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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Deixa-me voltar à história do povo hebraico, muito resumidamente, apenas como referência.  Datas e factos citados por opção minha, de preferência respigados de autores judeus, com confiança naqueles que procuram aproximar-se das "verdades" que a historiografia contemporânea vai apurando. Esqueço as polémicas e vou escolhendo uns "diz-se que". Tampouco hesito em saltar por cima de hiatos ou relatos pouco verificados. Simplifico tudo, serei telegráfico, não estou a dar aulas, muito menos sobre matérias em que sou muito mais curioso do que sabedor.

 

    Diz-se que, por volta de 1760 a.C., Abraão, patriarca e pai dos povos (árabe, por via do seu primogénito Ismael, filho de Agar, serva de Sara, sua mulher, e, claro está, no relato da Bíblia hebraica, de Isaac, donde descendem os hebreus, filho da própria Sara, anciã que concebe por milagre de Yahvé), terá saído da Suméria (Ur?) para Canaã, entre o rio Jordão e o Mediterrâneo. Por lá ficam os patriarcas sucessores, até que secas e fome os empurram para o Egipto. Poupo-te aqui os relatos sobre Isaac, seus filhos Esaú e Jacob, os doze filhos deste, que originam as tribos de Israel, ou a sua luta com o anjo, que lhe trará o nome de Israel ("Deus é forte", ou "forte contra Deus"). Lembro-te um deles, Judá, e outro ainda, cuja história, contada na Bíblia, merece leitura e atenção: é a história de José, undécimo filho de Jacob e, com Benjamim, um dos dois de Raquel, serrana bela, o início, ainda no livro do Génese, do Êxodo que de lá tirará os israelitas, dessa libertação que marca bem o princípio do que será Israel como nação, nem sempre, nem por sombras, constituída em Estado. A passagem do Egipto para Canaã, onde os israelitas se estabelecem (com ou sem conquista, discute-se), é marcada pela paragem no monte Sinai e a atribuição da Lei (Torá) por Moisés. Seguem-se quase três séculos de reinos ou governos tribais - há quem lhes chame democracias... -, até ao início do período monárquico (Samuel, Saúl, David e Salomão) em 1020 a.C. No final do reino de Salomão, este divide-se entre Judá e Israel, e inicia-se um período de independência política por excelência, com reis sucessivos e muitos profetas a avisá-los. Em 722 a. C., os assírios destroem Israel e, em 582, os babilónios ocupam Judá e exilam a população: Sôbolos rios que vão / por Babilónia me achei / onde sentado chorei / as lembranças de Sião… Regressa o povo, mais tarde virão as conquistas persa e helenística (Alexandre Magno), até 165 a.C. (recuperação de soberania com os príncipes asmónidas) e, finalmente, a conquista romana que, em 135 d.C., porá fim definitivo à independência possível de qualquer estado judeu. O Templo de Jerusalém fora arrasado, acentua-se, nos judeus restantes e nos inúmeros de uma Diáspora prosélita - que vai convertendo gente, tal com também albergará, nas suas sinagogas, reuniões do cristianismo nascente - uma consciência nacional israelita que é, como desde o início fora, eminentemente crença religiosa. 

 

   Sobre a língua hebraica, deixa-me dizer-te mais pouco do que sei que foi, foi sendo e hoje é. E também como terá sido, tal como o aramaico, língua bíblica mais por tradição oral do que escrita, ainda que qualquer daqueles dois idiomas palestinos tenha veiculado textos bíblicos redigidos, desde o século X a.C., como demonstram documentos entretanto descobertos. O hebraico antigo evoluiu de línguas faladas pelas populações de Canaã, já antes do estabelecimento dos israelitas, tais como o fenício, o moabita e o aramaico, todas pertencentes, como o árabe, ao ramo ocidental das línguas semitas, descendentes do acádio. O aramaico, numa região muito influenciada, culturalmente, pelos encontros entre vários povos nómadas, terá sido o idioma que mais se espalhou, e dele descenderia, parcial e diretamente, o hebraico antigo. Os textos dos diferentes livros da Bíblia judaica registaram, entre o século X a.C. e a nossa era, tradições orais, postas então por escrito, maioritariamente em hebraico, mas também em aramaico.

 

   Para o que aqui nos interessa, Princesa de mim, hebraico e aramaico eram falados pelos judeus palestinos desde meados do século IV a.C. até ao primeiro terço do século II da nossa era, já que depois de 135, ano da queda final do estado de Israel (que, aliás, muito antes, desde a tomada de Jerusalém por Pompeu, em 63 a.C., caíra sob o controlo e, depois, domínio romano, como sabes), o hebraico se foi apagando, mantendo-se como língua vernácula o aramaico e, na Diáspora como na própria Palestina, o grego. A importância do idioma helénico já se tornara notada pela tradução dos Setenta, na Alexandria da Diáspora. O texto grego, a partir do século II, com o acrescento do Novo Testamento, que, junto à Bíblia judia, formaria a cristã, torna-se então referência para muitas traduções (e, ainda agora, em Portugal, Frederico Lourenço vai publicando a sua versão lusíada do texto helénico).

 

   O hebraico permaneceu todavia a língua religiosa e litúrgica do judaísmo, bem como a dos sábios e teólogos judeus. Além disso, sobrevive sob outra forma, literária, a mishnaica, apelido derivado da antologia Mishná que, no século II, reuniu vários textos, sobretudo, creio, comentários à Lei, escritos num hebraico literário do tempo. Recolhe, este, vocábulos provenientes do aramaico, do persa, do grego, do latim, e sofre, por essas influências externas, variações semânticas e gramaticais estranhas à língua antiga. Não te contarei mais história do hebraico, que aliás conheço pouco e mal: olhando para um texto escrito nessa língua, tudo o que sei é que se lê na horizontal, e da direita para a esquerda, como o árabe. E disse. Mas traduzo-te passos dum artigo do professor V. Nikiprowatzky, do Collège de France, que nos ajudam, Princesa de mim, a entender melhor observações de David Grossman:

 

   O período moderno do hebraico começa na segunda metade do século XIX, com a predominância do estilo russo. O despertar da nação judia e a sua afirmação política transformam a língua forjada pelos grandes autores do judaísmo russo em vernáculo, isto é, no atual hebraico vivo, ou israelita.

 

   A necessidade de exprimir as realidades complexas da vida contemporânea tinha obrigado o hebraico dos autores russos a recorrer a todas as potencialidades do vocabulário hebraico, em vez de se restringirem ao léxico da Bíblia. Prolongando e sistematizando esse esforço de renovação linguística, E. Ben-Yehuda publica, na segunda década do século XX, um "Thesaurus totius hebraitatis" [acho curioso, Princesa, o título em latim], que tem um papel decisivo na formação do hebraico atualmente falado no novo estado nacional. Ben-Yehuda nem sequer hesita em preconizar empréstimos de certas línguas vivas, como o árabe. Voltando a ser língua quotidiana, o hebraico não pára, doravante, de enriquecer, como qualquer língua viva, o seu dicionário, ao sabor das contingências históricas...

 

   ... A pronúncia do hebraico moderno é conforme à dos judeus orientais, ou sefarditas. A pronúncia dos judeus da Europa, ou asquenazes, mantém-se por vezes na poesia...

 

   Pessoalmente, não só compreendo a necessidade de recriação duma língua nacional (se não, como se entenderiam os cidadãos israelitas provenientes de desvairadas partes?), como admiro o engenho, a persistência e a modernidade com que tem vindo a ser constituída e articulada. Por outro lado, devo reconhecer que tal também pertence ao génio judaico que a Diáspora, enquanto estar em mundos sem ser deles, incansavelmente foi alimentando. Lembra-te, Princesa de mim, do ídiche e do ladino.  

