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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Joseph Beuys e a importância da escultura social.

 

‘That is why the nature of my sculpture is not fixed and finished. Processes continue in most of them: chemical reactions, fermentations, colour changes, decay, drying up. Everything is in a state of change.’, Joseph Beuys

 

Para Joseph Beuys (1921-1986), a arte é uma força, é uma energia encantatória que provoca fascínio e que poderá conter uma verdade maior do que a vida do dia a dia. Apesar de se apresentar através  de métodos misteriosos, a arte tem uma função social e um poder de cura muito importante. A arte contem em si as forças da vida, as forças da alma, as forças de um espírito mais elevado. Para Beuys, existe uma grande necessidade do ser humano evoluir através da arte. A arte é o potencial ponto de partida de tudo o que aparece no mundo, em todos os campos do conhecimento.

 

‘This is the kind of faith one can have in art: one can say that it is on the path towards something (it is not something finished and perfect, it can never be!). Art is something living, never complete, never ending.’, Joseph Beuys

 

O ser humano socialmente envolvido tem o poder de transformar o mundo, para melhor. Cada um de nós tem um potencial poético e criativo que se enterra na pressa, na competitividade e no desejo de ter sucesso. Para Joseph Beuys, ser artista implica sim ter: um sentido muito alargado de liberdade interior, uma imaginação criadora, uma conexão com certas energias invisíveis, uma comunicação e contágio com os outros, e implica ser um veículo crítico, pensante de uma atividade contínua de criação. Para Beuys, a descrença generalizada no ser humano, como ser criativo, pode levar ao conflito, à tirania e à opressão.

 

‘I believe that the human being is fundamentally a spiritual being, and our vision of the world must be extended to encompass all the invisible energies with which we have lost contact or from which we have become alienated.’, Joseph Beuys

 

Beuys acreditava que a sua vida e o seu ser eram os materiais mais indicados para fazer arte – e a escultura de Beuys fazia-se através de formas pensantes e formas faladas. A sociedade é assim uma gigante escultura social. O ser humano tem a capacidade de moldar e formar o mundo em que vive, através de um processo evolutivo e progressivo. E a democracia, para Beuys, advem desta ideia, de que o ser humano é um artista com um vigoroso poder de realização.

 

Ao dar forma à sociedade através da atividade criativa, Beuys afastava-se, determinantemente de grupos políticos radicais, como o “Rote Armee Fraktion” (RAF), que acreditavam na violência para conseguir uma revolução social.

 

E é através de uma rosa (‘Rose for Direct Democracy’, 1973), que Beuys enfatiza o seu desejo de desenvolvimento social através de uma via pacífica, gradual e evolutiva. O vaso de vidro tem inscrito a direção do crescimento da rosa. A trajetória suave e contínua da rosa corresponde à trajetória que Beuys desejava para o progresso da sociedade e de toda a vida. As pétalas ao brotar, contrastam em aparência com o resto da planta. Tornam-se, para Beuys, símbolo de uma revolução. A flor, gradualmente, emerge através de uma transformação e evolução orgânica extraordinária das folhas verdes. Por isso, a fotografia de Joseph Beuys sentado atrás da rosa tem o seguinte título: ‘We Won’t Do It without the Rose, Because We Can No Longer Think.’  

 

Ana Ruepp

TRÊS GRANDES FERIDAS CONTEMPORÂNEAS

 

Devo este título e alguma inspiração para esta crónica a J. M. Rodríguez Olaizola, no seu livro Bailar con la soledad, já aqui citado na semana passada. Quais são as três feridas?

 

1. A do amor. O que é que todos procuramos? A felicidade, e elemento constitutivo da felicidade é o amor, um amor sólido, estável e fiel. Mas isso hoje está como se sabe: na sociedade líquida, também o amor é líquido, para ir a Z. Bauman. Só para dar o exemplo do amor conjugal: Portugal é o país da Europa com mais divórcios, 70 por cento dos casamentos terminam em divórcio. Aí está G. Lipovetsky, em Da leveza: “Publicidade, proliferação de formas de empregar o tempo livre, animações, jogos, modas: todo o nosso mundo quotidiano vibra com cantos à distracção, aos prazeres do corpo e dos sentidos, à ligeireza de viver. Com o culto do bem-estar, da diversão, da felicidade aqui e agora, triunfa um ideal de vida ligeiro, hedonista e lúdico”.

 

Então, a contradição é esta: num tempo de incerteza, do zapping, do provisório, do usar e deitar fora até nas relações humanas, o amor sólido e fiel, inabalável, deveria ser a pedra angular da vida, e é isso que se procura idealmente, mas, ao mesmo tempo, pretende-se viver numa união sem compromisso, na abertura ao consumo do “poliamor”, numa liberdade à deriva, incapaz de sacrificar-se pelo que mais vale. E lá está outra vez Z. Bauman, em Amor líquido: “Automóveis, computadores ou telefones celulares em bom estado e que funcionam relativamente bem vão engrossar o monte de resíduos, com pouco ou nenhum escrúpulo, no momento em que ‘versões novas e melhoradas’ aparecem no mercado. Há alguma razão para que as relações de casal sejam uma excepção à regra?”.

