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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

HELENA MARQUES

 

(…) E revoltava – a também que a sua própria mãe, que a dera à luz trinta anos atrás, quando tinha apenas dezassete anos, continuasse a produzir, ano depois de ano, aquele caudal de gritos apavorados, aquelas apaixonadas promessas de nunca mais, nunca mais. E no ano seguinte, tudo se repetiria, o mesmo terror, o mesmo medo cego, a mesma rejeição, a mesma revolta. Como podiam? Como podia o pai provocar e impor tamanho sofrimento? (E ela, a mãe? utilizar como poder?)

 

(…) Marta não quer filhos, não terá filhos, não irá nunca casar-se.

 

Esta passagem do livro de Helena Marques - o livro que eu cheguei a chamar durante muito tempo “o livro da âncora”- refletiu em mim uma luz que insistia em não se mostrar como claridade que eu levasse à escrita. Essa luz, quando chegou, resumiu e ampliou o que eu não tinha colocado no papel, acerca da estranha insatisfação de um prazer doentio, quando este oblitera o caminho do amor, e, levando em si, um tudo em vão, um tudo de poder, portador de um elixir de puro logro que corrói os dias e constitui enfim, sua única sustentação. Disso, disso se quer fugir!

 

E se quer fugir também não casando. Não atribuindo a ninguém o direito de lhe fazer filhos, e que se evitasse que ela os manipulasse, se nascessem.

 

Os homens deveriam ser procurados apenas nas suas saídas solares e se paixão houvesse que ela fosse vivida em fulgor e não no langor da sua dissipação.

 

As mulheres deveriam ser achadas em núpcias de vida breve, antes que tivessem tempo de transmitir os cantos das resignações às suas eventuais descendências. Antes de lhes ensinar que a solidão envolve temer os tempos das laminárias sendo esse o único caminho.

 

Surgia-me assim uma consciência trágica do entendimento dos tempos que Marta vivera. Na sua memória, sempre algo de monstro, algo de envelhecido ao ritmo de um jugo. Algo subtraído às leis da duração da ordem cósmica.

 

Às vezes, Marta despenhava-se no mar e fitava de frente os turbilhões da água na procura de um deus. Outras vezes, julguei ver Marta menos prisioneira e mais afoita às constelações das aves, tão tristemente adiadas do seu conhecer. E sempre o mesmo medo de tudo se repetir como se repetira desde que nascera e a assombrara tanto.

 

Prometia-se ao seu interior num nunca mais. Prometia-se, mordendo-se para que uma marca a fizesse cumprir a promessa, evitando o desespero do desastre de uma vida igual àquela que tanto repudiara.

 

Via-se jovem e sabia que detinha uma passagem, uma cumplicidade subversiva que iria gerir entre dois mundos: o que repudiara e aquele que lhe era plataforma para um outro, um que iria descortinar por entre as duas margens da sua vida, e que saberia gerir.

 

Entretanto o tempo passava, alívio e cansaço, e a fronteira entre o mundo e a morte fechava-se.

 

 

Recordo bem que assim me ative no interpretar do que seria o último cais de Marta. 

 

Desconheço se Helena Marques assim pensou quando escreveu o parágrafo com que iniciei este acontecer. Resta que talvez os humanos possam ter o dom de entenderem várias palavras escritas e por elas comunicarem outras até saciarem a sua sede de saberem do Ser, sobretudo quando Marta foi para mim a criatura vinda de um outro frio; um frio larvado do seu interior, um frio onde seria aposto o dia em que deixaria o mundo, e, esse facto não era terrível, não! nem maligno, antes impenetrável mistério como o das cegonhas quando voando alto, levando consigo o azul, nas suas silhuetas migratórias.

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

'O chão do Loureiro' de Carlos Botelho e o esplendor da verdade atenta. 

 

'Pedir a alguém que nunca se distraia, que escape sem repouso aos equívocos da imaginação, à preguiça dos hábitos, à hipnose dos costumes, é pedir-lhe que viva na sua máxima forma. É pedir-lhe alguma coisa muito perto da santidade, num tempo que parece apenas perseguir, com cega fúria e glaciar sucesso, o divórcio total entre a mente humana e a faculdade da atenção que lhe pertence.', Cristina Campo, Gli imperdonabili

 

Cristina Campo acusava a arte contemporânea de fazer predominar a imaginação - 'contaminação caótica de elementos e de planos'. E na pintura 'O Chão de Loureiro' (1937), talvez Carlos Botelho (1899-1982) escolha a atenção contra a imaginação.

 

Carlos Botelho constrói o tempo e o espaço através da observação atenta de uma realidade precisa. E revela por isso e simplesmente a pura beleza do que via através da janela do seu atelier. 

 

Nesse mesmo ano de 1937, Carlos Botelho viu em Paris uma retrospetiva de Van Gogh:

 

'Toda a sua técnica e todo seu espírito me influenciaram enormemente. De Van Gogh, a minha pintura, ficou marcada sobretudo na parte técnica, porque eu nunca poderia herdar de um grande homem, como era o Van Gogh senão uma parte técnica porque um espírito, cada um tem o seu.', Carlos Botelho

 

O espírito da pintura 'O Chão do Loureiro' vem através de uma sensibilidade atenta. A matéria da tinta espessa acentua a presença das velhas paredes e telhados. A ausência da pessoa humana enriquece a força de uma atmosfera matinal, outonal e silenciosa. A distorção de alguns volumes, dimensões e perspetivas revela o humor dos folhetins que Botelho desenhava no Sempre Fixe e Ecos da Semana. A expressividade deste realismo atento, culminou numa série de pinturas ricas em cor, movimento e intensidade, feitas em 1939, em Nova Iorque. 

 

Sendo assim, Carlos Botelho em 'Chão do Loureiro' entende profundamente os ritmos, as hesitações e os volumes das formas e dos espaços urbanos. A cor, essa, é colocada sempre justa, de modo a fazer prevalecer um singular ambiente tonal. É uma pintura de uma devota aceitação. O espírito do pintor aparece, por isso, naquilo que se abre perante um olhar límpido e autêntico. 

