiros cristãos, membros da Igreja de São Tomé Apóstolo. Eles próprios tinham vindo saudar os portugueses, que se maravilharam ao ver homens de pele escura que não eram africanos. Eram mais pequenos e mais magros, e traziam grandes barbas e longos cabelos atados nas costas nuas. Exprimiam-se numa língua com acentos metálicos, que os intérpretes dos portugueses não entendiam. Recusavam comer carne de vaca, mas prosternaram-se diante de uma imagem de Nossa Senhora que o capitão-mor lhes apresentou para verificar a sua fé. Alguns sabiam algumas palavras de árabe e deixaram entender que não vinham de Calecute, mas de Cranganor, onde de facto existia uma importante comunidade cristã. Também souberam pôr o capitão-mor de sobreaviso contra a "malícia" das gentes de Melinde.

 

   O guião de Geneviève Bouchon é o nosso cronista quinhentista Fernão Lopes de Castanheda (História dos descobrimentos e conquista da Índia pelos Portugueses, 9 volumes, Coimbra, 1924-1933).  Facilmente compreenderás com que pena, agora, eu não possa ter o texto aqui à mão. Já te disse que não sou historiador, nem tenho outras pretensões do que trazer-te comigo a umas voltas que nos façam pensar... Antes de te convidar para um passeio por este relato - que tem que se lhe diga - deixo-te a narrativa - que Camões canta, depois de trazer ao episódio Mercúrio, por Vénus enviado a avisar o Gama -  quando a armada zarpara de Moçambique para Mombaça: Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece, /  Dizendo: fuge, fuge, Lusitano, / Da cilada que o Rei malvado tece, /  Por te trazer ao fim e extremo dano. / Fuge, que o vento e o Céu te favorece;/ Sereno o tempo tens e o Oceano, / E outro Rei mais amigo, noutra parte, / Onde podes seguro agasalhar-te... ///... Vai-te ao longo da costa discorrendo / E outra terra acharás de mais verdade / Lá quase junto donde o Sol, ardendo, / Iguala o dia e noite em quantidade; / Ali tua frota alegre recebendo / Um Rei, com muitas obras de amizade, / Gasalhado seguro te daria / E, para a Índia, certa e sábia guia... ///... E como o Gama muito desejasse / Piloto para a Índia, que buscava, / Cuidou que entre estes Mouros o tomasse; [os de Mombaça, donde foge] / Mas não lhe sucedeu como cuidava, / Que nenhum deles há que lhe ensinasse / a que parte dos céus a Índia estava; / Porém dizem-lhe todos que tem perto / Melinde, onde acharão piloto certo.  // Louvam do Rei os Mouros a bondade, / Condição liberal, sincero peito, / Magnificência grande e humanidade, / Com partes de grandíssimo respeito / O Capitão o assela por verdade, / Porque já lho dissera deste jeito / O Cileneu em sonhos, e partia / Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia... ///... Quando chegava a frota àquela parte / Onde o Reino Melinde já se via / De toldos adornada e leda de arte / Que bem mostra estimar o Santo dia. [o Domingo de Páscoa] / Treme a bandeira, voa o estandarte, / A cor purpúrea ao longe aparecia; / Soam os atambores e pandeiros; / E assim entravam ledos e guerreiros. // Enche-se toda a praia Melindana / Da gente que vem ver a leda armada, / Gente mais verdadeira e mais humana / Que toda a doutra terra atrás deixada. / Surge diante a frota Lusitana, / Pega no fundo a âncora pesada. / Mandam fora um dos Mouros que tomaram, / Por quem sua vinda ao Rei manifestaram. Continuaria, sem qualquer cansaço, mas tão só com alegria, a ler-te, Princesa de mim, muitos mais trechos de rimas do nosso Camões. Acontece-me, com alguma frequência, sentindo-me em estado de abandono, agarrar-me à escrita tão bonita de Luís de Camões ou de Frei Luís de Sousa. Deste, leio e releio passos da Vida do Arcebispo Dom Frei Bartolomeu dos Mártires. Do poeta, as líricas e Os Lusíadas. Nunca percebi como foi já possível achar-se maçadora, dura de roer, aquela crónica e a epopeia, cuja leitura sempre me proporcionou momentos de intenso prazer, esse gosto inefável oferecido pela plasticidade da língua portuguesa. As oitavas que acima transcrevi relatam um acontecimento, mas de modo a que o leitor possa saboreá-lo, como se o visse e ouvisse, e ainda entendê-lo "por dentro", inserindo-o na circunstância e na sua história próxima, deixando adivinhar expectativas, apreensões, receios e alegrias. E eu leio essas estrofes a cantarem- me na alma, foram compostas e escritas há 450 anos numa língua que, hoje ainda, eu festejo como muito minha... Meu também, isto é, como se para mim fora escrito, sinto este passo do capítulo XX (Do cuidado com que acudia aos pobres e dos hospitais que ordenou na cidade...) do Livro I da Vida de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires -  escrita por aquele que em pleno século XIX, Almeida Garrett considerou o mais perfeito prosador da língua, em discurso ao Conservatório Real:

 

