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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

RADUAN NASSAR, “UM COPO DE CÓLERA”: poder e submissão no espírito do tempo

 

Prémio Camões 2016, “Um Copo de Cólera” (…) «tem mais poder nas suas poucas páginas do que a maioria dos livros com cinco ou dez vezes mais páginas» e assim é, tal como publicou o The Guardian. Depois de ler “Um copo de cólera”, lancinante extremo da literatura portuguesa, as perguntas fundamentais e seus sinais são força de fogo.

 

Trata-se de um livro profundamente invulgar, de uma ferocidade sôfrega que se desenvolve a partir de uma noite de amor e de erotismo em que dois amantes se entregam numa experiência intensa e rara, e eis que surge o extraordinário de assim a escrever, e a necessidade presente do alguém que tem de pagar queira ou não, o suporte espontâneo da cólera ou não fosse esta o melhor alívio da culpa que se suporta no eixo do peito.

 

E muitas vezes fiquei sem ar nas páginas deste livro. Tudo nele é de rajada numa verdade hemorrágica, lasciva e ungida na força dos pensamentos independentes, quando se sabe que os cães acorrentados trazem feras no avesso, e que mais não somos nós do que acorrentados? mesmo quando rogamos que os pés do nosso homem possam ser dois lírios brancos, e a nossa cela os aceite como macho absoluto do nosso barro numa prosternação de meu amor sacana.

 

«que tanto você insiste em me ensinar?».

«estou descalço» dizia, e ela nunca tivera dele o bastante, só o suficiente. Sempre o dissera.

 

Ela, essa femeazinha fascista que se regozijava da perspicácia que lhe atinava também como mulher que atua, e que enxotava quem é fraco, querendo-o. E ele querendo sempre transformar em graça o ferrete que ele próprio carregava, Deus meu! numa forte iluminação da bofetada no rosto dela, gritando-lhe o quanto, o que contava na vida era a qualidade da descida, ó carcaça, cérebro de pilantra, tudo o que vomita, é tudo coisa que você ouviu de orelhada.

 

Mulher mais gatuna é a que abre a boca e os dentes não contam idade, para sob ela encobrir que quer castrar seu homem, chamando-lhe de «mestre» e alfinetando-o com o fogo das palavras e das ancas, misturando razão e comoção e sempre metodicamente a querer que ele seja seu filho igualzinha à maioria das mulheres que nos momentos de emancipadas querem seu macho num tempo diferente da geometria passional.

 

E num instante ele era o canalha da cama e o canalha que ela ama com volúpia e recuo, e ele, descalço, e ele a levá-la à entrega hipnótica por sua tão própria linguagem, essa linguagem que fora ele que lhe ensinara, ele, o sem estudo, e ela metálica de curso feito, tanto quanto o seu riso escárnio não entendia que era a fascista pior do que ele, pois não sabia que o era em nome da sua razão.

 

Gritavam um ao outro os demónios internos de cada um, as velhacarias bem sufocadas que tanto insistiram em os ensinarem numa farsa tão sinistra quanto esplendida, sobretudo quando tudo se incendiara com a demolição da cerca que as formigas metodicamente tinham derrubado. Ou talvez não. Talvez tudo se iniciara com a decisão de usar veneno para as sufocar na toca que se pisaria depois com um calcar definitivo ao ar. Uma força contra a vida ou contra uma outra direção, mas uma força.

 

E ele recebia dela umas mãos no banho que lhe dava depois do amor ou do sexo, movendo-se doidamente quando ela lhe apanhava os cabelos num ritmo que ela cumpria e ele só sabia que se entregava (…) «para que fosse completo o uso que ela fizesse do meu corpo».

 

Sempre, de um modo ou de outro a nossa infância recorda-nos ideias acabadas e sem a confusão da idade grisalha. Li neste livro a dor desta claridade da infância ser mais pedra que saudade, mais absoluta solidão depois do concluir o austero dejejum do colo dos pais imperfeitos, e tão amados, naquele tranquilo labirinto dos enigmas do então.

 

E começara já os latidos mais desesperados entre ambos como se se quisessem aniquilar um ao outro, abrindo covas fundas e de inesquecíveis dores um no outro, com tudo o que certeiramente se diziam, pois que ambos não eram gente, ou eram-no porque.

