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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca da arte romântica.

 

Na arte, a natureza é uma invenção humana e pode ser racional (segundo a tradição clássica) passional (segundo a tradição romântica). 

 

Na tradição clássica, a arte não nasce da natureza mas da própria arte. 

 

A arte romântica apresenta uma nova e completa posição face a história da arte - é uma arte anti-histórica. A nova realidade afirma-se através de evocações, de sonhos e da imaginação.

 

A natureza romântica é representada de modo a favorecer nos indivíduos o desenvolvimento dos sentimentos sociais e o sublime. A natureza é sobretudo vista como um ambiente misterioso e hostil, que desenvolve no homem sentimentos de solidão, individualidade, fragilidade e tragicidade de existir. 

 

O homem romântico é assim visionário, angustiado mas divino. Este homem pretende pôr término ao universalismo formal e procurar por uma autonomia própria, evocando, por vezes, até tradições nacionais. 

 

O belo romântico é assim subjetivo e mutável, obedece à natureza e não a transforma. É uma intensificação dramática da existência. A arte romântica nasce da inspiração, de recolhimento, de reflexão aturada, e da tradição cultural e mística. Pretende sobretudo aprofundar o problema da relação do sujeito com a sociedade do seu tempo - qual é o reflexo concreto que a realidade tem no indivíduo?

 

É uma procura constante entre sublime e o pitoresco, entre o individual e o colectivo, entre o trabalho humano, livre e puro e a espiritualidade.

 

Ana Ruepp

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

ADOLFO HITLER NO CÉU

1. Já meia-noite com vagar soou. Se começo a escrever a minha crónica a estas horas, foi porque me deixei ficar a ver a SIC Notícias num "especial" sobre a libertação de Paulo Pedroso, notícia que abafou completamente o outro caso do dia: a nomeação de Teresa Patrício Gouveia como ministra dos Negócios Estrangeiros. Foram duas boas notícias, num só dia. Sou, por princípio, contra prisões preventivas, gosto muito de Teresa Patrício Gouveia. Pode haver quem barafuste com a aproximação. Eu sei que não será o caso de Teresa Patrício Gouveia. Alegrias são alegrias, ainda que uma me venha de uma pessoa que mal conheço (só na penitenciária fui apresentado a Paulo Pedroso) e outra de uma pessoa que conheço há muitos anos e até já foi minha secretária de Estado, quando esteve na Cultura. Repito: uma boa quarta-feira, depois de uma semana de intrigas e mais intrigas, de escândalos e mais escândalos. Uma semana à portuguesa, que quarta-feirou em odor de civilização. Em Londres, não se faria melhor. Às vezes - muito raramente, é certo - sabe bem não ter que dizer: "Este país!". 
Não me vou explicar mais. Quem me conhece já sabe o que penso do processo da Casa Pia e não me apetece voltar com a bota à Ribeira Torta. Quem não me conhece, não tem nada que ver com as razões por que gosto de Teresa Patrício Gouveia. Mas, sem dúvida nenhuma, esta obsessiva conversa sobre crimes e castigos, culpados e inocentes, infratores da lei ou zeladores da lei, arrependidos e desarrependidos, contribuiu (ao menos subconscientemente) para eu me lembrar de um texto de que não me lembrava há muito tempo, tanto tempo que, se me lembro de quem me falou dele, não me lembro, e bem gostava de me lembrar, de quem o escreveu. Podia ter sido Jorge Luís Borges, mas acho que não foi. 
De subconsciência em subconsciência, foi-me crescendo uma frase que li outro dia e desta vez sou eu quem não quer dizer de quem (não, não foi o Eduardo Prado Coelho). Era a frase seguinte: "Por mais que as religiões mansas (ou sonsas, como preferirem) sofismem sobre isso, o que se faz não se desfaz. Pode corrigir-se, mas é tudo o que se pode - fica lá o esforço da borracha marcado, inapagável." Dito de outro modo, "once a crook, always a crook", a frase que mais aterrorizava Fritz Lang (se fosse mais cedo e eu tivesse mais espaço, contava-vos a história de "You Only Live Once", onde Henry Fonda faz de E.T.).

 

2. Estava-se uma vez numa conversa dessas, quando o meu incitado amigo me perguntou se eu conhecia o conto "Adolf Hitler no Céu". Um pacífico cidadão morria e ia muito naturalmente para o céu. Quem foi o primeiro imortal que lhe saltou ao caminho? Adolf Hitler. Sem blasfémia, o flébil morto não quis acreditar no que via. Pensou num sósia, ou em Charles Chaplin a brincar. Mas o outro, sem vanglória nem rebaixamento, confirmou-lhe a identidade. E só por já ser bem-aventurado (manso ou sonso, segundo a minha fonte) não o esbofeteou, ao ouvir uma citação bíblica: "Misteriosos são os caminhos do Senhor." Se fosse numa anedota, o recém-chegado tinha ido fazer queixa a S. Pedro. Como não era, envolveu-se em discussão teológica. Das várias perguntas de Hitler, retive três: "Aqui, no Céu, ficavas mais contente se soubesses que eu ardia no Inferno?" "Não te ensinaram na terra que era pecado desesperar da própria salvação?" "Não leste a parábola da vinha e do vinhateiro?" No fim da longa conversa (que não era o último discurso de Hitler, mas o primeiro discurso do anti-Hitler) foi o justo quem se começou a interrogar se merecia estar onde estava. "Outro absurdo", respondeu-lhe o outro. E terminou com uma citação de M.S. Lourenço, ou que eu retive como hipotética aproximação de M.S. Lourenço: 
"Eram onze horas quando o dono da vinha encontrou pelas esquinas operários que esbocejadamente bibliotecavam. Antes destes, grupos de outros operários operavam a vinha. Disse então o mestre da vinha: vinde à vinha, enchei os lenços. Necessito de quem me faça água-pé. Foram eles, supõe-se que agilmente. No fim, quando a cada um deu o que cada qual, gritaram os primeiros: Para que serve ser primeiro? Resposta do senhor da vinha: para a água-pé, não há primeiro nem último, há apenas água-pé.". Como numa parábola zen, foi nessa altura que o morto entrou mesmo no Céu, sem ver mais Adolf Hitler nenhum, mas também sem ver S. Francisco de Assis nenhum.

 

3. Volto à terra. Ouviram essa frase em dezenas de filmes, leram-na em dezenas de livros. Julgo que ainda se usa nos estados dos Estados Unidos que não aboliram a pena de morte. Depois de feita a prova, "beyond a reasonable doubt", da culpabilidade de um assassino, sem atenuantes, o juiz condenava-o a ser pendurado na forca até que a morte o levasse. Breve pausa. E, depois, estas palavras: "Que Deus tenha misericórdia da sua alma." Ou seja - se não pensaram nunca, pensem bem nisso -, o juiz mandava matar aquele homem, ou aquela mulher, tirar-lhe a vida, que o próprio Cristo viera redimir, mas anunciava, ao mesmo tempo, que Deus podia ser mais misericordioso do que ele. A justiça dos homens era e é (ou podia ou pode ser) mais severa do que a justiça divina. Quem deu aos humanos poderes que os homens admitem que Deus pode não exercer? "Não julgues e não serás julgado." "Quem nunca pecou que atire a primeira pedra." Mas todos julgamos, todos atiramos pedras e eu acredito que nenhum de nós será condenado por isso, que vale de lágrimas só existe aquele que habitámos ou habitamos. A ressurreição é o mistério que me faz acreditar que esta minha fé não é estulta e que não há nada inapagável ou forçosamente pagável.