 

Ana Ruepp

ANTERO DE QUENTAL, SEMPRE!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 15

 

Hoje citamos Joaquim de Carvalho, um dos espíritos mais brilhantes da cultura portuguesa do século XX sobre a relação de Antero de Quental com Oliveira Martins: «Em vez de uma amizade que se alimentasse da identidade afetiva, da fusão de duas almas, houve entre os dois fraternos amigos o sentimento de que mutuamente se completavam na diversidade e independência dos seus seres. Perdidas as cartas de Oliveira Martins, não é fácil determinar em que é que Antero lhe foi intelectualmente tributário; sabemos apenas que o historiador deveu ao poeta-filósofo indicações bibliográficas e traduções do alemão, aliás publicamente confessadas no Helenismo e a Civilização Cristã, sendo lícito suspeitar que foi Antero quem o conduziu ao germanismo e lhe sugeriu a leitura de Cournot, cuja influência foi capital na sua conceção filosófica da história, designadamente pela teoria do acaso, uma das grandes teses que opôs à ideologia histórica da geração romântica.

 

Na ordem positiva, de sugestão de ideias ou de factos, faltam-nos, pois, elementos seguros; porém, se passarmos para a ordem espiritual, o mútuo tributo surge-nos com alguma claridade. Oliveira Martins admirou em Antero o homem moral e o artista, o espírito subtil e amante das ideias coerentes, e o crítico desapaixonado que lhe discutia as ideias, apontava as omissões ou deficiências e apreciava o estilo. A sua influência foi, pois, moral e intelectual; Martins, pelo contrário, foi para Antero o tipo da ação viril, do pensamento pragmático do homem forte capaz de pensar, de querer e de atuar. Como notou António Sérgio num ensaio famoso sobre Martins, o espírito do historiador trabalhava sobre o concreto. Menos especulativo que Antero, com menos experiência e perspicácia da vida interior, surdo, de certo modo, às antíteses dolorosas que ela desperta, excedia-o grandemente no sentido pragmático, na acuidade da visão prática e na formidável capacidade de trabalho ordenado e metódico. Antero cedo o reconheceu, e com espontânea sinceridade lhe confessava que o seu convívio o chamara “à realidade viva, humanamente natural, que por um insensível mas contínuo desvio, o meu temperamento místico tende sempre a afastar-me, em não havendo influências externas que me chamem à razão — e V. é para mim essa razão, a razão... como direi?, a boa razão numa palavra, positiva, real, justa”».

 

E aproveitemos para ouvir o Poeta micaelense.

 

À VIRGEM SANTÍSSIMA

Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia.

Num sonho todo feito de incerteza, 
De noturna e indizível ansiedade, 
É que eu vi teu olhar de piedade 
E (mais que piedade) de tristeza... 

Não era o vulgar brilho da beleza, 
Nem o ardor banal da mocidade... 
Era outra luz, era outra suavidade, 
Que até nem sei se as há na natureza... 

Um místico sofrer... uma ventura 
Feita só do perdão, só ternura 
E da paz da nossa hora derradeira... 

Ó visão, visão triste e piedosa! 
Fita-me assim calada, assim chorosa.
E deixa-me sonhar a vida inteira!

 

Agostinho de Morais

ROTA DAS CATEDRAIS (II)

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 14

 