 

E já em indicações díspares de destino ela fugira para sempre e ele fingira que adormecera até ao dia seguinte, abandonando-se qual menino na sua própria cama, mulher anforal, e ela entrava já devagar no dia depois, pela manhã, e clareando a emoção por entre as lágrimas secas, acedia à condição relativa, sabendo que numa porventura certeza aos dois e a um tempo, se embalava a realidade, enquanto um seio despertava a vontade de a ambos e em ambos se proteger.

 

Assim li este mundo que Raduan Nassar, num ímpeto de copo de cólera, partilhou, bem como, o quanto a fórmula de a beber, assim estilhaçada, é cortante, mas esclarecedora. E deste modo, Nassar deu unidade à Coisa depois do confronto dos violentos segredos que nos prendem e nos racham numa única razão de amor e de vida. Numa razão de perder princípios, por vezes, avaliando mal o tamanho das formigas e do medo.

 

Por mim diria, que neste livro os amantes ainda se disseram um ao outro, serem a única coisa que se deixavam mutuamente. E se este dizer era ataviado, sem dúvida, eles o conheciam como lugar central.

 

Teresa Bracinha Vieira

Setembro 2014

A FORÇA DO ATO CRIADOR

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A cidade linear.

 

'Decay, disorder and conflict do not seem as predictable in environments of such visual clarity.', Otis Stevens and Mcnully

 

No livro 'World of Variation', de Mary Otis Stevens e Thomas Mcnully, lê-se que a cidade como conceito é muitas vezes descrita como sendo uma simples rede de comunicação. Como uma máquina ideal para acomodar uma conglomeração de necessidades físicas e psicológicas, ou como um determinado organismo composto por pessoas, veículos, edifícios, parques e meios de ligação.

 

As cidades com população mais elevada, densa e heterogénea, são ainda pensadas como cidades ideais e alguns estudos de planeamento preveem, num futuro próximo, áreas metropolitanas com 25 a 50 milhões de habitantes.

 

'To allow for time - time as a form that the future fulfills - is one of the new tasks of the architect and planner. Concern for the future, however, involves memories of the past and ideals of the present. As a race, men seem to display an inherent desire for permanence, to hold onto the minute that is passing, to preserve the environment that is changing.', Otis Stevens and Mcnully

 

Apesar das diferenças óbvias entre as sociedades estáticas do passado e a mobilidade e constante mudança dos padrões de vida tão característicos do presente, a geometria podem ainda ser um instrumento útil para visualizar situações conceptuais e sócio-culturais. Ao aplicar-se a geometria, nos dias de hoje, não é necessária a rigidez dos conceitos de outrora, mas utilizada como uma abstração pode estimular novas ideias.

 

Segundo Otis Stevens e Mcnully, as condições da vida atual pedem por um novo desenho urbano, que inclua constante crescimento e mobilidade contínua. Assim, surge a sociedade linear como conceito ideal.

 

A sociedade linear é uma resposta abstrata a emaranhados urbanos insolúveis e a crescimentos formais desmedidos. Na verdade, pretendem-se resolver todas as excessivas justaposições, de qualquer sociedade contemporânea, que deterioram a qualidade vida do homem. Nestes termos, a cidade deixa de ser uma forma visual e social isolada. A proposta empenha-se em organizar uma nova sociedade, que inclua e agregue várias e diferentes nações. A sua principal preocupação é articular mudanças de atividade, escala e topografia, tanto de regiões rurais como de concentrações urbanas. 

 

'One can imagine feeling an ease, a pleasure, from understanding the relationship between activities as one moves through the distinct, expressive environments evolving on the different growth lines.', Otis Stevens and Mcnully

 

Embora a ideia de sociedade linear seja intuitiva, nas últimas décadas de explosão demográfica, o conceito foi-se tornando gradualmente mais concreto. É uma forma de organização social, não só imaginária, mas um padrão bem vísivel e real de fixação humana. Consiste num movimento de várias faixas de atividade que correm paralelas e sempre contínuas. Esta forma linear é capaz de lidar com as pressões de expansão produzidas por sociedades industriais avançadas e pode absorver as suas escalas e densidades urbanas de maneira ordenada e mais humana. É uma solução inerentemente supranacional. A geografia iria também influenciar a sua definição - sobre montanhas ou sobre o mar a forma linear iria quase desaparecer e em regiões ainda não desenvolvidas as linhas de crescimento poderiam ser simplesmente um direito de passagem que poderia modelar surtos de atividade futura. 

