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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

7. “MORRER CATÓLICO, APESAR DE NÃO PODER VIVER COMO TAL”

OSCAR WILDE

 

“Eu acredito em tudo desde que seja incrível. É por isso que pretendo morrer católico, apesar de não poder viver como tal. O catolicismo é uma religião tão romântica. Tem santos e pecadores. A igreja anglicana só tem pessoas respeitáveis, que acreditam na respeitabilidade”.

 

É uma afirmação de Oscar Wilde, reproduzida e interpretada pelo ator Stephen Fry, no filme “Wilde”, de Brian Gilbert, numa adaptação biográfica e cinematográfica da vida do escritor irlandês. 

 

Nascido e criado numa família protestante, converteu-se ao catolicismo, em fim de vida, recebendo o batismo e a extrema unção.

 

Foi censurado por amigos e inimigos, desde logo por anglicanos, que viram nessa conversão um aproveitamento da “bondade” ou “hipocrisia” católica. Podemos pecar e mentir, mas se nos arrependermos e confessarmos, somos salvos, estamos absolvidos e vamos para o céu, o paraíso celeste. Quem pecou, mentiu, e se mostrou arrependido, confessando-se, tem o mesmo prémio de quem não pecou, nem mentiu, o que é inaceitável para a respeitabilidade purista. Esta cultura (também papista, em linguagem anglicana), é tida como influenciadora da nossa lei penal e processual penal, a nível do arguido, que tem o direito de mentir (e ao silêncio) em tribunal, exceto quanto à sua identidade e antecedentes criminais, ao invés das testemunhas.

 

Oscar Wilde era um esteta, um dândi, dandinando roupas excêntricas, coloridas, axadrezadas ou listadas, de tecidos raros, casacos de tweed, gravatas vistosas, chapéus chamativos. Vestia com elegância e requinte. Com uma preocupação permanente com a aparência pessoal. Via o pedantismo como sofisticação. A falta de respeitabilidade como inveja e desdém dos pouco talentosos. Estudava e pensava a beleza artística, investigando-a na sua função cognitiva particular, cuja perfeição consistia na captação da beleza e das formas artísticas, levando à conclusão que determinado objeto natural ou artístico desperta, intrínseca e universalmente, um sentimento de beleza e de sublimidade. Elogiava a nudez pública dos jogos olímpicos da antiga Grécia.

 

Esta permanente procura de novas emoções, excitações e sensações, conduziu-o a apetites incontroláveis, a uma vida dupla, que não escondia, casando e tendo filhos, e não ocultando a sua homossexualidade no decurso do seu casamento, acabando por ser preso e condenado a trabalhos forçados por dois anos.

 

Aos olhos da igreja católica era um pecador, numa amálgama de escândalos, costumes e práticas tidas como chocantes e impuras, dívidas vergonhosas, apetites hedonistas, insaciáveis, gostos luxuosos, entre cigarreiras gravadas doadas a rapazes jovens.

 

Esta busca incessante, também o aproximou da sensualidade litúrgica católica, sacra e solene, considerando o amor um sacramento que devia ser tomado de joelhos. Esta analogia exaltante, tida como incrível, a que acresce tudo o que viu e sentiu na sua viagem a Itália, incluindo Roma, sede do catolicismo, em termos de sensualidade  (tantas vezes sexualizada), na sublime beleza das esculturas e representação dos corpos, em louvação humana e a Deus, num misto de santidade e pecado, por oposição à respeitabilidade fria e seca da igreja anglicana, levaram-no, no fim da vida, a converter-se ao catolicismo, morrendo católico, apesar de não poder ter vivido como tal, como ele próprio reconheceu.

 

Que melhor exemplo de arrependimento e conversão interior, diremos nós, que o de Maria Madalena glorificada nas artes, desde a escultura à pintura, como a bela pecadora, tão atraente no pecado como na conversão?

 

“É a única religião em que os céticos estão no altar e em que São Tomé, o Duvidoso, é o príncipe dos apóstolos. Não, não poderia morrer como anglicano”, diria ainda.

 

Apesar de aceitar e defender “o amor que não ousa pronunciar o seu nome” e o amor “que enche o coração do rapaz e da rapariga com uma chama mútua”, de igual modo pensava que mesmo os pecadores têm salvação, mesmo que não tenham vivido segundo as regras da igreja, uma vez que todos, sem exceção, pecamos, mérito que reconhecia ao catolicismo, perdoando e salvando, mesmo que no leito da morte, não por aproveitamento por quem está fraco, inconsciente e moribundo, mas por piedade, humanidade e misericórdia. 

 

Errou quem pensou, à época, que o apelido Wilde seria abominado nos próximos milhares de anos, que qualquer pessoa que tivesse algo a ver com ele não voltaria a ser admitido na sociedade, o que foi recusado pela mulher Constance, enquanto viva, e pelas gerações futuras, sendo tido, até hoje, como um dos génios da literatura mundial, autor de obras como A Importância de ser Earnest, O Retrato de Dorian Gray e De Profundis.

 

Para quem gostava de ser famoso e dizia, com humor e ironia, perto do fim: “Como o querido São Francisco de Assis, estou casado com a pobreza, mas no meu caso o casamento não é um sucesso”, a fama perdura, como grande esteta e não só, por certo uma superestrela estética e mediática se vivesse no nosso tempo.

17.04.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

UMBERTO ECO

 

“Riflessioni sul dolore” (edizioni ASMEPA- 2016)

 

A dor é normalmente identificada como um sofrimento físico quando, na verdade, o seu significado deve ser alargado pois envolve o sofrimento das emoções, o sofrimento espiritual e afetivo e social. A dor é expressão de uma falta global de cura, e cada vez mais se necessita de uma medicina que envolva a pessoa na doença para entender ambas, e não tenha como objetivo único a doença.

 

A relação da dor com a doença e com a pessoa, permite a análise num contexto filosófico, semiológico, histórico, contextualizando a discussão e análise em diversas situações para que se saiba, em qual, a palavra dor, se liberta mais do vínculo estereotipado e de derivação apenas clínica.

 

A dor física e a dor da alma, a dor percebida e a dor provocada, o sofrimento como redenção não dizível de uma profunda perturbação, como é o caso da dor do amor perdido, do sentir que a regeneração da energia não é possível; a dor como estrada para o conhecimento, como meio de captar uma cultura e controlar os seus sintomas quando ela nos invade sem licença; a dor enamorada de esquecer-se por tão física, por tão espiritual, quantas vezes agravada pelo medo do que encobre a dor que se tem, será sempre uma angústia, e, também, um perigo cativo se a medicina não nos der a mão segura, a mão não enferma de uma solução global de soldado.

