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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

 

Era um dia de abril. Lúcia abrira a porta do quarto que ligava à varanda e esta ao mar, aos pássaros, aos barcos, às flores, à romântica mesa onde estivera a ler no dia anterior o livro “Engenho”.

 

A sua varanda parecera-lhe sempre uma galeria de arte fosse qual fosse a estação. No entanto, ao aproximar-se a primavera atribuía-lhe sempre o nome de “Alegoria”. Presumia-lhe uma infalibilidade de linhagem romântica e nela a existência de um halo perfeito a todos os estados de espírito e pensamentos. Sorria Lúcia para este seu entendimento de que o acordar em paz junto desta “Alegoria” não envolvia a imitação de uma arte por outra, nem sequer o engenho no pincel dos olhos da interpretação.

 

Deixara cair o envolvente xaile de seda e preparava-se languidamente, mas afoita, para recordar o que lera no livro no dia anterior. E de lá lhe chegava o tal homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade, recusava o enredado dilema que lhe propusessem acerca da razão, da paixão, da fé e do livre-arbítrio. Achava, que a linguagem desse homem era como a das ondas na areia: derramava coisas artísticas e claras e coisas que provocavam uma espécie de caçada científica atras da onda quando esta se recolhia de novo ao mar. Depois, pegava numa das flores que Mercedes - sua empregada- deixava todos os dias num cesto junto à mesa, e de si para si.

 

A linguagem escrita não é instrumento de confiança como é a visão de fotografia que tenho desta varanda. A linguagem escrita é até judiciosa, é uma coisa sempre perigosa, sempre poética como a música ou o fogo. A linguagem é o engenho? O que daqui vejo é uma verdade através dos cheiros, das formas, das cores, verdadeira sequência de sinais estéticos que são lições de segurança na vida e nela, de prioridades. Ainda assim, nesta “Alegoria” sinto-me como se viajasse em primeira classe num comboio de luxo para conhecer a India. E o homem que tendo o engenho de se aproximar da verdade vivia próximo dos símbolos da realidade e não se equivocava a respeito.

 

Lúcia pegou no livro de novo, e sentiu uma curiosidade enorme em saber, espreitando para o céu, se viria aí tempestade e com ela o interrompido sabor de tudo o que luz num oiro de pressuposto em tudo cuidado, ou, afinal, num oiro de Cabo Horn. Oceanos e poderosos Andes que se dissolvem em ilhas poderiam ser vistos da sua varanda em alegoria viva na tarde desse dia.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Shirley Jaffe - Vitalidade, Complexidade e Dissonância.

 

'I hope that I too am able to express the same qualities of vitality in my own paintings, with my complexity and my dissonances.', Shirley Jaffe

 

A qualidade mais admirada, pela pintora Shirley Jaffe (1923-2016), em Matisse, é o otimismo - essa energia que através de formas e de cores emana vida.

 

As pinturas de Shaffe ao rejeitarem qualquer ato de desespero ou desânimo convocam a um imediato chamamento do vigor necessário à vida.

 

A combinação dos gestos solidificados, que advêm de um determinado movimento no espaço, reclamam constantemente pelo inesperado e pela interrupção. É no decorrer do processo que, iniciado por uma noção formal bastante simplificada, a pintura se deixa cruzar pelo imprevisto. E é esta mudança imprevisível que traz a energia capaz de vencer adversidades.

 

'I would like my paintings to give someone outside of me the feelings of the possibilities of life, that they awaken the energy to confront and face things. There are all these paths, all these open possibilities.', Shirley Jaffe

 

As formas das pinturas de Shirley Jaffe são acontecimentos únicos e irrepetíveis, manifestações precisas e de rejeição de qualquer dogma.

 

Cada forma e cada cor estão sempre em constante mudança, durante todo o processo ou ato de pintar. O inesperado, a modificação, a transformação, o começar de novo são determinantes para a construção das pinturas de Jaffe. As formas nascem e voltam a nascer. E talvez por isso sejam assim sempre momentos singulares mas heterogéneos. As pinturas de Jaffe surgem através de ordens contraditórias e diferentes justaposições. Mas estabelecem uma totalidade nunca vista, um conjunto de sinais que, apesar de diferentes entre si e por isso dissonantes, convivem dentro dos limites de uma tela. As coexistências nem sempre passíveis de serem justificadas, a não centralidade, o não pertencer, a deslocação, a disjunção, o desvio à norma são definições sempre possíveis às pinturas de Jaffe. Porém apesar das contrariedades estarem bem presentes, a exuberância e a riqueza visual das pinturas de Jaffe ensina-nos permanente a pujança do otimismo necessário para viver.

 

'I can't say that my pictures represent the world! I can only say that I want a cohabitation of events in my pictures so that, in looking, one is confronted with the 'manyness' we see relating to each other.', Shirley Jaffe

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

LL1.jpg

 

Lightning skies, European manners & an intriguing Monarchy, 2018

 

A vida é o primeiro dos direitos humanos, tal qual o voto popular é o alicerce das democracias. Estas duas verdades políticas contemporâneas estão em teste laboratorial, aquém e além Channel. — Chérie! Tous les chats sont gris dans la nuit.

A interrupção voluntária da gravidez por decreto de Westminster é hoje pedida para Northern Ireland, sem que os proponentes entendam imperativo perguntar aos locais se tal querem, mas sendo sensíveis ao resultado favorável do referendo sobre a matéria realizado na vizinha Ireland. O chão das regras comuns move-se também noutras paragens. Italy tem um novo Premier, Signori Carlo Cottareli, ido do IMF, cognominado como “Mr Scissors” e alheio aos resultados eleitorais. Madrid prolonga a direct rule na Catalonia ignorando o governo do Presidente eleito Señor Quim Torra.— Hmm. The unwanted manners. Lá longe, após surpreender pela banalidade na abordagem da Brexit numa conferência em Lisboa, o European Union Chief Negotiator Monsieur Michel Barnier reúne com a Scotish First Minister Nicola Sturgeon em Brussels para troca de mensagens quanto ao Remain/na EU vs a Scexit/do UK. Já Washington desmarca e remarca o Nuclear Korean Summit, em Singapore, entre os presidentes Donald J Trump e Kim Jong-un. O mestre Philip Roth e o captain Serge Dassaut partem de nós.


Retrato oficial da Royal Family. © Alexi Lubomirski. Courtesy do Kensington Palace (2018).


