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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

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A new centrist party, wise birds & a little if, 2018

 

Os episódios assemelham-se a aventura digna da ilustre mente de Mr Sherlock Holmes. Organizadores anónimos de um novel partido centrista no reino, chame-se-lhe o £50m Party, buscam sigilosamente há já um ano um Monsieur Emmanuel Macron britânico para encantar os ilhéus em branda aventura política; a inquirição sobre a misteriosa tentativa de assassinato de um espião duplo em Wiltshire (England) progride com prodigioso milagre e teia de hipóteses na matriz do whodunit; mesmo as

2.jpglinhas telefónicas da LBC quebram nas conversas mais interessantes que voam no éter sobre a autoria do bárbaro ataque químico na cidade de Douma (Syria). Uff! Convenha-se que só o consulting detective de Sir Arthur Conan Doyle estará à altura de descodificar o puzzle deste mundo perigoso. — Chérie! Pierre qui roule n'amasse pas mousse. A guerra de palavras entre US e a Russia atinge grau ameaçador no UN Security Council. — Umm. We never know in these days. Após uma cirurgia aos 96 anos, o Duke of Edinburgh regressa a um Buckingham Palace atarefado com o casamento de Harry of Wales com Meghan Markle. Her Maj brilha na ITV. Em Ankara, Mr Recep Tayyip Erdogan adota o uniforme militar. Na Korean Peninsula é a pop-diplomacy, com o President Kim Jong Un a assistir a concerto do South em Pyongyang. Beijing impõe tarifas aduaneiras a importações americanas na ongoing trade war e Moscow retalia The West expulsando 150 diplomatas de 28 países. Mr Viktor Orbán triunfa em Hungary com terceira maioria eleitoral. Agudiza-se o diferendo legal entre Brussels e Warsaw.

 

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Light rain withint breezy weather at Central London. Com o Parliament in recess, eis doce pausa na série dos hectic days que pautam um ondulado Winter em St James. O tempo livre estimula o apetite cultural. É o guarda chuva para passeios em volta que afinal triunfa, em persistente peregrinação a Trafalgar Square para observar as coloridas gentes e o detalhe do Assyrian God que ali escolta a estátua de Lord Nelson depois do original ser reduzido a pó pelo Isis em Nineveh. Os palcos desajudam a ementa variada, quando os tambores de guerra rufam na paisagem global. O laureado Hamilton continua inacessível, agora com sete Olivier Awards alinhados na apinhada bilheteira do Victoria Palace. Os Macbeth encenados na pós Brexit Britain não atraem nas colunas dos dear critics cá de casa. No National do South Bank há espectáculo de “horror of violence,” segundo Mrs Ann Treneman; no Royal Shakespeare Theatre, aquém do privilégio de subir a Stratford-upon-Avon, o Times informa que só ali se vislumbra uma personagem entre fantasmas: Ms Niam Cusak, sereia na pele de uma Mrs M “urging her man to get a move on with the business of murder!” Admirável e a rever, sim, é o bem humorado garden tour de Sir David Attenborough na ITV ‒ “The Queen’s Green Planet.” Aos 91 anos, wise old birds, ambos são esplêndidas criaturas desta ever green Land. Pormenor floral é existir planta named in honour de Her Majesty: a fresca e exótica floribunda rose.

 

A saga do Brexit prossegue a pleno vapor, somando-se os sinais de give in nos setores relutantes. Game over! Or simply time for temporary truces? A Prime Minister viaja aos países nórdicos, com os eventos na Syriana a obscurecerem a agenda diplomática do No. 10. Não de todo, porém. A ala eurocética adverte em surdina que Downing Street negoceia acesso às águas territoriais junto das EU fishing nations, como “bargaining chip” no acordo comercial entre as duas uniões. Em Denmark e Sweden, deixa RH Theresa May uma mensagem clara mas para Damascus &co: “the [President Bashar al-Assad's] regime and its backers, including Russia, must be held to account.” Alinha-se com Washington e Paris. No reino, líquidos à parte, recorda-se a traumática aventura iraquiana em debate aceso sobre a legitimidade ocidental para hastear a bandeira dos direitos humanos. Se os meios militares preparam a próxima guerra no Middle East à distância do “little if” quanto aos resultados da UN na inquirição em Douma, a conversa na cidade circula ainda em torno de vaga de knife & gun night crime a par de curiosa notícia na honorável Press. Procura-se um neo Tony Blair a la mode Macron nas nações do UK e para tal sigilosa “network of entrepreneurs, philanthropists and donors” disponibiliza £50millions. A iniciativa indicia algo em Westminster: que os moderados estão para além do ponto de resistência no Corbyn Labour Party, tal qual os Tories eurófilos descrêm de útil aliança com os Liberal Democrats nas 2022 Elections. So, probably, a move for the birds!

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E… boas vindas à Delt∆Poll, a mais recente empresa britânica chegada ao mercado das sondagens. A estreia no local intelligence mining ocorre no Observer deste Sunday em torno de tema quente: a extensão com que o antisemitismo é percecionado ter penetrado nas fileiras do Labour Party. Whoop-de-doo. O objeto estatístico merece o título na versão autêntica de tão nuancé este é construído: “we investigated the extent to which anti-Semitism is perceived to have permeated Labour Party ranks.” Resulta que um em cada cinco trabalhistas admite a existência do problema e um em cada três está indeciso quanto à questão judaica que este weekend leva a novo e audível protesto, desta vez às portas do quartel general do RH Jeremy Corbyn. O dado a fixar a atenção na pesquisa não são percentis, antes o seu preâmbulo. “But let’s start with the polling truism that can never be mentioned enough: no matter how high-profile an issue might be in Westminster and in the media, no matter how profound the implications of it might be, sizable chunks of the British public will dutifully carry on largely unaware of it or not care about it,” anunciam os mineiros. Anda aqui agenda em indústria que vive maré baixa. A equipa da ∆ é experiente: Joe Twyman, ex YouGov’s head of political research, Martin Boon, vindo da ICM e Paul Flatters, outrora head of Political News research na BBC e sabido mareante de várias forecasting agencies. O trio é crítico do mundo que constrói: “Here’s a chance for pollsters to grasp the holy grail of accurately predicting seats from polling data allied to sophisticated modelling, and the race is on to perfect it.” Feliz peregrinação à Delt∆, pois, que do furor anti hebreu estamos avisados. — Umm. Well detect Master Will in Sonnet 149 that humanity has its dark sides: — “Who hateth thee that I do call my friend? (...) But, love, hate on, for now I know thy mind: Those that can see thou lov'st, and I am blind."

 

 

St James, 10th April 2018

Very sincerely yours,

V.

 

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 9 a 15 de abril de 2018.

 

«De Lisboa a La Lys» de Filipe Ribeiro de Menezes (D. Quixote, 2018), a assinalar os cem anos da Batalha de La Lys (9 de abril de 1918), trata do tema “o Corpo Expedicionário Português (CEP) na Primeira Guerra Mundial”, procurando esclarecer um dos mais perturbadores enigmas da história militar portuguesa.  

