Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um dia em Paris, António Tabucchi comprou e leu a tradução francesa de Pierre Hourcade da “Tabacaria” de Álvaro de Campos e foi amor à primeira vista. Então converteu-se a Portugal. Melhor – converteu-se às culturas da língua portuguesa. E a sombra de Pessoa alargou-se… Claro que Maria José teve um papel fundamental, mas a verdade é que, a partir de então, gerou-se um decisivo coup-de-foudre cultural. Hoje, Fernando Pessoa e os heterónimos, com o ortónimo e os semi-ortónimos tornou-se uma referência que ultrapassa fronteiras. O desassossego invadiu o mundo. Profeticamente, ouvimo-lo dizer: “Deve estar para muito breve (…) o aparecimento do poeta supremo da nossa raça, e, ousando tirar a verdadeira conclusão que se nos impõe, pelos argumentos que o leitor já viu, o poeta supremo da Europa de todos os tempos”… Sentimos uma sensação estranha. Se Pascoaes falava dos poetas lusíadas, Pessoa fala apenas de poetas… Pessoa é cosmopolita e vai ao encontro de Shakespeare e de Walt Whitman. E Álvaro de Campos define-se “excelentemente como sendo um Walt Whitman com um poeta grego lá dentro”. Ah! Aí temos a mediação de Alberto Caeiro… As mesmas letras, em ambos, tão diferentes e complementares - A – C… E Almada Negreiros retratou Fernando Pessoa. Fê-lo, aliás, duas vezes em dois lados do espelho. E sobre a mesa está um ícone: o Número 2 de “Orpheu”. Muito se tem dito sobre o movimento que tornou o século XXI uma circunstância que pôs as culturas da língua portuguesa na ordem do dia. Mais do que moda, falamos de capacidade de entender o tempo novo, feito de diferenças, de dúvidas, de perplexidades. Fernando Pessoa e os seus são a ilustração mesma de património vivo de ideias e de diferenças… Oiçamos, de novo, pausadamente este encontro com o Esteves sem metafísica numa Tabacaria que simboliza tudo…
«Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Génio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordámos e ele é opaco, Levantámo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -, Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem, E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. (O dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu».
Nesta alternância entre teatros “históricos” e salas de espetáculo contemporâneas, aí incluindo nas duas categorias a referência à respetiva permanência e atividade, evocamos hoje um Teatro oitocentista efémero, mas nem por isso menos relevante na época em que existiu e funcionou.
A tragédia que o destruiu foi aliás recentemente assinalada, pelo que mais se justifica esta referência.
Trata-se do Teatro Baquet do Porto, cujas obras de construção se iniciaram concretamente em 12 de fevereiro de 1858, foi solenemente inaugurado em 16 de julho do mesmo ano, mas que desapareceu, devido a incêndio, na noite de 20 de março de 1888, em plena atividade e durante um espetáculo. Resultou algo como 120 vítimas mortais, entre espetadores, artistas e demais pessoal.
A designação do Teatro surge-nos hoje algo insólita, mas afinal decorre do nome do próprio responsável pela iniciativa e pela construção do edifício, o luso-francês António Pereira Baquet, alfaiate no Porto. Tinha loja em terrenos situados na mesma localização do edifício do Teatro. E terá contratado a companhia do Teatro do Ginásio de Lisboa para o espetáculo inaugural, a cargo do ator e dramaturgo José Carlos Santos, nome ilustre na época, da geração que marcou a atividade cénica a partir do então já muito relevante Teatro de D. Maria II.
E nesse sentido, podemos aqui evocar a própria estrutura do Teatro Baquet. No exterior, a gravura mostra a fachada muito da época, no conjunto de estátuas evocativas da comédia, da pintura e das artes em geral, sobre a grande varanda do que seria o foyer, como então (por vezes ainda hoje...) se denominava a sala de acesso e convívio do público.
Tudo isto desapareceu na noite de 20 de março de 1888, perante uma sala cheia que assistia a espetáculo de beneficio e homenagem a um ator. Mas não houve espetáculo. A orquestra suspendeu a execução, Segundo descrições da época, o público de início não percebeu o que se passava. E só com o fogo já praticamente incontrolado se deu uma debandada que não evitou a centena de mortes, entre espetadores, artistas e técnicos de palco.
Do Teatro Baquet do Porto resta a memória do desastre e a gravura, que Sousa Bastos incluiu em 1908 no “Diccionário do Theatro Português”, que temos citado e que aliás surgiu recentemente a propósito da evocação da tragédia...
José de Guimarães intitulou esta sua obra como “D. Sebastião e Camões”. São dois símbolos que devem ser lidos, como nos ensinou Eduardo Lourenço, com perspetiva crítica. São duas faces da nossa existência coletiva que devem constituir desafios de exigência e rigor. António Sérgio e Jaime Cortesão refletiram sobre a necessidade de darmos sequência positiva ao melhor do que temos feito. Como? Pela fixação, pela criação de riqueza, menos pela lógica exclusiva do transporte. Contra a ideia de improviso e as curtas vistas – importa aproveitar nas melhores condições as nossas qualidades.