 

   Ídiche tem raiz alemã, vem de Jiddish que, evidentemente, que dizer Jüdisch (judeu). Terá surgido por volta do ano 1000, na Renânia alemã, e levado para a Europa Oriental (Polónia e Rússia, entre outros) a partir do século XIV. Pelo Leste europeu se foi espalhando como língua das comunidades judias e, a partir dos anos 20 do século XX, tornou-se mais língua nacional (da nação judaica na diáspora russa) do que língua religiosa. Calcula-se que, cerca de 1939, 12 milhões de europeus falariam ídiche.

 

   Já o ladino surge como língua litúrgica dos sefarditas, judeus da diáspora greco-turca, magrebina e ibérica, por ordem de deslocação histórica e geográfica e a mesma, mas inversa. O seu vernáculo, ou língua popular, será o judio-espanhol ou judio-português, sendo que todas estas designações são muitas vezes confundidas. Ao que parece (repito o que já li ou ouvi dizer), rabinos ibéricos terão traduzido a Bíblia hebraica para ladino, essa espécie de luso-castelhano hablar-falar, que as comunidades judias, que já não sabiam hebraico, usavam no seu seio. Claro que o «papiá judeu» - digo assim lembrado do «papiá cristiano» que descobri em Malaca e na Indonésia, curioso crioulo português -  também acolhera palavras do turco, do grego, do latim, etc.... O meu querido Espinosa também falou assim.

 

   Tudo isto, Princesa de mim, me leva a pensarsentir mais profundamente a profunda verdade universal daquele dito do nosso padre António Vieira, que abrevio: Para nascer, pouca terra, Portugal. Para morrer, o mundo inteiro. No sentido espiritual, no que a peregrinação nos é essencial, há muito de judeu em nós, Princesa.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DE MARIA GERMANA TÂNGER

 

A morte de Maria Germana Tânger ocorrida recentemente, motiva esta evocação de uma amizade que sobretudo decorria primeiro do convívio direto e prolongado, e depois de uma admiração incondicional pelo talento, pela inteligência e pela carreira criativa que, ao longo de dezenas de anos me foi dado acompanhar. Muito me honra aliás termos sido contemporâneos na docência do Conservatório Nacional, depois Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa: esse convívio foi para mim determinante tanto no aspeto da docência e da cultura, como sobretudo na amizade.

 

Mas mais do que isso, tive também oportunidade de colaborar em publicações e em intervenções que completavam a formação artística e cultural, tantas e tantas vezes como espetador nos espetáculos que Maia Germana dirigia ou participava: representaram um enriquecimento cultural e artístico de que muito beneficiei – e de cuja memória continuo a beneficiar.

 

Recordo aqui um livro evocativo, denominado “Conservatório Nacional 150 Anos de Ensino do Teatro” reunindo conferências na Escola Superior de Teatro e Cinema” (1988) em que tive o gosto de colaborar e onde Maria Germana escreveu um texto exemplar no conteúdo e na qualidade. “Teatro, Veículo da Língua” se denomina esse texto, onde, a partir de uma citação de Miguel Torga, Maria Germana define uma “teoria geral” da estética e da substância da comunicação artística nas suas dimensões complementares de expressão cultural e social, a partir do teatro mas extensiva a todas as manifestações.

 

“Palavra-Teatro. É este o tema que gostaria de saber desenvolver” diz-nos logo de início: e é caso então para questionar quem até hoje aí haverá que saiba melhor desenvolver...

 

Desde logo nos aspetos da própria expressão técnico-dramática do espetáculo teatral: “Quantas vezes vamos ao Teatro e nos aparece um ator com a voz bem colocada, boa expressão, ótimo jogo dramático, e nós, na plateia, tentamos adivinhar o texto, porque enrola as sílabas, tem consoantes pouco nítidas, ausência das vogais, etc. Julgo que isto tem acontecido a todos que frequentam assiduamente o Teatro”.

 

Isto era em 1988...mas e hoje?

 

Maria Germana Tânger cita amplamente autores, desde Gil Vicente, Camões   António Ferreira, António Vieira, Garrett, António Patrício, Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Hernâni Cidade, Almada, Maria de Lourdes Martins, Jolly Braga Santos, Ary dos Santos e outros. E espraia-se em aspetos críticos relativamente à chamada arte de dizer, declamação e recitação:

 

“Os meus alunos todos sabem que essas duas palavras – recitação e declamação – e tudo o que elas envolvem são o maior erro para a interpretação, seja da prosa ou da poesia”.

 

E a recomendação didática mas sobretudo de análise crítica:

 

“Dizer é comunicar a palavra sem efeitos nem falsas emoções. Humildade, respeito e sinceridade é o que se pede ao ator – enquanto a palavra for importante”.

 

E no final, como síntese: 

 

"Que o teatro que é o espelho da cultura de um Povo saiba transmitir a inteligência e o poder da Língua Portuguesa".

 

Ora, tal como escreveu Guilherme D’Oliveira Martins por ocasião da morte de Maria Germana Tânger, “o método que usava era simples, mas permitia compreender a diferença entre o declamar (que não praticava) e o dizer, que foi o seu trabalho de sempre. Começava pela descontração, e continuava pela respiração, pela articulação, pelo conhecimento do corpo e pela máscara. Os seus alunos e os amigos (e os primeiros rapidamente entravam para o grupo dos segundos) sabiam-no bem por experiência e entusiasmo. O fundamental era saber dizer, o que pressupunha compreender e transmitir o que o poeta escreveu e o que o leitor sentia. Em quase cem anos de vida, Maria Germana Tânger viveu intensamente”...  (in Jornal de Letras – 14 a 27 de fevereiro de 2018).

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXV - ROMANTISMO

 

A tela do alemão Caspar David Friedrich, Viandante sobre um Mar de Névoa, de 1818, pode ser tida como uma espécie de declaração ou manifesto do romantismo. De tão expressiva e persuasiva é, por si mesma, demasiado convincente quanto às caraterísticas essenciais da psicologia de ser romântico e do romantismo em geral. Um homem solitário, ousado, estupefacto e meditativo contempla a natureza, a grandiosidade, esplendor, magnificência e temor da paisagem natural, confundindo-se, perdendo-se e inspirando-se nela, num ambiente terreno e sobrenatural que o angustia, emociona, inquieta, questiona, numa ânsia de liberdade e infinito. Sente-se, ao mesmo tempo, iluminado e esmagado. Sente uma nostalgia intensa, idealizando e sonhando. Olha para  o inacessível, o ininteligível, o abismo, querendo alcançar algo distante no tempo e no espaço, mas quanto mais procura, mais distante fica. Projeta no exterior o culto do eu e o seu mundo íntimo na natureza, dando a esta um significado supletivo, não se limitando a representá-la. Angústia metafísica, anseio de liberdade, desespero, inquietação, evasão e fuga.

 

À natureza redescoberta pelos românticos, alia-se um sentimentalismo subjetivo, o mundo íntimo do artista, o culto do eu, a ânsia de liberdade, a ansiedade metafísica, o espírito idealista, a emotividade e a sensibilidade substituindo a fria razão, o interesse pelo irracional, o choque com a realidade, o culto da Idade Média, pessoalismo e melancolia, exaltação do que é nacional, patriótico e popular, liberdade de inspiração.