Continuamos na Rota das 27 Catedrais portuguesas. Recomeçamos pelo Porto, de onde houve nome Portugal, e aí a (ix, a nona catedral do nosso roteiro) Sé Catedral é dominada pelas influências românica (séculos XII e XIII), maneirista e barroca (séculos XVII e XVIII). Na única cidade-estado portuguesa (como lhe chamou Jaime Cortesão) temos uma Catedral fortaleza – onde se casou D. João, Mestre de Avis e D. Filipa de Lencastre e onde foi batizado o Infante D. Henrique. A estátua de Vímara Peres recorda o tempo da presúria e Sophia lembrou que o Bispo D. António se assemelhou como pessoa à firmeza da Catedral. E chegamos à (x) Guarda – a cidade dos cinco efes: fiel, forte, formosa, fria e farta… A Catedral herda a tradição da Egitânia, construída depois do século XIV, mantendo hoje o seu magnífico traçado gótico… Sente-se a firmeza e a permanência da mais antiga fronteira do mundo. Depois, temos a (xi) Catedral de Aveiro – e já se adoçam os nossos paladares com os melhores doces conventuais do mundo, invocando-se também Santa Joana Princesa, irmã do Príncipe Perfeito. Era a antiga Igreja da Misericórdia, que sofreu alterações nos séculos XVI e XVII. Na cidade de Coimbra, capital de D. Afonso Henriques, cidade do moçárabe Sesinando, temos a (xii) Sé Velha, joia do nosso românico e a (xiv) Sé Nova, o mítico lugar renascentista da nossa cultura, em que houve o mágico encontro entre Antero de Quental e Eça de Queiroz. E chegamos à (xv) Catedral de Castelo Branco, a velha Igreja de S. Miguel do século XIII ou XIV, que foi sendo alterada ao longo dos séculos, até ao barroco e rococó. E continuamos até Leiria, com um novíssimo Cardeal, D. António Marto, e não esquecendo que hoje é 14 de agosto, data de Aljubarrota (1385). A (xvi) Catedral de Leiria é paradigma do maneirismo, numa edificação que abrange os séculos XVI a XVIII. Depois, (xvii) a Catedral de Santarém, belamente renovada, com os justíssimos prémios Europa Nostra e Vilalva – foi a igreja do Convento da Companhia de Jesus, construída sobre o antigo Paço Real em 1647 por iniciativa de D. João IV. Como se teriam regozijado Garrett e Herculano perante o brilho atual do monumento. E seguimos para Portalegre, “cercada / de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros / Morei numa casa velha, / á qual quis como se fora feita para morar nela”… A (xviii) Catedral de Portalegre é dominada pelo maneirismo do arquiteto Afonso Álvares do século XVI… Num salto a Elvas, encontramos a (xix) Sé instalada na antiga Igreja de Nossa Senhora da Assunção – construída sob o traço de Francisco de Arruda, podendo em redor usufruir-se do magnífico artesanato. E (xx) chegamos à Sé Patriarcal de Lisboa, onde se exprime a História da cidade e do mar, de S. Vicente e dos Cónegos Regrantes, bem próximo dos lugares de nascimento de Santo António de Lisboa e do Padre António Vieira. O monumento é riquíssimo e a estação arqueológica que alberga inesgotável – a antiga mesquita, o templo cristão, as reminiscências romanas, visigóticas, suevas, a presença moçárabe… E continuamos. Mais para sul, a jovem diocese de Setúbal, tem sede na (xxi) antiga igreja de Nossa Senhora da Graça, erguida no século XIII, no estilo românico-gótico – chegando até nós como referência maneirista. E se estamos na cidade do Sado não se esqueça a visita da preciosidade que é a Igreja de Jesus, projeto dos Jerónimos. Falando de Évora, a sua (xxii) Catedral foi Igreja episcopal visigótica, onde se situou uma mesquita e onde o Bispo D. Soeiro erigiu o templo em 1186. Porém, o que chegou aos nossos dias associa os estilos românico e gótico, com uma personalidade própria e inimitável. Na reta final deste nosso roteiro – temos a (xxiii) Catedral de Beja, que encerra um mistério por ser a localização primitiva da Igreja de Santiago Maior, com elementos dos séculos XVI a XVIII, e um riquíssimo património. Todos esperamos, aliás, que a diocese continue a ser modelo de defesa do Património Cultural, na linha de D. Manuel Falcão (1922-2012). A (xxiv) Sé Catedral de Faro é emblemática, sendo erigida nas fundações de uma Basílica paleocristã e de uma mesquita – chegando aos nossos dias como exemplo de convergência de tempos e culturas. Mas no Algarve, não esqueçamos a antiga (xxv) Sé de Silves, maioritariamente gótica do século XV, um dos mais importantes exemplos da nossa arte religiosa. Em Angra do Heroísmo (Terceira), a (xxvi) Sé imponente invoca o Santíssimo Salvador, é do século XVI (1570) e constitui mais uma referência essencial.  A (xxvii) Sé do Funchal data da passagem do século XV para o século XVI tem também um grande interesse artístico, tendo a particularidade de ter sido sede da primeira diocese global, donde saíram as outras dioceses do mundo de língua e de influência dos portugueses… Um Roteiro riquíssimo de Catedrais fica ao nosso alcance para deleite e cultivo do património, da herança e da memória…

 

E como habitualmente, depois de termos lembrado José Régio, quem melhor do que Florbela Espanca para nos acompanhar na fantástica Évora?…

 

«Évora! Ruas ermas sob os céus

Cor de violetas roxas ... Ruas frades

Pedindo em triste penitência a Deus

Que nos perdoe as míseras vaidades! 

Tenho corrido em vão tantas cidades!

E só aqui recordo os beijos teus,

E só aqui eu sinto que são meus

Os sonhos que sonhei noutras idades! 

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...

Tua boca sinuosa, um mês de Abril,

Que o coração no peito me alvoroça! 

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...

E a minh'alma soturna escuta e pasma ...

E sente-se passar menina e moça ... »

  

Agostinho de Morais

 

ROTA DAS CATEDRAIS (I)

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 13 

 

A vida cultural faz-se de caminhos e de percursos vários, que nos permitem conhecer melhor a complexidade e o que é diferente. A muito antiga tradição das peregrinações (per agros) permite encadear as influências – e tornar a História próxima e compreensível. Os povos começaram por ser nómadas e passaram a sedentários. Há vantagens e inconvenientes que todos o sabemos . Também as artes se tornaram sedentárias, sem esquecer, porém, o movimento que sempre as anima. Hoje começamos a falar da Rota portuguesa das Catedrais – em boa hora preconizado e oportunidade para termos contacto com a história da Arte e da espiritualidade como realidades bem vivas. Neste Ano Europeu do Património Cultural (AEPC-2018), falar de Catedrais portuguesas constitui uma demonstração da importância da História viva. Para caracterizar o território e as suas gentes, urge considerar o património como um todo – ligando os valores religioso, histórico, paisagístico e artístico. A Rota das Catedrais é das mais ricas da Europa, e permite compreender as evoluções, histórica, cultural e artística, do que recebemos do passado. Há, assim, algumas ideias a considerar: (a) a referência histórica; (b) a integração no conjunto multifacetado do território; (c) a lógica da afirmação cultural portuguesa ligada à religiosidade popular; (d) a compreensão da evolução, desde a Reconquista ao povoamento e depois  à partida das Navegações; e (e) a ideia de peregrinação, originalmente influenciada pela marca de Santiago de Compostela em toda a Península.

 

Vejamos a Rota de norte para sul: (i) A catedral de Viana do Castelo vem do século XV e segue o gótico tardio. (ii) A Sé de Braga tem a marca do século XI e alberga os túmulos de D. Henrique e D. Teresa – tendo sido enriquecida por D. Diogo de Sousa, com a marca do Renascimento no século XV. (iii) A catedral de Vila Real foi construída no século XV sob o orago de S. Domingos, com influência gótica. (iv, v, vi) As Catedrais de Bragança e Miranda do Douro envolvem três monumentos marcantes: a Sé Nova da autoria do Arquiteto Vassalo Rosa (1935-2018) representa a modernidade, a Sé Velha leva-nos ao século XVI e a Sé de Miranda do mesmo século XVI singulariza-se pela sua imponência. (vii, viii) As Catedrais de Lamego e Viseu, merecem uma atenção também especial – sendo a de Lamego, anterior à nacionalidade (1129) e a de Viseu anuncia o gótico, o manuelino e o barroco… (continua)

 

Diz-nos David Almeida escreveu:

 

«Oh! Cidade sem rio grande.

