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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

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A GUERRA ÀS AVESSAS
 
1 - Quanto mais penso nesse filme, mais espantado fico. Na verdade, nem é no filme, relativamente banal e ensosso, mas no fim do filme. Se há, não conheço uma figura semelhante. A raiz quadrada de um número sem raiz quadrada. "Três quartas de cinema" ou "três quartas partes pretas de lã carneira?". Não estou a louvar nada nem a simplificar nada, embora as citações venham do poema de Cesariny, de que me lembrei a páginas tantas por razões que explicarei lá para o fim desta página.
É certo que estou no princípio e por isso convém que me explique antes que se faça ainda mais tarde.
 
2 - O filme, de que vos poupo o título original em russo, chama-se qualquer coisa como "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra", a acreditar nas traduções ocidentais, já que, antes deste Janeiro, nunca tinha sido exibido em Portugal. Realizou-o um certo Ivan Pyriev (1901-1968) em 1944, ou seja, há 60 anos. Passou num ciclo que a Cinemateca está a finalizar, dedicado aos gelos e degelos do cinema soviético entre 1926 e 1968. Ou seja, a filmes que ou foram proibidos pela censura estalinista e dos camaradas que se seguiram, ou a filmes que foram mudados de cabo a rabo pelas mesmas censuras (em certos casos, por várias vezes e com cortes diferentes) ou a filmes que, pelo contrário, de tão perto seguiram a linha oficial que o tempo os tornou inacreditáveis e ainda mais reflectores que as obras tesouradas.
Quando se programam ciclos destes há riscos vários. Os mais ingénuos ou os mais distraídos acreditam que vão ver filmes de resistentes, que heroicamente denunciaram Estaline nos anos 30, 40 ou 50, Krustchev nos anos 50 e 60, ou Brejnev nos anos 60. Basta pensar duas vezes para perceber que filmes desses jamais podiam ter existido na União Soviética. Quem pensasse em filmar um plano sequer de crítica explícita ou implícita já estava na Sibéria (na melhor das hipóteses) antes de pegar na câmara. O que foi proibido ou censurado foi-o por razões circunstanciais, na maior parte dos casos difíceis de detectar a esta distância temporal e sabendo-se o que se sabe hoje. Aprende-se mais com os ortodoxos do que com os humilhados e ofendidos. Pyriev era desses ortodoxos. Um labrego segundo os amigos, mas um labrego com talento, que sabia do ofício, o poder prezou e o público - que-tem-sempre-razão - adorou. Vários filmes dele foram sucessos colossais na URSS, com muitos milhões de espectadores, coisa de povoar os sonhos dos gémeos lusos do século XXI. "Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" foi um dos maiores. Filmado em 44 - em plena guerra e não depois dela -, conta a história de um bravo soldado russo (no cinema soviético, todos os soldados são bravos) que se apaixona por uma corajosa enfermeira (no cinema soviético, todas as enfermeiras são corajosas). Encontram-se por aqui e por acolá, cantam muito, na boa tradição do musical e, lá para o meio do filme, combinam casório para o fim da guerra. No dia desse fim, marcam encontro numa ponte de Moscovo, às seis da tarde. Mas eis que o soldado fica sem uma perna em combate. Como alma nobre que era, decide que não vai impor um inválido à bela enfermeira. Um amigo que lhe vá explicar que ele morreu, que ela não pense mais nele. Mas os amigos são para as ocasiões. A meio da piedosa mentira, o portador da má nova arrepende-se do que está a mentir. Conta-lhe a verdade e a rapariga corre para o hospital, para lhe jurar que não é perna a mais perna a menos que a aquece ou arrefece. Chegou a tempo. O soldado pensou melhor e achou-se egoísta, individualista e pequeno-burguês. Repetem a jura anterior. Só que, depois, é a rapariga quem apanha com um estilhaço e o espectador é levado a crer que ela morreu. O soldado nada sabe. E, às seis da tarde, no dia do fim da guerra, lá está na ponte, à espera da noiva. Passam as 6, passam as 7 e nem novas nem mandados. Mas filmes destes, a leste como a oeste, fizeram-se para acabar bem. Quando protagonista e espectadores já desesperam, a moça, supõe-se que incólume, aparece-lhe e lá vem o abraço e beijo finais. É evidente (até por este resumo o é, quanto mais pela visão do filme) que Pyriev viu muito cinema americano. Concretamente viu "Love Affair" de McCarey (1939), obra que, mai-lo seu "remake", "An Affair to Remember" do mesmo McCarey, e mai-los "remakes" feitos depois desse, suponho conhecida pela maioria dos meus leitores, Charles Boyer (ou Cary Grant) a combinar encontros no Empire State Building, com Irene Dunne (ou Deborah Kerr) a ser atropelada, a ficar paraplégica e a decidir desaparecer para não estragar a vida ao amado.
"Às Seis Horas da Tarde, Depois da Guerra" é uma variação sobre o mesmo tema, história de azares e de sortes.
 
3 - Mas não é isso que me embasbacou. Não precisei de chegar a esta idade para saber como o longo braço de Hollywood chegou até ao país dos comunistas e como os filmes mais exaltadores da glória do proletariado seguiram receitas capitalistas, disfarçadas com temperos locais. O que é inédito é que, em 1944, quando ainda havia tropas alemãs em território russo e o desfecho embora previsível não fosse ainda de favas contadas, Pyriev não tenha hesitado em figurar o dia V, como se todo consumado fosse.
Eu sei que não faltam na história do cinema (até na história do cinema soviético) representações de futuros longínquos, isso a que se costuma chamar "ficção científica". Eu sei que ficções do real ou com o real foram o pão-nosso de cada dia. Mas nenhum filme ocidental, dos anos da guerra, ousou jamais mostrar o fim, antes de o fim chegar, ou deu dois passos em frente para olhar do futuro vitorioso o passado sangrento. Também nunca houve - nem nos mais delirantes filmes de propaganda anticomunista - representações da queda do Kremlin ou da queda do Muro. Neste caso, Pyriev não hesitou. Em 44, mostrou 45, na guerra mostrou a paz. Há quem diga que o fez para dilatar a crença de que o dia da vitória estava próximo. Afinal de contas, a "Marselhesa" ("le jour de gloire est arrivé") tanto se cantou no início das grandes guerras como no fim delas. E, como Pyriev até nem se enganou muito (a Alemanha rendeu-se um ano depois da estreia do filme), podemos absolvê-lo dessa antecipação pela premonição. Porque é que eu fiquei tão embasbacado?
 
4 - Precisamente, como já disse, por essa sequência final. Séculos de cinema (passe o exagero) habituaram-nos a ver, documental ou ficcionada mente, o dia da Vitória como um dia de multidões transbordantes, enchendo as ruas, com soldados e paisanos abraçando-se furiosamente, num 25 de Abril em tamanho sobrenatural. A tamanha festa e a tamanha alegria. Tudo o que simbolicamente foi captado na lendária fotografia que deu volta ao mundo do marinheiro e da rapariga em abraço tremendo. Pyriev, em 44, não tinha milhares de figurantes nem podia filmar nas ruas de Moscovo. Que fez ele? Construiu uns "décors" com a ponte tão citada no filme, ao fundo da qual uma transparência dava a sugestão do Kremlin, iluminado por holofotes. Agarrou em duas dezenas de figurantes, de ambos os sexos, e pô-los a passear de braço dado pela dita ponte. Casais jovens, casais de meia-idade, como domingueiros, como se andassem por ali a ver as vistas. Em primeiro plano, o herói da perna de pau, muito sozinho e muito ansioso. Nalguns cantos, outros vultos solitários, ora de mulher, ora de homem. À vez, vinham chegando os pares esperados pelos ditos cujos. Abraços e beijos e lá iam a passear, juntando-se aos outros. Até que só ficava sozinho o protagonista. Caía a noite e os casais iam para a noite deles, sempre vagarosos e emburguesados, com passos de um coro de ópera convencional, mais se assemelhando a espectros do que a humanos. E, quando por fim chegava a enfermeira, o abraço era tão púdico e tão desengraçado como só o cinema soviético filmou abraços e beijos. Mas tratava-se da girândola final. Pyriev não o esqueceu e, para a sublinha, guardou para esse momento uma largada de fogo-de-artifício digna da festa da Senhora dos Remédios em Forno de Algodres, sem desprimor para a Senhora e para o forno. Na banda sonora, muitos bum-bum-bum. Até encadear com a palavra fim. E é essa sequência que não deixa de me perseguir desde o dia 7 de Janeiro. No país do "socialismo", na "pátria do povo", na terra dos sovietes, o fim da guerra foi celebrado por antecipação, sem povo, sem operários, sem camponeses, sem massas, sem qualquer desordem, sem qualquer alegria, a não ser a alegria breve de uns casais de namorados. Moscovo é uma cidade fantasmagórica, inexistente para aquém e para além da ponte sombria e soturna. Ou seja, Pyriev imaginou tudo menos uma real festa popular. É totalmente surrealista, no sentido pejorativo da palavra. Fez frio e medo. Muito frio e muito medo. Mas, pensando bem, talvez esteja certo. Para voltar a Cesariny e ao surrealismo, na verdadeira acepção da palavra: "Porque é que a enfermeira compra do Alves Redol quando está a pensar nas pernas e no peito do louro galã?" E nem sequer nisso pode mostrar que pensa. Na URSS, qualquer festa espontânea era espontaneamente inimaginável.