 

Sendo um modo de sentir, expressa-se contra o racionalismo e as regras artísticas e literárias do academismo e do classicismo. Fosse porque o público em geral não dominava nem entendia a estética dos clássicos, ou porque estes tinham atingido a saturação, tentaram-se novos temas e outros meios de os comunicar. Em que o alastramento da revolução industrial e a crescente urbanização contribuíram para a divulgação do livro, ao mesmo tempo que fomentavam o culto idílico do campo e da natureza. Este gosto pela natureza, apesar de não ser uma novidade, também foi uma reação contra a vida artificial da corte da época precedente.

 

A literatura traduz angústias, êxtases, vivências, o confronto entre o idealizar e o choque com a realidade. Por vezes brutal, onde a desilusão, o desengano, a inquietação febril, o pessimismo, têm como solução a fuga. Uns andam de terra em terra, como Chateaubriand e Lord Byron. Ou Garrett, entre nós, emigrante em Inglaterra e França. Outros refugiando-se e evocando o mundo medievo e popular da Idade Média ou paisagens orientais e exóticas, como Vitor Hugo, Alexandre Dumas e os célebres romances de Walter Scott. E o nosso Herculano, com o seu romance histórico, desde As Lendas e Narrativas, O Bobo, Eurico o Presbítero e o O Monge de Cister. Outros suicidaram-se, como Kleist, Gerard de Nerval e Camilo Castelo Branco. Alguns imprimiram à literatura uma missão social, sendo exemplo Vitor Hugo. Schlegel e Madame de Stael chamaram romântica a uma literatura inspirada no povo e na Idade Média, por oposição à clássica, inspirada na antiguidade greco-romana.

 

Na música, o interesse pela natureza está bem patente na valsa Danúbio Azul, de Johann Strauss, em A Sinfonia do Reno, de Schumann e nas Sinfonias Italiana e Escocesa, de Mendelssohn. Wagner inspirou-se na lenda do rei Artur e do Santo Graal para as óperas Parsifal e Tristão e Isolda. Verdi tratou de temas históricos e políticos. Os Noturnos, de Chopin, expressivos e líricos, são também pessoalíssimos, íntimos, melancólicos e amantes da noite, temas diletos dos românticos. Outros compositores são protagonistas do romantismo: Beethoven, Paganini, Rossini, Donizetti, Bellini, Glinka, Berlioz, Gounod, Schumann, Liszt, Sullivan, Borodin, Bizet, Brahms, Mussorgsky, Tchaikovsky, Bruckner.

 

Nacionalismo e patriotismo estão presentes no quadro Os Fuzilamentos de 3 de maio de 1808, de Goya, lembrando os espanhóis fuzilados depois da revolta contra os franceses, em que a vítima iluminada evoca, pela sua postura, a crucificação de Cristo. Refira-se ainda A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix. Turner, por sua vez, opera uma fusão entre o indivíduo e a natureza, conducente à destruição da imagem figurativa e da sua identidade, afastando-se da reprodução do natural, como em Tempestade de Neve e O Navio Negreiro.

 

Na arquitetura, em Portugal, imperdoável não falar no Palácio da Pena, em Sintra, e na serra em que se insere, tidos como pontos altos do romantismo europeu. No seu revivalismo tardio e romântico, merece menção a Quinta da Regaleira, também em Sintra, por certo a capital do romantismo no nosso país. Na escultura, O Desterrado, de Soares dos Reis, de um jovem nu, introspetivo, intimista, nostalgicamente sentado sobre um penhasco, apesar do corpo, anatomicamente perfeito, lembrar o ideal da beleza da antiga Grécia. O Retrato de Antero de Quental, de Columbano Bordalo Pinheiro, retrospetivo, intimista, ensimesmado, de interiores, com forte presença psicológica, de um “vencido da vida”, colocando a nossa pintura em consonância com a desistência da intelectualidade nacional dos anos do Ultimatum.

 

Mas também o medievalismo, sentimentalismo, subjetivismo, intimismo, o idealismo irreal e ilimitado do romantismo seriam confrontados com a certeza da ciência,  alicerçada em certezas tidas como comprovadas cientificamente. 

 

13.02.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

A criatividade é sobretudo a ideia nova da curiosidade

 

A fome da experiência diferente existe. O excesso que quebra o entorpecimento e nos faz sentir a necessidade de espreitar pela janela, é em si, uma abordagem da consciência sem medo das emoções: a raiz da força da ideia nova.

 

Pelos canais das intuições, as empatias do entender o fundo que se não mostra, separa-se mesmo dos outros sentidos, e, dão o salto sozinhas, num processo interno de diálogo e de recolha interpretativa à precisão das nossas perceções. Este um dos caminhos da intensidade e das razões por que ocorre; este um processo vivo de interatividade que até pode ser doloroso, insuportável mesmo, face à decisão do que fazer com a nova informação. Como reagir à nova cor? À nova palavra? Ao novo som? Como criar a nova substância, face ao que existia, quando em peças isoladas a intuímos?

 

Não é fácil. Há que abrir passagens na própria barreira das nossas emoções. Há que ter aprendido a necessidade da curiosidade, aprendizagem que sempre se iniciará e acabará no nosso coração, nem sempre generoso ao trabalho de sapa que nos leva às razões.

 

Criar é também tornarmo-nos fluxo e refluxo do nosso próprio entender, e expô-lo a interagir, e, por aqui, quantas vezes, enrolados nós até aos outros, e a luz do mapa que percorremos e que afinal não foi suficiente. Ainda assim a criatividade vai decidir como proceder para alterar esta situação e afinar desculpa, corrigindo o processo energético desperdiçado num saber que o não chegou a ser, ao menos pela diferença da criatividade e da curiosidade, ambas, quantas vezes, sem libertação suficiente para a todos convidar ao mais longe possível, por onde sempre podemos começar um décimo segundo passo, no validar da criatividade, atributo de uma curiosidade fértil e atenta e responsável.

 

Também dentro do ato criativo, dentro e bem dentro da curiosidade imparável, existe uma hospitalidade universal em nós, que significa um direito do que é estrangeiro e que chega até nós - sua nova morada - e não invoca acolhimento, antes visita, e nos convida a ir até ao outro lado da terra prometida sem qualquer mapa que nos oriente.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Raúl Hestnes Ferreira.

 

Tal como Louis Kahn, Hestnes Ferreira (1931-2018) busca a essência e a verdade.  Possibilita-se assim a valorização da arquitetura como resultado de uma reflexão sensível, capaz de construir espaços que inspiram a actividade do homem.

 

‘Nós devemos alargar o nosso domínio construtivo. Não podemos continuar a caracterizar-se como aquele povo com uma série de arquitectos com muito talento e que conseguem fazer uma arquitectura muito pobre mas muito bem proporcionada. Devemos começar também a alargar a nossa forma de agir a outros materiais e a outras formas de pensar arquitectura.’, Hestnes Ferreira

 

A obra de Raúl Hestnes Ferreira é fruto de uma expressão pessoal e única. A sua obra em muito reflecte um conhecimento profundamente erudito adquirido através de influências de diversos autores e de diversas épocas aliada a uma tradição secular da arquitectura portuguesa. É por isso sensível à ordem, ao ritmo, à hierarquia, à regularidade, à austeridade, à robustez, à elementaridade geométrica, aos contornos rígidos, a noções de axialidade e de centralidade, à monumentalidade e ao uso expressivo dos materiais.

 

‘Entretanto fui para a Finlândia, antes de acabar o curso. Naquela altura lia o Aalto, lia o Wright. Havia muito a questão do Zevi, da Arquitetura do Zevi. O que para mim tinha mais interesse na revista eram os desenhos dos monumentos antigos e depois a secção do primeiro modernismo com os Mackintosh, os Van de Velde, etc.’, Hestnes Ferreira

 

Hestnes Ferreira colaborou nos ateliers portugueses de Arménio Losa, Cassiano Barbosa e João Andresen, e também em ateliers internacionais como no de Bacckman em Helsínquia e no de Louis Kahn, em Filadélfia, tendo neste último colaborado no projecto dos Centros Governamentais de Dacca, em Bangladesh.

