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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nous ne voulons pas d’une hégémonie mondiale - dos EUA, claro - declarava há dias Emmanuel Macron, e já vários dirigentes do G7, dum ou doutro modo, têm deixado entender que também se podem aguentar num G6, e se deve sobretudo respeitar o direito internacional, a soberania de todas as nações e os compromissos assumidos. Entretanto, e na sequência de preocupações que contigo tenho partilhado em cartas anteriores, refleti hoje sobre dois passos do Tianxia, tout sous le même ciel, de Zhao Tingyang:

 

  1. Suponhamos que o nascente poder mundial sistémico mantenha a sua forma combinada «capital-tecnologia-serviço» e que o seu poder económico se transforme em poder político... [[ Tal poder mundial sistémico será, se bem te lembras, o mesmo sobre o qual, em carta anterior, eu te escrevia que, "na verdade secreta dos factos e relações económicas, o poder que finalmente delineia, determina e decide, reside mais nos próprios agentes financeiros do que nas instituições e órgãos do poder político... - Aproveito agora para acrescentar que, em seu andamento, vai corrompendo pessoas e deslegitimizando titulares eleitos - ... Esta questão, aliás, é doravante crucial em qualquer projeção do que poderá ser uma democracia no futuro, já que a concentração crescente da riqueza e do poder financeiro anda de mãos dadas com a sua infraestrutura tecnológica e a oferta de bens e serviços básicos, desde a energia à informática e comunicações, e pode não ter pátria nem população a quem prestar contas, além dos seus próprios donos e acionistas"]]. 

 

  2. O despotismo tecnológico do novo poder sistémico pertence, por enquanto, apenas ao futuro. O perigo mais iminente está no grande interesse os imperialismos ainda hegemónicos mantêm pelos desenvolvimentos tecnológicos e na sua intenção de deles se servirem para consolidarem o seu poder. Desenvolver tecnologias com riscos imprevisíveis é irracional e virá reforçar as grandes potências. Consequentemente, é ilusório pensar ser possível impedir os atos irracionais dos poderes estatais ou sistémicos graças às organizações internacionais. Só construindo uma ordem universal mundial superior ao sistema dos estados é que se poderá refrear a hegemonia imperialista e os novos poderes sistémicos mundiais, evitar ao mundo uma ditadura tecnológica sem escapatória possível, ou poupar o mundo à loucura e à destruição. Eis o sentido do sistema Tianxiá. [[Fica aqui prometido que, em carta ou cartas próximas, voltarei ao tema chinês do "tudo debaixo do mesmo Céu", aos modos de olhar para o mundo a partir da Ásia. Por agora, deixo-te essas citações como alerta]].

 

   As citações seguintes também tê-las faço como temas de reflexão, ainda na sequência do que te disse em cartas anteriores. Estas e as que acima te deixo entreajudam-se-nos a pensarsentir a tecelagem de perspetivas com que vamos deparando:

 

  1. No seu Capitalismo, Socialismo e Democracia, publicado em 1942, Joseph Schumpeter (1883-1950economista austríaco exilado nos EUA) estima que a democracia não deve ser considerada como a fonte do bem comum, nem ser associada a valores: aos seus olhos, ela representa simplesmente um processo de designação útil. Em tal visão, inspirada pela teoria económica, o que conta é que o indivíduo tenha a capacidade de escolher uma oferta política, tal como o homo Economicus escolhe uma oferta económica - recorda o filósofo francês Florent Guénard, autor de La Démocratie Universelle (Seuil, Paris, 2016).

 

  2. Deste mesmo autor, e para nos ajudar a refletir no populismo, no que possam ser "democracias iliberais" e, mesmo, no "fenómeno" Trump: Aqueles que defendem uma conceção iliberal da democracia, têm a obsessão da espontaneidade e da incarnação, fundamentam-se numa conceção específica do povo: é suposto este receber do chefe a sua unidade, tal chefe sendo uma figura em comunhão com o povo, e que instintivamente conhece a vontade popular.

 

  3. E ainda, eu que sou impenitente releitor de Georges Bernanos, como sabes - e, pensossinto o sabor profético de muitos textos e frases da sua abundante e sempre participante prosa -, não te dispenso da reflexão sobre estes dois passos de La France contre les robots, datados de 5 de janeiro de 1945, dia em que cumpri três anos de vida: Un monde gagné pour la Technique est perdu pour la Liberté (um mundo ganho para a Técnica está perdido para a Liberdade). E explica num trecho adiante (traduzo): Intitule-se capitalista ou socialista, este mundo alicerçou-se sobre uma determinada conceção do homem, comum tanto aos economistas ingleses do século XVIII, como a Marx ou Lenine. Já se tem dito que o homem é um animal religioso. Este sistema já o definiu, uma vez por todas, como animal económico, não somente escravo mas objeto, quase matéria inerte, irresponsável sob o determinismo económico, e sem esperança de se libertar, pois não conhece outro motivo certo para além do interesse, do lucro. Limitado a si próprio pelo egoísmo, o indivíduo não parece mais do que uma quantidade menosprezível, sujeita à lei dos grandes números, como se apenas pudesse ser empregue por grosso, graças ao conhecimento das leis que o regem. Assim sendo, o progresso já não está no homem, está na técnica, no aperfeiçoamento de métodos capazes de permitir uma utilização cada vez mais eficaz do material humano.

 

  4. Ocorre-me citar-te ainda William Morris, inglês e socialista sui generis, utópico cavaleiro andante para defesa do trabalho humano e humanizado, sonhando com a conversão do operário industrial, mecanizado em linhas de produção em série, num artesão, num artista que se fosse realizando pela própria criação do seu trabalho: Eis, em resumo, a nossa posição de artistas : somos os últimos representantes do artesanato, no qual a produção mercantil desferiu um golpe fatal... -  diz ele numa conferência em Edimburgo, em 1889.Fundador, em meados do século XIX, em plena revolução industrial, do movimento Arts & Crafts, merecerá, quase 150 anos mais tarde, esta reflexão de Michel Houellebecq (sim, o tal, o autor de Soumission) este comentário: Para William Morris, a distinção entre a arte e o artesanato, entre a conceção e a execução, devia ser abolida: qualquer homem, à sua escala, poderia ser produtor de beleza - seja na realização de um quadro, de um vestido, de um móvel; e qualquer homem, igualmente, teria direito, na sua vida quotidiana, de se rodear de belos objetos... 

 

  5. E ainda, neste sábado em que algum neto me grita, pelo telefone, que a Islândia empatou com a Argentina no campeonato do mundo de futebol, e este seu avô, passando por um escaparate dos jornais do dia, lê em caracteres garrafais, na primeira página dum jornal generalista português: RONALDO DEUS, etc., etc. ..., alegra-me citar-te um dito do professor de sociologia Vidar Halldorson, da Universidade da Islândia: Sabemos jogar como profissionais, sem cair nas ratoeiras do desporto comercial, onde o dinheiro e o ego muitas vezes ficam por cima... O mesmo académico viking que também nos diz que Quando os nossos (deles) jogadores regressam à pátria, não se entrincheiram em clubes privados nem luxuosas moradias. Numa pequena cidade como Reykjavik, podemos encontra-los a qualquer hora na piscina monumental, num restaurante, na rua... Na verdade, quase todos eles trabalham ou estudam.

 

  6. Estes reparos levam-me a Le Figaro, à sua edição de 5ªfeira, 14 de junho, dia da inauguração do dito campeonato na Rússia, a um artigo do filósofo Robert Redeker, aliás autor dum livro intitulado Peut-on encore aimer le football? (Le Rocher, Paris): Ela (a Copa do Mundo) oferece-se na forma de um espetáculo planetário, ao qual é impossível escapar. Mas, para além das apostas desportivas, do comércio e dos comentários de café, da abafante saturação mediática, que acompanham este acontecimento, da atmosfera kitsch e de mau gosto com que envolve a existência coletiva, torna-se importante ganhar recuo para lhe compreendermos o sentido, através da seguinte interrogação: a Copa do Mundo será, afinal o espetáculo de quê? E Redeker, com lúcida intuição, começa por responder que não se trata essencialmente do espetáculo de uma competição desportiva: Segundo Pascal, o divertimento afasta-nos do essencial; entregamo-nos a ele para escapar ao que devemos ser. O futebol, pelo contrário, reconduz-nos ao que o mundo moderno exige de nós, ao que ele toma por nossa essência: a competitividade e a "performance". Depois de verificar que o Campeonato do Mundo é sobretudo um acontecimento televisivo, como testemunham os milhões de ecrãs por aí disseminados - desde a intimidade dos lares aos gigantescos estádios acesos nas praças públicasconclui que, pelo milagre do numérico, o mundo se fusiona com o estádio, nele se dissolve e dele já não se diferencia... ...Paul Virilio tinha razão: o ecrã é o instrumento da evaporação do real.