O caso impõe incontornável pergunta sobre o porquê de tanta curiosidade quanto ao que ocorre na Royal House of Windsor. Que o tema é popular, confirma-se ainda no número de capas de jornais e revistas com a imagem dos novos Dukes of Sussex em aberta competição com um vasto leque de parafernália de pratos, chávenas e bonés a chapéus de chuva. Todos os dias, aliás, caem na caixa de email propostas mais ou menos literárias (sejamos generosos) sobre… Harry & Meghan. Partindo do pressuposto que, tal qual o meu convite, os demais igualmente se perderam sem selo, estamos a falar do casório de dois desconhecidos. Porquê, pois, a euforia global? A interrogação associa-se ao mistério do amor do British People pela Monarchy, esse regime superficialmente apontado como de power & privilege mas nada senão a transmissão hereditária da autoridade para quem é desde tenra idade formado para simbolicamente personalizar uma comunidade cultural. Desde a coroação de Elizabeth II, em 1953, que a aprovação popular roda em torno dos +80%. Das explicações que ouvi e li acerca do apego à instituição real, nas quatro estações, partilho duas. Uma pertence a saudoso mestre da Oxford University, o professor David B Goldey: “The Queen has wanted manners.” A outra é escrita pelo jornalista Mr Walter Bagehot numa série de nove artigos publicados na Fortnightly Review e em 1867 compilados nesse clássico cá classificado como “wise chat” que é The English Constitution: “The best reason why monarchy is a strong government is, that it is an intelligible government. […] To state the matter shortly, royalty is a government in which the attention of the nation is concentrated on one person doing interesting actions. [,,,] The mystic reverence, the religious allegiance, which are essential to a true monarchy, are imaginative sentiments that no legislature can manufacture in any people. [,,,] A family on the throne is an interesting idea also. It brings down the pride of sovereignty to the level of petty life.”Thunderstorms blasting the British skies, inside warm but brezzy days at London. O fenónemo celestial destas noites é absolutamente espetacular, com o Shard a servir de pára raios no icónico horizonte urbano. Enquanto os alvores elétricos alumiam a suave tranquilidade noturna, o Royal Tourism acelera em volta no bulício diurno polvilhado de leves chuviscadas. Buckingham Palace atrai os olhares estrangeiros. O Parliament está em recess até 4th June e Westminster Square apresenta-se relativamente despovoada da fauna local. A Royal Familý renova-se na 2018 Spring e disponibiliza simpático retrato oficial com quatro gerações, abrindo a tela a discreta mas impactante Mrs Doria Ragland – a mãe da novel Duchess of Sussex. O casamento do Prince Harry of Wales e Meghan Markle parece ter similares efeitos a uma centelha atmosférica. Os números falam por si. Informa o Daily Telegraph que, só entre visitantes do reino vindos do país da noiva, o setor espera um aumento de 15% e um total de receitas da ordem dos £3,4bn. O interesse dos norte americanos pelo ancestral country é conhecido, mensurável no mega sucesso das séries como Downton Abbey ou The Crown, tendo agora ficado espelhado na atenção com que seguem a cerimónia matrimonial de St George Chappel. Se mais de 2 mil milhões de pessoas à volta do globo assistem à transmissão televisiva em direto de Windsor, a audiência nos USA cifra-se em mais de 30 milhões e quase duplica os 18 milhões que assistem nas ilhas. Semelhante auditório empalidece tudo o mais que circula pelas pantalhas, deixando a milhas acontecimentos desportivos e espetáculos mundiais como os Oscars de Holywood ou mesmo o anterior enlace do Prince William of Cambridge e Catherine Elizabeth Middleton.

Revermo-nos ou não em quem nos representa nos vários níveis de governo não é um sentimento despiciendo, antes pelo contrário, num tempo fluído onde prolifera a desconfiança institucional.

Se dentro de portas abundam dúvidas relativas ao efetivo respeito pela vontade popular expressa através do pacífico voto, quando volta a redobrar a larga bolsa de moedas para impor segundo euroreferendo, fora das costas chama-se Galileo a mimosa prova de existirem poderosas forças que suspeitam de uma estável Europe of peoples and nations, of trade and cooperation. O afastamento do UK post-Brexit dos fundos e projetos da ESA, a European Space Agency sedeada em Prague (Czech Republic), é ato que a lógica dificilmente poderia manufaturar, mas confirma-se que Brussels quer barrar a participação britânica no £10-billion satelite navigation system por… razões de segurança. Cabe perguntar ao MI5&co: A segurança de quem?! — Bada bing. Remember what says Master Will in Timon of Athens, about the fortunes of that generous Lord surrounded by forged companionship: — “Draw nearer, honest Flaminius. Thy lord's a bountiful gentleman: but thou art wise; and thou knowest well enough, although thou comest to me, that this is no time to lend money, especially upon bare friendship, without security. Here's three solidares for thee: good boy, wink at me, and say thou sawest me not. Fare thee well.”

 

St James, 28th May 2018

Very sincerely yours,

V.

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA


 

ÚLTIMA SEXTA-FEIRA

1. De 27 de maio de 1988 a 27 de maio de 2005 (nestes dois anos, 27 de maio calhou a uma sexta-feira), habituei-me ou habituaram-me a ler crónicas minhas nas páginas de um jornal. Primeiro, nos bons tempos de O Independente, que nasceu faz hoje 17 anos e talvez seja eu o único a lembrar-me. Here"s looking at you kid, e o kid é o Miguel Esteves Cardoso, que não vejo há que anos, embora não lhe perca o retrato aos domingos no Diário de Notícias. Entre "casas encantadas" (pois, pois, A Casa Encantada também faz hoje 17 anos) e saques de Roma, por lá andei até novembro de 2001 ou coisa que o valha, pois sempre fui melhor a datar inícios do que fins. Depois, desde 12 de julho de 2002 (eu não vos dizia?) aqui no PÚBLICO e já lá vão quase três anos. Ontem (estou a falar do meu ontem de escritor, e não do vosso ontem de leitores) telefonaram-me a dizer que ninguém sexta toda a vida e que aos 17 anos já tenho tamanho para me vestir de domingueiro. Trocado por miúdos: à sexta-feira deixa de haver "casas encantadas", J. B. C. e conversas de farrapos. Mas nada se perde. Só se transforma. Conversas destas, encantos destes e gente como eu fica melhor ao domingo, para ler na cama até tarde, para levar para a pesca ou para levar para a caça, conforme as estações, os tempos e os modos. Animal de hábitos que sou, virei-me um bocado na cadeira (de couro), mas não tinha nenhuma razão crisálida para dizer que não. Nunca gostei de domingos? É bem verdade e já não gostava 50 anos antes de 1988. Nem dos domingos de Carnide nem dos domingos de pastéis de Belém. Nem dos domingos de Paris, que me lembram o desaparecido que sentia comovido os domingos de Paris (as aspas caíram na tipografia), nem dos domingos da Arrábida, com aquela confusão de camionetes e o pó encarnado a esvoaçar. Nem dos domingos engarrafados da Praia Grande, nem dos domingos dos estádios em que o Barrosa falhava penaltis. Mas também não é aos domingos que tenho que escrevinhar coisas quejandas e, para as reler, narcisicamente, sobra-me tempo, meu Eco. Ao princípio irei estranhar, depois vou-me habituar. Mas sinto um nozinho na garganta, assim como se me despedisse. Não há de ser nada.

