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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Diário de Agosto * Número Extra 

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  TU CÁ TU LÁ

  COM O PATRIMÓNIO 

 

Escrevo ainda de Vila Nogueira de Azeitão, junto de meus Manes e Penates. Há uma leve brisa, mas o calor ainda se não desvaneceu, apesar de estarmos a caminhar para o Equinócio de Outono. Ao fim de trinta e três postais e de outras tantas citações de poemas ou textos de referência, escolhi agora para terminar a série este coelho atrevido de Amadeo de Souza-Cardoso. Acompanha-me há muito. É o símbolo de um entendimento do património cultural em que os tempos se associam e dialogam – ligando sempre o antanho e a contemporaneidade. Procurei, ao longo deste tempo, dizer que o património cultural, começa nos nossos genes que se transmitem pelas gerações, continua no que somos e fazemos, dando vida ao que recebemos e transmitimos e termina na nossa vida do dia a dia. Ontem quando caminhava pela minha querida Arrábida, dei-me a dialogar com Frei Bernardino, cujo espírito está bem presente por aqui. E recitei intimamente um poema de meu padrinho e homónimo Frei Agostinho da Cruz. Mas quando cheguei a casa corri a reler Pedro Tamen e algumas recordações de João Bénard da Costa… Com deleite ali fiquei. Que é a vida da cultura senão esta possibilidade de gozar a paisagem, de percorrer os caminhos ancestrais, de dialogar com os espíritos e de regressar à terra, aos nossos dias. Antes de entrar em casa tive dois dedos de conversa com um vizinho simpático, preocupado com a mudança da hora que me disse ser a ignorância muito atrevida: “Venham aqui para o campo às nove da manhã com noite fechada no inverno e digam-me se isso está bem?”…  Dei-lhe uma nota do meu amigo Rui Agostinho a dizer que tinha toda a razão – e acabámos a falar do tempo em que era o relógio de sol que marcava o tempo… Hoje, aqui estou com um bom pão caseiro como já só encontro aqui, boa compota de marmelo, um queijinho delicioso e um moscatel… Folheio papeis antigos e dou-me com o meu querido Padre António Vieira, que é a melhor maneira de ver com olhos de ver o que nos rodeia…

 

«E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho.
(...) Em nenhuns reis do mundo se vê isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das três partes do mundo a nações estranhas, foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito fácil e muito felizmente; mas repartir três palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfação deles, foi impossível, que nenhum rei pôde acomodar, nem com facilidade, nem com felicidade jamais. Mais fácil era antigamente conquistar dez reinos na Índia, que repartir duas comendas em Portugal. Isto foi, e isto há de ser sempre: e esta, na minha opinião, é a maior dificuldade que tem o governo do nosso reino».

 

  Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 3 a 9 de setembro de 2018

 

«Dramas Imperfeitos – Teatro Clássico Português: Um Repertório a Descobrir» (Eos edições, 2017) de Silvina Pereira é um conjunto de pequenos ensaios que constitui um excelente apelo aos nossos educadores e estudiosos para que o Teatro Clássico português seja lembrado, lido e representado.

 

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PRODÍGIOS E ÉPOCAS FABULOSAS