Oh! Cidade sem Mar.

Não quem há na cidade quem mande

Como a magia do velho altar.

Oh! Bela cidade clerical.

Oh! Bela verde fonte.

Tudo desde a sé Catedral,

Ao bom Jesus do monte.

Oh! Bela minhota.

Oh! Bela cidade calma.

De noite pura e marota,

De dia viva e com alma.

Oh! Bela cidade de vida.

Oh! Memória de estudante.

Apesar da partida,

Braga, serás minha amante!”

 

Agostinho de Morais

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 13 a 19 de agosto de 2018

 

«O Tempo da Memória» de Norberto Bobbio (editora Campus, Rio de Janeiro, 1997), com prefácio de Celso Lafer, reúne alguns importantes textos autobiográficos do grande pensador italiano, que permitem compreendermos melhor os mistérios da encruzilhada do tempo presente.

 

 

O PRIMADO DO PENSAMENTO
«A velhice, diz-nos o mestre, torna-se um momento em que temos plena consciência de que o caminho não apenas não está cumprido, mas também não há mais tempo para cumpri-lo, e devemos renunciar á realização da última etapa». Assim, Bobbio trata do que Cícero designou “De Senectute”, sendo que o pensador romano morreu com apenas 63 anos, interrogando-se sobre o não ter sido homem de ação, ainda que sempre preocupado com a compreensão do agir na cidade e com o direito. E o que preocupa o filósofo é dar-nos ainda uma perspetiva sobre a relação entre o pensamento e a vida. O tempo atual está cheio de naturais incertezas. A vida política reserva-nos muitas surpresas. Quando em 1989, com a queda do muro de Berlim, muitos consideraram que se iniciava o tempo incontestável das liberdades e das sociedades abertas, estava-se longe de perceber que o fim da bipolaridade das duas grandes potências e do confronto ideológico da guerra fria daria origem a um tempo de polaridades difusas – ilustrado no estranho acontecimento do ataque às torres gémeas de Nova Iorque em 11 de setembro de 2001, na emergência de um fundamentalismo inorgânico que levaria ao Estado Islâmico e no surgimento de uma mobilidade descontrolada de refugiados de diversas origens – com a consequência no tribalismo defensivo e fragmentário, baseado no medo do diferente e do outro, que consagra a noção absurda de democracias ditas iliberais. Dir-se-ia que a memória de Norberto Bobbio ganha uma nova atualidade, já que o seu pensamento assenta na exigência de uma ligação efetiva entre a liberdade igual e a igualdade livre, entre a coesão social, a justiça distributiva, a correção das desigualdades e a incindível ligação entre a causa dos direitos humanos e a liberdade individual. O pensamento democrático exige o Estado de direito – o primado da lei, a legitimidade do voto, a legitimidade do exercício e a concretização da justiça. Daí a distinção entre um “neoliberalismo” mercantil e político e a liberdade cívica e política. Para Bobbio no fundamento da democracia há um forte conceito de liberdade, compreendida já não apenas como liberdade negativa, mas também como liberdade positiva. “Em poucas palavras, a democracia pode ser definida como o sistema de regras que permitem a instauração e o desenvolvimento de uma convivência pacífica”. E a aplicação das regras obriga à formação de poderes que garantam ao máximo a sua observância. A limitação dos poderes de que nos fala Montesquieu é fundamental. No entanto, “mesmo as democracias mais consolidadas nem sempre estão em condições de obedecer aos princípios de convivência democrática nas relações com os outros Estados. O ‘futuro da democracia’ reside hoje mais do que nunca na democratização do sistema internacional”. Seria necessário seguirem-se duas direções – a gradual ampliação dos Estados democráticos e a democratização universal dos Estados, reduzindo o risco de conflitos entre os pequenos Estados. Se há sinais negativos, como a crescente desigualdade entre países ricos e pobres, pode haver sinais positivos, se a garantia dos direitos humanos for levada a sério. Será irrealista um direito cosmopolítico previsto por Kant? Bobbio fala de um individualismo ético, diferente do ontológico. O Estado existe para a pessoa e não a pessoa para o Estado. O todo não está antes das partes e a pessoa humana tem um valor próprio – por contraponto aos que entendem que o indivíduo não tem valor a não ser como parte de uma totalidade que o transcende…

 

DEMOCRACIA E LIBERDADE URGENTES
Eis como a democracia e a liberdade voltam à ordem do dia! A pedra angular está nos direitos fundamentais – e nestes estão os subjetivos, mas também os sociais. E avançamos na nova geração dos direitos “que se afirmam diante das ameaças à vida, à liberdade e à segurança, que provêm do crescimento cada vez mais rápido, irreversível e incontrolável do progresso técnico”. Bobbio referia-se ao direito à integridade do património genético, que nos leva à complexas relações com a bioética. O poder torna-se legitimo pelo direito e o direito torna-se efetivo pelo poder. Quando um e o outro se separam, chegamos a um dos extremos – ou o direito impotente ou o poder arbitrário. E Montesquieu é claro ao pôr-nos de sobreaviso perante tal situação, que define o governo despótico como aquele que não tem “leis nem freios”. A que se deve então a atual tentação de falar de democracias iliberais? Exatamente à subalternização da singularidade e do primado da dignidade humana, substituindo o relativismo pelo absolutismo ético, e ameaçando a própria laicidade. O medo cultivado por quantos se encerram num perigoso tribalismo (hoje evidente no caso dos refugiados), que leva à desconfiança da liberdade, põe em causa o triângulo fundamental do pensamento de Bobbio: democracia, paz e direitos humanos. Afinal, a democracia tem de se basear no respeito da dignidade humana, ou seja, da singularidade, devendo apontar para uma cultura de paz e de convivência pacífica e para uma permanente capacidade de regulação de conflitos. A filosofia política e a filosofia do direito encontram-se assim e completam-se. O risco que hoje existe é assim o de o direito se tornar impotente, correndo a sociedade o risco de se precipitar na perigosa fragmentação. E onde o poder não é limitado e controlado pelo direito, a sociedade incorre no risco do despotismo e da tirania. Não basta haver votos, ou manifestações imediatas de vontade. Poderíamos criar mecanismos de consulta instantânea dos cidadãos através das redes sociais ou das tecnologias de informação e comunicação. Isso não seria democracia, uma vez que esta exige tempo e reflexão, para evitar a tirania do imediato e do número, fruto de manipulações e demagogia. Num mundo cada vez mais complexo a ilusão das opiniões simples gera o despotismo.