 

 

PORTUGAL E A GUERRA DE 14-18
Quando lemos os diferentes relatos e interpretações sobre o desastre de La Lys, ocorrido há exatamente um século, somos obrigados a tirar conclusões equilibradas que integrem as diferentes perspetivas ligadas à participação portuguesa no teatro europeu da guerra de 1914-18 – recusando as visões unilaterais. Antes do mais, esclareça-se que o tema obriga a considerar a intervenção portuguesa na guerra num sentido mais amplo, já que a defesa das fonteiras dos territórios de Angola e Moçambique, vizinhos respetivamente das zonas de domínio alemão, o Sudoeste Africano (Namíbia) e o Tanganica, correspondeu a um envolvimento desde o início das hostilidades Lembrem-se o combate e a derrota de Naulila no sul de Angola, em dezembro de 1914, bem como os episódios de Quionga no norte de Moçambique e a difícil defesa da fronteira, desde outubro de 1914. As tropas portuguesas em África sofreram fortes perdas em vidas humanas devido sobretudo às doenças e foram alvo da desgastante da guerrilha local, alimentada pelos alemães, que procuravam evitar a todo o custo que as tropas deslocadas em África viessem reforçar a Frente Ocidental europeia. Foram razões de política interna que influenciaram a posição portuguesa na guerra europeia. Apesar da cautelosa posição dos ingleses relativamente a uma participação efetiva de tropas portuguesas no teatro de guerra – havendo preferência por outras formas de apoio – o certo é que houve um entendimento no sentido do envio de tropas para a frente europeia. Não se esqueça, porém, que Portugal estava fortemente condicionado em termos financeiros, uma vez que não podia recorrer diretamente ao crédito internacional para pagamento da guerra – em virtude de vigorarem as condições drasticamente penalizadoras do Convénio dos credores externos de 1902. Nesse sentido, o crédito necessário viria a ser conseguido através de uma sub-rogação do governo britânico. Aos ingleses interessava-lhes a aliança portuguesa, mas com a maior eficácia possível – sendo conhecida a fragilidade do nosso exército em formação e meios. Para os britânicos, haveria que ter oficiais preparados e sobretudo abertos a integrar-se no seu próprio aparelho militar. Contudo, depois do acordo sobre a participação portuguesa, tudo se revelaria muito lento e os oficiais portugueses resistiam a uma integração na cadeia de comando britânica. Havia, nas Forças Armadas, a má memória das guerras peninsulares nas quais tinha havido uma clara subalternização dos comandos portugueses. Então ocorre um paradoxo – quando a operacionalidade militar começa a funcionar (ao longo de 1917) e a articulação de comandos tem resultados positivos (com raides portugueses eficazes na frente alemã) começa a crescer o descontentamento no seio do CEP, com a opinião pública portuguesa a opor-se cada vez mais à participação na guerra. E ocorre o golpe de Estado de Sidónio Pais, contrário à presença portuguesa.

 

O PORQUÊ DE UMA DECISÃO
Não se compreende o resultado de La Lys sem as diversas condicionantes políticas – o Partido Democrático quis reforçar a sua legitimidade ligando-se aos ingleses e aos aliados, mas a opinião pública estava cansada de mortos e de um grande desgaste moral e psicológico. E assim entramos no que viria ser o último ano de guerra. As tropas estão muito desgastadas, uma vez que não se faz o normal “roulement”, não sendo substituídos os efetivos e compensadas as baixas desde outubro (até devido à situação política interna). Ainda por cima vai-lhes caber a defesa das duas primeiras linhas na zona que lhes tinha sido atribuída, normalmente as mais sacrificadas em caso de ofensiva. Ora, os alemães, nesse dia de abril, vão atacar de modo arrasador, aproveitando a noite e o nevoeiro, e usando uma barragem rápida de artilharia que corta as comunicações. O general Gomes da Costa não consegue comunicar com as suas unidades. O CEP é assim paralisado e os alemães dominam o terreno, abrindo brechas e penetrando nas trincheiras. Diz o capitão Francisco José Barros em “Portugueses na Grande Guerra”: “O avanço do inimigo havia-nos transposto em todos os sentidos num formigueiro incomensurável”. Os “boches” cercam as zonas onde estão tropas portuguesas, que não compreendem o que está a passar-se – e daí a onda de pânico. Ao contrário das análises simplistas, o pavor e a retirada devem-se à estratégia usada pela frente de ataque alemã. Assim, os portugueses foram carne para canhão, já que estavam nas primeiras linhas, mas fragilizados. Sem reforços, a situação tornou-se perigosa e insustentável. As baixas portuguesas sofridas nessas poucas horas representam a maioria das perdas do CEP na Frente Ocidental (num total de cerca de 2 mil mortos). É verdade que o “milagre de Tancos” não conseguira preparar adequadamente as forças, mas quando já havia experiência e resultados positivos faltou o apoio da retaguarda. A participação portuguesa por razões políticas contrastou com a luta de sobrevivência de ingleses e franceses.

 

QUEM ABRIU A BRECHA DECISIVA?
O conhecimento histórico das circunstâncias leva a que não possamos pôr em causa a valentia dos portugueses ou o seu brio. Daí o cuidado que o historiador português teve na leitura das fontes inglesas, imbuídas de um preconceito negativo em relação à atitude das nossas tropas O caso do historiador J. E. Edwards é significativo, segue as teses britânicas, mas não considera as narrativas contraditórias, que merecem leitura cuidada de Filipe Ribeiro de Menezes. No episódio de La Lys o cerco às primeiras linhas portuguesas tornou-se inexorável nas suas consequências – e a falta de comunicações foi decisiva. Os soldados cansados e aturdidos (apanhados no momento em que esperavam regressar a casa) consideraram-se abandonados e traídos e isso explica a derrocada. Não se esqueça os focos de revolta no seio do CEP que se faziam sentir há algum tempo. E não foi só a frente portuguesa que cedeu, a 40ª Divisão inglesa também foi obrigada a recuar, com muitas baixas e capturas. No nosso caso, o general Gomes da Costa confessa ao general Haking que não tem possibilidade de segurar os seus homens na defesa dos rios Lawe e Lys. E este é um dos pontos que leva à crítica dos ingleses relativamente à posição dos nossos soldados. No debate sobre quem cedeu primeiro nos flancos, nem Haking nem Gomes da Costa têm a razão toda. Tudo foi muito confuso. Na linha entre a 2ª Divisão portuguesa e a 40ª Divisão britânica é difícil saber quem cedeu primeiro, enquanto no resto foi o CEP a fraquejar, num recuo desorganizado, mas talvez não tão caótico como os ingleses sugeriram, até pelo número de prisioneiros capturados. A verdade é que se o recuo da 40ª Divisão manteve a coesão, o movimento do CEP não a conseguiu manter, ignorando até a ordem para participar na defesa dos rios… Numa análise cuidada, o autor conclui que a participação portuguesa na Frente Ocidental foi influenciada pelas condições políticas da jovem República. La Lys foi assim um corolário da decisão de levar o CEP para a frente europeia. Houve, porém, excesso de voluntarismo e um cálculo errado sobre a melhor forma de participar ao lado dos aliados. E tudo se agravou quando no país prevaleceu a lógica não intervencionista do Presidente Sidónio Pais. Mas também aqui não deve haver simplificações, sendo certo que La Lys foi o canto do cisne do CEP e o fim de diversas ilusões… Mas é difícil saber o que teria acontecido se La Lys tivesse ocorrido ainda na vigência do governo da União Sagrada. Sobreviveria? O certo é que houve uma confluência de fortes fatores negativos que geraram o desastre… E há muitas lições a tirar, até porque a guerra e as suas consequências marcariam a história portuguesa por várias décadas.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta a falar-te de imperadores, e a prometer-te falarmos de Putin (não do político tanto quanto do mítico), já te dizia que o Imperador Celeste é paradoxal, ente divino subjugado, homem também, como os outros, movido pelas suas paixões, ambições e fraquezas... No decurso deste divertido passeio por imperiais galerias de retratos, vamos deparando com essa curiosa condição do poderoso cuja teatral grandeza se vai reduzindo a mesquinhas ridicularias... Tal seria, todavia, risível apenas num palco de diversões; infelizmente tem muito menos graça e pode até ser maldição no seu contexto real, aí onde gera sofrimento e injustiça.