16 de Dezembro 2004 Público
 
 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 30 de julho a 5 de agosto de 2018

 

O «Elogio da Sede» do Padre José Tolentino Mendonça (Quetzal, 2018) reúne os textos das meditações sobre a Quaresma de 2018 feitas em Roma pelo autor, a convite do Papa Francisco no seu retiro espiritual.

 

 

A PASTORAL DA CULTURA

No momento em que o Poeta José Tolentino Mendonça assume as funções de Arquivista e Bibliotecário da Santa Sé e é investido como Arcebispo de Suava, importa lembrar a ação que desenvolveu nos meios culturais como poeta consagrado, que tem procurado abrir horizontes de diálogo com os meios intelectuais numa perspetiva de troca de ideias, de enriquecimento mútuo e de um melhor conhecimento das preocupações espirituais do mundo contemporâneo, a partir da laicidade, da liberdade religiosa, numa sociedade aberta e pluralista. Simbolicamente o novo Arcebispo adotou como lema a frase “Olhai os lírios do campo” (Mt., 6, 28) e escolheu como símbolos os lírios, um elefante, e o Alfa e o Ómega da mensagem bíblica do Filho do Homem. O elefante representa a velha e mítica ligação dos portugueses a Roma, de que a célebre embaixada do Rei D. Manuel ao Papa Leão X em 1514 é uma indelével referência, enquanto os lírios representam a simplicidade da vida. A leitura de «Elogio da Sede» permite-nos compreender melhor a alegria e a disponibilidade pessoal com base no entendimento da sede como “bem-aventurança que nos salva”. «Não é fácil reconhecer que se tem sede. Porque a sede é uma dor que se descobre pouco a pouco dentro de nós, por detrás das nossas habituais narrativas defensivas, asséticas ou idealizadas; é uma dor antiga que sem percebermos bem como encontramos reavivada, e tememos que nos enfraqueça; são feridas que nos custa encarar, quanto mais aceitar na confiança». Eis por que razão, o poeta nos põe de sobreaviso contra a indiferença, contra o encolher de ombros do relativismo. A liberdade religiosa e o encontro entre convicções obrigam a estarmos disponíveis para ouvir e para caminhar juntos, sendo capazes de nos colocarmos no lugar dos outros. Não pode haver diálogo na ignorância ou na suposição de que temos certezas acabadas e fechadas. Ao percorrermos as meditações, seguimos os capítulos, significativamente intitulados – Aprendizes do espanto, a ciência da sede, o perceber que se está sedento, a sede de nada que nos adoece, a sede de Jesus, as lágrimas que contam uma sede, o beber da própria sede, as formas do desejo, a escuta da sede das periferias, e a bem-aventurança da sede. Cada palavra, cada passo devem ser considerados, cultivando o tempo, a reflexão e a atenção. E se alguns põem em causa o facto de o Papa Francisco apelar às periferias, como se estivesse a esquecer as centralidades, a verdade é que a centralidade da dignidade humana só pode ser compreendida se entendermos os limites, as dificuldades, as angústias. Quantas vezes nos sentimos perdidos e abandonados – são esses os momentos fundamentais para que temos de nos prevenir perante o risco de cairmos e de estarmos fortes para nos levantarmos. Mas se estamos demasiado seguros e certos, há qualquer coisa que falta na fé e na esperança e que empobrece o amor.

 

QUE É A MISERICÓRDIA?
Oiçamos. «Perguntamo-nos muitas vezes o que é a misericórdia. E a misericórdia não cabe numa definição. Não se pode dizer: “A misericórdia é isto”. Precisamos de espelhos para compreender a misericórdia. Ela tem de encarnar-se para que a possamos tocar. Misericórdia é compaixão, misericórdia é bondade, misericórdia é perdão, misericórdia é colocar-se no lugar do outro, misericórdia é levar o outro aos ombros, misericórdia é reconciliação profunda. É tudo isso. Mas é isso realizado também com um determinado estilo, que é o estilo do pai da parábola de Jesus. Não há misericórdia sem dádiva, sem doação. Aquele filho trazia tantas feridas, manifestas e escondidas, e precisava de ser curado com o bálsamo da misericórdia». E se falamos de dádiva, temos de ter presente a ideia de troca – dou e dás, encontramo-nos afinal na generosidade. No fundo, “Deus ama a vida e não desiste dela”. De que vida nos fala? Do quotidiano inesperado, em que podemos descobrir o outro que nos procura. Nos caminhos insondáveis temos de ser aprendizes do espanto. “O que nos salva é um excesso de amor, uma dádiva que vai para lá de todas as medidas”. Não, não estamos saciados – estamos sim cientes de uma sede que não se satisfaz imediatamente na nossa condição. Através do amor, do respeito e da dignidade vamo-nos saciando. Mas é a consciência dos limites que nos leva a entender que não estamos sós e que temos de estar atentos a quem nos chama, mesmo em silêncio… S. Paulo di-lo melhor que ninguém. A fé e a esperança passam. O amor e o cuidado ficam – e assim a sede é o desejo e o caminho para esse dia em que poderemos finalmente ver face a face… “Porque Deus não desiste de dizer a toda a vida – à nossa vida – que ela é querida e bem-aventurada. Essa é a sede de Deus”.

 

