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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Zhao Tingyang avisa-nos de que Tianxiá é uma redefinição da política, um tratamento do mundo como sujeito político. A China é uma narrativa, enquanto que o Tianxiá é uma teoria. Vamos então ao seu Tianxia - tout sous un mêma ciel (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018), de que já te falei, ler o que o filósofo chinês - que alguns pretendem ser um ideólogo do nacionalismo chinês na atualidade - nos diz de um conceito trimilenário que ele hoje retoma. Traduzo:

 

   A mundialização, no seu turbilhão, arrasta tudo e por todos os lados, e nada doravante existe fora desse fenómeno. Menos prezar este novo contexto político tornaria difícil uma pertinaz definição dos problemas do mundo contemporâneo. Na verdade, não é só a questão política que se transforma, mas também a maneira de existir do mundo, que deixa pressagiar um mundo do futuro a necessitar de uma ordem de ser que lhe corresponda, a saber, uma ordem que realize a sua inclusão: chamo-lhe o sistema Tianxiá. É certo que o Tianxiá é um conceito nascido na China antiga, mas não é específico da China: os problemas a que se atém ultrapassam a China, são problemas universais que envolvem o mundo. O termo Tianxiá designa um mundo que possui a sua própria mundialidade. Também podemos interpretá-lo como um processo de formação dinâmica que se refere então à mundialização do mundo. O sistema Tianxiá da dinastia dos Zhou na China (1046-256 a.C.) desapareceu há muito, mas o conceito de Tianxiá que esta nos legou tornou-se em fonte de inspiração para imaginarmos o futuro do mundo. Ninguém conhece o porvir, mas não podemos calar-nos acerca dele, e uma ordem mundial cuja intenção fosse a bondade universal mereceria ainda mais a nossa imaginação.

 

   Vês assim, Princesa, como retomo a tentação de cair em utopia - ou em utopias de que te falei em carta recente - por me parecer ainda que a invenção dum mundo novo se fará apenas pelo propósito da descoberta de uma nova cultura da paz. E revejo-me -  lembra-te do que então te escrevi - no Zhao Tingyang que diz: Os conceitos políticos internacionais definidos pelos Estados Nações, os imperialismos e as rivalidades pela hegemonia vão perdendo a sua pertinência face à realidade da mundialização. Se esta não tiver retrocesso, os poderes supremos definidos pelos Estados Nações, tal como os jogos de política internacional que deles decorrem, pertencerão ao passado, enquanto que os novos poderes de redes mundializadas pós contemporâneas e uma política autenticamente mundial constituirão o futuro.

 

   [Hoje mesmo, domingo 13 de maio, assisti pela TV à missa celebrada pelo cardeal chinês, bispo emérito de Hong Kong (há por aí cada vez mais eméritos, caramba!), que, adolescente ainda, foi de Cantão para o seminário de Macau, quando a sua família se refugiava na colónia britânica de Hong Kong, nesse pós guerra perdida pelos japoneses e retomada pelo confronto entre nacionalistas e comunistas chineses. Trágico mas real. Também assisti na véspera à procissão das velas, uma maré de peregrinos acesos por dentro e por fora, vivos de uma fé que não se cansa de lhes dar esperança, e me comove no íntimo de mim porque não sei que mais fazer para que assim seja. Comungo com eles nessa estranha força que jorra dentro de nós e nos diz a certeza de um dia encontrarmos a utopia.  E lá me lembrei de outras notícias, mais ou menos fresquíssimas, que nos dizem o susto europeu (sobretudo francês e alemão) com as ameaçadoras sanções da américa trumpista a empresas europeias com interesses praticados no Irão, sublinham os bombardeamentos israelitas a posições iranianas, bem como o pronto sim-sim e aplauso de Netanyahou à vitória da sua bandeira na Eurovisão e à possibilidade de, em 2019, o dito festival se realizar em Jerusalém! Tudo já combinado, "pacífico" e animador, como poderás imaginar. Perigoso, a tal ponto, que já se fala da eventualidade do secretário de estado Pompeo servir de mediador entre a agressividade de Bolton/Trump na questão iraniana e a moderação diplomática do secretário da defesa Jim Mattis. Seria uma boa obra, mas penso agora nos palestinos, cristãos e muçulmanos, vítimas dos "nazis" israelitas. Este parêntese serve para te mostrar como as boas intenções religiosas nem sempre vencem o maligno, nem Nossa Senhora de Fátima, em 1917, conseguiu que a guerra terminasse imediatamente, como tampouco evitou o massacre de milhares de portugueses em La Lys. Isto é: impõe-se despertar as consciências humanas para a ação redentora. Era menino e ensinaram-me: Aide toi et le Ciel t´aidera!]

 

   A grande dúvida estará entre se a inteligência e a vontade dos humanos saberão levar avante um olhar limpo e novo e o gosto de construir em comunhão a terra, até hoje de nenhures (a Utopia), onde todos convivamos... ou se a pertinácia do preconceito e da soberba continuará a fechar-nos, uns aos outros, os olhos e o coração. Dirás, Princesa de mim, que eu sou um lírico - responder-te-ei "Sim, Senhora, gosto de sonhar para esquecer". Mas, voltando ao Tianxiá, devo acrescentar que tal conceito é como Janus, tem duas faces, ou poderá tê-las conforme o pensarsentir que se propuser realizá-lo: ou visando converter os povos todos à disciplina anunciada pelo "dono" do mesmo; ou acreditando que será possível despertar em todas as gentes uma consciência militante da construção partilhada da paz. Interrogando-me sobre a China hodierna, recorro ao meu velho amigo João de Deus Ramos, primeiro diplomata português na China, após o reatamento de relações diplomáticas, tendo aberto, em 1979, a Embaixada de Portugal em Beijing, estudioso das coisas do Oriente, sobretudo sínico, e que também esteve colocado no Japão, uma década e meia antes da minha prolongada missão por lá. É frequente, hoje ainda e depois de 65 anos de amizade, conversarmos sobre aquelas experiências. E tive o gosto de reconhecer o labor da sua obra no fomento do Instituto Confúcio da Universidade do Minho, quando, em 2014, um jovem intelectual e empresário portuense, cujo estágio, no Japão e na Coreia, acompanhei, o Pedro A. Vieira, me ofereceu um exemplar de A Herança de Confúcio - Dez ensaios sobre a China, publicado em novembro de 2013 por aquele instituto, e reunindo, com organização da doutora Sun Lam (natural de Beijing, licenciada pela Jinan de Cantão, doutorada pela Universidade do Minho!),  a colaboração de dez autores, entre os quais os meus amigos de que te falo acima. É consolador ver que, em Portugal, também se iniciam estudos sínicos. Mas não irei agora respigar o texto do embaixador João de Deus sobre o relacionamento da China com o exterior. Antes irei buscar ao texto do doutor Luís Cabral, uma Introdução à Filosofia Clássica Chinesa, um esclarecedor esquema que lhe foi sugerido por João de Deus Ramos, e que Luís Cabral assim apresenta:

 

   Passando ao conceito de Tian, que correntemente se poderá traduzir por "Céu", terá porventura na estrutura mental e de pensamento chinês muito mais uma conotação ética e política do que propriamente religiosa. Para uma melhor compreensão do que dizemos, propomos a seguinte narrativa. Pelo século XI a.C., a dinastia Shang foi derrubada pelos Zhou, tendo estes sentido a obrigação ou necessidade de conceber uma teoria filosófica e teológica que justificasse a tomada e o exercício do poder.