 

  7. Já não ousarei tentar, acompanhando o filósofo francês, o salto seguinte em todo o seu alcance. Todavia, reconheço-lhe uma proposta convidativa a uma reflexão sobre a concentração canalizadora das nossas forças ou impulsos para a consciência coletiva, a solidariedade, o patriotismo, a eclesialidade, nessa sugestão de que o espetáculo futebolístico é a retoma, desde o descalabro do império romano, do papel ativo do espetáculo na constituição de um universo pagão:

 

   O neopaganismo é a religião veiculada pelo futebol. Qualquer de nós o verifica: os jogadores ascendem a ídolos. São, nos tempos atuais, a reincarnação dos deuses e semideuses da Antiguidade. Consideremos a desmedida dos seus salários, o recinto sagrado que os isola da restante humanidade. Na verdade, a sacralização é um gesto que traça uma divisão entre dois universos. Assim, a hibris financeira serve para os sacralizar, para os pôr fora de alcance, além do mundo comum. Na verdade, este espetáculo futebolístico toma o caminho duma regressão para um diante - o de antes do cristianismo. Com dimensão planetária, esse espetáculo é, manifestamente, uma fábrica: tem por ofício fabricar ídolos. No mundo futebolizado, o fetichismo, ou seja, a própria liturgia de qualquer paganismo, novo ou ancestral, surge em todo o lado, até nas costas de seres humanos envergando uma tee-shirt impressa com o nome de um jogador...

 

  8. Mas, nas fronteiras dos EUA, separam-se crianças de seus pais ; no Mediterrânio, migrantes pais e seus filhos andam à deriva, as duas Coreias anunciam novas cheganças, a "opinião" pública portuguesa baba-se de futebol, tudo se funde neste mundo hodierno: a tragédia, o inescapável fado, alimenta-se igualmente de tristezas e alegrias, de dramático e lúdico, é cansativo e frustrante entender, ou tentar compreender o fundo das coisas - ou procurar entendermo-nos  - as nossas vidas são apenas episódios de um espetáculo leviano... Com ligeireza apontamos o dedo a todo o universo islâmico -  porque há, é infelizmente um facto, terrorismo islamista - mas não nos ocorre sequer a possibilidade de fazermos juízos temerários, generalizando a todos os crentes de uma religião, incluindo àqueles que são pacíficos e, até, vítimas dos outros, uma acusação que também é uma tentativa de encontrar, fora de nós, bodes expiatórios de um mal que nos rói a todos, e entre cujas raízes poderemos descobrir responsabilidades nossas. O Islão também reúne muitas gentes que invocam o Deus Misericordioso. Quiçá de modo e em verdade diferentes do ministro norte-americano da Justiça, Jeff Sessions, quando defende as medidas sancionatórias da violação das normas anti-imigração da Administração Trump (designadamente a forçada separação de crianças e seus pais): Citar-vos-ei S. Paulo que, com sageza e clarividência, nos manda obedecer às leis do Governo, que Deus estabeleceu para fazer cumprir a sua vontade...

  

   O meu dia a dia, Princesa de mim, é feito de escutas. Hoje, dia tão cheio de futebol universal (?), fui repetidamente ouvindo os seis motetos sobre textos de Franz Kafka (Sechs Motetten nach Worten von Franz Kafka) de Ernst Krenek, compostos quando, aos 59 anos, já estava, esse vienense de alma e coração, exilado nos EUA, desde 1938. Como não posso deixar-te aqui o som da música, traduzo-te o texto do primeiro moteto, Der Weg, der wahre Weg geht über ein Seil, das nicht in der Höhe gespanngt ist, sondem knapp über dem Boden...: O caminho, o verdadeiro caminho, passa por cima de uma corda que não se estica no ar alto, mas quase ao rés do chão. Parece mais destinada a fazer tropeçar do que a ser transposta. A partir de certo ponto já não há retorno. É esse ponto que se deve atingir. Os esconderijos são muitos. Há só uma salvação, mas as possibilidades de salvação são tão numerosas quanto os esconderijos. Quantos mais cavalos atrelares, mais depressa se andará. Não, certamente, o arrancar do bloco às suas fundações, o que é impossível, mas a rutura das rédeas e, daí, o curso livre, alegre. Tinha-lhes sido dado a escolha entre tornarem-se reis ou correios dos reis. Ao jeito das crianças, todos quiseram ser correios. Eis porque já só há correios e, como já não há reis, percorrem o mundo gritando uns aos outros mensagens que já não fazem sentido. De bom grado poriam fim às suas vidas miseráveis. Mas não se atrevem, por causa do juramento que fizeram. Há um fim, mas sem caminho. Não há caminho? Não há caminho, não: isso a que se chama caminho é hesitar.

 

   Mas, se queres saber, Princesa de mim, pensossinto como é natural, quase ou tanto uma crise em processo de evolução, esse hesitar de quem, nesta encruzilhada global a que chegámos, até já nem se reconhece numa identidade presente, passada, possível ou sonhada. Desde as migrações e suas consequências nas configurações demográficas e culturais das nações, à percutante presença do alienígena, dos estranhos (do Oriente ao Ocidente, os antigos chamavam-lhes bárbaros) na intimidade, hoje televisiva e online, das nossas casas, tudo, ou quase tudo, nos interroga. E pouco convincentes são já as dissertações ou os meros palpites acerca do fim receado ou da resiliência esperançada da chamada democracia liberal, e das perspetivas que se abrem ou propõem à governança do mundo. A esperança é a última a morrer. Quero e peço a Deus que a minha esperança viva. E talvez eu morra antes dela.

 

Camilo Maria   


Camilo Martins de Oliveira

ALGUNS TEATROS OITOCENTISTAS

 

A reforma estrutural de Garrett e a inauguração do Teatro de D. Maria II, ocorrida em 13 de abril de 1846 com o drama “O Magriço ou os Doze de Inglaterra” de Jacinto de Aguiar Loureiro, marcam de certo modo o início de um movimento de descentralização da infraestrutura teatral, prevista aliás desde 1836 por Garrett no Relatório de 12 de novembro de 1836, transformado em Portaria exatos 3 dias depois, e onde se prevê, logo no artigo 2º  a criação de uma “Sociedade para a fundação do Theatro Nacional”, e no artigo 4º a criação de “uma nova companhia de atores nacionais”, assim mesmo.

 

O programa motivou um movimento de descentralização da infraestrutura e da atividade do espetáculo teatral: e são efetivamente numerosos os Teatros que ao longo do século XIX foram construídos e mantiveram-se em atividade, alguns até hoje. Mas em contrapartida, são também muitos os casos de demolição de Teatros por esse país fora.

 

Inclusive porque os Teatros regionais, chamemos-lhes assim, eram sistematicamente construídos em zonas centrais das cidades: e daí, também que ao logo dos tempos muitos deles foram demolidos ou adaptados a outras atividades.

 

Vejam-se ou revejam-se alguns exemplos.

 

O Teatro Portalegrense, inaugurado em 1858, elegante na sua estrutura típica da arquitetura de espetáculo da época, foi a cera altura transformado em ringue de patinagem.

 

O Teatro Rosa Damasceno de Santarém, é inaugurado em 1884: mas exatamente no mesmo local será construído um cinema. O que não é obviamente caso único, mesmo em Lisboa como bem se sabe. Mas há que lamentar as situações, e são tantas pelo país fora, em que restou o nome, ou as paredes mestras, e por vezes nem isso. Casos semelhantes foram habituais.