O MORALISMO FALSEIA O ENCONTRO
Um dia José Tolentino disse a Anabela Mota Ribeiro: «Detesto o moralismo. Penso que o moralismo falseia o encontro connosco próprios e com a humanidade. O que acontece aos outros acontece a cada um de nós. Dizia o cristianíssimo Dostoievski: “Somos responsáveis por tudo perante todos”. (…) A experiência do mal atravessa todas as vidas. Todos precisamos de ser salvos. (…) Somos mesquinhos, banais, egóticos, ressentidos. Se não tomamos consciência disso não conseguimos a transformação. A primeira condição da transformação é a nudez. Ser capaz de contar a sua verdade. Gosto muito da Flannery O’Connor (dizia o poeta), que é para mim, ao lado do Pasolini, uma mestra espiritual. Ela mostra um mundo que se diria monstruoso. De assassinos em série. De gente capaz de tudo. “Esse mundo somos nós”. Até que acontece o encontro com a graça. É esse encontro que transforma a nossa vida. Penso que não se pode dividir [a humanidade] entre homens bons e homens maus. (…) Há a experiência do mal, que é comum a todos, que nos atravessa, corrói, domina em tantos momentos». Quem somos afinal? Quem são os sedentos que se encontram connosco na dúvida e na incerteza? O filho pródigo e o seu irmão ressentido somos nós. S. Pedro a negar três vezes somos, de facto, nós. S. Tomé incrédulo ainda somos nós, muito mais vezes do que julgamos. Graham Greene quando se converteu escolheu o nome de Tomé, exatamente porque sabia que a fé e a incerteza se completam – enquanto paradoxalmente Mauriac num grito algo provocatório lembrava às avessas do Salmo 22: “Meu Deus, meu Deus porque não me abandonaste”. E Santa Teresa de Jesus alertava para a ingenuidade de supor que “as almas às quais Nosso Senhor se comunica, de uma maneira que se julgaria privilegiada, estejam contudo, asseguradas nisso de tal modo que nunca mais tenham necessidade de temer ou de chorar os seus pecados».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Prosseguindo o que tenho vindo a escrever-te ou, melhor, continuando, atento e meditativo, a procurar o caminho certo para as minhas hesitações - que é como andar a tentar sair de muitas preocupações sem querer despreocupar-me, pois que nenhum de nós tem o direito de assobiar para o lado - recorro a um confronto de analistas vários de perspetivas da ainda anunciada globalização e, desde logo, do porvir das nossas sociedades e civilizações, das suas evoluções e coexistência. Começo por duas entrevistas reunidas no suplemento Idées de Le Monde de 16 de junho, sábado: uma ao antropólogo francês Maurice Godelier, outra ao mundialmente famoso autor de The End of History and the Last Man, Francis Fukuyama, politólogo americano doutorado em Harvard. Já verás, pelas citações escolhidas para título de cada uma dessas entrevistas, quais são as questões centrais das preocupações de cada um, mas deixa-me primeiro traduzir-te uns trechos da apresentação (Le Monde qui vient) feita pela jornalista Julie Clarini:

 

   «Desocidentalização», «desmundialização», «desdemocratização». Como será possível que estas palavras, a encherem colóquios e círculos de reflexão, não alimentem a nossa ansiedade? O universo que nos era familiar parece desfazer-se à nossa frente. O mundo pós-guerra fria já não existe - ou muito pouco. Quanto ao porvir chão e sem história que se tinha previsto após a queda do muro de Berlim, em 1989, transformou-se num futuro entre lagos, no qual não sabemos qual bússola seguir para encontrarmos o horizonte.

 

   Usemos todavia de prudência [[escolhi traduzir prendre garde por prudência, tenho o propósito de te lembrar essa definição da dita virtude como amor sagaz]] para não vermos apenas derrotas naquilo que nos desorienta. Pode haver coisas boas numa organização planetária mais justa, mais equitativa, e coisas desejáveis numa globalização mais respeitadora dos direitos e do ambiente. A bobine que se esvaziou foi só a nossa. Mas, mesmo assim, poderemos nós não ligar nada a essa tendência mundial de recuo das democracias liberais no mundo? E como não nos afligirmos com o surto de mecanismos autoritários no próprio seio das nossas instituições ocidentais?

 

   Antes de olharmos para as entrevistas, antes mesmo de te citar as declarações titulares delas, destaco brevemente outras três que, de certo modo, se encontram com suposições que, em cartas anteriores, já te manifestei. Não só a de que chegamos a um mundo com novas liberdades e afirmações (Maurice Godelier diz que vivemos o fim do domínio ocidental) como a de que o Tianxiá (a cuja análise voltarei) é uma proposta para ser internacionalmente considerada (surpreendentemente, Fukuyama diz que o Estado autoritário de Pequim oferece ao mundo um modelo alternativo), tudo isso possivelmente decorrente do facto, também já recordado, de que a difusão do capitalismo, em vez de implantar a democracia liberal, produziu o efeito inverso (frase esta de Cordelier). Para este notável antropólogo de formação filosófica, diretor científico no CNRS, que trabalhou com Fernand Braudel e Claude Lévi-Strauss -  hoje em dia os países emergentes recusam que lhes ditem as suas condições de existência...  ...entendem construir um futuro identitário próprio. Daí, o título escolhido para a sua entrevista: Modernizar-se sem se ocidentalizar. O que não determina, necessariamente, uma eliminação do Ocidente: O Ocidente não será marginalizado, mas será simplesmente posto no lugar que pode ocupar - o de uma potência importante, mas não mundialmente dominante. E é absolutamente preciso que o Ocidente aceite este novo dado. Também neste sentido te disse que, não sendo perfeita, a política de Obama levava em linha de conta o surto desta nova realidade. Coisa que o atual voluntarismo trumpista do America First não pode, nem sabe, infelizmente, entender.

 

   Por outro lado, Francis Fukuyama, cuja profecia de fim da história, pelo triunfo, após a derrocada do comunismo soviético, do capitalismo e da democracia liberal, se defronta hoje com dúvidas internas e contestações externas, interroga-se sobre como O mundo aberto e democrático está sob pressão (título da sua entrevista) e vai sugerindo que devemos regressar ao conceito de uma identidade nacional integradora, considerando-a como base de uma comunidade democrática em que gentes diferentes podem viver e trabalhar juntas... Talvez por isso o título do seu próximo livro, com saída prevista para setembro seja: Identity. The Demand for Dignity and the Politics of Resentment.

 

   A disparataria (ou dispirataria?) de infelizes populismos, nos EUA e na Europa, parece assim ter, pelo menos, a virtude de levar gente séria a pensar, a pensarsentir e a explicar-se, apontando caminhos possíveis para a reflexão e bom entendimento conjuntos do nosso - ao que tudo indica - inescapável destino global, comum e participado. Não digo equitativamente participado, porque não gosto de pleonasmos. E vai-se alargando o campo de incidência dessa preocupação sobre a crise atual do "Ocidente", seus regimes e sistemas políticos e económicos, seus preconceitos e inércias, suas projeções ainda tão ignorantes dos outros. Basta passarmos os olhos pelo sumário da mais recente edição da Foreign Affairs, a de julho/agosto de 2018, com o tema de capa «Which World Are We Living In?»: Realist World; Liberal World; Tribal World; Marxist World; Tech World: Warming World. E ainda mais elucidativos são os temas de ensaios neste número publicados: desde a extensa sombra do 11 de setembro (2001), How  Counterterrorism Warps U.SForeign Policy,  aos inimigos que estão no interior da NATO, isto é, de como o declínio democrático pode destruir essa aliança organizada, até à necessidade de os governos investirem nos povos, corrigindo desigualdades, ou à de devermos rever o mito da ordem liberal... Este último tema é tratado pelo reputado professor de ciência política da Harvard Kennedy School, Graham Allison, sob o título (traduzo) de O Mito da Ordem Liberal - do Acidente Histórico à Sabedoria Convencional. Achei curioso o epíteto que tal autor cola ao conceito que ora se propõe analisar: algo como gelatina conceitual. Explica-o assim: A ambiguidade de cada um dos termos na designação "liberal international rules-based order" dá uma escorregadela que permite aplicar o conceito a quase qualquer situação. Quando, em 2017, membros do World Economic Forum, em Davos, coroaram o presidente chinês Xi Jinping líder da ordem económica liberal - sendo, contudo, que ele encabeça a mais protecionista, mercantilista e predadora das maiores economias mundiais - revelaram que, pelo menos nesse contexto, a palavra "liberal" se tornou não vinculativa. E a meu ver, Allison tem razão em dizer que a expressão "rules-based order" é redundante, já que, por natureza, a ordem é feita por regras e regularidade, tal como quando acrescenta que os proponentes de uma ordem internacional liberal assente em regras pensam numa ordem que incorpore boas regras, equitativas e justas. Mas, assim como poderia evocar a Animal Farm do George Orwell (all animals are equal but some animals are more equal than the others), vai recorrer ao estrategista indiano C. Raja Mohan para observar que, na dita ordem internacional, as superpotências são "excecionais", isto é, quando decidem que algo convém aos seus propósitos, abrem exceções para si mesmas. O facto de, nos primeiros dezassete anos deste século, o auto proclamado líder da ordem liberal [os EUA] ter invadido dois países, conduzido ataques aéreos e operações de forças especiais para matar centenas de pessoas que unilateralmente classificou de terroristas, e sujeitado uma data de outras a uma "rendição extraordinária", muitas vezes sem qualquer autoridade internacional legal (e mesmo algumas sem autoridade nacional legal) - tal facto fala por si.