 

   Mas deixa-me ser lúdico agora e, antes de voltar a Vladimir Putin, servir-te, como aperitivo, episódios ilustres da pequenez do "grande" Napoleão Bonaparte. E não só. Recorro a Henri Guillemin, no seu Napoléon Tel Quel (Éditions de Trévise, Paris, 1969), uma biografia iconoclasta. Traduzo:

 

   Esses pobres Bourbons, coitaditos, iam para a província, a uma catedral subalterna, para serem ungidos por um arcebispo qualquer. Para «Napoleão», o eclesiástico de serviço não será um arcebispo, mas Sua Santidade o próprio papa. E «Nabou» ultrapassa mesmo Carlos Magno, a quem se refere por cima de séculos: Carlos Magno, na sua pequenez, tinha ido ter com o papa; para o "caïd" corso, será o papa que, chamado pelo apito, se deslocará. E desloca-se mesmo. E diz, em Notre-Dame: «Deus todo poderoso e eterno, Vós que haveis derramado a santa unção sobre as cabeças de Saúl e de David, derramai por minhas mãos o tesouro das Vossas graças e das Vossas bênçãos sobre o Vosso servo Napoleão que hoje sagramos Imperador em Vosso nome». E Napoleão, a retorquir: «Juro fazer respeitar as leis da Concordata, a igualdade de direitos, a liberdade cívica e política, e a irrevocabilidade da venda dos bens nacionais». Algo inesperada, esta alusão mercantil na boca do Ungido do Senhor, mas tranquilizadora e necessária à sua clientela de base, os abastados do Thermidor e os camponeses. Sua Santidade pelava-se por que lhe fossem devolvidas, pelo menos em parte, as províncias que o Ungido do Senhor lhe tinha roubado para as anexar ao seu reino de Itália. Mas o Ungido mandará que lhe respondam, rindo baixinho, que, «protetor de um Estado estrangeiro», ele não se reconhecia «o direito de lhe diminuir o território». E todavia nascera, na roda do papa, uma ideia considerada sedutora: a canonização de um tal Pedro Boaventura Bonaparte, que haveria maneira de fazer passar por antepassado do imperador. E, como dizia a Chancelaria romana, «uma canonização é sempre, da parte de Roma, um favor; não poderia ser melhor atribuída do que aqui». Vende-se o que se pode. Desapontamento. Por muito "sacro" que fosse, o imperador permanecerá insensível a esse projeto de promoção celeste na sua família. Pelo menos, decide-se em Roma que a 15 de agosto, doravante, o nascimento de Napoleão eclipsará a «gloriosa Assunção da Santíssima Virgem». O núncio achará a fórmula adequada, decretando que, «de pela autoridade apostólica, a festa da Assunção da Santíssima Virgem e a de São Napoleão [claro que se trata só de festas!] ficarão perpetuamente unidas». Perpetuamente! Em Roma não se poupa tempo, posto que se dispõe da eternidade. Mas não deu resultado. Não houve a mais pequena restituição territorial. O "caid" é um duro em negócios...

 

   Alguns aforismos do próprio imperador nos ajudarão a entender o seu elegante pensamento: Para governar é preciso ser militar: só se governa bem com botas e esporas!...   ... Não se trata de ser amado: importa ser-se temido!...   ... A França? Durmo com ela, e ela dá-me o seu sangue e os seus tesouros! Mas, para deixar Napoleão em passado histórico, volto ao seu aproveitamento da religião-igreja tradicional - para iluminar um olhar sobre Putin -, recorrendo ainda a Henri Michelin:

 

   Tem maçadas com o papa que pretendeu excomunga-lo depois da ocupação de Roma por tropas francesas; mas não desiste de o acalmar: quereria tê-lo em Paris, ali à mão, e tornar esse Bonzo-em-chefe, simultaneamente, capelão da Corte e uma espécie de arquichanceler para assuntos eclesiásticos. O «catecismo imperial» continua em vigor; o núncio Caprara declarou-o «conforme à doutrina católica», e todas as crianças de França devem saber de cor os artigos essenciais que eis aqui:

 

   «D. - Quais são os vossos deveres para com Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Nós devemos a Napoleão I, nosso imperador, amor, respeito, obediência, serviço militar e os impostos determinados para a conservação e a defesa do Império e do trono.

   D. - Mas não há motivos especiais que devem vincular-nos mais estreitamente a Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Há, sim, porque ele é aquele que Deus suscitou em circunstâncias difíceis para restabelecer a santa religião dos nossos pais e a proteger. E, pela sagração que recebeu do Santo Pontífice, tornou-se no Ungido do Senhor. Cumulando o nosso imperador com os seus dons, na paz como na guerra, Deus tornou-o ministro do seu poder e sua imagem na terra.

   D. - Que se deve pensar daqueles que faltariam aos seus deveres para com Napoleão I, nosso imperador?

   R. - Segundo o apóstolo São Paulo, aqueles que resistissem à ordem estabelecida por Deus tornar-se-iam passíveis de condenação eterna»...

 

   [Antes do esclarecedor cotejo do acima transcrito com factos relativos ao "tzar" Putin, abaixo relatados, deixa-me só, Princesa de mim, recordar-te este trecho de um bilhete do Cardeal Cerejeira ao Professor Salazar, datado de 13 de novembro de 1945: ... Nesta hora de tantas preocupações, desgostos e talvez dúvidas para ti, envio-te este trecho de uma carta da irmã Lúcia, a vidente de Fátima, que acabo de receber...  ... Escuso de dizer que isto que ela diz não o diz dela mesma, mas por indicação divina (segundo ela deixa entender)...   ... De uma carta de Lúcia, datada de Tui, 7-11-1945:

 

   «... o Salazar é a pessoa por Ele (Deus) escolhida para continuar a governar a nossa Pátria, a ele é que será concedida a luz e graça para conduzir o nosso povo pelos caminhos da paz e da prosperidade.»

 

   E já em carta a Oliveira Salazar, de 26 de maio de 1945, o Patriarca de Lisboa o declarava ungido por Deus.]