 

Múltiplos aspetos e significados da dor e do sofrimento, se entendidos amplamente, dão-nos a receita adequada a um solido tratamento, a uma reflexão, não de cuidado paliativo generalizado, mas do entendimento de uma medicina que cura pelo saber e pelo afeto e pela interpretação das emoções que dialogam com uma milenária dor universal, cuja presença no mundo, bem se sabe que fomenta a fadiga, a discórdia, o odio, o desamparo, o choro e a inelutável natureza da esperança, algo animal, que se enrodilha apertada no centro da dor.

 

A consciência da dor e do sofrimento como realidades universais também minadas pelo stresse, tornam, quantas vezes, insuportável a dor física e espiritual da doença que se expõe em corpo marcado pelas contracturas que nos abandonam a nós mesmos e só a nós.

 

Assim também se interpreta que a dor amorosa è un pensiero assíduo podendo mesmo tornar-se obsessivo já que a memória pode não se afastar do objeto amado e modifica-o mesmo para que se pareça mais com a dor que quer expor, afastando-se da verdade, mas caminhando para aquela que melhor justifique a interpretação que permite que o mundo faça, a essa realidade, mesmo inverdade mas tal como deseja que seja e não como foi.

 

Quantas vezes só a medicina poderá ser capaz de apanhar o pulso de um enfermo, alterar-lhe o ritmo, prescrever-lhe o remédio vital e torna-lo um distinto e vulgar caminhante da vida, mesmo quando nessa vida a dor e a cura se mostram apáticas ao esforço, àquele que já só atribui pequeninas doses de tranquilidade.

 

P.S. “Riflessioni sul dolore”: trata se de uma excelente publicação organizada pela Academia da Ciência da Medicina Paliativa num contexto ético e social. Umberto Eco destacado membro da Academia da Ciência de Bolonha propõe-nos também a clarividência da função biológica no acerto com várias mortes que enfrentamos através das violentas doenças da vida.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Arquitetura, forma e expressão. (parte I)

 

'Todas as formas geométricas a las que me refiero son portadoras de dinamismos o energias con poder de expansión, yo diria con poder de generación de outras formas infinitas, y por ello las llamo fértiles.', Pablo Palazuelo, 'Cuadernos Guadalimar', 1978

 

Embora a arquitetura seja um objeto que contem vida é também e deve ser, por excelência, um meio de expressão com conteúdos e significados. 

 

Qualquer matéria pensada e manipulada pelo homem contém intenções, procede de um mais além, é por isso subjetiva.

 

A conceção do homem que atua sobre a matéria é simultaneamente idealista e realista. A perceção que o homem tem da matéria não é objetiva porque transporta memórias e ideais. Porém é um corpo real que atua sobre uma matéria concreta - 'El cuerpo es un abismo, pero todo lo demás es tambiém abismo y por ello pienso que el cuerpo no es un extraño allí donde todo es extraño. Pienso al decir esto en la frase que citas de Rimbaud "Je est un autre", y para mí ese outro es algo hacia lo cual debemos dirigirnos.', Palazuelo

 

A forma produzida pelo homem tem sempre estas dualidades: 

 

Finita e infinita: A forma é sempre limitada pelo espaço, lugar ou estrutura em que se insere. E a forma além de ser expressão do seu criador, é inumeramente interpretável e é capaz de gerar infinitas outras formas.

 

Consciente e inconsciente: na produção de qualquer obra há sempre que cumprir tarefas sistemáticas, justificáveis, úteis e determinadas. Mas existe também uma sucessão de momentos instantâneos, incompreensíveis, intuitivos, incertos e incompletos.

 

Inércia e energia: embora a forma, em si, não tenha capacidade para agir, inclui em si a energia do homem, da natureza e da vida. Essa energia expande-se no tempo e no espaço - estende-se pela história da humanidade (por isso é tão importante o conhecimento das formas do passado e do presente todas contribuem para a produção de novas formas e todas contribuem para a extensão dessa vitalidade que está presente em todas elas).

 

O pintor Pablo Palazuelo (1916-2007) afirma que o rigor e essa dificuldade da transformação da matéria em forma de expressão, ativa a imaginação e a memória (que é distinta do pensamento puramente racional) e é através da sua influência que se chega à experiência do inconsciente que manipula e cria a forma como sendo algo único e irrepetível. Trata-se, portanto de ir ao encontro da vida, de a fazer percetível aos outros e de tentar ir ao encontro das grandes questões que a assombram.

 

A arquitetura (ou qualquer outra forma de expressão) é e deve ser por isso, uma materialidade mais distante por comparação à materialidade que o homem acredita apreender e compreender.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

The Humanitarian R2P, Higher Loyalties and The CHOGM, 2018

 

Agir ou ignorar? As nações nos dois lados do Channel reinventam-se na globalizada guerra síria ao decidirem por cirúrgica intervenção bélica ao lado dos USA, fundamentada no humanitarismo da responsability to protect. A Prime Minister Theresa May invoca também o “national interest” ao explicitar as razões da participação militar em debate na House of Commons.

Chérie! À bon entendeur, salut! O UK envolve quatro RAF Tornados no raide contra o arsenal químico do President al-Assad na sequência do assalto a Douma, O reino está agora em estado de alerta face a esperada ofensiva cibernética contra infraestruturas críticas por retaliação do aliado russo, — Umm. The return to the old cat and mouse game. Já Berlin ameaça o Kremlin, com a Bundeskanzlerin Angela Merkel a avisar que o Nord Stream 2 Pipeline através do Baltic Sea só avança com reconhecimento de Ukraine como “a transit country for gas to Europe.” Washington e Moscow dispersam as atenções. Na promoção de livro incendiário, o ex diretor do FBI James Comey afirma que o President  Donald J Trump é “morally unfit” para exercer o cargo. O visado em A Higher Loyalty riposta que o G-man por si exonerado é a “slimeball.” Escrita fatalmente incómoda pertence a Mr Maxim Borodin, porém, o mais recente jornalista russo a morrer em estranhas circunstâncias após relato sobre os mercenários do Wagner Group. London acolhe o Commonwealth Heads of Government Meeting e o Prince Harry of Wales é feito Commonwealth Youth Ambassador.


Os dilemmas do allowing & doing The War regressam ao debate público.

