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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Helena Almeida, o eu, o corpo e a obra.

 

‘Não ía contratar um modelo quando me tenho a mim no atelier. Além disso, eu é que sei quais são as posições em que me devo colocar ou quais as atitudes que devo assumir e como é que devo conceber o cenário. Faço o cenário e coloco-me nele exact89amente como eu quero e com a expressão que desejo. Mas não sou eu. É como se fosse outra pessoa, é, no fundo, a busca do outro, é o outro que lá está.’, Helena Almeida, 1996

 

Helena Almeida (1934-2018) habita, vive, veste e incorpora o espaço, a matéria e a superfície da pintura através da fotografia. O seu trabalho é muito pessoal, singular, único e irrepetível. A artista soube sabiamente introduzir, em permanência e em contínuo, o corpo na obra de arte.  E em cada trabalho, consegue sempre reunir e em simultâneo o eu, a obra e o outro.

 

Desde cedo, Helena Almeida sentiu a necessidade de abrir novas possiblidades à pintura. No início, a pintura abstracta muito a influenciou. Mas rapidamente, a pintura se tornou volume que saía para fora da tela. Desde logo, Helena Almeida desejava uma tela antropomórfica (ver aqui). A tela como uma pessoa, um eu, um objecto de projecção. E só a fotografia foi capaz de incluir toda a gente, todo o espaço e toda a matéria que fazem parte do processo de criação (o artista, o espectador, o atelier, a mesa, a cadeira, a tela, a folha, o pincel, a linha, a mancha).

 

‘Em pequena com cinco-seis anos, ia espreitar atrás dos quadros, das telas, para saber o que estava lá atrás, achava que devia haver qualquer coisa de obscuro nas costas.’, Helena Almeida, 2005

 

Lucio Fontana, ao fazer golpes na tela, deu a conhecer o lado oculto da tela– Helena Almeida dá a conhecer o outro lado da criação. Os seus desenhos e pinturas saiem literalmente de dentro do seu corpo. A tinta incorpora-se dentro da pintora – que ora a guarda no bolso ora a come. O corpo infiltra-se pelo atelier e o espaço adivinha-se dentro do corpo da pintora através de espelhos.

 

O eu e o corpo são materiais tal como a tela e a tinta e aproximam-se, mais do que nunca do espectador – que pode fazer parte integrante da obra e assim entrar nela (por exemplo, nos desenhos habitados a linha sai da fotografia e passa a pertencer a dois espaços, ao do artista e ao do espectador).

 

‘Eu estou a pintar para a frente para pôr o outro no meu espaço, no espaço do quadro, ao mesmo tempo que me coloco no espaço da pessoa que está a ver. Essa pessoa não está a ver nada.’, Helena Almeida, 2016

 

O corpo concreto e físico materializa uma forma pictórica de prolongar a obra e também é a obra que prolonga o corpo. O corpo de Helena Almeida é usado como um recipiente que entra e sai da pintura (tela/tinta/pincel), do desenho (folha/linha/caneta) e do espaço (paredes/chão/janela/cadeira/banco). E cada fotografia é uma intensidade, é um culminar analógico onde o acto de criar está exposto à vista de todos.

 

‘O trabalho nunca está completo, tem que se voltar a fazer. O que me interessa é sempre o mesmo: o espaço, a casa, o tecto, o canto, o chão; depois o espaço físico da tela, mas o que eu quero é tratar de emoções. São maneiras de contar uma história.’, Helena Almeida, 1997  

 

Ana Ruepp

"LIKAI-VOS" UNS AOS OUTROS

 

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias e desabafam e os pais riem com eles e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

 

Vou constatando que, na sociedade da comunicação, há imensa incomunicação. Porque uma coisa é a comunicação formal instrumental e outra coisa é a comunicação na presença, com as suas emoções: a emoção da palavra nas suas tonalidades, o sorriso, as lágrimas, o toque, os silêncios...

 

Na era da comunicação, tanta gente só! Só, naquele sentido de sozinho e abandonado, não tendo ninguém com quem conversar, desabafar, dando e ouvindo uma palavra de conforto, de dúvida, de afago. Ao contrário da outra solidão, a exigida para construir uma obra, preparar um discurso, ler textos clássicos, daqueles que fundam a humanidade e lhe dão futuro, esta é uma solidão mortal. Há médicos de família que me dizem que muitos, concretamente pessoas idosas, os procuram apenas para isso: para terem alguém com quem trocar umas palavras e poderem exorcizar a solidão.