Almeida Garrett disse, num fundamental discurso parlamentar: “ai da nação que não crê cegamente, e com preconceitos ainda, na sua história (…) e nos prodígios e milagres de suas épocas fabulosas” (1.3.1867). O que o mestre quis dizer foi que sem passado e sem memória não há futuro. A citação é feita por Silvina Pereira em Dramas Imperfeitos. O conjunto de pequenos ensaios que constitui esta obra é um excelente apelo aos nossos educadores e estudiosos para que o Teatro Clássico português seja lembrado, lido e representado. Para além das discussões sobre o que se lê, o que se não lê e o que deveria ler-se, importa que se ponha à disposição de todos a extraordinária matéria-prima da nossa cultura. Não esqueço, ao longo da minha vida, e desde os tempos do Liceu de Pedro Nunes, o exemplo de quem muito me marcou, através do contacto com os clássicos, a começar no teatro. Glória de Matos foi minha professora de teatro. Maria do Céu Novais de Faria marcou profundamente todos quantos fomos seus alunos, ligando intimamente a literatura, o teatro e o bom uso da língua – como fatores naturais de conhecimento e sabedoria. Maria Germana Tânger ensinou que o dizer dos clássicos nos ensina a usar a língua como marca de cidadania… No prefácio aos Dramas, José Augusto Cardoso Bernardes põe o dedo na ferida, ao defender: “o alargamento dos textos literários estudados na Escola, sem que isso implique um aumento de tempo que, no geral, lhes é consagrado. Insisto em que não se trata de reivindicar mais horas para a Literatura; trata-se de tentar que o tempo que já hoje lhe é destinado seja objeto de um aproveitamento diferente, visando dois propósitos conjugados: proporcionar mais oportunidades de contacto com textos e escritores menos considerados e abrir possibilidades de leitura, para além do tempo escolar”. Eis a chave do problema. Isto é muito mais importante do que cairmos no puro formalismo das leituras obrigatórias, que poderão agravar uma praga contra a qual continuo a combater, que é a dos resumos – sem contacto com os textos originais. Concordo plenamente com Cardoso Bernardes, do mesmo modo que discordo das propostas de aumento de horas para matérias específicas. E concordo com a “possibilidade de incorporação nos programas de textos devidamente antologiados e acompanhados de informação histórico-literária”. Não esqueço que a criação da Rede das Bibliotecas Escolares (na origem, com Teresa Calçada) e a ligação ao Plano Nacional de Leitura têm constituído contributos decisivos para considerar a Escola, mais do que um conjunto de disciplinas e áreas separadas entre si, como uma comunidade onde o diálogo entre saberes se constitui em fator de enriquecimento mútuo e de descoberta do mundo da vida. Diga-se, aliás, que esta visão de conjunto tem a ver com a criação cultural assim como com a formação cívica. António Sérgio ensinou-nos, por isso, que a Educação Cívica tinha a ver com a República Escolar – e esta não poderia ter existência se não houvesse cidadania cultural, liberdade e responsabilidade.

 

A IMPORTÂNCIA DO TEATRO

Tudo o que refiro tem a ver com a importância do teatro. Desde tempos imemoriais, estamos perante um meio com efeitos pedagógicos incontestáveis. Por isso, mestre Gil foi “habilíssimo em dizer verdades disfarçadas entre facécias; Gil acostumado a censurar (maus) costumes entre leves gracejos” – no dizer de Lúcio André de Resende. Como lembra Silvina Pereira, “as palavras são ações e intenções”, trabalhando o encenador “de acordo com as exigências do seu próprio tempo e da plateia a que se destina”. E como disse Peter Brook: “a peça não pode ‘falar por si mesma’, é preciso ‘extrair-lhe o sentido’, saber ‘fazê-la cantar’ – e esse desígnio realiza-se com a sua representação”. E quanto aos clássicos, importa manter vivo o acervo dramático fundamental de uma língua e literatura tão antigas… Quem encontramos nos textos desta obra? Gil Vicente, Sá de Miranda, António Ferreira, António Ribeiro (o Chiado), Diogo de Teive, Baltazar Dias, António Prestes, Luís de Camões, Jerónimo Ribeiro Soares, Simão Machado e Anrique da Mota… Mas permitam-me que me atenha especialmente em Jorge Ferreira de Vasconcelos, tesoureiro do Armazém da Guiné e da Índia. Silvina Pereira tem-se dedicado ao estudo da obra deste autor, cujo lugar no repertório do teatro clássico português e peninsular se revela de relevância significativa.