 

Fine climate at Central London, with birds, blooms and a beautifull sunshine. As gentes denotam o not worrying too much about the uncertainties of the British weather quando o Mall se preenche com as 53 bandeiras do Commonwealth Summit para a reunião intergovernamental de uma royal republic of 2,4 billions citizens around the globe por cá conhecida como The 2018 CHOGM. Também as House of Parliament retomam os trabalhos, com uma first full session até altas horas da noite a que não falta sequer colorida demo na novamente movimentada Westminster Square. Aliás, vem do exterior o mais persuasivo dos argumentos para assistir à acesa querela havida nos Commons sobre a operação síria da tríade ocidental. ― "For goodness’ sake, he is A DOCTOR!" O «bom doutor» a que a ativista se refere é Mr Bashar al-Assad, em episódio de protesto digno dos Monty Python e que evidencia a cândida incredulidade pacifista do grupo Stop the War face à alegada responsabilidade do regime de Damascus no ataque com gás a Douma. Já na câmara soa o aço na esgrima entre apoiantes e críticos do lançamento dos mísseis nas margens do Jordan River. A Prime Minister presta contas durante mais de três horas e responde robustamente a questões colocadas por 140 MPs. A Loyal Opposition acaba a ganhar novo emergency debate para amanhã, sob proposta de um War Powers Act apresentado por RH Jeremy Corbyn com exigência de consulta e voto parlamentar prévios a qualquer ação militar. Algo que, na prática, aspira revogar a presente e executiva Royal War Prerogative e que o Tory MP Andrew Bridgen logo reintitula como “No War Powers Bill.”

 

Se as condições do recurso à força são abertamente questionadas, nos fundamentos e na finalidade, já o Her Majesty’s Government invoca o interesse nacional e a importância de se punirem quantos violem a proibição mundial das armas químicas ― seja nas ruas de Salisbury ou nas de Douma. No longo debate ecoam as tensões entre a Russia e The West a par dos riscos de escalada militar entre as potências regionais do Levante. Downing Street hasteia o estandarte humanitário e a responsabilidade de proteger os sírios numa guerra civil que entra no oitavo ano com um passivo de aproximadamente meio milhão de mortos, 14 documentados ataques químicos e 11 vetos russos no UN Security Council a bloquearem the diplomatic road. Mrs May enuncia a base legal da aliança UK-France-US contra o regime de Damascus: "It required three conditions to be met. First, there must be convincing evidence, generally accepted by the international community as a whole, of extreme humanitarian distress on a large scale, requiring immediate and urgent relief. Secondly, it must be objectively clear that there is no practicable alternative to the use of force if lives are to be saved. Thirdly, the proposed use of force must be necessary and proportionate to the aim of relief of humanitarian suffering, and must be strictly limited in time and in scope to this aim.” Reagindo ao ruidoso criticismo das oposições, em particular à declaração de RH Red Jezza de esta ser “an action legally questionable,” a senhora insiste uma vez e outra que “we have done this because it was the legally and morally right thing to do."

 

A Prime Minister ventila princípios da guerra justa, a jus bello que por cá recorrentemente choca com clássico ‘flower power’ da Urnicopia que hoje milita no topo do Labour Party e no caso árabe se cruza com uma audível propaganda machine. Ora, 25 anos depois do fim oficial da Cold War, aquém das desventuras arenosas na Irak War mas a par da interposição bem sucedida no Kosovo, a atual polarização política contém ainda cicatrizes de um passado recente que cabe recordar para perceber o risco que o May Government corre no debate parlamentar de amanhã caso ali seja censurado por via de adversarial voto pacifista ou oportunista. O intervencionismo militar de caráter humanitário sofreu um sério revés na House of Commons, em 2013, às mãos do anterior líder trabalhista. Mr Ed Miliband logra então impedir, because of the opposition in the legislature, que o UK participe em similar ação do Cameron Tory Govt ao lado dos US, assim desmobilizando também o President Barack Obama na sua “red line on Syrian chemical use.” O rasto dos efeitos está à vista, em renovadas disputas nas esferas de influência, globais e regionais, num país de altas montanhas e vastos desertos, na borda do Mediterranean Sea, cujas fronteiras tocam Turkey, Israel, Irak, Lebanon e Jordan. Por perto estão, geograficamente claro, a Saudi Arabia e o Iran.

 

Desconhecendo-se quais os objetivos estratégicos da intervenção ocidental no vespeiro jihadista que é o Middle East e não vislumbrando por lá líder decente que caiba publicamente apoiar, ainda assim exigindo-se a quem pode que proteja os martirizados inocentes pelos quais o Pope Francis apela à consciência universal, última nota para históricos desastres que marcam os dias abrilinos, A 15 April 1912 afunda-se o Royal Mail Ship Titanic. O unsinkable transatlântico da White Star fazia a sua maiden voyage entre Southampton to New York, com pelo menos 2,224 passageiros e tripulantes a bordo. Cerca de 1,500 pessoas morrem no cognominado “The Millionaire’s Special,” após o maior navio da era edwardiana colidir com um icebergue. A 16 April 2018 naufraga o Home Office. Apura-se que o departamento governamental do 2 Marsham Street tem exigido a British citizens há décadas chegados de barco das várias paragens tropicais da Commonwealth, por cá trabalhando, criando família e educando filhos e netos, que provem “the right to live here” sob pena de deportação. O ministério ontem liderado por RH Theresa May e hoje por RH Amber Rudd choca nos emigration checks com elementar senso e a Windrush Generation do post-1945. Vêm aí, a galope, as eleições locais. — Bah. Precise portraits in King Lear makes Master Will of Edgar and Edmond after the discovery of their different status as sons of the Earl of Gloucester: — “This is the excellent foppery of the World that when we are sick in fortune – often the surfeit of our own behaviour – we make guilty of our disasters the sun, the moon, and the stars, as if we were villains by necessity, fools by heavenly compulsion, knaves, thieves, and treachers by spherical predominance..."

 

St James, 16th April 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 16 a 22 de abril de 2018.

 

António Tabucchi descobriu Portugal, um dia na Gare de Lyon, em Paris, através de uma tradução de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, por Pierre Hourcade.

 

UM ENCONTRO INESPERADO

António vinha para Itália e esse encontro marcou a sua vida. Depois, tudo o aproximou de Portugal: a literatura, a família, as cidades, as letras e as artes. A sua aldeia lisboeta foi a Rua do Monte Olivete, num lugar de tantas recordações literárias – Ruben A., Alexandre O’Neill… E a sua obra é um acervo fantástico de um europeu autêntico, cosmopolita, sedento de encontros e diálogos. Quando lemos em Sonhos de Sonhos (1982) o que dedica a Fernando Pessoa, poeta e fingidor, podemos perceber um pouco o significado de uma empatia. “Na noite de sete de Março de 1914, Fernando Pessoa, poeta e fingidor, sonhou que acordava. Tomou café no seu pequeno quarto alugado, fez a barba e vestiu-se com esmero…”. Depois, chegou à estação do Rossio e partiu para Santarém. No comboio encontrou a mãe que não era a mãe e depressa se viu chegado ao destino esperado e numa tipoia em direção à casa de Alberto Caeiro. O cocheiro sabia bem onde era esse lugar e conhecia o senhor Caeiro. Mas, num ápice, já estavam na África do Sul. Ao chegar à casa, descobriu inesperadamente que Caeiro era o Headmaster Nicholas, o seu professor da High School. E a misteriosa personagem apressou-se a revelar que era a parte mais profunda de si, a sua parte obscura – “por isso sou seu mestre”. E a orientação era clara: “terá de escutar-me, deverá ter a coragem de escutar esta voz, se quer ser um grande poeta”… No princípio do encontro Fernando era apenas um rapazinho com calças à marinheiro. Agora já regressara à condição de adulto. O essencial estava definido. E apenas pediu ao cocheiro que o levasse ao fim do sonho. Era o dia triunfal da sua vida… Pode discutir-se se, afinal, foi num dia apenas que tudo aconteceu, a partir do “Guardador de Rebanhos”, isso é tema de especialistas, o certo é que esse foi o ápice crucial – e sem ele não podemos compreender a força da criação.