 

   A visualização desta filosofia política, filosofia que porventura estará ainda bem presente na mentalidade dos chineses e chinesas modernos, governantes ou governados, poderá melhor esclarecer a importância do conceito, em articulação com outros caracteres conforme o esquema que segue:

 

                                                                                  tian

                                                                   xià           zi          ming

 

em que tian, o Céu (numa tradução simplista, já referimos) teria o direito de oferecer (ou retirar, em caso de má administração) o tianming, ou Mandato Celestial, para que tianzi, o Filho do Céu (Imperador ou Partido Comunista) administre tudo quanto existe, tianxiá, tudo debaixo do Céu, ou seja, a China. É com este esquema elementar que a China foi fazendo a sua história, dinastia sobre dinastia. Não é isto figura de retórica. Sempre que tianxiá está em muito más condições e tianzi é demasiado mau administrador, tian manifesta-se (catástrofes naturais, cheias e fomes, pragas, terramotos, revoluções, etc.) retirando-lhe o tianming. E a dinastia necessariamente muda.

 

   Este esquema de João de Deus (quase uma cartilha maternal da língua sínica) entender-se-ia bem melhor se eu soubesse traçar aqui, nesta carta, os pertinentes caracteres chineses: o tian que diz Céu, o ming que diz mandato ou missão, o zi que diz menino ou filho, o xiá que diz debaixo de... Mas, tal como está, também dá para perceber que tudo se refere ao Céu. No nosso Ocidente, ao que parece hoje em dia, a medida de todas as coisas é o dinheiro. O que, evidentemente, e apesar de não pensarmos nisso, vai afastando qualquer referência estratégica do plano e da prática política do Ocidente. Pois que é bem verdade que o objetivo dinheiro logo torna a atenção e o comportamento numa busca de oportunidades de enriquecimento (e quanto mais imediato, tanto melhor), com esquecimento da prossecução a prazo de valores constitutivos de humanidade: ordem e progresso, justiça e paz. A ideia de riqueza, finalmente, comanda a política. Não aludo apenas à corrupção, nem sequer à cumplicidade do poder político com o financeiro, ao ponto de tranquilamente se aceitar o viático da porta giratória. Refiro-me à propagada idealização do êxito (a que chamam "sucesso", isto é, "acontecido") medido por critérios quantitativos de PIB, lucros, dividendos, salários, e respetivo crescimento...ou de custo, dívida, défice, e respetiva diminuição. Nas relações internacionais, tudo se vai medindo por balanças comerciais e de pagamentos, por compensações e mercados rentáveis, a venda de armamento, por exemplo, não conhecendo, de facto, qualquer limite ético, e todos os bens ditos estratégicos sendo transacionados em função do pagamento ou como armas de chantagem. A cena internacional é também eleita para palco da exibição de megalomanias - de propaganda nacional, partidária ou pessoal (sobretudo para diversão das atenções internas) - ou simples encenação de recados, ameaças ou provocações. Viste, Princesa de mim, a comédia da inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém? Até deu lugar a discursos incendiados de dois pregadores, pastores "evangélicos" apoiantes de Trump e das posições hegemónicas de Israel (de que já te falei numa carta onde também referia o vice-presidente Pence) - um dos quais, aliás, leva no currículo (paradoxalmente?) umas diatribes clamando que os judeus que não se converterem vão para o inferno -  ... E, mais ainda, da presidencial filha Ivanka e seu marido, Jared Kushner, falando em nome dos EUA e em representação do seu presidente, assim violando a lei americana, que é, e bem, muito rigorosa em matéria de nepotismos e tentações imperiais! Talvez por isto, ou pelo disparate da própria declaração, apagou o registo oficial americano uma frase proferida pelo genro do presidente, no decurso da cerimónia e da violência israelita em Gaza: as we have seen from the protests of last month and today, those provoking violence are part of the problem and not part of the solution...  Tal espetáculo, a que assistia um Netanyahou babado, representava-se a menos de 50km do horror da repressão de manifestantes na faixa de Gaza, que reclamam o regresso à pátria e aos direitos que os sionistas violentamente continuam a roubar-lhes. Nesta perspectiva, e para um Kushner também, os palestinos são só problema, a excluir de qualquer solução...

 

    Já percebeste, Princesa que todos estes acontecimentos têm perturbado a tranquilidade da distância que habitualmente ponho entre o meu pensarsentir, com a decorrente escrita, e a agitação barulhenta de um mundo sempre confuso - e hoje cada vez mais, porque ao alvoroço noticiado se somam comentários exaltados, quase sempre facciosos e pouco, ou desonestamente, refletidos. Assim, eu também me afastei da pedagógica, e proveitosa, consideração da sabedoria, e utopia, do Tianxiá. Mas lá voltarei, consciente de que não há bela sem senão, e de que tudo é o que é - ou o que se formula - e a sua circunstância. E lembrado de ditos de Ji Zhe, professor no francês INALCO (Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais), numa resenha à 1ªedição chinesa do livro de Zhao Tinyang, publicada, em 2008, na revista La Vie des idées. Citando um filósofo de Beijing, Zhou Lian, Ji Zhe observa que Zhao põe em dúvida o individualismo metodológico que domina a filosofia ocidental e procura justificar o Estado a partir dos indivíduos considerados como seres atomizados, racionais e egoístas... daí concluindo que o seu conceito de Tianxiá seria uma poderosa alavanca do nacionalismo chinês. Já neste ano da graça de 2018, Ji Zhe ressurge mais crítico ainda: Tianxiá é um conceito ético poderoso que, no pensamento tradicional chinês, se inscreve num espaço universal e imaginário, e se distingue claramente do Estado. Tianxiá até permite criticar o atual poder chinês. Ora Zhao Tingyang critica o Ocidente e as relações internacionais, mas não a China. Permite, pois, uma aliança objetiva entre o mundo académico e o mundo político que pode ser perigosa.