 

De Robert Venturi retirou não só a lição de poder olhar para o passado e para a história mas também dar atenção à construção de abóbadas de tijolo alentejanas com as mãos e sem cofragem – como aconteceu na obra da Casa da Cultura da Juventude de Beja (1975-85). Hestnes trabalha entre a ordem e o imprevisível, entre a geometria exacta (quadrado, círculo, o hexágono) e os desenhos sujos do carvão (tal como Kahn), entre a escala monumental e a intimista de maneira a aproximar-se do utilizador e do cliente. Mas as soluções arquitectónicas finais de Hestnes são sempre claras, firmes, rígidas, e delimitadas por contornos grossos e por volumes pesados.

 

Da sua obra muito vasta destaca-se: a casa José Gomes Ferreira em Albarraque (1961); as casas geminadas em Queijas (1968-73); a renovação do Café Martinho da Arcada; a Papelaria da Moda em Lisboa; o Edifício Guadiana em Monte Gordo; a Casa da Cultura de Beja (1975-85); o Bairro das Fonsecas (1977); a Escola Secundária de Benfica (1980); a Agência da Caixa Geral de Depósitos em Avis (1991); a Faculdade de Farmácia de Lisboa (1993); a Biblioteca Municipal da Moita (1997); e o complexo de edifícios do Instituto Superior de Ciência do Trabalho e da Empresa (ISCTE) em Lisboa (1972, 1993, 2002).

 

Hestnes Ferreira sempre sentiu necessidade em recorrer a uma linguagem resistente e duradoura. Ao fundar a sua arquitectura sobre valores intemporais - através do recurso a uma geometria rigorosa, evidenciando a verdade dos materiais - Hestnes restaura o valor hierárquico e funcional de uma parede, de um pilar, de uma janela ou de uma varanda. As formas estão hierarquizadas e evidenciam a diferença entre espaços, luz e sombra. Agora o espaço já não é fluído como Le Corbusier anunciava, Hestnes Ferreira desenha sobretudo formas parciais com características muito próprias (de geometria, de matéria, de cor, de textura e de estrutura). Hestnes revê assim o movimento moderno – trazendo de novo a história como referência, porque as formas do passado têm os valores eternos e os padrões enraizados na memória do espírito do homem.

 

Ana Ruepp 

LONDON LETTERS

 

‘This England’ and, The Liberal Brexit, 2018

 

Very good, indeed. A minha amada revista This England celebra 50 anos sobre o shakespeareano  acto fundacional de Mr Roy Faiers (1927-2016). And― not decent behaviour at all, I am afraid. No melhor pano das charities cai a nódoa, com aguaceiro de falhas morais na Oxfam.

Chérie! L'avis d'un sot est quelque fois bon à suivre. Nas euronegociações, London e Brussels endurecem o idioma diplomático. Downing Street avança para um road show no reino, com série de discursos pelos Top Ministers sobre the way ahead. RH Boris Johnson expõe a visão unificadora da Liberal Brexit. — Well. Adam's ale is the best brew. O Prince Harry of Wales e a noiva Meghan visitam uma surpreendida e acolhedora Scotland. Já a PM Theresa May viaja até Belfast e RH Jeremy Corbyn ruma a Glasgow. Germany tem finalmente governo, cinco meses depois das eleições federais. O Israeli Prime Minister Mr Benjamin Netanyahu é acusado de suborno e fraude. A New Yorker revela as espantosas telas oficiais dos exs US President Barack Obama e da First Lady Michelle, ela posando num elusivo azul e ele sentado numa cadeira flutuando em verde manto floral.

Freezing weather at Central London. Nada melhor, pois, que granjeados English tea and cookies. Com este tema surge This England há 50 anos. Tal qual a sua “little sister“ Evergreen, bem longe das ruas parisienses, esta é uma revista única e tão afável quanto a singela tira com que, na Spring 1968, se apresenta em bancas e tapetes ‒ “as refreshing as a pot of tea.” O manifesto editorial logo a posiciona entre o mercado mediático e o campo literário. Visa celebrar a cultura, os usos e os costumes sob a bandeira de St George. Dizendo do ser humano que escreve, Mr Roy Faiers, a pena do fundador firma marcas no chão: “We shall not be slick or sensational. There will be no world scoop articles, no glamour pictures, no fierce controversies. Instead we set out deliberately to produce a wholesome, straightforward and gentle magazine that loves its own dear land, and the people who have sprung from its soil. Instead of politics we shall bring you the poetry of the English countryside in words and pictures. Instead of bigotry we shall portray the beauty of our towns and villages. Instead of prejudice there will be pride in the ancient traditions, the surviving crafts, the legends, the life, the splendour and peace of this England.” O apelo telúrico conjuga aqui o leque dos “traditional principles of goodness, decency and common sense” com as velhas artes gráficas, entre o verbo elegante, a bela fotografia e a ilustração rápida. Esta é uma publicação produzida em Cheltenham para leitores e assinantes apaixonados, “For all who love our green and pleasant land.” Na capa da Golden Jubilee Edition, a quaternária traz imagem de marca: Sissinghurst, o castelo no Kent do casal Sir Harold Nicolson e Lady Vita Sackville-West, com as características Elizabethan Towers e o seu White Garden. Pelas páginas interiores canta ainda Mrs Dorothy Coe: “England. / Oh, my England. / I’m coming back to you. / I’ll see you in the Springtime. Watch / For me!”

Em debate semanal colorido quanto this sweet land of mist and green, a Prime Minister assinala na House of Commons diverso aniversário mas com idêntica fibra pictural. A intervenção governamental ocorre entrecruzada com declarações duras para com os Brits do EU Negotiator. Um cada vez mais nervoso Monsieur Michel Barnier tece advertências, veicula críticas, e ameaça descartar o biénio de transição acordado bilateralmente em December 2017. É His Master voice. Tudo em modos tais, porém, que, cá por casa, evoca usual e deliciosa tirada de um antigo professor: ’Voz grossa, argumento fraco!’ O Brexit Secretary RH David Davis sai a terreiro, notando a atitude “discourteous and unwise.” Ora, já nas PMQ’s é Mrs Theresa May confrontada com as velas da assinatura do Maastrich Treaty ‒ do qual o reino fez opt-out do “social chapter.” A Tory Leader é linear na resposta para a Other Union sobre o que está sobre a mesa: “The United Kingdom is leaving the European Union. That means that we are leaving the single market and the customs union. If we were a full member of the customs union, we would not be able to do trade deals around the rest of the world. And we are going to have an independent trade policy and do those deals.” Preparam os Brexiteers a chegada à World Trade Organization? Estarão os 27 a fazer contas aos efeitos da fatura tarifária nas balanças externas? E onde anda o racional da comunidade europeia de ideais e interesses?

Nota final sobre um livro com informação preciosa sobre um período sombrio da história comum. Em September 1940, nos Pyrenees, guardas fronteiriços recusam a passagem de France para Spain a um refugiado judeu alemão. Mr Walter Benjamin suicida-se na circunstância. Cerca de três semanas mais tarde, em Paris, sete anos após escapar da Nazi Germany e em vésperas de rumar a Lisboa com destino aos USA, Mrs Hannah Arendt (1905-75) comunica a triste notícia a outro amigo do filósofo berlinense.