   Parecerá por ventura, a quem ler com cuidado o que vamos escrevendo deste prelado, que a quem andava tão ocupado nas cousas espirituais não lhe poderia ficar tempo, nem ainda memória pera o governo das temporais, e é engano, porque não se prezava de menos diligente e cuidadoso em acudir às necessidades corporais dos pobres, do que o era em remediar as espirituais de todos. Atrás fica dito como, tirado o pouco que despendia em sua casa e o que montavam os salários dos oficiais de justiça, tudo o mais se entesourava nas mãos dos pobres, que era o mesmo que passa-lo ao Céu por elas, como dizia a Daciano o glorioso mártir S. Lourenço, em cujo dia vamos escrevendo. Agora é lugar de dizermos a ordem com que o fazia. E frei Luís de Sousa (que, "no mundo" fora D. Manuel de Sousa Coutinho) conta-nos então o cuidado, o rigor, a ordem assente na atenção prestada a cada pessoa, com que o arcebispo (que, tal como o seu biógrafo, também era frade dominicano) ia acudindo aos mais necessitados, que até em sua casa acolhia: Costumava dizer o arcebispo que em sua casa só ele era o estranho e os pobres eram os verdadeiros e naturais senhores dela. Saboreia, Princesa de mim, esta palavra, dita por quem - vimo-lo acima - entesourava nas mãos dos pobres a riqueza que recebesse, o mesmo Bartolomeu que, menininho ainda,  em casa de seus pais, na freguesia dos Mártires, em Lisboa, acolheu um pobre que lhes batera à porta: Encarou no pobre todo risonho, todo alegre, debatendo-se pera ele, e festejando-o com as mãozinhas, boca e olhos, como se fora um dos mais conhecidos de casa; e enquanto o pobre se não despediu, não desviou os olhos dele, nem deixou de o estar agasalhando com aquelas inocentes mostras... A língua portuguesa tem maneiras, ora profundas, ora bonitas, de dizer. Estas que para aqui trouxe, fui busca-las ao século XVI e primórdios do XVII. Guardei-as como sussurra António Nobre : Teu coração dentro do meu descansa / Teu coração desde que lá entrou / E tem tão bom dormir essa criança / Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

 

    E quiçá seja o coração também a pátria da nossa pátria, residência de um intimíssimo pensarsentir a pertença ou a comunhão com coisas e pessoas, passadas, presentes e desconhecidamente futuras. Afinal, a identidade nacional por ventura existirá apenas nessa comunhão de cada um no sonho ou na realidade de algo que todos sentem em uníssono (como quando cantamos o hino ou gritamos "Viva!") mas cada qual representa a seu jeito. Só nesse presente ela existe, sempre a fazer-se, sempre proposta. Nos textos que acima dou ao teu sentido, encontro propostas para a nossa nação de cada dia: aprender a olhar os outros pelos frutos, e não pelo preconceito, pela descoberta do que as diferenças podem fazer umas pelas outras; ganhar o espírito inato da justiça, não vendo nos indigentes encargos, fardos pesados, mas irmãos amáveis e libertadores, e, dando a cada um o seu direito (Ulpiano: Justitia est jus suum cuique tribuendi), entesourar riquezas espirituais. Muitas vezes me recordo ensinamentos cristãos da nossa tradição, que ainda hoje animam tantos gestos de solidariedade espontânea do povo português... Identidade nacional como mística fraterna, que qualquer português-novo é chamado a abraçar. Nunca como gloríola mitológica. Disso, sim, teremos de falar, Princesa. E talvez tenha de dizer-te de mim, português antigo e meio-português por nascimento, a caminho dos oitenta, com mais de metade da vida passada lá fora, e todavia querendo ser, nos dias de hoje, um português de agora...

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

BREVE NOTA SOBRE O ENCERRAMENTO DO TEATRO DA CORNUCÓPIA

 

No momento em que escrevemos, é dado como certo o encerramento do Teatro da Cornucópia, pondo termo a uma atividade cénica e cultural que se prolonga em Lisboa desde pelo menos 1973. Naquele ano, Jorge Silva Melo e Luis Miguel Cintra lançam um projeto de companhia, precisamente, o chamado Teatro da Cornucópia, desde logo marcado pelo dimensionamento cultural de alternância de textos clássicos e modernos, numa perspetiva de modernidade.

 

Até 1975 o Teatro da Cornucópia foi itinerante. E entretanto, funcionava já o Centro de Amadores do Ballet no Teatro do Bairro Alto, para onde a companhia se desloca e se fixa em 1975.  De notar aliás que a designação de Teatro do Bairro Alto se justifica pela tradição e até pela proximidade urbana com o velho Teatro do Bairro Alto setecentista.

 

Importa então ter presente que o edifício do Teatro do Bairro Alto, hoje Cornucópia, foi construído por iniciativa de Tina Reis, que lá instalou o Centro de Amadores de Ballet. E de assinalar também que o palco é notavelmente dimensionado, tendo em vista a própria dimensão restrita do edifício em si.  

 

Os primeiros espetáculos do Teatro da Cornucópia consistiram adequadamente em expressões bem atuais, segundo recordamos, de grandes clássicos da dramaturgia europeia: designadamente “O Misantropo” de Molière e “A Ilha dos Escravos” e “A Herança” de Marivaux. As traduções e encenações, em ambos os espetáculos, a cargo de Luis Miguel Cintra. E desde logo, os elencos marcavam também qualidade: recordem-se nomes e carreiras como, além dos já acima citados, Glicínia Quartim, Dalila Rocha, Filipe La Féria, Orlando Costa, Luis Lima Barreto, Carlos Fernando e outros à época de grande projeção e em rigor, ainda hoje!...

 

Mas entretanto a supressão da censura trouxe à companhia a possibilidade de renovação do repertório, e desde logo com um indiscutível texto dramático de grande qualidade, o “Terror e Miséria do Terceiro Reich” de Bertold Brecht.

 

A partir de 1975 a companhia fixa-se então no Teatro do Bairro Alto que assumirá também o nome de Teatro da Cornucópia, numa linha da tradição urbana de espetáculos. E o elenco básico alarga-se. Desde logo, com a colaboração de Augusto de Figueiredo precisamente na peça de Brecht acima citada. E a companhia entra num ciclo de renovação e modernidade que durou até hoje. Levou à cena um total de aproximadamente 140 peças. Renovou os elencos.

 

E mais: em 2016, a Fundação Calouste Gulbenkian publica dois volumes de grande formato num total de cerca de 1200 páginas com a enumeração e a análise crítica destes espetáculos, abrangendo autores, elencos e demais perspetivas de uma atividade teatral constante e abrangente.

 

E que agora ao que se anuncia, chegou ao fim... o que é obviamente lamentável, dada a fragilidade do meio teatral português!

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXVII - ARTE POP - II

ARTE POP BRITÂNICA

 

1. Eduardo Paolozzi nasceu na Escócia, filho de emigrantes italianos. Viveu num ambiente familiar e social centrado e em redor da paixão de fazer coisas, dar um jeito aqui, acolá e ali, herdado do pai, a arrumação e a limpeza, ao jeito da mãe, entre uma geladaria e confeitaria dos pais. A combinação entre a publicidade e o design colorido dos produtos à venda, o gosto em colecionar cromos, recortes de revistas de banda desenhada e anúncios de jornais, papéis de rebuçados e de chocolates, emblemas, entre outros papéis, desenhos e imagens que colava aparentemente ao acaso, na intimidade do seu quarto, conduziram-no a querer ser artista.