Hoje o “Made in Portugal” começa a ser, no mundo, exemplo de qualidade – na moda, no vestuário, na alimentação, nos vinhos, na investigação científica, nas novas tecnologias, nos serviços, no turismo. Poderemos dar muitos exemplos – mas o culto do rigor, da exigência e do planeamento não podem ser esquecidos. É bom preferir o que produzimos, se isso for sinal de maturidade e de qualidade – não se for protecionismo. Há um longo caminho a percorrer, com trabalho, planeamento, educação, ciência e cultura…
Um dia, António Alçada disse-me que ninguém definiu melhor a pátria do que Alexandre O’Neill no seu poema “País Relativo”. Leia-se verso por verso e veja-se como o poeta de “Feira Cabisbaixa” tem toda a razão. Portugal merece o nosso muito especial afeto pelo que tem de relativo, de imperfeito, mas capaz de ser melhor… António Tabucchi compreendeu-o também ao citar o “Pranto de Maria Parda” e ao chamar a atenção para o picaresco, ao lado do épico e do lírico. Nem melhores nem piores, nem heróis do mar nem lixo – apenas nós, capazes de sermos melhores, com capacidade de nos rirmos de nós mesmos…
«País por conhecer, por escrever, por ler... País purista a prosear bonito, a versejar tão chique e tão pudico, enquanto a língua portuguesa se vai rindo, galhofeira, comigo. País que me pede livros andejantes com o dedo, hirto, a correr as estantes. País engravatado todo o ano e a assoar-se na gravata por engano. País onde qualquer palerma diz, a afastar do busílis o nariz: -Não, não é para mim este país! mas quem é que bàquestica sem lavar o sovaco que lhe dá o ar? Entrecheiram-se, hostis, os mil narizes que há neste país. País do cibinho mastigado devagarinho. País amador do rapapé, do meter butes e do parlapié, que se espaneja, cobertas as miúdas, e as desleixa quando já ventrudas. O incrível país da minha tia, trémulo de bondade e de aletria. Moroso país da surda cólera, de repente que se quer feliz. Já sabemos, país, que és um homenzinho... País tunante que diz que passa a vida a meter entre parêntesis a cedilha. A damisela passeia no país da alcateia, tão exterior a si mesma que não é senão a fome com que este país a come. País do eufemismo, à morte dia a dia pergunta mesureiro: - Como vai a vida? País dos gigantones que passeiam a importância e o papelão, inaugurando esguichos no engonço do gesto e do chavão. E ainda há quem os ouça, quem os leia, lhes agradeça a fontanária ideia! Corre boleada, pelo azul, a frota de nuvens do país. País desconfiado a reolhar para cima dum ombro que, com razão duvida. Este país que viaja a meu lado, vai transido mas transistorizado. Nhurro país que nunca se desdiz. Cedilhado o cê, país, não te revejas na cedilha, que a palavra urge. Este país, enquanto se alivia, manda-nos à mãe, à irmã, à tia, a nós e à tirania, sem perder tempo nem caligrafia. Nesta mosquitomaquia que é a vida, ó país, que parece comprida! A Santa Paciência, país, a tua padroeira, já perde a paciência à nossa cabeceira. País pobrete e nada alegrete, baú fechado com um aloquete, que entre dois sudários não contém senão a triste maçã do coração. Que Santa Sulipanta nos conforte na má vida, país, na boa morte! País das troncas e delongas ao telefone com mil cavilhas para cada nome. De ramona, país, que de viagens tens, tão contrafeito... Embezerra, país, que bem mereces, prepara, no mutismo, teus efes e teus erres. Desaninhada a perdiz, não a discutas, país! Espirra-lhe a morte pra cima com os dois canos do nariz! Um país maluco de andorinhas tesourando as nossas cabecinhas de enfermiços meninos, roda-viva em que entrássemos de corpo e alegria! Estrela trepa trepa pelo vento fagueiro e ao país que te espreita, vê lá se o vês inteiro. Hexágono de papel que o meu pai pôs no ar, já o passo a meu filho, cansado de o olhar... No sumapau seboso da terceira, contigo viajei, ó país por lavar, aturei-te o arroto, o pivete, a coceira, a conversa pancrácia e o jeito alvar. Senhor do meu nariz, franzi-te a sobrancelha; entornado de sono, resvalaste para mim. Mas também me ofereceste a cordial botelha, empinada que foi, tal e qual clarim!»
Celebramos este ano os 130 anos da publicação de “Os Maias”. Ouve-se também algum alarido sobre a leitura dessa obra-prima pelos nossos estudantes do ensino obrigatório. Este ano mesmo, iremos ter iniciativas pedagógicas para chamar a atenção para a importância dos livros e da leitura – e para o exemplo extraordinário que são “Os Maias”.
Sou muito pragmático. Mais importante do que todos os debates, o fundamental é dizer – que deve ler-se mais e que se deve ensinar os nossos jovens a ler, a ler obras, a ler bem e a sentir prazer com a leitura. Tenho muitas vezes feito campanha contra a praga dos resumos das grandes obras. Continuo a insistir nessa minha luta. Porquê? Porque devemos dar o exemplo sobre a virtudes da leitura. E não pode haver prazer no contacto com a boa escrita e o bom uso da língua, se não formos aos originais. Sou, por isso, um fortíssimo partidário da leitura de “Os Maias”, mas não do fingimento a propósito dessa obra mestra de Eça de Queiroz. Por vezes suspeito que se fala da leitura como se fosse um formalismo. Não é, não pode ser. Mas sou suspeitíssimo – porque não sou partidário de um só livro. Faço campanha por Garrett, por Júlio Dinis, por Camilo, por Eça, por Nemésio, por Miguéis, por Saramago, por Lobo Antunes. O meu clube é o da boa leitura, nada mais. Mas também, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Clarice Lispector, Cecília Meireles… E andando para trás leio com inusitado prazer Sá de Miranda, Camões, Vieira, Bocage, Antero, Cesário, Pessanha, Pessoa, Sophia, O’Neill, Ruy Belo, Jorge de Sena… Já aqui disse que o meu padrinho na pia batismal foi o poeta Agostinho da Cruz – não esqueço a sua memória. Há anos Júlio Dinis ficou fora de moda. Puro engano! Não há modas na leitura. Há escrever bem ou escrever mal. Volto à “Morgadinha” com enorme prazer. Vou a S. Miguel de Seide com tanta devoção como vou a Tormes…
E volto a “Os Maias”. É um retrato fundamental do que somos ainda. Eis, pois, o meu conselho – nada deitemos para o cesto dos papéis de boa leitura. Não se dispense “Os Maias”. E não nos ponhamos a fazer comparações estultas. O mal está em não ler. Uma adorada professora de Português que tive pôs-nos a ler a “Ilíada”, a “Odisseia” e a “Eneida”. Todas as semanas havia um dia de leitura. Era um momento inesquecível – do mesmo modo que o era a chegada do “Cavaleiro Andante”, por causa dos continuados. Nesse tempo líamos Homero, contado às crianças e lembrado ao povo, com o mesmo prazer com que começámos a gostar de cinema ou com que esperávamos pela semana seguinte para saber o que tinha acontecido a Tintin… A leitura é isso – é a grande descoberta da vida, da arte, da natureza, da humanidade…
Luís Duran desenhou para os Correios uma magnífica série sobre “Os Maias” – lá estão Afonso da Maia, a representar a sociedade antiga e a tradição que não esquece, mas também Carlos Eduardo e João da Ega, a completarem-se para o bem e para o mal… Se quisermos conhecer bem Eça precisamos de ligar o tédio de Carlos e a loucura de Ega – a desaguarem em Carlos Fradique Mendes. O verdadeiro Carlos completa-se com Ega, daí a importância de Fradique, pedra angular da obra queiroziana… “Os Maias” é um romance sobre a imitação? Talvez seja. Mas a chave do romance está na atitude da geração de 1870 – crítica severa do que se passava numa sociedade periférica que aspirava a integrar-se no mundo civilizado. Imitação e emancipação ligavam-se – numa defesa séria da crítica, como arma contra o conformismo e contra o fatalismo do atraso. Maria Eduarda constitui o elemento picante da receita naturalista, a Condessa de Gouvarinho e Dâmaso Salcede – e as restantes personagens - ilustram as circunstâncias da sociedade estratificada e heterogénea… E Eça de Queiroz descreve magnificamente os acontecimentos e os contextos… E é assim que a leitura se torna apaixonante!