Mr Gershom Scholem (1897-982) lê sabido cri de coeur: “Jews are dying in Europe and are being buried like dogs.” Ela é a jornalista que, em 1962, de Jerusalem, reporta o julgamento do SS-Obersturmbannführer Otto Adolf Eichmann disserta sobre a banalidade do mal e desperta a humanidade para o risco da demissão da consciência; Ele é o arqueológo do misticismo cabalístico e autor indispensável na visitação a Zohar, Book of Splendor. Unidos no debate do Holocaust, o Zionism separa-os nas correntes da Diaspora e de Israel. A relação epistolar entre os dois pensadores é agora editada em inglês pela Prof Marie Luise Knott, na University of Chicago Press, com tradução por Mr Anthony David entre as cartas e os documentos. The Correspondence of Hannah Arendt and Gershom Scholem condensa ideias que atravessam clivagens políticas contemporâneas (atenção, straussianos!) e dá pistas para aclarar uma controvérsia em torno da natureza diabólica do poder, à sombra de mão humana que coorganiza os guettos, as mass deportations e os death camps durante a II World War (1939-45). Vale também para ponderar sobre a geopolítica do espectador imparcial — Umm. Do never forget that dark human observation of Master Will in The Tempest: — “Hell is empty and all the devils are here."

 

St James, 13th February 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

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   De 12 a 18 de fevereiro de 2018.

 

"O Clube dos Anjos" de Luís Fernando Veríssimo (D. Quixote, 2000) é um livro, onde se conta como o desejo levado ao extremo se torna destruidor. Trata-se de um tema clássico, aqui tratado com ironia, sem esquecer a dimensão trágica da vida…

 

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VIRAR A VIDA DO AVESSO

«Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas». Luís Fernando Veríssimo tem o método de virar as coisas do avesso para as compreender melhor. É ele quem afirma o que acabamos de ler – e é significativo que o diga num tempo de incertezas, no qual melhor compreendemos a necessidade de estarmos atentos à alteração de circunstâncias. Num tempo de movimento uniformemente acelerado a necessidade de cultivar o paradoxo torna-se óbvia. As “Correntes d’Escritas” da Póvoa de Varzim deste ano homenageiam-no e inserem na sua revista um dossiê dedicado ao autor, e tal merece destaque, uma vez que se trata de uma justa invocação. Luís Fernando Veríssimo faz parte de uma importante tradição da literatura brasileira, onde está Millôr Fernandes e tantos outros, e que se ocupa em dizer as coisas mais sérias do mundo de um modo a um tempo difícil e desarmante, próximo mas inteligente. Do que se trata é de mostrar ao comum dos mortais como a realidade que nos cerca tem sempre o seu quê de incerto e de imprevisível. Onde menos se espera, aparece-nos na história alguma coisa que, não fazendo aparentemente parte dela, permite encontrar uma chave que julgávamos perdida. Afinal não procuramos o que perdemos junto da luz, mas devemos fazer chegar a lâmpada até junto do local em que está a coisa perdida ou desaparecida… Um dia perguntaram-lhe por que razão a raça humana não tem conseguido aperfeiçoar-se, como desejaríamos, e Veríssimo respondeu de imediato – porque usa e abusa das reuniões… Millôr diria que um camelo é um cavalo desenhado por um grupo de trabalho… Outra vez, invetivou um amigo: «não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino, acredite em si próprio. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando – porque, embora quem quase morra esteja vivo, quem quase vive já morreu». Aqui se encontra um verdadeiro programa de vida, de quem quer que não se morra de véspera… Quase viver não existe, por isso o escritor procura pegar nos acontecimentos como se fossem sempre únicos e irrepetíveis. Nesse ponto, encontramos a humanidade como referência universalista. É assim Luís Fernando Veríssimo, bem longe (ou demasiado perto) de seu pai Érico Veríssimo, o célebre autor de «Olhai os Lírios do Campo», mas com semelhante dose de talento – que nos leva a entender que o ADN de ambos é de qualidade humana muito especial. «Se o facto de ter um pai escritor o inibiu?». E a resposta numa entrevista foi a seguinte: «Conscientemente, não. Inconscientemente, talvez. Às vezes fico tentado a inventar algum drama edipiano entre meu pai e eu para satisfazer a expectativa das pessoas, mas nunca houve isso»… Compreende-se bem isto mesmo. Luís Fernando é ele mesmo, empenhado em cultivar a alegria do paradoxo e em exercitar a atenção desperta para tudo o que possa valer a pena. Mas esse gozo não esquece que felicidade é sempre uma acomodação – e o escritor negou-se sempre a acomodar-se, preferindo o desassossego. Só isso parece valer a pena, mas é mais trabalhoso.

 

O MÉTODO AFORÍSTICO.

Os aforismos, que encontramos nos seus diversos textos, são um meio de nos pôr a pensar. A principal matéria-prima para uma crónica são as relações humanas. Só assim é possível superar a angústia do papel branco. Este é o ponto essencial em que o escritor insiste. Nada do que é humano nos pode ser estranho, por isso a dimensão humorística apenas serve para demonstrar que não nos levamos demasiado a sério. O nosso Alexandre O’Neill com a força da sua ironia pensava da mesma maneira e por isso foi grande. E como dar importância às relações humanas se nos limitarmos a olhar o curto prazo e o superficial? Então, não é possível ir além do comezinho e do rasteiro… É por isso mesmo que Veríssimo procura a humanidade olhando para o avesso do tapete, a fim de perceber a razão de ser da beleza dos desenhos vistos do direito. A metáfora do tapete leva-nos a entender que a pessoa humana precisa de liberdade para cumprir as responsabilidades e para realizar o serviço que a vida sempre exige. E o serviço é o dom, a gratuitidade, sabendo-se que a troca estreitamente económica suscita debates e invejas. A alegria do paradoxo é o melhor modo de entender a vida como realização suprema da literatura. Luís Fernando Veríssimo demonstra-o com elementar clareza.

 

À VOLTA DA MESA.

«O Clube dos Anjos» conta a história de dez homens que se reúnem há vinte e um anos à volta de uma mesa para celebrarem a sua amizade. No início há as reuniões diárias no «Bar do Alberi», cujo prato principal é o picadinho de banana. Depois passa a haver jantares semanais em bons restaurantes, em que o prazer da comida requintada se torna um hábito e uma exigência. E, por fim, reúnem-se em jantares mensais nas residências dos membros do clube. É Daniel que conta a história dos dez amigos, a qual vai exigindo cada vez mais no requinte da gula, que parece não ter limites. E conhecem Lucídio, um rapaz misterioso que é exímio na arte da culinária. A procura do prazer é insaciável. Mas o caminho torna-se uma desenfreada corrida para a morte. E tudo se precipita quando Ramos parte… É a vida vivida, contraditória, irónica e trágica que aqui se manifesta. Tantas metáforas, tantas contradições…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Corri a abrir um livro que recebi por correio recente, ao deparar hoje com uma entrevista de David Grossman, escritor israelita que desconhecia, ao jornal Público. O tal livro, que eu já folheara no princípio da semana, é uma tradução, com longa introdução e abundantes notas, da Kabbala denudata de autoria ainda hoje discutida, mas atribuída a Christian Knorr von Rosenroth, datada de 1684, na sua edição em Frankfuhrt. O título original completo dessa obra setecentista, que traduzo para português, reza assim: Esboço da Kabala Cristã, isto é, Sincatabase Hebraica, ou Breve Aplicação da Doutrina Cabalística dos Hebreus aos Dogmas da Nova Aliança, para Formar uma Hipótese Útil à Conversão dos Judeus... Trata-se de um diálogo ou debate, em doze capítulos, entre um cabalista judeu e um filósofo cristão, de que voltarei a falar-te em próxima carta, bem lembrado de que uma certa evolução semântica fez a palavra cabala dizer-nos hoje algo mais próximo de sinistra conspiração do que de mística, seu significado original. Mas neste dia, não fui ao livro por pensar na cabala, mas para encontrar uma citação que o responsável pela edição francesa a que me refiro (Les Belles Lettres, Paris, 2018), o frade dominicano Jérôme Rousse-Lacordaire, usa para epígrafe da sua introdução intitulada À l´Ombre de la Kabbale. Trata-se de um passo de Max Jacob, tirado de Les Oeuvres burlesques et mystiques de Frère Matorel mort au couvent. Traduzo-o para ti, mas lembrado do meu amigo Marcello Mathias, que se sorri apelidando-me de místico excessivo... Aqui vai:

 

   Contudo, ó demasiado místico filósofo, eis-te inquieto, não estarás a insinuar que os ignorantes tomam os símbolos por realidades, e que os outros tomam as realidades por símbolos?

