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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

SE HÁ ARTISTA PORTUGUÊS…

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número 2

 

Se há artista português que sentiu, melhor que ninguém, a força da memória, da herança e do património cultural, foi José de Almada Negreiros. Costumava dizer que gostava de olhar para alguma coisa como se fosse a primeira vez, sentir como se não houvesse vez anterior – e por isso desejava sempre que a sua geração pudesse antecipar pudesse funcionar como os primitivos foram para as gerações modernas que se lhes seguiram. No fim da vida, perguntaram-lhe se se sentia velho – e ele respondeu que se fosse assim não teria intitulado o seu painel na Fundação Gulbenkian como “Começar”. Mesmo quando rompeu estrondosamente nas conferências de 1917, nunca deixou de ter uma fortíssima preocupação com a resposta das gerações novas àqueles que nos antecederam, e com a preparação da modernidade dos novos. Conta-se mesmo que houve quem se queixasse a Salazar pelo facto de desenhar saltimbancos nos painéis da Rocha do Conde de Óbidos. António Ferro chegou a ser perguntado pelo facto, mas com inteligência não deu importância ao mal-estar – absolutamente absurdo. Os especialistas consultados manifestaram inteligência nas apreciações – o talento do pintor era inequívoca e os temas adequados. E o tempo veio a confirmar que o Artista tinha toda razão – fazendo o retrato da sociedade tal como ele a via. E os belíssimos painéis são obra-prima em qualquer parte do mundo!

 

Não disse ele em «A Cena de Ódio»?

 

«Larga a infâmia das ruas e dos boulevards 
esse vaivém cínico de bandidos mudos 
esse mexer esponjoso de carne viva 
Esse ser-lesma nojento e macabro 
Esse S ziguezague de chicote auto-fustigante 
Esse ar expirado e espiritista... 
Esse Inferno de Dante por cantar 
Esse ruído de sol prostituído, impotente e velho 
Esse silêncio pneumónico 
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira! 
Larga a cidade e foge! 
Larga a cidade! 
Vence as lutas da família na vitória de a deixar. 
Larga a casa, foge dela, larga tudo! 
Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias! 
Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo! 
A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu! 
Mas larga tudo primeiro, ouviste? 
Larga tudo! 
– Os outros, os sentimentos, os instintos, 
e larga-te a ti também, a ti principalmente! 
Larga tudo e vai para o campo 
e larga o campo também, larga tudo! 
– Põe-te a nascer outra vez!»

 

Por isso Eduardo Lourenço fala do «Estranho arco de vida e arte o que une Almada “Futurista e tudo”, Narciso do Egipto da provocante juventude, ao mago hermético certo de ter encontrado nos anos 40, “a chave” de si e do mundo no “número imanente do universo”».

 

Agostinho de Morais 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

LUÍS DE CAMÕES: A QUEM SEMPRE NOS CONFIAMOS

 

Lindo e subtil trançado, que ficaste

em penhor do remédio que mereço,

se só contigo, vendo-te endoideço,

que fora cos cabelos que apertaste?

 

Aquelas tranças de ouro que ligaste,

que os raios do sol têm em pouco preço,

não sei se, ou pera engano que peço,

ou pera me atar, as desataste.

 

Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,

e por satisfação de minhas dores,

como quem não tem outra, hei-de tomar-te.

 

E, se não for contente meu desejo,

dir-lhe-ei que, nesta regra dos amores,

pelo todo também se toma a parte.

 

A ideia-mater do soneto baseia-se no conceito final: por o todo também se toma a parte. A parte do todo é um lindo trançado (fita para apertar tranças) com que o poeta traça amoroso monólogo.

 

Sonetos Luís De Camões, prefácio, seleção, notas e bibliografia de João de Almeida Lucas, Vice-Reitor do Liceu de D. João de Castro – Livraria Clássica Editora A.M. Teixeira & C.A (FILHOS), Lda.

 

Teresa Bracinha Vieira