 

4. Outra história, esta lida há muitos anos no hoje tão esquecido Giovanni Papini. Altas horas da noite, um padre recebe a visita de um colega, demente. Quer saber se o sofrimento de Cristo, na paixão, foi infinito. O acordado resolve ser paciente. Levanta-se da cama, veste um abafo, e responde-lhe que evidentemente sim, pois, sendo Cristo Deus, o seu sofrimento só em termos de infinito se pode conceber. O outro, crescentemente alucinado, pergunta-lhe então como é que os homens podem aceitar a alegria eterna, sabendo que, por mais que tenham sofrido, tão-pouco sofreram por comparação com Cristo. Só há uma maneira - uma só - de mostrar gratidão ao Senhor. Sofrer infinitamente, como Ele sofreu. Como esse sofrimento é inacessível nesta vida, há que procurá-lo na outra. A danação eterna é o único meio para sofrer tão infinitamente como o Filho do Homem sofreu. Para tal, é compulsivo morrer em pecado mortal. Conta-lhe de seguida um ror de pecados abomináveis que cometeu nas últimas semanas, meses ou dias. Não houve crime, por mais horrível que fosse, que não tivesse cometido. Tenciona culminá-los com o suicídio. Assim terá por certas as chamas do inferno. 
O colega tenta todos os argumentos para o chamar à razão. O pecado do orgulho, querer comparar-se a Jesus Cristo. "Ainda bem que descobriste mais um", responde-lhe, com lógica demencial, o alucinado. "Deus vai-te dar a graça do arrependimento, nem que seja no último segundo." 
Perante essa hipótese, para ele terrível, o desassisado recupera alguma calma. Levanta-se e abre a janela. Logo se agarra ao incerto antagonista, pega nele com toda a força e atira-o borda fora. Segue-o no mesmo segundo. "Agora estou certo de não me arrepender", é o último brado. Afinal o mais incerto. Quem sabe o que se passou nos instantes que lhe antecederam a morte, esmagado no solo? O paradoxo do padre que queria ser Deus é indemonstrável.

 

5. Tem direito a outra história, de todas a que mais me perturba.Também foi um amigo quem ma contou, atribuindo-a a Hannah Arendt. Se bem entendi, é num ensaio sobre Brecht. A escritora, amiga do poeta, escreveu-lhe para Berlim-Leste, nos últimos anos da vida dele, quando Brecht escolheu viver na RDA. Censurou-lhe muitos atos que lhe eram atribuídos, muitas coisas que ele calou, muitas omissões que foram perdição de outros. É um requisitório implacável e arrasador. Mas, no fim da carta, Hannah Arendt não ameaça Brecht com Pêro Coelho, nem com nenhum dos círculos de Dante. Como eu, não acreditava nessas coisas nem as achava compatíveis com a infinita misericórdia divina. Diz-lhe apenas isto (obviamente cito de cor): "Quando morreres, o Senhor não te mandará para nenhum inferno. Mas mostrar-te-á todas as peças, todas as novelas, todos os poemas, que tu e só tu podias escrever e dir-te-á: 'Por causa do que foste, não os escreveste. Agora, ninguém mais os escreverá'." É uma variação sobre a célebre porta de Kafka? É. Mas Kafka, dos escritores que conheço, aquele que, com Dostoievski ou Musil, mais fundo foi aos abismos da irrisória justiça humana, da irrisória culpabilidade humana, também só nos disse sempre que o inferno é o nosso fim, e nunca o nosso princípio. O resto é Kierkegaard e a alternativa impossível. Não haverá balanças. Haverá apenas o que só cada um de nós podia ter preenchido e não preencheu. Inapagável? Se o fosse, Adolf Hitler não podia estar no céu, nem talvez nenhum de nós. "Que não sejam julgados como puros espíritos / Que não sejam pesados pela balança justa / Que sejam como a vinha e o trigo maduro / Que nunca são medidas no flanco da colina." Para acabar, deixo de ser incerto. Estes versos são da "Eve" de Charles Péguy e neles o poeta faz esse pedido à mãe do género humano. A tradução é de Manuel de Lucena.

 

10 de outubro 2003, in Público

A VIDA DOS LIVROS

 

De 18 a 24 de junho de 2018

 

A atribuição do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a Bettany Hughes leva-nos a lembrar uma das suas obras marcantes, «Helen of Troy» (Jonathan Cape, London, 2005; com tradução portuguesa, Alêtheia, 2008), que nos permite tomar contacto com as maiores qualidades desta historiadora que se tem afirmado na investigação e divulgação histórica e na defesa do conhecimento das raízes como base do património cultural como realidade viva.

 

PATRIMÓNIO REALIDADE VIVA

Para além do Património construído, importa valorizar a componente espiritual e humana, que nos permite assumir uma atitude humanista, assente na cultura como criação. A herança e a memória preservam-se estudando, cultivando, refletindo sobre a humanidade. Só assim compreenderemos como o tempo é fundamental na consolidação das instituições e de uma sociedade aberta. Referindo-nos à perspetiva de Bettany Hughes que parte de um exemplo concreto para nos relacionar com o Património Humano, Helena de Tróia faz parte da antiga mitologia grega. Filha de Zeus e de Leda, possuía a fama de ser a mulher mais bela do mundo. Diz a lenda que Teseu a chegou a raptar, mas ela foi libertada por Castor e Polux, seus irmãos. A conselho de Ulisses, o rei de Ítaca, veio a casar com Menelau, rei de Esparta, não sem que continuasse cobiçada por muitos pretendentes. Até que, numa viagem a Esparta, Páris, filho do rei Príamo, raptou Helena e levou-a para Tróia. Menelau, Agamemnon, rei de Micenas, e os seus aliados gregos, empreendem então uma poderosa ofensiva contra Tróia, com cerca de mil navios e a presença, segundo a lenda, dos mais valorosos guerreiros e estrategas de que se poderia dispor, no sentido de recuperar Helena, cuja defesa tinham jurado. Assim se dá início à longa guerra descrita em «A Ilíada» de Homero que durará, segundo a tradição, dez anos. Para a moderna historiografia essa memória relaciona-se com a expansão dos micénios para a Ásia Menor, região dominada pela presença dos hititas. Além de Homero, também Hesíodo e outros atores da cultura grega ocuparam-se de Helena de Tróia, como símbolo fundamental da cultura grega mais antiga – articulando os mitos sagrado, político e humano. Através da combinação de vestígios físicos, históricos e culturais que esta princesa da Idade do Bronze recente (1600-1050 a.C.) deixou na Grécia, no Norte de África e na Ásia menor, B.Hughes procura revelar, de modo brilhante, os factos e os mitos que rodeiam uma das figuras mais enigmáticas e famosas da história das civilizações mediterrânicas. A autora acredita que o mito de Helena tem como base uma personalidade que existiu de facto, assentando a sua identidade em três pilares, que correspondem a três arquétipos, que se anunciam no próprio título da obra: princesa, deusa e prostituta. Notam-se, assim, a legitimidade política, a maternidade sagrada e a fecundidade. Partindo da ideia de que Helena é uma personalidade que existiu, a escritora localiza o seu nascimento no Peloponeso, referindo que a efabulação mitológica decorre da cultura do Mundo Antigo, perante o evidente poder carismático da princesa. O tema do rapto traduz, por isso, um sintoma de uma forte e inequívoca ligação à tradição do politeísmo grego – sendo Helena considerada filha de Zeus e imortal. O mito torna-se, pois, compreensível pelo carácter excecional da figura. Deste modo, a obra revela as qualidades fundamentais da autora – estudiosa e divulgadora da cultura clássica, para se compreender melhor a importância das raízes históricas e o significado complexo e dinâmico do património cultural.