 

   E que tem isto tudo a ver com as cinco páginas que o suplemento Ypsilon do Público dedica a David Grossman, incluindo uma elogiosa resenha do seu último livro publicado em português (Um Cavalo Entra num Bar, tradução de Lúcia Liba Mucznik, D. Quixote)? Obra, aliás, também aconselhada por Francisco Louçã, nesta mesma 6ª feira, na sua habitual aparição no jornal da noite da SIC-Notícias, e que, pelo que me foi dado perceber, trata de modo estimulante, ainda que ficcional, o humor judeu. Não sei se tal humor se reproduz por clones em Israel e todas as várias reuniões da diáspora, mas o que conheço - dos filmes do Woody Allen e de muitos convívios pessoais com judeus em New York e não só -  leva-me a concordar com a apreciação feita por Isabel Lucas ao livro de Daniel Grossman: Rir ou não rir não é uma opção, há verdade na gargalhada, e Dovaleh [o protagonista, contador de piadas] sabe. Ele é um humorista porque conheceu cedo o riso dos outros, os que não riam com ele mas dele. Na infância e na adolescência ele era a piada má, e agora, adulto, quase velho, quer olhar-se de frente, pela primeira vez.

 

   E eu dou comigo, Princesa, a parafrasear Max Jacob: os sobreviventes tomam as piadas por realidades, ou tomarão estas por piadas? Isto é: não será o humor incansável um remédio cabalístico para aguentarmos o trágico? Mas pode ele ser universal, como a música que faz o belo milagre de nos harmonizar, de nos pôr -  e somos tão diferentes! - a comungar as mesmas emoções? No período do último Natal, meditei muito sobre o desentendimento, não tanto enquanto diferendos ou discórdias, mas muito mais enquanto ausência de comunhão humana. Ao longo da vida conheci, graças a Deus, muitas amizades, amores e famílias constituídas por pessoas que inicialmente nem falavam a mesma língua, vinham de povos e culturas, não só diferentes, mas ignorantes uns dos outros. Eram felizes, viviam em profunda comunhão humana, tinham sabido abrir a porta para o caminho da descoberta mútua contínua, que é a única via do amor. Mas, infelizmente, também todos os dias deparo com relações quebradas e corações rasgados entre gente de igual nascimento e criação, que se combate por ganância, por egoísmo ou por soberba, cuja forma mais vulgar, generalizada e insidiosa, é a das chamadas verdades e dos pretensos direitos inatos. Será talvez aí que se confundem, em nebulosas dos espíritos, a cabala mística e a conspirativa, e as nossas boas intenções são nubladas por crenças, preconceitos e ingenuidades. Lê, Princesa de mim, com atenção, os seguintes trechos das declarações de David Grossman a Isabel Lucas (transcrevo do jornal, não traduzo):

 

   Sou muitas vezes questionado se Dovaleh é uma metáfora de Israel. Não acho que uma pessoa possa ser a metáfora de um país, mas há uma ou duas coisas que são similares na vida de Dovaleh e a realidade aqui: primeiro, a contradição entre uma interioridade muito suave e um exterior muito duro; segundo, o sentimento trágico de sentir que se vive em paralelo com a vida que se poderia ter ou devíamos ter. Em 1967, quando Israel venceu a Guerra dos Seis Dias e ocupou todos estes territórios, a grande vitória militar revelou-se uma tragédia nacional: fez de nós ocupantes, criou de modo profundo em nós uma bebedeira de poder que nos trouxe à situação atual, em que há muito pouca esperança para o futuro, com israelitas e palestinianos numa espécie de bloqueio ou beco sem saída. Esta vertigem sem esperança nunca fica de facto vazia, porque há sempre elementos com uma agenda clara, fundamentalistas fanáticos, uma agenda fascista, racista, que está a pular, a ditar o nosso futuro e a sequestrar o nosso futuro e o dos nossos filhos. A situação parece bastante inoperante, sem saída.

 

   Já quando perguntado sobre «o que pensa da decisão de Trump reconhecer Jerusalém como capital política de Israel e mudar para aí a embaixada americana», começa por responder dizendo: Antes de mais, Jerusalém é a capital de Israel. Isto é histórico. Quanto a histórico, resposta mais correta seria dizer que Jerusalém foi a Cidade Santa, a do Templo da Aliança, a das Duas Pazes (terrenal e celestial), mais do que capital de qualquer reino judeu: foi conquistada pelo rei David, da tribo de Judá, em 997 a.C. (em tempos, aliás, para muitos historiadores, ainda não pertinentemente determinados, mas conforme consta dos relatos bíblicos). Depois te falarei, resumidamente, dessa ideia de estado ou reino antigo.

 

  Mais adiante, diz Grossman que no futuro, se avançarmos para negociações de paz entre nós e a Palestina, devemos trazer a questão de Jerusalém como parte de um equilíbrio complicado e devemos decidir que Jerusalém seja dividida a leste, o lado da Palestina, e a ocidente, o lado de Israel. E fazemos o acordo de como nos movimentarmos entre os dois lados, podendo ir rezar aos lugares sagrados das duas religiões. Isto terá de ser feito de forma muito lenta e com uma solução muito detalhada, e não por uma declaração «fast food» do senhor Trump. Este arrazoado, levando em conta apenas judeus e muçulmanos, escamoteando a forte presença de cristãos, muitos destes sendo palestinos ali instalados há séculos, tal como os judeus propriamente do sítio (não os adventícios ocupantes), reflete a influência da propaganda sionista, que insiste em apresentar um Israel "forte, fiel, façanhudo", todo judeu, hoje mais do que nunca guardião da fronteira avançada contra o pernicioso islão. Ignora a verdade histórica e, sobretudo, lamentavelmente, os exemplos passados de uma Cidade do Mundo que, ainda no fim do domínio otomano, conseguiu ser gerida em paz, na convivência e acordo de todas as suas comunidades étnicas e religiosas (donde os quatro bairros, ainda hoje existentes: judeu, cristão, muçulmano e arménio). Curiosamente, leva-me a recordar um vídeo, desses que circulam pela rede (ou teia?) chamada "internet", e que querida amiga me reencaminhou: aí, com ar científico e professoral, um PR (leia-se pi ar), além da treta de Jerusalém ser capital do estado de Israel há mais de 3000 anos, diz-nos que os muçulmanos rezam virados para Meca, e só os judeus para Jerusalém...