 

   Vai longa esta carta, deixo para futuras o regresso ao tema. Mas desde já te lembro, Princesa de mim, que Ji Zhe vive e trabalha em Paris; Zhao Tingyang em Beijing. O nosso habitat condiciona-nos. E quiçá Zhao tenha de encontrar outros modos de tratar a China. Para terminar, deixo-te um trecho da parte II do seu livro, que trata de O Ser e o Devir da China, que traduzo:

 

   A China tem origens e uma composição complexas e mutáveis, e todavia transforma-se sem se afastar das suas origens. Zhang Guangzhi qualificava a civilização chinesa de «forma contínua». A razão da existência contínua da China explica-se pelo facto da China ser, em si mesma, uma maneira de crescer.

 

Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira

O Teatro Clube de Alpedrinha, um exemplo histórico

 

A descentralização teatral surge por vezes em situações inesperadas. Em 1839, não seria expectável encontrar em Alpedrinha um teatro: pela época, pela estrutura urbana, pela centralização cultural sobretudo na área dos espetáculos... E no entanto, é desse mesmo ano que se estreia a primeira casa de espetáculos da região.

 

Pois foi em 1839 que se inaugurou em Alpedrinha o chamado Teatro do Calvário, por se situar na rua homónima, mas que seria conhecido também por Casa da Ópera, nada menos: e isto, repita-se, numa época em que a infraestrutura de espetáculos era o que se pode imaginar a nível do interior. E isto, não obstante a vila ser referida pelos grandes nomes da época, e alguns são-no ainda hoje e sempre o serão: Alpedrinha surge citada e/ou descrita por Herculano, por José Leite de Vasconcelos, por Eduardo Coelho, por Manuel Pinheiro Chagas, por Germano da Cunha, por Jaime Cortesão, por Orlando Ribeiro e por tantos mais.

 

Este Teatro do Calvário foi extinto em 1859 e pela mesma época é contruído um Teatro, agora denominado Valadares, que durou até 1891, ano em que um incêndio o destruiu.

 

Mas diz-nos Sousa Bastos, no “Diccionario do Theatro Português” que em 1893 é inaugurado um novo Teatro, agora Theatro-Club de Alpedrinha, com uma considerável capacidade arquitetónica e de espetáculo. A sala tinha, e citamos, “15 camarotes de primeira ordem, 7 de segunda ordem, 24 cadeiras, 28 lugares de superior, 80 de geral e 48 de galeria”, e era iluminado a acetilene... estamos em 1903.

 

E nesse sentido alinha Luciano Reis, que fornece detalhes da construção, que não deixam de ser hoje interessantes, numa perspetiva de descentralização cultural. Segundo informa, o Teatro Clube de Alpedrinha “foi mandado construir por uma sociedade constituída por 28 pessoas. As obras iniciaram-se em 7 de março de 1893 e inaugurou-se a 12 de novembro do mesmo ano, com o drama Os Dois Sargentos e a comédia O Noivo de Encomenda desempenhadas por amadores” (in “Teatros Portugueses” ed. Sete Caminhos 2005).

 

No que me diz respeito, referi o Teatro-Clube de Alpedrinha em “Teatros de Portugal” (ed. INAPA 2005) salientando a sobrevivência da sala em muito boas condições operacionais mas descaracterizada. E remeti para um estudo publicado em 1933, da autoria de António José Salvado Mota, intitulado “Monografia de Alpedrinha”, esse reeditado em 2004.

 

Finalmente: é interessante referir que o Teatro Club se concentrou, ao longo destas décadas, no apoio a grupos de amadores locais. De salientar então esta presença da arte do teatro em zonas descentralizadas, digamos assim.

 

É pois de assinalar a atividade deste Teatro, que se mantem até hoje. E vale a pena citar Orlando Ribeiro: “Quem fizer alto na portela de Alpedrinha, na estrada entre esta vila e o Fundão, terá debaixo dos olhos um dos contrastes geográficos mais vigorosos da terra portuguesa”. (in “Guia de Portugal” vol. III).

 

É caso para dizer que esse vigor da atividade cultural/teatral dura até hoje!    

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

12. BANIR O SONO

 

Pela eficiência permanente, que opera 24 horas por dia, elimine-se o sono.
O sono é estagnação, inatividade, inércia, ócio, preguiça.
É antagónico com a vida dos dias de hoje, impedindo-nos de sermos conscientes, racionais e trabalhadores a tempo inteiro.
O executivo dos nossos dias louva-se de dormir pouco ou quase nada, de passar noites em branco, de trabalhar até à exaustão pela noite dentro, um ser humano máquina, em competição com o computador, fazendo mega horas extraordinárias, que não perde a concentração, nem a missão ou o fim que tem em vista.
O sono impede o conhecimento, saber, rendimento, produtividade.
O sono é noite, escuridão, o império das trevas, incompatível com o dia, o empreendedorismo, com uma vida eficiente e de luzes continuamente acesas.
Para sermos eficientes, empreendedores e racionais a todo o tempo, é preciso abolir o sono, criando sociedades onde o êxito, o ser feliz, o mérito e o reconhecimento são diretamente proporcionais à ausência de sono. Sendo admissível, quando muito, três ou quatro horas bem dormidas, estigmatizando quem não consegue ou dorme o dobro.
A maximização da eficiência funcional é trabalharmos sem intervalos, dia e noite, porque tudo é importante, menos o sono, tendo como perdedores os que o enaltecem.
Por confronto com o malefício do sono, exalta-se a vigília, testando-a progressivamente, via ingestão de anfetaminas, ansiolíticos, pastilhas de estimulação cerebral, neuroquímicos, com a ajuda e empenho de Silicon Valley. 
Investiga-se e examina-se o funcionamento do cérebro de animais que conseguem passar vários dias e noites sem dormir.
Só que o sono é inevitável. Lamentável inevitabilidade, para os opositores. 
Não há melhor cura para curar o cansaço.   
Nem pior padecer que a tortura do sono.
Por enquanto, enquanto dormimos, o sono não é vendável, expulsando as leis do mercado.
O sono é pessoal e intransmissível.
É a afirmação e constatação dos limites do corpo humano, da nossa finitude, mesmo que governados ou dirigidos por pessoas que não querem dormir, que minimizam ou odeiam o sono, que o têm como dispensável e irracional, que o desejariam abolir ou banir, podendo.
Afinal, toda a gente se cansa e não sobrevive sem sono. 