Para concretizar o seu sonho foi para Paris, em 1947, onde foi influenciado pelo dadaísmo e surrealismo, colagens de Max Ernst e uma mostra numa sala repleta de capas de revistas de Marcel Duchamp.

Nesse mesmo ano produziu I was a Rich Man's Plaything (Eu Era um Brinquedo de um Homem Rico), uma colagem com imagens recortadas de revistas americanas, entre as quais a capa da revista Intimate Confessions retratando uma chamativa e sensual pin-up, estilizada e maquilhada. Que tem uma pistola apontada para o rosto, disparando uma nuvem de fumo, de insinuações fálicas, de um recorte de outra revista. Dentro da borbulha de fumo branco está escrito, em letra e vermelho vivo típico da banda desenhada, a palavra “POP!”. A que se segue uma fatia de tarte de cereja, o cartaz de um aeroplano e o fascínio pela cultura americana, via colagem de uma garrafa de coca-cola. Para além da típica referência ao mercado de massas e do consumo, perpassa pela colagem de Paolozzi o espírito fundacional e mentor da arte pop: deixar de ter o indivíduo como um produto psíquico de opções autónomas, interiores e livres, transitando da interioridade do artista para a reprodução da vida diária. Equipara-se a cultura popular à erudita, diluindo-se as fronteiras. As imagens das garrafas, das revistas, dos jornais são tidas como formas de arte tão válidas como as telas a óleo e as esculturas exibidas em museus, galerias ou espaços públicos.

 

2. Outros artistas britânicos se seguiram, integrando o Independent Group sedeado em Londres. Onde figurava, entre outros, Richard Hamilton, um nome cimeiro para a evolução da arte pop no Reino Unido.
A sua colagem Just what is it that makes today`s homes so diferente, so appealing? (Afinal, o que Torna as Casas de Hoje tão Diferentes, tão Atraentes?), de 1956,  questiona a singularidade das casas modernas, atulhadas de produtos de consumo: o aspirador, a televisão, o gravador, sofás, fiambre enlatado, um grande chupa-chupa com a palavra “POP”, onde o casal, rodeado de comodidades e facilidades (qual Jardim do Éden), se exibe: ele, como um culturista musculado e tonificado; ela, numa pose elegante e ousada, lembrando uma pretendente a estrela de cinema. Há a obrigação de ceder à tentação do consumo, é a mensagem.
Allen Jones, em Hatstand, Table, Chair (1969), faz referências irónicas, sarcásticas e subtis ao erotismo e ao sexo, usando manequins femininos em poses diferentes, em que mulheres seminuas denunciam e retratam a mulher-objeto, em poses insinuantes e, ao mesmo tempo, o mobiliário de uma sala, lembrando um bengaleiro, uma mesa e uma cadeira.  

 

3. Os artistas pop olhavam em volta e documentavam o que viam, explorando o otimismo da sociedade e a esperança num futuro de novas tecnologias, mais tempo de lazer, de automóveis velocistas, moral livre e sexo casual, filmes e música pop.
É do conhecimento comum que a música pop e os seus ídolos são mais populares que a arte pop e seus criadores, o que não impediu interpenetrações entre músicos e cantores pop e artistas ou obras de arte pop.
Recordemos a capa, criada por Peter Brown, para o álbum Sgt. Pepper`s Lonely Hearts Clube Band (1967), recentemente reeditado, dos Beatles, em que estes surgem à frente de uma galeria de personagens célebres: Bob Dylan, Oscar Wilde, Marlon Brando, Edgar Allan Poe, Lewis Carrol, Marylin Monroe, entre outros gurus. A pintura Beach Boys (1964), também de Peter Blake. A capa de Richard Hamilton para o Álbum Branco (1968), dos Beatles. Ou a série Swingeing London (1967), do mesmo Hamilton, baseada na fotografia da detenção, por droga, do seu galerista e de Mick Jagger.

 

4. Nomes como Paolozzi e Hamilton foram fundadores, numa primeira fase, da arte pop britânica, com uma evocação permanente do quotidiano e seu lado mais tecnológico. Numa segunda fase, sobressai Peter Blake, impondo-se analogias aos símbolos de uma sociedade massificada. Numa terceira fase, artistas como Allen Jones, David Hockney e Patrick Caulfield, retomam uma figuração mais notória.
Apesar da sua aceitação e representação do quotidiano, a arte pop questionou e subverteu as hierarquias culturais até aí dominantes, com manifestações heterogéneas, em que a arte pop britânica, mais erudita e intelectual, antecedeu a americana, mais popular e consagrada.

 

17.10.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

A única forma que tenho de trabalhar os meus livros, é colocá-los, de quando em vez, arrumados nas minhas estantes, encontrando-lhes fundamento e afeto e cumplicidades nessas arrumações. Desta feita dei comigo a colocar ao lado do Alçada, não só o Alexandre como o grande Borges, bem como a Yourcenar, e encostado às Peregrinações, o Régio, o Ruy Belo e o Manuel Bandeira. Desta vez envolvi-os assim. Pareceu-me que todos falavam bem entre si e que o triunfo sem perda seria o saberem extrapolar princípios e vastidões. Foi uma forma de colocar os crentes destes caminhos a dividirem o destino humano em boa disposição. Estas arrumações fazem-me muito bem, confesso, sobretudo porque lhes reconheço por antecipação a alegria do chão no caos que se seguirá – aquele caos que mal me deixa ver em cima da secretária o teclado onde escrevo. E enfim breve, breve chega afinal o momento dos livros arrumados descerem de novo à secretária e aos sofás e ao chão. Chegam das arribas tocados pela ideia de mundo, querendo-se amar uns aos outros, muito próximos fisicamente e espiritualmente apesar dos riscos.

