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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua edição de maio/junho deste ano, a revista Books publica, em antevisão da saída a público, no próximo outono, do livro Quatre Essais sur la Traduction, do sinólogo suíço Jean-François Billeter, uma entrevista com este autor. Na linha das teses de outros notáveis estudiosos da China, designadamente da actualidade do seu pensamento e cultura (incluindo, claro está, a filosofia chinesa), tais como Anne Cheng e os coautores de La pensée en Chine aujourd´hui, de que já te falei, Billeter contesta o fundamentalismo da ideia tão difundida - e tão central, por exemplo, na obra do grande sinólogo francês François Julien - de que o Ocidente e a China são dois mundos, não só diferentes e alheios, mas até opostos, no plano do pensamento. Além das razões de fundo que invoca, o autor suíço considera que tal ideia de que a China seja radicalmente diferente é perniciosa, pois segue o discurso que o actual regime chinês tenta impor, deixando crer que a democracia, os direitos do homem, a ideia republicana são invenções ocidentais incompatíveis com a mentalidade chinesa... Para Billeter, o mito da alteridade chinesa, tão divulgado na Europa, surge com Voltaire e os iluministas que, curiosamente, como aliás te disse em carta anterior, o foram buscar aos missionários jesuítas, que procuravam justificar a sua política de conversão do império chinês a partir de cima e, por isso, criaram uma imagem favorável dos soberanos chineses, do seu governo, do mandarinato que governava o império, e do confucionismo que constituía a chave da abóbada do universo intelectual mandarínico.

 

   Retomarei esta reflexão nas considerações acerca do Tianxiao, que te prometi, Princesa de mim. Mas deixa-me agora só traduzir-te uns trechos da entrevista de Billeter à Books, que nos ajudam a perceber a configuração familiar da organização política, de que te falei em conversa sobre o encontro intercoreano. Na verdade, o sinólogo suíço não nega que haja profundas diferenças entre o Ocidente e a China, mas insiste em que, simplesmente, prefere postular a unidade da experiência humana e, a partir daí, procurar compreender a realidade chinesa no que ela tem de particular, do que seguir o caminho inverso. Quando damos prioridade à diferença, perdemos de vista o fundo comum, enquanto que, se partirmos deste, as diferenças surgem por si próprias... E quais serão essas diferenças? Responde:

 

   A China caracteriza-se por uma certa concepção do poder e do seu exercício, em que o político, o familiar e o religioso se confundem. Tal é inegável e é uma chave para a compreensão do país - o fio de Ariana da sua história. [Já te referia esta nota, ao falar-te, Princesa, no Les Trente «Empereurs» qui ont fait la Chine de Bernard Brizay]. Mas, afinal, que tão certo conceito é esse?

 

   Nasceu por volta do ano mil  antes da nossa era, quando a dinastia dos Zhou derrubou a dos Shang. Criou-se então uma ordem nova, para que a vitória conseguida nos campos de batalha tivesse amanhã. O fundador da dinastia Zhou procurou transformar os aliados circunstanciais que o tinham ajudado a tomar o poder em aliados permanentes, e, para o efeito, ele e os seus conselheiros tiveram uma ideia genial: reinterpretar as relações do rei com os seus vassalos em relações familiares. Todos se tornaram irmãos, sendo o rei considerado o primogénito. Como era fácil prever que tal família aristocrática fosse, no decurso das gerações, crescendo e multiplicando-se, e que tal multiplicação acabasse por fazer perigar a estrutura familiar, os Zhou conceberam maneira dela se poder estender sem que nela se introduzisse qualquer desordem. Criaram um sistema capaz de organizar uma família de várias dezenas, ou centenas ou mesmo milhares de membros, reunindo até quatro gerações em simultâneo, sem que alguma vez pudesse haver ambiguidade sobre a ordem de precedência de sequer dois dos seus membros, fossem eles quem fossem. Forjaram uma nomenclatura capaz de identificar exactamente o lugar de cada um nessa hierarquia geral. Tal nomenclatura, que faz da organização familiar um sistema de domínio político, perpetuou-se, no essencial, até hoje. É sem dúvida uma das grandes criações do espírito humano e uma especificidade chinesa.

 

   E assim, Princesa de mim, quem hoje quiser entender o que é o poder do actual presidente Xi Jinping, terá de ter presente esta herança histórica, bem iluminada por aquele texto de Sun Yatsen, primeiro presidente da República da China, no princípio do século passado, que te citei em carta passada, e do qual hoje apenas te repito a última frase: Os países estrangeiros fizeram guerras de religião ou bateram-se pela liberdade; na China, desde há milhares de anos que perpetuamente nos batemos por esta simples questão: tornarmo-nos imperador. A consolidação e persistente reforço da autoridade de Xi Jinping parece trazer-nos mais um exemplo de tal vocação. Mas a circunstância em que o poder central (imperial?) tende a afirmar-se também poderá travar-lhe ou desviar-lhe o percurso, por força, isolada ou simultânea, de irreversíveis crises: sejam elas da economia (abrandamento, estagnação do crescimento), da sociedade (desequilíbrios regionais e desigualdades sociais), do aparelho político (surto de movimentos contestatários ou lutas intestinas no próprio PC), e ainda das relações internacionais (conflitos geoestratégicos no sudeste asiático, excedentes comerciais). É todavia opinião de conceituados politólogos como Jean-Pierre Cabestan, investigador no CNRS francês e director do departamento de ciências políticas e estudos internacionais da Universidade Baptista de Hong Kong, que se mantêm sólidos os obstáculos a qualquer mudança política, faça-se esta por calma evolução ou por ruptura: o poderio e a modernização do Partido-Estado, o carácter soviético e, portanto, eficaz do seu sistema repressivo, o inegável, prodigioso até, êxito económico de que pode vangloriar-se, a despolitização da sociedade, o seu nacionalismo e a superficialidade da sua cultura democrática, a fraqueza da sociedade civil e o conservadorismo geral das elites económicas e intelectuais, tal com a sua dependência relativamente às elites políticas do PC.

 

   Resumindo o discurso, Princesa de mim, e continuando a seguir Jean-Pierre Cabestan, a China tem mais probabilidades de evoluir para um regime ainda bastante autoritário, elitista, paternalista e imperial. O PC continuará a alternar períodos de endurecimento e de alívio político, mas recusará propor qualquer saída do sistema actual. Pelo contrário, ao instrumentalizar a sua alteridade cultural, a República Popular continuará provavelmente a constituir o principal desafio político às nossas democracias e, mais ainda, ao modo como compreendemos o político e a vida política.