 

12.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

O nonsense pelo nonsense

 

A tarde era soalheira como o eram muitas das tardes vividas naquele alpendre da chamada casa grande na ilha de S. Miguel. Todas as cadeiras de vime, com largas almofadas queixosas do uso, estavam viradas para o mar. Em cima da mesa o bule com o chá fumegava ao lado do bolo de laranja, posto que ocupava sempre ufano, naqueles domingos em que por volta das 5 da tarde lá chegava o prior para deitar conversa fora com os donos da casa grande e fazer as meninas, Antónia e Bernadete, escreverem as redações sob sua sugestão temática.

 

A de hoje parecia-se com todas as dos outros domingos, mas fingia-se não descortinar. E lá começaram as obrigadas dotadas a escrever sobre A Alice no País das Maravilhas e a sua amiga, a Gata Borralheira.

 

Depois leu-se em voz alta:

 

Uma vez uma menina muito importante transformou-se em gata. Ninguém dera conta das possibilidades que a menina tinha para assumir a nova condição e sobretudo usar coroa e manto de chinchila quando espreitava o pobre gato preto que ao final da tarde lá ia aceitar os ossos que ela lhe dava. Estes ossos eram, pela gata borralheira, partidinhos miudinhos para que o gato se engasgasse, fosse parar ao hospital e a gata muito piedosa o pudesse acompanhar e de indispensável enfermeira se tornasse sua mulher promovendo-o a duque da casa grande. No dia do casamento quem levaria a cauda do longo vestido com véu de arame de capoeira seria a grande amiga, Alice, rapariga que vivia de maravilha em maravilha até ao dia em que se picara no arame do véu do casamento da amiga, e, logo se transformara numa madrasta má. Então a agora madrasta, vestida de vestido de horrível gosto, dobrara com cautela, um pouco do arame do véu da noiva, de tal modo que, quando chegada perto do altar, picou com ele o gato-noivo, duque da casa grande, que logo se apaixonou por ela e fugiram os dois num meteoro aranhoso para o país das maravilhas.

 

Na verdade ninguém ficou chocado com a redação das manas Antónia e Bernardete. Olharam uns para os outros seguindo o princípio de quem decreta o decreto por decretar, e o reverendo achou mesmo que os argumentos da redação, podiam sustentar-se numa insanidade desafiante, numa congruência nonsense, ou numa profunda aptidão para a inaptidão, afirmando estes reparos todos com sorrisos complacentes.

 

Ao que a mãe das meninas acrescentou de imediato:

 

Talvez até se tratasse de algo absolutamente nacional, ou, de um nonsense inclinado para a realidade. E lá que era pedagógico (o que ainda é pior) era, sim senhora. Ah! Que curioso, disse, é absolutamente nova a forma como as minhas filhas veem a realidade. Nos dias que correm, a este nível é raro. Ah é, é! São deveres morais escutarmos a voz da razão: não acha Sr., padre?

 

E enfim, sabe-se que a hilaridade que terá nascido naquela tarde de verão foi tema lato e que sem esta obra de redação, o nonsense nunca teria chegado a parte constituinte, ao menos na ilha.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

‘O Fulgor da Luz’.

 

Em ‘O Fulgor da Luz’, conversas de Anne Philipe com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes lê-se que, na verdade o pintor acaba por nunca fazer exactamente o que quer. Há sempre uma distorção provocada pela distância que existe entre a razão que pensa e a mão que executa. O pintor tem de procurar sempre ser consciente daquilo que faz, para tentar entender o que menos se espera, o que vem da inconsciência. Criar implica irremediavelmente um salto, por vezes lento e às vezes alto e que treme diante o desconhecido. A escolha é, para qualquer pintor, muito difícil e até pode acontecer avançar-se demasiado numa via qua não seja a melhor – e às vezes só tarde o pintor se dá conta disso.

 

Arpad parte da natureza e caminha não necessariamente para a abstração mas tenta deixar a espessura essencial, tudo o que é plástico. A pintura é alimentada interiormente. O quadro é assim um projecto, uma ideia, uma força activa na vida do homem (que cria e que vê). Só no momento em que se torna iluminado, a pintura passa a existir. Luz é o que acima de tudo se deve procurar. É aí que reside todo o mistério e toda a dificuldade.

 

‘Sinto que o mesmo fenómeno se dá com a música ou a poesia. Não desejo saber a que princípios obedeceu o compositor ou o poeta, ignoro a sua técnica. Quando os ouço sinto uma emoção que não é necessariamente aquela que eles pretenderam ou julgaram dar. O mesmo se passa com um quadro. O que é belo penetra e espalha-se tão longe e tão profundamente em nós, que é impossível canalizá-lo…’, Vieira da Silva

 

Ao longo de uma vida, a pintura não faz progressos. Modifica-se, torna-se outra. Ao fim de anos e anos de trabalho certamente que o pintor adquire alguma ciência, mas no entanto, e quase sempre é impossível, ao pintor explicar exactamente o que está a fazer e porque é que o faz. Vieira diz que enquanto se pinta, sente-se por vezes que o que se faz não está bem, que há que recomeçar, que há que corrigir, mas é impossível explicar porque se está descontente, por que razão se corrige.

 

Ainda Vieira afirma que não existe nenhuma ideia prévia antes de começar um quadro. Caminha-se às apalpadelas. Sabe-se que se quer seguir um caminho, mas não exactamente qual. É mais fácil partir de um determinado assunto, do que pintar um quadro que é formado por um jogo de volumes, de equilíbrio e de luz. A total ausência de modelo, implica que tudo depende e que tudo está entregue ao próprio pintor.

 

‘Um quadro para se tornar vermelho, tem de conter todas as cores. Emprega-se todas as cores para que plástica e pictoricamente não haja um único vazio, tão intensa é a vibração do branco, ou seja a vibração da luz.’, Vieira da Silva

 

O nascimento de uma pintura é sempre diferente, é algo perfeitamente misterioso, e o modo como é feito também. A mão, que reúne os segredos do corpo, por vezes trabalha só mas é raro. Quando se pinta há dois quadros avançando a par, o que está no cavalete e o que se tem na cabeça - e na maior parte das vezes o que se tem na cabeça nunca chega a alcançar o outro. O pintor nunca está satisfeito, por isso, a busca continua infinitamente.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

Her Maj at the 92, The G7 Twitterstorm, and Historic Talks, 2018

 

Olhos e preces centradas na cidade estado de Singapore. É a histórica reunião entre os presidentes Donald J Trump e Kim Jong-Un, com o mundo em suspenso sobre o eventual acordo de desnuclearização “complete, verifiable and irreversible” da Korean Peninsula. O UN General Secretary António Guterres está pronto para apoiar a paz entre Seoul e Pyongyang.