 

   Já em correspondência anterior falávamos, Princesa de mim, da urgência de progressiva construção de estruturas jurídicas e políticas internacionais que permitam acolher e fomentar o entendimento e consolidação de uma tão necessária cultura da paz, incluindo, em tais reformas, a revisão dos estatutos e regras de funcionamento da ONU. Para tal, parece-me necessário que comecemos por nos livrar de cargas de ideias feitas, da inibição de preconceitos, e do comodismo de uma inércia adquirida que, desde logo, nos fecham olhos e ouvidos aos sinais dos tempos hodiernos, assim obstruindo rotas de descoberta de um mundo emergente, com novos atores despertados, em várias escalas, por resgatadas consciências de si mesmos e da sua circunstância global e regional. Lembra-te do que te escrevia nessas cartas.

 

   Repetindo um escrito de Francis Fukuyama no seu The End of History and the Last Man: Talvez estejamos a assistir, não só ao fim da Guerra Fria, ou ao passamento de um período particular da história do pós-guerra, mas ao fim da história como tal, isto é, ao ponto final da evolução ideológica da humanidade e à universalização da democracia liberal ocidental como forma perfeita do governo humano  -  não consigo deixar de recordar os sábios chineses que dizem ser a China um devir constante, um contínuo de passagens de potência a ato, para me referir a um conceito aristotélico-tomista. E agarro então num texto de Zhao Tingyang: O novo ponto de partida da política imaginado pelo conceito de Tianxiá resume-se precisamente a construir o mundo como sujeito político passando pela sua inclusão, a estabelecer a soberania do mundo que pertence a todos, e a transformar o mundo da hostilidade para todos num Tianxiá de felicidade partilhada. A célebre expressão Tianxiá weigong (o Tianxiá pertence a todos) deve ser assim entendida: tudo o que se encontra debaixo do Céu deve ser usufruto comum de todos os que estão debaixo do Céu. 

 

   Creio que o problema - ou o dilema - da política externa norte-americana, desde o fim do "equilíbrio" bipolar que a Guerra Fria foi registando, se deverá, em grande parte, a um erro de perceção: não se ter visto que o desmoronamento do poder soviético, ou da alternativa comunista, longe de ser o fim da história ou o indiscutível triunfo da democracia liberal, nem sequer era o início de uma era nova de poder unipolar. Graham Allison vê bem quando afirma que o termo da Guerra Fria apenas produziu um momento unipolar. E desenvolve: Hoje, as elites da política externa despertaram para a subida meteórica de uma China autoritária, que agora rivaliza ou mesmo ultrapassa os Estados Unidos em muitos domínios, e para o regresso de uma afirmativa e iliberal superpotência nuclear russa, desejosa de pôr a sua força militar para mudar fronteiras na Europa e o equilíbrio de poderes no Médio Oriente. Devagarinho e penosamente, vão descobrindo que a parte de poder global dos EUA vai encolhendo. Quando medida pelo critério da paridade do poder de compra, a economia americana, que representava metade do produto mundial bruto após o fim da 2ªGuerra Mundial, caiu para menos de um quarto depois do fim da Guerra Fria, e é hoje apenas um sétimo.

 

   Mas a questão que esta abordagem da realidade adventícia levanta tanto pode ser, depois de verificados os fatores de uma perda de posição ou competitividade, saber, 1.- se se poderá reforçar uma primazia e hegemónica, 2.- ou se, melhor, nos deveremos todos adaptar à convivência num mundo menos desigual em poder, mais equitativo e mais justo. Sobretudo depois de se ter proclamado que as democracias sustentadas pela dita livre economia de mercado se deveriam implantar em toda a parte, de modo a cumprir-se a profecia dos que defendiam que "when a country reaches a certain level of economic development, when it has a middle class big enough to support a McDonald´s, it becomes a McDonald´s country, and people in McDonald´s countries don´t like to fight wars; they like to wait in line for burgers" - como sintetizava, no New York Times, em 1996, num artigo intitulado Golden Arches Theory of Conflict Prevention, Thomas Friedman. Há tiros que saem pela culatra, não é difícil perceber que a promoção da paz através de uma visão materialista do mundo e da vida e da instalação do consumismo, até poderá desvirtuar, para além de outros valores éticos, a própria razão de uma sociedade democrática. Na verdade, esta tem mais a ver com a liberdade interior, com a igualdade justa, com a fraternidade solidária. Pouco, ou nada, com a acumulação de riqueza ou o aumento do poder de compra. Como tanto tem lembrado, e sido bem escutado por variegadas gentes deste mundo, um argentino, filho de migrantes italianos, conhecido por Papa Francisco. A bom entendedor...

 

   A cultura reinante nas nossas democracias ocidentais é ainda fator de privilégio do indivíduo sobre o grupo, o êxito de um ser humano - em regra geral medido por vitórias e consagrado por remunerações - sendo sacramento de um novo messianismo que vai povoando de ídolos o imaginário coletivo: vai-se enchendo de "estrelas" e "melhores do mundo" a abóbada celeste da devoção dos homens comuns. Eis o culto da nova religião democrática animada pela ganância e pelo exibicionismo mediático. E a tentação de cada um se coçar para dentro, como os macacos (salvos sejam!), é tão grande que o conteúdo reivindicativo da esmagadora maioria das manifestações, greves e protestos sociais, quase sempre corporativos, se resume à reclamação de mais salários e melhores carreiras. Por vezes, chega a ser confrangedor ver como justos pedidos de justiça (apraz-me este pleonasmo de justiça justa) são confundidos em reclamações cegas a tudo o que não sejam ambições pessoais ou corporativas. Vamos perdendo referências a valores constitutivos da harmonia e progresso social, como a solidariedade e o sentido de missão. Ocorre-me aqui citar Xunzi, pensador confucionista do século III a.C.:

 

   O homem que vive tem desejos e, se estes não forem satisfeitos, subsistem as reclamações. Se as reclamações não forem limitadas, produzem-se conflitos. Os conflitos significam desordem, a desordem significa pobreza. O imperador detesta a desordem, e por isso instaurou ritos e etiquetas para assim estabelecer limites.

 

   Zhao Tingyang comenta: Xunzi verificou um fenómeno aparentemente paradoxal: a cooperação pode levar a conflitos pois gera muito mais vantagens, mas a resultante desigualdade de repartição pode conduzir ao conflito. Para que uma cooperação se torne estável e credível, é necessário institucionalizar os genes da cooperação.

 

   Eis, Princesa de mim, porque tenho dito e repetido, tantas vezes, que na raiz dos problemas sociais e políticos, nacionais e internacionais, está sempre uma questão de identidade e cultura. Para nos percebermos melhor, recorro ao pensarsentir a açorianidade ou a portugalidade, segundo Onésimo Almeida, açoriano no arquipélago, português no continente, europeu em Paris, universal em todo o mundo, um pouco como o padre António Vieira ao dizer: para nascer, pouca terra, Portugal; para morrer, o mundo inteiro. A identidade humana de cada um de nós vai-se engrandecendo com o crescimento da nossa compreensão dos outros (cultura) e o tamanho maior do nosso abraço. E o chamado Ocidente cristão deveria interrogar-se sobre como a sua dita democracia - ideia e projeto de cariz tão profundamente evangélico - se deixou transformar num veículo de egoísmos em competição.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

A TRADIÇÃO OITOCENTISTA DOS TEATROS DE ALCOBAÇA (I)

 

Será algo contraditório referir uma tradição nas áreas de edificação urbana em Alcobaça sem partir da óbvia evocação do Mosteiro. Mas aqui, mais singelamente, referimos edifícios de teatros ou de cineteatros: e mesmo sem obviamente confundir as coisas, sem obviamente querer valorizar, no mesmo grau, monumentos ou edifícios de expressão arquitetónica e cultural, justifica-se, cremos, esta evocação seletiva de referências à infraestrutura de espetáculos na cidade de Alcobaça.