 

   Num artigo intitulado L´utopie inclusive - Zhao Tingyang, publicado no suplemento Idées de Le Monde (24/03/2018), Frédéric Lemaître argumenta que, apesar do filósofo chinês Zhao Tingyang pretender que a sua filosofia nada tem a ver com a política chinesa actual, o mesmo desenvolveu o conceito milenário de tianxia, que visa pensar o mundo como um todo, suprimindo qualquer ideia de estrangeiro ou de inimigo. Na orla das realidades actuais, tal teoria política é por alguns percebida como alavanca do nacionalismo chinês. Já te-lo tinha referido, Princesa, repito-o agora para ligar o que nesta te escrevi ao que te direi em próxima carta sobre tal filosofia: tenho comigo duas versões francesas, ambas em tradução de Jean-Paul Tchang, a de Tianxia - tout sous un même ciel, de Zhao Tingyang (Les Éditions du Cerf, Paris, 2018) e a de Du Ciel à la Terre - La Chine et l´Occident ( Les Arènes, Paris, 2014) selecta de correspondência entre o filósofo chinês e o francês Régis Debray. Para te abrir o apetite do tema, traduzo-te as primeiras linhas do epílogo do Adam Smith in Beijing, do falecido Giovanni Arrighi (Verso, 2007):

 

   Partimos de uma questão central: podemos ou não considerar que, apesar das suas insuficiências e dos reveses que não deixará de encontrar, a ascensão da China constitui um sinal anunciador de uma era de maior igualdade e respeito mútuo entre os povos de origem europeia e os povos de origem não europeia, tal como Smith predizia há duzentos e trinta anos? A análise proposta neste livro tende para uma resposta positiva, o que não exclui importantes reservas.

 

   Continua em próxima carta...

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DE TOMAZ RIBAS NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO (II)

 

Vimos, na crónica anterior, a relevância e projeção artística e crítica de Tomaz Ribas nas artes de espetáculo isto, não obstante os quase 20 anos decorridos desde a sua morte:  nascido em 1918, não é somente a celebração do centenário que justifica estas referências: como já tivemos ocasião de escrever, a obra de Tomaz Ribas marca a criatividade cultural do país em áreas diversas, mas sempre num plano de qualidade de profundidade. O livro de José Batista de Sousa amplamente o demonstra.

 

Importa agora recordar que, no que toca ao teatro, foi na companhia então  denominada do  Teatro Experimental que em 1951 se apresentou pela primeira vez uma peça de Tomaz Ribas: ”Roberto e Melizandra”, estreia que abriu assim uma carreira extensa e intensa, muito válida e variada de dramaturgo, onde percorre estéticas e técnicas de espetáculo diversas: designadamente  “A Casa de Isaac”, “Cláudia ou a Vozes do Mar”, esta representada no Brasil, “Gata Borralheira”, “Retrato de Senhora”, “Pedro e a Morte de Inês”, “A Única Mulher do Barba Azul” ou “O Grito de Medeia”, num conjunto dramatúrgico com obras de destaque  que engloba outros exercícios dramáticos.

 

E a estes podem acrescentar-se bailados e ensaios diversos sobre temas de história, cultura e literatura, de que citamos designadamente “Breve Panorama do Romance Português”, “O Último Negócio”, “A Casa de Malafaia”, e estudos como “A Dança e o Ballet no Passado e no Presente”, “O que é o Ballet”, “A Literatura Portuguesa nos Seculos XIX e XX” e outros livros.

 

Trata-se, no conjunto, de perto de 50 títulos, cerca de 35 publicados em volume, ao longo de uma vida dedicada às artes, sobretudo ás artes do espetáculo global. 

 

E mais: encontramos uma série de estudos e análises na perspetiva da globalidade da cultura de raiz portuguesa na transnacionalidade europeia e africana, e na abrangência histórica que transforma a bibliografia de Tomaz Ribas num singular, diria mesmo inédito conjunto de abordagem e analises de expressões artísticas nas artes de espetáculo de raiz europeia, africana e de abrangência cultural e científica extremamente variada.

 

Em suma: uma simbiose de criação e de analise histórica e estética, nas áreas do teatro, da dança, da literatura, e salientando a diversificação que a raiz portuguesa, ao longo de séculos, criou e determinou. Numa abrangência temática que tem como tema dominante as artes de espetáculo, as quais constituem o traço comum da vida e obra de Tomaz Ribas.

 

E por todas estas razões, mas sobretudo pela relevância e pelo significado da obra, há que saudar a iniciativa da  Fundação INATEL, designadamente o  Núcleo de Arquivo Histórico e Documentação e o seu Coordenado Doutor José Baptista de Sousa,  a quem se fica a dever esta reedição justíssima e oportuníssima do estudo de Tomaz Ribas.

 

DUARTE IVO CRUZ 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

11. BIODIVERSIDADE CULTURAL

 

Alimentação, vestuário, habitação e saúde são necessidades básicas, universais e fundamentais de sobrevivência. 

A cultura não é tida como uma necessidade básica de sobrevivência ou bem de primeira necessidade, por confronto com o que comemos, a água que bebemos ou a saúde.
Há uma percentagem significativa de pessoas que não tem interesses culturais, tendo a cultura como descartável e dispensável. 

Para quem entenda que a lógica dos impostos é que o dinheiro se destina a necessidades básicas e imprescindíveis, a cultura fica excluída. 

Razão pela qual a cultura tem de ser autossustentável. 
Mas uma parte da criação cultural não é sustentável por si.
Há quem defenda que se vá ao mercado, assumindo o risco na totalidade.   

Há quem entenda que deve ser apoiada se, naturalmente, não existir mercado que a sustente.  
Inexistindo apoios, nem mercado que a sustente, há morte cultural. 
Não há civilização sem cultura. Há a barbárie.

O que permanece especialmente e intemporalmente em termos civilizacionais é o legado cultural, incluindo o património, que nos foi deixado e transmitido em termos geracionais. 
Só que as necessidades económicas necessárias para a cultura, não obedecem necessariamente à lei da oferta e da procura.
Mas quando pagamos impostos, taxas ou coimas contribuímos para necessidades básicas, acessórias e complementares de outras pessoas, que não conhecemos, em lugares e regiões onde nunca fomos, não queremos ou não pretendemos ir, não nos afetando pessoalmente, embora diga respeito ao todo nacional.
Daí ser defensável a biodiversidade cultural, incluindo a criação cultural naturalmente sustentável e não sustentável, que não necessita e necessita de apoio.
Se assim não for, há a morte cultural de várias atividades culturais, dada a sua insustentabilidade sem apoio em termos económicos e logísticos.
Por exemplo, em Portugal, deixa de haver bailado, cinema, teatro ou ópera, se não existir apoio, o que é aterrador e assustador a nível da nossa memória coletiva e em termos de progresso civilizacional e cultural, por confronto com os avanços das nações que tomamos como referência.   
A necessidade desta biodiversidade cultural e de apoio à criação cultural quando naturalmente não sustentável, deve ser transversal a todas as ideologias, quer de direita, centro ou de esquerda, o que não implica, sempre e necessariamente, uma cultura estatizante centralizada e totalmente subsidiada, tida como inexequível.       