 

   Respondendo a jornalistas, pouco depois de conhecer os resultados avassaladores da sua reeleição presidencial, Vladimir Putin, finalmente, lá concordou com ser possível que refletisse e propusesse emendas da Constituição, no sentido de lhe possibilitar mais mandatos para além de só dois seguidos, como hoje estipulado. Até brincou com a ideia de ainda ser presidente aos cem anos... Ao que parece, tal será possível, aceitável e aclamável - para e pelo povo russo -, se Putin lhes surgir como uma incarnação da ortodoxia da Santa Rússia. Curiosamente, o episódio da inauguração da igreja do mosteiro Sretenski - que fui buscar a um artigo de Anaïs Llobet em Le Monde Diplomatique - passou-se ali ao lado da Lubianka, casa - traduzo do jornal francês - do Ministério do Interior soviético, símbolo da grande repressão dos anos 1930, sendo agora a igreja dedicada à «memória dos mártires da perseguição anti religiosa». A decisão de a consagrar no ano do centenário das revoluções de fevereiro e outubro de 1917 constitui um «símbolo importante», sublinhou o Sr. Putin, tomando a palavra no fim da cerimónia. «Sabemos até que ponto a paz civil é frágil. Nunca deveremos esquecer quão difícil é sarar as feridas nascidas de divisões. Eis a nossa responsabilidade comum: fazer todos os possíveis para preservar a unidade da nação russa!» Recorda-te aqui, Princesa de mim, de que os bolcheviques perseguiram violentamente a religião e os crentes ortodoxos russos, não só por razões ideológicas e em virtude da sua praxis política, mas também pela fortíssima ligação do clero à autocracia tzarista. Mas, como nos conta Anaïs Llobet, face à invasão das tropas alemãs, Joseph Stalin reabilita a Igreja para apoiar a mobilização geral, na longa tradição das guerras «sagradas» conduzidas pela Rússia contra as invasões bárbaras. «Irmãos e irmãs: um perigo mortal ameaça a nossa pátria!» lança ele a 3 de julho de 1941, numa mensagem que ficou célebre. O reconhecimento do clero em 1943 faz-se todavia sob apertada vigilância da polícia política e do Conselho para os assuntos da Igreja ortodoxa russa. Tolerada para assegurar discretamente o exercício do culto, a Igreja viu ser-lhe interdita qualquer intervenção na vida pública. Mais tarde, o desmoronamento da URSS levou um número crescente de cidadãos a voltar-se para Deus: só um terço dos russos se declaravam ortodoxos em 1991; eram já 74% em 2012...

 

   ... Nos seus dois primeiros mandatos de presidente (2000-2008), o Sr. Putin apresentava-se como um bom gestor sem ideologia. Tempera então as ambições da Igreja, recusando-lhe a criação dum imposto para financiar o culto e também um canal da televisão federal. Mas quando primeiro ministro, com o seu "faz tudo" Medvedev a presidente (em razão da tal impossibilidade constitucional de mais de dois mandatos seguidos), vai suavizando e progredindo na aproximação à Igreja, sobretudo depois da morte do patriarca Alexis II e da eleição do sucessor Cirilo, que lhe acena com o modelo de governação do imperador bizantino do século VI, Justiniano, a «sinfonia dos poderes», preconizando a cooperação e apoio mútuos do espiritual e do temporal. Para este, que é o político, o movimento é bem vindo. Como Llobet bem entende, no seu regresso à presidência, em março de 2012, Putin, contestado, decide mobilizar a população, já não em volta da sua pessoa, mas em volta de uma prioridade largamente aceite: a defesa dos valores russos tradicionais contra um Ocidente que, segundo Moscovo, procura cercar militarmente a Rússia e deitar abaixo os regimes que não corresponderem às suas permissivas disposições nem aos seus interesses geopolíticos. «Sem os padrões morais formados durante séculos, as gentes perderão inevitavelmente a sua dignidade humana», afirmará o presidente em 2013 e insistirá um ano depois: Para que a sociedade exista, convém sustentar o respeito das nossas tradições e das grandes religiões. E a jornalista lembra que o padre Smirnov, pope ortodoxo, se congratula com essa ofensiva presidencial: Como é que um Russo, um ortodoxo, pode aceitar o casamento homossexual? Não! A Rússia e a Igreja não podem aceitá-lo, tampouco o nosso presidente.

 

   E este teu antigo amigo Camilo-bota-de-elástico, Princesa, lembra-se agora do espetáculo de apresentação dos novos e poderosíssimos mísseis intercontinentais russos, por Vladimir Putin, em véspera de eleição: estou convencido de que qualquer especialista ocidental em tais questões bélico-estratégicas terá complacentemente sorrido. A recuperação do atraso económico e social soviético, iniciada com a glasnost e a perestroika, também aumentou a distância entre o poderio e o potencial militar russo e o americano. Este, "by the way", continua a ser o mais assustador do mundo. Mas o "show" putiniano não era para estrangeiro ver (ainda que possa ter influenciado alguns): era, e foi, para consumo interno. E pagou. Também não sei, não posso ter qualquer certeza, de que o assassínio de espiões no Reino Unido tivesse sido mesmo obra russa. Fosse ou não, disso estou seguro, pairará sempre, no Ocidente (curiosa designação que nos mantém em guerra fria), o fantasma e o receio. Talvez Jeremy Corbyn tenha razão em dizer que seria melhor aguardar por cabal esclarecimento dos factos. Que, presumo, nunca se verificará. Mas a espera traria o esquecimento: assim, na Rússia ninguém se sentiria atacado por mentiras ocidentais e talvez nós nos sentíssemos mais confortáveis com a ideia de que, afinal, não lhes fizemos mal algum, nem têm, portanto, mais razão de queixa. Claro que Theresa May, "à la Poutine", quis capitalizar votos para as eleições de maio próximo... Chacun governa-se...

 

   E na complicadíssima Europa que por aí se anda a elucubrar, ou fabricar, não sei bem, tenho reparado nas bandeiras históricas que reaparecem nos países de leste, algumas, até, de breves e extintas monarquias nacionais. Estar-se-á a levantar outra cortina de ferro? Para tua-nossa meditação, Princesa de mim, traduzo, do Courrier International, este trecho do sociólogo polaco Stawomir Sierakowski, publicado no Project Syndicate, de Praga: Em quinze países da Europa da Leste, os partidos populistas estão atualmente no poder em sete, pertencem à coligação governamental em dois, e representam a principal oposição em três. E se, em 2000, os partidos populistas apenas tinham conquistado 20% de votos em dois países de Leste, hoje já os conseguiram em dez. Sobre tudo isso, Princesa, e mais ainda sobre a China, te falarei em próxima carta.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

SOUSA BASTOS, DRAMATURGO E HISTORIADOR DE TEATROS

 

Fazemos aqui referência ao recente livro “Sousa Bastos”, assim mesmo intitulado, da autoria de Paula Gomes Magalhães, na série de Biografias do Teatro Português ligadas ao Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa, à Imprensa Nacional-Casa da Moeda e também aos Teatros de Dona Maria II e São João: e desde já se refira o interesse desta parceria na edição e na série de biografias críticas.

 

Recorde-se que a coleção publicou já estudos e biografias sobre a Companhia Rey-Colaço Robles Monteiro, Alfredo Cortez, António Pedro, Emília das Neves, agora Sousa Bastos (ed. 2018) e anuncia próximos volumes dedicados a João Anastácio Rosa e Francisco Palha. Um conjunto notável de personalidades de teatro-espetáculo que interessa efetivamente recordar e estudar.

 

Como escrevem no texto introdutório Maria João Brilhante e Ana Isabel Vasconcelos, responsáveis pela coordenação científica da série de estudos, “podemos agora aprofundar a contribuição de atores e atrizes, de cenógrafos, dramaturgos, empresários, companhias, críticos, pedagogos, diretores, encenadores... para a construção de um sistema teatral cujo impacto na sociedade portuguesa merece ser conhecido”. E na verdade, a parceria editorial e a seleção de dramaturgos, atores e encenadores biografados e anunciados constitui um valioso e em tantos aspetos inovador contributo para a História do Teatro Português.

 

Precisamente: a vasta e variada intervenção de Sousa Bastos (1844-1911) na atividade de criação dramatúrgica, empresarial, cénica e artística, e também na tantas vezes inovadora pesquisa histórica, constitui um caso singular mesmo tendo em conta a relevância que na época o teatro – espetáculo assumia em Portugal.