Eis algumas linhas do romance:
«- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela província o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:
- Isto é uma velha carcaça, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de galegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas coisas me põe o coração negro! E como vocês podem falar nisso, a rir, quando se trata do país, desta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de acordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, falemos de outra coisa, falemos de mulheres!
Dera um repelão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixão patriótica...
E no silêncio que se fez Dâmaso, que desde as informações sobre a rapariga do Ermidinha emudecera, ocupado a observar Carlos com religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de finura:
- Se as coisas chegassem a esse ponto, se pusessem assim feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para Paris...
Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sintético de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português! Raspar-se, pirar-se!...
Era assim que de alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor até aos cretinos de secretaria!...
- Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça à fronteira, o país em massa foge como uma lebre! Vai ser uma debandada única na história!
Houve uma indignação, Alencar gritou:
- Abaixo o traidor!
Cohen interveio, declarou que o soldado português era valente, à maneira dos turcos - sem disciplina, mas teso. O próprio Carlos disse, muito sério:
- Não senhor... Ninguém há de fugir, e há de se morrer bem.
Ega rugiu. Para quem estavam eles fazendo essa pose heroica? Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o musculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais covarde raça da Europa?...
- Isso são os lisboetas, disse Craft.
- Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...
A mais miserável raça da Europa! continuava ele a berrar. E que exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em massa no hospital! Com seus olhos tinha ele visto, no dia da abertura das Cortes, um marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia de soldados; as praças tinham literalmente largado a fugir, com a patrona a bater-lhe os rins; e o oficial, enfiado de terror, meteu-se para uma escada, a vomitar!...
Todos protestaram. Não, não era possível... Mas se ele tinha visto, que diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos falazes da fantasia...
- Juro pela saúde da mamã! gritou Ega furioso.
Mas emudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ia falar.
O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os espanhóis porém pensassem na invasão isso parecia-lhe certo - sobretudo se viessem, como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lho dissera. Já havia mesmo negócios de fornecimentos entabulados...
- Espanholadas, galegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e torcendo os bigodes.
- No Hotel de Paris, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia a esperança de se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, quando cá estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que há muitos espanhóis que estão à espera deste aumento de território para se empregarem!
Então Ega caiu em êxtase, apertou as mãos contra o peito. Oh que delicioso traço! Oh que admiravelmente observado!
- Este Cohen! exclamava ele para os lados. Que finamente observado! Que traço adorável! Hein, Craft?
Hein, Carlos? Delicioso!
Todos cortesmente admiraram a finura do Cohen. Ele agradecia, com o olho enternecido, passando pelas suíças a mão onde reluzia um diamante. E nesse momento os criados serviam um prato de ervilhas num molho branco, murmurando:
- Petits pois a la Cohen.
A la Cohen? Cada um verificou o seu menu mais atentamente. E lá estava, era o legume: petit pois a la Cohen! Dâmaso, entusiasmado, declarou isto «chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se abria, a primeira saúde ao Cohen!
Esquecera-se a bancarrota, a invasão, a pátria - o jantar terminava alegremente. Outras saúdes cruzaram-se, ardentes e loquazes: o próprio Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de criança, bebeu à Revolução e à Anarquia, brinde complicado, que o Ega erguera, já com o olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremesa alastrava-se, destroçada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a bocados de ananás mastigado. Dâmaso, todo debruçado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelha inglesa, e daquele fáeton que era a coisa mais linda que passeava Lisboa. E logo depois do seu brinde de demagogo, sem razão, Ega arremetera contra Craft, injuriando a Inglaterra, querendo exclui-la de entre as nações pensantes, ameaçando-a de uma revolução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com acenos de cabeça, imperturbável, partindo nozes.
Os criados serviram o café. E como havia já três longas horas que estavam à mesa, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na animação viva que dera o Champagne. A sala, de teto baixo, com os cinco bicos de gás ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores por entre a névoa alvadia do fumo.
Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e aí recomeçou logo, naquela comunidade de gostos que os começava a ligar, a conversa da rua do Alecrim sobre a bela coleção dos Olivais. Craft dava detalhes; a coisa rica e rara que tinha era um armário holandês do século XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas...
(…)
E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gás dormente luzindo em fila de enterro, Alencar foi falando desses «grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, através das suas frases de lírico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado desse mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou rebentando pilecas de seges em galopadas para Sintra. Sintra era então um ninho de amores, e sob as suas românticas ramagens as fidalgas abandonavam-se aos braços dos poetas. Elas eram Elviras, eles eram Anthonys. O dinheiro abundava; a corte era alegre; a Regeneração literata e galante ia engrandecer o país, belo jardim da Europa; os bacharéis chegavam de Coimbra, frementes de eloquência; os ministros da coroa recitavam ao piano; o mesmo sopro lírico inchava as odes e os projetos de lei...
- Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
- Era outra coisa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares científicos, toda essa palhada filosófica, esses badamecos positivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faísca! Mesmo nessas coisas da política... Vê esse chiqueiro agora aí, essa malta de bandalhos... Nesse tempo ia-se ali à câmara e sentia-se a inspiração, sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia muitíssimo boas mulheres.
Os ombros descaíam-lhe na saudade desse mundo perdido. E parecia mais lúgubre, com a sua grenha de inspirado saindo-lhe de sob as abas largas do chapéu velho, a sobrecasaca coçada e mal feita colando-se-lhe lamentavelmente ás ilhargas.