 

LEMBRAR O “BIG BROTHER”
O que George Orwell descreveu em “1984” é hoje quase uma brincadeira de crianças… Os riscos são cada vez mais evidentes – e os Grandes Irmãos existem em toda a parte… As ideias de pós-verdade e de “fake news” têm a ver com isso mesmo. Basta olharmos em volta. A lógica da prevalência de maiorias silenciosas só pretende esconder a necessidade de a democracia promover decisões informadas, conhecedoras e ponderadas. Uma das preocupações de Bobbio teve a ver com a prática democrática e com o debate sobre o Estado democrático. E perante a pergunta “Existe uma teoria marxista do Estado que possa servir de modelo oposto à democracia dos modernos?” – a sua resposta foi negativa. Afinal, se Marx não se preocupa em prever quais deveriam ser as regras para dar vida a um Estado com rosto humano, uma vez que o Estado estaria destinado a desaparecer, o tema torna-se insustentável. No entanto, como o Estado não desapareceu, põe-se a questão de saber se há uma alternativa aceitável para a democracia representativa. E Bobbio não deixou de pôr a tónica na lei e na legitimidade, na legitimidade e na legitimação – mais do que o formalismo, importa a substância: “Da observação da irredutibilidade das crenças últimas extraí a maior lição da minha vida. Aprendi a respeitar as ideias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar. E porque estou com disposição para as confissões, faço mais uma ainda, talvez supérflua: detesto os fanáticos com todas as minhas forças”. O que está em causa é a defesa intransigente do pluralismo e a salvaguarda da limitação do poder. Eis por que razão a representação e a participação, o voto e o exercício, são faces da mesma moeda. O tempo e a reflexão têm a vantagem de envolver perspetivas diferentes – o diálogo entre fações opostas, que o filósofo tanto admirava em Erasmo… No entanto a liberdade individual, o respeito mútuo e a coesão social têm de ser concretizados e postos em prática na concretização do Estado de direito e da democracia. Num tempo em que se fala de esgotamento dos modelos, designadamente o contrato social que mantemos desde o fim da última grande guerra, Bobbio põe a tónica na compreensão do que muda e do que se deve manter. A liberdade com consciência social, a cidadania ativa, a cultura da paz são fundamentais. E a memória comum é fonte de ensinamentos e sabedoria. E diz-nos: “Quando percorremos (…) os lugares da memória, os mortos perfilam-se em torno de nós em número cada vez maior. A maior parte dos que nos acompanharam já nos abandonou. Mas não podemos apaga-los como se nunca tivessem existido. No momento em que os trazemos á mente, fazemo-los reviver e ao menos por um instante não estão todos mortos, não desaparecem no nada”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

DE SINTRA AO OCEANO…


TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 12 

 

Continuamos a lidar com o inesperado património cultural. Eis os “Eléctricos” de Sintra. Senão vejamos. Foi atribulada a história da linha que hoje se designa como Sintra-Atlântico. Em 1904 foi inaugurada como hoje persiste, primeiro no troço até Colares (março) e depois até à Praia das Maçãs (julho). As ideias iniciais foram mais ambiciosas, envolvendo a hipótese de um troço entre S. Pedro e a Vila Velha e outro até Mafra e Ericeira. Houve até projetos para um ramal para Monte Estoril e Cascais… Mas os sonhos não passaram de intenção e de papel. O que se concretizou é o que existe. E a designação em 1904 foi “De Sintra ao Oceano”… Tecnicamente, é uma ferrovia sazonal de bitola estreita (1000 mm, metro) tração elétrica por trólei. A bitola métrica é a habitual nestes casos. Tem carris clássicos assentes em travessas de madeira ou betão sobre balastro, onde passa em canal próprio, protegido por contracarris no cruzamento de passadeiras para acessos particulares em madeira e terra batida. E permitam-me, como modesto estudioso da ferrovia, falar-vos ainda de carris de encastrar nivelados ao pavimento, no cruzamento de estradas e no espaço urbano.

 

O velho elétrico da Praia das Maçãs está felizmente a circular. Como diz Miguel Esteves Cardoso: “A viagem não podia ser mais calma ou mais bonita, passando pela Ribeira de Sintra, por Galamares e Colares, pelo Banzão e pelo Pinhal, sempre com prioridade sobre os automóveis”. 12 quilómetros em 45 minutos. Três euros. Hoje é uma lembrança. Há cinquenta anos era o natural modo de vida. Ia-se assim à Praia das Maçãs – gozando do microclima em toda a sua pujança. Um dia D. João de Castro trouxe para a Pedra Verde plantas exóticas da Ásia – e tudo mudou. A serra escalvada tornou-se verdejante. Sintra ficou Sintra. E D. Carlos dizia que o Inverno vinha passar o Verão a Sintra. Mas como as acácias não têm com quem dialogar e espraiam-se sem disciplina…

 

Hoje também a literatura não falta, e recordo um velho amigo – Francisco Costa (1900-1988). Não podemos falar de Sintra, da Biblioteca e do Arquivo sem o recordarmos. Num passo pachorrento, estou a vê-lo a ver passar o elétrico para a Praia das Maçãs, que fora inaugurado tinha ele apenas 4 anos, tendo acompanhado todas as crises e sobressaltos desta linha que o Município de Sintra hoje mantém. E antes de irmos abastecer-nos de uma boa pomada vínica ao Chitas de Colares, lá havia dois dedos de conversa com a memória viva de Sintra (como bem tem lembrado Miguel Real). Para não o esquecermos, na sua casa lá está o poema que hoje aqui trazemos:

 

«Quando esta casa, feita mesmo em frente

da Serra Verde, ainda mal se erguia

e as traves da futura moradia

eram belos pinheiros, simplesmente,

houve uma tarde, sob um sol ardente,

em que o suor em bagas escorria

da testa dos pedreiros e fazia

da cal e areia uma argamaça quente.