O UK disponibiliza os peritos nucleares. — Chérie! L’histoire regarde ces deux. A Queen Elizabeth II celebra o 92.º aniversário com passeio a solo, em carruagem aberta, no Mall, e os tradicionais Trooping the Colour, na Horse Guarde Parade, a RAF Flyover, nos céus de London, e a saudação popular da Royal Family, na varanda do Buckingham Palace. O patriarca Prince Philip perfaz 96 anos, com o Duke of Edinburgh ora reformado da esfera pública. — Happy Birthday, Your Majesty. A damehood para a atriz Mrs Emma Thompson e a knighthood para o Literature Nobel Prize Mr Kazuo Ishiguro assinalam a Honours List, com 1,057 pessoas galardoadas por serviços ao reino. A House of Commons acolhe 48 horas de Brexit warfare. O Lab líder RH Jeremy Corbyn completa 35 anos como Islington North MP. O Quebec recebe tormentoso encontro do G7. A Shangai Cooperation Organization apresenta-se como cimeira alternativa, reunindo China, Russia e India. Beijing entrega a Friendhip Medal a Mr Vladimir Putin, a mais alta condecoração para estrangeiros. Italy fecha os portos aos barcos de pesca de emigrantes.

 


A tempestuosa cimeira canadiana do G7 vista por Beijing. © Courtesy China Daily

 

Beautiful Summertime at Central London. And very hectic days in Parliament. Mas comecemos pelas cenas extraordinárias ocorridas na cimeira das sete nações mais industrializadas do mundo. As emoções fortes vêm a público através das imagens, e uma fotografia como a logo divulgada pelo China Daily vale por 1000 palavras (ver em detalhe, sff). Mas a cimeira fica sobretudo marcada pela tempestade trumpista de declarações. É toda uma atitude; e é Trump vs The World. O senhor chega tarde aos encontros, declara “let us bring in the Russians,” a sua agenda não abre espaço para a reunião bilateral com a UK Prime Minister, indispõe-se com todos à volta da mesa e acaba a rasgar a declaração conjunta que assinara com os aliados. Na conferência de imprensa final desfecha que ali fora fazer “a free trade proclamation,” esgrimindo em estilo alpha behaviour com novas tarifas aduaneiras sobre as importações norte americanas. O homólogo gaulês riposta: “No leader is eternal.” Já a voar para Singapore, o POUS puxa do Twitter para enviar novas mensagens aos pares ‒ às 2:05am, 2:17am, 2:29am, 2:42am, 2:45am e 3:41am. Ilustração postal: “Why should I, as President of the United States, allow countries to continue to make Massive Trade Surpluses, as they have for decades, while our Farmers, Workers & Taxpayers have such a big and unfair price to pay? Not fair to the PEOPLE of America!” Mrs May por lá reúne a sós com Monsieur Emmanuel Macron, Frau Angela Merkel e Mr Justin Trudeau. Hoje encerra o dossiê em Westminster, face aos MPS, concluindo que foi “a difficult summit.”

 

Vagas alterosas esperam a Premier em Downing Street. As Brexit Laws começam a sua semana mais longa na House of Commons, após serem rasuradas nos Lords com 15 emendas. O Tory Government espera reescrever 14 destas alterações ao seu projeto legislativo com a anterior tinta. Tudo permanece incerto, porém, até à contagem de votos. RH Theresa May pede unidade ao reunir hoje com as tropas conservadoras no 1922 Committe. Há dias atrás sela tréguas no Cabinet, na sequência de tropel de rumores dando o Secretary for Exiting the European Union, RH David Davis, como estando prestes a demitir-se do cargo por causa dos arranjos aduaneiros, e ainda de pouco diplomáticas declarações do Foreign Secretary, RH Boris Johnson, num private dinner ecoado na Press, em torno da EU27 e de sensíveis assuntos internos e externos ‒ #Trump-Kim Summit incluído. O Number 10 navega as dificuldades em Westminster City com estoicismo, recato e leque de palavras neutras, como a senhora claríssimamente evidencia no ponto da situação brexiteira: “This is something that actually we don’t want ever to happen, in the sense that it is purely there in the circumstances where we have agreed the end-state customs arrangement, but for technical reasons it has not been possible to put that in place by January 1, 2021. We are clear that we expect that we will actually be able to have that end-state customs arrangement in place at the very latest by December 2021, but our focus, obviously, is going to be on making sure that we get that agreement which we have all agreed — and others are agreed — is the best way to ensure that we get the right relationship between the U.K. and the EU for trading in the future.”

 

Aguardo a passagem ao écran destes fantásticos eventos. Para já, fazendo a vontade a Mr Trump, os russos entram mesmo… na história do euroreferendo. Um bilionário que financia o Ukip e doa milhões ao campo do Leave é apontado com laços perigosos à embaixada moscovita em London. Entre emails sobre minas siberianas de ouro e almoços regados a vodka, Mr Arron Banks depôe hoje em comité parlamentar. Será divertido. Ligam-se vontades para intentar inquérito policial, a fim de detetar o rasto dos rublos. Um outro discreto euroinfluente vem à superfície. O DExEU Permanent Secretary informa ter regra dourada entre amigos. “If I sit down in convivial company, I make a rule — don’t talk about Brexit,” regista Mr Philip Rycroft. É prudente. As opiniões dividir-se-ão quanto aos protagonistas estarem à altura do script global, mas que este anda intrigante anda. — Zowie. With so many excitement in the air, better listen at heart those lines of ours Master Will in The Tempest: — “O wonder! / How many goodly creatures are there here! / How beauteous mankind is! O brave new world, / That has such people in't.”

 

St James, 11th June 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 11 a 17 de junho de 2018

 

«Do Monte Cara vê-se o Mundo» (Caminho, 2014) de Germano Almeida dá-nos conta do melhor que a cultura de Cabo Verde tem. Germano Almeida foi Bolseiro do Centro Nacional de Cultura, em 2001, no âmbito das Bolsas Criar Lusofonia.

 

BIÓGRAFO DE CABO VERDE
Germano Almeida é o biógrafo de Cabo Verde. Não podemos compreender a vitalidade cultural do arquipélago e do país sem ler hoje o autor de Do Monte Cara vê-se o Mundo. É verdade que Baltazar Lopes é uma espécie de patriarca da “caboverdianidade” ou que Corsino Fortes é um poeta que sente como ninguém a identidade dessa extraordinária cultura da Macaronésia do Sul, mas Germano busca a naturalidade, a alegria de viver, a ironia, a arte de contar, a diversidade de tipos populares e a sensualidade dos corpos e das relações humanas. Não esqueço um dia que nos encontrámos na Praia, numa iniciativa do Centro Nacional de Cultura, e falámos dum tempo que estava para vir, em que de um modo natural a literatura cabo-verdiana seria reconhecida como exemplo maior na diversidade da língua portuguesa. Esse tempo chegou primeiro com o reconhecimento de Arménio Vieira no Prémio Camões e agora com o próprio Germano Almeida. A vitalidade cultural de Cabo Verde augurava essa evolução como natural. Desde que li pela primeira vez O Testamento do Sr. Napomuceno da Silva Araújo não tive qualquer dúvida sobre a qualidade excecional da obra e do autor. E em imaginação, percorremos o caminho iniciático do protagonista. “Atravessou a Rua de Lisboa, o Largo do Palácio e subiu ao Forte de Cónego trotando atrás de Jovita e extasiando-se com a maravilha que era o Mindelo, nunca vira tanta gente junta e sentia-se envergonhado de estar descalço atrás daquela carregadeira que calçava sandálias de plástico. Naquele dia não saiu de casa, temeroso de se perder na cidade enorme ou ser atacado por bandidos que sabia existirem e perseguirem as pessoas de dia ou de noite…”.