 

05.06.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

HÉLIA CORREIA

 

Quando li a «Dama Singular», um dos contos do livro de Hélia «Vinte Degraus e Outros Contos», chancela da Relógio D'Água, conto este dedicado a uma mulher da literatura portuguesa, senti e assim interpretei, o quanto a literatura pode ser uma lição descalça de muitos amores, aberta até de espaços, a mães ausentes, e enovelada em sóis que podem não chegar até onde e aonde se quer luz. Deste conto, retirei que a lição do seu segredo é a existência de uma escola de bonecas que o escuta, rebeldes e aprendizes bonecas para quando tiverem forma humana se salvarem, se um dia escreverem com um lápis tão fundo ao intuir de cada um de nós que, a cada palavra o soalho das mesmas faça ouvir a literatura.

 

E entretanto os padrões das palavras usadas sentem vontade de brincar, deste modo contribuindo para uma maturidade que as leve a entender para quem foram erguidas, e qual a razão desse empenho na subida de uma escada que ora é o total contacto com o chão, raiz de entendimento, ora é equilíbrio para quem queira ler as palavras a partir da distancia da literatura. E neste conto existem buganvílias que explicam o inverso da verdade numa febre que se não esquece. Também existem palavras deixadas a um especial relento para que morram ou para que escutem o quanto a preservação do seu universo, também é doloroso antes do ato de amor da literatura.

 

O conto da «Dama Singular» tem um cheiro de lenha húmida num quintal despenteado de certezas. Tem também muitos medos quando as palavras nos seus banhos receiam afundar-se, antes do apuramento certeiro do que visam.

 

E também existe neste conto uma casa. Há sempre uma casa: a literatura descobre-lhe função, estação e local de lição. Casos se conhecem em que a própria casa das palavras são seu lugar de libertação, são seu treino na estratégia de lhe entendermos peito, pensamento e mão.

 

Assim me aninhei neste conto.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Conto de Primavera - imensidão, vazio e inconclusão.

 

'A sensação de voar que se liberta em mim ajuda-me a ajustar melhor a mão quando conduzo o trajecto das minhas tesouras. É muito difícil de explicar. Diria que é uma espécie de equivalência linear, gráfica, à sensação de voar. Há também a questão do espaço vibrante.', Matisse

 

'O Periquito e a Sereia' (Matisse, 1952), oferece ao 'Conto de Primavera' (Eric Rohmer, 1990) o enquadramento estrutural e formal. O guache recortado de Matisse introduz ao filme a imensidão do espaço limitado, a dispersão das folhas, dos frutos e dos corpos, a abertura do fundo branco sobre o qual tudo gravita, a variação subtil mas imutável de todas as formas bem delimitadas e a intensidade das cores contrastantes. O elemento humano está diminuído e funde-se com todos os outros elementos. 

 

O filme passa-se na primavera, e tal como no guache recortado o elemento floral é dominante e vigoroso, uma alegria de viver (mesmo que tudo seja flutuante, transitório, sem efeito, mesmo que tudo seja uma dança interminável e sem razão de ser). 

 

Neste filme a primavera está associada a um novo começo, a um nascer de novo, a um crescimento iminente. Tal como Natacha, Jeanne está dividida entre dois apartamentos, e entre dois estádios diversos das suas vidas. 

 

'I wanted something really light, almost empty. The story begins very slowly, it almost does not begin my exposition scenes have often been long, here the film almost stays as an exposition seen until the end. At the moment when we think that something is going to happen, it doesn't happen: that is my aim in Conte de Printemps', Eric Rohmer.

 

O mistério do pensamento nunca é totalmente revelado. Nunca é conclusivo. Jeanne gosta de pensar sobre o seu próprio pensamento. É através do pensamento que Jeanne se distancia das próprias sensações e mesmo da sua existência. Existe em toda história, uma vontade imensa em encontrar uma ordem, uma razão, um sentido e uma reposta. Jeanne consegue contribuir para a clarificação do mistério do colar. E sente-se extremamente seduzida pela liberdade fabuladora da sua amiga Natacha. Mas termina presa a uma suposição irreal, que a permitia escapar ao seu ordenado universo.

 

'I always thought, if you asked me what was happening in this film, I could answer 'nothing', because in my other films there is always an outcome. Here things happen but there is no outcome. The only thing that happens is the frivolous one of finding this necklace. But the only thing that the story of the necklace implies is that all this is never finished. That's what I was interested in, that's what I wanted to show. It is this hole, this absence that got me interested in this subject.', Eric Rohmer

 

Apesar de mais compacto, os contos das quatro estações de Rohmer, apresentam a ainda a estrutura aberta e livre das Comédias e Provérbios. 

 

As personagens gravitam e nunca se confrontam de verdade. Jeanne e Natacha nunca se revelam na totalidade.

 

O filme termina no mesmo sítio onde começa - no apartamento desordenado do namorado de Jeanne. Nada mudou, está tudo no mesmo lugar, talvez somente o modo de ver/pensar se alterou. A firmeza inicial é afinal vulnerável, o desejo de ordem e de controlo é afinal ausência e vazio.

 

Ana Ruepp

LONDON LETTERS

 

Saving Penka, Trade Games, and… The Armageddon, 2018

 

O nome da vaquinha é mimoso. Já a denominação do mágico círculo de pensadores em Whitehall é simplesmente fantástica. Uma e outros enfrentam dificuldades com as fronteiras europeias. Penka arrisca sentença de morte, apesar de prenhe de três meses, por atravessar o seu pasto na Bulgaria para o verde da Serbia sem passaporte veterinário. Valha ao bovino a generosidade disponível para lhe pagar pela vida. Vacilante está também o destino do Inter-Ministerial Group on Preparedness. Reunido pelos Tories para operacionalizar a retirada do reino da European Union, descobre-se no Sunday Times que o grupo de senior civil servants antes se ocupa a desenhar uma tela para as cúpulas de Westminster: a Doomsday Brexit.

Nada menos! — Chérie! Les conseilleurs ne sont pas les payeurs. Não bastara os explosivos cenários para o dia 20 March 2019, eis que chega ao 10 Downing Street outro dossiê fracturante. a expansão do Heathrow Airport. Aqui e acolá, a Prime Minister Theresa May conta votos pelas bancadas parlamentares. — Hmm. Who controls the future? Saudando June e jet-ing around, o EU Chief Negotiator Monsieur Michel Barnier aterra em Hungary. Berlin desloca a atenção de Paris das reformas na Eurozone para planos militares. Spain diz adiós a Mariano Rajoy entre fumos de corrupção e eleva os socialistas do Señor Pedro Sánchez ao poder. Italy também tem novo governo, eurocético, com o Professor Giuseppe Conte na liderança da coligação 5Star + Liga. Washington antes reinventa a diplomacia ao declarar guerra comercial aos aliados, impondo taxas de 25% nas importações de aço e de 10% no alumínio. O Canada promete represálias “dollar for dollar” e a European Union retalia com altear das tarifas no “bourbon, peanut butter & Harley Davidson motorcycles”.