 

UMA OBRA FUNDAMENTAL

Foi Vasco Graça Moura quem, com conhecimento de causa e uma grande sensibilidade para as coisas realmente importantes, chamou a atenção da estudiosa e mulher de teatro para a necessidade de dar atenção dobrada a Ferreira de Vasconcelos. E assim aconteceu. De facto, a “Comédia Eufrosina” (ao lado da “Comédia Ulissipo” e da “Aulegrafia”) tem uma importância especial. Há uma relação estreita, por exemplo, com o “Auto do Filodemo” de Camões, representado provavelmente em 1555 em Goa, enquanto a Comédia foi escrita e representada em Coimbra no ano de 1542, tendo sido editada também em 1555. A obra saiu anónima e entrou no Index de livros proibidos, em 1581, depois de ter tido, entre a primeira edição e 1566 quatro edições, o que bem demonstra o sucesso alcançado. Lope de Vega foi o maior admirador da obra e Quevedo escreveu o prefácio da versão castelhana de 1631. Menendez y Pelayo, na edição de 1910, enfatizou o facto de a obra-prima de Ferreira de Vasconcelos ter dimensão ibérica, a ponto de exercer forte influência em “La Celestina”, a Comédia e a Tragicomédia de Calisto e Melibea, obra mista por muitos considerada como pioneira do romance e do teatro moderno. Francisco Rodrigues Lobo editou a versão censurada em 1616 e a mesma foi mantida até 1786. Em 1919, reconhecendo a grande importância da obra, Audrey Bell fez publicar a Comédia pela Academia das Ciências, a inaugurar a coleção dos “Monumentos da Literatura Dramática Portuguesa” e, em 1951, Eugénio Ascensio descobriu e editou em Madrid a edição prínceps de 55. Apesar da extensão e da erudição, a obra de Jorge Ferreira de Vasconcelos, é um repositório com um “vocabulário engenhoso, gracioso e subtil”, que corresponde a um “poderoso motor da ação”. A donzela Eufrosina é vencida pelo amor, pelas mil razões expostas por Zelótipo. As tramoias do Doctor Carrasco são desmontadas pela argumentação sábia de Filótimo… E as palavras são leves, rápidas, precisas, visíveis, múltiplas e consistentes. António Tabucchi tinha pelo “Pranto de Maria Parda” de Mestre Gil uma especial afeição. Considerava-o como um símbolo do carácter picaresco da nossa literatura. E, como a autora acertadamente refere, o “Pranto” parece ter contribuído “para o gosto de dizer e fazer teatro”. Veja-se como na “Comédia Aulegrafia” J. F. de Vasconcelos caracteriza o moço Cardoso como amante e ator de teatro, dizendo que sabia “de cor as trovas de Maria Parda e entra como fegura no Marquês de Mântua”. Assim, como passar indiferentes pelo sério apelo do teatro clássico?

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Após poucos dias de canícula, saboreio um agosto mestiço, com janelas semiabertas, para que cá por casa corra também uma refrescante aragem a pedir-nos recosto e leitura amena... Já vai meridiana a manhã, nem dei pelos marcadores do tempo, apenas agora vejo que vão sendo horas de me pôr a cozinhar, serviço doméstico que assumo desde que vim para o campo a tempo inteiro. Mas antes de arregaçar mangas e pôr avental (que não é azul...) quero deixar-te um curioso poema de Du Fu, um dos vates maiores, com o seu tão diferente amigo Li Bai, da poesia da dinastia Tang, como te contava na última carta. Dá-se até o caso de ser essa oitava intitulada Em Dia de Primavera, Pensando em Li Bai... Reza assim, na minha versão portuguesa:

 

               É sem rival a poesia de Li Bai

               Nada se compara à sua elevação!

               É natural e criativo como Yu Xin,

               Majestoso e aéreo como Bao Zhao...

               Árvore primaveril, a norte da Wei,

               nuvem crepuscular a leste do rio,

               quando virá o dia de juntarmos poesia,

               Com um jarro de vinho por companhia? 