 

A sociedade linear indica um planeamento a longo prazo, com o resultado de que áreas urbanas remotas deixariam de existir.

 

'One perceives inhabitants of such a society becoming visually oriented so that in time they see the abstract patterns created by the daily associations, and as a result develop environments sensitive to the tempo of movement and constantly changing scales of social relationship.', Otis Stevens and Mcnully

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

The party conferences’ season, 2017

 

Com locais de reunião inverosímeis no reino, eis que chega a estação das conferências partidárias. É fruta da época. Os conservadores concentram-se em Red Manchester com o chapéu da PM RH Theresa May MP no topo da agenda. Os trabalhistas convivem em Brighton cantando Oh Jeremy!

Os Lib-Dems consagram a liderança de Sir Vince Cable em Bournemouth. E os ukipper's adotam de assentada, em Torquay, um novo dirigente e um leão como logotipo. — Chérie! C'est au pied du mur qu'on voit le maçon. O programa das obras de conservação do Big Ben e da Elizabethan Tower duplica de preço. Estimado em £29m na primavera de 2016, “including VAT, Risk and Optimism Bias and transferred fire safety work costs,” o valor total do projeto envolvendo a Tower, o Great Clock e o Great Bell sobe para £61m. — Well. With that Victorian masterpiece, we have to watch them. Catalonia redige declaração da independência. OS US vibram com a devastação em Puerto Rico e massacre em Las Vegas. Na Australia, Mr Elon Musk revela o plano da SpaceX para povoar o planeta Mars. 

Autumn days at Great London. Westminster District desertifica-se por momentos dos honoráveis talking animals. Por curioso alinhamento astral, os principais clãs partidários rumam para a costa que tanto inspirou os vitorianos a par da flora e da fauna. Desses tempos da revolução industrial perduram palavras e imagens, casas e paisagens, artes e ideologias. Temo que a hodierna safra à beira mar não se lhes equipare na técnica de pastorear as gentes. É que, na bissetriz, ainda que também visem apelar à emoção das audiências, again and again, is all about Brexit. Mas observe-se a beleza desta tela de Mr Briton Rivière (1840-1920). A dama é a sua daughter-in-law, Mrs Henrietta. O óleo está na Tate e é um todo um depoimento político. Contém uma estória, tem elegância  e mostra um ideal. Não de todo por acaso, o pintor de St Pancras afirmava-se "a great lover of dogs," notando algures que "you can never paint a dog unless you are fond of it.” Hoje, simplesmente, há mistério a menos.

 

Ora, com os megafones e as câmaras no rasto, os partidos reúnem os fiéis em grandes capelas desenhadas para uma sociedade espetáculo.  Só RH Jeremy B Corbyn prega durante 75 minutos. Enfim, no potpourri do Labour Party arvora-se a ideia da escola pública… from cradle to grave. Os Liberal Democrats cinzelam políticas para travar a desigualdade, enquanto o seu capitão afirma aos incrédulos que levará o partido “back to power.” No entretanto, porém, desbarata um dos seus. Os ukippers ganham um antigo Lib-Dem e ex soldado de Her Majesty para o leme, desta feita até com apoio de Mr Nigel Farage. O quarto líder da ala roxa no espaço de um ano é um ilustrissimo desconhecido chamado Henry Bolton. O senhor faz sintético discurso na coroação: hasteia o pendão da Brexit, “which is not the end of the history,” agradece aos team players e eleitores, mais em quem nele não vota. Por seu turno, os Tories arrancam a conferência anual com promessa juvenil de congelar as tuition fees e deles se saberá nos próximos dias. Por hoje, depois de uma ode ao capitalismo feita no Bank of England, basta parabenizar Mrs May pelo 60.º aniversário nas bandas de Manchester-by-sea.

 

Já o Spectator antecipa a saída de Mrs Emma Rice da direção artística do Shakespeare’s Globe. Nas usuais notas semanais, invocando a Thames breeze, Mr Charles Moore resume o desempenho: “The search for novelty in the arts, from which she benefited, is undoubtedly necessary, but it does often produce what Dr Johnson (speaking, in fact, of Cymbeline) called ‘unresisting imbecility’.” A opinião do biógrafo de Lady Thatcher será decerto fatal no palco elizabetheano. Ainda assim, após elencar erro após erro, celestial é a conclusão do grande Samuel Johnson sobre a peça do bardo: “To remark the folly of the fiction, the absurdity of the conduct, the confusion of the names, and manners of different times, and the impossibility of the events in any system of life, were to waste criticism (…), upon faults too evident for detection, and too gross for aggravation.” — Hum. What could then heavenly be said about this one of Master Will in Julius Caesar: — “It is not in the stars to hold our destiny."