 

E muitos mais alinham nesta evocação pelas piores razões: o Teatro Nabantino de Tomar a certa altura foi transformado em café; o Teatro Vilafranquense de Vila Franca de Xira, a certa altura foi transformado em parque de estacionamento; e já agora, o Teatro Apolo de Lisboa, antes Príncipe, Real, também desapareceu...

 

Enfim: estão em funcionamento diversos teatros da mesma geração. E alguns deles em plena e intensa atividade. Sabemos no entanto o que aconteceu aos sucessivos Teatros/Cinema Condes de Lisboa, para não falar outra vez no Teatro Apolo, antes Príncipe Real, no Ginásio, e tantos mais...

 

O Trindade felizmente está em plena atividade!

 

Em qualquer caso: sobreviveram ainda assim diversos teatros da época, e muitos desses sobreviventes temos referido ou iremos referir. Para além dos de Lisboa e Porto, há uma tradição oitocentista de teatros em Santarém, Aveiro, Teatro Gil Vicente de Cascais, Teatro Calleya da Covilhã, ou no velho Teatro Brigantino, depois denominado Teatro Camões de Bragança...

 

E tantos mais de que, repita-se, ou já falamos ou iremos falando:  e isto, a acrescentar aos do Porto e de Lisboa!...

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XL - SÍLVIO ROMERO E O ELEMENTO PORTUGUÊS NO BRASIL

 

Em discurso no Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, em maio de 1902, na conferência sobre O Elemento Portuguez no Brasil, o pensador brasileiro Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (SR),[1] defendeu a tese da conveniência de reforçar no Brasil o elemento português, pois se estudarmos as origens brasileiras, o seu genuíno ascendente europeu é constituído pela gente de Camões.

 

Não se tratava, tão só, e por mero capricho, de opor o elemento português aos outros elementos que colaboraram na formação do Brasil. Tratava-se, sim, “da conveniência de reforçar no Brasil os elementos que o constituíram historicamente uma nação luso-americana, os elementos que falam a língua portuguesa, ou, ainda e como consequência de tudo isso: de como de todas as novas colonizações que possam vir ao Brasil a mais conveniente é a portuguesa”[2]

 

Tendo o Brasil como um povo luso-americano, um prolongamento lusitano na América, tipo Portugal transplantado e metamorfoseado, é apologista que de todos os emigrantes que procuravam o país, os portugueses eram os que mais convinham, tendo tido o desígnio superior de se aliarem e não exterminarem as raças indígenas, nem repeliram o negro, melhorando as condições da extensíssima mestiçagem brasileira, sem alterar a fisionomia histórica da nação.

 

Facto único, a língua, só por si, chegaria para individualizar a nacionalidade brasileira marcando, para sempre, o lugar que o português tem no Brasil. Num período de antilusitanismo, foi firme na defesa da aproximação entre os dois povos, percebendo o papel fundamental de uma língua como eixo central de culturas, antevendo, já então, para o idioma comum, o lugar que agora lhe começa a ser reconhecido.

 

Portugal, pequeno, de diminuta população, teve força e habilidade bastante para entregar integralmente um país gigante e homogéneo àqueles que deviam ser os seus herdeiros.

 

Sendo estes os ensinamentos da história, conclui: “se a nossa nacionalidade é uma nacionalidade luso-americana, e se ela quer continuar a ser o que é para ficar sendo alguma coisa, (…), não temos outro recurso senão apelar para um reforço do elemento português, já que europeus de outras origens quaisquer não querem cá vir espalhar-se um pouco por toda a parte, e os das duas procedências que nos enviam imigrantes, (…), foram perturbadoramente aglomerados nas belas regiões do Sul, e são hoje um perigo permanente para a integridade da pátria”[3]

 

O que justifica, à data, pela ameaça permanente da integridade brasileira, por europeus de outras origens (italianos, e nomeadamente alemães), que não desejavam espalhar-se por todo o país, mas fixar-se nas apetecíveis regiões sulistas aí lançando, deixando-os, o gérmen de futuros Estados, designadamente de origem germânica. Seria assim, dado que o elemento germânico, mais que o italiano, é muito diferente de outros emigrantes e dos concorrentes brasileiros que considera inferiores a si, tendo a experiência provado que não se deixa assimilar e diluir pelas populações nativas. 

 

Propõe que os falantes de português se unam na sua defesa, não vendo como utopia ou sonho uma aliança entre Brasil e Portugal, “como não será um delírio ver no futuro o império português de África unido ao império português da América, estimulados pelo espírito da pequena terra da Europa que foi o berço de ambos”[4]

 

O reconhecer termos muito a aprender com os povos mais ricos, militarmente poderosos e industrialmente avançados, não o deslumbrou, não renegando as origens. Louva-lhes o mérito de um enorme progresso material, mas não os cobiça na sua arrogância de superioridade e hostilização não humanista.

 

O elemento germânico, que tem como superiormente dotado em termos étnicos, mas que, pela negativa, se não deixava assimilar e misturar pelas populações pátrias que o circundavam no Brasil, faz lembrar os medos e demónios que a Alemanha representou e representa para muitos, a começar pelos vizinhos, por confronto com o seu apreço. Mas  nunca o maravilhou. Ao invés de Portugal, não obstante a sua pequenez e a fraqueza de que então era portador como centro de poder. 

 

Parece um contra-senso, qual queda de um mito, a observação de que os emigrantes germânicos se fixavam preferencialmente no sul, em terras ricas e escolhidas a dedo, ao contrário dos portugueses, espalhados por todo o lado. Como que a inverter a fábula lafontaineana da formiga alemã que labuta, labuta, todo ano (e em toda a parte, presume-se), enquanto as cigarras do sul da Europa (incluindo Portugal, Espanha e, por arrastamento, os seus descendentes na América) andam sempre em folia e devem ser punidas. Apesar da História, como mestra da vida, nos ensinar que o ser-se mais ou menos civilizado e poderoso, varia no tempo e espaço, não sendo um dado adquirido para ninguém. Incluindo a Alemanha que, por muito forte e rica que seja, isolada pouco ou nada representa, a começar na União Europeia, onde se questiona, por agora, saber se está em causa a germanização da Europa ou a europeização daquela.

 

Constatando o desaparecimento gradual e total da língua portuguesa de certas zonas do Brasil, apesar de eterna em grande parte do país, conclui com a certeza de nunca vir a perecer entre a Galiza e a foz do Guadiana. Felizmente que tal receio não se concretizou, sendo o Brasil atual, como portador de todas as caraterísticas de uma potência emergente e continental, o maior protagonista da divulgação do nosso idioma comum à escala global, com base no critério da difusão mundial das línguas.

 

Ao promover um reencontro das origens e destino histórico do Brasil para os novos chamamentos competitivos no princípio do século XX, defendendo preferencialmente a utilidade de reforço do elemento português, sem que essa matriz nacional excluísse outros elementos que estiveram na base da sua formação e evolução, SR, para além de ser, eventualmente, o primeiro grande defensor da importância do contributo português na formação do povo brasileiro, foi também um precursor da lusofonia e da CPLP.

 

17.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

[1] Romero, Sylvio, O Elemento Portuguez no Brasil, Conferência (1902), Typographia da Companhia Nacional Editora, Conde Barão, 50, Lisboa.

[2] Idem, p. 6.

[3] Idem, pp. 20, 21.

[4] Idem, p. 32.

O tempo e o amor

 

Diz-se que o tempo sempre se anuncia e com ele se intui o que se pode e o que se não vai poder nunca. É uma espécie de condenação definitiva que se admite de uma forma ou de outra.

 

E o que fazer do conhecimento dos olhos quando de frente para nós despertam cheios de imensidades e medos e perfumes que se deixam cair entre lençóis por estrear?

 

Não há que procurar razões, nem sentá-las em sofá que as sossegue. O território tem a força do aço e a sua violação implicações fortíssimas na vida-a-vida que se diz não perceber, não designando essa afirmação real estado.

 

E hesita-se mais e uma vez mais ou, nem se hesita, recusa-se o que em sonho desperto nos mantém aptos a acreditar que porventura um dia será diferente.