Um momento caminharam em silêncio. Depois, na rua das Janelas Verdes, o Alencar quis refrescar. Entraram numa pequena venda, onde a mancha
amarela dum candeeiro de petróleo destacava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmido do balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos. Alencar parecia íntimo no estabelecimento: apenas soube que a Sr.ª Cândida estava com dor de dentes, aconselhou logo remédios, familiar, descido das nuvens românticas, com os cotovelos sobre o balcão. E quando Carlos quis pagar a cana branca zangou-se, bateu a sua placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou com nobreza:
- Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palácios os outros pagarão... Cá na taberna pago eu!
(…)
Tirou o chapéu, refrescou a fronte vasta. Depois noutro tom, e como a custo:
- Aquele Ega tem muito talento... Vai lá muito aos Cohens... A Rachel acha-lhe graça...
Carlos parara, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar à severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
- Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou andando por aqui para a minha toca. E quando quiseres, filho, lá me tens na
rua do Carvalho, 52, 3.º andar. O prédio é meu, mas eu ocupo o terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido trepando... A única coisa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de andares...
Teve um gesto, como desdenhando essas misérias.
- E hás de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas hás de ter uma sopa e um assado... O meu Mateus, um preto, (um amigo!) que
me serve há muito ano, quando há que cozinhar, sabe cozinhar! Fez muito jantar a teu pai, ao meu pobre Pedro... Que aquilo foi casa de alegria, meu rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita dessa canalha que hoje por aí trota em coupé da companhia e de correio atrás... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
- Isso são imaginações, disse Carlos com amizade.
- Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não são. Tu não sabes a minha vida. Tenho sofrido muito repelão, rapaz. E não o merecia! Palavra, que o não merecia...
Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada:
- Olha que esses homens que por aí figuram embebedavam-se comigo, emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois ofereceram-te eles um bocado do bolo agora que o têm na mão? Não. Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma embaixada... Mas aí alguma coisa numa secretaria... Nem um chavelho! Enfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meia onça do tabaco... Mas esta ingratidão tem-me feito cabelos brancos... Pois não te quero maçar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos!
- Tu não queres subir um bocado, Alencar?
Tanta franqueza enterneceu o poeta.
- Obrigado, rapaz, disse ele, abraçando Carlos. E agradeço-te isso, porque sei que vem do coração... Todos vocês têm coração... Já teu pai o tinha, e largo, e grande como o dum leão! E agora crê uma coisa: é que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?
Carlos aceitou logo, como um presente do céu.
- Então aí tens um charuto, filho! exclamou Alencar com entusiasmo.
E aquele charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete, fazia-o por um momento voltar aos tempos em que nesse Marrare ele estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo triste. Interessou-se então pelo charuto. Acendeu ele mesmo um fósforo. Verificou se ficava bem aceso. E que tal, charuto razoável? Carlos achava um excelente charuto!
- Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando ele enfim se afastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de fado.
Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o péssimo charuto do Alencar estirado numa chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma chávena de chá, ficou pensando nesse estranho passado que lhe evocara o velho lírico...
E era simpático o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao falar de Pedro, de Arroios, dos amigos e dos amores de então, ele evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fora, estivera para lhe dizer: - podes falar da mamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ela fugiu com um italiano!
E isto fê-lo insensivelmente recordar da maneira como essa lamentável história lhe fora revelada, em Coimbra, numa noite de troça, quase grotescamente. Por que o avô, obedecendo à carta testamentária de Pedro, contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, incompatibilidades de naturezas, uma separação cortês, depois a retirada da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A morte de seu pai fora-lhe apresentada sempre como o brusco remate duma longa nevrose...
Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceado ambos; Ega muito bêbedo, e num acesso de idealismo, lançara-se num paradoxo tremendo, condenando a honestidade das mulheres como origem da decadência das raças: e dava por prova os bastardos, sempre inteligentes, bravos, gloriosos! Ele, Ega, teria orgulho se sua mãe, sua própria mãe, em lugar de ser a santa burguesa que rezava o terço à lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor dum exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não pôde interrogar o Ega, que já taramelava, agoniado, e que não tardou a vomitar-lhe ignobilmente nos braços. Teve de o arrastar à casa das Seixas, despi-lo, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando - «que queria ser bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»
E ele mal pudera dormir essa noite, com a ideia daquela mãe, tão outra do que lhe haviam contado, fugindo nos braços dum desterrado - um polaco talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, pela sua grande amizade, a verdade toda...
Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado na cabeça com panos de água sedativa: e não achava uma palavra, coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, tranquilizou-o. Não vinha ali ofendido, vinha ali curioso! Tinham-lhe ocultado um episódio extraordinário da sua gente, que diabo, queria sabe-lo! Havia romance? Para ali o romance!
Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua história - a que ouvira ao tio Ega - a paixão de Maria por um príncipe, a fuga, o longo silêncio de anos que se fizera sobre ela...
Justamente as ferias chegavam. Apenas em Sta. Olávia, Carlos contou ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquela revelação vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem pôde falar - e a voz por fim veio-lhe tão débil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance todo até àquela tarde em que Pedro lhe aparecera, lívido, coberto de lama, a cair-lhe nos braços, chorando a sua dor com a fraqueza duma criança. - E o desfecho desse amor culpado, acrescentara o avô, fora a morte da mãe em Viena da Áustria, e a morte da pequenita, da neta que ele nunca vira, e que a Monforte levara... E eis aí tudo. E assim, aquela vergonha domestica estava agora enterrada, ali, no jazigo de Sta. Olávia, e em duas sepulturas distantes, em país estrangeiro...
Carlos recordava-se bem que nessa tarde, depois da melancólica conversa com o avô, devia ele experimentar uma égua inglesa: e ao jantar não se falou senão da égua que se chamava Sultana. E a verdade era que daí a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possível sentir por esta tragédia senão um interesse vago e como literário. Isso passara-se havia vinte e tantos anos, numa sociedade quase desaparecida. Era como o episódio histórico de uma velha crónica de família, um antepassado morto em Alcácer-Quibir, ou uma das suas avós dormindo num leito real. Aquilo não lhe dera uma lágrima, não lhe pusera um rubor na face. De certo, preferiria poder orgulhar-se de sua mãe, como duma rara e nobre flor de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se com os seus erros. E porque? A sua honra dele não dependia dos impulsos falsos ou torpes que tivera o coração dela. Pecara, morrera, acabou-se. Restava, sim, aquela ideia do pai, findando numa poça de sangue, no desespero dessa traição. Mas não conhecera seu pai: tudo o que possuía dele e da sua memória, para amar, era uma fria tela mal pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de grandes olhos, com luvas de camurça amarelas e um chicote na mão... De sua mãe não ficara nem um daguerreótipo, nem sequer um contorno a lápis. O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pai, mãe, eram para ele como símbolos dum culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam ali todos - no avô.
Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; - e ele continuava na chaise-longue, como amolecido nestas recordações, e cedendo já, num meio adormecimento, à fadiga do longo jantar... » (Capítulo VI).
E discutia-se se a alma deveria ter acesso a cuidados paliativos ou a alguma competência específica que lhe acudisse na dor. Falava-se em várias especializações da medicina contemporânea que podiam abordar a temática, mas sobrepunha-se a objetividade, agora tolerante, que, levava a que a alma fosse vista como uma espécie de fatalidade que em nós vive, e, que a dor física enquanto fenómeno universal se não podia reconduzir a fatalidades, nem que se deitasse mão a teologias ou a filosofias. De resto, houve mesmo quem dissesse que então, a existência da alma era um mal em nós, já que atormentava a todos, e que afinal, era ela bicho-homem em dor de invencível natureza.
Olhando a todos, disse baixinho
Mas a alma chora de dor e é muito difícil não lhe acudir pois ela mostra-nos, como ninguém, no amor.
Alguém acrescentou
Sempre podemos fazer-lhe uma cura de sono para as dores mais insuportáveis, ou até para quem a não queira deixar partir em fase terminal, poderemos sempre anestesiá-la ou induzir-lhe um coma. É uma tranquilidade para todos. A medicina até pode criar sub alternativas dentro deste saber. Mas atenção! o sofrimento moral e físico, unidos, são uma falta de compaixão da alma, por abandono dela, da pessoa amada. A dor da alma, em pensamento – já ouvi dizer - tem uma figura estranha e difusa, de tal modo que as biopsias não lhe encontram o certeiro lugar para se efetuarem e delas sair diagnóstico.
Não concordo, disse eu
Desculpem, nada sei de medicina, teologia ou filosofia, mas a alma quando chora expõe lugar e respirar e pode ser detetada pelo estetoscópio dos olhos. A alma quando se contém em dor é insónia em destroçado ponto de interrogação. A alma dá sintomas quando feliz ou doente. Sente-se nela um pulso irregular quanto baste à interpretação. E que se não sugira ver a alma através das ressonâncias magnéticas e assim averiguar local ou posto dentro do corpo, pois ela tem poderes para escapar ao contraste que existe para se efetuarem estes exames.
Então e como se faz, na sua douta opinião, perguntaram-me em desafio
Pois não sei. Nem sei qual a terminologia que exprime as dores da alma. É muito difícil de dizer, mas sei que ela pode morrer. Por exemplo, morrer de amor, mas não só, morrer de abandono o que é terrível. E não acham que deveríamos ter antecipado a atenuação da sua dor enquanto ela insistentemente se queixava? E quando a alma se ri? qual o aparelho que sugerem para registar o estado da felicidade para que de futuro se use como paliativo, se necessário? Qual a análise ou exame de ADN que é avaliado na doçura de um sentimento vital da alma? Acho e só acho, que, a dor da alma há-se ser algo que fica cativa num órgão, e esse órgão é o cérebro que requer o que o coração bombeia. Quando lá está, enquanto dor, há-se ocupar um espaço anteriormente vazio - pois enquanto felicidade ela é ar. Então, se se procurasse esse espaço e ele estivesse cheio, era como encontrar o local e formato da dor, e decifrar a partir daí, a partir de uma infinidade de pontos, o fio do seu discorrer. Pelo menos surgiria o início de um horizonte de inteligibilidade. Não? Mas não procurem circunvoluções: a alma não tem, é diferente. Acho que é algo sensorial, algo que sentimos viver, padecer e morrer e ainda que pertença ao corpo tende a identificar-se com uma essência que lhe atribui ou retira a vontade de viver. A alma é uma força que se rende ou não ao conhecimento dos limites.
Não cabe à medicina, ouviu-se em coro. Ou cabe, no que a psicologia e a psiquiatria propõem. E noutro apontamento
Deus dirá, um dia. E continuaram uns
E a literatura e as artes em geral não lhe são irresistíveis em tratamento adequado? Como quem conta uma história em doses de prescrição certeiras?
E outros
Nem se lhe imputa culpa por não caber à medicina o seu tratamento. Só a felicidade é salutar ao corpo: a dor retira-lhe a energia. Isso sabe-se. Resta saber se verdadeiramente a alma viver no cérebro, é ela assim mais útil ao homem do que se viver no lugar do não se sabe
Ainda somei
E desse lugar, deitar ela mão a uma mãe que a console com atos e palavras, qual remédio sem prole, mas que vá confortando, como só reconforta, quem, em bondade, for a última testemunha da vida. Quanta expectativa!
Elmano Sadino é o nosso árcade simultaneamente mais conhecido e mais incompreendido. É por certo aquele cuja vida mais próxima se encontra de Camões, mas a sua epopeia atribulada chegou até nós cheia de sombras, que levam muitos a não reconhecer as suas absolutas qualidades. Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é, na sua época e no conjunto da cultura portuguesa, alguém que associa plenamente o lirismo, a tragédia marítima e o picaresco do escárnio e maldizer, nesses pontos pode dizer-se é um português paradigmático, que nos permite apreender qualidades e limitações, e a consciência plena de que não temos um carácter idealizado, mas as virtudes e defeitos de uma natural imperfeição, com uma capacidade aventureira multifacetada e tantas vezes inesperada. Hoje cuidamos dos seus escritos educativos, na tradição de Esopo (620 a. C, - 564 a. C,), Fedro (século I, d. C.) e La Fontaine (1621-1695). Aí encontramos em poesia cuidada a interrogação sobre o género humano, através da rica metáfora dos animais… E eis como Bocage se revela um educador fino – claríssimo, pedagógico, cultor essencial da língua pátria. O português é esmerado, por parte de alguém que cultivou como poucos a palavra certa e a ideia clara e distinta. Veja-se, aliás, um primeiro exemplo, no célebre poema “A Raposa e as Uvas”. Como os melhores clássicos, não diz de mais nem de menos. Apenas a palavra que se espera, sem desperdício algum. E quando pensamos que a sentenciosa raposa já tudo disse, eis que se deixa enganar pela subtil parra que lhe cai no caminho…
«Contam que certa raposa, Andando muito esfaimada, Viu roxos, maduros cachos Pendentes de alta latada.
