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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 24 a 30 de dezembro de 2018.

 

Os “Diálogos com o Mosteiro dos Jerónimos, Entre o Mundo que não vivemos e o Mundo que não viveremos” foram uma iniciativa oportuna de Maria da Glória Dias Garcia, Diogo Freitas do Amaral e Isabel Cruz Almeida, para assinalar o Ano Europeu do Património Cultural.

 

DEFENDER O PATRIMÓNIO CULTURAL
Ao longo do ano pudemos contar com intervenções de grande interesse e atualidade, a começar pelo Presidente da República. No fundo, tratou-se de procurar afirmar que o património cultural não é um conceito do passado, mas uma noção dinâmica que nos põe em contacto não só com o que herdamos das gerações que nos antecederam, mas também com a criatividade dos nossos contemporâneos. Tive o gosto de participar na última sessão sobre o tema “Património: Representação e Inspiração”, em diálogo com Suzana Tavares da Silva, professora da Universidade de Coimbra. E porquê a ligação entre estes dois elementos? Exatamente porque há uma projeção dinâmica entre o que recebemos e o que lhe acrescentamos, que se traduz em memória e capacidade de inovação. Lembremo-nos, por exemplo, da obra que acaba de ser publicada da autoria de Umberto Eco Aos Ombros de Gigantes (Gradiva). São doze lições proferidas entre 2001 e 2015 no Festival La Milanesiana, sobre a importância dos clássicos, a beleza e a fealdade, os relativismos, os paradoxos, as mentiras, o segredo e o sagrado, e aí verificamos como o Património Cultural é muito mais do que a conservação do construído ou das tradições, envolvendo o património material e imaterial, a natureza, as paisagens, o mundo digital, as novas tecnologias e a criação contemporânea… De facto, todos somos, recorrentemente, pequenos anões aos ombros dos gigantes que nos antecederam. Daí que a referência ao mundo “que não vivemos” e ao “mundo que não viveremos”, reporta-se à antiga consideração de Agostinho de Hipona sobre os três presentes que nos são dados para viver, na difícil relação com o tempo. É fugaz o nosso tempo, pelo que temos de lhe dar valor – compreendendo as Humanidades, como elo incindível que leva a transformar informação em conhecimento, e o conhecimento em sabedoria…

 

COMO PROTEGER O PATRIMÓNIO?
A minha interlocutora começou por exercitar a sua dúvida metódica, sobre a razão da escolha deste tema para um Ano Europeu. Não haveria outras ideias e oportunidades? Haveria urgência na escolha do Património Cultural? E até que ponto não poderia tratar-se de uma cedência ao consumismo e à lógica pobre do turismo de massas? Por outro lado, poderíamos sempre questionarmo-nos sobre a utilidade e pertinência destes anos europeus. Que consequências positivas visamos atingir? Não correremos o risco de caírem estas celebrações no esquecimento e limitarem-se à espuma dos dias? Estamos perante um verdadeiro instrumento de política europeia? Estaremos a sensibilizar os cidadãos e a suscitar um debate que permita a mudança das mentalidades? O certo é que nos deparamos com um conjunto muito vasto de preocupações, desde a salvaguarda do património histórico ou da consideração do direito do património cultural até à reabilitação urbana, à proteção da natureza, do meio ambiente, das paisagens e da qualidade de vida… Suzana Tavares da Silva suscitou dúvidas e questões que têm resposta e merecem o devido esclarecimento, até porque, como tenho insistido, não é por acaso que este foi o único ano temático adotado neste ciclo dos órgãos comunitários europeus, que termina com as próximas eleições para o Parlamento Europeu em 2019. O certo é que não foram razões técnicas que conduziram à decisão dos órgãos da União Europeia de escolher o Património Cultural como tema para 2018, mas foram razões cívicas e políticas.