 

   Noutro trecho da entrevista, Grossman confirma que escreveu o livro em hebraico (aliás, o prémio Man Booker International 2017 foi-lhe atribuído e, simultaneamente, à sua tradutora inglesa), e diz: Sim, o hebraico é uma das línguas mais antigas. Parte da Bíblia é escrita em hebraico. O que mais é preciso para provar quão antiga e importante é esta língua para as religiões e cultura ocidentais e islâmica? O modo de narrar que está na Bíblia afetou tanto outras culturas e religiões! Para nós, em Israel, o hebraico é um milagre. Foi uma língua em dormência, não uma língua falada, durante quase dois mil anos. Renasceu no início do século XX quando quase ninguém a falava, era apenas a língua das orações, uma língua sagrada. E por causa da insistência e devoção de uma pessoa, Eliezer Ben-Yehuda (1858-1922). Ele reinventou a língua hebraica, baseando-se na Bíblia, no Talmude ou no Mishná. Ele beijou a bela adormecida e viu-a acordar para a vida, e hoje quase toda a gente em Israel fala hebraico, as pessoas fazem negócios em hebraico, apaixonam-se em hebraico, o Exército fala hebraico, as pessoas mais jovens fazem tudo em hebraico. E dá um prazer especial escrever em hebraico, porque se pode escrever numa língua cheia de identidade, de herança e jogar com as diferentes camadas dessa língua. - Continuam a inventar-se palavras? - Sempre! Por causa da anormalidade de uma língua muito antiga que quase se perdeu e que teve de ser reinventada, tiveram de se inventar palavras que faltavam. Por exemplo, Eliezer Ben-Yehuda teve de arranjar um nome para a palavra "tomate". Não havia tomate no tempo da Bíblia, nem gelados, e ele inventou-a. O nome que deu ao tomate foi o que em inglês corresponde a «flirtatious lady», porque ela cora nessa situação [«agvania» em transliteração]. É uma mulher ruborizada [risos]. Quando estou a escrever e chego a um momento em que me falta uma palavra em hebraico e ela não existe, então muitas vezes essa palavra surge numa forma que me parece clara, e imediatamente toda a gente sabe o seu significado, sabe o que quero dizer, como se ela fosse encaixar num lugar que lhe estava reservado.

 

   O linguista que não sou, um essoutro qualquer estudioso rigoroso, poderia dizer que, afinal, a exemplo dos mitos histórico-políticos que hoje se vão (re) inventando, o hebraico que ali se constrói é uma pretensão de língua sem historial de vox populi. Indubitavelmente uma tentativa de unidade linguística de populações provenientes de muitos lados da diáspora, transportadoras de culturas e linguagens diferentes, não sei se também escamoteadora das línguas antigas que muitas dessas comunidades falavam, como o ídiche ou o ladino. Tal como, no século XV, os Reis Católicos uniram reinos de Espanha, pela imposição da uniformidade religiosa. Não sendo cientista nem sábio, limito-me a recorrer a outras fontes de apreciação. Sem, todavia, resistir a remeter-nos primeiro, Princesa de mim, para a poética informação de que «agvania» afinal traduz «flirtatious lady», posto que o fruto tomate evoca o ruborizado rosto de uma dama em amorosos calores... Tanto quanto lembrar-me posso, tomate deriva do inca tomatl, assim se registou o nome desse fruto em castelhano, cerca de 1532, quando nos trouxeram a pertinente solanácea do Peru. Aliás, peru também chamamos nós a essa pobre ave, natalícia iguaria a que, pelo thanks giving, os americanos do norte chamam turkey (da Turquia, herança britânica), e os franceses insistem em tratar por dinde (da Índia, já que o maneirismo gaulês dá sempre prioridade às senhoras pelo que ao peru macho chamará dindon). Afinal, pergunto eu, que nem sobre animais sou sábio: donde veio o bicho? do Perú, da Turquia, da Índia? Mas, correndo o sério risco de ruborizar-te, Princesa, volto ao tomate, que os italianos tratam, bíblica e italicamente lembrados do pecado original, por pomo de ouro (pomodoro). Ou, como regista, sempre competentemente, António Houaiss, no seu Dicionário da Língua Portuguesa : Tomate já figura no dicionário de Bluteau (1721), que comenta: «Não aprova Ruellio o nome de "Poma Amoris", que alguns dão aos Tomates por serem fermosos à vista, porque todos os mais frutos, que tem esta excellencia, justamente pretenderiam este mesmo nome; & se nós lhes chamamos Tomates, dando a entender que a sua fermosura convida a gente, que os vê, a Tomallos, toda a mais fruta vistosa, &  agradável aos olhos se poderá com razão chamar Tomate. E noutra entrada regista que "tomates, substantivo masculino no plural, significa também (desde 1899?), testículos e, por extensão, o conjunto das qualidades viris: valentia, audácia, etc."...

 

   Com este pouco ou nada de riso pícaro, deixo-te, Princesa de mim, até próxima carta, a voltar ao assunto subjacente. Afinal, estas cartas mais não são do que uma conversa entre nós.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

OS TEATROS DE LISBOA EM 1875 - I


O TEATRO DE SÃO CARLOS

 

Evocamos hoje um livro publicado em Portugal em 1875, e programaticamente intitulado “Os Theatros de Lisboa”. É seu autor nada menos do que Júlio César Machado, figura marcante na época e ainda hoje. E mais: a edição é valorizada com cerca de 250 ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro. Está tudo dito quanto à relevância cultural e editorial.

 

O livro contém uma evocação histórica mas sobretudo desenvolve sobretudo a época em que foi escrito e publicado, aí como na flagrante atualidade e na abrangência cultural e documental, não obstante a seletividade das salas e dos artistas referidos.   E isto porque Júlio César Machado concentra sua evocação no Teatro de São Carlos, no Teatro de D. Maria II e no Teatro da Trindade.

 

São ainda hoje, como bem sabemos, e eram na época, grandes referências da arquitetura e da arte do espetáculo em Lisboa e no país inteiro. Mas não eram, longe disso, os únicos “teatros de Lisboa”.  

 

Efetivamente, pela mesma época, mais ano menos ano, funcionaram em Lisboa muitos outros teatros: por exemplo, o chamado Recreios Wittone, o Salão do Conservatório, o Teatro da Rua dos Condes, o Teatro D. Augusto, o Teatro do Ginásio, o Teatro Taborda, o Teatro Avenida, o Teatro das Laranjeiras e mais salas de maior ou menor relevância e durabilidade.  

 

Mas muito embora: os três teatros analisados no livro de Júlio César Machado eram na época os mais relevantes. E em muitos aspetos, na cidade de Lisboa e não só, ainda hoje o são.

 

E acresce que as 250 ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro que aliás consagra na capa do livro a grafia da época (Raphael) obviamente valorizam, e de que maneira, a edição. E isto porque as ilustrações são extremamente variadas, englobam autores, atores, salas e até público, constituindo no seu conjunto uma ampla documentação do teatro da época.

 

No conjunto da escrita e das gravuras, o livro mostra-nos o que era o Teatro em Lisboa na sua perspetiva global e abrangente, mas com um distanciamento irónico. Vemos lá cenas de peças, mas também inúmeras evocações do público, dos autores, dos encenadores, dos atores.

 

E tudo isto com um distanciamento descritivo e gráfico e uma visão digamos irónica, mas sem de modo algum ignorar ou menosprezar, em crítica direta ou implícita, as virtudes e as qualidades, as lacunas e os defeitos do meio teatral, cultural, profissional e mesmo social da vida de Lisboa, representada e concentrada nos três principais teatros.

 

E isto com rigor mas com uma ironia distanciadora!

 

No que respeita aos Teatros, o livro tem em vista sobretudo as programações mas também um sentido crítico da respetiva função cultural respetiva.

 

Vejamos hoje o Teatro de São Carlos. Não haverá exemplo mais flagrante no tom crítico, da época e não só, do que a primeira frase, que abre a longa referência a ao público, aos artistas e ao próprio Teatro.