 

PEREIRA COMO METÁFORA FORTE
Ao lermos Afirma Pereira (1994) e A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro (1997) compreendemos que o escritor é vigorosa e humanamente crítico. Em Afirma Pereira há uma metáfora forte, em que o ano de 1938 não é um tempo confinado ao passado, mas uma realidade atual de alertas e preocupações. Monteiro Rossi, a namorada e o Dr. Cardoso, invocando a “confederação de almas”, mas sobretudo Pereira são exemplos de que o conformismo e a indiferença têm limites. Bernanos mudou ao tomar contacto com a barbárie em Espanha. Pereira vai mudando. Tabucchi afirma-se, para além de rótulos, apenas democrata. Como disse a Maria João Seixas (Público, 3.4.2000): “aquele sistema que os senhores de Atenas inventaram de se pôr uma cruzinha num caco de uma bilha, para depois se juntarem todos os pedacinhos e serem contados, esse sistema a que chamaram democracia é o melhor que até agora se inventou”. As utopias respeitava-as, desde Tommaso Campanella a Thomas More até aos escravos brasileiros que fugiram para a Amazónia – mas com cautela, já que fazem parte dos nossos desejos e sonhos. O homem tem de sonhar, sobretudo de olhos abertos. O sonho é motor da história, porque somos seres desejantes – o que lembra Spinoza sobre a necessidade de se fortalecer a alma coletiva. Por isso a luta do povo de Timor Leste foi exemplar, porque permitiu à democracia vencer, apesar de tudo… Nesta perspetiva, centrada na liberdade igual e na igualdade livre (que Norberto Bobbio sempre defendeu), era um defensor das minorias: “a nossa civilização, esta, a nossa, ocidental, não seria o que é, sem as várias minorias que a atravessam e compõem”… Por isso, via com preocupação as tendências populistas, na medida em que caiam na tentação de uniformizar tudo e de fazer da vontade geral um modo a subalternizar os poderes e contrapoderes, o pluralismo e a diversidade, que são a seiva fecunda da democracia. É importante a governabilidade se não esquecer a legitimidade do exercício, ou seja, o permanente respeito pela justiça.

 

RECORDAR “O PRANTO DE MARIA PARDA”
E sobre Portugal? Tabucchi foi um analista arguto da nossa cultura, pondo-nos de sobreaviso relativamente às simplificações e caricaturas. Voltamos à entrevista de Maria João Seixas, que lhe perguntava se seremos essencialmente líricos? Não só, disse, mas também bucólicos, não podemos esquecer a “comoção da alma lusitana” – ou seja, a “saudade”, mas o ensaísta não torna a saudade um estereótipo, seguindo o alerta de Antero de Quental. A lírica, o bucolismo e a dimensão épica têm de ser consideradas no seu conjunto. Contudo, para si a definição da “alma portuguesa” não pode esquecer o lado picaresco. Leia-se a linha que nos leva de Gil Vicente ou de Fernão Mendes Pinto até Dinis Machado de O que diz Molero. Aí está o português trocista, cultor do trocadilho e da anedota. Para escândalo de alguns, citou no “Die Zeit”, em 1997, o Pranto de Maria Parda, de Mestre Gil, onde ela diz “cada traque que eu dou é um suspiro de saudade”. De facto, como ensinou Jorge de Sena, há também uma anti-saudade que faz parte de nós portugueses, “desde as cantigas de escárnio e maldizer, consideradas, intelectual e institucionalmente, como um parente pobre das cantigas de amigo”. José Cardoso Pires concordou plenamente com esse entendimento. “Há nos portugueses um veio pícaro, um escárnio sempre presente, uma maldadezinha, um tom mais baixo, rabelaisiano”. Em Gil Vicente, “o que se escolhe habitualmente são os Autos, os do ‘sublime’. E foge-se das comédias e das farsas, onde há personagens que cheiram mal, andam rotas, sem eira nem beira, como Maria Parda”. Falando do “sublime”, dizia que apenas o tomava homeopaticamente, “porque se pode ter, com muita facilidade, uma indigestão e ficar enjoado do ‘sublime’” – e referia os poetas místicos como detentores da “chave misteriosa” que dá acesso “desenjoado e desenjoativo” aos banquetes do ‘sublime’… O analista da nossa cultura pôde assim compreender a complexidade de um cadinho cultural muito rico e pleno de vias de conceitos impossíveis de conter em meia dúzia de ideias redutoras… Não nos esqueçamos ainda dos alertas que fez relativamente à noção de lusofonia. Escreveu no “Le Monde” um texto emblemático, que intitulou de “Suspeita Lusofonia” (18.3.2000), onde dizia que Portugal, tendo perdido o seu império e as suas colónias, pode encontrar nessa ideia um terreno fértil para “uma invenção metahistórica” que funciona no imaginário coletivo como um sucedâneo do passado. Há, por isso, que contruir uma nova relação de igualdade e de intercâmbio, capaz de considerar o diálogo intercultural como multipolar, heterogéneo e complementar – sem paternalismos nem dependências. Pode pois dizer-se que a atitude de Tabucchi constitui um modo maduro e consistente para afirmar o mundo diverso da língua portuguesa, como um caleidoscópio composto por várias culturas e por uma extraordinária capacidade de recriação e de enriquecimento mútuo.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   O golpe de estado do 18 de Brumário (9 de novembro) de 1799, termo da primeira década da Revolução Francesa, traz à tona a nova burguesia, aquela classe de oportunistas que foi sabendo mexer os cordões do PREC coevo, e até foi designada por Nação, quando mais não era do que a faixa de 2% da plebe, os privilegiados que faziam negócios e ganhavam fortunas. No Antigo Regime, a assembleia dos representantes da nação (em Portugal chamada Cortes), reunia três classes: clero, nobreza e povo. Com a revolução, acabou por congregar só uma - em liberdade, igualdade e fraternidade -, mas, nessa mesma, uma minoria era mais livre, mais igual e, com ironia, mais fraterna do que o povo em geral. Este, acabou por ser constituído por citoyens passifs (expressão de Sieyès), assim se respeitando o conselho de Voltaire que diz ser país bem organizado aquele em que le petit nombre fait travailler le grand nombre, est nourri par lui, et le gouverne.  

