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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TEATRO ANTIGO E TEATRO MODERNO EM CHAVES

 

Esta abordagem conjunta da antiga sala de espetáculo de Chaves e do recente Centro Cultural tem como substrato histórico e social a marca de descentralidade que o próprio desenvolvimento económico e tecnológico determina em cada época, no que se refere à convergência cultural: isto porque, no século XIX, Chaves distava muito dos centros culturais do país. 

 

Daí, a relevância da criação e funcionamento do Teatro Flaviense, fundado no século XIX e restaurado ou, se quisermos, reedificado a partir de 1873, por iniciativa de um grupo de destacadas individualidades locais.

 

Os trabalhos foram confiados a um nome de projeção nos grandes teatros da época, João de Amil, que exerceu durante anos funções nos Teatros da Rua dos Condes em Lisboa e Baquet do Porto. Ora, aqui também já temos visto que se trata de duas salas referenciais nesse tempo e de certo modo ainda hoje, na arquitetura e/ou cultura de espetáculo.

 

E nesse sentido, recorde-se que o Teatro Flaviense seguia a estrutura das mais relevantes salas de teatro. Tinha 3 ordens de camarotes e segundo fontes aliás pouco rigorosas, algo como mais 180 lugares de plateia, geral e superior, como era hábito.

 

A inauguração deste Teatro Flaviense ocorreu em 9 de maio de 1874 a cargo de um grupo de amadores locais, o que também é relevante dada a descentralização e distanciamento social e cultural de Chaves nesse tempo.

 

E sobretudo, há que recordar a peça inaugural, nada menos do que o “Ódio de Raça” de Gomes de Amorim, peça e autor de grande relevância em muitos aspetos ainda hoje. De referir designadamente que “Ódio de Raça” (1845) passa-se no Brasil e dramatiza o tema da escravatura. O autor e o tema mostram a então modernidade do evento, para não falar da qualidade do texto.

 

Acrescente-se então que Chaves pode assumir uma tradição secular de cultura, que justificaria a existência comprovada na região de um Teatro quando as vias romanas garantiam uma integração às zonas dominantes da Península: é o que nos diz designadamente Mário Gonçalves Carneiro, que refere uma tradição histórica e que permite recordar na zona “magníficos edifícios em que sobressairiam o Balneário, o Rossio, a Curia, o Tesouro, o Teatro”... isto, insiste-se, a nível histórico regional. (in “As Caldas de Chaves” – 1945).

 

Em 2003 a Câmara Municipal transformou em Centro Cultural o antigo edifício da estação de caminhos de ferro, inaugurado em 1921 e desativado em 1999.

 

E é ainda de referir em Chaves, além de serviços culturais da Câmara, diversas outras áreas de atividade cultural, como a Academia das Artes e a Associação Chaves Viva.

 

DUARTE IVO CRUZ

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLI - SERÁ A UNIÃO EUROPEIA MULTILINGUE?

 

O regime linguístico vigente na União Europeia (UE) baseia-se no princípio da igualdade, consagrando a igualdade linguística, em termos normativos.

 

Sempre se declarou que “A União Europeia será sempre um espaço multilingue”

 

Optou-se, formalmente, por um regime plurilingue, de pluralismo linguístico geral e de não discriminação.     

 

Trata-se de uma declaração formal, amiga e aberta a princípios de natureza humanista, dado que no interior dos edifícios sede do poder institucional da UE o multilinguismo já há muito passou a trilinguismo, com prioridade para o francês, inglês e alemão.

 

É o princípio da aplicação do critério de quem mais precisa cede.

 

Se há países que não se opõem a que o inglês seja o único idioma das instituições da UE, há-os que nunca o aceitaram, em especial a França, que sempre o rejeitou e rejeitará enquanto puder, o que reforçará com a futura saída do Reino Unido, ficando a pequena Irlanda como único representante da língua inglesa na União. 

