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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

LONDON LETTERS

 

A Very British Royal Wedding, and a pot of ale, 2018

 

O casamento do Prince Harry of Wales e Meghan Markle revive o ornamentalismo monárquico em Windsor e atualiza o Cinderella Tale nos nossos dias, uma variante moderna da antiquíssima estória helénica de Rhodopis, que nos é legada pelo grego Strabo, na Geographica, pelo romano Aelian, na Miscellaneous, e ainda pelo ilustre Herodotus, nas Histories, envolvendo umas desde então famosíssimas… sandálias egípcias. — Chérie! Dieu ― lui aussi ― le veut.


A tecnologia globaliza os eventos, mas as old rules da comunicação resistem. Nada como um belo dia, solar, com as atenções focadas no Royal Wedding, para sepultar bad news. Entre o vozear para a reforma da House of Lords, após as derrotas governamentais em torno da Brexit Law, a Prime Minister Theresa May designa 9 novos pares do reino. HM Government dá também discreta luz verde à compra da Sky pela Comcast, um ajuste de €21b que envolve a Sky News e a Fox News. — Hmm. God bless the Dukes of Sussex. Nos demais public affairs reina igual sentido da ocasião. A Scotland First Minister RH Nicola Sturgeon prepara um novo referendo sobre a independência. A Brexit é o tema de uma conferência, em Lisboa, pelo European Union Chief Negotiator Monsieur Michel Barnier. Washington rivaliza no éter. Com alguma fumarada sobre o Korean deal, a White House promete a mãe de todas as sanções económicas contra o Iran caso os imans retomem o programa nuclear.


Another bright day
at London. O sunny weekend é dominado pelo matrimónio dos arejados Dukes of Sussex. Que dizer da cerimónia de Saturday, na pequena St George’s Chapel do Castle of Windsor, por muitos no reino e à volta do globo visionada e comentada? A celebração foi linda, foi intimista e foi inclusiva – exceto para os políticos, muito poucos, de dentro ou fora do reino. Apesar da proximidade constitucional do noivo à Head of State, apenas lá deteto o ex PM John Major, a Chaplain da House of Commons RR Rose Hudson-Wilkin e o incontornável neto de Sir Winston Churchill, MP de Mid-Sussex e royalist dos quatro costados RH Nicholas Soames. O cerne da House of Windsor assiste em peso e em diversas gerações, Lá estão a Queen e o Prince Philip mais a mãe da noiva Ms Doria Ragland. O jovem casal aparece belíssimo, com toque de romântica candura. Tudo impecável, sincronizado, comme il faut. Até a data de 19th May é tão bem escolhida que alinha com a espantosa realidade dos 0% de probabilidades de chuveniscar medidos no Royal Borough de Berkshire (England) – e coincide ainda com o aniversariar pessoal. Harry & Meghan é uma união familiar altamente improvável, mas é também uma true love story.


O sorriso dos céus e da Royal House é claro e claríssimos são os votos de a long and happy life para o first royal mix-race wedding irradiados em Windsor. But, but, but… Para o Prince começa uma segunda etapa na carreira pública, após abdicar da profissão militar em frescos anos, agora direcionada para a diplomacia na Commonwealth e com a mulher que ama a seu lado; já para Her Royal Highness The Duchess é toda uma outra vida, plena de exigências políticas e recato social, distante do trabalho de atriz em séries norte americanas entrecortada pelo blogar de opiniões e adesões ao sabor das circunstâncias. O desafio começa com um statment em letra agigantada no royal website: “Proud to be a woman and a feminist.” Confesso temer que o fantasma da Princess Diana ande ainda pelo Kensington Palace, the couple's official residence. Aliás, se o título comum de Royal Kardashians se ouve em volta, tributo ao espectáculo dos rich and famous lifestyles, intranquila é mesmo a história do título real do Dukedom of Sussex of the United Kingdom of Great Britain and Ireland, criado em 1801 para o infante Augustus Frederick pelo King George III (Yes, that one! The also Duke and Prince Elector of Hanover that lost America), extinto desde 1843 e agora recriado por HM Elizabeth II para o filho mais novo do futuro rei seu filho.

Dramática, colorida e por etapas é a infindável novela do anti semitismo no seio do Labour Party do honorável Jeremy Corbyn. O antigo Mayor of London Ken Livingstone demite-se das fileiras partidárias, após 50 anos de trabalhismo e quase um triénio de acesa polémica. A decisão é hoje revelada pelo próprio e justificada com a vontade de não criar mais dificuldades ao Corbynism, Red Ken declara que a anterior suspensão por causa dos “comments about Hitler, is a distraction." Antecipa uma eventual expulsão por via do inquérito interno às suas famigeradas teses sobre as políticas hebraicas do Nazism e revisionismos afins. Inicialmente datadas de 2016, mas amiúde repetidas entre a vitimação e o so sorry for that, nestas avulta o argumento do Kanzler Adolph ser um defensor do estado sionista: "He was supporting Zionism before he went mad and ended up killing six million Jews." A declaração, note-se, provém de um hard-leftist que continuamente protagoniza a contestação política a Israel. Mr Livingstone abandona agora a organização de Citizen Clem Attlee afirmando-se inocente: "I do not accept the allegation that I have brought the Labour Party into disrepute - nor that I am in any way guilty of anti-Semitism.”

A saída de cena deste líder trabalhista será apenas momentânea, se bem entendemos a personagem. Aliás, em matéria de ilustres has been, vêm aí de novo The Obamas. O casal Barack e Michelle O. acaba de selar um contrato com a Netflix, ora de valor desconhecido, para um pacote de filmes, documentários e seriados acerca da sua vida antes, durante e após a passagem pela White House. Elemento interessante é o antigo President e First Lady dos United States of America participarem na produção dos scripts. O casal igualmente tem fechado o acordo para a publicação em livro das memórias políticas, com um cheque de $65 million escrito à cabeça pela Penguin Random House, Meanwhile, algures entre os programas de Mr David Letterman e o comentário corrente sobre os public affairs, a dupla vai tornando-se uma presença habitual nos écrans televisivos dalém oceano, — Well. Please, not so fast. Remember that drink line of Master Will in Henry V, when the King is preparing the attack against the French at Agincourt: — “Would I were in an alehouse in London! I would give all my fame for a pot of ale, and safety.”

 

St James, 21st May 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 21 a 27 de maio de 2018

 

«Pós-Pop – Fora do Lugar Comum», mostra a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, representa, com significativa originalidade, uma visão abrangente da Arte Pop crítica, em Portugal e em Inglaterra, nos anos 1965 e 1975.