 

Esta é a melhor gente do mundo, esta gente de desmedidos projetos de procura através de migalhas cósmicas que lhes desencadeiam custos e peripécias de luz…

 

E Mallarmé, onde te coloco? Ao lado de Kafka, Flaubert, Tolstoi, Celan, Torga e Comte-Sponville? Ah e Camões? Deus que isto é um universo inviável e que compromete a unidade! Digo para mim com um sorriso que convoca a ideia de relativismo que forma o meu mise en abyme no discorrer destas tardes de arrumações de livros. Também lhes peço a eles, ajuda em nome de todos os que retendo alguma coisa quando os leem, imaginam logo qualquer coisa saber: perigoso e desapiedado cesto de Pandora!

 

E assim ao fim de uns dias, um azul próprio do céu dos livros deixa-se ver em volta de um ponto invisível que me roda sempre a leitura e releitura dos mesmos. Mesmo quando começo a escrever, espreito esse ponto invisível porque o sei lá onde e aonde imprecisa é a vida e a morte.

 

E acontece-me de novo pegar num livro, sondá-lo, buli-lo, incitá-lo a desafiar-me o namoro e a partir da paixão já sem recato, que ele me permita frui-lo até onde eu o possa levar. Só por lá a fórmula da natureza humana.

 

E não me sinto estranha assim perdida, assim envolvida no trabalho de arrumar os livros entre os sensuais ecos das palavras dos filósofos que, insidiosamente, são sabedores da direcção do engenho por onde ando.
 

Teresa Bracinha Vieira

HOJE

Blogue CNC - Hoje.jpg

 

                                                          

É o tempo em que uns dos outros nos faremos irmãos em plena diversidade.

 

É o tempo em que hora grácil responde ao silêncio opado.

 

É o tempo de dialogarmos com mãos-à-obra sobre a mais definitiva despedida de tudo o que rejeitamos.

 

É o tempo das malas estarem prontas para esta viagem.

 

É o tempo de partirmos para que vivamos ainda no presente o futuro que desejamos.

 

É o tempo dos alguéns se juntarem neste percurso e se se de justificação necessitarem, as palavras de António Variações:

 

   a culpa é da vontade!

 

ou, as de Duras:                               

 

   je ne peux me résoudre à être rien !

 

 

          Teresa Bracinha Vieira
               Outubro 2017

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca da obra de Carlo Scarpa

 

'The truth is in the made.', Carlo Scarpa

 

Olhar para a arquitetura de Carlo Scarpa (1908-1978) ensina-nos a descobrir o interesse pela espessura da história, da matéria, da natureza, do detalhe e da invenção. 

 

A arquitetura de Scarpa é acerca de camadas, de linhas, de massas e de volumes construídos. É um esculpir de superfícies. 

 

Scarpa dá importância ao peso (se constrói em betão) e à leveza (se constrói em vidro). Concebe a forma como um todo, com elementos inseparáveis. O imenso respeito pelo contexto é concretizado pela importância e pela presença que cada elemento tem.  

 

'In the work of Carlo Scarpa, ‘Beauty’, the first sense. Art, the first word, then Wonder.', Louis Kahn 

 

Nuno Portas escreve no texto 'Carlo Scarpa. Um Arquiteto Moderno em Veneza.', que quem observar em pormenor a obra de Carlo Scarpa, não deixará de notar a invenção que caracteriza cada forma, cada articulação e cada elemento construtivo, por mais insignificante que seja. A arquitetura, surge assim como sendo um exercício intenso de desenho do detalhe. É necessário referir que Scarpa não fazia desenhos finais. Desenhava repetidamente sempre sobre o mesmo desenho. As camadas de espaço e de cor acumulavam-se num só desenho. Os seus desenhos são assim um registo simultâneo do processo do pensamento e do processo de construção.

 

O diálogo que Scarpa mantém com o passado é de abertura, porque o tempo presente está nas formas inventadas (que não são puras nem ideais, como declaravam os modernos). Afirma-se sempre um espírito de liberdade mas atento a condicionalismos. Cada forma aparece como sendo em simultâneo construção e detalhe, recusando qualquer simplismo nas soluções encontradas. 

 

Para Scarpa, o tratamento do espaço é sempre complexo, dinâmico, intenso, intencional e dramático. Há uma constante diferenciação de pés-direitos, frequentes interligações dos espaços e uma contínua tensão entre os espaços cobertos e descobertos (N. Portas).

 

'Scarpa sai assim de uma habitual e limitada redução da obra arquitetónica à sua planta, tornando-a complexamente volumétrica através do estudo em altimetria em que conjuga o tratamento dos tetos, a iluminação, o jogo dos cheios e dos vazios, a variação certa no emprego dos diferentes materiais.', Nuno Portas

 

A obra de Scarpa precisa imensamente do ambiente preexistente e das referências exteriores para se tornar mais verdadeira. Os condicionalismos são para Scarpa reais sugestões para a sua imensa invenção arquitetónica. 

 

O exemplo da obra de Carlo Scarpa é, assim, uma lição profunda de arquitetura sobre a importância simultânea do todo e do detalhe - onde a história, a memória e a fértil invenção humana contribuem para a continuidade entre os espaços interiores e exteriores, naturais e artificiais, iluminados e escuros, leves e pesados, complexos e puros.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

RH May’s last supper, or 28 beers in a bar, 2017

 

O senhor é inequivocamente um clássico. O President da European Commission reafirma pela enésima vez que o UK "have to pay” para avançar nas Brexit trade talks. Até aqui é só eurocratês e questão resumível a zeros.