 

Mas a liberdade sem vínculos e sem enraizamento é um fantasma. Byung-Chul Han, no seu livro admirável, O aroma do tempo, mostra-o, inclusive a partir do étimo, no alemão: a raiz indogermânica fri, donde derivam frei (livre), Friede (paz) e Freund (amigo), significa amar. “Assim, originariamente, ‘livre’ significava ‘pertencente aos amigos ou aos amantes’. Sentimo-nos livres numa relação de amor e amizade. O compromisso, e não a ausência dele, é que nos faz livres”.

 

Na falta de um amor comprometido e estável, é-se invadido pela desconfiança em relação a si próprio (o que é que eu valho e para quem e o que é que eu sou?) e pelo medo e a insegurança face ao futuro instável. E pela solidão, como bem viu o Sínodo sobre a Família: “Uma das maiores pobrezas da cultura actual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações”.

 

2. Na sociedade líquida, a morte é tabu, tabu que, retroactivamente, impulsiona a sociedade líquida, num reforço mútuo. Da morte, que viria desarranjar a lógica da euforia do consumo, do hedonismo e da leveza do viver, pura e simplesmente não se fala. Então, o essencial — o metafísico, a ética, a existência enquanto texto com sentido — cai inevitavelmente no esquecimento. De facto, sem a consciência do limite que a morte impõe, ficam apenas instantes que se dissolvem na fugacidade vazia do tempo. Afinal, é com a consciência da morte que se é convocado para o que verdadeiramente vale, como bem viu M. Heidegger: face à morte, aparece em todo o seu vigor a distinção entre a existência autêntica e a existência inautêntica, entre o que verdadeiramente vale e o que realmente não vale e a urgência de construir uma existência com significado para lá da voragem do tempo. Confessava-me recentemente um colega e amigo, que sofreu um AVC: “Anselmo, desde então tudo ficou com outra perspectiva, num outro horizonte, e tanta coisa por que me batia denodadamente passou a um plano secundário e há outras prioridades e outra força e intensidade no viver do essencial.” Sem perder a alegria funda do fulgor do milagre de existir. O pensamento sadio da morte atira-nos para a urgência de viver agora, a cada momento, na intensidade, sem adiar, porque é aqui e agora que se vive.

 

De repente, a sabedoria. Que confirmo também com uma experiência que no Natal de 2015 se quis fazer sobre percepções, prioridades e valores e de que Rodríguez Olaizola se faz eco. Foi-se perguntando a um conjunto de jovens madrilenos, um a um, que presentes pensavam dar nesse Natal a uma pessoa muito significativa (em princípio, seriam os pais). E as respostas surgiram alegres, com alguma originalidade. Depois de exporem as suas intenções, eram confrontados com outra pergunta: e se soubesses que é o último Natal que vais celebrar com essa pessoa?, se soubesses que ela vai morrer? Aí, de repente, ficaram perplexos, as palavras começaram a falhar e foram surgindo respostas com outro cuidado, emoção, intensidade. A perspectiva agora era outra e o horizonte do fim “enchia de profundidade o presente. E os presentes escolhidos nesse novo cenário ficaram carregados de sentido, significado e ternura”.

 

3. Face à morte, ergue-se, inevitavelmente, lá do mais fundo de nós, a pergunta pelo sentido, o sentido último. Porque, como disse recentemente, numa entrevista ao Expresso, conduzida por Luciana Leiderfarb, o famoso patologista Sobrinho Simões, depois de ter sofrido um AVC e perceber que, na existência, está na fase da descida, a sua grande experiência foi que “as explicações biológicas fazem sentido para muita coisa, mas não para explicar quem sou”. E a pergunta, in-finita, é: Para quê? “Para quê”.

 

Essa pergunta leva necessariamente consigo a pergunta por Deus. Mas hoje essa pergunta está obnubilada e a mim, mais do que o ateísmo, o que me preocupa é a indiferença, implicada, também ela, na sociedade líquida.

 

Aqui, encontramos Nietzsche. Matámos Deus ou constatamos que Deus morreu. Há um júbilo perante o “acto mais grandioso da História”, que foi essa morte. Mas, ao mesmo tempo, Nietzsche apercebe-se de que esse júbilo é atravessado por perguntas terríveis e trágicas: “Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima e um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”

 

4. Deus desapareceu do nosso mundo? Não; Ele está presente pela sua ausência insuportável, que leva à total desorientação, como anunciam estas perguntas proféticas de Nietzsche. Num tempo em que, como se lê num verso do poeta galego Ramón Cabanillas, parece que avançamos “com o cadáver da esperança às costas”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 29 SET 2018