Hoje há paredes contra os vendavais

Mas é cá dentro que soltamos ais

Nos dias mais aflitos e mais duros.

Enquanto gemem temporais lá fora,

Pagamos nós em lágrimas agora,

A dor incorporada nestes muros.»

 

Agostinho de Morais

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta manhã chuvosa, em finais já de um julho marcado por um anticiclone fora de casa, e que teima em nos afugentar o Verão, recolho-me neste meu gabinete aberto sobre campos verdes que o céu vai mansamente regando... Acompanham-me, na religião desta hora, lieder de Martinho Lutero, postos em música por variadíssimos compositores, desde finais do século XVI até aos nossos dias. Entre eles, nomes grandes, como Johann Sebastian Bach, Heinrich Schütz, Michael Praetorius, Dieterich Buxtehude, Félix Mendelssohn Bartholdy ou, ainda, Max Reger. A interpretação que vou escutando, em edição comemorativa dos 500 anos da Reforma (Carus-Verlag, Deutschlandradio Kultur, e Edition Chrismon, 2017) é da Athesinus Consort Berlin, e do Kammerchor Stuttgart, com solistas de que destaco a mezzo Sophie Harmsen, Matthias Ank ao órgão, e Arno Schneider no contínuo. A maioria dos trinta e seis lieder tem uma duração de três a seis minutos, sobressaindo dessa média apenas dois dos musicados por Mendelssohn: Ach Gott, vom Himmel sieh darein (11m.34s.) e Aus tiefer Not schrei ich zu dir (11m.58s.).

 

   Este, o mais longo, com praticamente doze minutos de lírica de Lutero e música de Mendelssohn, canta-nos um poema muito bebido, ou quase só, no salmo 130, que a vulgata latina nos deu a conhecer como o De Profundis: De profundis clamavi ad te Domine... Na inspirada lírica de Lutero, o poema religioso ganha uma dimensão teológica nova, como se a Palavra de Deus, o Verbo, renascesse no pensarsentir de cada ser humano, porque o Espírito sopra onde quer, e não impõe intermediários. Lembra-te, Princesa de mim, de que o então frade agostinho vivia em plena contestação do poder clerical romano que, para financiar a construção de sumptuosos edifícios materiais e terrenos até cobrava o aluguer de mais uns dias promissores de descanso celestial às almas que, adiantadamente, pagassem as correspondentes indulgências... [Curiosamente, tais contratos-promessa de compra e venda que, já naquela época, poderiam ter sido considerados crimes de simonia, isto é, transação monetária de bens religiosos (e até eram conhecidos, ao tempo, por "comércio sagrado"), parece terem passado pelas malhas de muitos teólogos e bastas autoridades eclesiais, ao ponto de, ainda há pouco, recentemente, aquando da visita do papa Francisco a Fátima, a reitoria desse destino de peregrinações ter posto à venda umas indulgenciazinhas...]. Mas não te escrevo para polemizar. Não vale a pena. O que nos merece é, antes de tudo o mais, o esforço que fizermos no sentido da escuta. Sobretudo, aprendermos a ouvir esse grito do fundo de nós, que qualquer um poderá lançar sem destino, ou pretender que não tem destinatário possível, ou sentir que sim, que sabe para Quem fala, porque bem sabemos que, quando em desespero suplicamos, nenhum de nós sabe, exactamente, a Quem pedir ajuda. Só nos ocorre gritar: da profundeza da minha miséria a ti clamo. Ou seja, no alemão de Lutero: Aus tiefer not schrei ich zu dir... para logo continuar, como homem de fé: ...Herr Gott, erhör mein rufen, / Dein gnädig ohren kehr zu mir / und meiner bitt sir öffen... "ouve, Senhor Deus, o meu grito, vira para mim o teu ouvido, abre a tua graça à minha súplica. // Porque se só quiseres olhar para o tanto que pequei, quem serei eu para poder enfrentar-te...   ... E portanto quero esperar em Deus, abandonar-lhe o meu coração, aguardar a sua palavra. // Mesmo sendo pela noite dentro / e de novo até à manhã, / não se aflija o meu coração / nem duvide da força de Deus. // Se há em nós muitos pecados / em Deus se encontra muito maior graça.

 

   Assim, parecem-me acertadas as palavras com que o pastor e homem de cultura literária Johann Hinrich Claussen, a dado passo da sua introdução aos poemas desta antologia de lieder, nos fala de Martinho Lutero (traduzo): ... Quem leia seus versos fica habilitado a olhá-lo de modo diferente do habitual: não como intrépido reformador, incansável autor teológico, enérgico fundador de uma confissão, combatente político ou excessivo agitador verbal, mas como pessoa que passa tempo em silêncio, reza muitas horas por dia, lê e relê textos antigos escolhidos e então escreve versos numa folha de papel. Tem versos que emergem de um concentrado silêncio, perseverante oração, quotidiano contacto com os Salmos do Antigo Testamento e hinos da Igreja primitiva.