 

2. Mas a verdade é que o dia de ontem me foi muito especialmente especial. Devia estar a lua no carneiro, como diz o Alberto, com quem bebi catarinas à beira-rio. Ao menos bebemos vinho com nome de santa, como ele me lembrou, a certa altura, que alguém dizia em tempos que já lá vão. No carneiro ou não, ia alta a lua, essa lua que, só um bocadinho mais baixa, eu tinha acabado de deixar em Veneza, na antevéspera. Há gente que nasceu com o rabo virado para a dita e nesta semana eu senti-me uma delas. Chegou a altura de vos fazer um desenho, daqueles que me ensinaram há pouco tempo a fazer, para perceberem que não ensandeci definitivamente e que tudo isto pode ter mais nexo do que parece, aliterando ou não. Vamos lá a ver se nos entendemos, que, se não, nem no domingo que vem me convidam para a festa e esta é mesmo a minha última sexta-feira.

 

3. Subitamente, e por razões que agora não vêm ao caso, mandaram-me ir a Veneza no fim-de-semana passado. Se eu vos contasse o que lá fui fazer, ainda mais louco ou ébrio vos pareceria. Por isso, fico-me por uns instantâneos e julgue-os quem não pode experimentá-los. Nunca me falaram em Veneza sem que eu estremecesse de cima a baixo muito mais do que estremeceu a criada do Tartuffe. Desta vez, medi-me o pulso e não senti nada. Era como se me dissessem que no dia seguinte ia até Vila Franca de Xira. Já estava um bocado preocupado (e outros por mim), preocupado fiquei ainda mais. Mas logo que o táxi castanho largou à desfilada pela lagoa, os fantasmas desapareceram atrás dos postes e renasceu-me a alma nova que tinha metido nem sei bem onde. Depois, o barco moderou a velocidade e, num fim de tarde inacreditavelmente luminoso, desembarquei à porta do Danieli, onde muitas vezes bebera uns copos, mas onde nunca tinha ficado. E fosse pelo Danieli, fosse pelo que fosse, quando saí do hotel a caminho de São Marcos vi coisas que tinha obrigação de ter visto mais vezes, mas que via agora pela primeira vez.
A bem da contenção, fico-me por cinco, que se vai fazendo muito tarde.

 

4. Reparei que no ângulo sudoeste e no ângulo sudeste do Palácio dos Doges, quero eu dizer no ângulo entre a Margem dos Escravos e a Piazetta e no ângulo entre o Palácio e a Ponte dos Suspiros, os dois capitéis celebram dois dos mais célebres nus da nossa génese. O primeiro mostra-nos Adão e Eva depois de comerem do fruto proibido. Não há serpente, não há deuses. Apenas dois ramos da árvore, um para cada lado, se vão cravar nos sexos de Adão e Eva, simultaneamente os cobrindo e simultaneamente os designando como origem de todo o bem e de todo o mal. O segundo capitel refere-se a um dos episódios mais obscuros do Antigo Testamento. Noé, após ter bebido em demasia, cai no chão a dormir, quase nu, só com as vergonhas cobertas por um trapo. Os filhos surpreendem o velho em tais preparos. Que pensam ou que concebem? Desnudar o pai, ou seja, retirar o trapo para verem o que este cobre. Por que é que o sexo é a obsessão mais visível do Palácio na fachada fronteira ao mar de que Veneza era sereníssima senhora, é coisa que não sei explicar nem nenhum Ruskin me explicou. Mas são essas as armas que desfralda em todo o sentido da palavra, e a história do pecado da carne começou a escrever-se em pedra no século XIV nesse "meravigliosi spigoli di pietra".

Depois de reparar no sexo reparei no sangue. Na fachada que dá para a Piazetta, o cor-de-rosa evanescente da fachada e das colunas (o cor-de-rosa mais cor-de-rosa alguma vez alcançado) é interrompido duas vezes em duas colunas, que contrastam com todas as outras por um encarnado fortíssimo. Porquê? Aí mo explicaram. Entre essas duas colunas eram anunciadas as penas de morte decretadas pelo Conselho dos Doges. Junto à morte, detinha-se o rosa e o sangue o substituía, efémero e brutal. Aliás, o mesmo sangue é cor da coluna de um metro que hoje está junto à Igreja de São Marcos, mas, em tempos idos, estava entre a coluna de S. Marcos e a de S. Jorge, frente ao mar. Sobre esse tronco de pedra eram degoladas as vítimas que tinham como última visão o dragão vencido ou o leão alado. Reparei - e aí mais parei do que reparei - que, perto do Rialto, na Igreja de San Salvador está a Anunciação mais terrível que alguma vez vi, obra célebre de Tiziano, que mil vezes vira em reproduções e só agora vi em carne e osso. Porque se cobre a Virgem com um véu à aproximação de um Arcanjo aterrador, com asas colossais que dominam o quadro enorme? Porquê tanta luz e tanta cor a acompanhar a descida do Espírito Santo rodeado por anjos álacres e pulcros? Ao fundo, no altar-mor da mesma Igreja, a Transfiguração, também de Tiziano, mostra-nos que nenhum dos Apóstolos conseguiu fitar as vestes branquíssimas de Cristo, estabelecendo uma divisão claramente platónica entre o que cega os homens das cavernas (os apóstolos) e o que iguala as Ideias da Luz (Cristo e os profetas). A quinta coisa em que reparei foi num palácio do Grande Canal, que é dos mais belos e mais ogivados. Ca D"Ario chama-se. O meu guia de ocasião informou-me que estava à venda e que há 50 anos o estava. Porquê? Porque se diz que uma maldição primeva atingirá todos os seus proprietários e até hoje ninguém escapou. Sabem quem foi o último presumível comprador, que chegou a dar sinal, mas que à última hora teve mais medo do que dinheiro? Woody Allen.

 

5. À noite debrucei-me da janela do meu quarto, num dos últimos pisos do Danieli, e olhei para a água negra cá em baixo, no pequeno canal dos dragões, onde algumas gôndolas jaziam. Em frente, havia uma casa com um belo jardim e, entre as janelas entreabertas, pareceu-me descortinar um vulto que lia de costas viradas para a janela e para mim.
Sem saber porquê, esse choque da luz da janela entreaberta com o escuro da água fechada, esse choque da horizontalidade fronteira com a verticalidade abissal, pareceram-me repetir e recapitular a imagética das fachadas do Palácio dos Doges, os segredos de Tiziano, e continuar a cantar e a contar os cantos eróticos e líricos de fé e de ferro, de sangue e de ouro, de madrepérola e pórfiro que em Veneza se ouvem a cada esquina e em cada rua.
"Senza rumor" dizia, no Senso de Visconti, Franz para Livia, naquele quarto dos Fondamenti Nuovi, onde se abrigavam para as suas tardes de amor. "Senza rumor" voltei a ouvir Veneza agora, ao luar de maio sobre o terraço do Danieli, ou à cor dos cometas abraçando de rosa e piedade o Palácio dos Doges. Palácio feito também da matéria de que os cometas são feitos ou de que eram feitos, nos contos de fadas os fatos, da cor do vento e da cor das nuvens de princesas enfeitiçadas. E um dia, enfeitiçado, já estava de novo em Lisboa, como se nada se tivesse passado e como se não tivesse estado a fazer de Caronte, à proa de uma gôndola entre os dragões de Carpaccio e os anjos músicos do Bellini de San Zaccaria. Esta é a vida de hoje? Não, esta foi a minha vida de ontem, o dia dos impossíveis acontecidos. Até domingo, 5 de junho, dia dos anos da Tia Zina.