 

DETERMINAÇÃO E TRABALHO
Quando na Europa Nostra, designadamente com o seu presidente Plácido Domingo, a ideia começou a germinar e a ser defendida, no sentido de sensibilizar a União Europeia para o Património Cultural, as preocupações centrais tiveram a ver com o momento difícil que atravessávamos em virtude da crise financeira de 2008. A ilusão económica prevalecia sobre a capacidade criadora e a austeridade, como fim em si, pesava mais do que a ideia de sobriedade e de equilíbrio entre os meios e os fins, numa sociedade democrática, que desse prioridade à mediação das instituições e ao desenvolvimento humano. Pensadores, artistas, cientistas, cidadãos em geral salientam a necessidade de pôr a cultura, a educação e a ciência na primeira linha das nossas preocupações. Afinal, o processo criador do artista e do cientista, do artesão e do filósofo, do técnico ou do matemático são em tudo semelhantes. Tudo está em dar-lhes valor e em compreender que o progresso humano obriga à capacidade inovadora e à preparação das pessoas para a incerteza e para a complexidade. Daí que não tenha sido a lógica patrimonialista ou conservacionista a prevalecer na escolha que teve lugar. Além do mais, a Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (assinada em Faro em 27 de outubro de 2005) põe a tónica num entendimento aberto e dinâmico, transversal e abrangente sobre este conceito. Importava considerar a identidade cultural como uma troca permanente, um enriquecimento constante e não como um circuito fechado ou tentação de qualquer lógica retrospetiva. Assim, as razões ponderosas para a decisão foram: a consideração do património cultural como fator de paz; a ligação do património a um conceito aberto de identidade; o entendimento do culto do património como modo de respeitar as diferenças; a necessidade de superação do medo do outro e do diferente, que tem alimentado nacionalismos e tribalismos; bem como, o desenvolvimento de um conceito de património comum europeu e da humanidade.

 

A CULTURA COMO PRIORIDADE
A cultura não é um luxo, é uma exigência humana. Liga-se naturalmente à educação, à formação e à ciência. Não podemos esquecer que o Euro-barómetro nos disse que os portugueses valorizavam a herança cultural, mas visitam e apoiam pouco os museus e os lugares do património cultural. Daí a aposta nas escolas. E, como disse Suzana Tavares da Silva importa que os roteiros culturais não se percam na existência líquida da não existência, para usar a expressão de Zygmunt Bauman, ou seja, que se compreenda que a cultura não deve tornar-se um mero bem de consumo. Daí a exigência ampla do Património Cultural, designadamente quando temos de considerar que a sociedade civil se deve organizar para proteger a herança e a memória com qualidade e profissionalismo, que a relação entre os direitos fundamentais e a cultura tem de contrariar uma perigosa deriva transhumanista que se vai afirmando, e que a economia, a concorrência e a sustentabilidade (a ideia de turismo sustentável está na ordem do dia) ponham as pessoas e o bem comum em primeiro lugar. Assim se escolheu o lema “onde o passado encontra o futuro”. Mas urge compreendermos a situação de que partimos. O património cultural não pode ficar ao abandono. Há conhecimento e sabedoria que têm de ser incentivados. A permanência da representação chama-se memória. A prevalência da inspiração é a criatividade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Dizem os jornais que um professor de química na Universidade de Oxford, Peter Atkins, de 78 anos, participou numa conferência-debate no Oceanário de Lisboa sobre "Ver o Universo com os olhos da química". E o diário Público (19/11/2018), referindo-se ao último livro de divulgação científica de Peter Atkins, Como Surgiu o Universo, diz-nos que o mesmo aborda a questão de saber porque existe alguma coisa em vez do nada. Não respondendo inteiramente à questão, afirma que a criação ou Big Bang não foi afinal nada de extraordinário, que foi até uma coisa muito natural. Recusa categoricamente a ideia de Deus: «O funcionamento do mundo foi por alguns atribuído a um Criador espantosamente metediço, mas incorpóreo, a guiar ativamente cada eletrão, quark e fotão até aos respetivos destinos. As minhas entranhas revolvem-se perante esta visão extravagante do funcionamento do mundo e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas

 

   Leio tais transcrições do meritíssimo oxfordiano com a certeza de que, para já, aprendi qualquer coisa: nós, os humanos, não pensamos só com a cabeça, ou com a cabeça e o coração. Nem tampouco - como já ouvi dizer - só com os pés: também há quem pense com intestinos turbulentos. E quem candidamente o reconheça e confesse, para que fiquemos bem cientes de que a expressão do seu pensamento - inclusive sobre questões tão antigas, revistas e revisitadas em miríades de pensarsentires humanos, como a pungente interrogação sobre Deus - não é fruto de qualquer preconceito negacionista ou apologético, mas apenas resulta de um longo e estudioso processo gastrenterólogo. Mas nem todos conseguimos «Ver o Universo com os olhos da química» (ou só com eles, por muitos que a química tenha), nem tampouco logramos pensar apenas com os nossos intestinais neurónios (apesar de sabermos que os temos).

 

   O entusiasmante professor ousadamente prossegue, na entrevista ao jornal Público, com a explanação das suas inauditas preocupações e ideias: Creio que existem várias questões sobre a origem do Universo. Uma delas é: como começou? O que iniciou o Universo?

 

   Pasmamos então com a novidade profunda da questão levantada e, para tentar acompanhar o discorrer tremendo do distinto mestre, perguntamos também: «Não foi Deus?» E assim ganhamos a pérola de uma resposta que não poderia ser mais científica, nem quimicamente mais pura, nem mais objetiva, nem mais rigorosa: Gostaria de pensar que não foi. [Deixa-me dizer-te, Princesa de mim - e não mo leves a mal -, que a esmagadora objetividade científica de tal afirmação me lembra aquele clérigo cultural, muito na moda, escrevendo umas pieguices pretensamente poéticas, que sempre me fazem supor que ele também «Gostaria de pensar que o céu nunca é azul nem cinzento, mas é sempre cor de rosa»...] Mas continuemos a acompanhar os gostos científicos de Peter Atkins:

 

   Gostaria de pensar que a ciência, um dia, chegará ao ponto de poder dizer: "Sabemos como tudo começou." E será muito empolgante. Mas creio que há certos aspetos sobre o início do Universo que a ciência já está em posição de perceber e explicar. Acho que as leis naturais são um desses aspetos. O meu objetivo era ver se, ao focar-me num dos aspetos da origem do Universo, se podia atingir um ponto de entendimento que mostrasse que o início foi, na verdade, muito simples. Acho que a ciência simplifica as questões - não simplifica demasiado, apenas simplifica, mas não de uma forma perigosa.

 

   Assim nos livramos do mal, já que a ciência nos libertou do perigo das explicações simplistas, posto que, como repete o nosso eminente professor, ao focar-me nas leis naturais, achei que conseguia simplificar um dos aspetos da criação. Vejo-me, Princesa, esmagado pela abundância científica, o rigor lógico, a química irrefutabilidade desta poderosa argumentação. Pelo que só me resta, como diria o francês, passar-me de comentários... Será melhor e mais esclarecedor ir continuando a reproduzir aqui alguns passos e pontos de apoio das convicções científicas do nosso professor:

 

   O que a ciência tem feito é recuar de forma experimental e teórica até às primeiras frações de segundo após o nascimento do Universo. Mas continuamos sem poder esclarecer nada sobre o que se passou imediatamente antes do início... Algumas pessoas fazem batota, ao dizer que houve uma flutuação quântica, e que o Universo explodiu espontaneamente. Mas isso já pressupõe a existência de algo, para poder haver uma flutuação quântica. Para mim é batota... Creio que a verdadeira questão que a ciência deve abordar é se de absolutamente nada - sem espaço, sem tempo - de absolutamente nada... O que temos realmente de dizer é: a partir de absolutamente nada, existe alguma forma de algo poder emergir?