Mas gloriosa inovação vem do enquadramento legal ora invocado por Monsieur Jean Claude Juncker para justificar o pagamento: “If you are sitting in a bar and if you are ordering 28 beers, and then suddenly some of your colleagues is leaving and he is not paying, that is not feasible.” — Chérie! L'eau est le meilleur des breuvages. A Prime Minister RH Theresa May aproveita o fuso alcoólico. Enceta esforços de phone diplomacy com a Kanzlerin Angela Merkel e outros líderes dos 27 para avançar com o negócio. Já esta noite voa a Brussels para jantar com o herói da LuxLeaks. Na last supper, London obtém o compromisso de aceleração nos tratos. — Well. Nothing is agreed until is agreed. A storm Ophelia abate-se sobre as ilhas britânicas, com vagas e ventos de 118mph guiando cinzas de Portugal. Do Atlantic à California, o fogo carcome a terra e as espécies. As  ancient woodlands do Kent são devastadas pelo avanço da A21. Os astrofísicos anunciam nova era nas estrelas. A East, Austria elege como chanceler Herr Sebastian Kurz, conservador de 31 anos, lá tido como The Messias. O escândalo do produtor de Shakespeare in Love, o mogul Harvey Weinstein, assombra de Hollywood a Hollyoaks.

 

 

A orange sky at London. A Sky informa que o red Oktober ocorre no midday em várias regiões de England. Os metereologistas explicam o fenómeno com air and dusk da Iberia e do Sahara, quando as chuvas torrenciais causam vítimas e danos em Ireland ainda antes da noitada O céu de Gloucester é visto como very freak. Cientistas das universidades de Warwick e Jacob Bremen falam de descobertas nas astrofísicas e na origem dos elementos. Também o Brexitting traz tintas inusuais e talvez almejado magical tipping point. Pelo meio, a Prime Minister janta em Brussels com os EU top negotiators, os inefáveis Monsieurs Michael Barnier e ainda Jean Claude Juncker. Se bem me lembro, a última vez que o grupo jantara foi em Downing St e tudo acaba em desastre. A governança continental insiste no estilo do old Cosimo Medicis. Nem o cozinheiro do nº 10 então escapa ao criticismo eurófilo.

 

Temo, porém, que alguém transmute a Blue Lady em ido RH Neville Chamberlain MP. Seja como seja, as fileiras atrás da dama estão formadas para a sucessão nos Tories e o Old Labour Party tem em RH Jeremy Corbyn a true bennite. No entretanto, tal qual Lady Margaret Thatcher em Fointainbleau, a PM tem sempre a carteira como… ultimate weapon.

 

Já outra senhora atravessa o Atlantic Ocean. Mrs Hillary R Clinton está no reino em grand tour promocional ao seu livro What háppened, narrando causas e cargas pela derrota nas eleições presidenciais americanas de 2016.

A impressão da Simon & Schuster tem 464 páginas, custa £20 e soma a um honoris causa pela Swansea University, em Wales, terra dos ancestrais. O marido ficou em casa, mas ela também não tem tempos livres na série cerrada de entrevistas onde reedita a oposição da Obama Administration à Brexit. Há algo de fantasmático na revisitação. Pela manhã é o Guardian quem prega susto de morte aos ilhéus, ao divulgar a revisão da riqueza nacional em baixa: menos £490 billions. Estimo que o Chancellor Phillip Hammond haja diligenciado contatos junto da ex US Secretary of State sobre as melhores práticas de gestão no bar.Ummm. Take it easy as does Master Will in As you like it: — “O coz, coz, coz, my pretty little coz, that thou didst know how many fathom deep I am in love. But it cannot be sounded; my affection hath an unknown bottom, like the Bay of Portugal."

 

St James, 16th October 2017

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 16 a 22 de outubro de 2017.

 

Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal (Oficina do Livro, 2016), de Leonor Xavier, não pode passar despercebido, uma vez que através da palavra de figuras marcantes do mundo da língua portuguesa podemos compreender como as nossas diferenças de um lado e doutro do Atlântico possuem virtualidades que o tempo se encarregará de aprofundar.

 

 

PORTUGAL E BRASIL
Há muito para fazer e sobretudo importa evitar que alguns lugares comuns agravem equívocos e mal-entendidos. Sem nos deixarmos influenciar por perturbações ou nuvens negras momentâneas, a verdade é que falamos de uma língua em expansão no próximo século e de uma afirmação cultural previsivelmente de grande riqueza. Naturalmente que não basta seguir as projeções demográficas lineares, sobretudo na América do Sul e em África, uma vez que há muito para fazer na inovação, no conhecimento, na educação, na ciência e na cultura – com atenção para a Europa e para uma história global relacionada com todos os continentes. Tudo isto para dizer que o diálogo de Portugal com o Brasil tem uma importância significativa, muito para além do velho comércio da saudade. Este pequeno livro de Leonor Xavier é, nesta perspetiva, um precioso conjunto de ideias para despertar uma cultura plural, aberta, diversa, disponível para a inovação e avessa a qualquer paternalismo ou autossuficiência. Longe de providencialismos, do que se trata, como nos tem dito Eduardo Lourenço, é de partir das limitações e imperfeições para um humanismo universalista – que Jaime Cortesão magistralmente defendeu.

 

ENRAIZADAMENTE BRASILEIRO
João Cabral de Melo Neto recordava, no seu diálogo com a autora, como Jorge Amado e José Saramago são diferentes – um enraizadamente brasileiro, o outro português (em Tocaia Grande e O Ano da Morte de Ricardo Reis) – mas o leitor estrangeiro “sentirá que eles se movem num país comum, que é a língua, e a gente esquece que o facto de dois países falarem a mesma língua é coisa importante, com as diferenças que possa haver”. E acrescenta: “no sul do Brasil, do Rio para sul, há uma quantidade de emigrações, isso faz que o Brasil seja um país muito diferente de Portugal, sociologicamente. Mas há uma área de entendimento, que vem da língua ser comum”. João Cabral era nordestino, pernambucano, e com a idade foi-se tornando mais próximo das raízes portuguesas, no contexto de uma extraordinária complementaridade. E, dando o exemplo de Morte e Vida Severina, João Cabral lembra que os portugueses tinham facilidade em identificar algumas palavras que resultavam difíceis para os estudantes paulistas. Mas se é assim no léxico, na prosódia o português do Rio é mais próximo de Portugal do que o do Nordeste. As coisas evoluem natural e contraditoriamente. Por isso, o diplomata confessava nunca ter sido muito ativo na propaganda da cultura brasileira, entre outras coisas porque acreditava que a cultura, ninguém a propaga… O importante seria a criação em si, haver informação, circulação de ideias e de pessoas. Isso é mais útil e eficaz do que grandes teorias e programas. O nosso querido Alberto da Costa e Silva lembra que até aos anos 40 o livro português chegava ao Brasil. A Amarante no Piauí, às margens do rio Parnaíba, donde era seu pai, poeta e leitor de António Nobre, Cesário Verde e Antero de Quental, chegavam os nossos poetas. A ideia do movimento e da circulação é fundamental. “Eu acho que uma política da língua interessa a todos os países onde se fala o português, porque ele fortalece a nossa presença no mundo. Nós seremos nos séculos vindouros aquilo que for a nossa língua”. E a educação merece um lugar mais relevante no diálogo e no intercâmbio. “A parte do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil nos seus curricula é diminuta. Quer dizer, nós somos afetuosamente autodidatas uns em relação aos outros, o que é ótimo, porque revela a proximidade em que nos encontramos”. Mas falta algo mais quanto às nossas coisas comuns: “estudando um pouco o Brasil, você conhece melhor Portugal, sendo a recíproca verdadeira. É importante conhecer um pouco do outro lado do rosto que se vê”… E Nemésio já se queixava da míngua de estudos brasileiros aqui…