 

Ficou a memória de um então chamado Theatro Alcobacense, iniciativa de um grupo de alcobacenses que consideraram necessário dotar a cidade de uma sala de espetáculos. Sem embargo, evidentemente, da preponderância, a nível mundial do Mosteiro em si mesmo: e cabe hoje recordar que no próprio Mosteiro se efetuaram, ao longo dos séculos, manifestações dramática e musicais.

 

Mas, de qualquer maneira, evoca-se a iniciativa local de dotar Alcobaça de uma sala de espetáculos. Estamos em 1838, note-se: mas a iniciativa deve-se a um grupo de alcobacenses apoiados e estimulados por uma figura de destaque, o Conde de Vila Real, que muito contribuiu para a construção. E efetivamente, em 6 de janeiro de 1840 é inaugurado o então chamado Theatro Alcobacense, curiosamente incrustado no próprio Mosteiro.

 

A sala notabilizou-se pela sua dimensão e pela rentabilização do próprio espaço disponibilizado, numa arquitetura de interior adequada à época da adaptação: plateia, frisas, duas ordens de camarotes, galeria.

 

Mas nos anos 40 do século passado surge um Cine Teatro de Alcobaça, assim mesmo designado, a partir de um projeto inicial do Arquiteto Ernesto Korrodi, que tantas vezes aqui temos referido.  Korrodi morre em 1944, mas a sua atividade é continuada e de certo modo renovada pelo filho, Camilo Korrodi. Nomes que, repita-se, temos muitas vezes encontrados nestas evocações de salas de espetáculo.

 

Adquirido pela Câmara Municipal em 1998 e sujeito a obras de restauro, o Cine Teatro de Alcobaça comporta duas salas, então designadas como Grande Auditório, com para cima de 300 lugares, e Pequeno Auditório, este com cerca de 65 lugares. Internacionalizou-se a programação.

 

E finalmente: em 2010 a Câmara homenageou um cidadão alcobacense, acrescentando-lhe o nome. Passa a chamar-se então Cine Teatro de Alcobaça João d’Oliva Monteiro.

 

Mas como veremos, não fica por aqui a infraestrutura de espetáculos de Alcobaça.

 

DUARTE IVO CRUZ  

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

 

 

13. AS FORMIGAS E O GAFANHOTO E A CIGARRA E A FORMIGA

 

 

No tempo em que os animais falavam, passou o gafanhoto todo o verão compondo e tocando música, enquanto uma família de formigas trabalhava. Quase a chegar o inverno, e com ele o frio, o faminto gafanhoto abeirou-se delas, com um violino debaixo do braço, pedindo comida, ao que aquelas, com desconfiança, perguntaram o que fez durante o verão, respondendo que fez música, ao que as formigas retorquiram: “Todo o tempo a fazer música? Muito bem, agora dança!” 

 

Esta fábula do grego Esopo, foi readaptada e recontada pelo francês Jean de La Fontaine, em a Cigarra e a Formiga, contando a história de uma cigarra que cantou durante o verão, enquanto a formiga trabalhava. Chegado o inverno, a cigarra, não tendo que comer, pediu à formiga que lhe emprestasse comida, com a promessa de lhe pagar com juros antes de agosto. A formiga, tida por ser poupada e não emprestar nada a ninguém indagou, desconfiada, o que fez a cigarra no verão. Respondeu esta que cantava noite e dia, ao que a formiga replicou: “Cantavas? Pois dança agora!” 

 

Se a lição dominante destas fábulas é a de que há tempo para o trabalho e para a diversão, que devemos ser previdentes e poupados, que para os cultores da preguiça há sempre lazer, também podem ser reinterpretadas no sentido de que há nelas uma exaltação extrema ao trabalhar por trabalhar, à acumulação de capital, riqueza e bens materiais, à avareza usurária e desumana da formiga, à descredibilização e marginalização dos cantores, músicos e poetas, injustamente equiparados a pessoas absentistas e preguiçosas.

 

Estas fábulas, na sua multiplicidade de interpretações e leituras, também são adaptadas, em termos culturais, à invocada diferença de atitude mental e cultural entre povos e países, por exemplo, entre os do norte e do sul da Europa.

 

É usual dizer-se que se perguntarem aos portugueses, espanhóis, italianos e gregos, entre outros povos mediterrânicos e do sul da Europa, se as formigas devem ajudar o gafanhoto e a cigarra ou deixá-los por sua conta e risco, que eles, em unanimidade, defendem que as formigas os devem ajudar, coitadinhos, enquanto os alemães, holandeses, dinamarqueses, finlandeses e outros povos nórdicos entendem, em uníssono, que devem morrer de frio e fome, sem compaixão, tendo o que merecem, dada a sua malandrice.

 

Uns acreditam que o gafanhoto e a cigarra aprenderam a lição e no próximo verão não voltarão a reincidir, outros que prevaricaram e devem ser punidos. 

 

Só assim se fará justiça, tomando como referência o exemplo da formiga, a ser seguido por todos os animais, incluindo o ser humano. 

 

Sucede que compor e tocar música, escrever poemas ou letras para canções, cantar e dançar é um trabalho digno, exigente e gratificante para quem o faz e dele vive, à semelhança de qualquer outro, que compensa e gratifica a vida de todos nós, sendo redutor e simplista associá-lo a mera diversão.

 

O que não significa que os gafanhotos e cigarras absentistas não tenham de começar a trabalhar, ou a trabalhar mais e melhor, e que as formigas, na sua arrogante superioridade, não necessitem de gafanhotos e cigarras, evitando o seu desaparecimento e inevitáveis consequências, humanizando-se e tendo sempre presente a nossa precariedade mundana, que o que aparenta ser superior hoje pode não o ser ou não o é em permanência, em conjugação com  a inviabilidade universal de poder haver só excessos orçamentais, para todos, sem défices, para ninguém, e a necessidade humana de saber viver entre o prevenir amealhando e a compensação cultural e espiritual, mesmo que a título de lazer, sob pena de “dançarmos” todos!  

 

24.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MORRER AINDA MAIS

 

Quem dois dias no mar a boiar junto aos mortos

Já não quer viver

Mas morrer ainda mais

 

Quem esqueceu o invisível muro da vida

Entre os corpos sem pulso  

E o mundo da maldade obscena

 

Quem como também ela

Numa tristeza sem onde

Num olhar que não vive

 

É mais que espanto

Muito mais que pranto seco

Não sabe, não sabe

 

História é só ferida

E gozo ou dor será o mesmo

Sem beijos, mas lousa

 

Afã de uma verdade

Que bate contra as águas cardadas

Contra a carne a ferros

 

Quem?

Uns olhos se levantam

Na ruína do imenso

 

Quem?

Corpo inerte, mão no bem tangível

Dos morreres

 

E o naufrágio

Mentira!

Que o mundo clama

 

Para que se não contemple

Esse tronco vivo e mais morto

Numa data vazia

 

Quando a morte é de tudo e de todos

E as gentes sumo engano

Fissuras, punhais

 

Mas ingenuidades

Nunca

 

 

Teresa Bracinha Vieira
Julho 2018

DE QUE TEMPO SOMOS, AFINAL?...

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 0

 

O diário de agosto de 2018 tem a ver com o Ano Europeu do Património Cultural.

Mas procuramos demonstrar que essa coisa de Património Cultural tem menos a ver com sisudez do passado do que com saudável ironia do presente.

Estes quatro janotas perguntam-se se estão no presente vindos do passado ou no passado vindos do presente…

Quatro bigodes bem diferentes – amplo, pincelar, retorcido ou pequenito…

Eis o forte dilema. O do centro cultiva o janotismo, os três de trás vivem de ver os outros.