 

St James, 2nd October 2017

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 2 a 8 de outubro de 2017.

 

Acaba de ser publicada Claridosidade, Edição Crítica (Rosa de Porcelana Editora, 2017), com organização de Filinto Elísio e Márcia Souto, uma preciosa reedição fac-similada dos nove números de “Claridade – Revista de Arte e Letras” (1936-1960), com a qual passamos a dispor de nova e importante investigação sobre um dos movimentos mais interessantes do mundo cultural da língua portuguesa – a partir de Cabo Verde.

  

 

DA MORABEZA À «CLARIDADE»
Morabeza é uma palavra, vinda de Cabo Verde, que significa manifestação de afeto. Em Chiquinho, Baltasar Lopes da Silva usa o significado amorabilidade – e sentimos nela a força da amabilidade e da afabilidade… Ao falar de palavras suscetíveis de unir em português, saudade e morabeza encontram-se naturalmente. Mas, por razões literárias e culturais, claridade merece também atenção. Desde que visitei pela primeira vez Cabo Verde, “claridade” tornou-se uma palavra familiar, como morabeza, mas por referência ao grupo extraordinário que criou uma revista e um movimento que, a um tempo, foram sinais de identidade e marca de abertura e de modernidade.   «Claridosidade» é uma obra que fazia muita falta. Com estudos que atualizam, completam e consolidam muitos dos conhecimentos já disponíveis sobre os “claridosos”, passamos a contar com um conjunto de ensaios que não só permitem um melhor conhecimento da evolução cultural moderna cabo-verdiana, mas também garantem uma visão serena e distanciada sobre a afirmação de uma rica identidade no seio das culturas da língua portuguesa. Fica claro que a revista representou a grande eclosão da modernidade em Cabo Verde, “reconfigurando a crioulidade, definida por José Luís Hopffer C. Almada como o mais eficaz construto sociológico e identitário surgido no arquipélago, e marcando um novo universo de ‘reverberações literárias cabo-verdianas’, algo pioneiro no contexto das literaturas africanas de expressão portuguesa”. Como salienta João Lopes Filho, num texto fundamental, a génese da revista não corresponde a um só momento, ou a uma iniciativa pontual, uma vez que há uma evolução, abrangendo três fases: o período de arranque e reflexão, à volta do “Círculo Cultural” em Fonte Cónego, com João Lopes (1922); a fase da “Tertúlia”, na cidade da Praia (1928) e finalmente o aparecimento da revista no Mindelo (1936). Como Manuel Brito-Semedo confirma: Baltasar Lopes, Manuel Lopes, João Lopes, Jaime Figueiredo, Félix Monteiro, Manuel Velosa e Jonas Whanon encontram-se em S. Vicente nos anos vinte e trinta. É a geração que “fincou os pés na terra cabo-verdiana e ousou pensar o problema dos homens destas ilhas, constituindo-se num marco. Dessa altura a esta parte Cabo Verde evoluiu muito, começando por ter tomado o seu destino nas suas mãos e a sua literatura abriu-se ao mundo, universalizou-se”. Citando Manuel Lopes: “um grupo de amigos pensou que se deveria criar uma revista que permitisse romper com a tradição clássico-românica de motivos alheios à nossa realidade”. E Baltazar Lopes recorda que a palavra Claridade teve uma dupla influência – a de um grupo progressista da Argentina e a do círculo a que pertencia Henri Barbusse (Clarté). Saliente-se, aliás, a ousadia do grupo, ao publicar, contra todas as orientações do regime, na primeira página do primeiro número, em crioulo, os poemas “Lantuna & 2 Motivos de Finaçom (batuques da Ilha de Santiago)”. E vários são os sinais no sentido de se reconhecer que a “Claridade” antecipa e assume uma consciência cultural e social própria, apesar da conhecida posição crítica de Onésimo Silveira, cujo texto “Consciencialização na Literatura Cabo-verdiana” (1963) se encontra reproduzido na presente obra. Aí se diz que “os jovens que viriam a fundar a revista “Claridade” tiveram uma formação exclusivamente europeizante”, o que corresponderia a uma literatura inautêntica que não poderia conduzir à consciencialização.