 

   Seguir-se-á o Consulado e o Primeiro Cônsul tornado Imperador. Napoleão será a reincarnação "republicana" da monarquia, muito próxima, aliás, da fórmula de Luís XIV: L´État c´est moi.

 

   A China também terá, a partir de 1912, os seus imperadores republicanos: Sun Yat-sen, fundador da modernidade sínica, e Chang Kai-shek, durante a primeira república, Mao Zedong, Deng Xiaoping e Xi Jinping, em tempos de república popular. Deixa-me ler-te um texto de Sun Yat-sen:

 

   Na China, desde a Antiguidade, a maioria dos indivíduos dotados de forte ambição sonhou ser imperador...  ... Esse tipo de ambicioso encontra-se em todas as idades da história, sem interrupção...  ... Assim, na história da China, em qualquer idade, sempre se lutou pelo trono imperial, e todos os períodos de anarquia que o país sucessivamente atravessou tiveram a sua nascente nessa luta pelo trono. Os países estrangeiros fizeram guerras de religião, ou bateram-se pela liberdade. Na China, desde há milhares de anos, lutou-se perpetuamente por essa única questão:  vir a ser imperador.

 

   [Introduzo aqui uma máxima de Benjamin Constant, amante de Mme. de Staël, filha de Necker, conspirador do 18 Brumário, que Napoleão fez Tribuno: a política é, antes do mais, l´art de présenter les choses sous la forme la plus propre à les faire accepter. Sugiro, Princesa, que a tenhas sempre, subconscientemente, como lembrete].

 

   Para melhor entendermos a figura do Imperador no imaginário religioso, ético e político chinês, na sua própria visão do mundo, cito-te, primeiro, Confúcio: Quem governa pela virtude é comparável à estrela polar, imutável no seu eixo, mas centro de atração de todo o planeta. Dito este, claramente, nos antípodas do de Constant. O Imperador Celeste é paradoxal, ser humano e ser divino, senhor e chefe de todos, mas por todos, finalmente, controlado. Recorro a duas longas transcrições para entendermos melhor. A primeira é tirada de La Vie des Chinois au temps des Ming (Paris, Larousse, 2003), de Gilles Baud-Berthier e outros:

 

   Fils du Ciel, l´empereur est un être quasi divin. E traduzo: Manda em todos e só obedece ao Céu e aos seus próprios antepassados. Mas é também aquele que cumpre os ritos oficiais, o chefe dos funcionários, o pai dos seus súbditos. E finalmente é um homem como os outros, movido pelas suas ambições, as suas inclinações, as suas fraquezas...

 

   A segunda transcrição, muito mais longa, traduzo-a de um livro recente (Paris, Perrin, fevereiro de 2018), da autoria de Bernard Brizay, cuja leitura te recomendo: Les Trente «Empereurs» qui ont fait la Chine. Trata-se, aliás, não de um texto do próprio Brizay, mas de um trecho que ele respigou de La Chine devant l´Europe, livrito escrito pelo marquês de Hervey de Saint-Denys, em meados do século XIX, e publicado no reinado de Xianfeng:

 

   Chamam-lhe Filho do Céu, desejam-lhe dez mil anos de vida, prestam-lhe honras divinas. Ninguém pode passar diante da porta exterior do seu palácio, de carro ou a cavalo. O seu trono, mesmo vazio, é respeitado tanto como ele mesmo seria. Recebem de joelhos os seus despachos, queimando incenso. Comanda 400 milhões de homens. A sua morada é uma autêntica cidade, rodeada de altas muralhas, recinto reservado aos inúmeros serviços de uma corte sumptuosa. Ali se encontram casas de habitação para o imperador, a imperatriz, as princesas ou damas de segunda classe, as de terceira e até de quarta classe; pavilhões de trabalho para os ministros; salas de receção, de representação, de audiência; outras consagradas às cerimónias religiosas ou às festas do monarca; exércitos de oficiais de todas as patentes, de servos e de eunucos; oficinas imensas onde todo um mundo de operários se ocupa no fabrico sem interrupção dos objetos necessários aos sete ou oito mil habitantes dessa cidade privilegiada. Nenhum príncipe se encontra rodeado de maior prestígio, pompa e magnificência...

 

   Mas o arguto marquês francês acrescenta: No meio de todos os atributos do poder soberano, o temido monarca não pode dar um passo como entender. O seu vestuário, os seus atos, as suas posturas e as palavras que pronuncia são regulados por minucioso cerimonial. A ordem das suas refeições, a natureza e a quantidade dos alimentos que lhe são servidos em cada estação, em cada circunstância, são igualmente determinadas... Numa palavra: a sua vida é o cumprimento de um rito.

 

   Assim também, ainda nos nossos dias, se desenrola a vida do imperador e família do Japão, Império do Sol Nascente. Herança vinda, da dinastia sínica dos Tang, para a corte nipónica de Nara. Na tradição sino-nipónica, a personagem cuja designação traduzimos, nas línguas ocidentais, por imperador, tem um carácter hermético, que encerra a presença do divino numa terra eleita, podíamos até chamar-lhe mistério, um sacramento da união do Céu com a Terra, pois estabelece essa ligação. Não é exatamente o mesmo que o imperator romano, este apenas um deus entre deuses vários, assim por política obrigatoriedade de veneração dum soberano, mais fácil de impor a um universo de povos, culturas e religiões diversas quando tal poder é sacralizado. Sabes, Princesa, o que a recusa do reconhecimento da divindade imperial custou aos judeus e aos cristãos primitivos. Para estes, a perseguição político-religiosa durou até à conversão de Constantino, em 322. Mais tarde, Roma irá servir-se da religião cristã - já também religião do próprio imperador - como cimento do império, tornando-a religião oficial. E assim se iniciarão séculos de conflitos entre o poder temporal e o espiritual, e períodos de confusão entre ambos. Quando o nosso Afonso Henriques busca e consegue o reconhecimento papal dele como rei, por exemplo, não é só uma bênção religiosa que procura, é a afirmação do poder papal como o único entre o rei e Deus. Para melhor entendermos tal diligência e o seu objetivo final, transcrevo-te um trecho do prólogo da obra El Rey, Historia de la Monarquia, por vários autores (Editorial Planeta, Barcelona, 2008), escrito por Rafael Escudero (das Reales Academias de la Historia y de la Jurisprudencia e Legislación):