 

A lógica é excessivamente familiar e reduz sempre a metade qualquer coisa por nascer.

 

Assim e de outras formas se aceita ser clandestino junto e para além da fogueira que, quando perto ou por tão perto e de tão perto, se fecham os olhos com a ajuda das mãos porque tão perto é demais.

 

O silêncio mais profundo apodera-se de nós, quando a possibilidade é o calar, num brutal movimento de fogo.

 

Um dia, um dia de país não esperado, todos os obstáculos são vantagens e enfim de súbito, de jorro, de esperança desalmada, tudo acontece. A densidade é tão segura quanto a dimensão da clareira que ora se permite. O sentido último da vida faz sentido por instantes: ao rubro.

 

Só o tempo é esquivo. Essoutro coto de vela.

 

E, antes que alguma ausência se sobreponha, antes que outro antes faça face ao que se vive, antes que o futuro possa não acontecer e antes que eu mais não possa, deixa que te diga

 

Meu Amor 

Teresa Bracinha Vieira

 

Publicado pelo António Alçada Baptista na Revista Máxima em 1999

Obs. Em 2006/07? Tive oportunidade de ver uma retrospetiva de Palermo no Kunsthalle Düsseldorf. Fiquei sensível ao seu trabalho e tento saber até onde vai a minha curiosidade desde então. Daí esta escolha de hoje, e, que seja bem recebida também no site de Alçada Baptista já que foi a seu pedido que escrevi este texto há 19 anos sobre o tempo e o amor.

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

O Modernismo em Portugal. (Parte I)

 

‘Exauridos pelo labirinto caminhamos
Na minúcia da busca na atenção da busca
Na luz notável: de quadrado em quadrado’, Sophia de Mello Breyner, em ‘Maria Helena Vieira da Silva ou Itinerário Inelutável’, Dual, 1986

 

A sociedade portuguesa, com carências técnicas e económicas, tal como se definiu no decurso dos primeiros anos do século XX, reservou um lugar secundário à vida artística. As vanguardas artísticas europeias eram seguidas fugaz e tardiamente. Foi, em 1912, a via do humor que abriu as portas à modernidade, abandonando-se assim o naturalismo – nas salas do famoso Grémio Literário, o Salão dos Humoristas Portugueses. Na verdade, nesse salão estrearam-se, os nomes importantes no próximo futuro da nova arte nacional (Emmerico, Cristiano Cruz, Almada Negreiros, Jorge Barradas, Ernesto do Canto). Cristiano Cruz, considerado pelos seus companheiros de então como o mais dotado, apresentava um traço original na sua estilização, um humor, amargo e distante e uma preocupação mais social do que política. Jorge Barradas tinha um humor mais popular. Almada Negreiros, que tinha só dezanove anos e aparecia com ‘um espírito aberto, primaveril, como um belo corpo de moço senhor da sua nudez’ (França, José-Augusto).

 

Para o estabelecimento e descoberta do modernismo, Santa-Rita e Almada Negreiros contribuíram decisivamente - em ligação estreita com o Orpheu.

 

‘O número dois da revista Orpheu foi, subitamente, em abril de 1915, o rastilho dessa fixação de um modernismo que vimos hesitar entre várias situações, oitocentistas ainda, ou com desculpas de humorismo capaz de mostrar algumas inovações formais.’, José-Augusto França, História de Arte em Portugal – O Modernismo.

 

Entre 1915 e 1917, emerge o futurismo que fez confluírem si uma certa alucinação ética. Santa-Rita Pintor reproduzia composições de esforçados títulos futuristas (como por exemplo ‘Estojo científico de uma cabeça-aparelho ocular-sobreposição dinâmica visual-reflexos de ambiente x luz.’), com colagens e sobreposição sucessivas de planos. O futurismo, suposto ou pretendido nestas obras, situa-se fora dos exemplos italianos contemporâneos, numa originalidade que não encontra paralelo.

 

Almada Negreiros realizou o mais vasto ataque ao academismo artístico protagonizado pela elite social, apesar de mais tarde optado por uma prática do desenho pouco vanguardista que culminou nos frescos das Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos.

 

Porém, foi Amadeo de Souza-Cardoso que mais claramente afirmou modernismo. Amadeo acompanhou em Paris, os desenvolvimentos formais dos cubistas, de Modigliani, Kupka, Picabia e Delaunay. Amadeo analisa especialmente o motivo e exprime-o, primeiro segundo uma imagética arquitectónica explorando progressivamente mais as formas puras através de cromatismos ritmados. Amadeo de Souza-Cardoso representou, para os anos regimentais salazaristas, uma influência vanguardista e não necessária. No entanto, é decisivo facto de Salazar apesar do seu conservadorismo, ter escolhido para dirigir a sua propaganda um modernista, da escola de Marinetti, que fora secretário da revista Orpheu - António Ferro. A política do espírito definida, em 1933, por António Ferro, diretor da do SPN (Secretário de Propaganda Nacional) limitou, assim, toda a potencial acção vanguardista. A sua atuação de assinalável eficácia, mobilizando até ao início dos anos 40, o germinar do modernismo, teve o clímax na Exposição do Mundo Português de 1940 - apogeu e consolidação do regime político salazarista.

 

Os anos 30 tinham trazido ainda a matriz expressionista descrita por Mário Eloy e Dominguez Alvarez. Eloy representou uma absoluta busca de si próprio e uma forte paixão pelo eu interior. Alvarez apresentou uma atmosfera visual entre paisagens isoladas e auto-retratos deformados.

 

À margem da realidade artística portuguesa Maria Helena Vieira da Silva foi enquadrada na escola de Paris dos anos 30 e 40, ao lado de Arpad Szenes. A sua obra, nestes anos, usava uma geometria que transformava as linhas e que adquiriam uma função espacial e nos revelavam as perspectivas. As paisagens de cidades, ou de espaços interiores são uma constante temática na obra de Vieira da Silva.

 

Ana Ruepp

A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA

 

A CASA ENCANTADA

O TEATRO DA MEMÓRIA

Na memória, como no teatro, tudo se perde, tudo se cria e nada se transforma. Lembrei-me disso, anteontem, quando abriu a nova biblioteca de Alexandria e quando me lembrei que Fílon (século I D.C.) terá criado para a antiga (tanto biblioteca como museu) a expressão "teatro da memória". Isso me trouxe de volta um livrinho intitulado L'Idea del Theatro, escrito em 1544 por um certo Giulio Camillo, chamado Delminio e cognominado pelos contemporâneos "o divino" (1480?-1544?). Livrinho que andou esquecido mais de quatro séculos, até ser desenterrado por um inglês, em 1970. Em 2001, Eva Cantavenera e Bertrand Schefer publicaram, nas Éditions Allia, a tradução francesa. Foi esta que li, como quem lê a pré-história de tudo. Mnemosina, a musa da memória, sempre a fez nascer de uma falsa posição da coxa. Julgamos imaginar, estamo-nos a lembrar.

 

Li algures - não me lembro se foi em Romain Rolland - que Tolstoi guardava a memória de coisas acontecidas tinha ele seis meses. Um psicanalista - lembro-me perfeitamente que não foi Lacan - jurou-me, um dia, que, sob o efeito da análise, algumas pessoas recuperavam a memória do próprio nascimento, ou até mesmo do antes dele, quando boiavam no ventre materno. Pode haver quem se recorde de outras vidas. Ou, como Platão, para sustentar que só conhecemos aquilo de que nos lembramos (o conhecimento como reminiscência) ou, como Minnelli (não estremeçam que eu também não) para garantir que, devidamente hipnotizados (pelo Dr. Chabot ou por Yves Montand), qualquer Daisy (aquela de que falo não é a que há-de ir de Londres p'ra Iorque onde diz que nasceu) se pode transformar em Melinda de outras eras. Todos sonhamos com dias claros em que possamos ver para sempre. Ver tudo o que foi, ver tudo o que será.

 

Passando agora da geral memória para a minha e particular, nunca fui tão omnividente (e daí que sei eu?) ou tão precoce. As minhas mais longínquas memórias, se é que com o tempo não me convenci de que me lembro do que só imaginei, reportam-se aos 2 anos e picos, fotografando-me (memórias vagas são anti-cinematográficas) uma bisavó e um avô que eu sei (ensinaram-me, lembraram-me) que morreram no ano em que fiz dois anos.