 

Nesse aspeto, o livro de Paula Gomes Magalhães abrange a variadíssima intervenção de Sousa Bastos na multidisciplinaridade, permita-se a expressão, que compõe a atividade criativa e analítica no teatro em si e no meio teatral e de espetáculo.  Mas também, note-se, da sua obra de escritor, historiador, critico e dramaturgo.

 

E dá relevância, ainda, à intervenção de Sousa Bastos no Brasil, onde se fixou, de 1881 a meados de 1884 e definais de 1885 a 1888, dirigindo sucessivos espetáculos sobretudo no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo e em sucessivas tournées que se prolongariam ainda por anos, mesmo depois do retorno a Portugal.

 

Importa frisar que Sousa Bastos, para alem de dramaturgo/tradutor/adaptador de numerosíssimas peças sobretudo da época, portanto na altura modernas e renovadoras, foi também de certo modo o que hoje chamaríamos um historiador – doutrinador da literatura e da estética do espetáculo teatral.

 

Mas mais: a sua obra teórica concilia uma visão histórica e uma abordagem moderna no plano da doutrina e na prática teatral. Nesse aspeto, aqui temos referido com alguma frequência os livros que em vida publicou, designadamente a vasta “Carteira do Artista” (1989) com mais de 800 paginas e o “Diccionario de Theatro Português” (1908) que temos citado sobretudo na descrição que faz nada menos do que 213 teatros em Portugal, Brasil e África, desde teatros já “históricos” na época mas também bastantes então modernos e alguns e ainda hoje, em atividade.

 

E em 1947 foi publicada uma recolha de textos de Sousa Bastos intitulada “Recordações de Teatro”, prefaciado por Eduardo Schwalbach, “poucos dias antes de morrer”, diz-nos Paula Gomes de Magalhães, que destaca as “informações preciosas sobre a vida e obra de inúmeras figuras ligadas ao meio teatral, polvilhadas como sempre, com pequenas histórias, fait-divers, anedotas e  considerações pessoais, que permitem mergulhar a fundo nas singularidades de um tempo em que o teatro, enquanto estrela de todos os divertimentos, era vivido de modo bem particular”. (ob. cit. pag.124).

 

Terminamos com uma apreciação de Luis Francisco Rebello. No verbete dedicado a Sousa Bastos em “100 Anos de Teatro Português” Rebello considera Sousa Bastos como “uma das personalidades mais ativas e influentes da vida teatral portuguesa no último quartel do século XIX”.

 

Em próximo artigo, veremos os teatros referidos por Sousa Bastos no seu livro “Carteira do Artista”.

 

DUARTE IVO CRUZ 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXVI - REALISMO (I)

 

O realismo é uma tendência artística que procura reproduzir, de forma real e direta, as manifestações da natureza, buscando a realidade autêntica, tal e qual é e se apresenta, despido de artifícios e correções, em contraposição a tendências idealistas e estilizadoras.   

 

Pela sua influência, merece menção o realismo francês do século XIX, num tempo de convulsões político-sociais, marcado pelas teorias de Proudhon, positivismo de Comte, o evolucionismo de Darwin e Lamarck, o idealismo de Hegel, em conjugação com o irreligiosismo de Loisy e Renan, o inconformismo com a tradição, a supremacia da verdade física, um materialismo otimista e um racionalismo criticista apologista da derrocada do trono e do altar.

 

Sendo uma reação contra o romantismo, defende reger-se pela objetividade, realidade e verdade, em que a natureza deve ser reproduzida com neutralidade e veracidade, num retrato fiel, não ocultando o feio, o mal, o vício, todos os aspetos baixos da vida, não lançando mão de estereótipos arredados do mundo real, em oposição ao subjetivismo pensante do idealismo, imaginação e sentimentalismo romântico.

 

Contra a apoteose do sentimento do romantismo, pretende transmitir a natureza em quadros exatos, flagrantes, reais, expurgando a retórica tida por convencional, enfática e piegas, retratando e pintando a realidade negra, maléfica e satanista da sociedade tal qual é, limitando-se a colocar o leitor e o observador diante das paisagens, dos protagonistas e suas condutas.

 

Entre os seus pioneiros, a nível da literatura, temos Balzac, Gustave Flaubert e Zola, cujos romances se liam avidamente, influenciando decisivamente, entre nós, Eça de Queirós, nas suas obras O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias e a Relíquia. Não esquecendo Baudelaire em Les Fleurs du Mal.

 

Estas novas ideias entraram em Portugal pelo caminho de ferro, que encurtou a distância entre Coimbra e Paris, deixando o comboio inúmeros caixotes de livros na Lusa Atenas, onde chegavam mais rápido que a Lisboa, opondo a mocidade estudantil e universitária ao grupo da capital, onde era mentor Castilho e os seus discípulos, cujo conflito ficou conhecido pelo nome de “Questão Coimbrã”, a que se seguiriam, mais tarde, em Lisboa, “As Conferências do Casino”. A Terceira Conferência, subordinada ao tema “O Realismo como nova expressão da arte”, foi feita por Eça de Queirós, defendendo que a arte deve ter por fim corrigir e ensinar (fim teleológico), censurando a arte pela arte, e que só o realismo criaria uma arte capaz de revolucionar a sociedade.

 

Após estes impulsos, o movimento realista começou a concretizar-se com “As Farpas”, uma crónica mensal das letras, costumes e política, num duunvirato Eça-Ramalho Ortigão, em estilo humorístico e trocista. 

 

Seria Eça a impor-se, entre nós, o que ainda hoje sucede, com os seus propósitos de crítica social, ironia, caricatura, sarcasmos, tom zombeteiro e cosmopolitismo, em que O Primo Basílio e Os Maias são tidos como os seus romances realistas mais conseguidos.   

 

A atenção aos temas de carater social, ao mundo laboral e à realidade humana marcaram artistas como Courbet, dedicado à pintura de género e figurativa, de observação exata e um expressivo forte realismo através da densidade das figuras, causando escândalos com Os Britadores de Pedra (1850), o Enterro em Ornans (1850) e A Origem do Mundo (1866). Amigo de Proudhon, lutou por ideias revolucionárias, aderiu à Comuna de Paris (1871), o que lhe valeu a prisão.

 

Também na pintura realista de Millet perpassa o desejo de captar os traços essenciais de cenas ou personagens, sem perdas nos pormenores, analisando o mundo camponês em  O Joeireiro (1848), As Respigadoras (1857) e O Angelus (1859), onde realça figuras monumentais com grande rigor plástico.

 

Assiste-se também a uma espécie de fuga do mundo urbano e ao compromisso político que lhe estava associado, por parte de um grupo de artistas que se reúnem em Barbizon, na floresta de Fontainebleau, em França, cujo representante mais ilustre dessa escola  foi Théodore Rousseau, o primeiro a deixar a cidade e a fixar-se no campo, seguido por J. F. Millet, Troyon, Daubigny, Diaz la Pena, entre outros, teorizando uma pintura de paisagem ao ar livre, de ar-livrismo, procurando o contacto com a natureza, analisando e observando as suas manifestações e os seus segredos.

 

Com eles nasceu uma nova sensibilidade norteada por uma procura ou estética naturalista, tida como afim do realismo, que teve forte impacto em Portugal. 

 

03.04.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

Se és fogo, como passas tão brando?