 

LÍNGUA DE VÁRIAS CULTURAS…
A obra agora publicada reconhece no movimento “claridoso” um contributo muito relevante, complementar de outras manifestações culturais subsequentes, que culminariam na independência do país-irmão. E não esqueço o muito que tenho usufruído da reflexão sobre a rica cultura cabo-verdiana mercê do diálogo com bons amigos – desde o saudoso Corsino Fortes, passando por Germano Almeida, Vera Duarte ou Manuel Brito-Semedo… É significativo que, entre os textos ora dados à estampa, Maria de Fátima Fernandes defina a elite claridosa como um grupo de intelectuais predispostos a refletir e a ler a sociedade quer na dimensão local e identitária, quer na relação com a modernidade – o que aponta num sentido aberto e universalizante. Alberto Carvalho cuida dos antecedentes, enquanto Simone Caputo Gomes enfatiza a grande importância da revista na história da literatura cabo-verdiana e na nação crioula, como um conjunto, cujas existência e resistência são significativas. Aliás, hoje, ao lermos a correspondência do jovem Amílcar Cabral, percebemos porventura melhor a importância do projeto “claridoso” na sua projeção no médio e longo prazos – como realidade complexa, que não pode ser confundida nem com os percursos individuais ou a obra própria de alguns dos seus promotores iniciais nem com as limitações naturais de intervenção em diversos momentos históricos. “Tínhamos de intervir! Mas na óbvia impossibilidade de emprego de meios de ação direta que opção nos restava” – diz Baltasar Lopes. Além do carácter precursor do romance Chiquinho inicialmente aparecido em excertos na revista, onde o português e o crioulo de encontram a cada passo, como na realidade quotidiana, os ensaios “Uma experiência românica nos trópicos” teorizam sobre a mestiçagem e a hibridação linguística e aproximam Cabo Verde e o Brasil, num tema que Jorge Barbosa trata, em termos muito práticos e quase quotidianos em “Carta para Manuel Bandeira”. “Aqui onde estou, no outro lado do mesmo mar, / tu me preocupas, Manuel Bandeira, / meu irmão atlântico…”. E como afirma Nhô Baltas nos textos referenciados: “O núcleo inicial dos crioulos obedeceu a necessidades urgentes de simplificação de uma língua rica; mas condições especiais determinaram a seguir um enriquecimento ‘cultural’ progressivo do arquipélago. Chegou-se a esta situação: um flagrante desajustamento (no aspeto social muitas vezes doloroso) entre uma linguagem extraordinariamente simplificada na estrutura gramatical e uma cultura progressivamente enriquecida no sentido europeu”. E deparamo-nos com o natural encontro entre uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas, que Baltasar Lopes ilustra de forma exemplar – em condições que hoje, porventura, somos capazes de compreender melhor. E, como Urbano Bettencourt afirma, há uma irradiação açoriana da “Claridade”, uma solidariedade na Macaronésia e uma “circulação atlântica das culturas”… “Claridosidade” representa, assim, muito mais do que uma referência histórica de Cabo Verde – é um ponto de encontro e uma marca clara de identidade e de sentido universalista…

 

 
Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Onésimo Teotónio Almeida.jpg

 

      Minha Princesa de mim:   

 

Recordo-me desse conceito de irrealismo prodigioso português, que Eduardo Lourenço invoca no seu O Labirinto da Saudade e Onésimo Teotónio Almeida retoma no seu recente A Obsessão da Portugalidade, livro em que inclui um texto escrito nos anos 90, por lhe parecer que essa tendência para o nacional ufanismo se voltava a manifestar. Na sua referida entrevista à revista LER (Primavera 2017), diz o professor açoriano da Brown University (EUA):

A entrada na Europa e o acesso aos fundos europeus, que supostamente permitiriam a Portugal recuperar o atraso gerado ao longo dos últimos séculos, provocaram um novo delírio. Reinstaurou-se no País um clima festivo, celebratório, completamente desligado do real. De um momento para o outro, Portugal parecia sentir-se truncado das suas raízes, como se fosse possível atirar-se pela janela com 500 anos de História. O País parecia acreditar de novo em fadas e estar a viver nas nuvens. Atingiu-se os picos do irrealismo por altura da Expo 98. Uma outra manifestação dessa mesma época que refletia esse tipo de atitude, uma vivência no mundo poético, foi a euforia com o caso de Timor-Leste...