 


W
arm and somewhat rainy days at Central London. Ontem foi dia de um minuto de silêncio para recordar as vítimas dos atentados de há um ano, com o estado de alerta terrorista em nível crítico. Mas abrindo a melancolia da manhã com o Home Secretary RH Sajid Javid, as Sunday Politics acabaram dominadas por mais uma de muitas fugas de informação em Whitehall. A info passada ao Times trata da Brexit, para invariar, mas, para variar, espanta. Daí a necessidade de preâmbulo. Compreende-se o estado de espírito em volta. A luz apresenta-se laranja desde Trafalgar Square, tantas são as fantasias esfumadas ao longo da A3212 Road de um final de carreira em Brussels onde a máxima preocupação seria apurar qual a dimensão do iate para navegar pelas ilhas gregas. Os autores do relatório serão eventualmente os mesmos, ou próximos, daqueles que conceberam as teses da guerra e recessão com que o anterior Prime Minister David Cameron a todos flagelou nos últimos dias da campanha euroreferendária. A litania entrou na história política como… Project Fear. Depois deste original, que se supõe da autoria do ex Chanceler of The Exchequer, o ilustre George Osborne, houve incontáveis sequelas ‒ entre o declinar das reformas solarengas para os mais velhos e o fim das viagens pela cultura europeia para os mais jovens, vedados de aceder ao continente. Nenhuma pintura houve como esta agora, todavia, dada a desmesura dos espantalhos para assustar a passarada da Land. Por maior, também, porque colorida com tintas do Department for Exiting the European Union, que se esperaria a executar o que determina o nome, not missing the point, quando faltam 299 dias para a saída do reino do Clube dos 27.

 

O aranzel recebe os MPs em Westminster, após pausa de dez conspirativos dias e com o voto da EU Withdrawal Bill agendado para a semana na House of Commons. Impressiona. Afigura-se até inspirado no derradeiro livro do New Testament of the Bible e os seus Four Horsemen of the Apocalypse trazendo a pestilência, a guerra, a fome e a morte. Sublime cortesia dos senior civil servants que assistem o Secretary of State for Exiting nas sensíveis negociações bruxelenses, nenhum outro senão um dos Brexiteers mores, Rt Honourable David Michael Davis, eis uma fantasmagórica Doomsday Brexit pincelada numa única frase: acaso o United Kingdom saia da Other Union com um No-Deal, como nesta passada pode acontecer, e haverá escassez de medicamentos, combustíveis e alimentos; o porto de Dover colapsará em 24 horas e os ilhéus sofrerão em hospitais, tremerão de frio nas casas e deambularão famintos pelas cidades e campos; a inevitável luta que se seguirá é deixada à mente de cada qual. Sério que não é ficção do Times. O relatório do DExEU traça três cenários: “a mild one, a severe one and one dubbed Armageddon.” Na segunda janela futurista, “[t]he supermarkets in Cornwall and Scotland will run out of food within a couple of days, and hospitals will run out of medicines within two weeks, [… and] we would be running out of petrol as well.” Yowza! Isto é que é ter imaginação constitutiva. Garanto que, ao divisar o descritivo, tombei num clássico da BBC para ouvir saudoso Permanent Secretary: ‒ “How very courageous, Minister.”

 

É bom saber que nada como o funcionalismo de Whitehall no how to guide ministers to making the right decisions. Tal qual o acrónimo IMGP dos thinking heads, onde, convenhamos, o termo preparedness é o máximo face ao brexitar e se destina a impressionar os talking animals & others, semelhante argumentário apocalíptico faz juz à lógica imbatível de Sir Humphrey Appleby na defesa do status quo. Recordareis a gama no trabalhar da filigrana ética do eleito em Yes, Minister.

Deparasse RH Jim Hacker com etiqueta de “a brave decision” e desbarataria votos, ouvisse o governante ser a opção "courageous" e condenava-se a perder a eleição. Os cenaristas do DExEU têm futuro nas artes, embora distópicos. Dalém Atlantic vem interessante exemplo. Depois dos Obamas, Barack e Michelle, é agora o antigo US President Bill Clinton que explora novos rumos a partir da sua vivência política. O antigo inquilino de Pennsylvania Avenue é coautor com o bestselling novelist James Patterson de um Summer thriller intitulado The President is missing. Do livro nada escrevo, porquanto só hoje entra nas livrarias e dele só conheço a capa banal. Anoto, sim, que este peculiar dueto ajustou um acordo comercial com a Showtime, para a estória da White House passar ao celulóide. — Yay. But better keep in mind another fine advice of Master Will in Julius Caesar: — “There is a tide in the affairs of men, / Which, taken at the flood, leads on to fortune; / Omitted, all the voyage of their life / Is bound in shallows and in miseries. On such a full sea are we now afloat; And we must take the current when it serves.”

 

St James, 4th June 2018

Very sincerely yours,

V.

A VIDA DOS LIVROS

 

De 4 a 10 de junho de 2018

 

Este domingo fomos ao Campo de Ourique e pudemos, entre mil pesquisas descobrir como o 5º Marquês das Minas invocou o Milagre de Ourique para instalar um Quartel e uma Parada, que o Conde de Lippe tornaria a primeira das instalações militares modernas de Lisboa.

 

UMA HISTÓRIA NOTÁVEL
A história da cidade de Lisboa reserva-nos tantas vezes boas surpresas no tocante ao modo de aproveitar bem as qualidades naturais de uma das mais belas capitais europeias. Partindo de um núcleo antigo marcado pela Alcáçova e pelos bairros populares da cidade velha, delimitado no século XIV pela cerca fernandina, a cidade foi-se alargando até que o terramoto de 1755 determinou a completa reestruturação do tecido urbano, tendo prevalecido a ideia de manter a Baixa, ainda que beneficiando de um sistema novo, inspirado na experiência de Amesterdão, assente em estacaria de pinho verde. No século XVI a urbe tinha ganho a estrutura ortogonal do Bairro Alto e no século XVIII vai conquistar novos espaços populacionais, na Lapa e no Campo de Ourique. Foi este bairro que acabámos de visitar no último Passeio de Domingo e é sobre ele que hoje falaremos – esclarecendo algumas dúvidas ou imprecisões que ainda existem. Se é uma zona de desenvolvimento relativamente recente da cidade, já que se trata de uma urbanização essencialmente do início do século XX, a verdade é que a sua base foi lançada em pleno século XVIII, a partir de dois núcleos fundamentais – o da nova paróquia de Santa Isabel e o do chamado Campo de Ourique. Se consultarmos mapas anteriores ao terramoto, verificamos que grande parte dos terrenos dessa zona eram ocupados por produção agrícola variada. Tratava-se de chãos rústicos de quintas e olivais, com cultivos vários, além dos barros favoráveis à instalação de olarias e fábricas de telha e tijolo… A rua de Silva Carvalho, que começa nas Amoreiras no Palácio Anadia e termina no limite do antigo Hospital Inglês, divide-se em duas secções que tiveram toponímias diferentes – S. João dos Bem-casados até ao antigo Largo da Páscoa e de S. Luís no troço final. Antes de 1755, a serventia do primeiro troço era rudimentar, marcada por uma ermida, entretanto demolida em 1884, construída em 1581, com fama de favorecimento das curas dos doentes, até pelos bons ares que usufruía, vindos de Monsanto. O pequeno templo antigo situava-se em frente de onde hoje se encontra o Centro Comercial das Amoreiras, sendo da invocação de S. João Baptista e de Nossa Senhora da Boa Sentença. A construção da ermida deveu-se a António Simões, que foi soldado em Alcácer Quibir e esteve na edificação da primitiva igreja da Penha de França (1597). O palácio dos condes de Anadia, bem como as três importantes quintas que lhe correspondem (S. João dos Bem-casados incluindo a casa nobre, Pousos que vai até ao Campo de Ourique e do Pé de Mu e do Fetal que seguia até ao que hoje é o Largo do Rato), tornaram-se propriedade de Francisco Duarte de Almeida e Sousa, depois da insolvência da família Palhares; recebendo Aires de Almeida e Sousa e Sá, irmão de Francisco, em doação, toda a larga propriedade. Em parte do palácio Anadia, morou e faleceu D. Tomás de Mello Breyner, conde de Mafra, médico do rei D. Carlos e avô de Sophia de Mello Breyner. No prédio fronteiro, morou Veva de Lima, filha de Carlos Lima Mayer, um dos “vencidos da vida”, mulher de Ruy Ulrich, conhecido professor de Direito, e mãe da pedagoga Maria Ulrich. Nas Amoreiras, a proximidade das fábricas pombalinas, em especial das sedas, exigia a presença das árvores cujas folhas alimentavam os preciosos bichos-da-seda. Andando pela rua de S. João dos Bem-casados chegamos ao grande prédio de esquina na rua do Sol para a rua do Campo de Ourique, onde esteve instalada a Companhia da Panificação e onde se encontra a Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo (fundada por guardas de polícia em 1872). O antigo largo da Páscoa leva-nos aos velhos arruamentos que ligavam a Santa Isabel, ao Rato, a S. Bento e ao Vale do Pereiro – Arrábida e Cabo.