 

COMO DEFENDER O PATRIMÓNIO?
A melhor maneira de não deixar ao abandono o património é o seu conhecimento e o seu estudo. E, sem prejuízo, de poder haver dúvidas historiográficas sobre as pistas lançadas e as conclusões assumidas pela historiadora, a verdade é que, partindo de um período tão complexo e difícil, pleno de incertezas, desde a própria existência da guerra de Tróia até à complexidade das figuras míticas, estamos perante a consideração dos elementos conhecidos e disponíveis que constroem uma narrativa coerente, e pedagogicamente consistente, sobre as origens da Grécia Antiga. Os claros e escuros não impedem a procura de uma chave de leitura que permita associar os mitos e as realidades históricas, sendo que não podemos dispor de testemunhos seguros que façam luz sobre as naturais dúvidas que existem e a própria autora assume. Não há certezas, mas propostas com verosimilhança para responder à pergunta: quem foi Helena de Tróia como figura com existência e personalidade próprias. B. Hughes é ainda autora de «The Hemlock Cup: Socrates, Athens and the Search for the Good Life» (Uma Taça de Cicuta: Sócrates e a procura da Vida Boa) (2010), que fez parte da lista de bestsellers do The New York Times e foi finalista dos prémios da associação norte-americana de escritores. Em 2017 publicou, também com assinalável êxito, «Istambul: A Tale of Three Cities» (Istambul, Um Conto de Três Cidades), onde faz uma apaixonante viagem por Bizâncio, Constantinopla e Istambul e pelas suas três culturas, enfatizando o diálogo entre o Ocidente e o Oriente, em oito mil anos de História – desde o Neolítico e Antiguidade até hoje.

 

A HISTÓRIA CIÊNCIA DO FUTURO
Encontramos a noção de Património Cultural, como realidade humana, em toda a pujança – como fator de relacionamento e compreensão da complexidade e da diversidade. A historiadora é uma referência na comunicação respeitante à História antiga e medieval – com mais de 50 programas, em canais de rádio e televisão, como a BBC, ITV, Channel 4, Discovery, Canal História, National Geographic, além do sistema de televisão pública dos Estados Unidos, PBS. Bettany Hughes formou-se na Universidade de Oxford (St. Hilda College), especializou-se na Antiguidade e Idade Média, tendo sido investigadora no King’s College de Londres com tutoria no Institut of Continuing Education da Universidade de Cambridge – sendo convidada pelas principais instituições de ensino superior inglesas e norte-americanas para proferir conferências. A lista de temas que tem abordado é impressionante. A título de exemplo referimos: os egípcios, a verdadeira face de Nefertiti, o mistério de Tutankamon, engenharia no antigo Egipto, a história bíblica, a democracia ateniense, os espartanos, a ilha do Minotauro, a invasão romana da Grã-Bretanha, as origens do cristianismo, Alexandria, as maravilhas do mundo budista, o fim de Pompeia, até às figuras de Sócrates, Buda e Confúcio, bem como de Marx, Nietzsche e Freud… Estamos diante da consideração do Património Humano que nos permite compreender a importância do Património Cultural como realidade viva.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Zhao Tingyang avisa-nos de que Tianxiá é uma redefinição da política, um tratamento do mundo como sujeito político. A China é uma narrativa, enquanto que o Tianxiá é uma teoria. Vamos então ao seu Tianxia - tout sous un mêma ciel (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018), de que já te falei, ler o que o filósofo chinês - que alguns pretendem ser um ideólogo do nacionalismo chinês na atualidade - nos diz de um conceito trimilenário que ele hoje retoma. Traduzo:

 

   A mundialização, no seu turbilhão, arrasta tudo e por todos os lados, e nada doravante existe fora desse fenómeno. Menos prezar este novo contexto político tornaria difícil uma pertinaz definição dos problemas do mundo contemporâneo. Na verdade, não é só a questão política que se transforma, mas também a maneira de existir do mundo, que deixa pressagiar um mundo do futuro a necessitar de uma ordem de ser que lhe corresponda, a saber, uma ordem que realize a sua inclusão: chamo-lhe o sistema Tianxiá. É certo que o Tianxiá é um conceito nascido na China antiga, mas não é específico da China: os problemas a que se atém ultrapassam a China, são problemas universais que envolvem o mundo. O termo Tianxiá designa um mundo que possui a sua própria mundialidade. Também podemos interpretá-lo como um processo de formação dinâmica que se refere então à mundialização do mundo. O sistema Tianxiá da dinastia dos Zhou na China (1046-256 a.C.) desapareceu há muito, mas o conceito de Tianxiá que esta nos legou tornou-se em fonte de inspiração para imaginarmos o futuro do mundo. Ninguém conhece o porvir, mas não podemos calar-nos acerca dele, e uma ordem mundial cuja intenção fosse a bondade universal mereceria ainda mais a nossa imaginação.

 

   Vês assim, Princesa, como retomo a tentação de cair em utopia - ou em utopias de que te falei em carta recente - por me parecer ainda que a invenção dum mundo novo se fará apenas pelo propósito da descoberta de uma nova cultura da paz. E revejo-me -  lembra-te do que então te escrevi - no Zhao Tingyang que diz: Os conceitos políticos internacionais definidos pelos Estados Nações, os imperialismos e as rivalidades pela hegemonia vão perdendo a sua pertinência face à realidade da mundialização. Se esta não tiver retrocesso, os poderes supremos definidos pelos Estados Nações, tal como os jogos de política internacional que deles decorrem, pertencerão ao passado, enquanto que os novos poderes de redes mundializadas pós contemporâneas e uma política autenticamente mundial constituirão o futuro.