 

É usual dizer-se que mesmo que a Alemanha aceite o inglês como única língua da União, se a Itália se disponibilizar a e a Espanha oscilar, a França continuará irredutível, quanto mais não seja, na expetativa de que sendo a última e a decisão depender apenas de si, permitam que a UE seja, pelo menos, bilingue (francês e inglês), ou que tudo fique na mesma, como dantes, via defesa do sistema trilingue.

 

Qualquer destas situações de negação de direitos de comunicar na sua própria língua, traduz-se no expurgar de um direito humano e fundamental. 

 

Podemos ser linguisticamente competentes para falar e comunicar em situações de satisfação de necessidades do dia a dia, sem o sermos suficientemente para argumentar, compreender ou exercer o contraditório a uma máquina burocrática sediada em Bruxelas, que pode tomar decisões que afetam substancialmente as nossas vidas, o que inclui a negação do direito dos cidadãos poderem ser informados por escrito ou oralmente na sua língua materna, de receberem resposta e documentação de trabalho nessa mesma língua.   

 

Embora, na prática, venha sobressaindo um critério fundado numa relação custos/benefício, rumo a um plurilinguismo restrito, há quem entenda que o combate à chamada burocracia de Babel não é um problema económico e que o avançar-se definitivamente para uma solução inversa, pode abalar mais a União do que o fim da Política Agrícola Comum (PAC). 

 

Será duvidoso que assim seja para todos os países, dado uns terem mais poder e autoestima que outros, alguns não quererem paralisar a UE enquanto esta for uma mais valia, sem esquecer o já aludido princípio da aplicação do critério de quem mais precisa cede.

 

Em qualquer caso, para Portugal e a língua portuguesa, o único critério aceitável, dos vários estudados e propostos pela UE, é o do número global de falantes do nosso idioma a nível mundial, onde ocupa o quinto ou sexto lugar, com perspetivas seguras, ao invés de critérios como o do número global de falantes na União ou dos maiores contribuintes líquidos para o orçamento comunitário.

 

02.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICA DA CULTURA

 

Karl Popper apontou uma certa televisão como sendo um verdadeiro perigo para a democracia. Refletia ele sobre o embate da televisão na educação das crianças, não descurando que o principal esforço delas residia precisamente na adaptação ao que as envolvia, e, a educação tinha passado a estar também e demasiadamente nas mãos de uma televisão-comandante, com um papel tão forte neste processo educacional que, difícil se tornara, ir contra ela sem se ir contra o que as crianças já tinham absorvido com segurança e as fazia sentir tranquilas. Restava por isso controlar a própria televisão. Sugeria Popper que os profissionais da televisão deveriam ter eles próprios uma educação que visasse acima de tudo entender o poder que futuramente deteriam, e o grau de influência no desenvolvimento de um país que, essa responsabilidade apontava, como nenhuma outra, e, pela qual haveria que responder a bem do melhor da nossa civilização. Aliás, muito se falou a este propósito na exposição da violência pelos ecrãs das televisões, como se fosse o modo único de expor o mal e de assim o mesmo não ser repetido (há quem justifique a atitude deste modo…): isto quando já se provava a relação entre o aumento da criminalidade e as imagens televisivas.

 

Em casa de uma maioria, passou a ser normal, jantar ou almoçar em frente de uma televisão que expõe feridas horrendas nos corpos mutilados pela guerras, corpos de mortos espalhados sem direito ao respeito de não serem mostrados, crianças gritando apavoradas e de olhos carregados de moscas que preveem a morte pela fome e pela sede não abrandada pelos seios secos das mães, enquanto os telespectadores, pais e filhos, vão comendo ao seu ritmo; quando não, até comentando que determinada enfermeira naquele dia x em que foram ao hospital era absolutamente uma mulher cruel. Comer enquanto se veem matanças ferozes não é o princípio de uma realidade hedionda, é já o fim na sua normal aceitação. Curiosamente são essas mesmas pessoas e são essas mesmas crianças que um dia também gritarão “assassino” quando algum prisioneiro ou prisioneira entra para um carro celular a fim de ser transportado ao tribunal onde será julgado por algum crime.