 

RESVÉS CAMPO DE OURIQUE
Antes de irmos ao Campo de Ourique, cuidemos, porém, um pouco de Santa Isabel. A freguesia foi criada em 1731 pelo primeiro Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Tomás de Almeida, que começou por estabelecer a sede na Ermida de Santo Ambrósio, já desaparecida. O novo templo foi começado a construir em julho de 1742 e só se concluiu depois do terramoto sem que D. Tomás o visse concluído, apesar do seu apoio com a dádiva das suas pratas pessoais à Irmandade, para que as obras não parassem. No arruamento que liga a igreja paroquial à antiga rua de S. Luís, hoje como o nome de Silva Carvalho, situou-se a última morada de Almeida Garrett, entretanto destruída, escolhida especialmente pelo escritor por se encontrar próximo do cemitério inglês e por dela se avistar o monumento funerário em honra de Henry Fielding (1707-1754), o célebre autor de “Tom Jones”, que morreu inesperadamente numa passagem por Lisboa. Mas regressemos ao início da rua de S. Luís, na saída de uma das travessas do cimo dos quartéis. Estamos no Quartel do Campo de Ourique, construção iniciada em 1758 numa propriedade de Miguel Mendes da Costa e Patrícia Maria – sendo constituída por camaratas, casa da pólvora e logradouros. A instalação foi levada a cabo por D. Lourenço de Lancastre e Noronha, descendente do Conde dos Arcos, 5º Marquês das Minas por casamento. Lembre-se que não havendo serviço militar obrigatório o sistema era profissional e mercenário. Estamos no mais antigo edifício militar de Lisboa construído de raiz, já que os quartéis da Ajuda são posteriores. A praça de armas é imponente e é daqui que parte a organização do Campo de Ourique. De facto, é a partir do Quartel do Marquês das Minas e Conde do Prado que o Conde de Lippe vai proceder a uma construção adequada à modernização do exército português, muito depauperado então. O Conde de Lippe é enviado pelo rei Jorge II de Inglaterra, por iniciativa de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, com a responsabilidade de Marechal-General do Exército Português. Mercê de tal reorganização, indispensável, o Exército passa de 18 mil para 40 mil homens. Recorde-se que estávamos no termo da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), entre a França e o império Habsburgo, de um lado, a Inglaterra, a Prússia, Hanôver e Portugal, de outro, o que obrigava a um especial esforço de organização e de eficiência – com a presença de mercenários estrangeiros. No Quartel do Campo de Ourique, assim designado, instalar-se-á o regimento Infantaria 4, comandado por Gomes Freire de Andrade (nos anos 1790 a 1807). Um alemão – J.H. Friedrich Link - descreve em 1798 o caminho da Basílica da Estrela até à Parada do Quartel, “deixando o casario para trás de nós, chegamos a uma agradável planície chamada do Campo de Ourique, separada das colinas vizinhas por fundos vales, e utilizada nesta época como local de exercício por um regimento de imigrantes que aí estava alojado em graciosos abarracamentos inicialmente ocupados pelo regimento de Dillon e mais tarde de Montemar”. Acrescente-se que o visitante esclarecia que a Parada também servia para promenade para as classes média e baixa. Depois do terramoto muita gente viera para aqui, pois o local tinha sido poupado às destruições (resvés Campo de Ourique). Esta unidade militar revelar-se-á muito ativa, designadamente na defesa dos ideais da liberdade. Lembrem-se os Motins do Campo de Ourique de 1803. Nas festividades do Corpo de Deus Grosson, ajudante do Conde de Novion, comandante da Guarda Real da Polícia de Lisboa foi preso por Gomes Freire. A prisão ocorreu no Passeio Público e causou um sério conflito entre o Exército e a Guarda. Quando em final de julho o regimento de Infantaria 4 celebrou as festas de Nossa Senhora da Piedade, na Ermida próximo do quartel, patrulhas da Guarda Real lançaram provocações a militares do regimento, tendo havido tiroteio e feridos. Por intervenção do Príncipe Regente, D. João, o Secretário de Estado da Guerra procedeu disciplinarmente contra o comandante do regimento, sendo Gomes Freire preso. De referir que os motins tinham finalidade política. Havia dois partidos que pretendiam influenciar o monarca – Novion e a oficialidade da Guarda Real representavam a sensibilidade francesa e jacobina, e Gomes Freire de Andrade e seus subordinados correspondiam ao partido pró-britânico e maçónico. No final dos acontecimentos, Gomes Freire apenas receberia uma repreensão e Novion seria destituído do comando da Guarda Real…

 