 

27 de maio 2005 PÚBLICO

A VIDA DOS LIVROS

De 28 de maio a 3 de junho de 2018

 

«As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens» de Raul Brandão é uma das obras-primas da literatura de viagens em língua portuguesa, facilmente ombreando com os melhores clássicos.


UMA OBRA - PRIMA 

No início das Memórias, Raul Brandão (1867-1930) define o seu modo de ver, a sua atitude: “Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra”. E isto plenamente se manifesta em As Ilhas Desconhecidas – Notas e Paisagens, sem sombra de dúvida uma das obras-primas da literatura de viagens em língua portuguesa, facilmente ombreando com os melhores clássicos. Com efeito, ainda hoje, é impossível compreender os Açores moderno, sem trilhar os passos e entender as apreciações do escritor nessa viagem realizada de junho a agosto de 1924, ao encontro de um mundo de magia e mistério. Ligam-se a natureza, as pessoas, as tradições e a história, e o que resulta é um panorama que naturalmente nos atrai, numa identificação em que nos tornamos participantes num extraordinário laboratório onde o povo açoriano se singulariza nas suas qualidades, através de um melting pot baseado numa rica simbiose entre natureza e sociedade. Dir-se-ia, pois, que Brandão pôde compreender bem a natureza da autonomia açoriana, confirmando os objetivos de sensibilização, que também levaram ao arquipélago no mesmo ano de 1924 a chamada “Missão Intelectual”, por iniciativa de José Bruno Carreiro, constituída entre outros por Antero de Figueiredo, José Leite de Vasconcelos, Teixeira Lopes, Luís de Magalhães, Armindo Monteiro e Joaquim Manso. Não esquecendo Mês de Sonho de José Leite de Vasconcelos, com objetivos mais específicos, pode dizer-se que a obra de Raul Brandão constitui uma peça crucial para a compreensão da especificidade açoriana e para a construção da autonomia constitucional hoje consagrada. E a grande qualidade cultural e literária contribuiu decisivamente para a afirmação da moderna identidade açoriana.

 

A AÇORIANIDADE
Não por acaso, Vitorino Nemésio coloca uma afirmação de As Ilhas Desconhecidas como uma das epígrafes, ao lado de Melville e Chateaubriand, em Mau Tempo no Canal: “Já percebi que o que as ilhas têm de mais belo e as completa é a ilha em frente - o Corvo as Flores, Faial o Pico, o Pico São Jorge, São Jorge a Terceira e a Graciosa...”. O arquipélago manifesta-se em toda a sua pujança e originalidade nessa relação entre as ilhas. E assim a identidade não é uniforme, mas necessariamente polifacetada. Como tem sido salientado, é talvez nesta afirmação que se encontra condensada a compreensão exata da açorianidade – como paradigma cultural, geográfico e antropológico. Lembremo-nos do capítulo emblemático sobre a pesca da baleia. É como se participássemos desse espetáculo único do homem perante a necessidade e o perigo: “A claridade espelha-se e escorre no dorso escuro e molhado. O barco aproxima-se sem ruído, o arpoador à proa, com o arpão erguido nas duas mãos, firme nos pés e na atitude de arremesso. É um ferro com setenta e cinco centímetros e dois metros de cabo. Ao lado, no barco, vai a lança, que é maior, para acabar este monstro do tamanho dum prédio. Mas o homem impressiona-me ainda mais que a baleia: é tremendo, de pé, minúsculo, com a vida no olhar e nas mãos. No barco está tudo calado e ansioso, ninguém diz palavra inútil: homens, barco, arpoador e arpão, tudo tem o mesmo corpo e a mesma alma…”. A descrição coloca-nos de pleno na cena teatral. Sentimo-nos protagonistas do combate. Como na grande literatura, as palavras servem para dar o ritmo certo – até ao momento em que tudo se consuma. O bicho hesita e é como na arena quando o touro é atingido pelas bandarilhas, com outra intensidade, com outra força. Garrett foi claro um dia: a valentia dos homens do mar sobreleva a dos toureiros e campinos. É que tudo começa aqui num verdadeiro combate de sobrevivência, até ao momento dramático e heroico, em que se ouve finalmente: “ – É nossa! é nossa!”. Arreiam-se as velas, tranca-se a baleia! Define-se quem partilha os louros. Mas a função não terminou. “Falta o pior; falta trazer o bicho para terra, o que leva horas, leva o dia”. Neste combate, está o climax da obra, justamente considerado como o elemento definidor do caráter dos protagonistas e do seu povo. E a descrição, apresentada na sua crueza e força, completa-se pelo testemunho das gentes. “Os homens do Pico são os homens mais sãos que conheço. Vejo-os diante de mim como torres e um olhar que não engana. (…) Quase toda a gente sabe ler no Corvo e no Faial. Há menos analfabetos que no continente. Reparem na gente do campo, na limpeza das casas, e na situação da mulher, que é tratada com respeito e ternura”. Ah! A gente falada é acolhedora e recorda a faina do mar e a labuta em terra, mas alimenta o sonho de ir até à América, levar a experiência do mar açoriano a terras longínquas – Nova Iorque, a grande metrópole, Califórnia, S. Francisco, a febre do ouro, as ilhas Fidji, as boas tripulações de portugueses. “Quase todos os homens, e até mulheres, emigram para a América, e os que não emigram é porque não podem fugir. Se a América abrisse largamente as portas, os Açores despovoavam-se. Já faltam braços para cultivar as terras”.