 

As inúmeras possibilidades de escolha de canais ou programas televisivos recai na similitude de conteúdos, oferecidos por bens públicos que utilizam as ondas hertzianas como sua exclusiva pertença ou esfera de Hertz em plataforma apropriada abusivamente desde que se vise um qualquer objetivo. Acreditamos sinceramente que as tensões populistas triunfam, em muito induzidas pelos media, mas também acreditamos que se olharmos a forma como se faz política hoje, através desses mesmos media, não será difícil de concluir o quanto mal é tratada a democracia, defendendo-se sozinha como se a nossa contribuição diária não fosse a sua constante roupa de domingo preparada por todos nós nos inícios de semana. A limitação dos freios do poder e a atividade dos contrapesos da democracia são faróis à liberdade de imprensa que poderá cair do pedestal em que a si mesma se colocou, quantas vezes, levianamente num outrora de tornar a democracia como um circo mediático até a bem de um qualquer comércio. Sabemos que determinar a verdade do jornalismo não é fácil, mas por entre várias visões, até a qualidade das prioridades pode ser um diferenciado padrão sem que signifique notícias iguais ou idênticas.

 

Certo é que “ A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância” com ausência de crítica para ambas, acrescentamos: veja- se o livro “Televisão: um perigo para a democracia-: de Karl Popper; Sir John Condry; Giancarlo Bosetti; Jean Baudouin; Maria Carvalho - chancela da Gradiva - ou a sua noção claríssima sobre o paradoxo da tolerância.

 

Temos para nós que é desejável que exista espaço para que a própria condenação extrajudicial seja repudiada da notícia como um excesso que mina a verdade. Acreditamos que não são as leis que devem proibir ou estimular virtudes positivadas, antes todos estes poderes dos media devem fundear ancoras que provem melhoramento pessoal e coletivo; devem elas escrutinar virtudes baseadas em princípios num convite à cooperação de todos a um jornalismo enfim capaz de gerar cidadania, capaz de diminuir a opacidade do que se transmite e da sua razão última, isto como primeiro passo à sã comunicação das pessoas entre si.

 

A Internet cria uma ilusão de transparência e tem gerado mais apatia ao tornar-se a voz de tudo o que é novo e sem constrangimentos indispensáveis de objecto de freios e de contrapesos.

 

Em rigor voltando à televisão e sua influência, cremos que muito passa por um sentimento real de humildade dos media e que alcançar a verdade não quer dizer deixar de a procurar. Acreditamos que a humildade de quem quer ter consciência da reflexão sobre a própria inteligência de descortinar a arvore-núcleo da floresta é aventura a defender.

 

 

Também ao lermos este outro livro de Popper sentimos que nos referimos ao mesmo fenómeno que tratamos acima já que se trata de um abeirar a um berço sem idade que faz parte integrante da cultura dos jornalistas profissionais e independentes, verdadeiros centros de poder de contrapesos nas modernas democracias.

 

O mundo em que vivemos é o reino da opinião, e a plena certeza das coisas somente os deuses possuem”

 

Uma veemente luz sobre tudo o que escrevemos anteriormente, acerca do que Popper nos deixa no pensar, e sobretudo ao lermos este livro, ficou-nos claro o quanto não podemos ter medo de nos perdermos por muito que os pontos de interrogação ou exclamação se sobreponham seja qual for a profissão.