Não queriam senão ver a guerra pelas costas…

O da esquerda usa traje napoleónico. O do centro vive no tempo dos bailes vienenses e o outro adora recitar e diz bocageanamente:

 

«Levando um velho avarento
Uma pedrada num olho,
Pôs-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo doutor, não das dúzias
Mas sim médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

«Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro dou eu por isso.».

 

Mas isto é só um anúncio e um aperitivo.

O nosso cronista Agostinho de Morais, tem um saco inesgotável…

Esperemos pelo dia 1. Património vivo faz-se rindo, sorrindo, sempre.

 

VINTE LIVROS PARA FÉRIAS…

 

À semelhança de outros anos, escolhemos vinte livros que serão uma excelente oportunidade de leitura para este verão…

 

Revista «Colóquio – Letras» - Correspondência inédita de Alexandre O’Neill e Diálogo Edgar Morin e Eduardo Lourenço.
«Rimas» de Francisco Petrarca (tradução de Vasco Graça Moura), (Quetzal).
«Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa» (diversos volumes) - coordenação Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco (Circulo de Leitores)
«A Cidade Virtuosa» - Alfarrabi (tradução de Catarina Belo) (F. C. Gulbenkian).
«Obras Completas de Maria Judite de Carvalho» – vol. I «Tanta Gente Mariana» e «As Palavras Poupadas» (Minotauro).
«Antero – ou a Noite Intacta» (Gradiva)
«Estuário» - Lídia Jorge (D. Quixote).
«Obra Perfeitamente Incompleta» - José Sesinando (Tinta da China).
«Na Prática a Teoria é Outra» - Vítor Cunha Rego (D. Quixote).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«O Fogo Será a Tua Casa» - Nuno Camarneiro (D. Quixote)
«A Sociedade dos Sonhadores» - José Eduardo Agualusa (D. Quixote)
«Gente Séria» - Hugo Mezena (Planeta).
«Portugal no Golfo Pérsico – 500 Anos» (vários autores), (Biblioteca Nacional de Portugal).
«O Fundo da Gaveta» - Vasco Pulido Valente (D. Quixote).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Um Amante no Porto» - Rita Ferro (D. Quixote).
«Em Minúsculas» - Herberto Helder (Porto Editora).
«Os Ricos» - Maria Filomena Mónica (Esfera dos Livros).
«Correspondência Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, 1949-1978» (Guerra e Paz). 

 

BOAS LEITURAS!

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 23 a 29 de julho de 2018

 

Lembramos Nelson Mandela, autor de “Um Longo Caminho para Liberdade” (Planeta, 2012), na passagem do centenário do seu nascimento.

 

 

CIRCUNSTÂNCIAS ESPECIAIS
Há circunstâncias históricas aparentemente fortuitas que podem tornar-se decisivas ou pelo menos ter consequências significativas para o curso dos acontecimentos. O que a seguir se lembra é um bom exemplo do que acaba de se dizer. Na biografia de Mário Soares, Nelson Mandela surge ligado a um momento dramático da sua vida, aquando do acidente ocorrido com João Soares e que o levou à África do Sul, depois de ter completado exemplarmente as visitas de Estado à Hungria e à Holanda. O que aconteceu então foi que, apesar das condições muito difíceis que rodearam essa ida a Pretória, Mário Soares pôde contribuir, no plano político, para a evolução sul-africana. Havia que romper com a experiência do apartheid e suscitar uma evolução democrática. O Presidente Botha tinha-se demitido em agosto de 1989 e tinha sido substituído por De Klerk. Logo no Aeroporto, quando o Presidente português chegou, profundamente preocupado com a saúde do filho, Pick Botha convidou Mário Soares para almoçar com o Presidente De Klerk. O momento era muito difícil. A evolução da saúde de João era muito incerta e problemática. No entanto, Soares assim que compreendeu que as coisas poderiam ter um caminho positivo, aceitou o encontro, no qual foi acompanhado por Maria de Jesus e pelos Embaixadores José Cutileiro e João Diogo Nunes Barata. O que sabemos desse encontro permite-nos dizer que foi muito significativo – depressa se tendo passado do formalismo para uma troca de ideias com evidente sentido e consequência políticos. Naturalmente que o ponto de partida das autoridades sul-africanas era muito tímido, receoso e conservador, considerando a própria história complexa da África do Sul. Tudo aponta, porém, para que a experiência do prestigiado político português se tenha revelado fundamental. Mário Soares começou por lembrar: “quando o professor Marcelo Caetano substituiu o ditador Salazar, por incapacidade física deste, prometeu ao País fazer uma liberalização. Mas não teve a coragem de a fazer, ficou-se apenas por superficiais mudanças de nomes. Cinco anos depois foi destituído por uma revolução militar que veio já demasiado tarde para permitir uma transição democrática gradual e controlada, tanto da política interna como da colonial”…

 

COMPREENDER A DEMOCRACIA
O testemunho é-nos dado pela indispensável biografia de Maria João Avillez. A evolução é conhecida, devendo acrescentar-se o segundo exemplo suscitado por Mário Soares na altura, provinha de Espanha: “o Presidente Adolfo Suárez, em visita a Lisboa assegurou-me (disse M. Soares) estar disposto a fazer a ‘transição democrática’ no seu País. Quando, porém, lhe perguntei se tencionava legalizar o Partido Comunista, respondeu-me que não poderia fazê-lo, porque os militares nunca o autorizariam. Disse a Suárez que, nesse caso, nunca lograria assegurar uma verdadeira transição para a plena democracia. Expliquei-lhe que o Mundo estava à espera de uma rutura com o passado, que passaria simbolicamente pela legalização do Partido Comunista. Sem ela as suas boas intenções nunca ganhariam credibilidade nem consistência. Dias depois, o próprio Presidente A. Suárez teve a amabilidade de me telefonar, dando-me conta de que tomara a resolução – que ia publicamente anunciar – de legalizar o Partido Comunista Espanhol. Percebi que o corte com o passado ia ser consumado e que a Espanha entraria num período novo”. Depois destas duas referências, Mário Soares dirigiu-se a De Klerk e disse-lhe que só se pusesse Nelson Mandela em liberdade e se comprometesse publicamente a renunciar à política do apartheid a Europa, os Estados Unidos e o Mundo acreditariam na vontade de uma verdadeira transição democrática – mas se hesitasse e ficasse pelo meio caminho por falta de coragem, alguém, um dia, mais tarde ou mais cedo, o iria fazer por si. O Presidente sul-africano agradeceu a franqueza e ficou impressionado com os argumentos. Quando Soares deixou a África do Sul, Pik Botha veio despedir-se e trazia uma mensagem do Presidente De Klerk. Haveria uma verdadeira transição, uma rutura, iria ser anunciada a libertação dos presos políticos, sendo Mandela libertado dois ou três dias depois e o apartheid seria banido do País…

 