 

Nesses tempos (o tempo inventou-se para se poderem contar histórias, para se poder dizer: "era uma vez") de coisas de morte, como de coisas de sexo, não se falava diante de crianças. Quando eu perguntava por eles (ou mos queriam lembrar a mim) diziam-me: "Foram para o céu". Eu olhava para o céu e via nuvens. As nuvens foram a primeira máscara que "inventei" para os mortos. Se só houvesse dias claros talvez fosse hoje impenitente ateu.

 

Esta minha insignificante (?) história, como as histórias mais significativas de Platão, de Tolstoi, de Shelley, de Dickens, de Hawthorne (para não falar do óbvio caso de Proust), como a história das Bibliotecas de Alexandria, andam todos à roda do circuito ideia-imagem-memória. Como é que se transforma uma ideia numa imagem e como é que se transforma a imagem em memória. Se todo o conhecimento é memória, como Platão tentou demonstrar no Ménon, levando um escravo ignorante a demonstrar o teorema de Pitágoras, não se pode ir mais longe e transformar todo o conhecimento em espetáculo?

 

Há quem sustente que o neo-platonismo renascentista se pode resumir à tentativa de resolução dessa questão. No fundo, quando se falou do "teatro do mundo" só se estava a falar da "arte da memória", expressões que se somem na noite dos tempos. Nenhuma representação do mundo é concebível sem o que os antigos chamavam "a arte da memória" ("ars notoria" ou "ars memorativa"), como nenhuma representação falada (origem da tragédia ou tragédia da origem) é concebível sem a memorização do texto trágico.

 

Fílon de Alexandria, associara já a ideia de "banquete" (e, como discípulo de Platão, era o banquete filosófico a sua principal fonte de inspiração) ao "teatro do mundo". Disse ele: "Quem dá um festim, não instala os convidados à mesa, sem ter preparado tudo em tal maneira que lhes sirvam bom manjar; quem prepara competições de ginastas ou dispõe representações cénicas, antes de deixar entrar os espectadores, no estádio ou no teatro, já dispôs convenientemente atletas ou atores. De igual modo, o Guia do Universo, como o organizador de representações ou de festins, pré-ordenou, com a intenção de convidar os homens a um festim ou a um espetáculo, tudo o que pudesse convir a esses dois fins, por forma a que, ao chegar ao mundo, o homem achasse, por um lado, a mesa do banquete repleta de tudo o que de melhor a terra produz e os rios, os mares e os ares fornecem para nosso uso e nosso gozo e, por outro, espetáculos das mais diversas ordens, representando as realidades mais espantosas, as qualidades mais impressionantes, os movimentos e as cores mais admiráveis, dispostos nos arranjos mais harmoniosos, mais proporcionados e mais adequados, por forma a que, sem engano algum, se saiba qual é a música arquetípica, verdadeira e exemplar. À vista de tais espetáculos, os homens formaram, depois, as imagens que deles retiraram e que gravaram na alma, permitindo-lhes assim transmitir a arte mais necessária à vida e mais útil a ela " (De opifício mundi).

 

Se o leitor chegou até aqui, paciente mais um pouco para ver onde quero chegar.

 

Quando, hoje, a nova retórica visual vulgarizou termos como "sítios", "ícones", "janelas", "pórticos", "hipertextos", etc, está a seguir os fundamentos de uma teoria e de uma prática que, sistematizadas no século XV, foram esquecidas por longos séculos, para ressuscitarem em finais do século XX.

 

Volto, pois, a Giulio Camillo, discípulo de Pico de la Mirandola e de Marsílio Ficino, amigo de Aretino, de Tiziano e de Lotto, suposto criador laboratorial do homem alquímico, do "homúnculo".

 

Projetou ele construir, num anfiteatro de madeira, um novo sistema da arte da memória, a que chamou "o teatro da memória". O referido anfiteatro, com dimensão imponente mas não esmagadora, seria coberto de pinturas, de significado hermético, mágico ou cabalístico, que tinham uma dupla função: evocavam os mistérios divinos sem os profanar (pois "decifrá-los" pressupunha uma iniciação) e despertavam a memória, estabelecendo associações que permitiam, através da ordem das imagens, recordar a ordem das coisas e memorizar o texto a partir de uma espécie de alfabeto visual localizado num espaço arquitetural.

 

Parece que Camillo só revelou o funcionamento da sua "maravilhosa máquina" a Francisco I, rei de França, que o chamou (como Leonardo ou Rosso Fiorentino) quando, após o saque de Roma, as ideias heterodoxas do cabalista lhe começaram a valer perseguições.

 

Mas se nada ficou da construção (se é que esta chegou a ser executada) ficou-nos o livro L'Idea del Theatro. Um visitante, descreveu-o assim, em carta a Erasmo, de 1544, pouco antes de Camillo morrer.

 

"A obra é em madeira, onde estão pintadas numerosas imagens e onde foram incrustadas numerosas caixinhas, como gavetas de abrir e fechar (...). Há muitas ordens e muitas filas (...). Camillo dá muitos nomes ao seu Teatro. Tanto diz que é um espírito ou uma alma por ele construídos, como se refere a uma alma cheia de janelas. Pretende que tudo o que o espírito humano pode conceber, e não podemos ver com os nossos olhos corpóreos, pode ser descortinado ali, após atenta meditação, de tal modo que o espectador, ao fim de um certo tempo, pode alcançar, com uma única mirada, tudo o que, de outro modo, ficaria para sempre oculto nas profundezas do espírito humano. Por causa dessa visão física, insiste no termo Teatro".

 

Mas o Teatro da Memória era, como necessariamente teria que ser, um teatro invertido. No palco estaria o único espectador (no Teatro da Memória, só há lugar para um, como, por outras palavras, também disse Proust) e, nos degraus, decorreria o espetáculo, ou seja o lugar da imagem. E toda a construção estaria apoiada em sete colunas (as colunas de Salomão), sob a influência de um planeta.

 

É um mundo à Borges prefigurado (ou post-figurado) nesse livrinho das Éditions Allia?

 

Ou é um livro que não existe, nunca existiu, com uma mitologia de mitificação, que eu fui buscar à memória - como as nuvens mortas da minha mais remota infância - para vo-lo inventar, em sentido etimológico e em sentido costumeiro? Mas mesmo que assim seja, há, sob o signo do teatro da memória, como sob o signo de Melinda, como sob o signo das nuvens brancas, "algo de completamente diferente que eu tenho de tentar descobrir, uma ideia que procura uma imagem, uma imagem que busca uma memória, à semelhança desses caracteres hieroglíficos que se julgou representarem tão somente objetos materiais. Decifrá-los é o mais difícil, mas se os não decifrarmos nenhuma verdade neles leremos". A citação é de Marcel Proust, como convém para terminar.

 

Público, 18 outubro 2002

A VIDA DOS LIVROS

 

De 16 a 22 de julho de 2018

«O Fundo da Gaveta» de Vasco Pulido Valente (D. Quixote, 2018) fala-nos da Contra-Revolução e do Radicalismo no Portugal do século XIX.