 

A REFERÊNCIA DE LONDRES
Partimos da experiência de criadores portugueses que foram ao encontro dos meios artísticos britânicos, num tempo em que, fundamentalmente graças às bolsas apoiadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, há uma salutar abertura de horizontes num sentido da inovação. Do que se trata é de cultivar uma divergência bem-humorada em relação ao lugar-comum proposto pela Arte Pop. Numa palavra, trata-se da crítica da crítica. Joga-se com a linguagem popular para desconstruir uma imagem que não sendo uniforme dá lugar a leituras contraditórias – longe de um paradigma. A obra de Teresa Magalhães, em finais dos anos sessenta, praticamente inédita até hoje, usa uma imaginação que nos desvia do previsível, no tocante à linguagem gráfica e artística. Mas se esta é bastante livre e fora de uma disciplina visível, a obra de Ruy Leitão é mais sistemática e ditada pela exigência académica, caldeada pela imaginação crítica, que lhe concede uma inconfundível originalidade. Aluno dileto de Patrick Caulfield, Ruy Leitão, filho de Menez, falecido prematuramente aos 27 anos, demarca-se claramente da perspetiva mais comum da Pop-Art. Há uma preocupação interventiva – em que a crítica surge como denúncia daquilo que na revista “O Tempo e o Modo”, de António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, se designou como “desordem estabelecida”. Perante a expressão propositadamente paradoxal identificadora de um regime que não reconhecia as liberdades, haveria que tornar outra desordem manifestação da consciência crítica. Afinal, dir-se-ia ser necessária uma certa “desordem desestabelecida”. É verdade, como afirmou Eduardo Batarda, que as artes plásticas não eram tão diretamente atacadas pela censura como o pensamento e a escrita, no entanto havia que fazer a denúncia crítica de um tempo dominado por uma certa claustrofobia. E os artistas portugueses que saem e vão até Inglaterra reagem relativamente a uma certa situação anacrónica que se vive em Portugal. E é esse encontro que nos revela nesta Exposição artistas ingleses como: Bernard Cohen, Tom Philips, Jeremy Moon e Allen Jones. Dos portugueses, temos, além de Teresa Magalhães e Ruy Leitão, Eduardo Batarda, Menez, Nikias Skapinakis, Sérgio Pombo, Fátima Vaz (surpreendente revelação…), João Cutileiro e José de Guimarães.

 

O CASO DE CLARA MENÉRES
Mas permitam o destaque especial para Clara Menéres (1943-2018), há pouco falecida, quando a exposição já estava aberta. A sua obra “Jaz Morto e Arrefece o Menino de Sua Mãe”, uma escultura em gesso realizada em 1973 de um soldado morto, constitui um alerta sobre o tempo de incertezas, de segredo e de censura vivido quando foi realizado. É um ícone que não pode passar despercebido em toda a exposição. Surpreende, é certo. Mas só surpreende, de facto, quem perdeu a memória desses anos e do que eles representaram para a juventude de então. Clara Menéres não tinha 25 anos e a imagem torna-se um verdadeiro manifesto. Se há o livro de Spínola “Portugal e o Futuro” a pedir uma solução política para a guerra, com as consequências conhecidas, esta obra constitui uma marca indiscutível de uma denúncia necessária, inesquecível. Do mesmo modo o “Relicário” iconoclasta serve de símbolo propositadamente chocante sobre a lembrança da existência de censura – numa sociedade vigiada. E a apresentação desta obra, tal como está feita, representa uma inteligente solução para demonstrar que o proibido e a censura constituem sempre riscos em qualquer momento histórico. Dir-se-ia que esta obra nos transporta ao profundo choque causado por Eça de Queiroz com a sua “Relíquia”. A presença de Clara Menéres singulariza-se pela sua originalidade e por um percurso de uma paradoxal coerência – e de uma exigente atitude de denúncia. Como afirmou José Tolentino Mendonça: “A arte escandalosa de Clara Menéres insistia num diálogo em contracorrente com a história, procurando intervir mais sobre o espaço vivo das convicções e dos desejos do que em encontrar para si um lugar entre a monumentária oficial” (…) Diz Adília Lopes: ‘O iconoclasta / reconstrói o ícone’. Acho que exatamente isso que acontece (…) Clara Menéres não era nem um espírito conformista, nem uma personalidade cómoda e isso são coisas que lhe temos de agradecer” (Expresso, 19.5.2018).

 

UM PERCURSO MUITO RICO
Continuando a percorrer a magnífica exposição, encontramos em “caixas negras” estrategicamente colocadas a lembrança dos tempos que passam quando os artistas criam as peças apresentadas: E devemos ainda lembrar outros nomes: António Palolo, John Furnival, Manuel Baptista, Joaquim Bravo, Ana Vieira, Lourdes de Castro, René Bértholo, Ana Hatherly, Hein Semke, Cruz-Filipe, António Sena, Fernando Calhau, Sá Nogueira ou José Rodrigues… A exposição merece uma atenção especial e ficará na memória do público como uma riquíssima reflexão sobre um diálogo cosmopolita que tem Portugal em fundo. Se nos lembramos de Nikias Skapinakis em “Delacroix no 25 de Abril em Atenas” reportamo-nos a uma invocação sentida e inteligente do nosso Maio de 1968 – que foi a “revolução dos cravos” e que iniciou uma nova vaga das democracias. Na Gulbenkian estão duzentas e quinze obras, das quais vinte inéditas. Como Teresa Magalhães afirma, a propósito de uma obra emblemática sobre a viagem num Mini até Torremolinos, aquilo era a realidade. Não foi inventado. É o quotidiano, usado como motivo para combater o tédio. Aquela viagem significou ir para fora, ver outro lado das coisas. Eis a verdadeira metáfora que está subjacente a esta exposição – era preciso ver o outro lado das coisas, era isso que significava superar o que era vulgar, mesmo que, para desconstruir, fosse necessário partir do que os outros faziam… A curadoria de Ana Vasconcelos e Patrícia Rosas é de uma grande competência técnica, artística, e histórica. Pegando num tema que exigia criatividade e imaginação, capacidade de relacionamento e elevado sento crítico – é-nos apresentada uma mostra que nos leva até aos anos sessenta e setenta, numa perspetiva de conjunto, compreendendo a complexidade social e histórica, e lembrando os cinquenta anos do Maio de 1968, para além do lugar comum…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A filosofia, etimologicamente significando amor ou amizade da sabedoria ou, se quiseres, a persistência na busca do entendimento, vai tendo, ao longo dos percursos humanos na cultura do espírito, duas faces unas e distintas: por um lado, a sabedoria é o conhecimento, por outro será o juízo prudente. Assim, é savoir e é sagesse, mesmo em português poderemos falar em sabedoria e sageza, esta palavra tendo há muito sido autorizada pelo cronista medievo Fernão Lopes. Como conhecimento, o que inquirimos e aprendemos é sempre filosofia, mas esta finalmente se constrói refletindo sobre aquela aquisição. Aí, já se vai tornando juízo, cuja prudência avalia, sistematiza e nos dispõe. E a partir daí lá se vai formando, pela cultura do espírito, algo que intimamente sempre nos acompanha, e a que muitas vezes também chamamos filosofia: a nossa weltanschaung ou visão do mundo, o nosso modo de olhar os seres e as suas relações.

 

   Os iluminados europeus do século XVII/XVIII, os filósofos das Luzes, descobriram o pensamento em modo chinês pelos relatos que lhes iam chegando da missão jesuíta em Pequim, e assim se tornou Confúcio um deles, penso eu, Princesa, que por sobretudo se tratar de uma reflexão moral à margem dos ditames de qualquer igreja ou religião. Ainda hoje, por aí, se fala de Confúcio como sage. Curiosamente, como muito bem entendeu Anne Cheng no seu Les tribulations de la "philosophie chinoise" en Chine, (in La pensée en Chine aujourd´hui, Folio Essais, Gallimard, Paris, 2007), o novo género de «histórias da filosofia» que proliferam na Alemanha e em França na orla do século XIX tende, pelo contrário, a delimitar o território da filosofia como propriamente europeu, rejeitando para um lá fora não filosófico tudo o que não releve da herança grega e cristã, em nome de uma nova definição da filosofia caracterizada como ciência e não já como reflexão moral.