 

Tales de Mileto um dos Sete Sábios da Grécia para quem a água é a origem de todas as coisas, trazido à existência por toda a atividade do seu intelecto, ou, Zenão de Eleia igualmente pré-socrático - discípulo de Parménides- que defendia o quanto refutar diretamente as teses era o melhor caminho para expor o seu trágico absurdo. E o elogio de Popper a Xenófanes ou não considerasse a ciência um otimismo em relação à incessante busca do conhecimento por aproximação à verdade. E entender este mundo acordando do torpor agressivo dos media dos nossos dias e libertarem-se eles enfim da tensão atenta de sempre comandar, comandando tão só e tanto! a não libertação dos que os escutam e veem como quem aprende e assim se atualiza, este despertar dos media seria a possibilidade de ver o voar debaixo das grandes aves, seria a fórmula e o filtro.

 

É tempo, é tempo de reparar o funesto esquecimento de que somos mundo e nele, humanos, ainda que muito nus e muito indefesos. 

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Helena Almeida, o eu, o corpo e a obra.

 

‘Não ía contratar um modelo quando me tenho a mim no atelier. Além disso, eu é que sei quais são as posições em que me devo colocar ou quais as atitudes que devo assumir e como é que devo conceber o cenário. Faço o cenário e coloco-me nele exact89amente como eu quero e com a expressão que desejo. Mas não sou eu. É como se fosse outra pessoa, é, no fundo, a busca do outro, é o outro que lá está.’, Helena Almeida, 1996

 

Helena Almeida (1934-2018) habita, vive, veste e incorpora o espaço, a matéria e a superfície da pintura através da fotografia. O seu trabalho é muito pessoal, singular, único e irrepetível. A artista soube sabiamente introduzir, em permanência e em contínuo, o corpo na obra de arte.  E em cada trabalho, consegue sempre reunir e em simultâneo o eu, a obra e o outro.

 

Desde cedo, Helena Almeida sentiu a necessidade de abrir novas possiblidades à pintura. No início, a pintura abstracta muito a influenciou. Mas rapidamente, a pintura se tornou volume que saía para fora da tela. Desde logo, Helena Almeida desejava uma tela antropomórfica (ver aqui). A tela como uma pessoa, um eu, um objecto de projecção. E só a fotografia foi capaz de incluir toda a gente, todo o espaço e toda a matéria que fazem parte do processo de criação (o artista, o espectador, o atelier, a mesa, a cadeira, a tela, a folha, o pincel, a linha, a mancha).

 

‘Em pequena com cinco-seis anos, ia espreitar atrás dos quadros, das telas, para saber o que estava lá atrás, achava que devia haver qualquer coisa de obscuro nas costas.’, Helena Almeida, 2005

 

Lucio Fontana, ao fazer golpes na tela, deu a conhecer o lado oculto da tela– Helena Almeida dá a conhecer o outro lado da criação. Os seus desenhos e pinturas saiem literalmente de dentro do seu corpo. A tinta incorpora-se dentro da pintora – que ora a guarda no bolso ora a come. O corpo infiltra-se pelo atelier e o espaço adivinha-se dentro do corpo da pintora através de espelhos.

 

O eu e o corpo são materiais tal como a tela e a tinta e aproximam-se, mais do que nunca do espectador – que pode fazer parte integrante da obra e assim entrar nela (por exemplo, nos desenhos habitados a linha sai da fotografia e passa a pertencer a dois espaços, ao do artista e ao do espectador).

 

‘Eu estou a pintar para a frente para pôr o outro no meu espaço, no espaço do quadro, ao mesmo tempo que me coloco no espaço da pessoa que está a ver. Essa pessoa não está a ver nada.’, Helena Almeida, 2016

 

O corpo concreto e físico materializa uma forma pictórica de prolongar a obra e também é a obra que prolonga o corpo. O corpo de Helena Almeida é usado como um recipiente que entra e sai da pintura (tela/tinta/pincel), do desenho (folha/linha/caneta) e do espaço (paredes/chão/janela/cadeira/banco). E cada fotografia é uma intensidade, é um culminar analógico onde o acto de criar está exposto à vista de todos.