 

   Hay, sin embargo, una forma egrégia y superior de ser rey, la de ser rey de reyes o emperador, de lo que en nuestra historia constatamos un intento frustrado (el de Alfonso X, que trató en vano de conseguir el imperio alemán) y dos bellas realidades en la Edad Media y en la Moderna. En aquella, com la Península articulada en diversos reinos, el caso del Imperio castellanoleonés, com un rey, Alfonso VI, que aparece como «emperador de toda España» o «emperador de las dos religiones», o de Alfonso VII, coronado emperador en la catedral leonesa de Santa María en 1135. En la Edad Moderna, en fin, el emperador por antonomásia, Carlos, que se hizo com la Corona imperial en 1519 y de quien diria ante las Cortes el doctor Pedro Ruiz de Mota que «él sólo en la tierra es rey de reyes». [Carlos V, imperador do Sacro Império Romano Germânico e, em Espanha, Carlos I]

 

   O imperador Afonso VI tivera duas filhas: uma bastarda, Teresa, casada com Henrique, da linhagem dos Duques de Borgonha, mãe de Dom Afonso Henriques, o qual de seus pais herdaria o título de Conde de Portugal; outra, legítima, Urraca, casada com Raimundo, da casa dos Condes de Amous, o qual foi feito, em virtude do seu casamento, Conde da Galiza, sendo o filho de ambos reconhecido como sucessor do Imperador castelhano-leonês com o nome de Afonso VII. De acordo com o costume feudal que confundia soberania e propriedade, Afonso VII, primo direito de Dom Afonso Henriques, ao morrer, em 1155, deixou o império dividido pelos seus dois filhos: Sancho herdou o reino de Castela, Fernando o de Leão. Mas nessa altura, já Portugal tinha rei seu, pois o uso desse título régio já constava do tratado de Zamora, celebrado entre os primos Afonso (VII e Henriques), o que parece traduzir o reconhecimento da sua legitimidade pela autoridade do imperador. Todavia, outros cronistas, como Rodrigo Ximenez de Rada no De Rebus Hispaniae, não referem essa eventualidade, pretendendo que Afonso Henriques era o primeiro que em Portugal tomou por si mesmo (sibi imposuit) o nome de rei, pois seu pai usava o título de conde, e ele, inicialmente, o de dux. Pediu ao papa Eugénio III, de que se constituiu vassalo (censuale), muitos privilégios... Sobre esta questão, como sobre o nosso primeiro rei, recomendo-te a leitura da biografia de D. Afonso Henriques do José Mattoso (Lisboa, Círculo de Leitores, 2008). Mas deixa-me reter aqui duas observações: a primeira aponta para o facto aparente de que o primeiro Rei de Portugal - que, aliás, mesmo filho de bastarda do imperador Afonso VI, pertencia, pela linhagem paterna a uma nobreza franca superior à de seu tio Raimundo, pois seu avô Henrique, Duque da Borgonha era neto de Roberto II, rei de França -, Afonso Henriques ter desde logo procurado o reconhecimento direto do papa, prestando vassalagem a Eugénio III; a segunda verifica que, apesar de tal reconhecimento papal apenas se ter oficializado em Maio de 1179, pela bula Manifestis probatum , de Alexandre III, o Rei de Portugal nunca se considerou vassalo do primo, mas antes seu igual, porque ambos descendentes diretos, ainda que por via uterina do imperador Afonso VI.

 

   Reconhecimentos papais fazem-me reevocar Napoleão. E, para te deixar entretida com esta carta, trago-te um trecho longo do Alain Minc (Une Histoire de France, Paris, Grasset, 2008, pag. 235): Le sénatus-consulte du 18 mai 1804 lui conférant le titre bizarre d´«Empereur héréditaire des Français» est ratifié lors d´un plebiscite, par une majorité encore plus écrasante que la Constitution de l´an VIII. E passo a traduzir:

 

   Napoleão não se contenta com isso. Quer os fastos e pompas de uma sagração e sobretudo a presença do papa. Incrível ressurreição da tradição monárquica. A França galicana, a França da Constituição civil do clero, negoceia a vinda a Paris do soberano pontífice para presidir à cerimónia! Nessa altura, Napoleão nada em surrealismo político. Cospe na cara das monarquias europeias com a execução do duque de Enghien e, depois, quer imitá-las, talvez macaqueá-las. A mímica da sagração de Reims é para pôr um ponto final à Revolução.Tenta vincular a sua dinastia ao precedente dos Carolíngios - donde o título de Imperador - e trata os mil anos de reinado capetiano como um parêntese. Deseja a bênção do papa mas, no momento da cerimónia, tira-lhe a coroa das mãos...   ... Estranha monarquia que cortou o cordão umbilical com Deus, mas que mantém a filiação com as conquistas da Revolução! O Consulado  correspondera à fase racional do bonapartismo; o Império será o seu período barroco.

 

    E isto me leva a Vladimir Putin, abrindo a porta para a minha-tua próxima carta, que começará por desenvolver a notícia que seguidamente te traduzo de Le Monde Diplomatique, deste mês de março, transmitida num artigo de Anaïs Llobet: Debaixo de muito sol, em maio de 2017, o patriarca Cirilo de Moscovo e de toda a Rússia, inaugura a igreja do mosteiro de Stretenski, no coração da capital. A seu lado, o presidente Vladimir Putin, de semblante solene e impassível, acompanha integralmente o ritual. Depois, entrega ao patriarca um ícone antigo de quatro séculos representando João Baptista, o profeta que anunciou a vinda de Jesus, imagem que até então estivera em lugar de destaque no seu gabinete no Kremlin. Ficará doravante exposta no altar do novo local de culto.

 

   Isto tem que se lhe diga, tal como as conversações em curso entre o Vaticano e a China oficial, ou a expansão económica, cultural, política e militar do Império do Meio nos dias que vão correndo, em manifesto contraste com o recuo e total proibição, ainda durante a dinastia Ming, da exploração, por via marítima, do mundo exterior de então. Como português, terei também de recordar o falhanço da embaixada de Tomé Pires, no século XV, num tempo em que, fora da China, os servidores do Filho do Céu só procuravam quem lhe prestasse vassalagem, e o Rei de Portugal lhe enviava uma carta a reclamar-lhe o mesmo...  

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS TEATROS DE SOUSA BASTOS NA EUROPA, NO BRASIL E EM ÁFRICA

 

Na crónica anterior, fizemos referência ao livro recentemente publicado sobre Sousa Bastos, da autoria de Paula Gomes de Magalhães, com nota introdutória de Maria João Brilhante e Ana Isabel Vasconcelos (ed. 2018).