 

   Antes de retomar uma extensa e esclarecedora citação da filha de François Cheng (do qual já muito te falei noutras cartas), deixa-me, Princesa de mim, recordar-te passos das minhas memórias do Japão, que há muito tempo já também te referi. A autorreclusão do Império do Sol Nascente, durante os 250 anos do shogunato Tokugawa termina oficialmente em 1867, sob a pressão americana do comodoro Perry, e afirma-se pela restauração do poder imperial efetivo conhecida pela designação do próprio imperador: Meiji. A partir daí, o Japão torna-se no pioneiro da modernização ocidentalizada do Extremo Oriente, muito voluntarista, procurando importar tudo o que de melhor se produzia na Europa e nos EUA, desde o direito à organização política, administrativa, e militar, do armamento aos caminhos de ferro e equipamentos públicos, da filosofia a todas as formas da atividade científica, literária e artística, incluindo, é claro, o ensino universitário. Naturalmente, a primeira tradução do conceito filosofia em caracteres chineses surge em japonês: tetsu gaku, que posso traduzir, literalmente, por estudo (gaku) da sabedoria. Deve-se a um intelectual importante da era Meiji, Nishi Amane, introdutor do positivismo de Comte na escola japonesa, que pela primeira vez o usa em 1874. De acordo com Anne Cheng, só 23 anos mais tarde, a palavra será usada na China, escrita com os mesmos kanji, ou caracteres sínicos, mas pronunciando-se zhexue, num relatório sobre o Japão publicado em 1897 por Huang Zungxian, em que se decreve a organização da universidade imperial de Tokyo, fundada em 1877, no espírito Meiji, e composta de três grandes faculdades: direito, física e literatura, desta dependendo um departamento de «filosofia». Volto então àquela citação de Anne Cheng:

 

   É à ideia hegeliana de que «não há filosofia chinesa» (entretanto ainda vivaz no "establishment" filosófico europeu, designadamente em França) que a modernidade chinesa procurou responder. Entre as Guerras do Ópio dos anos 1860 e a Revolução Cultural dos anos 1960, decorreu um século pautado por acontecimentos mais ou menos traumatizantes : 1895 (grande derrota das tropas imperiais face ao Japão); 1898 (os «Cem Dias», em que se tentou a primeira reforma das instituições imperiais, que resultou em lamentável fiasco); 1911 (descalabro definitivo da dinastia manchu e, com ela, do regime imperial que durara dois milénios, seguida da instauração da República em 1912); 1919 (movimento iconoclasta de 4 de Maio); 1949 (instauração da República Popular da China, após mais de uma década de conflitos armados: guerra de resistência à ocupação japonesa, guerra civil entre nacionalistas e comunistas). Nas nossas referências a esse «século das revoluções», que também poderíamos chamar século das tentativas de modernidade, devemos ter presente um feixe de fatores que vão desde a influência das ideias ocidentais aos esforços de mobilização de recursos tradicionais, à mutação do letrado tradicional em intelectual moderno, à instalação de novas estruturas educacionais, tais como universidades de modelo ocidental, sem esquecer o papel da mediação japonesa. Seremos pois levados a insistir no papel complexo desempenhado, durante este período, pelo Japão, simultaneamente modelo e repulsa para a China, percebido quer como potência colonizadora a exemplo do Ocidente, quer como aliado contra este.

 

   As raízes chinesas (e, aliás, sino-coreanas) da escrita, do budismo e de muitos aspetos da cultura e tecnologia nipónicas, além da própria configuração política da instituição imperial japonesa foram abordadas no meu Fomos em Busca do Japão (VERBO/BABEL, Lisboa, 2016) e outros escritos, designadamente publicados no blogue do CNC. Em finais do século XIX, e tempos seguintes, verificam-se movimentos de influência em sentido inverso, ainda que penalizados pela amargura e ofensa impostas pela agressão nipónica à China, o Império do Meio, (de que até Le Lotus Bleu, aventura do Tintin, traça um retrato arguto e sentido) e a colonização da Coreia pelo Japão, na primeira metade do século XX. Três povos com muitas parecenças e algumas afinidades e pertencentes a três famílias linguísticas distintas, ainda que todos três se sirvam todavia, total, quase ou parcialmente (o coreano apenas para nomes, visto dispor de escrita própria desde o século XVI, o japonês acrescentando dois silabários fonéticos derivados) de caracteres chineses. Quanto à expressão tetsu gaku, criada no Japão com caracteres sínicos e, nestes sendo depois incorporada na língua chinesa, deixa-me acrescentar outra curiosidade: foi na universidade de Tokyo que se começou a ensinar «filosofia chinesa» e, pela primeira vez, em 1900, se depara com o título Shina Tetsugaku Shi, utilizado pelo professor Endo Ryukichi. Traduz-se por Nova Filosofia da China, mas a surpresa está na substituição de Chuoku (País do Meio), na leitura japonesa dos dois carateres chineses, pela fonética Shina, em dois caracteres silábicos nipónicos. Afinal, talvez lhes parecesse que, com a modernização Meiji, o "centro" do mundo passasse mais para leste, onde nasce o sol... para o Império do Sol Nascente... Nihon ou Nippon significando a raíz, a origem do sol.

 

   Porque a filosofia é cultura - quiçá a cultura do espírito por excelência - ela só pode exercer-se em circunstância e na história. Assim, passa de interrogação a busca, de procura, e reflexão, a explicação, que mais não é do que um olhar proposto. Mas este, como qualquer visão do mundo, comunica-se e enraíza-se, alarga-se como árvore que cresce e se abre em ramos, a cuja sombra se abrigarão muitas gerações. A sua história é distiladora de essências a que chamamos valores ou princípios. A universalidade destes não tem dono, antes é, por definição, de todos: só pela entrega e comunicação se fixa, como raíz fasciculada, que vai beber, buscar e dar vida até onde puder. O valor do universalismo cristão, por exemplo, que afirma a igual dignidade de todos os seres humanos, pode ter sido esquecido - e muitas vezes o foi e é -  no seio de comunidades ditas cristãs, até por impulsos sectários de distinção entre bons e maus. Mas pode, por essa tal cultura (subterrânea também) do solo que a todos nos sustenta, florescer em comunidades heterogéneas. Dou-te, Princesa de mim, uma ilustração que hoje traduzo de The Economist, notícia e comentário que não inventei, cinquenta anos depois do célebre discurso - conhecido por Rios de Sangue - proferido por Enoch Powell para uma plateia de militantes e eleitores tories no Midland Hotel, em Birmingham, "profetizando" o advento de conflitos sangrentos entre brancos e gente de cor se continuasse a permitir-se imigração no Reino Unido:

 

   Atualmente, metade dos habitantes não brancos do RU vivem nas três maiores cidades do país: Londres, Birmingham e Manchester. A segunda incarna o que os universitários apelidam de "superdiversidade". Outrora, as minorias étnicas tinham tendência a fechar-se em grupos. Hoje, a mistura de populações de diversas origens étnicas é sem precedentes. Nenhuma circunscrição de Birmingham conta menos de 32 etnias, segundo Jenny Phillimore, da Universidade de Birmingham. O distrito recordista é o de Handsworth, cujos 31.000 residentes procedem de 170 países diferentes: ali, diz a investigadora, "todos têm um lugar".

 

   Esta demografia retrata-se na vida política da região. A antiga circunscrição de Enoch Powell, Wolverhampton South West, foi representada, até 2015, por Paul Uppal, um sikh (conservador), sendo hoje o mesmo assento parlamentar ocupado por Eleanor Smith, uma deputada trabalhista cuja mãe deixara Barbados para vir para o RU em 1954, a fim de trabalhar para o National Health Service. Esta mulher política lembra-se do desapontamento de sua mãe ao ouvir o discurso de Enoch Powell, que apelava ao repatriamento voluntário - linha oficial do partido conservador naquela altura. Fora encorajada a vir para o RU quando este país precisava de mão de obra e, agora, intimavam-na a voltar para casa..."