 

Também por isso, se eu fosse pároco, havia de pôr em marcha uma experiência que tive numa paróquia de Paris, quando era lá estudante. Havia uma “salle d’accueil” (sala de acolhimento), onde voluntários (médicos, psicólogos, mães e pais de família..., sempre com a indicação dos respectivos nomes e profissões) davam umas horas semanais de acolhimento às pessoas que vinham. A mim, que também constava, apareceu-me uma vez um senhor que me disse: “Só lhe peço o favor de me ouvir e que me não interrompa”, o que eu fiz. No fim de uma hora e tal, ele acabou e disse-me: “Não sabe quanto me ajudou, nunca o esquecerei”. E foi-se embora e eu não sei quem é, mas também me lembro dele.

 

A solidão pode até acontecer e acontece no meio do barulho ensurdecedor do tsunami da informação e das rajadas de opiniões e insultos e fake news, acoutados na cobardia da impunidade e do anonimato das redes sociais, que se tornaram frequentemente um campo de batalha de bárbaros, analfabetos e achistas...

 

A questão é, a um dado momento, a cisão entre a existência virtual e a existência real. Li, recentemente, num belo livro do jesuíta J. M. Rodríguez Olaizola, “Bailar con la soledad”, a história de José Ángel, um homem de Vigo, que vivia no meio do lixo, vítima da síndrome de Diógenes, que o levou a isolar-se da família, vizinhos e conhecidos.

 

mesmo assim, tinha uma vida activa e popular no Facebook, onde contava com 3.544 amigos e 361 seguidores, dando opiniões sobre a actualidade, desde a actualidade espanhola às questões do meio ambiente... Só passados vários dias é que uma mulher de Tenerife, a 1. 677 quilómetros de distância, estranhando um silêncio prolongado, deu pela sua falta e contactou a polícia, que, passado algum tempo, encontrou o corpo. Aí está o drama: a possibilidade de o mundo virtual se tornar o refúgio de gente só. Já Zygmunt Bauman, em “Amor líquido”, tinha prevenido com razão: “Parece que o sucesso fundamental da proximidade virtual é ter feito a diferença entre as comunicações e as relações. ‘Estar conectado’ é mais económico do que ‘estar relacionado’ mas também menos proveitoso na construção de vínculos e na sua conservação”.

 

Outra ameaça do virtual é a busca desenfreada da popularidade nas redes sociais, através da pressão de obter uma chusma de like e seguidores..., com as consequentes  ilusões e desilusões. Rodríguez Olaizola dá três exemplos.

 

Há pouco tempo, o cantor Ed Sheeran, um das artistas com mais êxito dos últimos anos, anunciou que abandonava a rede social Twitter, porque não aguentava a quantidade de comentários negativos que recebia de pessoas que não o conheciam mas o odiavam. “Um só comentário é suficiente para me estragar o dia”. Comenta o jesuíta: “A pressão amor-ódio  nas redes é demasiado exigente para muitos. Inclusive para quem é maioritariamente aceite.”

 

No outro extremo, em Novembro de 2015, a modelo Essena O’Neill, famosa pelas suas fotografias no Instagram, com centenas de milhares de seguidores e fabulosos contratos publicitários, anunciou que abandonava a rede. Não porque era rejeitada, mas por causa do excesso de aceitação: isso exigia-lhe demasiado tempo na preparação das fotos, no estudo das imagens... Declarou que tinha tomado consciência de que esse escaparate não era a vida real, mas tão-só uma ficção orientada para a aprovação,  para que chovessem os “like”... O preço, chegou a dizer, é “a tua vida e a tua auto-estima”.

 

A 20 de Setembro de 2017, uma conhecida influencer — assim se chama, como diz a palavra, quem, graças à sua relevância nas redes sociais, influencia, com as suas opiniões, imagens ou actividade, uma enorme quantidade de pessoas —, suicidou-se. Chamava-se Celia Fuentes. Pergunta-se: como é que se explica que uma jovem tão popular, com futuro e com uma vida aparentemente perfeita, tenha posto fim à vida? O jesuíta resume: “A ficção de uma vida ideal enquanto na vida real havia solidão e sensação de fracasso. A solidão de uma vida construída apenas para aparentar”. “Tudo é mentira”, foram as últimas palavras da jovem no seu WhatsApp.

 

Por isso, digo, a partir de um título que recebo de empréstimo da revista Philosophie magazine: “Likai-vos uns aos outros”, ponde muitos  like (gosto) uns aos outros. Mas tende cuidado!

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 22 SET 2018