 

   [Hoje mesmo, domingo 13 de maio, assisti pela TV à missa celebrada pelo cardeal chinês, bispo emérito de Hong Kong (há por aí cada vez mais eméritos, caramba!), que, adolescente ainda, foi de Cantão para o seminário de Macau, quando a sua família se refugiava na colónia britânica de Hong Kong, nesse pós guerra perdida pelos japoneses e retomada pelo confronto entre nacionalistas e comunistas chineses. Trágico mas real. Também assisti na véspera à procissão das velas, uma maré de peregrinos acesos por dentro e por fora, vivos de uma fé que não se cansa de lhes dar esperança, e me comove no íntimo de mim porque não sei que mais fazer para que assim seja. Comungo com eles nessa estranha força que jorra dentro de nós e nos diz a certeza de um dia encontrarmos a utopia.  E lá me lembrei de outras notícias, mais ou menos fresquíssimas, que nos dizem o susto europeu (sobretudo francês e alemão) com as ameaçadoras sanções da américa trumpista a empresas europeias com interesses praticados no Irão, sublinham os bombardeamentos israelitas a posições iranianas, bem como o pronto sim-sim e aplauso de Netanyahou à vitória da sua bandeira na Eurovisão e à possibilidade de, em 2019, o dito festival se realizar em Jerusalém! Tudo já combinado, "pacífico" e animador, como poderás imaginar. Perigoso, a tal ponto, que já se fala da eventualidade do secretário de estado Pompeo servir de mediador entre a agressividade de Bolton/Trump na questão iraniana e a moderação diplomática do secretário da defesa Jim Mattis. Seria uma boa obra, mas penso agora nos palestinos, cristãos e muçulmanos, vítimas dos "nazis" israelitas. Este parêntese serve para te mostrar como as boas intenções religiosas nem sempre vencem o maligno, nem Nossa Senhora de Fátima, em 1917, conseguiu que a guerra terminasse imediatamente, como tampouco evitou o massacre de milhares de portugueses em La Lys. Isto é: impõe-se despertar as consciências humanas para a ação redentora. Era menino e ensinaram-me: Aide toi et le Ciel t´aidera!]

 

   A grande dúvida estará entre se a inteligência e a vontade dos humanos saberão levar avante um olhar limpo e novo e o gosto de construir em comunhão a terra, até hoje de nenhures (a Utopia), onde todos convivamos... ou se a pertinácia do preconceito e da soberba continuará a fechar-nos, uns aos outros, os olhos e o coração. Dirás, Princesa de mim, que eu sou um lírico - responder-te-ei "Sim, Senhora, gosto de sonhar para esquecer". Mas, voltando ao Tianxiá, devo acrescentar que tal conceito é como Janus, tem duas faces, ou poderá tê-las conforme o pensarsentir que se propuser realizá-lo: ou visando converter os povos todos à disciplina anunciada pelo "dono" do mesmo; ou acreditando que será possível despertar em todas as gentes uma consciência militante da construção partilhada da paz. Interrogando-me sobre a China hodierna, recorro ao meu velho amigo João de Deus Ramos, primeiro diplomata português na China, após o reatamento de relações diplomáticas, tendo aberto, em 1979, a Embaixada de Portugal em Beijing, estudioso das coisas do Oriente, sobretudo sínico, e que também esteve colocado no Japão, uma década e meia antes da minha prolongada missão por lá. É frequente, hoje ainda e depois de 65 anos de amizade, conversarmos sobre aquelas experiências. E tive o gosto de reconhecer o labor da sua obra no fomento do Instituto Confúcio da Universidade do Minho, quando, em 2014, um jovem intelectual e empresário portuense, cujo estágio, no Japão e na Coreia, acompanhei, o Pedro A. Vieira, me ofereceu um exemplar de A Herança de Confúcio - Dez ensaios sobre a China, publicado em novembro de 2013 por aquele instituto, e reunindo, com organização da doutora Sun Lam (natural de Beijing, licenciada pela Jinan de Cantão, doutorada pela Universidade do Minho!),  a colaboração de dez autores, entre os quais os meus amigos de que te falo acima. É consolador ver que, em Portugal, também se iniciam estudos sínicos. Mas não irei agora respigar o texto do embaixador João de Deus sobre o relacionamento da China com o exterior. Antes irei buscar ao texto do doutor Luís Cabral, uma Introdução à Filosofia Clássica Chinesa, um esclarecedor esquema que lhe foi sugerido por João de Deus Ramos, e que Luís Cabral assim apresenta:

 

   Passando ao conceito de Tian, que correntemente se poderá traduzir por "Céu", terá porventura na estrutura mental e de pensamento chinês muito mais uma conotação ética e política do que propriamente religiosa. Para uma melhor compreensão do que dizemos, propomos a seguinte narrativa. Pelo século XI a.C., a dinastia Shang foi derrubada pelos Zhou, tendo estes sentido a obrigação ou necessidade de conceber uma teoria filosófica e teológica que justificasse a tomada e o exercício do poder.

 

   A visualização desta filosofia política, filosofia que porventura estará ainda bem presente na mentalidade dos chineses e chinesas modernos, governantes ou governados, poderá melhor esclarecer a importância do conceito, em articulação com outros caracteres conforme o esquema que segue:

 

                                                                                  tian

                                                                   xià           zi          ming

 

em que tian, o Céu (numa tradução simplista, já referimos) teria o direito de oferecer (ou retirar, em caso de má administração) o tianming, ou Mandato Celestial, para que tianzi, o Filho do Céu (Imperador ou Partido Comunista) administre tudo quanto existe, tianxiá, tudo debaixo do Céu, ou seja, a China. É com este esquema elementar que a China foi fazendo a sua história, dinastia sobre dinastia. Não é isto figura de retórica. Sempre que tianxiá está em muito más condições e tianzi é demasiado mau administrador, tian manifesta-se (catástrofes naturais, cheias e fomes, pragas, terramotos, revoluções, etc.) retirando-lhe o tianming. E a dinastia necessariamente muda.

 

   Este esquema de João de Deus (quase uma cartilha maternal da língua sínica) entender-se-ia bem melhor se eu soubesse traçar aqui, nesta carta, os pertinentes caracteres chineses: o tian que diz Céu, o ming que diz mandato ou missão, o zi que diz menino ou filho, o xiá que diz debaixo de... Mas, tal como está, também dá para perceber que tudo se refere ao Céu. No nosso Ocidente, ao que parece hoje em dia, a medida de todas as coisas é o dinheiro. O que, evidentemente, e apesar de não pensarmos nisso, vai afastando qualquer referência estratégica do plano e da prática política do Ocidente. Pois que é bem verdade que o objetivo dinheiro logo torna a atenção e o comportamento numa busca de oportunidades de enriquecimento (e quanto mais imediato, tanto melhor), com esquecimento da prossecução a prazo de valores constitutivos de humanidade: ordem e progresso, justiça e paz. A ideia de riqueza, finalmente, comanda a política. Não aludo apenas à corrupção, nem sequer à cumplicidade do poder político com o financeiro, ao ponto de tranquilamente se aceitar o viático da porta giratória. Refiro-me à propagada idealização do êxito (a que chamam "sucesso", isto é, "acontecido") medido por critérios quantitativos de PIB, lucros, dividendos, salários, e respetivo crescimento...ou de custo, dívida, défice, e respetiva diminuição. Nas relações internacionais, tudo se vai medindo por balanças comerciais e de pagamentos, por compensações e mercados rentáveis, a venda de armamento, por exemplo, não conhecendo, de facto, qualquer limite ético, e todos os bens ditos estratégicos sendo transacionados em função do pagamento ou como armas de chantagem. A cena internacional é também eleita para palco da exibição de megalomanias - de propaganda nacional, partidária ou pessoal (sobretudo para diversão das atenções internas) - ou simples encenação de recados, ameaças ou provocações. Viste, Princesa de mim, a comédia da inauguração da embaixada dos EUA em Jerusalém? Até deu lugar a discursos incendiados de dois pregadores, pastores "evangélicos" apoiantes de Trump e das posições hegemónicas de Israel (de que já te falei numa carta onde também referia o vice-presidente Pence) - um dos quais, aliás, leva no currículo (paradoxalmente?) umas diatribes clamando que os judeus que não se converterem vão para o inferno -  ... E, mais ainda, da presidencial filha Ivanka e seu marido, Jared Kushner, falando em nome dos EUA e em representação do seu presidente, assim violando a lei americana, que é, e bem, muito rigorosa em matéria de nepotismos e tentações imperiais! Talvez por isto, ou pelo disparate da própria declaração, apagou o registo oficial americano uma frase proferida pelo genro do presidente, no decurso da cerimónia e da violência israelita em Gaza: as we have seen from the protests of last month and today, those provoking violence are part of the problem and not part of the solution...  Tal espetáculo, a que assistia um Netanyahou babado, representava-se a menos de 50km do horror da repressão de manifestantes na faixa de Gaza, que reclamam o regresso à pátria e aos direitos que os sionistas violentamente continuam a roubar-lhes. Nesta perspectiva, e para um Kushner também, os palestinos são só problema, a excluir de qualquer solução...