 

‘O trabalho nunca está completo, tem que se voltar a fazer. O que me interessa é sempre o mesmo: o espaço, a casa, o tecto, o canto, o chão; depois o espaço físico da tela, mas o que eu quero é tratar de emoções. São maneiras de contar uma história.’, Helena Almeida, 1997  

 

Ana Ruepp

"LIKAI-VOS" UNS AOS OUTROS

 

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias e desabafam e os pais riem com eles e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

 

Vou constatando que, na sociedade da comunicação, há imensa incomunicação. Porque uma coisa é a comunicação formal instrumental e outra coisa é a comunicação na presença, com as suas emoções: a emoção da palavra nas suas tonalidades, o sorriso, as lágrimas, o toque, os silêncios...

 

Na era da comunicação, tanta gente só! Só, naquele sentido de sozinho e abandonado, não tendo ninguém com quem conversar, desabafar, dando e ouvindo uma palavra de conforto, de dúvida, de afago. Ao contrário da outra solidão, a exigida para construir uma obra, preparar um discurso, ler textos clássicos, daqueles que fundam a humanidade e lhe dão futuro, esta é uma solidão mortal. Há médicos de família que me dizem que muitos, concretamente pessoas idosas, os procuram apenas para isso: para terem alguém com quem trocar umas palavras e poderem exorcizar a solidão.

 

Também por isso, se eu fosse pároco, havia de pôr em marcha uma experiência que tive numa paróquia de Paris, quando era lá estudante. Havia uma “salle d’accueil” (sala de acolhimento), onde voluntários (médicos, psicólogos, mães e pais de família..., sempre com a indicação dos respectivos nomes e profissões) davam umas horas semanais de acolhimento às pessoas que vinham. A mim, que também constava, apareceu-me uma vez um senhor que me disse: “Só lhe peço o favor de me ouvir e que me não interrompa”, o que eu fiz. No fim de uma hora e tal, ele acabou e disse-me: “Não sabe quanto me ajudou, nunca o esquecerei”. E foi-se embora e eu não sei quem é, mas também me lembro dele.

 

A solidão pode até acontecer e acontece no meio do barulho ensurdecedor do tsunami da informação e das rajadas de opiniões e insultos e fake news, acoutados na cobardia da impunidade e do anonimato das redes sociais, que se tornaram frequentemente um campo de batalha de bárbaros, analfabetos e achistas...

 

A questão é, a um dado momento, a cisão entre a existência virtual e a existência real. Li, recentemente, num belo livro do jesuíta J. M. Rodríguez Olaizola, “Bailar con la soledad”, a história de José Ángel, um homem de Vigo, que vivia no meio do lixo, vítima da síndrome de Diógenes, que o levou a isolar-se da família, vizinhos e conhecidos.

 

mesmo assim, tinha uma vida activa e popular no Facebook, onde contava com 3.544 amigos e 361 seguidores, dando opiniões sobre a actualidade, desde a actualidade espanhola às questões do meio ambiente... Só passados vários dias é que uma mulher de Tenerife, a 1. 677 quilómetros de distância, estranhando um silêncio prolongado, deu pela sua falta e contactou a polícia, que, passado algum tempo, encontrou o corpo. Aí está o drama: a possibilidade de o mundo virtual se tornar o refúgio de gente só. Já Zygmunt Bauman, em “Amor líquido”, tinha prevenido com razão: “Parece que o sucesso fundamental da proximidade virtual é ter feito a diferença entre as comunicações e as relações. ‘Estar conectado’ é mais económico do que ‘estar relacionado’ mas também menos proveitoso na construção de vínculos e na sua conservação”.

 

Outra ameaça do virtual é a busca desenfreada da popularidade nas redes sociais, através da pressão de obter uma chusma de like e seguidores..., com as consequentes  ilusões e desilusões. Rodríguez Olaizola dá três exemplos.