 

 

ENTRE IDEIAS E REALIDADE
Na capa estão duas imagens – um painel de azulejos sobre a primeira constituinte portuguesa (4 de julho de 1820), com Manuel Fernandes Tomás a discursar (como acontece na sala de sessões do Parlamento) e uma Alegoria à Primeira Revolução Liberal do Porto, de 24 de agosto de 1820. As imagens completam-se e correspondem à apresentação dos dois ensaios que constituem o presente volume – de facto, há um confronto na estabilização do constitucionalismo português entre as ideias e a realidade, ente os princípios e as contradições sociais. Os dois ensaios, correspondendo a dois períodos bem diferentes, completam-se e revelam um país inseguro e heterogéneo. No primeiro caso, falamos de 1823-1824, da Vilafrancada e da Abrilada, movimentos que interromperam a vigência fugaz da Constituição de 1822 e que abriram caminho à restauração absolutista e à guerra civil (1828-1834). No segundo caso, fala-se do que é designado como “ressurreição e morte do radicalismo” (1864-1870), depois de pelo menos duas guerras civis, e do facto de com a “Regeneração” de 1851 e o “Ato Adicional” (1852) ter sido enterrado o machado de guerra pelas forças políticas mais significativas, através de uma solução constitucional muito próxima da Constituição de 1838, que podia contentar a direita e a esquerda liberais, no dealbar do rotativismo…

 

QUE ALTERNÂNCIA?
A tentação fusionista e a ausência de uma verdadeira alternância política formal geraria esse movimento algo especial que teria o condão de pôr termo a uma solução à qual faltava um espaço para a respiração e para a afirmação dos verdadeiros descontentes. Se no primeiro ensaio, assistimos à tentativa dos radicais instalados ainda no poder reforçarem posições contra a crescente influência dos partidários do “Ancien Régime” absolutista, no segundo já os radicais perderam alguma força real e procuram apenas recuperar espaço de manobra. Perante estes dois quadros, e com uma diferença de quase quarenta anos, encontramos o mesmo País e a mesma procura de instituições civilizadas ou aptas as representar um povo insatisfeito e bem diferenciado entre “a cidade e as serras”, entre a urbanização e o campo. Na Vilafrancada o rei moderou os ímpetos de D. Miguel e prometeu um “justo meio”. Nomeou uma Junta Preparatória presidida por Palmela para redigir uma Carta Constitucional que prometera no lugar da Constituição, segundo uma transação que permitisse aos dois lados renunciarem a algumas pretensões. Houve uma repressão branda. Mas os absolutistas criticavam a tolerância com jacobinos e pedreiros e temiam que a Carta “administrada por gente como Palmela e Subserra, servisse de passagem para o radicalismo”, em vez de ser “o melhor remédio para ele”. Assim, a ideia de Carta foi posta na gaveta e Palmela passou a pensar numa “compilação das normas de direito público português compatíveis com o sistema representativo”. O ambiente geral externo e interno não permitiu esse caminho. E o partido miguelista acalmou. Mas o que surgiu foi um “absolutismo mitigado, menos despótico do que arbitrário e, na essência, moribundo”. E como a obra jacobina ficara no limbo, os partidários de D. Miguel temiam que os moderados pudessem permitir a sua sobrevivência. E ainda por cima, havia a esperança vã de evitar a perda definitiva do Brasil. Aliás, essa parte relativa ao Brasil merece leitura atenta, já que desmonta muitas ideias nessa matéria…

 

FICAR EM CASA…
É verdade que D. Pedro rompera com Portugal por não aceitar a posição dos constituintes, mas tudo avançara muito já, o acordo era impossível, uma solução negociada não podia funcionar e as potências europeias consideravam que a independência brasileira com D. Pedro estava desenhada nos astros, mesmo que o seu reconhecimento não fosse imediato. Acrescia que o exército não estava disposto a fazer uma guerra para recuperar o Brasil. Preferia ficar em casa. E assim, no momento próprio, D. Miguel deu o golpe definitivo (aproveitando ventos favoráveis) com a Abrilada… Muita água correu sob as pontes, desde o assassinato do marquês de Loulé até à misteriosa morte do próprio rei… Apesar de Herculano sempre ter alertado os regeneradores para nunca perderem a ideia de alternativa, o certo é que as circunstâncias e a oposição a Sá da Bandeira levaram a uma “fusão”, composta por Fontes, Sampaio, Martens Ferrão, Loulé, Braamcamp e Mendes Leal. Seria uma “Regeneração” pura, baseada nos melhoramentos. E a “fusão” tornou-se governo, mas não pediu dissolução do Parlamento. Rodrigo da Fonseca disse que preferia comprar deputados feitos a fazê-los. E assim viveu dois anos e três meses. Mas a opinião radical manifestou descontentamento forte pelo oportunismo campeante. Os ventos não corriam de feição, já em 1866, e a suposta concórdia universal confrontou-se com sinais crescentes de crise social, financeira e económica – apesar de medidas importantes como o novo Código Civil e a abolição da pena de morte, que já vinham detrás. As leis contra a mendicidade de Martens Ferrão suscitaram debates acesos, o défice e a dívida pública descarrilavam, a austeridade veio, a supressão de quatro distritos e medidas administrativas mal recebidas geraram todas as condições para o renascimento de uma oposição radical – condições que o anúncio de um eventual novo imposto de consumo veio a reforçar. Os comícios multiplicavam-se, designados como meetings, o ambiente era de descontentamento generalizado. O Centro da Travessa da Queimada (criado pelo conde de Peniche) unira-se à União Patriótica do Porto e propunha um ambicioso programa sobretudo em matéria fiscal. A agravar tudo, o ano agrícola de 1867 foi desastroso, nos cereais, nas vindimas, nos olivais e pomares. Os preços e o desemprego subiram em flecha. O bode expiatório são as medidas do governo. O copo transvasava e o clima é de insurreição. A Janeirinha eclodiu no início de 1868, num violento levantamento popular inaudito. Nasce uma maioria capitaneada por António José de Ávila – “mistura improvável de ‘conservadores endurecidos’, ‘progressistas convictos’ e ‘quase republicanos’, incapaz de unir e permanecer unida”. E não houve milagres. A situação continuou difícil, com a fome e o desemprego a crescerem – o que culminaria na queda de Ávila em julho. Loulé foi encarregado de formar governo, mas houve uma forte reação contrária, motivada pelos radicais. O Bispo de Viseu, D. António Alves Martins, foi então convidado. A Janeirinha dos políticos vencia – com Viseu, Sá da Bandeira e Latino Coelho – e chegava ao governo. O programa respeitava a simplificação dos serviços, a luta contra a corrupção e a descentralização. Mas depressa nasceu um descontentamento larvar, a partir dos funcionários atingidos pelas reduções, agravado pela crise financeira e pelo insucesso nas negociações com os mercados. O ministério cairia, mas houve manifestações para a sua manutenção, o que obrigou o rei D. Luís a convidar Saldanha, embaixador em Roma, que no caminho desistiu do encargo. O rei dissolveu a Câmara, mas os governamentais (Viseu e Sá) foram fugazmente reconduzidos. As dificuldades avolumaram-se e Loulé suceder-lhes-ia. “A derrota de Sá e Viseu e o regresso dos históricos mostravam que as receitas do radicalismo para a crise nacional não se podiam aplicar ou eram vãs, mas também não existia uma alternativa conservadora”… E o ocaso dos radicalismos corresponderia à tentativa desastrada do Duque de Saldanha de fazer ainda vencer um programa de rutura. Não conseguiria. Porque já se estava num outro tempo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Começo esta, reproduzindo dois versos de Angelus Silesius, citados e traduzidos noutra carta:

 

              Sem querer saber de si

              nem vontade de ser vista

 

   O que, afinal, aí fica dito é, segundo François Cheng, que o porquê de uma rosa sendo ser plenamente uma rosa, o instante da sua plenitude de ser coincide com o próprio Ser. Dito de outro modo: o desejo da beleza absorve-se na beleza e esta já não tem que se justificar. E, agora, com o poeta-filósofo sino-francês recordo o que ele disse das três aceções da palavra sentido: sensação, direção, significado, aqui pela rosa enumeradas como sendo três estados essenciais do Ser. Mas presta atenção, Princesa: a sensação não poderá limitar-se ao seu nível sensorial, e a beleza é mesmo essa potencialidade e essa virtualidade para que tende qualquer ser. Eis que, quase inevitavelmente ainda, deslizamos da palavra portuguesa «sentido» (du mot français «sens», no texto original de Cheng) para um caracter chinês que lhe é equivalente, talvez mais rico, o caracter yi.