 

   Em carta próxima, Princesa de mim, voltarei à filosofia chinesa, como reflexão moral e política. Sempre vamos aprendendo uns com os outros... Falar-te-ei do conceito milenário de tianxia, ou seja, de tudo o que está sob o céu...

 

Camilo Maria     


Camilo Martins de Oliveira

O PÁTIO DAS ARCAS EM LISBOA

 

Evocamos hoje um dos primeiros espaços - edifícios de Lisboa vocacionados de forma estável para o espetáculo teatral. Trata-se do chamado Pátio das Arcas, na zona que é hoje a Rua Augusta. Trata-se do primeiro espaço de vocação para o teatro, definido e implantado, mais do que propriamente  “construído”, repita-se, na Baixa de Lisboa.  A iniciativa coube ao empresário castelhano Fernão Dias de La Torre, cerca de 1590.

 

E o documento que  evocamos data de 23 de novembro de 1622. Nele, o Município de Lisboa alerta para a situação precária do Pátio das Arcas. Vale a pena uma breve transcrição a partir do estudo de Eduardo Freire de Oliveira “Elementos para a História do Município de Lisboa” (1888), que cito no meu livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA 2005) e  posteriormente , em parte, na conferência comemorativa dos 150 anos do Teatro da Trindade (2017), num ciclo que, tal como aqui temos referido, integrou intervenções de Inês de Medeiros, Joaquim Paulo Nogueira, Isabel Pires de Lima, Luís Soares Carneiro, José Sarmento de Matos, Guilherme d’Oliveira Martins, Nuno Domingos e José Carlos Barros.

 

Diz então o documento:

“Viu-se em Câmara o escrito de Vossa Senhoria, pelo qual  lhe ordena que  deem despacho aos comediantes para que estes representem no Pátio em que agora o fazem, enquanto não houver mais outro concerto, capaz e se poder representar nele, ao que se satisfaz com se dizer das palavras do autor que fosse continuar como representar onde o fazia, até lhe ordenar coisas. Porém, pareceu significar a Vossa Senhoria o grande dano que resulta do  pejamento da rua das Arcas, onde estão arruados nem podem trabalhar em seus ofícios nem vender e dar expediente às suas obras o dia que ali se representa de mais de estar a rua impedida, que com dificuldade pode uma pessoa passar a cavalo por ela além de brigas que por estes respeitos são  causadas”...

 

Luís Soares Carneiro esclarece a propósito que “foi a aplicação a Portugal das leis que regiam os pátios de comédias em Espanha a primeira legitimação efetiva da atividade teatral, pois admitam a sua existência com carater permanente, desde que o rendimento desses pátios fosse entregue, no caso de Lisboa, ao Hospital de Todos os Santos” (in “Conferencia do Trindade” 2017).

 

Segundo Sousa Bastos, o Teatro ardeu em 1697, mas foi reconstruído e  reinaugurado três anos depois. Esclarece: “Tinha 20 camarotes no primeiro andar, seis camarotes e assentos gerais com cinco degraus em roda de todo o pátio no segundo andar, 21 camarotes no terceiro andar e outros 21 no quarto andar”. E  esclarece, no texto publicado em 1908  no  ”Dicionário do Theatro Português”,  que “o local em que este ficava este teatro era no sítio em que hoje está a rua Augusta junto ao Rossio (...) mais ou menos onde hoje está o segundo quarteirão da Rua Augusta”.

 

E finalmente: num estudo intitulado precisamente  “Teatros Portugueses” (ed. Sete Caminhos – 2005), Luciano Reis  diz que o Pátio das Arcas foi o segundo a ser construído e inclui uma gravura de Alberto de Sousa , que aliás não identifica, mas que aqui se reproduz: pois seja ou não seja, dá uma imagem feliz das zonas de espetáculo da época...

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

10. PROPAGANDA

 

A propaganda tenta transmitir uma mensagem universal, absoluta, correta, válida, em que há inverdades.
A propaganda não é crítica. 
Faz passar uma mensagem de confiança, estabilidade, felicidade.

Por vezes faz o culto da personalidade. 
Há a propaganda eficaz, ineficaz, passageira, que sobrevive ao longo do tempo, académica e vanguardista, explícita e implícita.
O cartaz foi um dos meios que melhor a serviu. 
Há cartazes de propaganda que funcionam apenas como documentos. 
Outros são tidos como obras de arte, concordemos ou não com as suas mensagens.
Na antiga União Soviética, desde os tempos de Lenine, proclamava-se que a arte do ocidente era burguesa, capitalista e decadente, expurgando-se intelectuais criadores de obras tidas por misteriosas e produzidas para elites, sem significado para o povo. A arte deveria ser inteligível para todos. Tendo por fim o ideal utópico do comunismo, surgem obras com uma imagética e cromatismo imediatamente reconhecível, assertivas e poderosas psicologicamente a nível dos destinatários.
El Lissitzky, no período da Rússia pós-revolucionária, em plena guerra civil, com a guarda branca anti-bolchevique a tentar derrubar o governo de Lenine, concebeu um cartaz chamativo, simbólico e vanguardista, usando formas geométricas, planos sobrepostos e a cor branca, preta e vermelha do suprematismo. Derrota os Brancos com a Cunha Vermelha (1919), é um dos cartazes mais icónicos e intemporais, exemplo conseguido da arte utilizada para propaganda. A sua simplicidade, pioneirismo, estética, atração e magnetismo influenciaram muitos designers gráficos, bandas pop e agrupamentos musicais.
Outro caso célebre é o Cartaz de Propaganda do Livro (1924), de Aleksandr Rodchenko, em que no seu geometrismo e cromatismo usual sobressai um rosto feminino lançando uma mensagem em voz alta.
O sonho da arte ao serviço da propaganda, exprime-se também em obras de arquitetura pública, como o monumento à III Internacional (Torre), de 1919, de Tatlin, apesar de  só executada a maqueta preparatória. Sem esquecer inúmeros cartazes, esculturas e estátuas fazendo o culto da personalidade de Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao.
Merece referência O Triunfo da Vontade e Olympia, de Leni Riefenstahl, películas com influências estéticas e cinematográficas de Eisenstein, tidas como as melhores obras de propaganda de sempre, proclamando o esplendor do nazismo. Onde há uma propaganda explícita que tem de comum um culto dirigista, exaltante e típico de estados ditatoriais, em que foi banida a arte pela arte e a liberdade de expressão e pensamento.

 

15.05.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

GIORGIO AGAMBEM

 

Giorgio Agambem ex-aluno de Heidegger e responsável pelas obras completas surgidas em Itália de Walter Benjamin é Filósofo italiano que se debruça da estética à política trabalhando os conceitos de estado de exceção, essa terra de ninguém entre o direito público e o facto político (…) entre a ordem jurídica e a vida (…) entre o direito e o vivente, a fim de que possamos chegar ao que significa agir politicamente, e o conceito de homo sacer ou «homem sagrado» figura singular do Direito Romano arcaico que nos remete à condição de quem, cometendo delitos contra a divindade, colocava em risco o entendimento afetivo entre a coletividade e os deuses e, em última análise, cometia um crime contra o Estado, merecendo a vingança dos deuses, a expulsão do acesso a direitos e a sua vida passava a ser «sagrada» negativamente por expulsão total do meio onde vivia, podendo caber-lhe a morte fora de qualquer ritual religioso.