 

   Explica-nos Florence Hu-Sterk, tradutora (chinês-francês) e anotadora deste poema para a edição da Bibliothèque de la Pléiade (Anthologie de la Poésie Chinoise, Gallimard, 2015), que Du Fu presta homenagem a Li Bai comparando-o a dois grandes poetas da era das Seis Dinastias, Yu Xin (513-581) e Bao Zhao (414-466), sendo que o estilo imaginativo deste último muito influenciou Li Bai (que o cita 114 vezes nas suas obras). Diz-nos também que, em 746, Du Fu, árvore primaveril, estaria enraizado em Chang´an, a norte da Wei, e Li Bai a leste do rio azul, errante como nuvem crepuscular...

 

   Mas, ainda que distantes no modo de poetar, quiçá no pensarsentir a vida e a ordem do dever, como diversos foram os seus fados, Li Bai e Du Fu comungam no mesmo gosto da contemplação como intuição de tudo, e na partilha desta pela amizade. Pois que contemplar o ser e a sua circunstância não é modo de fuga, antes é ir mais ao fundo do risco que a surpresa traz. Como neste poema de Du Fu, que traduzo duma versão francesa de François Cheng, ilustrada por caligrafia de Fabienne Verdier (Albin Michel, Paris, 2000):

 

               Sozinho me delicio

               com o desabrochar das flores

               à beira rio

 

               À beira rio,

               o infinito

               milagre das flores.

 

               E se a outrem me confiasse

               para não dar em louco?

 

               Vou a casa do vizinho

               meu companheiro de vinho:

               mas saiu para ir beber,

               faz já dez dias.

               Deixou cama por fazer...

  

               Não é que eu ame as flores

               para morrer por elas...

 

               Eis o meu receio:

               beleza que se apaga,

               velhice que se achega!

 

               Ramos carregados:

               queda de flores aos cachos!

 

               Tenros rebentos se concertam

               para suavemente se abrirem...

 

   Livre e desapegado, até boémio, como era e sempre escolhia ser, Li Bai, por muitos admiradores, protetores e amigos que granjeasse, não escapou a momentos difíceis de ultrapassar, a perseguições e exílios, já que os poderes não apreciam independências do s espíritos... Em dois poemas, quais cartas ditadas por sonho amigo, Du Fu recorda Li Bai, inquieta-se e pergunta por ele, deseja-lhe a glória para além da morte: Meng Li Bai er shou, ou, em português, Sonhando com Li Bai.

 

               Separados pela morte, soluços engolidos;

               separados pela vida, tormento infinito.

               Do sul do Rio, roído pela febre,

               sem qualquer notícia do viajante banido,

               esse velho amigo me aparece em sonhos,

               sabendo quanto e quanto penso nele.

               Assim, agora preso numa rede,

               como conseguiste libertar as asas?

               É longa a estrada, incomensurável.

               Possa a tua alma ser a de quem vive,

               a vir por bosques de bordos glaucos,

               atravessando portagens de fronteiras negras.

               Cai a lua e inunda as traves do teto,

               e logo imagino o teu rosto iluminado.

               Águas profundas, vagas poderosas,

               possam poupar-te os dragões marinhos!

 

               Leves se seguem as nuvens pelo ar,

               mas não trazem de volta o viajante.

               Por três noites seguidas sonhei contigo,

               sinal da tua profunda amizade.

               Cada partida parecia perturbar-te,

               e lamentavas as durezas da viagem.

               Estavam tão bravios os lagos e os rios...

               Receavas perder o rumo ao barco.

               Ao chegar, coçaste a cabeça encanecida,

               quiçá desiludido pela ambição de uma vida.

               A capital foi invadida por dignitários,

               só tu te vergavas ao peso de cismas.

               Quem te disse que a justiça divina é clemente?