 

   Vou falar-te muito dele, levar-nos-á longe -  esmo até à tianxiá - só tenho pena de não poder (saber) reproduzi-lo, para ti, na escrita deste computador, pois tal nos ajudaria a acertar o passo com um discurso bem chinês. Confio, contudo, a François Cheng, a explicação do respetivo desenho (13 traços) ou significado, cada caracter sínico sendo, não uma letra, nem necessariamente uma palavra, mas, sim, a representação gráfica da formação de um conceito:

 

   Basicamente, o ideograma yi designa o que vem da profundeza de um ser, o impulso, o desejo, a intenção, a inclinação; o conjunto desses sentidos pode ser aproximadamente englobado pela ideia de «intencionalidade». Combinado com outros caracteres, dá uma série de palavras compostas e de variados sentidos, mas tendo entre elas laços orgânicos: grosso modo, podemos arrumá-las em duas categorias. A das que relevam do espírito: ideia, consciência, desígnio, vontade, orientação, significação. E a das que pertencem à alma: encanto, saber, desejo, sentimento, aspiração, impulso do coração. Finalmente, a encimá-las todas, a expressão yi-jing, «estado superior do espírito, dimensão suprema da alma».

 

   Essa noção, yi-jing, deve ser sublinhada. Tornou-se, para os chineses, no critério mais importante para ajuizar o valor duma obra poética ou pictórica. Pela sua definição, vemos que ela se atém tanto ao espírito como à alma. Quer aos do artista que cria a obra, mas igualmente aos do universo vivo, um universo que se faz, que se cria, que a língua designa por Zao-wu, «Criação», ou ainda Zao-wu-zhe, «Criador». Dum modo geral, diz-se muitas vezes que o pensamento chinês não teve a ideia da «Criação», no sentido bíblico do termo. É verdade que esse pensamento não foi assombrado pela ideia dum Deus pessoal; mas em contrapartida tem eminentemente o sentido da proveniência e da geração, como atestam as afirmações de Laozi: «O que há provém do que não há»; «O Tao original gera o Um, o Um gera o Dois, o Dois gera o Três, o Três gera os Dez mil seres». [Terá sido ao Taoísmo que o António Victorino d´Almeida foi buscar aquela, bem achada, do nascimento da música? «O dó conheceu o ré, e simpatizaram; dessa simpatia nasceu o mi, e assim se fez música»... Ele tinha graça, a explicar isto ao piano!]

 

   Ora a escrita sínica e o seu pensamento desenvolve-se precisamente por processo de encontro e geração. Procurando não te dar sono nem, menos ainda!, aborrecimento, explicarei o que quero dizer através da génese e constituição de um caracter chinês. Antes, e a título de apontamento sugestivo, lembro-te de que, quando se aprende a caligrafar tais caracteres, se começa pelos primeiros: um traço horizontal para escrever um, outro horizontal abaixo dele e ambos nos dizem dois, e o terceiro, debaixo desses vem anunciar três. E se evocarmos o Tao original, perceberemos o modo linear e simplíssimo como se inicia a ordem do universo todo, já que do três se parte para a geração dos Dez mil seres. Leio nos Sinais Celestes (Tianwen) do Huainan zi, uma "Summa" taoista com mais de dois mil anos: O Dao começou pelo Um. O Um não engendrou, mas, dividindo-se gerou o yin e o yang. O yin e o yang uniram-se harmoniosamente e assim foram engendrados os dez mil seres. Por isso dizemos: Um engendrou dois, dois engendrou três, três engendrou os dez mil seres. [[Dita assim, ou assim traduzida, como faz François Cheng na citação acima, esta última frase reproduz a de Laodan ou Laozi no Daode jing (século IV a.C.)]] O um representa assim a unidade primordial, e é o primeiro radical de todos os outros caracteres. Nesta função, se for traçado no topo de um composto, por exemplo, sobre os três traços que dizem homem, tal nova composição significará o céu, tian, isto é, o espaço infinito que está acima do ser humano, que é a mais alta das criaturas, e o governa. Mas se for traçado por baixo do caracter que designa o dia, ou o sol, irá compor o ideograma que diz madrugada, o princípio do dia... Espero ter conseguido dar-te uma ideia aproximada da formação de um discurso de perceção e representação, pegando num caracter primitivo e acenando o seu papel de radical, embora não entrando por qualquer possível (e real) função fonética.

 

   Nota bem que os caracteres sínicos existentes são aos milhares, o aumento do seu número, aliás, tendo acontecido por impulso ou necessidade de expressão... Só as autoridades e as escolas, afinal, foram impondo limitações canónicas. Indo a regras de facto, desde 1716 (dicionário de Kang-hsi), contam-se 40 mil caracteres, dos quais 4 mil são de uso corrente, 2 mil para nomes próprios ou raros, e 34 mil sem utilidade. E, se a arte da caligrafia pode permitir liberdades de estilo, há regras obrigatórias, tal como as que ordenam a sequência e a direção de cada traço : de cima para baixo; da esquerda para a direita; quando um vertical e um horizontal se cruzam, este risca-se primeiro, embora haja exceções; três verticais na mesma linha traçam-se ao centro, logo à esquerda, depois à direita; mas o traço que corte um central é o último; e os diagonais da direita para a esquerda (a partir de cima) precedem os da esquerda para a direita. Estas foram as regras que primeiro aprendi, tentando entender um método de ligação do pensarsentir com a mão que desenha e a representação traçada. Neste instante, conversando contigo, Princesa, olho para o caracter yi - que François Cheng diz designar o que vem da profundeza de um ser, impulso, desejo, intenção, inclinação, podendo o conjunto destes sentidos ser aproximada e globalmente definido pela ideia de «intencionalidade» - e nele encontro três caracteresjá meus conhecidosque o compõem : em cima está, como leio pelo meu dicionário japonês de 1850 kanji essenciais, ritsu (5 traços), que quer dizer levantar, erguer, estar de pé ; no centro, nichi, jitsu ou hi (4 traços), isto é, o dia, o sol; em baixo, shin (4 traços), a dizer espírito, coração, mente. Posso assim sentir que yi designa a ascensão ou o erguer do espírito esclarecido, iluminado. Ou, seguindo a ideia de «intencionalidade», pensá-lo como esse íntimo impulso do espírito humano com destino às coisas superiores, algo quase como essa definição do grego Plotino (270aC): A inteligência é o pensamento que se desvia das coisas inferiores, para elevar a alma ao que é superior.

 

   A escrita chinesa é só ideográfica, nem sequer dispõe de silabários fonéticos, como os hiragana katakana com que o japonês socorre as próprias carências, visto que os kanji (caracteres chineses, com que começou a ser escrito) não o traduziam totalmente enquanto língua falada, que já era. De facto, o chinês falado ou, se assim preferires, Princesa, o chinês fonético vive em diversos dialetos, dos quais são mais conhecidos o mandarim e o cantonês, sendo o primeiro praticado nas escolas, com o objetivo de normalizar uma fonética oficial que também cimente a união de vastíssimo e populosíssimo império. O chinês escrito, ou literário, é como que uma língua à parte, só se escreve e lê, por isso tem uma autonomia que lhe permite ser utilizado por várias línguas e dialetos.

 

   Cada sinal, ou caracter, é uma palavra, um ideograma traduzindo um conceito linguístico. Durante a escolaridade elementar, as crianças já devem memorizar centenas de caracteres e, no decurso das suas vidas, os chineses (e, noutra medida, os japoneses) irão estudando e aprendendo, pelo menos, mais um ou dois milhares. Ser letrado, na cultura sínica, mais do que erudito, é ser sempre aprendiz. Assim podemos afirmar que a consciência de devir inspira e informa o ser chinês, o yi é isso mesmo, como vimos, o yi-jing sendo o estado superior da alma. Conto-te tudo isto, Princesa de mim, para pensarsentires como o "aprender a ler e a escrever" é, no caso do Império do Meio, simultaneamente a construção de um caminho e de uma identidade em que as pessoas e a nação estão intimamente ligadas pela inspiração e pela formação.

 

   Não sou antropólogo nem linguista, e tenho mais curiosidade e apreço pelas culturas do Extremo Oriente - sobretudo numa época em que ressurge e se vai afirmando, já não como império recluso cuja capital é cidade interdita, mas no concerto internacional, uma China gigantesca, progressista e aberta ao mundo todo - do que conhecimento profundo delas. Mas gosto de ir aprendendo e partilhando contigo, Princesa. Pouco mais posso ou sei fazer, na minha idade. Não te ensino nada. Apenas partilho contigo, repito, a minha própria aprendizagem, com os seus-meus erros e percalços, mas também com os horizontes que se me abrem ao olhar da alma e me ajudam a ver e rever o mundo.