 

UMA SOBERBA ESCRITA
O livro é feito de notas de viagem. E a escrita é soberba. “Os jardins são sempre uma obra de arte, e, quanto mais desordenados, mais belos”. Ao falar do Corvo o autor encontra braveza, solidão e negrume, nesta “democracia cristã de lavradores”, e recorda Mouzinho da Silveira e o seu incumprido testamento: “Quero que o meu corpo seja sepultado no cemitério da ilha do Corvo, a mais pequena das dos Açores. (…) Gosto agora da ideia de estar cercado, quando morto, de gente que na minha vida se atreveu a ser agradecida”... Enquanto o Corvo é espesso e nu, as Flores são violeta e verde. Brandão espanta-se por não ser o padre a oficiar o culto do Espírito Santo – “é o povo que o celebra, o povo grosseiro e rude, que traz para diante do Santo Espírito a Santa Matéria. O Padre apenas colabora”. O escritor vê e ouve, em êxtase, o límpido ruído das águas, descobrindo nas Flores a “música pastoril e sagrada”, que é a voz da “floresta adormecida”. No Faial, a ilha azul, Raul Brandão apaixona-se pelas hortenses que ladeiam os caminhos. “O Faial adormece em azul sob o céu de cinza e com o Pico todo violeta ao lado”. E tal é a luminosidade que os melros se enganam nas “noites de lua redonda e branca e desatam a cantar desvairados”. A Horta é uma cidade encantadora, de gente ilustrada e hospitaleira, tendo em frente o Pico formidável. O capote das mulheres protege-as de tudo – e é “pelo sapato e pela meia que se sabe se é bonita”. A beleza do Pico é estonteante, sem igual. É, como o Adamastor, “uma estátua erguida até ao céu e amoldada, pelo fogo”. Ponto a ponto, ilha por ilha, Raul Brandão deixa-se enamorar pelos Açores: em S. Miguel, com as Furnas e as Sete Cidades, transportado à pura natureza e às mais antigas lendas; em Angra do Heroísmo, perde-se “nas quintas e nos jardins entre quadros rústicos de lavoura”; ou no súbito vislumbrar de quatro ilhas, saindo do mar ao mesmo tempo – a Graciosa de um “verde muito tenro”, a Terceira quase desvanecida, o “biombo violeta” de S. Jorge e o “cone do Pico aguçado até ao céu”… Sente-se a cada passo um incontido prazer, de usufruir de uma beleza fantástica.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Os primeiros parágrafos da presente carta foram redigidos bem depois de todos os outros. Acrescento-os agora, em lembrança de que os últimos são os primeiros, sobretudo a abrir um texto que, afinal e sub-repticiamente, vai discorrendo sobre a utopia ou, partindo da selecção e apontamento quotidiano de factos noticiados e declarações, res et verba, vai sonhando alternativas. Não sou nada, nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo - diz Fernando Pessoa, pela boca de Álvaro de Campos que, não esqueças, era engenheiro. A dado passo do seu Bárbaros e Iluminados (Dom Quixote, Lisboa, 2017), Jaime Nogueira Pinto fala-nos Da Utopia à Revolução: Vinham de muito longe as utopias e era velho o desejo de «uma nova humanidade», mesmo pondo de parte as visões platónicas e bíblicas de cidades e comunidades ideais, perfeitas, ou as múltiplas projecções medievais dos países da Cocanha e das Cidades do Sol.

 

   Em 1516, Sir Thomas More, chanceler de Henrique VIII de Inglaterra e depois santo da Igreja Católica de Roma, escrevera a mais famosa, a Utopia propriamente dita : o primeiro tratado político-filosófico dessa natureza nos tempos modernos, pioneiro de um género literário e político que, a partir de sociedades ideais, procurava fazer a crítica do presente e apresentar, racionalmente, uma sociedade tão perfeita quanto possível.

 

   Na afortunada ilha da Utopia eram pequenas as diferenças sociais, o trabalho era para todos e todos estudavam. Queria-se uma sociedade austera, regrada, baseada na família monogâmica, em que os cidadãos, libertos das dificuldades materiais, pudessem dedicar-se às coisas do espírito. Assim, naquela ilha perdida em vagos e remotos mares, More construía um modelo alternativo e exemplar, um ideal a considerar e não um manual pronto a ser executado.

 

   Não pretendo - tomo Deus por testemunha! - esboçar sequer o índice de qualquer tratado ou modelo de sociedade das nações ou de relações internacionais, estou, pela própria limitação das minhas capacidades, constrangido à ousadia receosa de algumas interrogações suscitadas pelos tais factos e declarações apontados. Foi o que fiz, ao longo de umas semanas, e ora te envio. Regressemos então ao dia da passada cimeira coreana.

 

   Deu-se hoje o encontro dos dois coreanos, o do norte e o do sul. Ambos vivem acima ou abaixo do paralelo 38N, fronteira ou linha de divisão entre o mesmo povo, ali riscada pela régua da trégua ou armistício da chamada Guerra da Coreia. Quero com isto metaforicamente sublinhar que o que se vai passando é mais importante e profundo do que qualquer diligência de natureza diplomática ou política: é uma tentativa de reunião de uma família, numa nação em que, tal como na China, alguém modelou o estado político pelo gregarismo familiar. Noutra carta te falarei disso. Neste momento só posso alegrar-me com a boa nova e fazer votos por que tudo continue a harmonizar-se. Vemos o mundo mudar: assim seja, para melhor! E talvez eu possa fazer votos por que se deixe a maioria do percurso deste caminho ser feita pelos dois atuais estados coreanos... Trump já começou a reclamar louros, mas a desnuclearização da península coreana - que terá, certamente como contrapartida, a indispensável "desamericanização" militar da Coreia do Sul - deveria ser negociada entre os dois governos indígenas, pelo que os EUA só se deveriam limitar a aceder ao pedido que lhes for feito pelo aliado de Seul. É fundamental respeitar-se a dignidade dos povos, sobretudo a dos que já tão castigados foram. Aliás, tal propósito parece-me fundamental na construção de uma via credível e praticável por todos, a caminho de uma nova cultura da paz. Os EUA deveriam remeter-se ao papel de garantes da aliança com a Coreia do Sul (e com o Japão), respeitando os compromissos que há muito, assumiram. Não têm de se arvorar em árbitros de uma região onde, todos sabemos, a China e a Rússia são igualmente estados soberanos... Deixem, tanto quanto possível, a Coreia aos coreanos, e a vizinhança aos vizinhos.

 

   Três dias depois de te ter escrito isto, fala-se em atribuir o Nobel da Paz a Trump. Por mim tudo bem, há muitos anos que penso não ser qualquer prémio Nobel uma "estrelinha do norte a alumiar o meu caminho"... Mas haja, não só decência, mas tento, bom senso... Republicanos made in USA logo alvitraram tal hipótese, que se repercutiu e ganhou eco. Já a viúva do ex-presidente sul coreano Kim Dae-jung, quando enviou ao actual, Moon Jae-in, uma mensagem de felicitações, disse-lhe que ele merecia o Nobel, que, aliás fora também dado ao seu defunto marido... Ao que este artífice de paz, a quem também chamam o Mandela coreano, pela sua resistência à ditadura e luta cívica por democracia autêntica e livre, respondeu: "Dêem o Nobel ao Trump e ao presidente da Coreia do Norte... desde que assim a paz se faça!"