 

MINDELO, A CIDADE LIVRE
Ah, o Mindelo, cidade de história conturbada que Germano Almeida aprendeu a conhecer de trás para a frente. S. Vicente foi povoada tardiamente, tempo houve em que os piratas usavam a baía do Porto Grande como local de descanso, antes de avançarem para temíveis investidas. O povoamento foi lento, vindo de Santo Antão e S. Nicolau. E foi a memória da gloriosa revolução liberal, em que Garrett e Herculano estavam entre os bravos de Pampelido que deu o nome à extraordinária cidade que o escritor ama. Aqui acabava a escravatura. E essa invocação do Mindelo mítico era o melhor elogio da liberdade, como recusa a subalternização ou menoridade. E assim se tornou centro de irradiação de uma especial riqueza cultural que aproveitou as potencialidades do entreposto mercantil. Em Do Monte Cara vê-se o Mundo a personagem viva é a própria cidade do Mindelo e a sua gente. O velho Pepe é o cicerone, funcionando como um verdadeiro revelador e encenador de tudo o que vai acontecer. Júlia, Guida, D. Aurora, a Professora Ângela, o Trampinha – todos ilustram uma realidade humana muito rica, com uma ironia inesquecível, sob o olhar divertido e sábio do Monte Cara, em frente à cidade. E eis-nos embrenhados no dédalo que conduz ao Fortim d’El-Rei, à Alfândega Velha ou a Praça Nova, vibrante ao som do funaná. Aqui Nhô Baltas, Manuel Lopes e Jorge Barbosa criaram a revista “Claridade” – onde Chiquinho começou a ser publicado, com a originalidade cabo-verdiana, “excluindo os portugueses de toda e qualquer discussão referente ao destino das ilhas e dos homens”, como disse Alfredo Margarido.

 

UMA LITERATURA FEITA DE VIDA
O percurso de Germano Almeida começou na ilha da Boa Vista, onde aprendeu a viver entre a ruralidade e a cultura urbana. Em Regresso ao Paraíso dirá que “da Boa Vista da minha infância pouco mais já resta que o prazer de usar o tempo. É uma noção do tempo em que o hoje e o amanhã, o agora e o mais daqui a bocado, continuam significando a mesmíssima coisa. E quando para lá ia de férias ia sobretudo em busca desse tempo sem relógio, que é nosso está por nossa conta”. O futuro escritor fez a tropa em Angola, numa zona de confronto. Com vinte cinco anos, graças às qualidades da sua escrita consegue uma providencial bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe permitiu estudar Direito em Lisboa – onde fomos contemporâneos. Em 1977 regressou à pátria e em 1983 fundou com Leão Lopes e Rui Figueiredo a revista “Ponto e Vírgula” – onde publicou contos com o pseudónimo de Romualdo Cruz… Depressa foi descoberta a sua verdadeira identidade e seguiu-se uma entrada natural no mundo literário, com obras reveladoras duma originalíssima maneira de usar a língua portuguesa de Cabo Verde, na tradição dos seus melhores compatriotas. A Ilha Fantástica é constituída por um conjunto de textos, aparentemente despretensiosos, saídos na revista “Ponto e Vírgula”, que se revelam essenciais para a compreensão de uma cultura, onde o picaresco se associa a uma extraordinária apetência de compreender e revelar sentimentos. A última obra publicada, a sair em breve entre nós, – O Fiel Defunto – confirma essa capacidade para privilegiar a ideia de “divertimento”, de prazer com as pequenas coisas… E alguém pergunta ao “fiel defunto”: “mas deves estar a fazer alguma coisa para assim te divertires durante tanto tempo”. “Sim, respondia galhofeiro, ouço música, navego na internet, espreito o facebook, onde aprendo muito sobre as pessoas em geral e as pequenas vaidades que lhes enchem a alma, leio livros, falo com amigos, faço má-língua, digo mal das criaturas de quem não gosto, cuido das plantas do meu jardim que nunca estiveram tão bonitas de tão bem tratadas, enfim um enorme rol de ocupações que me preenchem os dias que gostaria que tivessem 48 em vez de apenas 24 horas”… E assim se confessa imune aos vícios, incapaz de escrever o que não tem para dizer e apenas disponível para deixar passar o tempo, com uma cana de pesca na mão, “sem sequer desejar apanhar um peixe para não ter a maçada de o transportar para casa”… Tem sido ainda importante a intervenção de Germano Almeida no tema da língua portuguesa. Devo dizer que concordo muito com o seu pensamento. Conversei muito sobre isso também com Corsino Fortes. É indispensável um ensino rigoroso do crioulo e o português deve ser muito bem ensinado como língua segunda. É fundamental aprender a falar o português corretamente. A alfabetização em crioulo obriga a cuidados especiais, para evitar barreiras entre ilhas ou comunidades. Dada a natureza dos crioulos é fundamental que o português não seja sentido como língua estranha. A tarefa da escola e da pedagogia obriga a que haja um desenvolvimento harmónico das línguas – como fatores de comunicação e integração. Não esqueçamos que o autor de Chiquinho era professor de latim ou que a taxa de analfabetismo em Cabo Verde era em 1974 menor do que em Portugal. Que significa isto? Que só uma exigência significativa para a comunicação linguística – em crioulo e português, pode evitar a exclusão. Daí Germano Almeida insistir “na necessidade de nós em Cabo Verde dominarmos o português até mais que os portugueses, Porque com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas. Com o português vamos para Portugal, para o Brasil, para Angola”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua edição de maio/junho deste ano, a revista Books publica, em antevisão da saída a público, no próximo outono, do livro Quatre Essais sur la Traduction, do sinólogo suíço Jean-François Billeter, uma entrevista com este autor. Na linha das teses de outros notáveis estudiosos da China, designadamente da actualidade do seu pensamento e cultura (incluindo, claro está, a filosofia chinesa), tais como Anne Cheng e os coautores de La pensée en Chine aujourd´hui, de que já te falei, Billeter contesta o fundamentalismo da ideia tão difundida - e tão central, por exemplo, na obra do grande sinólogo francês François Julien - de que o Ocidente e a China são dois mundos, não só diferentes e alheios, mas até opostos, no plano do pensamento. Além das razões de fundo que invoca, o autor suíço considera que tal ideia de que a China seja radicalmente diferente é perniciosa, pois segue o discurso que o actual regime chinês tenta impor, deixando crer que a democracia, os direitos do homem, a ideia republicana são invenções ocidentais incompatíveis com a mentalidade chinesa... Para Billeter, o mito da alteridade chinesa, tão divulgado na Europa, surge com Voltaire e os iluministas que, curiosamente, como aliás te disse em carta anterior, o foram buscar aos missionários jesuítas, que procuravam justificar a sua política de conversão do império chinês a partir de cima e, por isso, criaram uma imagem favorável dos soberanos chineses, do seu governo, do mandarinato que governava o império, e do confucionismo que constituía a chave da abóbada do universo intelectual mandarínico.