 

El oficio de Cupido, Los Siete Pecados Capitales, Las Siete Virtudes, Los amores de los dioses Cinco sentidos numa sumptuosa edição da TASCHEN, editora alemã cuja minucia da edição perfeita sempre nos surpreende e surpreenderá.

 

A recompilação das 143 magníficas gravuras dos princípios do séc. XVII que ilustram o amor em suas alegorias, os provérbios que envolvem a carga erótica latente, a mitologia, as breves frases de amor ardente que elucidam a cor da criatividade dos desenhos e o seu significado, encontram-se neste livro de rara e extraordinária qualidade e beleza.

 

Permite-nos esta obra viver e entender um mundo da era do Barroco, e, bem usa as figuras de linguagem para reforçar a tentativa de apreender a realidade por meio dos sentidos.

 

Nomeadamente despertam-nos pedaços soltos do poder do sentir

 

N’acusons point l’Amour mais notre ame indiscrete 

Ou 

Because I Have fettered myself

Perch’io stesso mi strinsi

 

Let us not accuse Cupid, but our own imprudent soul

 

A arte Barroca foi impactante, expressou as ideias e os sentimentos do artista do século XVII. Gerou encantamento e apelo visual e soube combinar realidades para expressar uma nova conceção de mundo.

 

O homem culto conhece o espanto que nos provoca a Editora TASCHEN, neste brio de publicação que não descuida a brilhante escolha de Carsten-Peter Warncke, autor nascido em Hamburg em 1947 e que estudou história de arte, arqueologia clássica e literatura, tendo-se doutorado em Hamburgo em 1975 e na Universidade de Gottingen e ser atualmente catedrático de história de arte; autor, aliás conhecido também pelos seus estudos sobre Pablo Picasso.

 

E porque o que farei na vida do meu pensar terá sempre um relacionar firme e fixo ao que pretendo exprimir, aqui recordo, terra e fogo, ar e agua na intersecção com a peça que sem estabilidade ou suporte que não a da alquimia do dizer, vi na Bastilha com Laure Mathis (Doreen Keir) e David Geselson (André Gorz), na peça “Doreen” em março de 2017.

 

 

Confessa um homem, à sua muito amada mulher, todo o seu imenso amor, em jeito de desculpa.

 

Não se fende a pedra filosofal, mas a sua invisível fratura consolidou-se na matéria-prima do coração e leva-o mesmo à corajosa decisão de ser.

 

Assim se rompeu a simetria e assim se volveu amor como ser-que-conhece o instante em que se perde e se reencontra, e, só depois se pode em rigor dizer que se conhece a distância e se compreende o ar que o separou respirando-o, respirando o amor que parecia consumido, mas que do longe nos vem, nos torna e tudo ousa. E assim o disse quase em segredo este homem à sua mulher de sempre. Esculpidos numa chama, ela no ouvir, ele no dizer, fez-se assim sentir a cor do carmim.

 

E baixinho, mas sólido, deste livro nos chega para que adormeçamos em paz

 

I have been fishing all night; I must dry my little net

 

E na gravura de oiro as mãos dele secam-lhe o corpo em certezas absolutas, certeiras e incansáveis, e os dois, no tal amor grande como o sono, afinal como o sono quando é gentil.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A necessária contemplação da arte.

 

No livro 'Glittering Images. A Journey Through Art From Egypt to Star Wars.' Camille Paglia escreve que a arte é a constante relação entre o ideal e o real. 

 

'Modern life is a sea of images. Culture in the developed world is now largely defined by all-pervasive mass media and slavishly monitored personal electronic devices. The exhilarating expansion of instant global communication has liberated a host of individual voices but paradoxically threatened to overwhelm individuality itself.', Camille Paglia

 

O homem atual vive num mar de imagens e Paglia anseia por uma reaprendizagem, por uma nova maneira de ver - só assim se poderá adquirir uma base estável, uma identidade sólida e uma direção de vida. 

 

Paglia acredita que através da contemplação da arte o homem poderá ser resgatado do fluxo torrencial de imagens cintilantes, sedutoras, viciantes e ilusórias. A contemplação da arte requer uma perceção firme e estável e reclama a presença de todos os sentidos do ser humano reedificando-os.

 

A arte é uma relação trina entre a mão, a razão e o espírito. A arte tem a capacidade de relacionar o homem com o mundo dos desejos materiais, o homem com a natureza e com todo o universo e o homem com a dimensão espiritual que transcende a vida.

 

'Art uses and speaks to the senses.', C. Paglia

 

A arte é física e tangível mas também é a fronteira delicada entre o visível e o invisível. Porém, segundo Paglia, para que a arte não corra o perigo de se marginalizar, tem de tentar manter um diálogo aberto, contínuo e persistente com aquele que a contempla - de modo a promover o encontro com o sentido da vida e não a sua subversão. Isto porque a arte tem essa ativa capacidade de conter um vasto sistema de símbolos que contêm verdades profundas acerca da existência humana.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

#RAF100, and The Immaculate Leader, 2018

 

Happy Birthday for the Royal Air Force. É o #RAF100. Há um século atrás surpreendiam as gloriosas máquinas voadoras, na meada da centúria eram os prodigiosos “The Few” a maravilhar, hoje é o repto tecnológico que avulta na observação, mapeamento e defesa dos céus do reino. Her Majesty Elizabeth II saúda o seu “shining example of inspiration.” — Mon chérie!

Il faut rendre à César ce qui est à César. Semana negra para o Labour Party devido às alegações de anti semitismo. RH Jeremy Corbyn elimina a sua conta no Facebook, após divulgação pública da associação com grupos cuja oposição à existência do estado de Israel usa confundir-se com um neo revisionismo em torno do Holocaust. Na linha do against-Zionism but pro-Jew, domina já o culto do Immaculate Leader. — Umm. Coming events cast their shadows before. O Duke of Edinburgh é hospitalizado em Central London, aos 96 anos, para uma cirurgia. A saga do envenenamento do espião duplo em Salisbury prossegue com nova retaliação russa face à expulsão massiva dos seus diplomatas em 26 democracias e ainda notícias contraditórias acerca da origem do novichok nerve agent. Os 2018 Commonwealth Games abrem a 4th April em Queensland (Australia), sob o mote Share The Dream e com Jerusalem como hino. O President Emmanuel Macron enfrenta uma vaga grevista que ameaça paralisar France. Fonte bem informada confirma movimentações legais na Other Union para proibir futuros euroreferendos nos estados membros.

Mild, pleasant and wet weather at Central London, with blooming flowers in the garden. Tempo nublado, porém, no seio da HM Most Loyal Opposition  A gestão do dossiê judaico no topo do Labour Party desnuda ligações perigosas a círculos ideológicos cuja oposição radical a Telaviv equipara com a defesa acrítica do líder, numa tendência de culto da personalidade por parte dos Corbynists que não pode senão espantar quantos sabem a história do trabalhismo britânico. Desta feita, RH Jezza enfurece os Brit Jews com presença em festa pascal promovida pelo Jewdas. A folha dos dadores partidários volta a encolher. Com a adversidade rival e também com refrescada popularidade da Prime Minister RH Theresa May, os Tories ganham novo fôlego em plena contagem decrescente para as eleições locais de 3 May 2018. Mas é o centenário da RAF quem por cá colhe a atenção das gentes, na abertura de uma série de eventos a estender-se até ao Summer e que algures nos elevará o olhar para o indigo do firmamento. As celebrações abrem com o Founders' Day Service numa Church of St Clement Danes (Strand, Lon) recheada de veteranos e ainda com a deposição nos degraus do Royal Courts of Justice do “100-day baton” que vai circular pelas casas dos aviadores em todas as nações do reino unido.