 

   Mas, pergunto eu, pobre leigo que apenas sabe e pode interrogar, não haverá nestas declarações uma confusão de questões a meu ver bem distintas? Na verdade, uma coisa é seguir para montante as leis da natureza como quem sobe um rio até à nascente - neste caso para tentar entender os começos do Universo no tempo e no espaço - outra coisa é achar uma resposta à interrogação de Leibniz: O que é que faz que o mundo exista aqui e agora, o que é que o prende ao ser, e por que é que há algo em vez de nada?

 

   Quer-me parecer que tal confusão, no espírito de Atkins, resulta, por um lado, da sua oposição preconceituosa, visceral ("as minhas entranhas revolvem-se... e a minha cabeça segue o mesmo caminho das entranhas") à ideia de Deus ou, mais simplesmente, à de transcendência, e, por outro lado, de um alheamento, quiçá voluntarista, ou talvez apenas carente de estudo e informação adequada, do que são a filosofia e a teologia. Para alguém com mediana cultura, a afirmação de que A filosofia e a teologia são ambas formas corruptas de entender o mundo não tem pés nem cabeça. E a ignorância do que é qualquer delas, como exercício intelectual, manifesta-se noutras declarações do autor de divulgação científica, que chegam a ser confrangedoras. Comentá-las-ei, entre [ ], a par e passo. Repara nestas, Princesa de mim:

 

   Deixe-me considerar teologia e filosofia separadamente. Acho que a teologia se limita a fingir uma explicação ao decretar que existe um deus que criou tudo, e algumas pessoas ficam satisfeitas com essa explicação. Mas é totalmente vazia porque, em primeiro lugar, não existe qualquer prova da existência de um deus; e, em segundo lugar, como pode um deus criar coisas, como pode um deus criar o Universo. Essa perspetiva é demasiado fácil. Os teólogos apresentam respostas fáceis, enquanto os cientistas precisam de muito trabalho para compreender e explicar.

 

   [A teologia não pretende provar a existência de Deus, esta é, para qualquer teólogo, um dado da Revelação. Etimologicamente, teologia significa discurso ou tratado de (ou acerca de) Deus. É inteligência da fé (intellectus fidei). Por outras palavras, não há teologia sem revelação divina e fé nela. Creio que já Santo Anselmo falava em fides quaerens intellectum, que poderíamos traduzir quer por "a fé interrogando a inteligência", quer por "a fé em busca de inteligibilidade".

 

   A própria palavra teologia é, não só de etimologia grega, mas surge pela primeira vez  -  tanto quanto me recordo, já me falha por vezes a memória - na República de Platão, posta na boca de Sócrates, significando o tratado dos deuses pelos poetas... Terá sido Aristóteles a tirá-la do domínio da mitologia para a "racionalizar" (se assim me posso exprimir) e a pôr a caminho dos tratamentos que, posteriormente, o cristianismo lhe foi dando, ficando, todavia, sempre bem clara a sua função de esforço de inteligibilidade crescente da fé. Nas circunstâncias de tempos idos, foi incidentalmente "misturada" com o exercício filosófico, até pelo facto de este ser frequentemente desenvolvido por teólogos, ou vice versa. As célebres "provas" da existência de Deus, construídas por São Tomás de Aquino, devem surgir-nos nessa perspetiva, sem, contudo, nos fazerem esquecer que são um exercício racional destinado a sustentar a fé. Um cristão, um judeu, um muçulmano não acredita em Deus por lhe ter sido provada a sua existência, mas, tal como se lê nos Atos dos Apóstolos (17, 28), porque

 

   Em Deus encontra a vida, o movimento e o ser. Tal encontro não resulta de uma demonstração experimental ou racional, mas de uma descoberta ou revelação interior. A própria formulação monoteísta do Ser Deus escapa a qualquer esclarecimento: EU SOU AQUELE QUE É... E a confrontação com ele, mesmo podendo ser manifestada ou proclamada objectivamente, é sempre inalienável, pessoal e subjetiva. Por isso falamos em dar testemunho da fé, nunca em demonstrá-la.