 

Há pouco tempo, o cantor Ed Sheeran, um das artistas com mais êxito dos últimos anos, anunciou que abandonava a rede social Twitter, porque não aguentava a quantidade de comentários negativos que recebia de pessoas que não o conheciam mas o odiavam. “Um só comentário é suficiente para me estragar o dia”. Comenta o jesuíta: “A pressão amor-ódio  nas redes é demasiado exigente para muitos. Inclusive para quem é maioritariamente aceite.”

 

No outro extremo, em Novembro de 2015, a modelo Essena O’Neill, famosa pelas suas fotografias no Instagram, com centenas de milhares de seguidores e fabulosos contratos publicitários, anunciou que abandonava a rede. Não porque era rejeitada, mas por causa do excesso de aceitação: isso exigia-lhe demasiado tempo na preparação das fotos, no estudo das imagens... Declarou que tinha tomado consciência de que esse escaparate não era a vida real, mas tão-só uma ficção orientada para a aprovação,  para que chovessem os “like”... O preço, chegou a dizer, é “a tua vida e a tua auto-estima”.

 

A 20 de Setembro de 2017, uma conhecida influencer — assim se chama, como diz a palavra, quem, graças à sua relevância nas redes sociais, influencia, com as suas opiniões, imagens ou actividade, uma enorme quantidade de pessoas —, suicidou-se. Chamava-se Celia Fuentes. Pergunta-se: como é que se explica que uma jovem tão popular, com futuro e com uma vida aparentemente perfeita, tenha posto fim à vida? O jesuíta resume: “A ficção de uma vida ideal enquanto na vida real havia solidão e sensação de fracasso. A solidão de uma vida construída apenas para aparentar”. “Tudo é mentira”, foram as últimas palavras da jovem no seu WhatsApp.

 

Por isso, digo, a partir de um título que recebo de empréstimo da revista Philosophie magazine: “Likai-vos uns aos outros”, ponde muitos  like (gosto) uns aos outros. Mas tende cuidado!

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 22 SET 2018

UMA CARTA OPORTUNA

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 2.10.2018

 

Meus Caros leitores, passeando eu há pouco na volta do Duche a caminho do Palácio da Vila de Sintra, lembrei-me por momentos do entusiasmo e da revolta de Jorge de Sena em torno dos temas da justiça e da cidadania. Todos vivemos preocupados por tantas incertezas. Há dias a Assembleia Geral das Nações Unidos trouxe-nos novas angústias – e o secretário geral alertou o mundo para os mil perigos que nos ameaçam… Nada melhor hoje do que remeter para o poema de Sena.

Ele nos diz tudo, em nome de uma verdadeira educação cívica! 

 

CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA 

 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. 
É possível, porque tudo é possível, que ele seja 
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, 
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém 
de nada haver que não seja simples e natural. 
Um mundo em que tudo seja permitido, 
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, 
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. 
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto 
o que vos interesse para viver. Tudo é possível, 
ainda quando lutemos, como devemos lutar, 
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, 
ou mais que qualquer delas uma fiel 
dedicação à honra de estar vivo.
 

(...)

Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém 
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. 
É isto o que mais importa - essa alegria. 
Acreditai que a dignidade em que hão de falar-vos tanto 
não é senão essa alegria que vem 
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez 
alguém está menos vivo ou sofre ou morre 
para que um só de vós resista um pouco mais 
à morte que é de todos e virá. 
Que tudo isto sabereis serenamente, 
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, 
e sobretudo sem desapego ou indiferença, 
ardentemente espero. Tanto sangue, 
tanta dor, tanta angústia, um dia

- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -

não hão de ser em vão. Confesso que 
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos 
de opressão e crueldade, hesito por momentos 
e uma amargura me submerge inconsolável. 
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, 
quem ressuscita esses milhões, quem restitui 
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? 
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes 
aquele instante que não viveram, aquele objeto 
que não fruíram, aquele gesto 
de amor, que fariam «amanhã». 
E, por isso, o mesmo mundo que criemos 
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa 
que não é nossa, que nos é cedida 
para a guardarmos respeitosamente 
em memória do sangue que nos corre nas veias, 
da nossa carne que foi outra, do amor que 
outros não amaram porque lho roubaram.