 

Neste imenso projeto de conceitos que Agambem não descuida de pesquisar desde os anos noventa, encontramos muitos termos em similitude utilizados por Hannah Arendt e até Slavoi Zizeck aplicados à história recente. Referindo-se a este último conceito de existência sagrada, Zizeck aproxima-o da imagem do avião que distribui, em teatro de guerra, alimentos para uma população que fora atacada por um bombardeiro, considerando que a existir um homo sacer neste caso, a morte era decidida pela divindade, sendo apenas concretizada por outro homem, e, nunca este seria acusado de homicídio pois a decisão vinha da divindade. O quanto e o como se impõe à humanidade a inercia do paradigma da ação humana face ao que se insiste afinal chamar de politica legitimada.

 

Giorgio Agambem formou-se em Direito com uma tese sobre o pensamento político de Simone Weil. Dirigiu o Collège international de philosophie em Paris e entre outras atividades lecionou Estética e Filosofia no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza. As suas pesquisas concentram-se nas relações entre a literatura, a poesia, a filosofia, e a política. Também docente em universidades americanas, antes de se decidir a não entrar mais nos EUA por oposição à política de segurança de Bush, Agambem recebe o Prix Européen de l’Essai Charles Veillon.

 

No seu livro Nudez que entre nós saiu pela chancela da Relógio d’Água encontramos reunidos um conjunto de pequenos ensaios a retermos neste seu universo tão próprio com o pensamento sempre em incursão na tal espécie de terra de ninguém.

 

Dele tentaremos dar a nossa opinião também pelos caminhos da biopolítica e da filologia.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

‘Mons Graupius’ de Gillian Ayres.

 

‘ainda o que fixaste te prende

no posto antigo

prendendo a força do olhar

o sentido que lhe deste

na única vez que viste’

Luiza Neto Jorge, ‘O Poder da Encantação’

 

Em 1976, Gillian Ayres (1930-2018) viajou para Nova Iorque e o contacto com a obra do pintor Hans Hofmann (1880-1966), foi revelador. A pintura de Hofmann concretiza-se na rejeição do puro ilusionismo, racionalismo, surrealismo e no fascínio pela superfície pintada, pela materialidade da tinta, pela energia do gesto limitado e por vezes geométrico e pelo uso intenso e contrastante da cor. Ao voltar para Londres, Ayres voltou à pintura a óleo combinada com um dinâmico e variado uso da cor. Para trás ficavam experiências como ‘Untitled (Purples)’ (1971), ‘Untitled (Cerise)’ (1972) e ‘Weddell’ (1973-74) executadas a acrílico – o vazio, a vastidão e a disformidade destas pinturas evocam, talvez a redução última, a vontade de um contéudo nulo, a unificação material da cor.

 

‘Modernism meant a lot of different things (…) But what it meant above all was hope in a brave new world. And what did go on under Modernism was a questioning… In fact the whole of Western society since the Renaissance has been a society that moves and questions. In fact I can see modern art coming for a very long time. And under Modernism, that questioning is almost a condition of being creative. , Gillian Ayres In GOODING, Mel ‘Gillian Ayres’

 

Porém, a riqueza da cor, a diversidade do acaso e a pincelada que toma forma – transforma e objetifica estas novas experiências a óleo. ‘Mons Graupius’ (1979-80), de Gillian Ayres apresenta um dinâmico acontecimento, uma ação incompleta em constante movimento e transformação. É uma pintura que se dá pelo registo de um acontecimento espacial complexo, diverso e inquieto. Não é meramente pictórica. É forma e espaço mas nada aqui é reconhecível. A riqueza física da grande superfície (244x274.4 cm), com camadas e mais camadas de tinta, deixa só adivinhar as formas que se sobrepõem. O toque, a textura, as pinceladas, as complicadas relações da cor e das formas (que são diversas e que se podem também repetir) só são possíveis pelo sábio uso do óleo. Marcas, traços, manchas, torções e espessuras são a matéria desta pintura. Ayres inventa assim um mundo táctil. As marcas não têm uma referência específica, mas incluem todo o espaço do mundo. (ver GOODING, Mel ‘Gillian Ayres’, 2001)

 

‘Since the Renaissance european culture is based on change. To say that art in the 80’s was Post-Modernism – it is like a name – you can’t wipe out the kind of enthusiasm, the look for new forms. Otherwise you step back to nostalgia, to a sentimental feeling for the past. The past was always there to be used. (…) Personal style is a conscious taste and judgement, it is a quirky thing you can’t help.’, Gillian Ayres

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

Brave Lady Tessa, and The Constitutional Straits, 2018

 

No final, o que dá à vida significado é tanto o modo como é vivida como o modo como termina. / In the end, what gives a life meaning is not only how it is lived, but how it draws to a close. Estas palavras são da Baroness Jowell of Brixton no último discurso na House of Lords a 25 January, em debate sobre os tratamentos cancerígenos no National Helth Service.

A câmara alta levanta-se em longa ovação à sua “good reason for hope.” The RH Tessa Jowell parte este Saturday, aos 70, após difícil batalha contra um cancro no cérebro. — Chérie! À l'œuvre on reconnaît l'artisan. A Prime Minister Theresa May persiste na via da parceria euro aduaneira, quando o Duke of Wellington apaga a data da saída do reino da European Union nas emendas à Brexit Bill. O Mail escritura primeira página sobre os “traitors in ermine.”— Well. As one knows his saints, one honors them. O Head do MI5, Mr Andrew Parker, adverte em Berlin para os perigos de vulnerabilizar a parceria atlântica on common security. Dias depois de rasgar o acordo nuclear com o Iran, por videolink e não por twitter, o President Donald J Trump inaugura oficialmente a nova embaixada dos USA em Jerusalem. O Israel PM Benjamin Netanyahu declara o dia histórico, mas a violência irrompe na fronteira de Gaza. O French President Emmanuel Macron recebe o Charlemagne Prize em Aachen (Germany), pela ‘vision of a new Europe.” Italy tem novo governo, uma coligação dos populistas 5-Star e Liga.

 

Another sunny day at St James. O warm weekend traz notícias fortes. A Reverend Sarah Mullally é sagrada como 133rd Bishop of London em St Paul's Cathedral, tornando-se a primeira mulher a exercer o alto cargo anglicano na sequência de notável carreira como enfermeira no NHService. Outra grande senhora ocupa lugar na eternidade: Dame Tessa Jane Helen Douglas Jowell (1947-2018). Reconhecidamente a smart operator nos corredores de Westminster, uma Blairite plus de sorriso aberto nos Tony Cabinets, a admiração pela Secretary of Culture cresce nos dias do fim. Na agonia de operações cirúrgicas e sessões de rádio e quimioterapia, a MP por Dulwich & West Norwood luta por melhores condições dos pacientes de cancro. Ei-la nas Houses of Parliament e em Downing a corporizar the last cause. Emociona nos Lords ao defender a Eliminate Cancer Initiative, deveras fragilizada, embora com le savoir faire de quem cruza os rios partidários. Cita o amado poeta Mr Seamus Heaney: “Noli timere — do not be afraid. I am not afraid. I am fearful that this new and important approach may be put into the ‘too difficult’ box, but I also have such great hope.” Os Commons prestam, já hoje, uníssono tributo à ministra emblemática dos Blair Years, aquela que conforta as famílias das vítimas do terror no 7/7, uma a uma, e conquista os 2012 Olimpics para London. O Speaker John Bercow caracteriza-a como “the embodiment of empathy, a stellar, progressive change-maker, and a well of practical compassion without rival, (…) the best of us.”  A amiga Theresa May recorda-lhe a força de carácter, os contributos para o reino e ainda o humor: “For many years after London won that Olympic bid the screensaver on her phone was a photo of her and David Beckham after the announcement—hugging. As she said: “You can be a feminist but still be susceptible to a David Beckham moment.” O Labour Leader Jeremy Corbyn conclui que Baroness Jowell “taught us how to live, and I think she also taught us how to die.” Cumprindo o generoso legado político da Brave Lady, o HM Government anuncia financiamento anual de £40m para a investigação dos tumores craneanos; valor logo acrescentado com mais £25m doados pelo Cancer Research UK. ― Rest In Peace, Dear Tessa.