 

    Já percebeste, Princesa que todos estes acontecimentos têm perturbado a tranquilidade da distância que habitualmente ponho entre o meu pensarsentir, com a decorrente escrita, e a agitação barulhenta de um mundo sempre confuso - e hoje cada vez mais, porque ao alvoroço noticiado se somam comentários exaltados, quase sempre facciosos e pouco, ou desonestamente, refletidos. Assim, eu também me afastei da pedagógica, e proveitosa, consideração da sabedoria, e utopia, do Tianxiá. Mas lá voltarei, consciente de que não há bela sem senão, e de que tudo é o que é - ou o que se formula - e a sua circunstância. E lembrado de ditos de Ji Zhe, professor no francês INALCO (Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais), numa resenha à 1ªedição chinesa do livro de Zhao Tinyang, publicada, em 2008, na revista La Vie des idées. Citando um filósofo de Beijing, Zhou Lian, Ji Zhe observa que Zhao põe em dúvida o individualismo metodológico que domina a filosofia ocidental e procura justificar o Estado a partir dos indivíduos considerados como seres atomizados, racionais e egoístas... daí concluindo que o seu conceito de Tianxiá seria uma poderosa alavanca do nacionalismo chinês. Já neste ano da graça de 2018, Ji Zhe ressurge mais crítico ainda: Tianxiá é um conceito ético poderoso que, no pensamento tradicional chinês, se inscreve num espaço universal e imaginário, e se distingue claramente do Estado. Tianxiá até permite criticar o atual poder chinês. Ora Zhao Tingyang critica o Ocidente e as relações internacionais, mas não a China. Permite, pois, uma aliança objetiva entre o mundo académico e o mundo político que pode ser perigosa.

 

   Vai longa esta carta, deixo para futuras o regresso ao tema. Mas desde já te lembro, Princesa de mim, que Ji Zhe vive e trabalha em Paris; Zhao Tingyang em Beijing. O nosso habitat condiciona-nos. E quiçá Zhao tenha de encontrar outros modos de tratar a China. Para terminar, deixo-te um trecho da parte II do seu livro, que trata de O Ser e o Devir da China, que traduzo:

 

   A China tem origens e uma composição complexas e mutáveis, e todavia transforma-se sem se afastar das suas origens. Zhang Guangzhi qualificava a civilização chinesa de «forma contínua». A razão da existência contínua da China explica-se pelo facto da China ser, em si mesma, uma maneira de crescer.

 

Camilo Maria

  

Camilo Martins de Oliveira

O TEATRO CLUBE DE ALPEDRINHA, UM EXEMPLO HISTÓRICO

 

A descentralização teatral surge por vezes em situações inesperadas. Em 1839, não seria expectável encontrar em Alpedrinha um teatro: pela época, pela estrutura urbana, pela centralização cultural sobretudo na área dos espetáculos... E no entanto, é desse mesmo ano que se estreia a primeira casa de espetáculos da região.

 

Pois foi em 1839 que se inaugurou em Alpedrinha o chamado Teatro do Calvário, por se situar na rua homónima, mas que seria conhecido também por Casa da Ópera, nada menos: e isto, repita-se, numa época em que a infraestrutura de espetáculos era o que se pode imaginar a nível do interior. E isto, não obstante a vila ser referida pelos grandes nomes da época, e alguns são-no ainda hoje e sempre o serão: Alpedrinha surge citada e/ou descrita por Herculano, por José Leite de Vasconcelos, por Eduardo Coelho, por Manuel Pinheiro Chagas, por Germano da Cunha, por Jaime Cortesão, por Orlando Ribeiro e por tantos mais.

 

Este Teatro do Calvário foi extinto em 1859 e pela mesma época é contruído um Teatro, agora denominado Valadares, que durou até 1891, ano em que um incêndio o destruiu.

 

Mas diz-nos Sousa Bastos, no “Diccionario do Theatro Português” que em 1893 é inaugurado um novo Teatro, agora Theatro-Club de Alpedrinha, com uma considerável capacidade arquitetónica e de espetáculo. A sala tinha, e citamos, “15 camarotes de primeira ordem, 7 de segunda ordem, 24 cadeiras, 28 lugares de superior, 80 de geral e 48 de galeria”, e era iluminado a acetilene... estamos em 1903.

 

E nesse sentido alinha Luciano Reis, que fornece detalhes da construção, que não deixam de ser hoje interessantes, numa perspetiva de descentralização cultural. Segundo informa, o Teatro Clube de Alpedrinha “foi mandado construir por uma sociedade constituída por 28 pessoas. As obras iniciaram-se em 7 de março de 1893 e inaugurou-se a 12 de novembro do mesmo ano, com o drama Os Dois Sargentos e a comédia O Noivo de Encomenda desempenhadas por amadores” (in “Teatros Portugueses” ed. Sete Caminhos 2005).

 

No que me diz respeito, referi o Teatro-Clube de Alpedrinha em “Teatros de Portugal” (ed. INAPA 2005) salientando a sobrevivência da sala em muito boas condições operacionais mas descaracterizada. E remeti para um estudo publicado em 1933, da autoria de António José Salvado Mota, intitulado “Monografia de Alpedrinha”, esse reeditado em 2004.

 

Finalmente: é interessante referir que o Teatro Club se concentrou, ao longo destas décadas, no apoio a grupos de amadores locais. De salientar então esta presença da arte do teatro em zonas descentralizadas, digamos assim.

 

É pois de assinalar a atividade deste Teatro, que se mantem até hoje. E vale a pena citar Orlando Ribeiro: “Quem fizer alto na portela de Alpedrinha, na estrada entre esta vila e o Fundão, terá debaixo dos olhos um dos contrastes geográficos mais vigorosos da terra portuguesa”. (in “Guia de Portugal” vol. III).

 

É caso para dizer que esse vigor da atividade cultural/teatral dura até hoje!    