 

A expressão nacional ufanismo - que, aliás, posso aplicar a uma qualificação das citadas frases sobre a ação de mudar os hábitos do mundo ou de ter a Ásia sob influência portuguesa - remetem-me para outra lembrança: essa, de que várias vezes te falei, das crónicas intituladas Lágrimas de Crocodilo (???), publicadas na revista Flama, na década de 50se a memória não me atraiçoa, por um tal Joaquim Silva Pinto: Que irão os estrangeiros pensar de nós? Eis o reverso da medalha: ao nacional ufanismo corresponde um exacerbado e receoso sentimento de detetável e fatal inferioridade...

 

Na verdade, creio, Onésimo Almeida põe, pelo menos, um dedo na nossa ferida histórica quando aponta para a impossibilidade de atirarmos 500 anos de História pela janela... Não se refere a glórias passadas, antes nos recorda o esquecimento dos séculos da "decadência" - aqueles sobre que se debruçou a "nossa" geração de 70, com destaque para a conferência [do Casino] de Antero de Quental, como tantos outros, então e mais tarde, em Portugal e na Espanha irmã (Miguel de Unamuno, por exemplo). A questão que se levanta não é, pois, a de saber porque é que a lembrança e consciencialização de "glórias passadas" não tem sido suficiente para apoiar a regeneração de sociedades anquilosadas. Já sabemos que assim não tem sido, antes deparamos, cada vez mais, crescentemente, com fantasias coletivas, alienações que nos levam a substituir o mito Gama pelo mito Ronaldo, qualquer vitória desportiva ou êxito festivaleiro sendo transformados em sacramento ou sinal "eficaz" da lusitana vocação para a superioridade. A grande interrogação a que nos cabe responder é a do porquê do desgosto por, ou quase ausência de espírito crítico e analítico em Portugal, ao longo de tantos séculos e hoje ainda. E não chega acusar a Inquisição nem o obscurantismo fatalista e beato do ensino tradicional da Igreja portuguesa - por muitos casos demonstrativos que se possam apontar - pois também todos sabemos que o último quase meio século de democracia "progressista" pouco conseguiu elevar o nível geral dos nossos debates públicos, diminuir a futebolice reinante, ou tirar fôlego às nossas inspirações mitómanas... 

 

Por obscura razão se pretende, entre portugueses, singularizar uma identidade nacional pela sua essencial diferença ôntica, essa alma lusíada que inspirou um povo a realizar obras inéditas: ser português é ser forte, fiel, façanhudo, fazendo feitos famosos. À nossa maneira, sempre original, com mais ou menos desenrascanço, a grande virtude nacional. E/ou a saudade no cerne da "nacional-filosofia"... Os chamados intelectuais, com variações, discordâncias e até polémicas, lá vão insistindo no labor de definirem uma identidade cultural pela diferença de ser, tal como a tradição popular nos remete para o fado, o "marialvismo" e a saudade, ou se considera o "milagre" de Fátima um sinal da especial estima mariana e divina pela nação lusitana. O patriotismo não pode ser um qualquer "ópio do povo", nem evasão "mística", fantasia épica ou efabulação de um ser ideal e acima de qualquer suspeita, menos ainda uma forma mesquinha de sentimentalidade, que o Eça tão bem caricaturou ao fustigar o clamor de "ó pátria, ó querida"! comparando-o a qualquer torpe declaração a "uma espanhola barata". Antes seja o patriotismo, como o amor, uma forma suprema da misericórdia de nós como comunidade histórica, isto é, passada, presente, futura. Somos portugueses entre todos os povos, com suas e nossas forças e fraquezas, tristezas e alegrias, originalidades, também, quiçá todas resultantes de encontros e heranças, de trocas e empréstimos... A mesma humanidade, e as suas caras. Cabe aqui, Princesa, a ida a outros passeios, novos devaneios das minhas cartas que, por isso mesmo, por serem cartas escritas ao correr da pena, ou seja, dos meus dedos sobre o teclado do computador, são só confidências ou partilhas amigas, destituídas de qualquer propósito de tratamento estruturado de ideias.

 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

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