Britannia between Scylla and Charybdis, por James Gillray (1793).

 

Morrer com dignidade é o que os Brexiteers profetizam irá acontecer à opção primoministerial de a new customs partnership entre o United Kingdom e a Other Union. Apesar de derrotada no seio do May Cabinet, com o novel Home Secretary RH Sajid Javid a todos surpreender ao votar contra, a proposta permanece sobre a mesa do Number 10, justamente a par da alternativa max facilitation para lidar com a Irish border e dado o sombrio cenário criado pela série de 14 emendas (Yes, 14!) feitas na House of Lords à European Union (Withdrawal) Bill. Na Second Chamber, quando se estimava ter-se visto tudo na manutenção pelos Noble Lords do continental status quo, pasma o ataque frontal desencadeado por nenhum outro senão o 9th Duke of Wellington. Arthur Charles Valerian Wellesley, por cortesia Marquess of Douro e ex Tory Member do European Parliament por Surrey, Peer of The Realm por sucessão hereditária, avança com moção que deixaria em aberto a exata data do Leave. Para lá da borracha sobre o dito Independence Day, 19 March 2019, acentua-se a murmuração em Whitehall de frescas tentativas para algures prolongar o período de implementação já acordado nos tratos negociais com Brussels. Ora, face ao incerto state of play, como que a replicar, na contemporaneidade, os contornos oitocentistas de Mr James Gillray no clássico constitucional Britannia between Scylla & Charybdis ‒ Or: The Rock of Democracy vs The Whirlpool of Arbitrary Power, agudizam-se também as várias oposições à unelected chamber. Se a imprensa brexiteira retoma a deselegante retórica da high treason, Downing Street declara-se “disappointed by Lords votes on Brexit laws,” com a Right Honorable Theresa May MP a escrever no Sunday Times um cândido “trust me” relativo ao total respeito governamental pela vontade popular expressa no euroreferendo de 2016. A história observa os atores do tempo.

 

Sombras também sobre o Royal Wedding do Prince Harry of Wales e Meghan Markle a 19th May, embora com presumível inclinação da mitológica barca de Homer para conhecida margem dos Straits of Messina. O obscuro pai da noiva decide monetizar o evento junto dos paparazzi circles e consta por cá que, discretamente, com poder qb para tal, alguém nos palácios retalhou canónico convite para o Windsor Castle. A realíssima circumnavegação do mais jovem casal de infantes afigura-se aventurosa, pois. — Well. Let’s also get on with it. Even ours fabulous Master Will plainly makes out in The Merchant of Venice that there are some hazardous rocks along the odyssey of a common life: — “When I shun Scylla your father, I fall into Charybdis your mother.”

St James, 14th May 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 14 a 20 de maio de 2018

 

A «História de Portugal» de Alexandre Herculano constitui ainda hoje obra de consideração obrigatória para compreender as origens da Nação. “Querer é quase sempre poder: o que é excessivamente raro é querer”. Com esta afirmação o historiador responde a muitos dos que consideram o primado da liberdade crítica como um não querer.

 

UMA POLÉMICA CIVILIZADA
Sabemos como o autor de Eurico se demarcou das novas gerações que se lhe seguiram, em especial da que se afirmou nas Conferências Democráticas pela evolução e pela igualdade. Conhecemos os termos da polémica civilizada, mas claríssima, que travou com Oliveira Martins (sob o olhar atento de Antero), em que deixou muito clara a sua atitude essencial relativamente ao primado da liberdade política, económica e cultural. De qualquer modo, se há uma marca própria na atitude de Herculano, ela corresponde à afirmação da liberdade como um fator necessário de afirmação de vontade. Liberdade e não querer são assim antagónicos e contraditórios, na perspetiva herculaniana. E aí os detratores do velho historiador viram uma contradição insanável, entre o distanciamento na intervenção e a retidão quase profética na ética. Nesse sentido, a partir de Kant, aproximou-se de Montesquieu e de Tocqueville, numa demarcação evidente em relação a Rousseau. Não é a liberdade do bom selvagem que Herculano invoca, mas a articulação de vários poderes, a sua autolimitação e a consideração da cidadania, como distinta de uma “vontade geral”, abstrata ou uniformizadora, e enquanto concretização de instituições livres, capazes de assegurarem uma mediação eficaz e legitimadora. Os fundamentos medievais das instituições animaram, de facto, a sua investigação histórica, com especial ênfase para o municipalismo, o que motivou críticas à historiografia moderna. O certo é que, para Herculano, o bem comum resulta de uma mediação, capaz de tornar a vontade algo de positivo, com vista a realizar desígnios comuns e a contrariar qualquer ilusão onírica. Daí a sua interpretação da “História de Portugal” como uma afirmação de vontade – sem esquecer, contudo, um certo “espírito público”, a animar a causa da independência. Apesar das diferenças, o certo é que há uma óbvia convergência entre as linhas emancipadoras dos primeiros românticos, Garrett e Herculano, e os desígnios da geração de Antero, Eça e Oliveira Martins. E sobretudo verifica-se uma certa confluência crítica sobre a degenerescência das instituições liberais, com aceitação por Herculano de algumas soluções sociais visando combater as injustiças (a enfiteuse, as caixas económicas, o crédito cooperativo)… Não por acaso, José-Augusto França prolonga a sua análise do Romantismo português até às repercussões ocorridas quase no fim do século: “1835 (ou 1834), pax liberalis, é uma data indiscutível: marca o começo do processo romântico nacional, na sua fase de instauração. 1880 situa-se no fim deste mesmo processo, no momento em que se caracteriza uma viragem da sociedade portuguesa e onde, sobretudo, esta sociedade toma consciência dos seus próprios valores – e da sua própria falência”.

 

O ESTADO COMO GÉNESE DA NAÇÃO
A consideração da vontade criadora do Estado e em consequência a génese da Nação no século XII português põe a tónica na convergência de fatores orgânicos e históricos que permitiram a origem de Portugal – “nascido no século XII em um ângulo da Galiza, constituído sem atenção às divisões políticas anteriores, dilatando-se pelo território do Gharb sarraceno, e buscando até (…) aumentar a sua população com as colónias trazidas de além dos Pirenéus, é uma nação inteiramente moderna”. A sua história própria “é assaz honrada e ilustre sem essas vaidades estranhas que estão longe de terem o valor que se lhes atribui”… Herculano falava das invocações de Viriato, de Sertório e dos lusitanos – sobretudo referidas a partir do século XV, fruto de um modismo clássico. No entanto, não há um nexo de continuidade entre a resistência à invasão romana e os povos que formaram o reino de Portugal. A nova monarquia compôs-se, digamos assim, de duas componentes, da fisiologia e da fisionomia da sociedade, enquanto do outro lado “impôs, vencedora, os seus próprios caracteres, posto que, como devia acontecer, dele recebesse modificações orgânicas”. E assim, como é fácil de compreender, a cultura do ocidente peninsular construiu-se em dois movimentos, de norte para sul e de sul para norte. A presença dos barões de Entre-Douro-e-Minho, que apoiaram Afonso Henriques, vai completar-se, a partir de Coimbra, por uma aliança muito profícua com os municípios moçárabes. Daí a construção da língua portuguesa, a partir da convergência de diversos dialetos, em que a Península Ibérica foi sempre fértil – que culminou na uniformização do idioma, com pequenas diferenças de pronúncia ou terminologia (com a exceção do mirandês), em virtude da mobilidade interna e da centralização. Herculano pôs, deste modo, a tónica na vontade, a que se somou o fator unificador da costa marítima – que reforçou o carácter atlântico de Portugal, por contraponto à continentalidade da Espanha, com a centralidade de Leão e Castela a ter de se virar para oriente (Aragão e Navarra), já que não se concretizou a ligação ocidental, com os funestos desaparecimentos do filho de D. João II, Príncipe D. Afonso, e do filho de D. Manuel, Miguel da Paz, simbolicamente sepultado em Granada com seus avós, os Reis Católicos.