 

   Quatro dias depois, tiro o chapéu, uma vez mais, ao presidente da Coreia do Sul: diz ele que a monitorização da desnuclearização da Coreia do Norte deverá ser confiada à ONU... No dia em que Trump aprova os argumentos de Netanyahu sobre o desrespeito do acordo nuclear pelo Irão, para apoiar a sua própria decisão (?) de retirar os EUA do mesmo, tal alvitre ganha ainda mais sentido. Tal como o estado de direito só existe se for garantida a separação dos poderes político e judicial, assim também a pacificidade das relações entre nações só poderá ser assegurada pela independência dos árbitros de diferendos e conflitos e dos monitores do bom cumprimento de decisões e acordos.  E que a virtude pessoal de despojamento de Moon Jae-in, não nos faça esquecer que, já para muitos, é difícil aceitar a actual composição do Conselho de Segurança da ONU, guardando lugares cativos para os seus membros permanentes e assegurando direitos de veto só para alguns : não deveria antes tal órgão ser simplesmente eleito periodicamente por maioria de votos, em listas presentes à Assembleia Geral, de todos os estados membros, conformando-se ainda o direito de veto à maioria absoluta (+de 50%) dos votos dos membros, todos eleitos, do Conselho de Segurança? Por muito mais debates e negociações que tal sistema  viesse a exigir, não só seria mais equitativo o resultado, pondo termo à situação de claro privilégio e prepotência das maiores potências, como talvez fortalecesse a consciência da responsabilidade internacional. E é nesta responsabilização de cada nação face às outras, no incontornável concerto de todas, que penso agora. Sem esperar uma qualquer maior eficácia das medidas de intervenção da ONU: quanto a estas, não me esqueço de que o direito internacional público não dispõe, mesmo no regime hoje vigente na ONU, do poder coercivo necessário a fazer respeitar decisões, decretos ou sentenças. Bastará referir - para simples entendimento da questão - a impunidade com que o estado de Israel continua a ser uma potência colonial na Palestina, agredindo populações autóctones e ocupando territórios que não lhe pertencem nem lhe foram confiados (a título de protectorado ou outro), fazendo tábua rasa de acordos firmados, tudo isso fundamentado, tão só, no facto da sua vitória militar de 1967. Incluindo a declaração de Jerusalém como capital de Israel, em desrespeito da divisão da cidade (leste/oeste) como condição da partilha da Palestina e reconhecimento´internacional de um estado de Israel há setenta anos atrás. Eu mesmo, lamentando e repudiando as odiosas declarações antijudaicas do presidente Abbas, sobretudo ao insinuar que o holocausto resultou de uma reacção à agiotagem gananciosa dos judeus - das quais, aliás, o líder palestiniano já se penitenciou - sinto-me na obrigação moral de lembrar que o espírito e a política sionista dos governantes do actual estado de Israel não deixam de evocar as perseguições nazis e outras. Faço-o sem qualquer gosto, antes com muita amargura. Já poderei tremulamente sorrir, a esconder o susto, ao recordar-me de que o presidente Trump, no passado outono dizia cobras e lagartos do presidente norte coreano, e nesta primavera já afirmava que Kim Jong-un é "pessoa muito aberta e muito honorável". (Sic.)

 

    Lembra-te, Princesa, do que há dias disse o presidente Rohani, do Irão, sobre o possível acordo coreano de que te falo acima: Problema é não se poder confiar nos EUA... Na verdade, o que justifica a retirada americana do acordo firmado com o Irão, que compromete os EUA que o assinaram? No dia em que Trump vai anunciá-la, a Casa Branca também noticia que, afinal, o presidente americano não irá à inauguração da nova embaixada dos EUA em Jerusalém. Não percebo porque é que tantos jornalistas não gostam do Donald : ele está sempre a dar-lhes novidades... Mais certinho é o Netanyahou: hoje mesmo, quando Trump retira os EUA do acordo iraniano, dando também razão ao primeiro israelita que acusa o Irão de ser terrível agressor e terrorista, um perigo para a paz, Israel chuta uns mísseis para cima de posições iranianas na Síria, as quais, antes, durante ou depois, também atiram com uns às forças israelitas estacionadas no Golan, território sírio que estas ocuparam em 1987. Pouco importa quem disparou primeiro, ou se foram milícias chitas sustentadas pelo Irão. Antes pergunto se não será possível que a comunidade internacional, através das suas próprias instituições e regras acoradas, intervenha para solucionar o conflito. Porque a verdade é que nem Irão, directamente ou por interpostas milícias, nem Israel, como ocupante, têm de estar no Golan. Tampouco haveria guerra na Síria, com matança de tantos inocentes indefesos, se nenhuma potência estrangeira fornecesse armamento.

 

   E, já de seguida, Trump volta a embandeirar em arco com os três americanos (coreanos) que Kim Jong-un libertou e Pompeo traz no seu avião de regresso aos EUA. Dois deles trabalhavam para a Pyongyang University of Science and Technology  e foram detidos em 2017. O outro era um pastor cristão, agricultor e negociante entre Coreia do Norte e China, numa zona económica especial, preso em 2016. De seus nomes: Kim Hak-song, Kim Sang-duk (ou Tony Kim) e Kim Dong-chul. Que tipo de contactos teriam e que informações fariam circular, não sabemos e de nada serve imaginar. Mas é certo que o governo Obama, ao contrário do que o seu sucessor se apressou a proclamar agora, não terá falhado na procura da libertação destes "wonderful gentlemen" (palavras de Trump), um tendo sido preso já em finais do mandato dele, os outros dois já durante o "reinado" do imperador Donald. Mas todo esse floreado nos permite suspeitar de que Kim Jong-un estará a jogar na vaidade americana para conseguir alguma vantagem, ou que essa mesma jogada já fora premeditada como garantia de a Coreia do Norte conseguir um estatuto de parceiro igual nas negociações com os EUA... Vai tudo dar ao mesmo, e também neste momento político-diplomático China e Coreia do Norte tiveram outra cimeira... O Oriente fia mais fino do que Trump, sabes? 

 

   No tocante ao Irão, está certamente por detrás da atitude americana esse senhor John Bolton, de quem te falei em carta anterior. Como esteve por detrás de G .W. Bush, na disparatada decisão sobre o Iraque. Mas refiro-te todos estes factos, não por achá-los muito interessantes, mas porque, simplesmente, seja qual for a sua confirmação ou evolução e, mais ainda, independentemente das suas consequências - que nenhum de nós, Princesa de mim, deseja gravosas seja para quem for - eles talvez possam fazer-nos refletir um pouco mais, com alguma distância e orientação valorativa, na pertinência dos nossos pensamentos, actos e omissões. Sobretudo, enquanto filhos deste velho continente, na necessidade de nos reencontrarmos na comunhão da cristandade constitutiva e das luzes emancipadoras, e não hesitarmos em enfrentar o materialismo negociante nem o imediatismo mediático. União europeia na firmeza, no respeito pela igualdade dos povos e dignidade dos Estados, independentemente do seu poderio ou da sua bazófia, abertura ao diálogo global que perspective e condicione a construção de um mundo de paz, cada vez mais livre de prepotências e chantagens. Exemplo : o princípio iraniano que, em latim clássico, se diz Delenda est Israel, é certamente inaceitável, e deverá ser retirado pelos seus próprios líderes do seu programa. Mas acusar o Irão, contrariamente ao parecer da própria agência monitora internacionalmente aceite, de desrespeito do acordo nuclear acordado, e permitindo que Israel persista em provocações e mentiras, progrida na ocupação ilegítima e ilegal de territórios palestinianos, agrida manifestantes em Gaza, etc., etc., não será propriamente o melhor começo para uma persuasão dos dirigentes de Teerão a colaborar num processo de paz. Por outro lado, talvez não fosse despiciendo reflectir sobre de que modo, e com que consequências, o conceito chinês de tiangxia se poderá afirmar como alternativa, no concerto das nações, a proclamações de índole «America first!»    