 

Recordamos aí designadamente a obra de Sousa Bastos, ainda hoje sempre citável, o “Diccionário do Theatro Português”, assim mesmo denominado na edição de 1908, e onde se descrevem nada menos do que 213 teatros de Portugal, Brasil e África, numa cobertura cronológica que abrange edifícios e salas já na época históricas, mas sobretudo teatros à época em atividade: e de notar que não poucos, com ou sem alterações de designação, com mais ou menos obras de recuperação, duram até hoje.

 

E recordamos agora que Sousa Bastos, no seu livro denominado “Carteira do Artista” (1898) , obviamente referido no crónica anterior e cuja imagem de capa serviu de ilustração, já aí procedeu a um primeiro levantamento de teatros, só que, desta vez, apenas 26, e que enumeramos tal como o autor os identifica, com a grafia da época e expressões e designações por vezes pitorescas nas respetivas descrições. Vejamos então.

 

«O velho Theatro da Rua dos Condes (Lisboa)”; “Theatro do Gymnasio (Lisboa)”; “Theatro Garcia de Rezende (Evora”); “Theatro Romano (Lisboa)”; “Theatro da Paz (Pará-Brasil)”; “Pateo da Bitesga (Lisboa)”;  “Pateo da Rua das Arcas (Lisboa)”; “Theatro de Wagner” (Bayreuth”); “Pateo das Fangas da Farinha (Lisboa)”; “Theatro do Bairro Alto (Lisboa)”; “Theatro Scala (Milão)”; “Theatro de Loanda (Africa portuguesa)”; “Theatro de S. Roque (Lisboa)”; “Theatro de S. Carlos (Napoles-Italia)”; “Academia da Trindade (Lisboa)” (Lisboa)”; “Theatro da Graça (Lisboa)”; “Opera de Vienna (Austria)”; “Theatro de S. José (S. Paulo – Brasil”); “Theatro da Boa Hora (Belem)”; “Theatro de D. Fernando (Lisboa)”; “O Novo Theatro da Comedia” (Vienna-Austria)”; “Theatros Regios (Queluz, Salvaterra, Ajuda)”; “Comedia Franceza (Paris)”; “Theatro do Odéon (Paris)».

 

O texto é ilustrado com 11 gravuras de Teatros, sendo apenas três de teatros portugueses (Condes, Ginásio, Évora), a que se acrescentam as gravuras dos Teatros do Pará, Bayreuth, Milão, Nápoles, Viena, (duas) e Paris (duas).

 

Mas o mais interessante e historicamente significativo é a análise e descrição de cada um dos teatros, sendo certo que a extensão e o detalhe histórico e artístico variam de acordo com o critério do autor, que hoje será difícil de precisar com rigor. Os mais desenvolvidos neste aspeto são o Condes, o Ginásio, o Garcia de Resende, o Pateo das Arcas e os dois Teatros de Paris, significativamente a Comedia Francesa e o Odéon. O que não é de estranhar!

 

Ainda dois esclarecimentos.

 

Desde logo, a própria denominação do livro, que define um programa de investigação e divulgação:

 

«Carteira do Artista – Apontamentos para a História do Teatro Portuguez e Brazileiro Acompanha de Notícias Sobre os Principais  Artistas, Escritores Dramáticos e Compositores Estrangeiros». Tudo isto ao longo de mais de 800 paginas em sucessivas calendarizações diárias!

 

E mais: o livro é dedicado «À minha querida e santa mulher Palmyra Bastos Modelo das esposas e, espelho das mães e exemplo das artistas, O seu marido grato Sousa Bastos.»

 

Palmira Bastos nasceu em 1875 e faleceu em 1967. Integrou durante décadas o elenco do Teatro Nacional de Dona Maria II, na Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, onde atuou até quase ao fim da vida.

 

Recorda-se aqui o seu talento. 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXVII - REALISMO (II)

O IMORAL E O CRITICAR PARA CORRIGIR EM MADAME BOVARY

 

O romance de Gustave Flaubert, Madame Bovary (1857), é tido como pioneiro da estética realista na literatura.

 

À semelhança dos romances realistas, propunha-se fazer um inquérito à sociedade francesa, como Eça de Queirós, mais tarde, influenciado pelas ideias importadas de França, se propôs fazê-lo à sociedade portuguesa.

 

Pelo seu pioneirismo e escândalo, na época, o processo movido contra Madame Bovary, é exemplar pelo confronto entre a acusação, a defesa e a sentença final.

 

Autor, editor e impressor foram acusados de delitos de ofensa à moral pública, religiosa e aos bons costumes, em especial Flaubert, o réu principal, qualificando de imoral tal romance o advogado/delegado imperial do Ministério Público, rebatendo a objeção geral de tal obra, no fundo, ser moral, dado que o adultério era punido, alegando: 

 

“Para essa objeção, duas respostas: suponhamos que, por hipótese, a obra é moral - uma conclusão moral do romance não basta para amnistiar os pormenores lascivos que nele se encontram. E depois afirmo: a obra, no fundo, não é moral”.

 

Acrescentando: 
“Digo, meus senhores, que pormenores lascivos não se podem cobrir com uma conclusão moral, porque a ser assim podíamos contar todas as orgias imaginárias, descrever todas as torpezas de uma mulher pública, desde que o fizéssemos depois de morrer numa enxerga de hospital. Seria lícito mostrar todas as suas posturas lascivas! Isto seria ir contra todas as regras de bom senso”

 

Após classificar a obra como imoral, do ponto de vista filosófico, reconhecer que a protagonista morre envenenada, que sofreu muito, alega que “morre no dia e hora que escolheu, e morre, não porque é adúltera mas porque quis morrer”, além de dominar o livro em tudo, havendo que recorrer à moral cristã para explicar e reforçar a imoralidade da obra, dado ser em nome desta que “o adultério é estigmatizado, condenado, não por ser uma imprudência que expõe a desilusões e pesares, mas porque é um crime contra a família”.   

 

Concluindo: embora compreensível que a literatura realista, como arte, pinte o feio, o mau, o ódio, a vingança, o amor, dado que o mundo vive disso, é inadmissível que estigmatize a moral, uma vez que a arte sem regra deixa de ser arte, pelo que impor à arte a regra única da cedência pública não é subordina-la, é honrá-la, só se progredindo com uma norma.

 

O advogado de defesa, nas suas alegações, questiona:

“Este livro, posto nas mãos de uma senhora jovem, poderia ter o efeito de arrastá-la para os prazeres fáceis, para o adultério, ou pelo contrário, de mostrar-lhe o perigo dos primeiros passos e de fazê-la estremecer de horror?”   