 

A TÓNICA NA ÉTICA CÍVICA
Herculano põe a tónica na ação animada pela ética cívica. Assim se explica o interesse dos jovens de 1870. Como afirma Fernando Catroga: “o velho soldado liberal” interessa a Oliveira Martins, “desde cedo, não só como historiador (…) e como reformador social, mas também como modelo de virtudes cívicas. É que, para ele, o dissídio herculaniano não encerrava uma lição negativista. Bem pelo contrário, o seu magistério, antes e depois de ‘Vale de Lobos’, surgia-lhe como um símbolo de luta pela subordinação da política à moral, como um protesto rico de significação social” (“Ética e Sociocracia – O exemplo de Herculano na geração de 70”, in “Studium Generale”, nº 4, Porto, 1982). Aqui está porventura a chave que liga uma tradição de pensamento que vem de Garrett e Herculano, passa pela Geração de 70 e chega, nos nossos dias, a Eduardo Lourenço. E Catroga, ao falar de Oliveira Martins (de quem o autor de O Labirinto da Saudade se aproxima), ainda refere uma “propensão sociologista – corrigida pela sobredeterminação ética – e o seu apego às questões práticas da vida” que não bloquearam “a sua adesão à gesta individual de Herculano, a qual acabará por emergir como critério aferidor do sentido da sua própria ação como homem público”. Afinal, o que articula estas perspetivas, diversas mas complementares, não é qualquer negativismo ou ausência, mas uma visão crítica dos mitos como modo de emancipação – nunca como aceitação de qualquer fatalismo, ou acomodação à inexistência de vontade. “Somos porque queremos” – repetirá Herculano e com ele os seus seguidores, animados pela verve crítica, capaz de alimentar fecundamente a vontade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Quando, em 20 de agosto de 1940, Félix Éboué, governador do Chade, colónia francesa, manda içar, em Fort-Lamy, a bandeira francesa com a cruz de Lorena ao centro, símbolo da França Livre que De Gaulle quer erguer, dá a essa mesma França, e contra o governo colaboracionista do marechal Pétain, em Vichy, o seu primeiro território. O governador negro africano era filho de escravos, a maioria da população que ali aclamou a restauração nacional também. E muitos dos soldados europeus que, sob o comando de Leclerc, ali apoiavam e aplaudiam a primeira reivindicação e proclamação territorial da França Livre, nesse mesmo momento se interrogavam sobre onde, então, se sentia o coração da França, sobre onde, prontos, estariam os patriotas franceses: em Vichy ou em Fort-Lamy?

 

   Nesse mesmo ano, um mês e meio antes, a 3 de julho de 1940, a Royal Navy lançara um ultimato à esquadra francesa ancorada em Mers El-Kébir: juntar-se ao Reino Unido e prosseguir a guerra contra a invasão alemã, abrigar-se em porto neutro ou nas Antilhas, para aí ser desarmada, ou auto destruir-se. O governo de Vichy declinou qualquer das sugestões e decidiu ignorar a Grã-Bretanha. Esta ataca, em pouco mais de vinte minutos inutiliza quase todos os vasos de guerra franceses ali estacionados, e assim mata 1300 marinheiros gauleses. O fantasma de tal desastre perseguiu Winston Churchill durante anos: mas teria ele podido agir de outro modo, quando sabia que o governo de Vichy procurava, nessa altura, granjear favores inerentes a uma colaboração com o Reich e poderia ser forçado a colocar a sua própria força naval ao serviço do Reich que, aliás, bem a seu jeito, até procurava apropriar-se dela?

 

   Ambos estes episódios ainda hoje afligem, com pesadas interrogações, muitas consciências - não dos seus protagonistas, que já saíram da cena terrenal, como diria Gil Vicente, mas de historiadores e intérpretes da História, e ainda de ideólogos e políticos, e também, em tom mais apagado, de quem visita o passado à procura de luzes que, quiçá, alumiem feições dos homens e confrontos do tempo presente. Para ti, Princesa de mim, apenas os evoco, não para deles tirarmos conclusões, mas antes, talvez, para nos ajudar a perceber como a nossa responsabilidade perante o que atualmente ocorre nos exige fugir de preconceitos, libertando-nos de mitos e ideias feitas, inclusive de supostas virtudes ancestrais e tradições de comportamentos insubstituíveis. A virtude moral que se nos impõe é a prudência -  no "meu" tão querido sentido agostiniano-tomista de amor sagaz - que pressupõe uma vontade firme de procurar o bem que é justiça, no sentido ulpiniano de jus suum cuique tribuendi (há lições que, vindas da nossa mocidade, nunca esquecem), e uma limpidez do nosso pensarsentir - no sentido de lucidez amável e amante. Essa prudência é mãe da responsabilidade, que será uma resposta expressa e ativa à nossa circunstância atual, e animada pela alegria de contribuirmos para o bem comum.

 

   O recurso a exércitos africanos para combate em guerras europeias - desde os marroquinos de Franco aos senegaleses que foram das primeiras vítimas francesas da invasão alemã, no princípio da 2ª Guerra - implicava uma "nacionalização" dos colonizados, esses soldados eram mesmo convencidos de patriotismo. Tal como, recordo bem, Princesa de mim, nos meus tempos de Guiné, muitos dos combatentes por Portugal eram guineenses de diversas etnias, certamente com relevo para fulas e outros povos muçulmanos, chegando até a República Portuguesa a financiar-lhes peregrinações a Meca... A Europa exangue não hesitava em recorrer aos indígenas de África para se reabastecer de humanos para a guerra. Talvez esta consideração, como, aliás, os inúmeros exemplos de compromisso e coragem (como o do governador do Chade) - para já não falarmos do sacrifício de tantas vidas - devesse estar bem mais presente nos nossos espíritos quando nos pronunciamos sobre questões migratórias, ou falamos na construção de identidades nacionais. [Vai para meio século, Princesa, que, todos os dias, nesses momentos de comunhão com o inexplicável Quem, a que chamo oração, me lembro dos meus camaradas e amigos guineenses.

 

   Também a sombra de Mers El-Kébir deverá pesar sobre qualquer reflexão acerca do recurso a medidas bélicas ou da fidelidade a alianças. Por muito que se possa procurar qualquer justificação (prevenção estratégica, mal menor, legítima defesa antecipada...eu sei lá!) para a destruição total de uma armada ancorada e incauta, arvorando a bandeira de França (contra a qual o Reino Unido não estava em guerra, antes seria aliado), aquele ato bélico foi, em si e só por si, uma barbaridade. Eis a maligna essência da guerra: a violência e/ou a desilusão como soluções justificadas.