De bom grado os trincaria, Mas sem lhes poder chegar, Disse: “Estão verdes, não prestam, Só os cães os podem tragar!”
Eis cai uma parra, quando Prosseguia seu caminho, E, crendo que era algum bago, Volta depressa o focinho».
E sobre um leão e um porco, aqui nos fala. Não cuidemos, porém, de uma visão literal. Do que aqui se fala é da gente que sem emenda persiste nos erros, sem cuidar de aprender com a experiência e de aproveitar as boas oprtunidades…
«O rei dos animais, o rugidor leão, Com o porco engraçou, não sei por que razão. Quis empregá-lo bem para tirar-lhe a sorna (A quem torpe nasceu nenhum enfeite adorna): Deu-lhe alta dignidade, e rendas competentes, Poder de despachar os brutos pretendentes, De reprimir os maus, fazer aos bons justiça, E assim cuidou vencer-lhe a natural preguiça; Mas em vão, porque o porco é bom só para assar, E a sua ocupação dormir, comer, fossar. Notando-lhe a ignorância, o desmazelo, a incúria, Soltavam contra ele injúria sobre injúria Os outros animais, dizendo-lhe com ira: «Ora o que o berço dá, somente a cova o tira!» E ele, apenas grunhindo a vilipêndios tais, Ficava muito enxuto. Atenção nisto, ó pais! Dos filhos para o génio olhai com madureza; Não há poder algum que mude a natureza: Um porco há de ser porco, inda que o rei dos bichos O faça cortesão pelos seus vãos caprichos».
Não esqueço as minhas raízes Azeitonenses, e ainda para mais a ancestralidade liga-me a Elmano Sadino, pelos Barbosas. E fui encontrá-lo na Índia em Damão e depois em Macau. Eis por que razão Setúbal não deve ser aqui esquecida. Bocage amigo, corre-te nas veias o mesmo sangue de Fernão Mendes do Pragal!… Dói-me tantas vezes a indiferença… Não esqueço o juízo do elefante perante o discurso do burro. E que tal desdita não se apresente aqui. Lembremos sim o nosso grande poeta!
Hoje o Património Cultural chega ao mundo dos jogos… Todos nos lembramos das tardes chuvosas de inverno, em que íamos buscar as caixas de jogos, avultando entre estes – a Glória. Entre nós, no século XIX, designou-se como Jogo da Glória, com adaptações (90 casas em vez de 63), o que era conhecido na Europa como “Jeu de l’Oie” ou “Juego de la Oca”. Este teve origem na Índia e representa originalmente o percurso da vida e da morte – com as diversas vicissitudes da existência: desde o sucesso ao fracasso, prémios e castigos, virtudes e pecados, considerando ainda a morte, o purgatório e o inferno. O Ganso é o símbolo e a referência universal do jogo. Estamos perante uma progressão em espiral (jogando-se com dois dados e peças de várias cores), mas alguns recordam que a origem é a roda do hinduísmo (Samsara), completada pela referência à filosofia budista do Nirvana (presente na consumação do jogo). Na Europa a primeira referência conhecida do que entre nós designamos como Jogo da Glória data de 1617 na obra de Pietro Carrera sobre jogos de mesa. Depois de referir a antiguidade do jogo do xadrez, afirma que estoutro é muito lúdico, tendo sido popularizado em Florença e oferecido por Francisco I a Filipe II de Espanha e I de Portugal. Recorde-se que se discute a origem do xadrez, segundo uns a China, segundo outros a Pérsia. No século XIV na Europa atualizaram-se as suas regras, tal como hoje as conhecemos – e o xadrez tornou-se ciência. Voltando ao Jogo da Glória, deve dizer-se que no início do século XVII conheceu uma grande voga em toda a Europa – sendo conhecido pela designação francesa “Jeu de l’Oye, renouvelé des Grecs”. O nome deve-se à ideia de que se trata de um jogo indo-europeu adaptado pelos clássicos helénicos. Ao escrever “O Testamento de um Excêntrico”, Júlio Verne (1899) baseia o enredo num Jogo da Glória, no qual um milionário decide atribuir a sua fortuna a quem ganhar um jogo que se desenrola nos diversos estados norte-americanos, partindo de Providence (Rhode Island), com chegada a Chicago (illinois). Selma Lagerlof usa o Ganso como o transporte aéreo de Nils Holgersson para dar a conhecer a Suécia aos jovens estudantes (em 1906 e 1907). Já no decurso do século XX, em Portugal, o jogo foi popularizado pela marca Majora, fundada em 1939, no Porto, por Mário José António de Oliveira, pioneira na produção de brinquedos – e na publicação de pequenos contos tradicionais. Os anos 50 foram fundamentais para a consolidação da iniciativa que se apresentou ao mercado com os cubos da Carochinha, o Rapa o Tacho e a Roda da Sorte. O primeiro jogo de tabuleiro da Majora foi o Pontapé ao Goal (a palavra ainda aparecia assim grafada, antes da forma Golo). Depois apareceu o Sabichão na década de 60 há 54 anos. Até 1992 a Majora produziu sob licença o Monopólio (Monopoly), editado pela Hasbro. São célebres o Mikado, o Loto, as Damas, o Gamão, além do Jogo da Glória, que totalizaram cada um mais de 1.5 milhões de unidades vendidas. Em março de 2013 a empresa de brinquedos encerrou a fábrica no Porto, tendo sido adquirida com o seu espólio em 2014 por um fundo que entretanto retomou a atividade.
Nada melhor hoje do que invocarmos Ricardo Reis…
A magia do jogo entra em contradição com a vida.