 

   Retomarei esta reflexão nas considerações acerca do Tianxiao, que te prometi, Princesa de mim. Mas deixa-me agora só traduzir-te uns trechos da entrevista de Billeter à Books, que nos ajudam a perceber a configuração familiar da organização política, de que te falei em conversa sobre o encontro intercoreano. Na verdade, o sinólogo suíço não nega que haja profundas diferenças entre o Ocidente e a China, mas insiste em que, simplesmente, prefere postular a unidade da experiência humana e, a partir daí, procurar compreender a realidade chinesa no que ela tem de particular, do que seguir o caminho inverso. Quando damos prioridade à diferença, perdemos de vista o fundo comum, enquanto que, se partirmos deste, as diferenças surgem por si próprias... E quais serão essas diferenças? Responde:

 

   A China caracteriza-se por uma certa concepção do poder e do seu exercício, em que o político, o familiar e o religioso se confundem. Tal é inegável e é uma chave para a compreensão do país - o fio de Ariana da sua história. [Já te referia esta nota, ao falar-te, Princesa, no Les Trente «Empereurs» qui ont fait la Chine de Bernard Brizay]. Mas, afinal, que tão certo conceito é esse?

 

   Nasceu por volta do ano mil  antes da nossa era, quando a dinastia dos Zhou derrubou a dos Shang. Criou-se então uma ordem nova, para que a vitória conseguida nos campos de batalha tivesse amanhã. O fundador da dinastia Zhou procurou transformar os aliados circunstanciais que o tinham ajudado a tomar o poder em aliados permanentes, e, para o efeito, ele e os seus conselheiros tiveram uma ideia genial: reinterpretar as relações do rei com os seus vassalos em relações familiares. Todos se tornaram irmãos, sendo o rei considerado o primogénito. Como era fácil prever que tal família aristocrática fosse, no decurso das gerações, crescendo e multiplicando-se, e que tal multiplicação acabasse por fazer perigar a estrutura familiar, os Zhou conceberam maneira dela se poder estender sem que nela se introduzisse qualquer desordem. Criaram um sistema capaz de organizar uma família de várias dezenas, ou centenas ou mesmo milhares de membros, reunindo até quatro gerações em simultâneo, sem que alguma vez pudesse haver ambiguidade sobre a ordem de precedência de sequer dois dos seus membros, fossem eles quem fossem. Forjaram uma nomenclatura capaz de identificar exactamente o lugar de cada um nessa hierarquia geral. Tal nomenclatura, que faz da organização familiar um sistema de domínio político, perpetuou-se, no essencial, até hoje. É sem dúvida uma das grandes criações do espírito humano e uma especificidade chinesa.

 

   E assim, Princesa de mim, quem hoje quiser entender o que é o poder do actual presidente Xi Jinping, terá de ter presente esta herança histórica, bem iluminada por aquele texto de Sun Yatsen, primeiro presidente da República da China, no princípio do século passado, que te citei em carta passada, e do qual hoje apenas te repito a última frase: Os países estrangeiros fizeram guerras de religião ou bateram-se pela liberdade; na China, desde há milhares de anos que perpetuamente nos batemos por esta simples questão: tornarmo-nos imperador. A consolidação e persistente reforço da autoridade de Xi Jinping parece trazer-nos mais um exemplo de tal vocação. Mas a circunstância em que o poder central (imperial?) tende a afirmar-se também poderá travar-lhe ou desviar-lhe o percurso, por força, isolada ou simultânea, de irreversíveis crises: sejam elas da economia (abrandamento, estagnação do crescimento), da sociedade (desequilíbrios regionais e desigualdades sociais), do aparelho político (surto de movimentos contestatários ou lutas intestinas no próprio PC), e ainda das relações internacionais (conflitos geoestratégicos no sudeste asiático, excedentes comerciais). É todavia opinião de conceituados politólogos como Jean-Pierre Cabestan, investigador no CNRS francês e director do departamento de ciências políticas e estudos internacionais da Universidade Baptista de Hong Kong, que se mantêm sólidos os obstáculos a qualquer mudança política, faça-se esta por calma evolução ou por ruptura: o poderio e a modernização do Partido-Estado, o carácter soviético e, portanto, eficaz do seu sistema repressivo, o inegável, prodigioso até, êxito económico de que pode vangloriar-se, a despolitização da sociedade, o seu nacionalismo e a superficialidade da sua cultura democrática, a fraqueza da sociedade civil e o conservadorismo geral das elites económicas e intelectuais, tal com a sua dependência relativamente às elites políticas do PC.

 

   Resumindo o discurso, Princesa de mim, e continuando a seguir Jean-Pierre Cabestan, a China tem mais probabilidades de evoluir para um regime ainda bastante autoritário, elitista, paternalista e imperial. O PC continuará a alternar períodos de endurecimento e de alívio político, mas recusará propor qualquer saída do sistema actual. Pelo contrário, ao instrumentalizar a sua alteridade cultural, a República Popular continuará provavelmente a constituir o principal desafio político às nossas democracias e, mais ainda, ao modo como compreendemos o político e a vida política.