 

   Podia ter-te falado do Um, não só como imagem do Todo inicial, do Dao que não é a causa primeira em sentido aristotélico, nem o Deus pessoal e criador das três religiões monoteístas, o Deus de Abraão, mas do sem forma definida, cuja natureza é dada a tudo o que existe, que é o Céu e o conhecimento perfeito, o onde habita o homem verdadeiro, qua aí tem o coração ligado, e onde serão reconduzidas todas as dez mil diferenças. O Yuandao, ou Dao original, diz-nos, logo no começo, o Huainan zi, o Dao ...

               

cobre o Céu e carrega a Terra.
Estende-se pelas quatro direções e abre-se até às oito extremidades.
A sua altura é inacessível, insondável a sua profundeza; abraça o Céu e a Terra e, do
sem forma, faz advir os seres.
Nascente jorrando do côncavo, a pouco e pouco tudo enche; fluxo lamacento e turvo, a pouco e pouco se aclara. 
Erguido, enche o espaço entre o Céu e a Terra, vertido cobre os quatro mares.
Posto a laborar, nunca se esgota, nem conhece aurora nem crepúsculo.

 

Desenrolado, envolve as seis conjunções do mundo, enrolado nem chega a encher a cova da mão.
Concentrado, pode desdobrar-se; obscuro, pode brilhar; fraco, pode ser vigoroso; flexível, pode ser rígido.
Estende as quatro amarras e contém o yin e o yang; coordena o espaço-tempo e faz luzir as três luminárias. 

 

Ora lamacento e lodoso, ora fino e subtil! 
Por ele se elevam as montanhas, e os abismos se cavam,
os quadrúpedes correm e as aves voam,
brilham o sol e a lua,
seguem sua rota planetas e estrelas,
pulam os licórnios e planam as fénixes.

 

   Traduzo-te este poema inicial do Huainan zi, da versão francesa de Charles Le Blanc, publicada na Bibliothèque de la Pléiade (Gallimard, Paris, 2003). Em cartas por seguir te envio outras traduções de trechos desse, tão belo como antigo, texto poético e místico do Império do Meio.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

Publicação de um livro de Tomaz Ribas, analisado e comentado

 

Fizemos já aqui referência à reedição do livro de Tomaz Ribas “O Teatro e a Sua História”, numa iniciativa editorial e cultural da Fundação Inatel.

 

Recordamos aí as companhias e teatros a que Tomás Ribas esteve ligado, num movimento de renovação experimental que marcou o meio teatral português na época, precisamente  pelo sentido inovador das programações respetivas, mas também pela “adaptação” de edifícios, salas e ambientes que na época não tinham muito a ver com os espaços cénicos tradicionais: e citamos designadamente o Teatro Estúdio do Salitre, o teatro Experimental, o Pátio das Comédias e outras companhias e iniciativas de renovação.    

 

Na nossa Introdução do livro evoca-se a vida e a obra do grande escritor, dramaturgo, historiador e critico que efetivamente Tomaz Ribas foi, através da ação concreta, da gestão global, da obra escrita e da memória que legou à cultura portuguesa, sobretudo mas não só nas artes do espetáculo – teatro, dança, literatura, historiografia, cultura em geral.

 

O projeto e o evento assumem pois a maior relevância no plano geral da cultura, sobretudo, insistimos, na cultura das artes de espetáculo, pelo que se justifica mais esta referência especifica ao livro e ao evento em si.

 

E nesse aspeto, é interessante salientar a abrangência e independência da obra de Tomaz Ribas, bem expressa em primeiro lugar no âmbito e qualidade do estudo agora reeditado, que o autor intitulou “O Teatro e a sua História” e que efetivamente cobre e analisa toda a historiografia da arte dramatúrgica e da arte ou artes do espetáculo teatral, em 13 capítulos que abrangem, e citamos,  “Do Teatro Primitivo ao Teatro na Grécia e em Roma“ (capítulo I ) e termina com ”O Teatro Contemporâneo – O Experimentalismo e a Vanguarda” (capítulo XIII),  sendo as últimas referências  dedicadas ao futurismo,  ao surrealismo,  ao teatro do absurdo, ao dadaísmo, ao teatro da crueldade,  e encerrando com a referência a Grotowski e ao então chamado teatro pobre.

 

A primeira edição deste estudo de Tomaz Ribas data de 1978, tendo o autor trabalhado numa 2ª edição encomendada no inicio dos anos 90 mas que não chegou a terminar: faleceu em 21 de março de 1999.

 

Em boa hora é agora reeditado, numa edição enriquecida por dezenas de fotografias e ainda pelo prefácio de Francisco Caneira Madelino, pelo In Memoriam -Nota Biográfica de José Baptista de Sousa e pelos testemunhos de personalidades de destaque no meio literário e cultural, como João David Pinto Correia, Fernando Dacosta, António Vitorino de Almeida, Madalena Farrajota, Danilo Fernandes, Maria Teresa Almeida Lima, José Viale Moutinho, Benjamim Enes Pereira e Susana Sardo.

 

Um belo livro e uma justa evocação. 

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXIX - PORTUGAL E A PROMOÇÃO DO PORTUGUÊS

 

1. Na época dos impérios coloniais, a língua das metrópoles europeias, ou do centro, era companheira do império, numa conceção de imperialismo linguístico. 

Com a ascensão do Direito Internacional e das organizações internacionais, emergem vários agrupamentos de países em blocos de poder, blocos linguísticos aglutinados por um idioma comum, como a anglofonia, a hispanofonia, a lusofonia e a francofonia, com o mundo ocidental centrado e repartido em quatro línguas de comunicação global internacional: inglês, espanhol, português e francês.
A língua deixou de ser só nossa, passando a ser também nossa.
De uma visão nacionalista e patrimonial transitou-se para uma visão não patrimonial, transnacional, transcontinental, partilhada.
Quanto ao nosso idioma, partindo de uma perspetiva lusíada chegámos, em dado momento, a uma perspetiva lusófona e de exportação.

 

2. Tem entre oito a nove décadas a ação de Portugal no âmbito do ensino do português no estrangeiro. Primeiro sob a dependência da Junta de Educação Nacional (1929/36). Pela atividade do Instituto para a Alta Cultura (1936/52). De seguida pelo Instituto de Alta Cultura (1952/76). Passando a designar-se, ainda em 1976, por Instituto de Cultura Portuguesa, até 1980. Passa, depois, a Instituto e Cultura de Língua Portuguesa, até 1992, data em que nasce o atual Instituto Camões, ligado ao Ministério da Educação (1992/94) e, desde 1994, sob a tutoria do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Durante anos, promoveu-se a difusão e ensino do português numa perspetiva centrada no âmbito das comunidades portuguesas emigradas e no espaço dos países de língua oficial portuguesa, ou seja, numa visão centrada e integrada no espaço potencial dos seus próprios falantes, sem intenção de a difundir e promover fora desse espaço, o que perdura, no essencial, até ao programa do X Governo Constitucional (1985/7).
Prevalecia a ideia de que o português era uma língua confidencial, de consumo doméstico e interno dos seus falantes, e não um idioma de comunicação internacional que poderia ser falado como língua estrangeira, como sucedia com o francês e inglês.

 

3. Surge, pela primeira vez, entre nós, de modo inequívoco, como medida programática de uso do português como língua estrangeira, uma proposta global de reforma, de julho de 1988, da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, via “utilização progressiva do Português como língua de comunicação internacional”.   

Esta linha programática pretende ultrapassar as fronteiras naturais dos seus falantes nativos, servindo de veículo de comunicação a outros falantes não nativos.
É a negação da manutenção do uso confidencial, paroquial ou regional da língua, de um sentimento de posse de quem se julga ser o seu único possuidor.
Num mundo globalizado, é uma visão redutora e simplista ver os recursos destinados à difusão e promoção da cultura e da língua portuguesa como fundos perdidos, desperdiçando um produto que para além de imagem de marca e simbólica, é um recurso económico com implicações tecnológicas e de imagem externa, como língua de comunicação global e de exportação à escala mundial. 

 

10.07.2018 
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

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