(Jorge de Sena)

 

Leio e não esqueço!

 

Agostinho de Morais

 

 

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de outubro de 2018.

 

Sob os auspícios da UNESCO, Hélio Jaguaribe, há poucos dias falecido, coordenou um notável quadro panorâmico intitulado “Um Estudo Crítico da História” (Paz e Terra, 2001), publicado em dois volumes. A obra é fundamental e o seu autor dos mais lúcidos pensadores contemporâneos.

 

 

FASCINANTE PERSONALIDADE
A personalidade de Hélio Jaguaribe (1923-2018) foi das mais fascinantes que conheci. Encontrei-o primeiro em S. Paulo graças a Álvaro de Vasconcelos e Celso Lafer. O seu entusiasmo era contagiante. Era um apaixonado de Portugal. Conhecia como ninguém a nossa história e admirava profundamente todos quantos contribuíram para a unificação do Brasil. Em serões intermináveis recordava a obra de Pombal e de D. João VI. E costumava contar como se salvou em 1972 a palmeira plantada pelo Príncipe Regente no Jardim Botânico do Rio. Fulminada por um raio, a Palma Mater, Palmeira real, pôde ser substituída pela Palma Filia, que perpetua a memória das raízes. E, no fundo, foi o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves que consumou a independência brasileira em 1815, antes da proclamação do Ipiranga de 1822… Quando falava, transmitia a agudeza da sua inteligência, mas sobretudo uma enorme capacidade de entender a história e a economia como realidades vivas. Com fortes raízes luso-brasileiras, filho de um general brasileiro, distinto cartógrafo, e de uma portuguesa originária de uma família do vinho do Porto, frequentou em Portugal a formação básica e foi Diplomado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro (1946). Em 1953, depois de exercer o jornalismo, esteve entre os fundadores do Ibesp – Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política, que dirigiu. Aí se publicou a importante revista “Cadernos do Nosso Tempo”. Até aos anos sessenta esteve ligado à gestão de empresas familiares. Foi administrador da Companhia de Ferro e Aço de Vitória, até 1964. Hélio pôde, assim, ligar a reflexão política e social a um rigoroso conhecimento da realidade económica. O Ibesp evoluiria, no mandato do Presidente Café Filho, para o Iseb – Instituto Superior de Estudos Brasileiros, do qual Jaguaribe se afastaria mais tarde por discordar da orientação organizativa, depois de ter sido fortemente incompreendido pela sua crítica ao risco do isolamento em “O Nacionalismo na Atualidade Brasileira” (1958), onde considerava que o protecionismo atrasaria drasticamente o desenvolvimento do país. O golpe militar de 1964, que derrubou o governo de João Goulart, levaria Jaguaribe para um exílio voluntário, nos Estados Unidos, onde ensinou nas Universidades de Harvard, Stanford e MIT, até 1969. Então regressou ao Brasil, já com um grande prestígio intelectual, como diretor do Conjunto Universitário Cândido Mendes e depois no Instituto de Estudos Políticos e Sociais.

 