E que são os jogos senão a busca vã da glória e a interrogação indiferente sobre a morte e a vida?…
Zygmunt Bauman, ao contrapor os exemplos do caçador e do jardineiro, põe a tónica na ligação necessária entre conhecimento e sabedoria. O caso do semeador ou do jardineiro, de facto, é muito fecundo. Falamos da essência da criação pela cultura. Muitas têm sido as iniciativas deste Ano Europeu do Património Cultural. E todos somos chamados a assumir a capacidade de garantirmos que quando recebemos o património material, natural ou contruído, e imaterial, bem como a criação contemporânea, estes devem ser preservados, protegidos, beneficiados e transmitidos nas melhores condições às gerações futuras. Não esqueçamos a etimologia que liga patres e múnus – o serviço do que recebemos de nossos pais. Eis porque o conceito de património cultural é dinâmico. A atenção e o cuidado têm de estar bem presentes, em especial quando tratamos do património onde quer que se encontre, na esfera pública ou privada, civil ou religiosa. Não deixar ao abandono esse património, significa protegê-lo – e essa proteção leva a cumprir algumas regras muito simples, mas essenciais:
(a) antes do mais, ter os bens com valor patrimonial em segurança;
(b) não deixar tais bens sem vigilância, sobretudo quando houver presença de público;
(c) só entregar a conservação e o restauro a especialistas com provas dadas;
(d) recusar intervenções de amadores ou de meras boas intenções;
(e) no caso de dúvida sobre o que fazer, consultar especialistas;
(f) sempre que há um bem ou uma peça em perigo deve ser guardada até que haja condições para ser restaurada nas melhores condições;
(g) realizar inventários rigorosos, que permitam conhecer o que existe e as suas características fundamentais;
(h) realizar fotografias e ter uma identificação precisa do que existe.
Lembremo-nos que uma medida tão simples como o fecho dos templos ou edifícios históricos quando não há um vigilante presente, permitiu uma redução drástica dos furtos, assaltos ou degradação de bens patrimoniais. Do mesmo modo, o projeto SOS Azulejo, que obteve o Grande Prémio da Europa Nostra também permitiu, graças a medidas de prevenção, uma proteção efetiva de conjuntos com valor histórico e artístico.
Muitas vezes, mais importante do que mobilizar ou reclamar vultuosos meios financeiros, torna-se essencial cumprir procedimentos simples que evitam perdas irreparáveis. Usar tintas ou colas desadequadas, utilizar materiais não aconselháveis, recorrer ao cimento armado sobre pedra, não usar dos mesmos materiais originalmente utilizados, – tudo isso pode ter como consequência a destruição irremediável de bens patrimoniais que duraram vários séculos e que mercê de uma intervenção errada são destruídos. É mais importante ter um inventário estudado e atualizado do que tentar fazer pseudo-restauros por amadores com consequências irreparáveis. Paralelamente, é importante dar a conhecer o património existente, através de ações pedagógicas com escolas ou associações da sociedade civil. Segundo o Euro-barómetro, publicado a propósito do Ano Europeu, os portugueses salientam-se pela positiva no reconhecimento da importância e do valor do património, mas também pela negativa ao terem sido dos menos classificados quanto a visitas a museus ou a ações concretas em prol do património cultural.
Lembremos a poesia de Afonso Lopes Vieira, sobre um jardineiro…
«Não há jardineiro assim, Não há hortelão melhor Para uma horta ou jardim, Para os tratar com amor.
É o guarda das flores belas, da horta mais do pomar; e enquanto brilham estrelas, lá anda ele a rondar...
Que faz ele? Anda a caçar os bichos destruidores que adoecem o pomar e fazem tristes as flores.
Por isso, ficam zangadas as flores, se se faz mal a quem as traz tão guardadas com o seu cuidado leal.
E ele guarda as flores belas, a horta mais o pomar; brilham no céu as estrelas, e ele ronda, a trabalhar...
E ao pobre sapo, que é cheio de amor pela terra amiga, dizem-lhe que é feio e há quem o mate e persiga
Mas as flores ficam zangadas, choram, e dizem por fim: - «Então ele traz-nos guardadas, e depois pagam-lhe assim?»
E vendo, à noite, passar o sapo cheio de medo, as flores, para o consolar, chamam-lhe lindo, em segredo...»
Joaquim Sapinho foi convidado para revisitar as reservas do Museu Gulbenkian para dar a sua leitura da coleção.
PERANTE A INTERROGAÇÃO DO TEMPO
Perante o relógio de bolso, desenhado por René Lalique, que Calouste Gulbenkian usava quando morreu, na sua caixa original, tomamos consciência do escrúpulo do colecionador em muito mais do que uma galeria de curiosidades. É o génio de um homem multifacetado e apaixonado pelo mundo e pela humanidade que encontramos – e aquele relógio é símbolo do tempo, o grande mistério da vida humana. Joaquim Sapinho é um cineasta de créditos firmados. A sua paixão pelos museus e pelas coleções levou-o a ser convidado para uma leitura pessoal sobre as reservas de um Museu especial e sobre o fabuloso percurso de Calouste Sarkis Gulbenkian, ao longo de uma vida, que lhe permitiu reunir uma das mais importantes coleções de arte do mundo. E o certo é que essa coleção constituiu para Sapinho desde muito cedo uma referência – “era o museu da minha infância, um modelo de museu para a minha vida inteira”. E assim imaginou uma intervenção que partiu de um mergulho nas suas memórias antigas, sentindo-se de novo criança ao entrar nas reservas da coleção, como se regressasse à leitura de “Tintin e os Charutos do Faraó”. E assim encontrou notícias incríveis de outros espaços com ramificações infinitas, colocando-se na pele do colecionador apaixonado. Partindo das moedas de ouro gregas, revela-nos como Calouste Gulbenkian mandou fazer uma caixa e depois encomendou à casa Louis Vuitton um estojo para transportar esse precioso tesouro. E é a ideia de viagem que o homem da imagem quis apresentar como paradigma do Museu. Mas não há apenas a viagem física, há igualmente a viagem no tempo e no espaço. “Eu parado com uma obra, viajo. Ao olhar para as moedas, imagino Gulbenkian a brincar com elas e a dar a mão a alguém na Grécia Antiga ou em Siracusa”. Os cadernos, as listas, as contas, os pequenos objetos, tudo identifica uma personalidade de exceção – capaz de aliar a formação científica e técnica, o sentido do negócio e a sensibilidade artística. Quando se fala de Património Cultural, aí está a capacidade de compreender um nexo de continuidade, em que cada nova geração vai acrescentar valor ao que recebeu, em conhecimento e em cuidado. E lembramo-nos de Mortimer, de E. P. Jacobs, no Cronoscafo, a máquina de “Armadilha Diabólica”, que permitia viajar no tempo, como em H. G. Wells, apesar de alguns pequenos e perturbadores enganos de percurso e de época. Joaquim Sapinho usou de um grande rigor nessa viagem no tempo – começando com as imagens captadas pela Pathé Filmes em 1928 na inauguração da capela de S. Sarkis em Londres, que Gulbenkian mandou construir em memória de seus pais. Só compreendemos o tempo através da memória.