 

   Num artigo intitulado L´utopie inclusive - Zhao Tingyang, publicado no suplemento Idées de Le Monde (24/03/2018), Frédéric Lemaître argumenta que, apesar do filósofo chinês Zhao Tingyang pretender que a sua filosofia nada tem a ver com a política chinesa actual, o mesmo desenvolveu o conceito milenário de tianxia, que visa pensar o mundo como um todo, suprimindo qualquer ideia de estrangeiro ou de inimigo. Na orla das realidades actuais, tal teoria política é por alguns percebida como alavanca do nacionalismo chinês. Já te-lo tinha referido, Princesa, repito-o agora para ligar o que nesta te escrevi ao que te direi em próxima carta sobre tal filosofia: tenho comigo duas versões francesas, ambas em tradução de Jean-Paul Tchang, a de Tianxia - tout sous un même ciel, de Zhao Tingyang (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018) e a de Du Ciel à la Terre - La Chine et l´Occident ( Les Arènes, Paris, 2014) selecta de correspondência entre o filósofo chinês e o francês Régis Debray. Para te abrir o apetite do tema, traduzo-te as primeiras linhas do epílogo do Adam Smith in Beijing, do falecido Giovanni Arrighi (Verso, 2007):

 

   Partimos de uma questão central: podemos ou não considerar que, apesar das suas insuficiências e dos reveses que não deixará de encontrar, a ascensão da China constitui um sinal anunciador de uma era de maior igualdade e respeito mútuo entre os povos de origem europeia e os povos de origem não europeia, tal como Smith predizia há duzentos e trinta anos? A análise proposta neste livro tende para uma resposta positiva, o que não exclui importantes reservas.

 

   Continua em próxima carta...

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

Evocação de Tomaz Ribas no centenário do seu nascimento (II)

 

Vimos, na crónica anterior, a relevância e projeção artística e crítica de Tomaz Ribas nas artes de espetáculo isto, não obstante os quase 20 anos decorridos desde a sua morte:  nascido em 1918, não é somente a celebração do centenário que justifica estas referências: como já tivemos ocasião de escrever, a obra de Tomaz Ribas marca a criatividade cultural do país em áreas diversas, mas sempre num plano de qualidade de profundidade. O livro de José Batista de Sousa amplamente o demonstra.

 

Importa agora recordar que, no que toca ao teatro, foi na companhia então  denominada do  Teatro Experimental que em 1951 se apresentou pela primeira vez uma peça de Tomaz Ribas: ”Roberto e Melizandra”, estreia que abriu assim uma carreira extensa e intensa, muito válida e variada de dramaturgo, onde percorre estéticas e técnicas de espetáculo diversas: designadamente  “A Casa de Isaac”, “Cláudia ou a Vozes do Mar”, esta representada no Brasil, “Gata Borralheira”, “Retrato de Senhora”, “Pedro e a Morte de Inês”, “A Única Mulher do Barba Azul” ou “O Grito de Medeia”, num conjunto dramatúrgico com obras de destaque  que engloba outros exercícios dramáticos.

 

E a estes podem acrescentar-se bailados e ensaios diversos sobre temas de história, cultura e literatura, de que citamos designadamente “Breve Panorama do Romance Português”, “O Último Negócio”, “A Casa de Malafaia”, e estudos como “A Dança e o Ballet no Passado e no Presente”, “O que é o Ballet”, “A Literatura Portuguesa nos Seculos XIX e XX” e outros livros.

 

Trata-se, no conjunto, de perto de 50 títulos, cerca de 35 publicados em volume, ao longo de uma vida dedicada às artes, sobretudo ás artes do espetáculo global. 

 

E mais: encontramos uma série de estudos e análises na perspetiva da globalidade da cultura de raiz portuguesa na transnacionalidade europeia e africana, e na abrangência histórica que transforma a bibliografia de Tomaz Ribas num singular, diria mesmo inédito conjunto de abordagem e analises de expressões artísticas nas artes de espetáculo de raiz europeia, africana e de abrangência cultural e científica extremamente variada.

 

Em suma: uma simbiose de criação e de analise histórica e estética, nas áreas do teatro, da dança, da literatura, e salientando a diversificação que a raiz portuguesa, ao longo de séculos, criou e determinou. Numa abrangência temática que tem como tema dominante as artes de espetáculo, as quais constituem o traço comum da vida e obra de Tomaz Ribas.

 

E por todas estas razões, mas sobretudo pela relevância e pelo significado da obra, há que saudar a iniciativa da  Fundação INATEL, designadamente o  Núcleo de Arquivo Histórico e Documentação e o seu Coordenado Doutor José Baptista de Sousa,  a quem se fica a dever esta reedição justíssima e oportuníssima do estudo de Tomaz Ribas.

 

DUARTE IVO CRUZ 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

11. BIODIVERSIDADE CULTURAL

 

Alimentação, vestuário, habitação e saúde são necessidades básicas, universais e fundamentais de sobrevivência. 

A cultura não é tida como uma necessidade básica de sobrevivência ou bem de primeira necessidade, por confronto com o que comemos, a água que bebemos ou a saúde.
Há uma percentagem significativa de pessoas que não tem interesses culturais, tendo a cultura como descartável e dispensável. 

Para quem entenda que a lógica dos impostos é que o dinheiro se destina a necessidades básicas e imprescindíveis, a cultura fica excluída. 

Razão pela qual a cultura tem de ser autossustentável. 
Mas uma parte da criação cultural não é sustentável por si.
Há quem defenda que se vá ao mercado, assumindo o risco na totalidade.   

Há quem entenda que deve ser apoiada se, naturalmente, não existir mercado que a sustente.  
Inexistindo apoios, nem mercado que a sustente, há morte cultural. 
Não há civilização sem cultura. Há a barbárie.

O que permanece especialmente e intemporalmente em termos civilizacionais é o legado cultural, incluindo o património, que nos foi deixado e transmitido em termos geracionais. 
Só que as necessidades económicas necessárias para a cultura, não obedecem necessariamente à lei da oferta e da procura.
Mas quando pagamos impostos, taxas ou coimas contribuímos para necessidades básicas, acessórias e complementares de outras pessoas, que não conhecemos, em lugares e regiões onde nunca fomos, não queremos ou não pretendemos ir, não nos afetando pessoalmente, embora diga respeito ao todo nacional.
Daí ser defensável a biodiversidade cultural, incluindo a criação cultural naturalmente sustentável e não sustentável, que não necessita e necessita de apoio.
Se assim não for, há a morte cultural de várias atividades culturais, dada a sua insustentabilidade sem apoio em termos económicos e logísticos.
Por exemplo, em Portugal, deixa de haver bailado, cinema, teatro ou ópera, se não existir apoio, o que é aterrador e assustador a nível da nossa memória coletiva e em termos de progresso civilizacional e cultural, por confronto com os avanços das nações que tomamos como referência.   
A necessidade desta biodiversidade cultural e de apoio à criação cultural quando naturalmente não sustentável, deve ser transversal a todas as ideologias, quer de direita, centro ou de esquerda, o que não implica, sempre e necessariamente, uma cultura estatizante centralizada e totalmente subsidiada, tida como inexequível.       

 

05.06.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

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