O FUTURO DO BRASIL
A sua reflexão sobre o futuro do Brasil revelou-se premonitória e essencial na preparação da democratização do país e das fundamentais reformas económicas de Fernando Henrique Cardoso. Durante a Presidência de José Sarney coordenou o projeto Brasil 2000, cujos resultados foram publicados em 1986 na obra “Brasil –Para um Novo Pacto Social”, dando lugar, dois anos depois, a um novo volume intitulado significativamente “Brasil – Reforma ou Caos”. Em 1988 é um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ao lado de Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro e José Serra. No governo de Fernando Collor aceitou exercer as funções de Secretário da Ciência e Tecnologia, enquanto Celso Lafer era Ministro de Estado e das Relações Exteriores. Em 2005 foi eleito para a cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Celso Furtado. Em reconhecimento do seu contributo científico recebeu os Doutoramentos Honoris Causa pelas Universidades de Mainz (1983), Paraíba (1992) e Buenos Aires (2001). Para Hélio Jaguaribe, a “estrutura profundamente dualista da sociedade brasileira”, relacionada com o passado remoto da escravidão e próximo das tecnologias intensivas de capital, conduziu a moderna sociedade industrial à incapacidade para absorver as grandes massas sociais. Se, desde meados da década de 40 à década de 60, foi possível administrar o país como uma democracia de classe média, as crescentes pressões sociais anunciadas no segundo governo de Getúlio Vargas e agravadas no tempo de Goulart, levaram as classes médias a defender a intervenção militar, que interrompeu o processo democrático. Entretanto, com um novo impulso da industrialização, o país converteu-se na oitava potência industrial do ocidente. Mas industrialização, a urbanização, a generalização do acesso aos meios de comunicação tornaram a partir de fins da década de 70, inviável a permanência da ditadura militar, do mesmo modo que a restauração de uma democracia de classe média. O país exigiu uma democracia social capaz de integrar as massas. Sob a extraordinária direção de Tancredo Neves, foi possível fazer implodir o regime militar, com a ajuda dos mecanismos que montara para se manter. E assim o PMDB converteu-se num amplo conglomerado de tendências diversificadas. E a aliança com setores dissidentes do situacionismo permitiu a Tancredo Neves as condições para a vitória, através do Colégio Eleitoral. A morte de Tancredo, na véspera de tomar posse trouxe para a chefia do Estado o vice-presidente José Sarney, antigo presidente do partido situacionista o que não permitiu, nem ao PMDB nem ao presidente assumir a linha programática definida, apesar da retórica. Mas a situação esgotou-se. Com a aprovação da Nova Constituição, a criação do Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB, o Brasil tornou-se de todos os países da América Latina aquele em que, segundo Hélio Jaguaribe, melhor garantiu a exigência de um projeto social-democrata, com um acelerado desenvolvimento econômico, apoiado por uma economia de mercado dinâmica e por uma acelerada mudança social, capaz de promover a incorporação das grandes massas em condições superiores de qualidade de vida, de capacitação e de participação.

 

ESTUDO FUNDAMENTAL
Entre 1994 e 1999, sob os auspícios da UNESCO, Hélio Jaguaribe coordenou um notável estudo panorâmico intitulado “Um Estudo Crítico da História”, publicado em dois volumes, onde o sociólogo, o economista e o historiador se encontram na análise da evolução complexa e incerta do desenvolvimento humano. Aí se apontam duas saídas para a globalização: uma teria a ver com um modelo de integração aberta, de que o Mercosul seria exemplo, e outra teria a ver com as novas possibilidades de inovação científica e tecnológica mercê de “join-ventures inteligentes” de que as regiões emergentes poderiam ser beneficiárias. Infelizmente, a evolução não tem confirmado essa tendência, o que não significa que se tenha perdido a pertinência das análises. As ideologias vivem um compasso de espera, que ninguém sabe quanto vai durar, as guerras religiosas voltaram na Europa nos Balcãs ou na Chechénia e continuam no Médio Oriente, com incidência especial na Palestina, sem esquecer o ataque às torres gémeas de Nova Iorque ou o terrorismo do Daesh. Hélio Jaguaribe manteve-se sempre atento às transformações e às ideias. Nada para si poderia ser aceite sem crítica e debate. Cultivava a ideia de um desenvolvimento orientado e não necessariamente espontâneo. O mercado era um dos elementos, mas não poderia esquecer o método do planeamento bismarckiano… Ah, que saudades desses serões onde a história fluía como a vida – com belo queijo da serra e sempre com um cálice sagrado de Porto.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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