 

E acrescenta:

“O adultério não passa de um rosário de tormentos, de pesares, de remorsos; e depois chega a uma expiação final, pavorosa. É excessiva. Se o Sr. Flaubert peca, é por excesso. A expiação não se faz esperar; e é nisso que o livro é eminentemente moral e útil, é que ele não promete à jovem esposa alguns desses belos anos no fim dos quais ela pode dizer: depois disto, não importa morrer”. 

 

Mais se alegou que o autor mostra uma mulher que cai no vício em virtude de um  casamento inadequado e de uma educação desadequada para a condição em que nasceu, que lida a obra a amigos altamente colocados nas letras, que estudaram e examinaram o seu valor literário, nenhum deles se sentiu ofendido, dada a evidência do seu fim moral,  representando dois ou três anos de estudos incessantes para Flaubert, razão pela qual a defesa, por fim, pergunta: 

 

“A leitura de um tal livro provoca o amor pelo vício ou provoca o horror pelo vício? A expiação tão terrível da falta não impede, não incita à virtude?”  

 

Concluindo que ao fazer comparecer o autor em polícia correcional, “já foi cruelmente punido.”  

 

A sentença,  após vários considerandos, decide:  

“Considerando que Gustave Flaubert protesta o seu respeito pelos bons costumes e por tudo o que se relaciona com a moral religiosa; que não parece que o livro tenha sido, como certas obras, escrito com a finalidade única de dar satisfação às paixões sensuais, ao espírito de licença e de deboche, ou de ridicularizar as coisas que devem ser rodeadas pelo respeito de todos;

 

Que ele só errou em perder às vezes de vista as regras que todo o escritor que se respeita não deve nunca violar, e em esquecer que a literatura, como arte, para atingir o bem que lhe compete realizar, não deve ser apenas casta e pura na sua forma e na sua expressão;

 

Nessas circunstâncias, considerando que não ficou suficientemente provado que Pichat, Gustave Flaubert e Pillet se tenham tornado culpados dos delitos que lhe são imputados;  

 

O tribunal absolve-os da acusação pronunciada contra eles e manda-os em liberdade sem custas.”   

 

Para uns, o culto do imoral, do escândalo, o querer chocar, relatando cruelmente o mal, o querer vender para ter dinheiro, com o chamariz do deboche. 

 

Para outros, o fazer um inquérito à sociedade com um fim: criticar para corrigir, emendando-a, tentando a regeneração dos costumes pela arte.

 

Apesar do contexto da época e do vanguardismo do movimento realista, vingou a arte, fazendo e tentando fazer um profundo e subtil inquérito realista a toda a vida em sociedade.  

 

10.04.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício 

CRÓNICA DA CULTURA

Cristiano Ronaldo içou-se do chão de quando era criança; rodou nos invisíveis degraus do esforço d’alma; prendeu-se no ar, e, intacto de natureza, opôs-se ao que no mundo é simulacro. 

 

  

 

De mão no peito o agradecimento minucioso a cada um, a cada vida.

O gesto, o gesto de que o limite é para se ultrapassar.

 

  

 

Ronaldo, o vulto voante de uma magia que poucos merecem, demanda-nos na sua vida o nosso próprio desejo de pulsar pelo céu. Expõe sentires em choros e felicidades de inocência rara.

 

Cristiano Ronaldo o menino empurrado para os dias dos socalcos de todas as solidões.

Ronaldo o homem-menino que hoje segura o seu filho à expansão das manhãs.

 

 

O menino-homem da bola de ouro a erguer ao mundo o sentido do choro.

 


Ronaldo, um fundo de convicção que aponta caminhos, muitos deles entre o ser-eu e o estar-ali irredutível.

O colossal jogador de futebol português, conhece-se e devolve-se a nós, na simplicidade de algo a decifrar, como se não transportasse também um Portugal e suas pedras, em ordenada linguagem aplanada pela força do mérito, do trabalho, do sonho, e da indecifrável magia de pertencer a um lugar que poucos conhecem.

Obrigada

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

'Freut Euch des Lebens!' de George Grosz

 

'How many people live within us?', George Grosz

 

No livro 'Glittering Images' de Camille Paglia lê-se que a catástrofe da Grande Guerra (1914-1918), em nome do progresso, deitou por terra todas as esperanças de uma Europa que pensava ser a civilização mais avançada da história. 

 

George Grosz (1893-1956) estudou na convencional e clássica Escola de Belas Artes em Dresden, mas desde sempre se fascinara com a cultura popular - e até mesmo como estudante contribuía para revistas satíricas. Grosz adorava os desenhos das crianças e em Dresden seguia o trabalho do grupo expressionista (Die Brücke). Por isso, o contacto com o expressionismo, o futurismo e o dadaísmo foram determinantes para Grosz. Como se sabe o expressionismo apresenta como principal característica a distorção do mundo exterior através do sofrimento interior (ansiedade, medo, desespero, repugnância, alienação, desgosto e desordem).

 

Já o Futurismo influenciou Grosz sobretudo com os seus ângulos dinâmicos (ver 'The Funeral: Dedicated to Oskar Panizza', 1917-18).

 

O movimento Dada, começou em Zurich e logo após a Grande Guerra espalhou-se por todo a Europa. Os Dadaístas desejavam refundar a sociedade com novos valores - virando de cabeça para baixo todos os valores conhecidos até então - só assim se poderiam evitar no futuro conflitos tão absurdos e devastadores. Em Berlim, o Dadaísmo tinha uma diferente expressão. O colapso da sociedade e de toda a ordem estabelecida era bem real. Berlim tornou-se assim palco de performances provocativas que vigorosamente lutavam a favor de uma suposta liberdade pessoal. E George Grosz era bem conhecido, no grupo berlinense, pelos seus desenhos incómodos.

 

'Freut Euch des Lebens' (Alegrai-vos na vida) é o melhor retrato da Alemanha, entre guerras, sob o humilhante Tratado de Versalhes. O caos avassalador provocou na sociedade um desassossego e uma instabilidade interminável. A Alemanha era assim palco de imensos contrastes e Grosz através dos seus desenhos limpos e claros desejava capturar essas desigualdades grotescas.

 

'Great art must be discernible to everyone.', George Grosz

 

A indiferença, o abandono e a solidão dominam o cenário urbano de 'Freut Euch des Lebens'. O céu, nem se vê, mas parece que pesa mais do que devia. Os edifícios continuam de pé, porém cheios de rachas. A fadiga endurece o trabalhador. O veterano amputado afunda-se, sem esperança, contra a parede do restaurante. A mulher de costas indica uma espera interminável. O rico capitalista delicia-se, mais do que devia, com a sua refeição e os seus olhos nem se abrem. O crucifixo inclinado e partido indica que a sua mensagem de compaixão foi totalmente esquecida. Enfim, o vazio dominador indica uma sociedade sem valores, uma sociedade oca, sem futuro e em desespero.

 

Ana Ruepp