               Afinal, já velho, cobriram-te de vexames.

               Fama que dure mil, dez mil outonos,

               Só depois de morto a ganharás!

 

   A intemporalidade universal da amizade e do teor destes poemas ocorreu-me esta manhã, ao sair da cama, quando reli esta frase de uma carta de Hannah Arendt à sua amiga Mary McCarthy, com data de 10 de março de 1975, na página que tinha deixado aberta à cabeceira: Sempre acreditei que somos o que vivemos...

 

Camilo Maria    

 

Camilo Martins de Oliveira

OS 40 ANOS DA REINAUGURAÇÃO DO TEATRO D. MARIA II

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Evoca-se neste artigo o incêndio que, em 2 de dezembro de 1964, quase destruiu o Teatro de D. Maria II e a reinauguração do Teatro, em 11 de maio de 1978, num espetáculo dirigido por Francisco Ribeiro. Vem tudo isto a propósito da evocação, pormenorizadamente descrita no livro recente da autoria de Ana Sofia Patrão, precisamente denominado «Francisco Ribeiro / “Ribeirinho” – O Instinto do Teatro» (ed. INATEL e Guerra e Paz), onde se descreve toda a carreira e a obra grande deste valor referencial da cena portuguesa.

 

Recordo então um texto que na altura escrevi, pois foi-me permitida a visita ao edifício no próprio dia do incêndio e solicitada uma nota. Cito:

“Com alguma dificuldade (ainda se percebiam focos de incêndio) consegui assumir ao buraco de um resto de camarote; e assim foi-me fácil entender o caráter brutal da destruição. O palco, visto da sala, nada mais mostra de que uma estrutura negra - e a sala, vista mais tarde do palco, completa no caos o panorama desolador. Há aspetos absolutamente irremediáveis, como o teto que Columbano não pode reconstituir. Há também, de certo modo, a quebra de uma linha secular, consubstanciada no edifício, que uma vez reconstruído, não será exatamente o mesmo. E há, sobretudo, um grande desalento e um grande espanto, nascidos da surpresa e do contraste entre a harmonia admirável e a ruína dos escombros”.

E o texto que me foi então solicitado prosseguia no mesmo tom... 

Felizmente as coisas acabaram por se recompor!

 

Iniciam-se obras de restauro, e em 1976, recorda o livro de Ana Sofia Patrão, o Governo então chefiado por Mário Soares constitui uma Comissão Instaladora destinada a proceder ao concurso de reabertura do Teatro de D. Maria II: e dessa Comissão, presidida por Lima de Freitas, fazia parte o próprio Francisco Ribeiro como representante do Conselho Sectorial de Teatro da Secretaria de Estado da Cultura.

 

O processo foi lento, como seria de prever. A própria designação do Teatro seria discutida, acabando por se aprovar uma solução conciliatória -  Teatro Nacional de D. Maria II – Casa de Garrett: justa homenagem a quem tinha conduzido o processo da construção do Teatro, a partir de um projeto de Francesco Fortunato Lodi que aliás foi em termos gerais reconstituído depois do incêndio – isto, evidentemente, sem incluir o teto de Columbano que Matos Sequeira reporta a obras executadas em 1861.  

 

Em 11 de Maio de 1978, há 40 anos, é (re)inaugurado o Teatro Nacional de D. Maria II   com o “Auto de Geração Humana” de Gil Vicente e “O Alfageme de Santarém” de Garrett, “em homenagem a um dos patronos da instituição, encenado por Francisco Ribeiro”, diz-nos Ana Sofia Patrão no livro citado.

 

Ribeirinho ficaria ainda ligado ao TNDM II durante mais dois anos, em diversas funções orgânicas, mas sempre marcando a ação com o talento, a qualidade e o prestígio que foram seu apanágio.

 

E voltaremos a este livro e à evocação da vida e obra de Francisco Ribeiro.

 

DUARTE IVO CRUZ

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