 

   A chamada cultura católica portuguesa ostracizou a figura de Lutero, entre nós mais badalado como herege sectário, padre e monge infiel e amancebado, do que como homem de fé, teólogo merecedor de atenção e análise, alma tantas vezes sofredora de angústias clamando por mais sentido evangélico no caminho humano da Igreja. Uma das ecuménicas exceções a essa regra foi o Lutero - Palavra e Fé (Editorial Presença, Lisboa, 2014) - de frei Joaquim Carreira das Neves, franciscano e professor jubilado da Faculdade de Teologia da UCP - quiçá a primeira obra sobre o "grande iniciador da Reforma" publicada por um autor português em quinhentos anos. Mais recentemente, a revista jesuíta Brotéria publicou um interessante artigo do teólogo dominicano frei Bento Domingues sobre como portugueses têm olhado para Lutero desde o século XVI. Recomendo-te, Princesa de mim, estas leituras, mais abrangente a do doutor Carreira das Neves, o que lhe permite também debruçar-se sobre a humanidade torturada de Lutero e o seu percurso de frade agostinho a pastor protestante. Cito-te agora um trecho da biografia escrita pelo franciscano português, que nos conduz a outro autor, de que já muitas vezes te falei, e ao qual voltarei adiante: Nunca esquecerei o impacto que recebi ao ler em1975 o que o grande teólogo católico Pe. Yves Congar escreveu sobre Lutero: «Lutero é um dos maiores génios religiosos de toda a história. coloco-o no mesmo plano que Santo Agostinho, São Tomás de Aquino ou Pascal. Posso afirmar que ainda é maior. Ele repensou todo o cristianismo. Ofereceu-nos uma nova síntese, uma nova interpretação». (Une Vie pour la Vérité. Jean Puyo Interroge le P. Congar, Paris, 1975). Frei Yves Congar, dominicano francês, quiçá o maior eclesiólogo católico do nosso tempo, figura marcante do Concílio Vaticano II, mais tarde feito cardeal por João Paulo II, é autor de um livro que guardo há décadas: Martin Luther - Sa Foi, Sa Réforme - Études de théologie historique (Les Éditions du Cerf, Paris, 1983). Dele vou respigar o longo trecho que seguidamente traduzo, porque me parece o mais esclarecedor comentário ao lied "Aus tiefer Not schrei ich zu dir" que hoje tão sentidamente tenho escutado, ainda que se refira primeiramente ao salmo 31, à interpretação que Lutero faz de uma certa justiça de Deus. Escreve frei Ivo Congar:

 

   Lutero entrou no convento a 17 de julho de 1505. Em Erfurt e, depois, em Wittenberg, conheceu, durante vários anos, uma angústia espiritual tenente a uma consciência aguda da impossibilidade de sermos o que de nós reclama a santidade de Deus.:

 

Como poderei ter um Deus favorável, um Deus de graça? Como serei agradável diante de Deus, aos seus olhos, «coram Deo»? A justiça de Deus era temível e assustava Lutero. Acerca disso muitas vezes citou quer um versículo de S. Paulo (Rom. 1, 17) «nele (no Evangelho) se revela a justiça de Deus», quer um dos Salmos (31, 2) «Em tua justiça me libertarás, me farás livre». Na sua angústia, de que nem esforços, ascese ou práticas de observância o tiravam, Lutero bem tinha recebido essas palavras de consolação. Um frade mais velho dissera-lhe para ter esperança: a nossa salvação reside na fé em Deus. Será o mesmo? Um ancião orientara o seu pensamento para «creio na remissão dos pecados». Staupitz, seu superior e amigo, tinha-lhe aberto a inteligência para a verdadeira natureza da penitência, no sentido da metanoia (conversão radical do coração).

 

   Lutero precisava de uma solução radical. Encontrou-a na descoberta pessoal do sentido de justitia Dei: não a justiça do juiz que castiga os pecadores, mas a misericórdia de Deus que me traz perdão e justiça em Cristo. Eis o Evangelho: pela fé, Cristo em mim, minha salvação, minha justiça. Bastará entregar-me a ele, renunciando a qualquer apoio no que somos ou podemos fazer. Daí que seja Cristo a minha justiça, graças à fé: justiça que não vem de mim, e que, com esse sentido, Lutero diz que é «extranea, non domestica» (estrangeira, não de nossa casa). Eis a descoberta que comandará todo o resto. Lutero expõe-na admiravelmente nos conselhos que, em 8 de abril de 1516, dá ao seu amigo SpenleinAprende, pois, meu doce irmão, Cristo, e Cristo crucificado; aprende a cantar-lhe e, desesperando de ti, a dizer-lhe: Tu, Senhor Jesus, tu és a minha justiça e eu sou o teu pecado, tomaste-me o que era meu e deste-me o que era teu; assumiste o que não eras e deste-me o que eu não era. Cuida em jamais aspirares a uma pureza tal que não quererias mais considerar-te pecador ou, antes, sê-lo. Porque Cristo só nos pecadores habita. Apenas desceu do Céu, onde habitava os justos, para vir habitar pecadores. Assim, só nele, e nele apenas, e por um desespero de ti mesmo e das tuas obras, cheio de confiança, encontrarás a paz (per fiducialem desperationem tui et operum tuorum). Aprende com ele que, tal como te tomou e fez seus os teus pecados, assim também fez tua a sua justiça.

 

   A salvação não se adquire por preço algum, seja em dinheiro, em cumprimento de ritos ou sacrifícios. Ela é essencialmente um encontro que se acolhe na alegria amorosa da fé. Esta sendo, simplesmente, a conversão de uma pretensa autojustificação de mim, por feitos meus ou renúncias minhas, a uma confiança íntima e exclusiva na justiça do amor de Deus. E se lermos com atenção os evangelhos - das parábolas sobre o que é o Reino de Deus (ou dos Céus) às respostas de Jesus a quem lhe pede que assegure ou interfira e garanta um bom assento no Céu -, perceberemos melhor como a metanoia da fé é o abandono de nós próprios e do que está, ou pode estar, nas nossas mãos, à misericórdia de Deus. E tal humildade íntima em nada diminui a razão da nossa responsabilidade ética, não é laxismo. Pois já o mais antigo magistério da Igreja ensinava a diferença entre as três virtudes teologais ou fundadoras (fé, esperança e caridade) de todas as outras. A verdade da fé não tem razões científicas, filosóficas, nem morais. A verdade da fé é ontológica, está muito além do alcance dos nossos meios.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

A CABECINHA ROMANA DE MILREU…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 11

 

Como não apaixonarmo-nos pelo património? Na tarde de domingo dia 5 de agosto em Querença na mesa quadrada sobre Literatura e Artes Plásticas vieram à baila as “Metamorfoses” de Jorge de Sena. E Mário Avelar recordou “A Cabecinha Romana de Milreu”. Uma preciosidade! Não poderia deixar de o fazer aqui em terra algarvia. Jorge de Sena veio ao Algarve em 1959, em fim de fevereiro, em companhia de Erico Veríssimo. E ficou com essa imagem bem marcada, como lembrança daquele momento em que também foi acompanhado pelo poeta Emiliano Costa (1884-1968), médico em Estói.