 

Diz com efeito, logo no início, Júlio César Machado:

«Serve só de inverno, como os capotes. E em se espalhando por todos os lados a melancolia do inverno aí abre ele! (...) soberbo, magnífico e ao mesmo tempo sem cerimónia. (...)

É o teatro da corte, mas pode, quem quiser, ir para ali como para o quintal.

Bom edifício. Sala magnífica.

Nos camarotes, na plateia, tudo gente conhecida»...

 

E segue-se uma descrição detalhada e irónica da atividade operística do Teatro de São Carlos ilustrada com cerca de 45 gravuras de cena, de público e de artistas, de elementos de apoio, desde maestros a compositores, cantores, mas também filas de espetadores entusiasmados - ou nitidamente maçados!...

 

Iremos ver, em próximos artigos, as referências de Júlio César Machado e de Rafael Bordalo Pinheiro ao Teatro D. Maria II e ao Teatro da Trindade.

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXIV - BARROCO

 

A palavra barroco, depois de se aplicar a qualquer coisa de uma forma bizarra, desigual, irregular, começou a ser usada para qualificar uma arte ardilosa, arguta, extravagante, excessiva, empolada, insólita, surpreendente, para qualificar determinada arquitetura, escultura, literatura, pintura, música e artes plásticas em geral.

 

A má fama do barroco foi durante décadas um dado adquirido, o que ainda hoje perdura, para alguns, tendo-o como exagerado, pretensioso, luxuriante, de mau gosto, por maioria de razão por confronto com a arte renascentista tida, para a maioria, como um insuperável modelo de perfeição.

 

Todos sabemos, por experiência, que as coisas mais perfeitas, com a continuação, e não variando, acabam por se banalizar, aborrecendo-nos, dada a ausência de novidade, havendo necessidade de alterar regras, conduzindo os artistas a modificar estilos, saindo do tédio e desentediando-se a si, entre si e aos outros. Para qualquer escola, atingida a saturação, há que superá-la pela ânsia de inovação. Sempre assim foi e será, pelo que por mais adequada e equilibrada que seja uma arte acaba, mais tarde ou mais cedo, por cansar, evoluindo para novos voos, mesmo que sejam novos artifícios para deslumbrar ou uma erudição demasiado trabalhada. Não admira, pois, que perante a saturação estética dos valores do Renascimento houvesse uma transformação da estética até aí dominante, procurando outra originalidade, mesmo que exagerando formas pelos processos mais inesperados, imprevistos e surpreendentes.

 

Monumentalidade, crise de consciência, lutas religiosas, inquietação espiritual, teatralidade, fausto, complexidade, sensualidade, decoração, jogo de construções, de luzes e sombras, de palavras, imagens e figuras, metáforas, antíteses, contrastes, paradoxos, cultismo, conceptismo, forma, contorno, tudo se patenteia no barroco.

 

Resultando de uma interpretação arbitrária das formas clássicas, o barroco prima pela ausência de regras, pela liberdade e movimento, corroborado com a perda do geocentrismo bíblico e a crise provocada pela reforma protestante, criando uma nova visão do infinitamente grande e do imensurável desígnio divino, conducente a uma nova mitologia religiosa.

 

As guerras religiosas geraram o barroco tido como arte da Contra-Reforma e dos Jesuítas, tendo Roma, sede do papado, como centro do poder, onde nomes como Caravaggio, Bernini, Borromini, Carraci, Guercino, Andrea Pozzo e Pietro da Cortona pontuam. Telas como A Conversão de S. Paulo (1600-1), A Deposição de Cristo (1603-4) e A Morte da Virgem (1605), de Caravaggio, esculturas como Êxtase de Santa Teresa (1646-52), na igreja Santa Maria della Viottoria, e os Anjos, em Sant`Andrea delle Fratte, ou na Ponte Sant`Angelo, de Bernini, são seus exemplos. Em que também há cânones não canonizados, como no retrato sensual e pouco ortodoxo do jovem São João Batista (1602), de Caravaggio, mais afastado da ortodoxia iconográfica dos modelos estabelecidos.   

 

Com o decurso do tempo, para além do culto em serões de Paço Reais (vida de Corte) e de Príncipes, o barroco tornou-se uma arte essencialmente burguesa, em que as classes emergentes (artesãos, mercadores) veem nos retratos (individuais e coletivos) de Rubens, Van Dyck, Fran Hals, Rembandt e Vermeer, um reconhecimento da dignidade social que alcançaram. A Lição de Anatomia do Doutor Tulp (1632) e A Ronda da Noite (1642), de Rembrandt, exemplificam-no.

 

Na música, o barroco opõe-se à polifonia, ao contraponto, realçando a voz individual, através do órgão. A música sacra, para a corte, teatro e ópera evoluiu, na Inglaterra protestante, com Henry Purcell. A música religiosa, na Alemanha luterana, com Johann Sebastian Bach. Mas é com a ópera que atinge a sua máxima expressão, onde a música profana adquire finalmente uma forma expressiva a favor do patronato, mecenas, cortes de príncipes e publico em geral. É um período musical riquíssimo, com grandes protagonistas: Monteverdi, Allegri, Schutz, Carissimi, Lully, Charpentier, Pachelbel, Purcell, Corelli, Couperin, Vivaldi, Albinoni, Bach, Handel, Telemann, Rameau, Scarlatti, Arne, Gluck. 

 

Como maneirismo essencialmente decorativo do barroco, surge o rococó, do primeiro quartel até ao fim do século XVIII, caraterizado pela abundância excessiva de elementos de composição e assimetria, predominando na arquitetura e cerâmica, sendo  marcante em França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Portugal e Espanha.   

 

Em Portugal, há muitos exemplos barrocos: Igreja da Madre de Deus, de São Roque, do Menino Deus, Basílica da Estrela, estátua equestre de D. José I (Lisboa), Igreja, Palácio e Convento de Mafra, Igreja e Torre dos Clérigos, Igreja de S. Francisco, Palácio do Freixo (Porto), Retábulo da capela-mor da Sé Nova de Coimbra, Bom Jesus do Monte (Braga), Solar de Mateus (Vila Real), Palácio de Queluz, coches reais, azulejos, pinturas de Josefa de Óbidos, compositores Carlos Seixas e António Francisco de Almeida.

 

Sendo uma arte igualmente associada, entre nós, a protagonistas tidos como responsáveis por malefícios da pátria (absolutismo, dinastia de Bragança, Jesuítas, Inquisição, Contra-Reforma, Concilio de Trento), decadência e mau gosto (segundo Garrett, Herculano, Antero, Oliveira Martins), tornou-se polémica, a que acresce, nos tempos atuais, o cortar em tudo o que não é linear, velocidade eletrónica, sinopse e síntese.

 

Valores políticos à parte o barroco, como qualquer arte, deve ser avaliado pelo seu valor intrínseco, artístico e estético, à luz do contexto e cultura (artística) então dominante. A intemporalidade de Bach prova-o à exaustão. Também o padre António Vieira tido, para tantos, como o imperador da língua portuguesa, é excelente antídoto. Não esquecendo a ópera, declarada e proclamada, por muitos, a maior de todas as artes.

 

Começando a ser usual dizer-se que “O barroco é muito hot”, dado serem tidas como bastante sensuais e sexualizadas obras famosas da arte barroca, como a escultura do Êxtase de Santa Teresa D`Ávila, de Bernini, que inspirou a pintura, sobre o mesmo tema, de Josefa de Óbidos, de 1672, da Igreja Matriz de Cascais.

 

06.02.2018

Joaquim Miguel De Morgado Patrício