SAIU DAQUI HERCULANO PARA O EXÍLIO
Merece também referência o golpe de 21 de agosto de 1831, em que interveio Alexandre Herculano e o levaria para o exílio. É um golpe, em que o regimento saiu em defesa da Constituição liberal contra a governação de D. Miguel, por incitamento do lente da Academia de Marinha Albino Francisco de Figueiredo e Almeida. Sobre esta tentativa falhada de golpe Herculano diz: “a infeliz tentativa do 4º Regimento de Infantaria foi tentativa conduzida com tanto valor pelo tenente-coronel Bravo”. Um “agente incógnito” entrou clandestinamente no quartel de sobrecasaca e chapéu redondo. E assim levantou o regimento, que saiu pelo largo da Páscoa, descendo a rua do Sol ao Rato em direção a S. Bento. Contudo a resistência dos guardas de polícia fez-se logo sentir. E ao entrarem na rua do Sol, um mestre de meninos equivocado pela charanga, deu vivas a D. Miguel – e foi varado pelas balas – o que originou grande perturbação. Daí para a frente os efetivos foram-se reduzindo, por fuga de muitos dos soldados, incapazes de resistir. Alexandre Herculano não interveio diretamente no movimento, mas apercebendo-se do fracasso foi para uma nau francesa, “Melpomène, fiel ao rei Luís Filipe e à monarquia de julho – e daí passou a um paquete inglês que o levou para o exílio até à Mancha. Os resultados do funesto golpe são conhecidos – em frente à porta de armas do quartel no dia 10 de setembro foi fuzilada uma primeira leva de revoltosos – 10 praças e um alferes. A 24 há uma segunda leva de 21 homens, incluindo tambores e outros músicos. Só se salvaria o último contingente de 30 homens, que incluía um tenente e diversos músicos. O resultado final da aventura levou à dissolução do regimento de 4 de Infantaria… Pode dizer-se, pois, que Campo de Ourique nasceu como um campo militar, que se integraria no programa reformista do conde de Lippe. É, assim, o quartel mais antigo de Lisboa. Muito provavelmente, a designação do local deve-se à invocação do milagre de Ourique pelos comandantes militares – invocado nas quinas das armas de Portugal. De facto, o quartel do Campo de Ourique aparece como estruturante na construção do novo bairro – bastando lembrarmo-nos do Jardim da Parada, recordação desse tempo e dessa vocação primordiais. Em memória do inconformismo liberal, o Jardim da Parada alberga a estátua de Maria da Fonte, figura da resistência popular às medidas fiscais e às leis de saúde pública de Costa Cabral (1846). Não se esqueça ainda a intervenção decisiva do regimento de Infantaria 16 na Implantação da República, com o qual contaria Machado Santos na Rotunda – foi na rua Ferreira Borges que teve lugar o primeiro disparo da revolução - , bem como a intervenção importante do Batalhão de Sapadores de Caminhos de Ferro, na Primeira Guerra Mundial…

 

UM PÁTIO DE ARTISTAS FANTÁSTICO
Em suma, se no tempo do terramoto estávamos nos arrabaldes de Lisboa e tudo tendo começado com um campo militar e uma parada para exercícios sob a invocação do milagre de Ourique, em meados do século XIX a futura rua Maria Pia é o início da primeira circular ou circunvalação, construindo-se aqui o Cemitério Ocidental ou dos Prazeres e o acesso da rua Saraiva de Carvalho (1863). O bairro é previsto em 1878 e delineado num plano ortogonal em 1906 por Ressano Garcia. Em 1910 apenas chegava à rua de Tomás da Anunciação, progredindo até 1939 para chegar à rua de Sampaio Bruno. E Campo de Ourique das artes, da ciência e da cultura? Temos tudo! Além de Alexandre Herculano, que daqui saiu para o exílio, Almeida Garrett que teve a sua última morada na rua de Santa Isabel, Gomes Freire de Andrade, comandante do 4 de Infantaria, Guerra Junqueiro, que viveu na rua de S. Luís na quinta da brasileira (D. Ida Rosa Benthim), Fernando Pessoa (na sua casa da rua Coelho da Rocha, de fronte ao seu fiel barbeiro – o senhor Manassés), Bento de Jesus Caraça e Ferreira de Macedo, eminentes matemáticos e pedagogos, fundadores da Universidade Popular Portuguesa na Padaria do Povo, António José Saraiva, Rómulo de Carvalho, Luís Sttau Monteiro, os artistas Cristino da Silva, Leopoldo de Almeida, Cotinelli Telmo, António Lino, Álvaro de Brée, Domingos Rebelo, Helena Almeida, Bárbara Assis Pacheco… Fomos, aliás, recebidos principescamente por Jorge Martins no Pátio dos Artistas – que começou por nos explicar a autoria dos magníficos baixos-relevos aqui colocados graças a Leopoldo de Almeida, da autoria do escultor espanhol Juan de Ávalos y Taborda (1911-2006)… Estes são apenas breves apontamentos. Muito fica por dizer. Propositadamente não há espaço para mil outros protagonistas… Só Fernando Pessoa daria pano para muitas mangas… Hoje foi apenas oportunidade para dizer que a origem do Campo de Ourique está encontrada!

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA


Minha Princesa de mim:

 

   Em 2015, Scotty Allen, californiano de 38 anos, promissora cabeça de Silicon Valley, visitou Shenzen, cidade chinesa de entre dez a vinte milhões de habitantes que, nos anos 70, não passava de uma aldeia de pescadores. O que aquele americano, vanguardista de tecnologias de ponta, ali descobriu deixou-o estupefacto: Ora esta! Estamos lixados! - exclamou perante a imensidão de arranha-céus de vanguarda acenando com as últimas descobertas e progressos da informática e da electrónica. E acabou por concluir que a China está mesmo, mesmo, a ultrapassar o Ocidente no domínio das novas tecnologias: Chegar a Shenzen é como viajar no futuro. Há ali uma energia incrível, e toda a gente parece beneficiar da maré a subir. As pessoas de lá são espertas, inovadoras e criativas... Saberás, Princesa, que Shenzen também é hoje um dos dois maiores portos do mundo, oferecendo à região de Cantão - onde se concentra 12% do PIB chinês e a maioria da indústria exportadora do Império do Meio - uma saída para o seu comércio externo. O delta do rio das Pérolas, na região, tinha, nos finais do século XVIII, um nível de desenvolvimento superior à da outra «economia-mundo» (no conceito de Braudel) daquele tempo: a Holanda em redor de Amsterdão. E em Cantão estiveram, no século XVI, muitos portugueses negociando, alguns ficando prisioneiros. Inclusive a célebre embaixada de Tomé Pires, enviado por Dom Manuel I ao imperador da China...

 

   Sob o título de Autocracy´s Global Ascendace e assinatura de Yascha Mounk e Roberto Stefan Foa, a revista Foreign Affairs chama-nos a atenção para o facto de, no auge da 2ªGuerra Mundial, Henry Luce, fundador da revista TIME, ter arguido que os EUA tinham amassado tanta riqueza e poderio, que o século XX seria simplesmente conhecido como o "Século Americano". A sua predição revelou-se presciente : apesar de ter visto a sua supremacia ameaçada pela Alemanha Nazi e, mais tarde, pela URSS, os EUA prevaleceram sobre os seus adversários. Na viragem do milénio, a sua posição de mais poderoso e influente estado do mundo parecia indiscutível. Consequentemente, o século XX foi marcado pelo domínio, não só de um país em particular, mas também do sistema político que o mesmo ajudou a difundi : a democracia liberal. [Há pouco, ouvi Donald Trump afirmar que a UE foi inventada para prejudicar os EUA, quiçá reflexo pós prandial do presidente, logos após as visitas de Macron e Merkel à Casa Branca...]