UM MOMENTO INESQUECÍVEL
Mário Soares acolheu a mensagem com muita alegria, comprometendo-se a convidar o Presidente De Klerk para visitar Portugal logo que esses objetivos fossem concretizados. E assim o Presidente português considerou o Presidente sul-africano “como um dos mais lúcidos e corajosos do nosso tempo, cuja estatura política não deve ser esquecida quando se enaltece, muito justamente, a figura ímpar e humaníssima de Nelson Mandela”. Continuando a seguir o testemunho de Mário Soares, lembramos o que disse nos momentos imediatos à libertação do resistente sul-africano. “Quando li o discurso proferido por Mandela, ao ser libertado, percebi imediatamente tratar-se de um homem excecionalíssimo de nunca cair na tentação de vingança, tendo passado por perseguições e violências sem guardar o mínimo ressentimento”. Trata-se de seguir o melhor exemplo de quantos no fim da grande guerra, ao saírem dos Campos de Concentração, foram capazes de dizer e de ser coerentes com tal afirmação – que deveriam esquecer a vingança e o ressentimento contra os autores de violência, para impedir a escalada do terror; e que deveriam lembrar onde chegara a barbárie e a cegueira, para que tal não voltasse a acontecer. Esquecer e lembrar são igualmente deveres éticos, para romper com o rancor e o ressentimento e para prevenir o regresso da violência. Em maio de 1994, Mário Soares deslocar-se-ia a Pretória para assistir à tomada de posse do já então Presidente Nelson Mandela e a sua recordação é inesquecível: “Fiquei extremamente impressionado com o discurso que ouvi nessa cerimónia. Proferiu palavras extraordinárias, porque revelaram a sua nobreza de carácter, o seu sentido de dignidade, o seu espírito humanista. Apesar dos longos anos que viveu na prisão, mostrou não sentir qualquer ressentimento, sublinhando que o que mais importava era construir a paz, colaborar no progresso do País, implantar um espírito de tolerância e de sã convivência entre todos. Teve, inclusivamente, palavras de afeto para com dois dos seus carcereiros, que convidara para o banquete oficial, colocando-os ao lado das inúmeras personalidades mundiais presentes”. Mais tarde, Mário Soares integraria o júri que atribuiu a Mandela e a De Klerk o Prémio Houphouet Boigny, tendo ambos sido também laureados com o justíssimo Prémio Nobel da Paz… Nobreza de carácter, sentido de dignidade e espírito humanista – eis o perfil que deve ser realçado, como um modelo para a vida política e cívica. Num tempo em que há tantas nuvens ameaçadoras no horizonte, em especial no tocante ao medo das diferenças e à falta de coragem no sentido de lançar pontes para o diálogo, é indispensável ter bem presente o exemplo de Nelson Mandela, como herói do nosso tempo. Para usar uma expressão cara a Emmanuel Mounier, “o acordar da África Negra” obriga a uma consciência de liberdade, responsabilidade e respeito mútuo, que o exemplo de Mandela bem representa…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nous ne voulons pas d’une hégémonie mondiale - dos EUA, claro - declarava há dias Emmanuel Macron, e já vários dirigentes do G7, dum ou doutro modo, têm deixado entender que também se podem aguentar num G6, e se deve sobretudo respeitar o direito internacional, a soberania de todas as nações e os compromissos assumidos. Entretanto, e na sequência de preocupações que contigo tenho partilhado em cartas anteriores, refleti hoje sobre dois passos do Tianxia, tout sous le même ciel, de Zhao Tingyang:

 

  1. Suponhamos que o nascente poder mundial sistémico mantenha a sua forma combinada «capital-tecnologia-serviço» e que o seu poder económico se transforme em poder político... [[ Tal poder mundial sistémico será, se bem te lembras, o mesmo sobre o qual, em carta anterior, eu te escrevia que, "na verdade secreta dos factos e relações económicas, o poder que finalmente delineia, determina e decide, reside mais nos próprios agentes financeiros do que nas instituições e órgãos do poder político... - Aproveito agora para acrescentar que, em seu andamento, vai corrompendo pessoas e deslegitimizando titulares eleitos - ... Esta questão, aliás, é doravante crucial em qualquer projeção do que poderá ser uma democracia no futuro, já que a concentração crescente da riqueza e do poder financeiro anda de mãos dadas com a sua infraestrutura tecnológica e a oferta de bens e serviços básicos, desde a energia à informática e comunicações, e pode não ter pátria nem população a quem prestar contas, além dos seus próprios donos e acionistas"]]. 

 

  2. O despotismo tecnológico do novo poder sistémico pertence, por enquanto, apenas ao futuro. O perigo mais iminente está no grande interesse os imperialismos ainda hegemónicos mantêm pelos desenvolvimentos tecnológicos e na sua intenção de deles se servirem para consolidarem o seu poder. Desenvolver tecnologias com riscos imprevisíveis é irracional e virá reforçar as grandes potências. Consequentemente, é ilusório pensar ser possível impedir os atos irracionais dos poderes estatais ou sistémicos graças às organizações internacionais. Só construindo uma ordem universal mundial superior ao sistema dos estados é que se poderá refrear a hegemonia imperialista e os novos poderes sistémicos mundiais, evitar ao mundo uma ditadura tecnológica sem escapatória possível, ou poupar o mundo à loucura e à destruição. Eis o sentido do sistema Tianxiá. [[Fica aqui prometido que, em carta ou cartas próximas, voltarei ao tema chinês do "tudo debaixo do mesmo Céu", aos modos de olhar para o mundo a partir da Ásia. Por agora, deixo-te essas citações como alerta]].

 

   As citações seguintes também tê-las faço como temas de reflexão, ainda na sequência do que te disse em cartas anteriores. Estas e as que acima te deixo entreajudam-se-nos a pensarsentir a tecelagem de perspetivas com que vamos deparando:

 

  1. No seu Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado em 1942, Joseph Schumpeter (1883-1950economista austríaco exilado nos EUA) estima que a democracia não deve ser considerada como a fonte do bem comum, nem ser associada a valores: aos seus olhos, ela representa simplesmente um processo de designação útil. Em tal visão, inspirada pela teoria económica, o que conta é que o indivíduo tenha a capacidade de escolher uma oferta política, tal como o homo Economicus escolhe uma oferta económica - recorda o filósofo francês Florent Guénard, autor de La Démocratie Universelle (Seuil, Paris, 2016).

 

  2. Deste mesmo autor, e para nos ajudar a refletir no populismo, no que possam ser "democracias iliberais" e, mesmo, no "fenómeno" Trump: Aqueles que defendem uma conceção iliberal da democracia, têm a obsessão da espontaneidade e da incarnação, fundamentam-se numa conceção específica do povo: é suposto este receber do chefe a sua unidade, tal chefe sendo uma figura em comunhão com o povo, e que instintivamente conhece a vontade popular.

 

  3. E ainda, eu que sou impenitente releitor de Georges Bernanos, como sabes - e, pensossinto o sabor profético de muitos textos e frases da sua abundante e sempre participante prosa -, não te dispenso da reflexão sobre estes dois passos de La France contre les robots, datados de 5 de janeiro de 1945, dia em que cumpri três anos de vida: Un monde gagné pour la Technique est perdu pour la Liberté (um mundo ganho para a Técnica está perdido para a Liberdade). E explica num trecho adiante (traduzo): Intitule-se capitalista ou socialista, este mundo alicerçou-se sobre uma determinada conceção do homem, comum tanto aos economistas ingleses do século XVIII, como a Marx ou Lenine. Já se tem dito que o homem é um animal religioso. Este sistema já o definiu, uma vez por todas, como animal económico, não somente escravo mas objeto, quase matéria inerte, irresponsável sob o determinismo económico, e sem esperança de se libertar, pois não conhece outro motivo certo para além do interesse, do lucro. Limitado a si próprio pelo egoísmo, o indivíduo não parece mais do que uma quantidade menosprezível, sujeita à lei dos grandes números, como se apenas pudesse ser empregue por grosso, graças ao conhecimento das leis que o regem. Assim sendo, o progresso já não está no homem, está na técnica, no aperfeiçoamento de métodos capazes de permitir uma utilização cada vez mais eficaz do material humano.

 

  4. Ocorre-me citar-te ainda William Morris, inglês e socialista sui generis, utópico cavaleiro andante para defesa do trabalho humano e humanizado, sonhando com a conversão do operário industrial, mecanizado em linhas de produção em série, num artesão, num artista que se fosse realizando pela própria criação do seu trabalho: Eis, em resumo, a nossa posição de artistas : somos os últimos representantes do artesanato, no qual a produção mercantil desferiu um golpe fatal... -  diz ele numa conferência em Edimburgo, em 1889.Fundador, em meados do século XIX, em plena revolução industrial, do movimento Arts & Crafts, merecerá, quase 150 anos mais tarde, esta reflexão de Michel Houellebecq (sim, o tal, o autor de Soumission) este comentário: Para William Morris, a distinção entre a arte e o artesanato, entre a conceção e a execução, devia ser abolida: qualquer homem, à sua escala, poderia ser produtor de beleza - seja na realização de um quadro, de um vestido, de um móvel; e qualquer homem, igualmente, teria direito, na sua vida quotidiana, de se rodear de belos objetos... 