 

A Royal Air Force nasce oficialmente em 1 April 1918, da fusão do Royal Flying Corps com o Royal Naval Air Service, visando e conseguindo acelerar o fim da I World War. O triunfo regressa em nova guerra mundial e perdura incólume nos atuais 19 palcos de operações intercontinentais. Se, em 1940, durante indefinida Battle of Britain, Mr Winston Churchill imortaliza os flying fighters com a sua famosa frase "never in the field of human conflict was so much owed by so many to so few," hoje é Elizabeth R quem envolve a RAF em afetuoso abraço. A mensagem real fixa o reconhecimento dos comuns: "The anniversary of the world’s first independent Air Force is of great significance, and it is fitting to pay tribute to the tenacity, skill and sacrifice of the men and women who have served within its ranks over the last century, and who have defended our freedom so gallantly.  / Through its enduring focus on professionalism, excellence and innovation, the Royal Air Force stands as a shining example of inspiration around the World today and for the next generations. / May the glory and honour that all ranks have bestowed on the Royal Air Force light its pathway to the future, guarding our skies and reaching for the stars."

 

Nota final muito cá de casa. Adoro os meus amigos Liberal Democrats, tal qual quantos não são mais adeptos do clube dos Good Oldies William Gladstone, H. H. Asquith ou David Lloyd George. Por isso é difícil constatar o suave desespero com que encaram o Brexiting. É todo um padrão cívico. One more year to go, and they remain broken hearted. Jantar após jantar, conversa após conversa e igual desconsolo face à preferência insular do eleitorado em 23 June 2016. Para todos parece ser algo similar a uma funesta tragédia familiar.

Há mesmo um toque epidémico neste desconforto. A programar a Brexit free zone, cuido da diversidade à volta da mesa, apuro a ementa e aperfeiçoo a colheita vinícola nos regular meetings. Vãmente. A amena cavaqueira nalgum momento ruma para a ora mítica data de 29 March 2019. Sobrevém a sabida argumentação e o pensamento mágico de mudança da maré. Acresce o desconcerto pelo desaparecimento da razoabilidade na cena política. Admiro o idealismo dos meus amigos Lib Dems. — Well. Keep in heart that golden manner of Master Will in Timon of Athens when sketch the kind Greek gentleman before the axis of reality: — “To set a gloss on faint deeds, hollow welcomes, / Recanting goodness, sorry ere 'tis shown; / But where there is true friendship, there needs none."

 

St James, 2nd April 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 2 a 8 de abril de 2018.

 

«Correspondências» (2016), o filme de Rita Azevedo Gomes, parte de uma amizade e de uma fecunda relação epistolar entre Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco de Sousa Tavares e Jorge de Sena.

 

 

DIFERENTES E COMPLEMENTARES
A cineasta usou o título no plural para deixar claro que ia além da relação assente apenas num conjunto de cartas. É uma relação complexa que está em causa. Correspondências significa encontros, pontos de contacto, identificações. Daí que o registo epistolar se misture com os poemas, os testemunhos e as missivas. Se há um diálogo, há igualmente um confronto e uma complementaridade. Como são diferentes Sophia e Jorge, mas como faz sentido a continuidade da sua presença. Usando as palavras de Maria Andresen de Sousa Tavares na Nota Prévia à Correspondência propriamente dita: «a sua dimensão poética e romanesca resultará (…) do convívio com a intimidade de um pensamento que se apresenta como se desenrolado “ao correr da pena”, ou com um modo singular de uma conversa que se crê a dois, pouco precavida (…) no seu modo de ser confidencial ou lugar de manifestação de sentimentos vitais, de natureza amorosa ou da natureza dessa raridade maior, a Amizade, talvez o mais alto e mais misterioso sentimento humano». No filme, em coerência com o que a autora tem apresentado como marca própria em obras anteriores, deparamo-nos com um percurso de vários registos, em que é, no fundo, a dimensão poética e romanesca a ser procurada, em que as múltiplas vozes procuram dar-nos com fidelidade a expressão viva do que foram Sophia e de Jorge de Sena, figuras maiores de uma geração de exceção, com modos próprios de se afirmar e de resistir. Como é forte o testemunho de Sophia, ao lado de Francisco, a dizer não ser compreensível que o regime tivesse investido na polícia e em prisões, em lugar da aposta na educação e nas escolas…

 

BELAS IMAGENS, REGISTOS DIFERENTES
Vemos belas imagens em registos diferentes, numa cadência que nos permite ir ouvindo em várias línguas, mas sobretudo na original expressão dos próprios, o diálogo cruzado e as cartas trocadas entre Sophia e Jorge de Sena entre 1959 e 1978. O diálogo é a ilustração do contraponto entre a casa e a ideia mesma de hospitalidade, representadas pela autora do Livro Sexto – e a viagem, a distância e o exílio, permanentes e incertos, simbolizados pelo poeta de Fidelidade… Sophia viaja e regressa a casa. Sena é um andarilho impenitente. Mas é sempre a ideia de Amizade, de procura e de encontro que estão bem presentes – como se o “trobar” dos velhos trovadores medievais reencontrasse a ambiguidade etimológica da poesia, da procura e do encontro. Com grande limpidez vamos registando diversos sinais. Sophia vai recebendo mensagens e cartas, perguntas e incertezas. E a PIDE vai fazendo das suas, apreendendo cartas e vigiando tudo. Amiúde Sophia exprime o sentimento de ausência, a falta que faz não haver os almoços antigos na casa da Travessa das Mónicas. É muito mais do que aquilo que sentem “a Luiza e a Sofiazinha”…. É recorrente a referência ao vazio deixado por Jorge. Do que se trata, obviamente, é de um tempo dividido… “Caminho nos caminhos onde o tempo / Como um monstro a si próprio se devora”…E ouvimos Sophia a dizer-nos “Marinheiro Sem Mar”: “E ao Norte e ao Sul / E ao Leste e ao Poente / Os quatro cavalos do vento / Exatos e transparentes / O esquecerão // Porque ele se perdeu do que era eterno / E separou o seu corpo da unidade / E se entregou ao tempo dividido / Das ruas sem piedade”… Mas Jorge de Sena, com a sua voz forte e bem timbrada, exprime-se, num registo bem diferente do de sua interlocutora, sobre um tema que ambos muito bem conhecem: “Em Creta com o Minotauro, / sem versos e sem vida, / sem pátrias e sem espírito, / sem nada, nem ninguém, / que não o dedo sujo, / hei de tomar em paz o meu café”. A encruzilhada de percursos é, de facto, fascinante. Fascinante mas difícil, serena e agitada como a vida: “Será que a vida é a luta das imagens que não morrem?”. Dir-se-ia que aqui está a chave da obra de Rita Azevedo Gomes. De facto, a sucessão de imagens, de registos, de palavras, de pessoas tem o significado de exprimir os sentimentos vitais que subjazem à Amizade aqui retratada… Mas não é uma amizade feita de placidez, mas de combate incessante. “Eu começo a sentir-me incapaz de fazer tudo o que quero fazer. Ser ao mesmo tempo poeta, mulher do D. Quixote e mãe de cinco filhos é uma tripla tarefa bastante esgotante” (10.6.63). Sena pergunta: “Diz-me o Francisco, na carta: ‘Alguma vez aí nos encontraremos todos?’ Eu creio que sim; e creio que chamados a várias responsabilidades por aqueles que nos acusarão dos seus próprios fracassos” (1.3.63)…