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

12. BANIR O SONO

 

Pela eficiência permanente, que opera 24 horas por dia, elimine-se o sono.
O sono é estagnação, inatividade, inércia, ócio, preguiça.
É antagónico com a vida dos dias de hoje, impedindo-nos de sermos conscientes, racionais e trabalhadores a tempo inteiro.
O executivo dos nossos dias louva-se de dormir pouco ou quase nada, de passar noites em branco, de trabalhar até à exaustão pela noite dentro, um ser humano máquina, em competição com o computador, fazendo mega horas extraordinárias, que não perde a concentração, nem a missão ou o fim que tem em vista.
O sono impede o conhecimento, saber, rendimento, produtividade.
O sono é noite, escuridão, o império das trevas, incompatível com o dia, o empreendedorismo, com uma vida eficiente e de luzes continuamente acesas.
Para sermos eficientes, empreendedores e racionais a todo o tempo, é preciso abolir o sono, criando sociedades onde o êxito, o ser feliz, o mérito e o reconhecimento são diretamente proporcionais à ausência de sono. Sendo admissível, quando muito, três ou quatro horas bem dormidas, estigmatizando quem não consegue ou dorme o dobro.
A maximização da eficiência funcional é trabalharmos sem intervalos, dia e noite, porque tudo é importante, menos o sono, tendo como perdedores os que o enaltecem.
Por confronto com o malefício do sono, exalta-se a vigília, testando-a progressivamente, via ingestão de anfetaminas, ansiolíticos, pastilhas de estimulação cerebral, neuroquímicos, com a ajuda e empenho de Silicon Valley. 
Investiga-se e examina-se o funcionamento do cérebro de animais que conseguem passar vários dias e noites sem dormir.
Só que o sono é inevitável. Lamentável inevitabilidade, para os opositores. 
Não há melhor cura para curar o cansaço.   
Nem pior padecer que a tortura do sono.
Por enquanto, enquanto dormimos, o sono não é vendável, expulsando as leis do mercado.
O sono é pessoal e intransmissível.
É a afirmação e constatação dos limites do corpo humano, da nossa finitude, mesmo que governados ou dirigidos por pessoas que não querem dormir, que minimizam ou odeiam o sono, que o têm como dispensável e irracional, que o desejariam abolir ou banir, podendo.
Afinal, toda a gente se cansa e não sobrevive sem sono. 

 

12.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

O nonsense pelo nonsense

 

A tarde era soalheira como o eram muitas das tardes vividas naquele alpendre da chamada casa grande na ilha de S. Miguel. Todas as cadeiras de vime, com largas almofadas queixosas do uso, estavam viradas para o mar. Em cima da mesa o bule com o chá fumegava ao lado do bolo de laranja, posto que ocupava sempre ufano, naqueles domingos em que por volta das 5 da tarde lá chegava o prior para deitar conversa fora com os donos da casa grande e fazer as meninas, Antónia e Bernadete, escreverem as redações sob sua sugestão temática.

 

A de hoje parecia-se com todas as dos outros domingos, mas fingia-se não descortinar. E lá começaram as obrigadas dotadas a escrever sobre A Alice no País das Maravilhas e a sua amiga, a Gata Borralheira.

 

Depois leu-se em voz alta:

 

Uma vez uma menina muito importante transformou-se em gata. Ninguém dera conta das possibilidades que a menina tinha para assumir a nova condição e sobretudo usar coroa e manto de chinchila quando espreitava o pobre gato preto que ao final da tarde lá ia aceitar os ossos que ela lhe dava. Estes ossos eram, pela gata borralheira, partidinhos miudinhos para que o gato se engasgasse, fosse parar ao hospital e a gata muito piedosa o pudesse acompanhar e de indispensável enfermeira se tornasse sua mulher promovendo-o a duque da casa grande. No dia do casamento quem levaria a cauda do longo vestido com véu de arame de capoeira seria a grande amiga, Alice, rapariga que vivia de maravilha em maravilha até ao dia em que se picara no arame do véu do casamento da amiga, e, logo se transformara numa madrasta má. Então a agora madrasta, vestida de vestido de horrível gosto, dobrara com cautela, um pouco do arame do véu da noiva, de tal modo que, quando chegada perto do altar, picou com ele o gato-noivo, duque da casa grande, que logo se apaixonou por ela e fugiram os dois num meteoro aranhoso para o país das maravilhas.

 

Na verdade ninguém ficou chocado com a redação das manas Antónia e Bernardete. Olharam uns para os outros seguindo o princípio de quem decreta o decreto por decretar, e o reverendo achou mesmo que os argumentos da redação, podiam sustentar-se numa insanidade desafiante, numa congruência nonsense, ou numa profunda aptidão para a inaptidão, afirmando estes reparos todos com sorrisos complacentes.

 

Ao que a mãe das meninas acrescentou de imediato:

 

Talvez até se tratasse de algo absolutamente nacional, ou, de um nonsense inclinado para a realidade. E lá que era pedagógico (o que ainda é pior) era, sim senhora. Ah! Que curioso, disse, é absolutamente nova a forma como as minhas filhas veem a realidade. Nos dias que correm, a este nível é raro. Ah é, é! São deveres morais escutarmos a voz da razão: não acha Sr., padre?

 

E enfim, sabe-se que a hilaridade que terá nascido naquela tarde de verão foi tema lato e que sem esta obra de redação, o nonsense nunca teria chegado a parte constituinte, ao menos na ilha.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

‘O Fulgor da Luz’.

 

Em ‘O Fulgor da Luz’, conversas de Anne Philipe com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes lê-se que, na verdade o pintor acaba por nunca fazer exactamente o que quer. Há sempre uma distorção provocada pela distância que existe entre a razão que pensa e a mão que executa. O pintor tem de procurar sempre ser consciente daquilo que faz, para tentar entender o que menos se espera, o que vem da inconsciência. Criar implica irremediavelmente um salto, por vezes lento e às vezes alto e que treme diante o desconhecido. A escolha é, para qualquer pintor, muito difícil e até pode acontecer avançar-se demasiado numa via qua não seja a melhor – e às vezes só tarde o pintor se dá conta disso.

 

Arpad parte da natureza e caminha não necessariamente para a abstração mas tenta deixar a espessura essencial, tudo o que é plástico. A pintura é alimentada interiormente. O quadro é assim um projecto, uma ideia, uma força activa na vida do homem (que cria e que vê). Só no momento em que se torna iluminado, a pintura passa a existir. Luz é o que acima de tudo se deve procurar. É aí que reside todo o mistério e toda a dificuldade.

 

‘Sinto que o mesmo fenómeno se dá com a música ou a poesia. Não desejo saber a que princípios obedeceu o compositor ou o poeta, ignoro a sua técnica. Quando os ouço sinto uma emoção que não é necessariamente aquela que eles pretenderam ou julgaram dar. O mesmo se passa com um quadro. O que é belo penetra e espalha-se tão longe e tão profundamente em nós, que é impossível canalizá-lo…’, Vieira da Silva

 

Ao longo de uma vida, a pintura não faz progressos. Modifica-se, torna-se outra. Ao fim de anos e anos de trabalho certamente que o pintor adquire alguma ciência, mas no entanto, e quase sempre é impossível, ao pintor explicar exactamente o que está a fazer e porque é que o faz. Vieira diz que enquanto se pinta, sente-se por vezes que o que se faz não está bem, que há que recomeçar, que há que corrigir, mas é impossível explicar porque se está descontente, por que razão se corrige.

 

Ainda Vieira afirma que não existe nenhuma ideia prévia antes de começar um quadro. Caminha-se às apalpadelas. Sabe-se que se quer seguir um caminho, mas não exactamente qual. É mais fácil partir de um determinado assunto, do que pintar um quadro que é formado por um jogo de volumes, de equilíbrio e de luz. A total ausência de modelo, implica que tudo depende e que tudo está entregue ao próprio pintor.