 

  5. E ainda, neste sábado em que algum neto me grita, pelo telefone, que a Islândia empatou com a Argentina no campeonato do mundo de futebol, e este seu avô, passando por um escaparate dos jornais do dia, lê em caracteres garrafais, na primeira página dum jornal generalista português: RONALDO DEUS, etc., etc. ..., alegra-me citar-te um dito do professor de sociologia Vidar Halldorson, da Universidade da Islândia: Sabemos jogar como profissionais, sem cair nas ratoeiras do desporto comercial, onde o dinheiro e o ego muitas vezes ficam por cima... O mesmo académico viking que também nos diz que Quando os nossos (deles) jogadores regressam à pátria, não se entrincheiram em clubes privados nem luxuosas moradias. Numa pequena cidade como Reykjavik, podemos encontra-los a qualquer hora na piscina monumental, num restaurante, na rua... Na verdade, quase todos eles trabalham ou estudam.

 

  6. Estes reparos levam-me a Le Figaro, à sua edição de 5ªfeira, 14 de junho, dia da inauguração do dito campeonato na Rússia, a um artigo do filósofo Robert Redeker, aliás autor dum livro intitulado Peut-on encore aimer le football? (Le Rocher, Paris): Ela (a Copa do Mundo) oferece-se na forma de um espetáculo planetário, ao qual é impossível escapar. Mas, para além das apostas desportivas, do comércio e dos comentários de café, da abafante saturação mediática, que acompanham este acontecimento, da atmosfera kitsch e de mau gosto com que envolve a existência coletiva, torna-se importante ganhar recuo para lhe compreendermos o sentido, através da seguinte interrogação: a Copa do Mundo será, afinal o espetáculo de quê? E Redeker, com lúcida intuição, começa por responder que não se trata essencialmente do espetáculo de uma competição desportiva: Segundo Pascal, o divertimento afasta-nos do essencial; entregamo-nos a ele para escapar ao que devemos ser. O futebol, pelo contrário, reconduz-nos ao que o mundo moderno exige de nós, ao que ele toma por nossa essência: a competitividade e a "performance". Depois de verificar que o Campeonato do Mundo é sobretudo um acontecimento televisivo, como testemunham os milhões de ecrãs por aí disseminados - desde a intimidade dos lares aos gigantescos estádios acesos nas praças públicasconclui que, pelo milagre do numérico, o mundo se fusiona com o estádio, nele se dissolve e dele já não se diferencia... ...Paul Virilio tinha razão: o ecrã é o instrumento da evaporação do real.

 

  7. Já não ousarei tentar, acompanhando o filósofo francês, o salto seguinte em todo o seu alcance. Todavia, reconheço-lhe uma proposta convidativa a uma reflexão sobre a concentração canalizadora das nossas forças ou impulsos para a consciência coletiva, a solidariedade, o patriotismo, a eclesialidade, nessa sugestão de que o espetáculo futebolístico é a retoma, desde o descalabro do império romano, do papel ativo do espetáculo na constituição de um universo pagão:

 

   O neopaganismo é a religião veiculada pelo futebol. Qualquer de nós o verifica: os jogadores ascendem a ídolos. São, nos tempos atuais, a reincarnação dos deuses e semideuses da Antiguidade. Consideremos a desmedida dos seus salários, o recinto sagrado que os isola da restante humanidade. Na verdade, a sacralização é um gesto que traça uma divisão entre dois universos. Assim, a hibris financeira serve para os sacralizar, para os pôr fora de alcance, além do mundo comum. Na verdade, este espetáculo futebolístico toma o caminho duma regressão para um diante - o de antes do cristianismo. Com dimensão planetária, esse espetáculo é, manifestamente, uma fábrica: tem por ofício fabricar ídolos. No mundo futebolizado, o fetichismo, ou seja, a própria liturgia de qualquer paganismo, novo ou ancestral, surge em todo o lado, até nas costas de seres humanos envergando uma tee-shirt impressa com o nome de um jogador...

 

  8. Mas, nas fronteiras dos EUA, separam-se crianças de seus pais ; no Mediterrânio, migrantes pais e seus filhos andam à deriva, as duas Coreias anunciam novas cheganças, a "opinião" pública portuguesa baba-se de futebol, tudo se funde neste mundo hodierno: a tragédia, o inescapável fado, alimenta-se igualmente de tristezas e alegrias, de dramático e lúdico, é cansativo e frustrante entender, ou tentar compreender o fundo das coisas - ou procurar entendermo-nos  - as nossas vidas são apenas episódios de um espetáculo leviano... Com ligeireza apontamos o dedo a todo o universo islâmico -  porque há, é infelizmente um facto, terrorismo islamista - mas não nos ocorre sequer a possibilidade de fazermos juízos temerários, generalizando a todos os crentes de uma religião, incluindo àqueles que são pacíficos e, até, vítimas dos outros, uma acusação que também é uma tentativa de encontrar, fora de nós, bodes expiatórios de um mal que nos rói a todos, e entre cujas raízes poderemos descobrir responsabilidades nossas. O Islão também reúne muitas gentes que invocam o Deus Misericordioso. Quiçá de modo e em verdade diferentes do ministro norte-americano da Justiça, Jeff Sessions, quando defende as medidas sancionatórias da violação das normas anti-imigração da Administração Trump (designadamente a forçada separação de crianças e seus pais): Citar-vos-ei S. Paulo que, com sageza e clarividência, nos manda obedecer às leis do Governo, que Deus estabeleceu para fazer cumprir a sua vontade...

  

   O meu dia a dia, Princesa de mim, é feito de escutas. Hoje, dia tão cheio de futebol universal (?), fui repetidamente ouvindo os seis motetos sobre textos de Franz Kafka (Sechs Motetten nach Worten von Franz Kafka) de Ernst Krenek, compostos quando, aos 59 anos, já estava, esse vienense de alma e coração, exilado nos EUA, desde 1938. Como não posso deixar-te aqui o som da música, traduzo-te o texto do primeiro moteto, Der Weg, der wahre Weg geht über ein Seil, das nicht in der Höhe gespanngt ist, sondem knapp über dem Boden...: O caminho, o verdadeiro caminho, passa por cima de uma corda que não se estica no ar alto, mas quase ao rés do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser transposta. A partir de certo ponto já não há retorno. É esse ponto que se deve atingir. Os esconderijos são muitos. Há só uma salvação, mas as possibilidades de salvação são tão numerosas quanto os esconderijos. Quantos mais cavalos atrelares, mais depressa se andará. Não, certamente, o arrancar do bloco às suas fundações, o que é impossível, mas a rutura das rédeas e, daí, o curso livre, alegre. Tinha-lhes sido dado a escolha entre tornarem-se reis ou correios dos reis. Ao jeito das crianças, todos quiseram ser correios. Eis porque já só há correios e, como já não há reis, percorrem o mundo gritando uns aos outros mensagens que já não fazem sentido. De bom grado poriam fim às suas vidas miseráveis. Mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram. Há um fim, mas sem caminho. Não há caminho? Não há caminho, não: isso a que se chama caminho é hesitar.

 

   Mas, se queres saber, Princesa de mim, pensossinto como é natural, quase ou tanto uma crise em processo de evolução, esse hesitar de quem, nesta encruzilhada global a que chegámos, até já nem se reconhece numa identidade presente, passada, possível ou sonhada. Desde as migrações e suas consequências nas configurações demográficas e culturais das nações, à percutante presença do alienígena, dos estranhos (do Oriente ao Ocidente, os antigos chamavam-lhes bárbaros) na intimidade, hoje televisiva e online, das nossas casas, tudo, ou quase tudo, nos interroga. E pouco convincentes são já as dissertações ou os meros palpites acerca do fim receado ou da resiliência esperançada da chamada democracia liberal, e das perspetivas que se abrem ou propõem à governança do mundo. A esperança é a última a morrer. Quero e peço a Deus que a minha esperança viva. E talvez eu morra antes dela.

 

Camilo Maria   


Camilo Martins de Oliveira

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