 

   O artigo procede então à análise desse fenómeno de vocação universal, assinalando que seria tentador atribuir tal apelo à inerente bondade de tal sistema: se cidadãos indianos, italianos ou venezuelanos pareciam leais ao seu regime político, seria certamente por terem desenvolvido um profundo compromisso, quer para com os direitos individuais, quer para com a autodeterminação colectiva. E polacos e filipinos iniciariam a transição da ditadura para a democracia porque, afinal, também viriam a partilhar da universal aspiração à democracia liberal.

 

   Só que os eventos da 2ª metade do século XX também se podem interpretar de modo muito diferente. Por esse mundo fora, muitos cidadãos foram atraídos pela democracia liberal, não simplesmente em razão das normas e valores desta, mas por lhes prometer o mais conveniente modelo de êxito económico e geopolítico. Todavia, segundo os mesmos articulistas, parece virar-se o feitiço contra o feiticeiro: Como as democracias têm piorado no fomento dos padrões de vida dos seus cidadãos, movimentos populistas que descartam o liberalismo vão emergindo, de Bruxelas a Brasília, de Varsóvia a Washington. Um impressionante número de cidadãos começa a dar menos importância ao facto de viver em democracia : enquanto 2/3 dos americanos com mais de 65 anos afirmam que lhes é essencial viver em democracia, menos de 1/3 dos com menos de 35 diz o mesmo. E uma minoria crescente de cidadãos se vai declarando aberta a alternativas autoritárias : de 1995 a 2017, a faixa de franceses, alemães e italianos que se dizem favoráveis a regimes autoritários mais do que triplicou.

 

   A preocupação destes articulistas da Foreign Affairs é sobretudo resultante do facto de que, enquanto a proeminência das democracias tem empalidecido, a parte do produto económico atribuível aos estados autoritários tem rapidamente crescido. Em 1990, países considerados "não livres" pela Freedom House (a categoria mais baixa, que exclui países "parcialmente livres", como Singapura) representavam 12% do rendimento global. Hoje, respondem por 33% dele, chegando ao nível que haviam conseguido no início dos anos 1930, durante o surto do fascismo na Europa, e ultrapassando as alturas que atingiram na Guerra Fria, quando o poder soviético estava no auge... [Nota bem, Princesa, que não se comparam aqui, nas duas épocas, os mesmos países nas categorias de livres e não livres...]

 

   Consequentemente, o mundo aproxima-se agora de um marco chocante: dentro dos próximos cinco anos, a parte do rendimento global detida por países considerados "não livres" - como a China, a Rússia e a Arábia Saudita - ultrapassará a parte pertencente às democracias liberais ocidentais. No prazo de um quarto de século, as democracias liberais terão passado de uma posição de força económica sem precedentes para uma inaudita posição de fraqueza económica.

 

   Eis mais um exemplo de como continuamos a reflectir a realidade em espelhos do passado. O crescimento económico não mais é função do liberalismo dito democrático, pode verificar-se em regimes autoritários, onde coabitam um capitalismo de estado e um sector privado por aquele controlado. Tal como, nas democracias ditas liberais, a concentração da acumulação da riqueza criada em grandes grupos económicos já conseguiu mesmo contornar as legislações anti trust, quer pelo anonimato, quer pela obscuridade dos reais detentores do poder financeiro. A razão de tudo isto é que nos entregámos às promessas do êxito económico que por aí se chama sucesso (como repetia um nosso ex-primeiro e ex-presidente: "Portugal é um país de sucesso!"  - como hoje, ironicamente, verificamos), e nos esquecemos de que só pode haver desenvolvimento económico se ele for, por natureza, por vontade, por prática, por participação e por finalidade, uma melhoria social das condições de vida de todos os membros de uma comunidade e um processo de reciclagem sustentável da riqueza criada, pela responsabilização e para o benefício de todos. E as ditas democracias pretensamente liberais têm falhado tanto esse propósito, que já hoje surgem alternativas, aparentemente viáveis, à cegueira soviética e à selvajaria capitalista, se assim me posso exprimir. 

 

   E talvez não devêssemos esquecer o apelo milenar da mensagem evangélica à justiça económica e social, que hoje o papa Francisco incessantemente recorda e João Paulo II gritou, na esperança de ver o fim da ilusão soviética e da Guerra Fria abrir os olhos do Ocidente para uma possibilidade democrática livre da obsessão do triunfo do dinheiro e criadora de valor humano.

 

   Será mesmo assim tão difícil percebermos que, em economia política, há só uma prioridade cristã?

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DE TOMAZ RIBAS NO CENTENÁRIO DO SEU NASCIMENTO (I)

 

O Núcleo do Arquivo Histórico e Documentação do INATEL, coordenado por José Baptista de Sousa, tomou a iniciativa de assinalar o centenário do nascimento de Tomaz Ribas, figura marcante da vida cultural portuguesa pela obra que criou e pela vasta ação cultural, designadamente nas áreas do teatro e da dança e do bailado. O texto que aqui se publica surge nesse contexto., no centenário do nascimento do escritor.

 

A evocação de Tomaz Ribas (1918-1999) envolve necessariamente a diversidade e pluralidade de áreas e obras criativas da sua vasta, intensa e preenchida atividade profissional e cultural, destacando fatores e expressões determinantes: o escritor, o dramaturgo, o teatrólogo e especialista em artes do espetáculo, o crítico e o historiador sobretudo nessas áreas e nessas artes, mas também o professor e o animador de cultura a nível nacional e também, tantas e tantas vezes, a nível internacional.

 

E aí devemos salientar a prioridade pessoal e cultural dada às artes da dança e do bailado, mas com a ressalva bem positiva de que Tomaz Ribas foi sempre moderno, ainda é moderno, e sobretudo inovou com total prioridade no que respeita à dança, que encontrou nele o primeiro analista moderno.

 

As ligações a esta área foram e são inovadoras e prestigiantes, o que não significa uma menor qualidade de outras ações culturais: basta ver designadamente a sua obra como dramaturgo e como historiador e critico de teatro, englobando as expressões criativas da dramaturgia em si mas também do ensino, da direção cultural e da representação e animação da cultura ligada ao espetáculo e à intervenção pública e para o público.

 

Esteve no Conservatório Nacional: mas é sobretudo no Teatro Nacional de São Carlos que exercerá amplamente uma atividade diretiva que comporta a dimensão didática cultural junto do público. No seu tempo, cada vez mais se “abriu” o TSNSC a manifestações de cultura diversas e ao público correspondente.

 

Muito contribuiu aí para alargar e democratizar, seja permitida e compreendida a expressão, o Teatro que durante décadas esteve sobretudo vocacionado para uma atividade que não se questiona na qualidade em si, mas que se questionou e muito no âmbito socio-cultural e na seletividade da produção, sobretudo internacionalizada.