 

«TENHO VIVIDO UM VERÃO MARAVILHOSO»…
As belas imagens obtidas nos rochedos da Praia de Dona Ana são a melhor ilustração da paixão mediterrânica de Sophia. Afinal, a Grécia da sua poesia começa no Algarve, como tantos estudiosos da obra têm dito com justeza. As imagens do filme são fidelíssimas relativamente ao que sabemos das impressões das cartas e dos poemas: “Aqui em Lagos tenho vivido um Verão maravilhoso nesta luz mais que limpa, neste calor leve e doirado, nesta água verde e transparente e nas grutas invisíveis que são o mais espantoso barroco, roxas e doiradas por dentro. Em Agosto quando o mar estava liso como um chão e completamente transparente eu alugava uma chata e ia de gruta em gruta e nadava na gruta do leão e na ‘sala’ e na ‘porta do sol’ e na ‘Balança’, rodeada pelos pequenos e guiada por um extraordinário barqueiro, um pescador chamado José Vicente, que mergulhava para trazer do fundo ouriços, pedras e búzios e que nos ensinava o nome dos peixes e nos contava as mais fabulosas histórias de pesca. (…) Acho este povo algarvio maravilhoso de honestidade e dignidade e muito mais evoluído e consciente do que o povo do Norte” (22.9.1961). João César Monteiro ilustrou magnificamente tudo isto e com as suas imagens revemos Sophia a nadar de gruta em gruta e a usufruir do mais espantoso barroco dessa costa de configuração mágica. É preciso dizer que este belo filme é um ato de generosa compreensão da Amizade, da natureza e da humanidade. Quando, por exemplo, ouvimos e vemos Alberto Vaz da Silva encontramos uma presença saudosa, singular e única – e lembramo-nos da ausência de João Bénard da Costa. Para os filhos de Sophia eles eram o Tempo e o Modo, espécie de siameses inesquecíveis no mundo dos melhores cultores da poesia da mãe. Alberto conhecia bem a obra de Sophia, falava dela com ternura e saber – e a última grande viagem que fez foi à Grécia (com o Centro Nacional de Cultura, ao qual Sophia deu muito de si) seguindo os passos e a obra poética que tanto admirava. E recordava o poema profético de Geografia: “O sol rente ao mar te acordará no intenso azul / Subirás devagar como os ressuscitados / Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial / Emergirás confirmada e reunida / Espantada e jovem como as estátuas arcaicas / Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto”.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

FELIZ PÁSCOA!

"A Ceia em Emaús" por Caravaggio, 1601. Atualmente na National Gallery, em Londres.  

 

   Muitas vezes me perguntam porque faço sempre votos de Feliz Páscoa e nunca digo Santa Páscoa. Pela simples razão de desejar a todos e cada um a feliz viagem a partir da porta que Jesus abriu para que, passando por ela, caminhemos à descoberta da boa nova que Cristo assim anuncia na narrativa de S. Lucas lida na missa crismal de 5ª feira santa: Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, ao abri-lo, encontrou o trecho em que estava escrito «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois, enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Disse-lhes então: «Cumpriu-se hoje mesmo este trecho da Escritura que acabais de ouvir».
 
   O caminho da Páscoa é a libertação. E toda a liberdade implica uma conversão interior, porque quem deixou de ser servo, jamais agirá por ser mandado, mas terá de agir por amor.
 
   No tríduo pascal, entre a celebração do drama da Paixão e a festa da Ressurreição, há um dia mais silencioso do que litúrgico, em que nos retiramos para uma comunhão da humanidade inteira com a morte e a vida, talvez o momento em que mais sentimos esse rasgão que é a condição humana na sua própria consciência de si. Aspiramos a saber tudo e nada afinal sabemos, estamos às escuras, e mesmo a fé só vê o invisível. No sábado santo, também os familiares e discípulos de Jesus, e todos aqueles que o seguiam e aguardavam, se sentem profundamente desamparados. Como quem empreendeu uma longa viagem e chega à beira de um rio torrencial, fundo e largo, sem ponte nem barca. Todos eles se lembram certamente do Cristo crucificado que grita: «Meu Deus, Deus meu, porque me abandonaste?». Chegam-nos então ao coração todos os que sofrem, mais do que tentação, uma experiência do mal, uma vertigem de negação, desespero, incompreensão.
 
   Tenho aqui comigo um exemplar velhinho (de 1950) da Attente de Dieu, pequena colectânea de cartas e outros textos de Simone Weil, que o padre J.-M. Perrin reuniu em 1949. Simone, judia francesa de educação agnóstica, morreu em 23 de Agosto de 1943, aos 34 anos, no sanatório de Ashford, sem ter sido baptizada, ainda que prosseguindo o seu caminho de busca da fé. Diz o padre Perrin, seu confidente e correspondente, que, através dos textos precedendo a sua morte nota-se que ela estaria ainda, em muitos pontos, longe da fé católica na sua plenitude, e que sentia perfeitamente que só a morte a transportaria a essa verdade de que se sabia ainda afastada. Traduzo seguidamente um texto de Simone Weil, que pertence a uma meditação sobre a oração ao Pai Nosso. O trecho respigado é um comentário aos versículos finais (e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal) daquela prece. Para melhor entendimento da inspiração de Simone transcrevo aqui a versão francesa desse passo, que ela traduziu diretamente do grego: Et nous ne jette pas dans l´épreuve, mais protège nous du mal. Termino com a tradução do comentário da filósofa judia francesa, que aqui deixo com votos muito amigos de santa e feliz viagem de Páscoa!
 
   A única provação do homem é ser abandonado a si mesmo ao contacto do mal. O nada do homem é então experimentalmente verificado. Apesar da alma ter recebido o pão sobrenatural no momento em que o pediu, a sua alegria mistura-se com receio, porque apenas para o presente o pôde pedir. O porvir permanece temível. Ela não tem o direito de pedir pão para amanhã, mas exprime o seu receio em forma de súplica. Assim acaba. A palavra "Pai" começou a oração, a palavra "mal" termina-a. É necessário ir da confiança ao receio. Só a confiança traz a força necessária a que o receio não seja causa de queda. Depois de ter contemplado o nome, o reino e a vontade de Deus [recitemos o Pai Nosso], depois de ter recebido o pão sobrenatural e ter sido purificada do mal, a alma está pronta para a verdadeira humildade que coroa todas as virtudes. A humildade consiste em saber que, neste mundo, a alma toda, e não somente o que chamamos eu, a alma na sua totalidade, i. e., também na parte sobrenatural da alma que é Deus presente nela, está sujeita ao tempo e às vicissitudes da mudança. É preciso aceitar absolutamente a possibilidade de que seja destruído tudo o que em nós mesmos é natural. Mas é simultaneamente necessário aceitar e rejeitar a possibilidade de que desapareça a parte sobrenatural da alma. Aceitá-lo como acontecimento que só em conformidade com a vontade de Deus se produziria. Rejeitá-lo como sendo algo horrível. É preciso ter medo disso. Mas que o medo seja como que o acabamento da confiança.
 
   Gosto, eu, de dizer que o percurso da Páscoa é um caminho de confiança.
 
 
   Camilo Martins de Oliveira
  

 

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