COMO O TÚMULO DE UM FARAÓ
“As reservas deste museu são como o túmulo de um faraó – cheias de tesouros, mas também de objetos pessoais que nos ajudam a compreender como viveu, que mundo era o seu, em que é que acreditava” – esclarece o curador (Público, 20.7.18). Ao depararmos com a imagem do século XVIII que representa Eneias a fugir de Tróia, depois da vitória dos gregos, apercebemo-nos de que o herói transporta com ele Anquises, que carrega os deuses do lar em pequenas esculturas. Joaquim Sapinho dá um especial sentido a esta presença. Não é só a essência da noção de património que está em causa, o serviço (múnus) relativamente aos nossos pais (patres), mas também a experiência de cada um, ora para Gulbenkian na capela de Londres, ora para o próprio cineasta na lembrança pessoal do seu próprio pai (com quem começou, aliás, a nossa amizade). Gulbenkian é como Eneias e os deuses que Anquises transporta representam a extraordinária coleção que está em Portugal, ao serviço do mundo. De facto o Museu em Lisboa foi uma opção do próprio fundador para que o usufruto da magnífica coleção não passasse despercebida, integrada em qualquer outro grande museu. E o que agora se mostra é uma excecional câmara de maravilhas – que constitui um convite à viagem, desde a Anatólia, como Eneias, até à criação de um lugar de chegada, que pudesse ser um apelo contante à partida, pelo conhecimento e pela compreensão das diferenças. Lisboa não é um acaso, é um lugar de partidas para o mundo e a cidade simétrica de Bizâncio. Gulbenkian sentiu isso e Azeredo Perdigão soube interpretá-lo muito bem. Quem não compreender isso perde o essencial. As peças são múltiplas e fascinantes: a lista do que se encontrava na secretária do quarto da avenue d’Iéna, 51 toca-nos. E há tudo o mais: as fotografias do avô e do pai, os passaportes e vistos diplomáticos (um em especial ilustra o desencontro com o Reino Unido), a placa da Chancelaria da Legação Imperial do Irão, um pequeno pássaro embalsamado, um tapete de oração otomano, moedas de Constantinopla, o precioso fragmento de um livro de horas do século XV (uma nota muito especial de espiritualidade), desenhos de Fragonard, panejamentos que pertenceram a Maria Antonieta… Veja-se, aliás, a carta que Gulbenkian envia a John Walker, conservador da National Gallery de Washington. Estamos perante a cabal demonstração de que o atual Museu realiza o desígnio do colecionador, encarando as obras da sua coleção como “filhas”, que não deveriam perder a sua identidade e companhia, não se misturando num grande museu ou não ficando separadas entre si e do público. O fundador deseja que o seu Museu seja vivo, tenha pessoas e seja um fator de encontro de civilizações e cultura.
SÓ O MELHOR!
O exercício agora feito por Joaquim Sapinho completa um longo caminho de estudos e investigações. Como não tinha sido feito antes, vai-se ao encontro de Calouste Sarkis Gulbenkian não apenas como genial homem de negócios ou como colecionar ímpar, mas como representante de um diálogo entre culturas e espiritualidades que na cidade de Lisboa sentiu de outro modo a magia de Istambul. Recordo bem, como Orhan Pamuk me disse maravilhado na Biblioteca de Arte da Gulbenkian que tinha visto aí originais sobre a cidade do Bósforo que antes não vira no seu esplendor. A cada passo, sentimos a tentativa de construir a casa ideal. Mas a perfeição é impossível. Calouste diz à mulher: “Prometi-te um palácio, não te prometi a felicidade”… Eis o que sentimos neste exercício de espanto. Procuramos o homem insatisfeito, mas nunca desistente. Por isso, vamos descobrindo a outra face do génio, que deseja legar à posteridade a demonstração de que uma sociedade melhor é possível. Se dizia aos seus colaboradores que só queria o melhor (“Only the best!), fazia-o projetando um futuro em que a felicidade pudesse ser conquistada com passos persistentes. Daí os quatro cavalos que constituem o símbolo da Fundação Gulbenkian: Arte, Educação, Ciência e Beneficência. Trata-se de um nómada muito especial. Quando parte de Constantinopla para o mundo não esquece que a viagem é um modo de encontrar os outros e de se encontrar a si próprio. Joaquim Sapinho compreendeu-o bem, exigindo que prossigamos na capacidade de perceber melhor a importância do homem e da instituição que criou e de um sentido aberto e cosmopolita apaixonante…
O quadro de Ticiano diz tudo. O Sacro Imperador Carlos V de Habsburgo, I das Espanhas, depois da morte de sua mulher, apenas ficou com esta memória física realizada por Ticiano – que não me canso de visitar no Prado! A melhor das obras-primas! Como S. Francisco de Borja, o Duque de Gândia, disse e Sophia de Mello Breyner deixou escrito em letras de oiro – Isabel era a projeção sublime da beleza eterna. Não há, assim, muitos comentários a fazer… Quando morreu em 1539, com 36 anos, a Imperatriz estava no auge da sua beleza e do seu poder, sendo estimada e respeitada por todos na Alemanha e na Europa. Carlos V decidiu que Francisco de Borja deveria acompanhar os restos mortais de D. Isabel até ao panteão real de Espanha, em Granada. Aí chegados, quinze dias depois, e sob um sol abrasador, Francisco de Borja teve que reconhecer o corpo já em adiantado estado de decomposição. Nessa altura refletiu profundamente sobre a fragilidade das glórias do mundo e decidiu que só valia a pena amar a Deus, o único ser que é eterno: nunca mais amarei quem não possa viver sempre! No Escorial reclinado durante a noite o Imperador, quando acordava, podia ver o quadro de Ticiano e com ele recordar o grande amor de Isabel de Portugal…
Oiçamos Sophia…
«Nunca mais a tua face será pura limpa e viva, nem teu andar como onda fugitiva se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer. A luz da tarde mostra-me os destroços do teu ser. Em breve a podridão beberá os teus olhos e os teus ossos tomando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viver sempre, porque eu amei como se fossem eternos a glória, a luz e o brilho do teu ser, amei-te em verdade e transparência e nem sequer me resta a tua ausência, és um rosto de nojo e negação e eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
Nunca mais te darei o tempo puro Que em dias demorados eu teci Pois o tempo já não regressa a ti E assim eu não regresso e não procuro O deus que sem esperança te pedi».