 

   Por enquanto, todavia, muitos potenciais conflitos vão ficando pela iminência teatralizada, servindo, como já vimos, Princesa, para disfarçar tensões domésticas, tornando oportunas, e populares, supostas ameaças externas, lamentavelmente alheias à realidade de gente que sofre e cada vez menos encontra quem escute os seus apelos. A esmagadora maioria e principais vítimas da guerra na Síria são populações civis, e os seus algozes não são apenas os perpetradores de ataques armados, são igualmente os fornecedores desse armamento e os aliados das partes em disputa que, fora da ribalta, bem poderiam retirar aos beligerantes meios de apoio e condições políticas de prossecução do conflito. Enquanto o regime sírio continua atuante, comissões parecem verificar a veracidade e origem de agressões químicas, Trump convida Putin, e este aceita e retribui, May acena com a fantasia de remediar o Brexit com um reforço das relações no Commonwealth, e Macron - que reclamou para si o mérito de convencer Trump a não desertar o conflito sírio, coisa que os EUA já negaram - tenta empreendedoramente que Merkel lhe dê algum assentimento num projeto europeu... No qual procurará, quiçá lembrado de Lafayette, em ser, na UE, que os britânicos ora abandonam, o apoiante dos americanos.  

 

   Em Portugal, a obsessão de uns jornalistas de duvidosa retidão intelectual, e, pior até, o histerismo de um deputado ao Parlamento Europeu - para os quais tudo o que o Governo faz é traição à Pátria - teima em condenar, aos céus bradando, a sensata e inteligente posição portuguesa no caso Skripal, ao reiterar o seu compromisso com a UE e a OTAN, sem expulsar diplomatas russos. Reclamam-se esses "puros" das tradições e alianças lusitanas, acusam o Governo de ter posto Portugal na companhia de bandidos internacionais, com decorrentes e insanáveis prejuízos políticos e económicos para o nosso país, e dizem que são de direita... De direita serei eu, que não esqueço a prudência de Salazar e da sua neutralidade cooperante durante a 2ªGuerra. Poupem-me! Até porque não vi ainda qualquer prejuízo adveniente da posição portuguesa, antes muito pelo contrário... [Desabafo, Princesa: às escondidas vou redigindo uns apontamentos sobre a cultura dos portugueses, isto é, do ambiente e das referências que condicionam o seu pensarsentir, e verifico que, quiçá por ausência de livre espírito crítico (com origem num clericalismo beato e ignorante e num radicalismo laico e pouco culto), sofremos de marcadíssima propensão ao facciosismo maniqueísta, cuja primeira comunicação social é a hipocrisia.

 

   Quanto à recente promessa norte-coreana de suspender os seus testes de mísseis nucleares, convir-nos-á, Princesa de mim, entendê-la como afirmação clara de que estão bem cientes e seguros de poder dispor de força nuclear, já não necessitando de experiências nem demonstrações. Daí que, estando em plano de igualdade, se disponham a entender-se. Ninguém, no chamado Ocidente, poderá reivindicar aqui um efeito de dissuasão da sua própria força superior. Antes, esperemos, deverão todos preparar-se para capazmente responder a uma oportunidade de diálogo, que incluirá outros e poderá mesmo servir de plataforma para um acordo alargado de contenção do armamento atómico. Antes de se vangloriar, Trump deverá re-repensar (exercício a que, felizmente, nos tem habituado) a questão da saída dos EUA do acordo de não proliferação de que o Irão faz parte: este já anunciou que retomará o programa de enriquecimento de urânio se os americanos se retirarem... E deputados dos países europeus signatários do mesmo já subscreveram um sério aviso de prudência e permanência.

 

   Pessoalmente, Princesa, conheci e convivi de perto com a Coreia durante catorze anos, e senti muito o drama das famílias divididas entre as duas repúblicas antagónicas... Para tua sensibilização, apenas te digo que o apelido marcante da linhagem dos atuais presidentes nortenhos, Kim, indicia consanguinidade com a mulher de Moon Jae-in,o atual líder sul coreano (a senhora nasceu Kim  Jung-sook) e, ainda de  outro presidente sulista, de 1998 a 2003, Kim Dae-jung: recordo que, aí pelos anos 80, em Seul, um jurista coreano me garantia que, dada a fidedignidade dos seus registos genealógicos, um Kim não pode contrair casamento com uma Kim, face ao direito coreano vigente, precisamente por essa razão (?). E permite-me então dizer-te que, de certo modo, até os dois Kim presidentes, do norte e do sul, se sentirão da mesma família... Aliás, Kim Dae-jung assinou, em 15 de junho de 2000, em Pyongyang, que visitou, um acordo com o seu homólogo do norte, Kim Jong-il, pai do actual Kim Jong-un. Na sequência de tal ato, A Comissão Nobel Norueguesa decidiu atribuir o Prémio Nobel da Paz para 2000 a Kim Dae-jung, pela sua obra em prol da democracia, dos direitos humanos, na Coreia do Sul e na Ásia Oriental em geral, e da paz e reconciliação da Coreia do Norte em particular.  Este Nobel Kim era católico, e foi apoiado pelo papa João Paulo II, quando preso pela ditadura militar sul coreana. E desabafo o pensarsentir que o presidente Moon do sul, católico fiel do papa Francisco, tem sido um artífice autêntico do processo de reconciliação em curso, apesar dos seus opositores internos que, de certo modo, espelham as desconfianças e ódios que, noutro longínquo contexto, os cubanos da Florida também não deixam esmorecer. Mas não podemos tampouco ignorar, nem sequer menosprezar, possíveis gestos e progressos de boa vontade do Kim do norte, que, quiçá, a China  -  depois de ter transformado o seu PC num capitalismo de Estado  -  não desdenhará acompanhar, não só para não prejudicar um sistema de comércio livre de que tem sido privilegiada benificiária, mas para não ficar totalmente de fora das conversações coreano-americanas :já o avô do atual Kim do norte em parte se servira dos EUA para se aliviar um pouco da influência soviética...

 

   Afinal, Princesa de mim, acabei hoje de te escrever esta carta metafórica. O esplendor da floração da minha cerejeira do Japão desafiou a chuva forte destes dois últimos dias, põe-me e deixa-me a contemplar algo inesquecível porque ficarão as flores que o vento levou, e toda a realidade é ilusão simultânea. Vi e ouvi, ontem ainda, a Terra Justa em Fafe, em homenagem à Maria de Lourdes Pintassilgo. O seu governo de cem dias - e todos sabíamos que seriam só cem, era esse o prazo máximo que o presidente Eanes lhe poderia dar - terá sido aquele, entre tantos outros mais duradouros, que mais e profundas reformas cumpriu. Porque, muito para além dos calculismos políticos, teve o ânimo de ser fiel a uma certa ordem de amar o povo. Li hoje o Emmanuel Todd a dizer que a Rússia (Esparta) e os EUA (Atenas) repetem agora a guerra do Peloponeso... Macron insiste em que, fechada esta guerra civil Síria, a tríade (França, RU, EUA) ali se deverá manter como garante. Entre vaidades e ilusões nostálgicas, parece-me - a mim que nada percebo do assunto - que já não estamos no mundo bipolar da guerra fria, nem no da profetizada vitória liberal-capitalista do Fukuyama. Maiores ou nem tanto, outros actores apareceram e surgem, marcando presença à mesa e dispondo também de algumas cartas do baralho. O grande desafio do nosso tempo é a descoberta de uma nova cultura da paz. 

                                                           

Camilo Maria   

Camilo Martins de Oliveira

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