 

GRAÇAS À LÍNGUA PORTUGUESA
Nelida Piñon afirma que “graças à língua portuguesa” é uma cosmopolita e que “numa viagem à Galiza”, descobriu que em criança “falava português do século XI”. Que extraordinário encontro entre o futuro e as raízes… E Elza Gomes, atriz celebrada, inventou que Portugal é um pai, “é aquele respeito, aquele rigor” e o Brasil “uma mãe, porque é esta liberdade toda”. Carlos Drummond de Andrade, olha para diante: “a língua portuguesa é tão rica, tão variada, que ela comporta perfeitamente essa diferença do seu uso em Portugal e no Brasil, e acredito também em Angola e na África em geral. Há de haver variantes impregnadas do sentimento local (…). Eu não creio que a língua sofra com isso, não”. E não tem dúvida de que há “uma nuance brasileira na língua portuguesa. Eu não posso conceber um escritor brasileiro que não conheça a literatura portuguesa”… E recordo uma inesquecível visita a Itabira, à casa da infância de Drummond, na companhia de Leonor Xavier – em cujo encontro esteve bem presente o extraordinário génio criador do poeta, que bem compreendeu a plasticidade de uma língua de diálogos. «Não há falta na ausência, / A ausência é um estar em mim»… Caetano Veloso lembra como sentiu um sentimento afetuoso ao chegar a Portugal. “Tudo me emocionava, não só a beleza arquitetónica, mas sobretudo as pessoas falando. O sotaque e o modo de o português tratar a gente. Eu gosto muito daquela coisa gentil, é um formalismo doce, muito gentil, muito bem-educado”… Por seu lado, António Alçada Baptista (quantas vezes lhe ouvi isso) deixa claro que se não tivesse estado no Brasil, teria perdido muito de si – “hoje, acredito de verdade que a minha pátria é a minha língua, e aqui (no Brasil) falo português”… Em síntese, para Leonor Xavier, apesar da ligação da língua, somos irmãos separados à nascença – “diferentes no entendimento do mundo, nos rituais da vida e da morte, no traçado da condição humana”. Metaforicamente, Agostinho da Silva invoca o exemplo de Pessoa: “Eu quero é saber quem era o Fernando Pessoa. Era uma centelha de deus criador ou era vários? Era um molho de gente?”. No fundo, há uma chave a entender: “A chegada ao Brasil é a coisa mais importante que o português fez, porque demonstrou que sabia navegar para qualquer parte”… A paixão da terra liga-se à saudade de Portugal. Agostinho falava de “saudades construtivas do Brasil”. “Portugal tem de se renovar, de se restaurar, de maneira que possamos sair sem ser a fugir”. Por isso, temos muito que aprender uns com os outros, portugueses e brasileiros, sobre o que nos aproxima e separa, somos quem somos na diferença e na comunidade. Não alimentemos ilusões – a língua comum, obriga a entender a diversidade de culturas, que se enriquecem mutuamente.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Sanjay Subrahmanyam explica bem a circunstância da cuidada distinção que os Portugueses começaram a fazer entre os mouros da terra e os mouros de meca (ou seja, do Médio Oriente: viam nestes últimos os seus principais inimigos, mais do que aqueles. Tal distinção havia porém resultado de árdua aprendizagem. Mau grado os intensos contactos que a Europa medieval mantivera com o Índico, a primeira expedição de Vasco da Gama foi levada a cabo sob uma ignorância considerável da geografia religiosa, política e económica da Ásia e da África Oriental. Álvaro Velho, que escrevia um diário de bordo da São Rafael, uma das naus da armada, declara de modo enfático: «Esta cidade de Calecute é de cristãos, os quais são homens baços. E andam eles com barbas grandes e os cabelos da cabeça compridos, e outros trazem as cabeças rapadas e outros tosquiadas». Nem se desengana de tais ideias no apêndice do "Roteiro": aí se encontram listados, como reinos cristãos da Ásia, Cranganor, Coulão, Kayal (que aparentemente tem um rei mouro mas súbditos cristãos), Coromandel, Ceilão, Samatra, Sião, Tenasserim, Malaca e Pegu; apenas o Bengala, que possuía «muitos mouros e poucos cristãos, e o rei é um mouro», e Calecute, ficam fora da lista. É significativo que o termo gentio (mais tarde usado para designar hindus e budistas) não se encontre uma única vez no texto.