 

O que resta desse busto encontra-se no Museu Nacional de Arqueologia e é assim descrito: “Cabeça-retrato de uma jovem mulher, bem modelada, de traços expressivos e grande naturalidade. Tem o nariz fragmentado e pequenas falhas na superfície do queixo e do pescoço. É um bom retrato, realista, de feições corretas, tecnicamente bem executado. (…) Ostenta um característico penteado em “ninho de vespa”, a testa curta quase desaparece sob o diadema formado por uma cadeia tripla de caracóis sobrepostos, que as damas romanas mandavam armar sobre uma rede de fio ou de metal, e na parte anterior da cabeça uma mecha de cabelo enrosca-se em largo carrapito sobre a nuca descobrindo as orelhas. A moda deste penteado foi criada por Júlia filha de Tito e esposa de Domiciano, no período flaviano, tratando-se talvez mesmo de um retrato da própria imperatriz. (…) Proveniente da villa romana de Milreu (ruínas de Estói), este retrato espelha da melhor forma a riqueza, importância e a plena atualidade e inserção sociopolítica das elites municipais da Lusitânia meridional em finais do século I – inícios do século II d.C., adotando posturas e modas estereotipadas de evidente prestígio pela sua conotação com a casa imperial”.

 

Em 1963, já em Araraquara, Jorge de Sena pegou no registo poético da memória e escreveu um poema que bem ilustra a riqueza do Algarve, no modo como a literatura se alimenta da arte.  

 

«Esta cabeça evanescente e aguda,
Tão doce no seu ar decapitado,
Do Império portentoso nada tem:
Nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
Na sua boca as legiões não marcham,
Na curva do nariz não há povos
Que foram massacrados e traídos.
E uma doçura que contempla a vida,
Sabendo como, se possível, deve
Ao pensamento dar certa loucura,
Perdendo um pouco, e por instantes só,
A firme frieza da razão tranquila.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
Prados e rios, sombras e colheitas,
E teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
Que os deuses todos tornou seus, não tinha
Um rosto para os deuses. E os humanos,
Para que os deuses fossem, emprestavam
O próprio rosto que perdiam. Esta
Cabeça evanescente resistiu:
Nem deusa, nem mulher, apenas ciência
De que nada nos livra de nós mesmos».

 

Agostinho de Morais

 

NO TRINDADE, HOMENAGEM A CARMEN DOLORES


Aqui temos referido o Teatro da Trindade na perspetiva tanto da qualidade arquitetónica como do notável historial nas artes do espetáculo que, desde a inauguração em 1867 mantem até hoje. Justifica-se então que se evoque essa tradição histórica, estética e arquitetónica, no contexto muito recente dos espetáculos que assinalam e homenageiam a carreira de Carmen Dolores, a partir da nova designação da sala principal do Teatro, agora chamada Sala Carmen Dolores.

 

Nada mais justo.

 

Em primeiro lugar, porque Carmen Dolores ali pela primeira vez enfrentou o público, curiosamente não em espetáculo teatral, mas na estreia em 1943, do “Amor de Perdição”, filme de António Lopes Ribeiro. Antes disso, recorda o programa agora distribuído na homenagem prestada no mesmo Teatro, teria atuado como declamadora na rádio. Mas foi no Trindade que pela primeira vez teve contacto com o público, mesmo que essa estreia tenha sido num filme...

 

E foi novamente no Trindade que Carmen Dolores enfrenta diretamente o público, agora na companhia denominada Os Comediantes de Lisboa, dirigida por Francisco Ribeiro, com textos exigentes: Giraudoux, Munoz Seca, Marcel Achard e outros.

 

E em 1951 junta-se ao Teatro Nacional de D. Maria II de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro: e aí participa em espetáculos a partir de dramas e comédias do grande repertório que incluiu autores portugueses como Alfredo Cortez ou Luis Francisco Rebello, o que na época seria de registar...

 

Cito a propósito, o que escrevi em 2005 no livro “Teatros de Portugal”:

 

“O Trindade serviu de abrigo a sucessivas companhias de qualidade, desde o Teatro de Arte de Lisboa ao TNP de Ribeirinho, que estreou “À Espera de Godot” de Beckett, da Nova Companhia de Declamação a Amélia Rey Colaço- Robles Monteiro e a Companhia Nacional de Teatro de Couto Viana e voltando atrás, a todos os grande nomes desde Ângela Pinto a Rosas e Brasão, a Palmira , a Vasco Santana e praticamente a todos mais” -  e  incluindo obviamente  Carmen Dolores.

 

Mas não só: encontramos Carmen em 1958/59 no Teatro Avenida então dirigido por Gino Saviotti, na Nova Companhia do Teatro de Sempre, novamente no Trindade com o Teatro Nacional Popular, e no Teatro Moderno de Lisboa, que funcionou no Cinema Império, e ainda na Casa da Comédia, no Teatro Aberto.

 

Paula Gomes de Magalhães escreveu um excelente texto publicado no âmbito das homenagens prestadas no Teatro Meridional e no Teatro da Trindade, a partir do texto de “Vozes Dentro de Mim”, da autoria da própria Carmen Dolores (2017), autora também de “Retrato Inacabado (1984) e de “No Palco da Memória” (2013).

 

E, a partir de “Vozes Dentro de Mim”, tivemos no Trindade, no âmbito das comemorações, um longo monólogo com notável interpretação de Natália Luiza e também notável dramaturgia e encenação de Diogo Infante.

 

DUARTE IVO CRUZ

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