 

   Eis aqui muito para pensarsentir.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

O Teatro da Trindade de Buarcos: exemplo de descentralização

 

Temos aqui referido o Teatro da Trindade de Lisboa e, como bem sabemos, a sua estrutura arquitetónica, a sua tradição histórica, a sua brilhante atividade constituem exemplo marcante da atividade cultural, sobretudo nas artes da música e do teatro declamado: e aí justifica-se inclusive a evocação da Companhia Portuguesa de Ópera que tanto marcou a vida cultural e artística portuguesa.

 

Mas recuamos no tempo para lembrar que o Teatro da Trindade de Lisboa foi inaugurado em 1867, mantendo desde então e até hoje, como aqui temos amplamente referido e tornamos a referir, a arte e a cultura portuguesa.

 

E vale então a pena recordar que o Teatro da Trindade de Lisboa abriu ao público pela primeira vez em 30 de setembro de 1867. O projeto original, ainda amplamente reconhecível, deve-se ao arquiteto Miguel Evaristo de Lima Pinto: e apesar do Teatro de D. Maria II funcionar na época já há cerca de 20 anos, inaugurado que foi em 13 de abril de 1846 com o drama “O Magriço ou os Doze de Inglaterra” de Jacinto de Aguiar Loureiro; e de funcionarem já em Lisboa os Teatros do Salitre e da Rua dos Condes, ambos de finais do século XVIII.

 

E mais: antes deles, temos no Porto o então chamado Teatro do Corpo da Guarda, inaugurado em 13 de maio de 1762 e o Teatro Sá da Bandeira, este de 1874, então denominado Teatro do Príncipe Real. E o Teatro Baquet de 1859 ou, em Lisboa, o Coliseu dos Recreios de 1890: e tantos mais teatros, nos centros urbanos da época, para não falar no Teatro de São Carlos, que foi inaugurado em 13 de junho de 1793 e é, desde então e até hoje, o edifício de espetáculo mais relevante.

 

E já agora podemos referir o Teatro das Laranjeiras, edificado por João Pedro Quintela, 1º Conde de Farrobo, no que é hoje o Jardim Zoológico de Lisboa. O Teatro é inaugurado em 1825 e funcionou como teatro de ópera com a “originalidade” para a época de não se restringir ao repertório italiano: Farrobo, que estudou musica com Domingos Bomtempo, dirigiu a certa altura o Conservatório e introduziu, precisamente no Teatro das Laranjeiras, um repertório à época moderno.

 

De notar que este Teatro das Laranjeiras foi a primeira sala de espetáculo a introduzir um sistema de iluminação a gaz: isto, a partir de 1842, numa fase de restauro sob a traça de Francisco Lodi.

 

O Teatro arde em 9 de setembro de 1862:  e Farrobo, a caminho da ruina, não o reconstruiu.

 

E no entanto, na época, começava a praticar-se uma política de descentralização que conduziu à edificação de teatros um pouco por todo o país.  Na segundo metade do século XIX são já numerosos os exemplos dessa descentralização e interiorização. O exemplo que hoje aqui referimos ilustra bem a mudança cultural registada mesmo em localidades de bem menor dimensionamento e tradição cultural.

 

Trata-se do pequeno Teatro da Trindade de Buarcos, construído por iniciativa de um proprietário local, de seu nome Fernando Augusto Soares, o qual, regressado do Brasil onde enriqueceu, fez construir em 1910 um chamado Teatro da Trindade, não tanto como réplica do Teatro homónimo de Lisboa, mas como homenagem à sua própria mulher, de seu nome D. Maria da Trindade! João de Barros e Santana Dionísio referem-no no “Guia de Portugal”.

 

E o que aqui importa salientar é que este pequeno Teatro da Trindade  manteve-se em atividade até aos nossos dias. O Teatro, com os seus doze camarotes atrás de uma bela fachada neo-manuelina, não tem nada que ver com a sala de Lisboa mas constitui, isso sim, exemplo e modelo de uma notável expressão de arquitetura de espetáculo.

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXIV - SÍLVIO ELIA

 

Tomando como orientação o sentido dado à palavra România no mundo neolatino, o brasileiro Sílvio Elia chama Lusitânia a um território cultural único formado pelo espaço geolinguístico ocupado pela língua portuguesa, no todo da sua unidade e variedade.

 

Esse espaço, que simboliza a unidade do sistema da língua, das viagens e seus viajantes, é o espaço da Lusofonia, sendo lusofalantes os seus utentes.

 

Tendo em atenção o estádio atual do nosso idioma no mundo, após a segunda guerra mundial, enumera cinco faces da Lusitânia atual: Lusitânia Antiga, Nova, Novíssima,  Perdida e Dispersa (“A Língua Portuguesa no Mundo”, São Paulo, Ática, 1989).

 

A Lusitânia Antiga compreende Portugal, incluindo as atuais Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores. Trata-se da Lusitânia Continental e Insular.

 

A Lusitânia Nova é o Brasil.

 

Os cinco países africanos de língua oficial portuguesa (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe), a que se junta Timor-Leste, na Ásia, constituem a Lusitânia Novíssima.  

 

Lusitânia Perdida são pequenos territórios isolados em regiões da Ásia e da Oceânia, onde não vê esperança de sobrevivência da língua portuguesa.

 

Lusitânia Dispersa são as comunidades migrantes de fala portuguesa dispersas pelo mundo não lusófono. 

 

É uma visão de um cidadão de um país independente descendente de uma antiga colónia europeia, cujos sucessores dos colonos europeus acederam diretamente ao poder e passaram a liderar o seu destino, em que a opção da língua não era um dilema, dado ser o idioma materno de quem havia colonizado e ser tido como uma consequência natural para os novos colonos, elites e senhores do poder. 

 

Ao invés das antigas colónias africanas e asiáticas, cujos dirigentes e elites indígenas tiveram de optar, ou não, dado o contexto, pelo idioma do antigo colonizador.

 

Há um prolongamento do mundo ocidental, um segundo Ocidente, que agarra mais de perto o primeiro Ocidente, nos países cujos dirigentes são descendentes dos antigos colonos europeus, onde o ressabiamento e ressentimento é menor, por confronto com a maior desconfiança e trauma dos dirigentes nativos não descendentes dos colonos das antigas potências colonizadoras.