 

Tomaz Ribas foi efetivamente historiador, crítico, professor, divulgador, diretor de produção mas também responsável, e não poucas vezes, pela direção de entidades públicas e privadas de intervenção artística e cultural: no bailado, no teatro, na literatura, na critica e análise, na investigação e divulgação cultural.

 

E isto, abrangendo, dentro desta dimensão de cultura, desde as entidades de ensino superior às instituições e programas de pesquisa e divulgação histórica e artística, passando simultaneamente ou alternadamente por umas tantas mais e outras, num trajeto que se identifica sempre com a modernização criativa da arte e da cultura portuguesa.

 

Esteve ligado a companhias e salas experimentais que marcaram época: Teatro Estúdio do Salitre, Páteo das Comédias, Teatro Experimental de Pedro Bom, e a outras companhias e movimentos de renovação e modernização do teatro português.

 

Veremos em próximo artigo a sua intervenção crítica e criadora nas artes do espetáculo e a repercussão que ainda hoje se deve assinalar.

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXV - AGOSTINHO DA SILVA

 

“O Português precisa de tomar consciência de que é vário. Porque se ele percorrer os seus grandes homens, todos eles se apresentam como uma variedade enorme. É o Camões, é o António Vieira, e é aquele que vem dar a chave mais cómoda das coisas e que se chamou Fernando Pessoa. O Fernando Pessoa ousou ser vários; e para pôr isso bem claro aos olhos dos portugueses é que ele usou vários nomes”. 

 

Após reconhecer que Camões foi vário, reconhece que nunca mudou de nome, acrescentando:

 

“Não inventou, não se lembrou dessa história dos heterónimos. Mas o Fernando Pessoa, esse, lembrou-se, e deu com isso uma lição aos Portugueses. “Façam o favor de ser os vários que são”. Procurem qual é a economia, qual é a política, qual é a metafísica que lhes permitirá ser vários e ser, sobretudo, gente. Porque quando vamos ver o comportamento dos grandes portugueses, e até dos pequenos portugueses, encontramo-los sempre vários.” (“Esboço do Português, em Ir à Índia sem abandonar Portugal”,  Assírio & Alvim, p. 35).   

 

É, para Agostinho da Silva, uma caraterística louvável dos portugueses, ser vário, de que ele próprio fez o culto, levado pelo espírito de miscigenação, de integração e de comunhão com os povos e culturas lusíadas do lugar onde vivia, na sua própria vida de português errante, atravessador de mares e continentes, conformando a sua vivência humana e espiritual com uma espécie de vivência ecuménica muito sentida e espiritualizada.

 

Essa caraterística tão portuguesa de sermos sempre o mesmo sendo variadamente o outro, retira-a do passado de Portugal, que acaba por adaptar e projetar no seu futuro.

 

No que aqui nos interessa, através da disseminação pelos descobrimentos, Portugal deu novos mundos ao mundo, descobrindo-se a si próprio e aos outros, sendo sempre o mesmo sendo variadamente o outro, acabando por transmitir a esse outro a ideia de que a humanidade una através da diversidade apenas se pode realizar pelo Amor Universal. 

 

Não admira que em entrevista ao jornalista Victor Mendanha, responda:  

 

“Agora que  Portugal, é todo o território de língua portuguesa, os brasileiros poderão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos …chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa a Pátria de todos nós”. 

 

Concluindo: 

 

“Quando se diz ter Portugal de fazer alguma coisa, o que tem de ser feito sê-lo-á por todos os homens de língua portuguesa. A missão de Portugal, agora, se de missão poderemos falar, não é a mesma do pequeno Portugal, quando tinha apenas um milhão de habitantes, que se lançou ao Mundo e o descobriu todo, mas a missão de todos quantos falam a língua portuguesa. Todos estes povos têm de cumprir uma missão extremamente importante no Mundo” (“Conversas com Agostinho da Silva”, Victor Mendanha, Pergaminho, pp.  30, 31).  

 

A Nação Portuguesa é o conjunto de pessoas que falam ou deviam falar Português, defendendo a criação de uma comunidade luso-afro-brasileira, com o ponto central em Angola, de modo a que ali se congregassem Portugal e o Brasil para o desenvolvimento de África e se formasse no Atlântico um triângulo estratégico de Língua Portuguesa (Portugal, Angola e Brasil), levando ao surgimento de outras relações, ou ao oferecimento de um novo tipo de relações a outros países. 

 

Quando, em 1956, na sua obra “Reflexão”, defende que o Brasil é o herdeiro do Portugal medieval, vai ao encontro do pensamento de Gilberto Freyre, que no prefácio desse mesmo livro tem como um dos mestres da sua vida intelectual. As ideias comuns entre ambos, não se ficam por aqui, sendo essencialmente coincidentes na sustentação de um Brasil plural, que se formou através da miscigenação, considerando que a vitória da colonização portuguesa é a vitória da mestiçagem. O mestiço, tido como o expoente máximo da miscigenação, é o homem que faz a ponte entre as culturas puras, é o símbolo da união racial de todos os povos, o primeiro fundamento para a formação de um outro homem. A mestiçagem ou plena hibridez é, em Freyre, o primeiro fundamento para a formação de um terceiro Homem e respetiva Cultura, fruto de uma simbiose luso-tropical. Em Agostinho da Silva, é o primeiro passo para o ecumenismo, em que a união cultural, racial e social é o trampolim para a unidade espiritual do Espírito Santo. Resultado da fusão da Europa com os trópicos e do enriquecimento da cultura europeia no contacto com o novo mundo.

 

Portugal, enquanto país que se situa entre a Europa e a África, possui caraterísticas africanas que lhe permitiram misturar-se com povos culturalmente diferentes, desconhecidos e de diversos climas.   

 

A isso chamou Freyre de plasticidade, Jaime Cortesão de plasticidade amorável e Agostinho da Silva de aptidão de se adaptar a qualquer meio e circunstância.

 

Para Agostinho da Silva, o fim do império colonial português fora necessário para que um novo Portugal emergisse: o Portugal criador da Lusofonia, baseado no espírito da língua comum. O Portugal do futuro, que não é sermos só europeus, é sermos isso e muito mais que isso. 

 

Agostinho assume o espaço da língua, da cultura e do espírito português, brasileiro e lusófono como o de uma comunidade messiânica laica, que tem como vocação maior ser mediadora de uma nova revelação do universal, contribuindo para um estado futuro onde se transcendem todas as antinomias e incompatibilidades.

 

A comunidade luso-tropical de Freyre é a mesma que Agostinho designa, em 1959, como comunidade luso-brasileira, e que vem a corresponder, em meados da década de noventa, à criação da CPLP. 

 

Trata-se de uma das teorias mais fortes e originais sobre o destino universal de Portugal e povos de língua portuguesa, respeitada e aceite por muitos, embora mais ampla a aceitação quando se fala no seu autor, tido por muitos como um dos portugueses mais original, visionário, honesto e íntegro do seu tempo (e mais extravagante, para outros), inclusive ao tentar coadunar a sua vida quotidiana com o seu pensamento filosófico.

 

29.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

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