 

‘Um quadro para se tornar vermelho, tem de conter todas as cores. Emprega-se todas as cores para que plástica e pictoricamente não haja um único vazio, tão intensa é a vibração do branco, ou seja a vibração da luz.’, Vieira da Silva

 

O nascimento de uma pintura é sempre diferente, é algo perfeitamente misterioso, e o modo como é feito também. A mão, que reúne os segredos do corpo, por vezes trabalha só mas é raro. Quando se pinta há dois quadros avançando a par, o que está no cavalete e o que se tem na cabeça - e na maior parte das vezes o que se tem na cabeça nunca chega a alcançar o outro. O pintor nunca está satisfeito, por isso, a busca continua infinitamente.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

Her Maj at the 92, The G7 Twitterstorm, and Historic Talks, 2018

 

Olhos e preces centradas na cidade estado de Singapore. É a histórica reunião entre os presidentes Donald J Trump e Kim Jong-Un, com o mundo em suspenso sobre o eventual acordo de desnuclearização “complete, verifiable and irreversible” da Korean Peninsula. O UN General Secretary António Guterres está pronto para apoiar a paz entre Seoul e Pyongyang.

O UK disponibiliza os peritos nucleares. — Chérie! L’histoire regarde ces deux. A Queen Elizabeth II celebra o 92.º aniversário com passeio a solo, em carruagem aberta, no Mall, e os tradicionais Trooping the Colour, na Horse Guarde Parade, a RAF Flyover, nos céus de London, e a saudação popular da Royal Family, na varanda do Buckingham Palace. O patriarca Prince Philip perfaz 96 anos, com o Duke of Edinburgh ora reformado da esfera pública. — Happy Birthday, Your Majesty. A damehood para a atriz Mrs Emma Thompson e a knighthood para o Literature Nobel Prize Mr Kazuo Ishiguro assinalam a Honours List, com 1,057 pessoas galardoadas por serviços ao reino. A House of Commons acolhe 48 horas de Brexit warfare. O Lab líder RH Jeremy Corbyn completa 35 anos como Islington North MP. O Quebec recebe tormentoso encontro do G7. A Shangai Cooperation Organization apresenta-se como cimeira alternativa, reunindo China, Russia e India. Beijing entrega a Friendhip Medal a Mr Vladimir Putin, a mais alta condecoração para estrangeiros. Italy fecha os portos aos barcos de pesca de emigrantes.

 


A tempestuosa cimeira canadiana do G7 vista por Beijing. © Courtesy China Daily

 

Beautiful Summertime at Central London. And very hectic days in Parliament. Mas comecemos pelas cenas extraordinárias ocorridas na cimeira das sete nações mais industrializadas do mundo. As emoções fortes vêm a público através das imagens, e uma fotografia como a logo divulgada pelo China Daily vale por 1000 palavras (ver em detalhe, sff). Mas a cimeira fica sobretudo marcada pela tempestade trumpista de declarações. É toda uma atitude; e é Trump vs The World. O senhor chega tarde aos encontros, declara “let us bring in the Russians,” a sua agenda não abre espaço para a reunião bilateral com a UK Prime Minister, indispõe-se com todos à volta da mesa e acaba a rasgar a declaração conjunta que assinara com os aliados. Na conferência de imprensa final desfecha que ali fora fazer “a free trade proclamation,” esgrimindo em estilo alpha behaviour com novas tarifas aduaneiras sobre as importações norte americanas. O homólogo gaulês riposta: “No leader is eternal.” Já a voar para Singapore, o POUS puxa do Twitter para enviar novas mensagens aos pares ‒ às 2:05am, 2:17am, 2:29am, 2:42am, 2:45am e 3:41am. Ilustração postal: “Why should I, as President of the United States, allow countries to continue to make Massive Trade Surpluses, as they have for decades, while our Farmers, Workers & Taxpayers have such a big and unfair price to pay? Not fair to the PEOPLE of America!” Mrs May por lá reúne a sós com Monsieur Emmanuel Macron, Frau Angela Merkel e Mr Justin Trudeau. Hoje encerra o dossiê em Westminster, face aos MPS, concluindo que foi “a difficult summit.”

 

Vagas alterosas esperam a Premier em Downing Street. As Brexit Laws começam a sua semana mais longa na House of Commons, após serem rasuradas nos Lords com 15 emendas. O Tory Government espera reescrever 14 destas alterações ao seu projeto legislativo com a anterior tinta. Tudo permanece incerto, porém, até à contagem de votos. RH Theresa May pede unidade ao reunir hoje com as tropas conservadoras no 1922 Committe. Há dias atrás sela tréguas no Cabinet, na sequência de tropel de rumores dando o Secretary for Exiting the European Union, RH David Davis, como estando prestes a demitir-se do cargo por causa dos arranjos aduaneiros, e ainda de pouco diplomáticas declarações do Foreign Secretary, RH Boris Johnson, num private dinner ecoado na Press, em torno da EU27 e de sensíveis assuntos internos e externos ‒ #Trump-Kim Summit incluído. O Number 10 navega as dificuldades em Westminster City com estoicismo, recato e leque de palavras neutras, como a senhora claríssimamente evidencia no ponto da situação brexiteira: “This is something that actually we don’t want ever to happen, in the sense that it is purely there in the circumstances where we have agreed the end-state customs arrangement, but for technical reasons it has not been possible to put that in place by January 1, 2021. We are clear that we expect that we will actually be able to have that end-state customs arrangement in place at the very latest by December 2021, but our focus, obviously, is going to be on making sure that we get that agreement which we have all agreed — and others are agreed — is the best way to ensure that we get the right relationship between the U.K. and the EU for trading in the future.”

 

Aguardo a passagem ao écran destes fantásticos eventos. Para já, fazendo a vontade a Mr Trump, os russos entram mesmo… na história do euroreferendo. Um bilionário que financia o Ukip e doa milhões ao campo do Leave é apontado com laços perigosos à embaixada moscovita em London. Entre emails sobre minas siberianas de ouro e almoços regados a vodka, Mr Arron Banks depôe hoje em comité parlamentar. Será divertido. Ligam-se vontades para intentar inquérito policial, a fim de detetar o rasto dos rublos. Um outro discreto euroinfluente vem à superfície. O DExEU Permanent Secretary informa ter regra dourada entre amigos. “If I sit down in convivial company, I make a rule — don’t talk about Brexit,” regista Mr Philip Rycroft. É prudente. As opiniões dividir-se-ão quanto aos protagonistas estarem à altura do script global, mas que este anda intrigante anda. — Zowie. With so many excitement in the air, better listen at heart those lines of ours Master Will in The Tempest: — “O wonder! / How many goodly creatures are there here! / How beauteous mankind is! O brave new world, / That has such people in't.”

 

St James, 11th June 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 11 a 17 de junho de 2018

 

«Do Monte Cara vê-se o Mundo» (Caminho, 2014) de Germano Almeida dá-nos conta do melhor que a cultura de Cabo Verde tem. Germano Almeida foi Bolseiro do Centro Nacional de Cultura, em 2001, no âmbito das Bolsas Criar Lusofonia.