 

Se bem que, nos tempos atuais, dada a globalização, se possa falar numa geoestratégia de longo prazo, em que o paroquial, o local, o regional, o transnacional e intercontinental já não chegam, dada a internacionalização global via internet e fluxos imateriais a ela inerentes, em que o fator língua está sempre presente, rumo a uma língua de exportação, internauta e interplanetária como sucede com a língua portuguesa, atualizando-a e adaptando-a aos nossos dias, por acréscimo à terminologia de Sílvio Elia. 

 

22.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

Lídia Jorge

 

Estuário, o seu novo romance

 

Creio que as pessoas se perdem de nós e nós delas como se empurrássemos mundos que só se distanciam porque com o tempo somos conquistados por outros modos: pela morte ou pela vontade de uma escrita que os aceita, os quer buscar mesmo até à nudez que nos esclareça de tão blindada se sentir.

 

E escreve Lídia

 

Que a vida só está completa quando, ao morrermos, sentimos que obtivemos o conhecimento suficiente para outra vez nascermos. E essa contradição entre saber e percurso parece querer dizer que alguma coisa não está no seu lugar, mas está.

 

Escrever sobre este poderoso romance não é fácil, nem pretendo fazê-lo de jeito tradicional. Vou tentar dizer dele o que melhor saiba pelo ângulo que o senti, e direi de modo bifurcado, entre o espaço protetor do romance e o espaço sem contemplações do mundo cá de fora. E assim

 

Oferece-se também Edmundo para ser adivinhado neste livro e viver nele - terra tremenda - todas as traves, as casas, as muralhas, as ameias, o crepitar de vidas que ele quer colher no seu livro, escrito por sua mão amputada, por seus olhos fotográficos, pela sua capacidade de decifrar até quando desejará escrever tão avidamente o livro que tanto deseja, e deseja-o enfim, ao ponto de saber por entre as coisas secretas, que nenhum passo mais o levará a escrever algum dia esse livro, embaraço desvendado e eventualmente perturbador da sorte que lhe reserva um texto, qual grito de ave, lâmina.

 

Quero pensar que por entre os personagens de Estuário, por Edmundo Galeano chego a Tatiana e aos brincos de pérola, como proponho a chegada de David e da baleia cantora ao título do livro de Edmundo, a esse título 2030

 

E


Porque não havia uma correspondência entre as palavras e o mundo, ainda que muitos dissessem que sim. (…) que sentido tinha isso? O amor de Tristão e Isolda já não existe mais à face da Terra, ou antes, sabia-se agora que, afinal, sempre fora aquilo que fora, um mito construído com imaginação e palavras.

 

Um brinco de pérola salgada muito bela e criado em água doce e mansa. Ou a pergunta de David

 

Mãe, uma pessoa que se pendura de uma trave para morrer é muito fraca ou muito forte?

 

E responderá a baleia cantora pelo hino de Deméter que afinal é feliz quem dos viventes pergunta tal coisa.

 

Pois e não é que

 

Edmundo Galeano também entrou neste livro por uma garrafa que aportou à casa das vidas que queria escrever, que aportou ao estuário das saciedades e dentro da garrafa, uma película inextensa lhe permaneceu em negativo algures no seu cérebro.

 

Este livro de Lídia Jorge é também poético de tão real. Parece todo ele escrito entre o pôr-do-sol e o vir da noite, e, acaso adivinhais que nele também é dito

 

Quem disse alguma vez que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo, troçou da inteligência alheia. (…) Por que razão a vida sonhada era tão leve e a vida vivida, tão pesada? A imaginação tão diáfana, a realização tão grosseira? Perguntou-se Edmundo Galeano, com os olhos cheios de tristeza.

 

Edmundo optará por um regresso à casa, à casa junto à Praça do Mar e escreverá afinal o seu tão ansiado livro. Escreverá numa passada tutelada pela biblioteca onde A Cartuxa de Parma, A Peregrinação, a Ilíada, a Odisseia, O Homem sem qualidades, o Livro do Riso e do Esquecimento, a Ode Marítima, iluminarão sempre o que de melhor de si se salvará: a mão mutilada e afinal plena, ampla, como cavalo fogoso, agora esporeada para que a realidade não se fique por uma polegada acima ou abaixo do Estuário, antes substanciosa à vida.

 

Assim Lídia, neste teu livro senti uma mistura de inquietude e mágoa, humor e absurdo, capricho e segredo, mito e fantasia e o quanto as ligações humanas são todas tão perto do caos, verdade-herdeira de quem as escreve por mão insubmissa.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Uma breve aproximação à Pintura, segundo Júlio Pomar.

 

'Assim a pintura veste uma aparência de quadro, pedaço solto do universo de repente insólito como um grande plano retirado de um filme.', Júlio Pomar 

 

A pintura para Júlio Pomar é uma revelação. É uma descoberta de algo que já existe mas que está coberto. É um diálogo aberto do artista consigo próprio. Mas também uma operação de síntese em que com toda a honestidade se mostra o fazer, o desfazer, o refazer e o nada a fazer. 

 

'A pessoa vai-se fazendo como se desfaz.', Júlio Pomar

 

A pintura sucede assim por aproximações, por escolhas e sucessivas seleções, porque nada é posto de parte. Para Pomar existe sempre uma simultaneidade de opções e tentativas. Ao conjunto de marcas, que se vão definindo com mais ou menos precisão, adiciona-se o poder do artista em fazer aparecer uma imagem. O processo, a maneira de descobrir, tudo vale a pena ser revelado numa pintura. Isto porque a imprecisão e a interrogação faz parte da procura. Uma pintura mesmo acabada é sempre um estado de matéria débil, frágil e momentâneo. 

 

'Não é o motivo, o tema, o assunto o que me interessa: é o que se passa entre mim e o motivo.', Claude Monet

 

Pintura para Pomar é uma maneira de entendimento e de participação no mundo - é um corpo a corpo com a matéria e com as analogias ou diferenças que determinam a aparição de uma imagem. A marca na pintura aparece antes da palavra, aparece através da difícil relação entre o fácil e o tempestuoso, entre o lugar comum e a exceção. Na tela, a tinta e a sua espessura, a mão e o pulso confrontam-se, e transformam o acidental e o pensado em volumes e sombras. A tela permite a abertura e a progressão do corpo e da matéria. Fixadas estão as dúvidas assim como as certezas e é nesse espaço movediço que se descobre o sentido da obra e a sua capacidade de espantar.

 

‘O real para mim, corresponde, digamos, à exaltação de um sentimento vital. O real para mim é a aparição do milagre. O milagre, para mim, é a gente ser capaz de querer viver e de querer sentir bem a viver. É tão raro que vale a pena chamar-lhe milagre.’, Júlio Pomar

 

Ana Ruepp

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