 

   Sabes bem, Princesa, que os pioneiros portugueses acreditavam -  como muita gente na Europa de então -  na existência de povos e reinos cristãos no Oriente, e com ansiedade procuravam encontra-los, pois eles estariam nas costas do Islão que, naquele tempo, cercava, ao Sul e no Médio Oriente, a Europa cristã. O desejo dessa descoberta era tão forte que explica, não só as afirmações, acima, de Álvaro Velho, como a confusão dos primeiros templos hindus visitados com igrejas cristãs, até porque tinham inúmeras estátuas e imagens, como se locais de culto cristão pudessem ser. Logo que desfeita tal baralhação -  pela experiência madre -  a designação de gentios distingue-os dos cristãos e, simultaneamente, dos muçulmanos, apelidados de infiéis, cujas mesquitas, aliás, não dispunham de representações ou imagens santas, abolidas pela lei islâmica. A classificação de infiel -  aliás recíproca entre cristãos e muçulmanos - denuncia as raízes comuns das três religiões monoteístas, ditas do Livro: judaísmo, cristianismo e islamismo, e ajuda-nos também a perceber as animosidades e os ódios atiçados pelo preconceito de que o outro, o infiel, é um traidor, e nunca podemos confiar em quem nos atraiçoa. Judeu, cristão ou mouro, cada um deles reza ao mesmo Deus único, clemente e misericordioso. Mas, ao longo da História, a própria fé os separa e põe em afrontamento. Talvez um melhor conhecimento mútuo pudesse ajudar a que a fé fosse mais verdadeira, isto é, mais próxima da comunhão fraterna com a clemência e misericórdia de Deus... Ainda por cima, Princesa, muitas histórias sagradas, lendas e mitos, pessoas santas e ensinamentos, são comuns a essas religiões. Há poucos dias atrás, em jantar de amigos, com gente instruída e interessada, houve quem duvidasse de um dito meu sobre a crença muçulmana na maternidade virginal de Maria, na sua veneração de Jesus, esta ao ponto de, no Corão, se negar a sua crucifixão, pois tal santo não pode morrer. E, todavia, olha o que Alcorão diz:

 

   Sura IV, versículos 155 e 156 - Não acreditaram em Jesus. Inventaram contra Maria uma mentira atroz. Dizem: «Matámos o Messias, Jesus, filho de Maria, o apóstolo de Deus». Não, não o mataram, não o crucificaram; foi substituído por outro indivíduo parecido com ele, e mesmo os que debatiam acerca dele tiveram dúvidas. Não tinham qualquer conhecimento preciso, apenas suposições. Na realidade não o mataram. Deus elevou-o até Ele, e Deus é poderoso e sábio.

 

   Sura III, versículos 37 e segs. - Os anjos disseram a Maria: Deus escolheu-te, fez-te isenta de qualquer mácula, elegeu-te entre todas as mulheres do universo. Os anjos disseram a Maria: Deus anuncia-te o seu Verbo. Chamar-se-á o Messias, Jesus filho de Maria, venerado neste mundo e no outro, e um dos confidentes de Deus. Senhor, respondeu Maria, como terei um filho? Nenhum homem se aproximou de mim. É assim, retorquiu o anjo, que Deus cria o que quer. Diz: Seja! E é.

 

   O desconhecimento mútuo das diferentes leituras das três religiões "do Livro", nega oportunidades de se descobrirem familiaridades, o facto da cristandade (bizantina e latina) e do islão (árabe e otomano) invocarem a proteção divina para as suas campanhas de expansão e conquista, alimenta a desconfiança e o ódio "religioso". Tal não impediu, todavia, que, na própria bacia mediterrânica, ocasionalmente se estabelecessem alianças entre cristãos e muçulmanos em guerras contra outros cristãos ou muçulmanos, os interesses políticos e ambições territoriais não coincidindo sempre com as confissões religiosas das potências envolvidas. No Índico, os portugueses não fugirão à regra do pragmatismo militar, político ou comercial, e desde logo começam por diferenciar os mouros da terra dos mouros de Meca, e ambos dos gentios. Estes, não sendo infiéis, inimigos sempre suspeitos de traição, são considerados aliados mais prováveis, além de "searas" para obra do Senhor Deus. Por muito estranhos que sejam os seus cultos e imagens, depois de desfeita a confusão com cristãos do Oriente. Luís de Camões (in Os Lusíadas, canto VII, oitava 47 e segs.) diz bem essa surpresa e, quiçá, desgosto que, talvez, o próprio Gama terá sentido, em visita a templos hindus:

 

          Aí estão das Deidades as figuras,

          esculpidas em pau e pedra fria,

          Vários de gestos, vários de pinturas,

          A segundo o Demónio lhe fingia.

          Vem-se as abomináveis esculturas,

          Qual a Quimera em membros se varia

          Os cristãos olhos a ver Deus usados

          Em forma humana, estão maravilhados.

 

          Um na cabeça cornos esculpidos,

          Qual Júpiter Amon em Líbia estava;

          Outro num corpo rostos tinha unidos,

          Bem como o antigo Jano se pintava;

          Outro, com muitos braços divididos,

          A Briareu parece que imitava;

          Outro fonte canina tem de fora,

          Qual Anúbis Menfítico se adora.

 

          Aqui feita do bárbaro Gentio

          A supersticiosa adoração...  

 

   Mas regressemos a Subrahmanyam e ao nosso jornalista quinhentista Álvaro Velho, para, como escreve o primeiro, nos debruçarmos sobre o contexto em que o nosso observador ingénuo se encontra em Calecute, na costa do Malabar. Subrahmanyam alude a duas debatidas questões acerca dessa primeira viagem de Vasco da Gama à Índia: uma refere-se à escolha do mesmo para o comando da armada, já que o Gama era de pequena nobreza e quase desconhecido; outra interroga o relativamente longo prazo de nove anos entre a dobragem do Cabo das Tormentas/Boa Esperança, por Bartolomeu Dias e a partida da expedição de Vasco. Finalmente, debruça-se sobre a questão de que te falo a seguir, e que tem a ver com a demora, ou atraso da chegada dos portugueses à costa ocidental indiana:

 

   A armada de Vasco da Gama deixou efetivamente o estuário do Tejo a 8 de julho de 1497, e chegou ao Cabo da Boa Esperança a 19 de novembro, mas só atingiu Calecute, o seu verdadeiro destino, a 20/21 de maio de 1498. As razões deste longo atraso, que contabilizava o total da viagem Lisboa-Calecute em 316 dias, foi a paragem de quatro meses na costa oriental africana. Os historiadores descuraram atá hoje esta parte da viagem, centrando-se na chegada a Calecute; de facto, parte do que ocorreu em Calecute só pode ser compreendido tendo em vista a experiência do Gama na África Oriental. Parece-me acertada, Princesa de mim, esta observação: aliás, os factos apontados por Subrahmanyam, na Ilha de Moçambique, em Mombaça e Melinde (donde a armada largou para o Malabar) encontram-se também narrados em Os Lusíadas, e Camões nem esquece a personagem de Fernão Martins que havia sido cativo no Norte de África e sabia falar árabe. O relato de Álvaro Velho contém uma súmula das suas observações. Eis o modo como viram Moçambique, no seu primeiro encontro com o sistema de comércio do Índico:

 

   «Os homens desta terra são ruivos e de bons corpos e da seita de Mafamede e falam como mouros; e as suas vestiduras são de panos de linho e algodão, muito delgados e de muitas cores de listras, e são ricos e lavrados; e todos trazem toucas nas cabeças, com vivos de seda lavrados com fio de ouro; e são mercadores e tratam com mouros brancos, dos quais estavam aqui, em este lugar, quatro navios deles que traziam ouro, prata e pano e cravo e pimenta e gengibre...»

 

   Após esta citação de Álvaro Velho, Subramahnyam continua: Há dois reparos a fazer: a rápida identificação do lugar como muçulmano, mas ao mesmo tempo o desejo de distinguir os muçulmanos "nativos" dos do Médio Oriente. De facto, quando as relações com o rei local azedaram, como ocorreu a breve prazo, há novamente uma clara tentativa de apontar a culpa do sucedido aos mouros brancos.

 

 

   Fosse qual fosse o motivo do desentendimento e algumas escaramuças, ainda hoje debatido, o certo é que a armada zarpou para Quíloa e Mombaça, onde se deram novos confrontos, tendo alguns muçulmanos, que haviam sido feitos prisioneiros, confessado que o rei de Mombaça urdiria uma conspiração contra os portugueses... Seguiram estes, então, até Melinde. O episódio da sua paragem aí merece umas estrofes de Os Lusíadas - como adiante te citarei - mas deixo-te, primeiro, o relato de Subrahmanyam, que segue o "diário" de Álvaro Velho:

 

   A breve estadia na África Oriental é essencial para definir a conduta dos Portugueses no Malabar. Salientemos a extrema desconfiança da atitude do Gama em Calecute: ele espera por navios de terra para se aproximarem das suas naus, em vez de tomar a iniciativa do contacto, após o que manda a terra um membro dispensável da sua frota - um degredado chamado João Nunes - em vez de alguém com autoridade. Nunes, ao encontrar dois mercadores tunisinos no porto, é o verdadeiro protagonista da célebre cena seguinte.

 

[Assim chego à prometida transcrição de um trecho do "Diário" de Álvaro Velho]:

   «E aqueles com que ele ia levaram-no aonde estavam dois mouros de Tunes, que sabiam falar castelhano e genovês. E a primeira salva que lhe deram foi esta que se ao diante segue:

 

   - Ao diabo que te dou: quem te trouxe cá?

   E perguntaram-lhe o que vínhamos buscar tão longe, e ele respondeu:

   - Vimos buscar cristãos e especiaria.

   Eles lhe disseram:

   - Porque não manda cá el-rei de Castela e el-rei de França e a senhoria de Veneza?

   E ele respondeu que el-rei de Portugal não queria consentir que eles cá mandassem. E eles disseram que fazia bem».

 

   Em próxima carta voltarei a Camões e ao rei de Melinde. E também para ti guardo uns passeios à volta das cousas da China, com frei Gaspar da Cruz.

 

Camilo Maria  

Camilo Martins de Oliveira

O TEATRO DE VISEU, MODELO DE SUCESSIVA MODERNIZAÇÃO


O Teatro Viriato de Viseu constitui de certo modo como que um modelo de infraestrutura cultural vocacionada para a descentralização e para a modernização. E isto porque o seu historial, independentemente de sucessivas alterações, representa bem o que tem sido o historial urbano destes teatros, que vêm, alguns deles, ainda do século XIX: e tal é o caso, de certo modo, deste Teatro Viriato.

 

O Teatro é fundado em 1883, inscrevendo-se na “geração” de salas de espetáculo que correspondem à descentralização cultural e social então em pleno incremento. São numerosas efetivamente, e cobrem todo o país. No caso concreto este denominou-se Theatro da Boa União, mas logo em 1889 passa a Theatro Viriato.

 

Em 1921 surge uma “concorrência”, chamemos-lhe assim, denominada Avenida Teatro. E a consequência, para o já na altura “histórico” Teatro Viriato, será fatal: O Teatro Viriato entra numa fase progressiva de abandono, o que, num teatro de grande interior, era na época caminho para o encerramento e a demolição, até porque se trata já na época de um imóvel de dimensão considerável em zona valorizada da cidade.

 

A situação, obviamente, não é original. Mas em Viseu como que se acentua. E o Teatro Viriato entra em tal decadência que em 1960 serve de armazém de mercadorias!...

 

E assim ficará até 1985.

 

Nesse ano, Ricardo Pais lança um processo de recuperação do Teatro Viriato, fazendo coincidir com as comemorações do centenário de Aquilino Ribeiro (1885-1963) natural de Sernancelhe. Aquilino é autor de duas peças, “O Manto de Nossa Senhora” (1920) e “Tombo no Inferno” (1962). E tal como já noutro lado escrevi, em ambos os textos, não obstante certo peso de linguagem, está a grande força da literatura de Aquilino: a grandiosidade telúrica, o recorte das personagens ligadas a uma natureza dura, a simplificação da conflitualidade nascida diretamente dos instintos e sentimentos.

 

Ocorreu então como que uma reinauguração do Teatro Viriato com textos de Aquilino adaptados e encenados por Ricardo Pais sob o título de “Enormidades Apenas Cíveis à Luz Elétrica”.

 

Neste contexto, importa então assinalar que a Câmara Municipal de Viseu celebrou um contrato-programa com a Sociedade de Reabilitação Urbana para recuperar uma antiga entidade pública, a Agropel, vizinha do Teatro para uma recuperação e harmonização de espaço que valorizará as atividade culturais, designadamente, ao que se anuncia, na área da dança e do ballet.

DUARTE IVO CRUZ