 

BIÓGRAFO DE CABO VERDE
Germano Almeida é o biógrafo de Cabo Verde. Não podemos compreender a vitalidade cultural do arquipélago e do país sem ler hoje o autor de Do Monte Cara vê-se o Mundo. É verdade que Baltazar Lopes é uma espécie de patriarca da “caboverdianidade” ou que Corsino Fortes é um poeta que sente como ninguém a identidade dessa extraordinária cultura da Macaronésia do Sul, mas Germano busca a naturalidade, a alegria de viver, a ironia, a arte de contar, a diversidade de tipos populares e a sensualidade dos corpos e das relações humanas. Não esqueço um dia que nos encontrámos na Praia, numa iniciativa do Centro Nacional de Cultura, e falámos dum tempo que estava para vir, em que de um modo natural a literatura cabo-verdiana seria reconhecida como exemplo maior na diversidade da língua portuguesa. Esse tempo chegou primeiro com o reconhecimento de Arménio Vieira no Prémio Camões e agora com o próprio Germano Almeida. A vitalidade cultural de Cabo Verde augurava essa evolução como natural. Desde que li pela primeira vez O Testamento do Sr. Napomuceno da Silva Araújo não tive qualquer dúvida sobre a qualidade excecional da obra e do autor. E em imaginação, percorremos o caminho iniciático do protagonista. “Atravessou a Rua de Lisboa, o Largo do Palácio e subiu ao Forte de Cónego trotando atrás de Jovita e extasiando-se com a maravilha que era o Mindelo, nunca vira tanta gente junta e sentia-se envergonhado de estar descalço atrás daquela carregadeira que calçava sandálias de plástico. Naquele dia não saiu de casa, temeroso de se perder na cidade enorme ou ser atacado por bandidos que sabia existirem e perseguirem as pessoas de dia ou de noite…”.

 

MINDELO, A CIDADE LIVRE
Ah, o Mindelo, cidade de história conturbada que Germano Almeida aprendeu a conhecer de trás para a frente. S. Vicente foi povoada tardiamente, tempo houve em que os piratas usavam a baía do Porto Grande como local de descanso, antes de avançarem para temíveis investidas. O povoamento foi lento, vindo de Santo Antão e S. Nicolau. E foi a memória da gloriosa revolução liberal, em que Garrett e Herculano estavam entre os bravos de Pampelido que deu o nome à extraordinária cidade que o escritor ama. Aqui acabava a escravatura. E essa invocação do Mindelo mítico era o melhor elogio da liberdade, como recusa a subalternização ou menoridade. E assim se tornou centro de irradiação de uma especial riqueza cultural que aproveitou as potencialidades do entreposto mercantil. Em Do Monte Cara vê-se o Mundo a personagem viva é a própria cidade do Mindelo e a sua gente. O velho Pepe é o cicerone, funcionando como um verdadeiro revelador e encenador de tudo o que vai acontecer. Júlia, Guida, D. Aurora, a Professora Ângela, o Trampinha – todos ilustram uma realidade humana muito rica, com uma ironia inesquecível, sob o olhar divertido e sábio do Monte Cara, em frente à cidade. E eis-nos embrenhados no dédalo que conduz ao Fortim d’El-Rei, à Alfândega Velha ou a Praça Nova, vibrante ao som do funaná. Aqui Nhô Baltas, Manuel Lopes e Jorge Barbosa criaram a revista “Claridade” – onde Chiquinho começou a ser publicado, com a originalidade cabo-verdiana, “excluindo os portugueses de toda e qualquer discussão referente ao destino das ilhas e dos homens”, como disse Alfredo Margarido.

 

UMA LITERATURA FEITA DE VIDA
O percurso de Germano Almeida começou na ilha da Boa Vista, onde aprendeu a viver entre a ruralidade e a cultura urbana. Em Regresso ao Paraíso dirá que “da Boa Vista da minha infância pouco mais já resta que o prazer de usar o tempo. É uma noção do tempo em que o hoje e o amanhã, o agora e o mais daqui a bocado, continuam significando a mesmíssima coisa. E quando para lá ia de férias ia sobretudo em busca desse tempo sem relógio, que é nosso está por nossa conta”. O futuro escritor fez a tropa em Angola, numa zona de confronto. Com vinte cinco anos, graças às qualidades da sua escrita consegue uma providencial bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe permitiu estudar Direito em Lisboa – onde fomos contemporâneos. Em 1977 regressou à pátria e em 1983 fundou com Leão Lopes e Rui Figueiredo a revista “Ponto e Vírgula” – onde publicou contos com o pseudónimo de Romualdo Cruz… Depressa foi descoberta a sua verdadeira identidade e seguiu-se uma entrada natural no mundo literário, com obras reveladoras duma originalíssima maneira de usar a língua portuguesa de Cabo Verde, na tradição dos seus melhores compatriotas. A Ilha Fantástica é constituída por um conjunto de textos, aparentemente despretensiosos, saídos na revista “Ponto e Vírgula”, que se revelam essenciais para a compreensão de uma cultura, onde o picaresco se associa a uma extraordinária apetência de compreender e revelar sentimentos. A última obra publicada, a sair em breve entre nós, – O Fiel Defunto – confirma essa capacidade para privilegiar a ideia de “divertimento”, de prazer com as pequenas coisas… E alguém pergunta ao “fiel defunto”: “mas deves estar a fazer alguma coisa para assim te divertires durante tanto tempo”. “Sim, respondia galhofeiro, ouço música, navego na internet, espreito o facebook, onde aprendo muito sobre as pessoas em geral e as pequenas vaidades que lhes enchem a alma, leio livros, falo com amigos, faço má-língua, digo mal das criaturas de quem não gosto, cuido das plantas do meu jardim que nunca estiveram tão bonitas de tão bem tratadas, enfim um enorme rol de ocupações que me preenchem os dias que gostaria que tivessem 48 em vez de apenas 24 horas”… E assim se confessa imune aos vícios, incapaz de escrever o que não tem para dizer e apenas disponível para deixar passar o tempo, com uma cana de pesca na mão, “sem sequer desejar apanhar um peixe para não ter a maçada de o transportar para casa”… Tem sido ainda importante a intervenção de Germano Almeida no tema da língua portuguesa. Devo dizer que concordo muito com o seu pensamento. Conversei muito sobre isso também com Corsino Fortes. É indispensável um ensino rigoroso do crioulo e o português deve ser muito bem ensinado como língua segunda. É fundamental aprender a falar o português corretamente. A alfabetização em crioulo obriga a cuidados especiais, para evitar barreiras entre ilhas ou comunidades. Dada a natureza dos crioulos é fundamental que o português não seja sentido como língua estranha. A tarefa da escola e da pedagogia obriga a que haja um desenvolvimento harmónico das línguas – como fatores de comunicação e integração. Não esqueçamos que o autor de Chiquinho era professor de latim ou que a taxa de analfabetismo em Cabo Verde era em 1974 menor do que em Portugal. Que significa isto? Que só uma exigência significativa para a comunicação linguística – em crioulo e português, pode evitar a exclusão. Daí Germano Almeida insistir “na necessidade de nós em Cabo Verde dominarmos o português até mais que os portugueses, Porque com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas. Com o português vamos para Portugal, para o Brasil, para Angola”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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