 

   Repara, Princesa de mim, no que físicos, cientistas e filósofos hodiernos não hesitam em afirmar (cito Thierry Magnin, cientista nessa área e teólogo): A origem de "o que é", como tão bem mostra a física quântica, escapa precisamente ao científico. Do mesmo modo, o filósofo observará que o Universo que descreve poderia não existir, porque, em larga medida, o aleatório preside ao seu começo e à sua evolução. Ora o que assim é contingente não pode ter em si mesmo a sua causa ou razão de ser. ]

 

   Pensossinto que não devo deixar de reconhecer como, a dados passos desta minha carta, fui algo irónico, mesmo cáustico, com Peter Atkins em suas afirmações. Temperamentalmente, reajo assim de quando em vez, quiçá levado por uma certa irritação com que me aflige a sobranceria de certas pessoas cuja fúria militante afinal obnubila a clareza necessária ao diálogo. Para te deixar entender o que acabo de dizer, Princesa, não me vou embrulhar em explicações e desculpas, prefiro entregar-te dois trechos de Stephen Hawking, que eu apelido de "astrónomo do cosmos e da metafísica", ateu declarado, falecido em março deste ano:

 

 1. Numerosas pessoas, que não conhecem a ciência, recorrem às tranquilizadoras explicações religiosas... O meu trabalho não prova nem desmente a existência de Deus. Consiste, tão somente, em procurar uma maneira racional de compreender o Universo. [Este, para Hawking, é regido por leis acessíveis pela ciência, enquanto que as antigas narrativas da criação já não são nem pertinentes, nem credíveis. ]

2. Vivi coisas extraordinárias neste planeta, e simultaneamente viajei pelo Universo em pensamento, por meio do meu cérebro e das leis da física. Atingi os confins da galáxia, mergulhado num buraco negro e regressei às origens do tempo. Na Terra, tive altos e baixos, conheci o êxito e o sofrimento, em grande forma e deficiente. O meu maior privilégio foi contribuir para a nossa compreensão do Universo. Mas tal Universo seria muito vazio sem as pessoas que amo e me amam. Sem elas, todas aquelas maravilhas se esvairiam.

 

   Sobre este discurso nada tenho a dizer, além do profundo respeito e da comunhão humana que me inspira. Estamos muito próximos um do outro, ele ateu, eu crente. Ao viver a fé, deixo-a interrogar-me e também a interrogo. Como todos nós, seres humanos, nunca vi Deus. Mas acredito que ainda o hei de ver, e procuro fazer da minha vida um caminho de procura da visão final. Tal caminho só se percorre neste Universo, que seria muito vazio sem as pessoas que amo e me amam. Sem elas, todas as maravilhas se esvairiam. Para já, o rosto de Deus antevê-se no amor das pessoas. Este é a casa de Deus na Terra, onde todos temos altos e baixos, êxito e sofrimento.

 

   Mas, já que foi a entrevista a Peter Atkins - e a projeção que lhe foi dada em Portugal - o assunto desta carta, permite-me, Princesa de mim, que aqui transcreva mais umas das insignificâncias que ele proferiu:

 

   Mas a filosofia é outra coisa. Está algures entre a teologia e a ciência. [Isto até parece a tese comtiana dos três estádios, mas sem perspetiva histórica...] A diferença entre filósofos e cientistas é que os filósofos são pessimistas, ao passo que os cientistas são otimistas. Os filósofos dizem: "Nunca compreenderás, está para lá da compreensão humana" Enquanto que os cientistas dizem: "Espera um pouco, havemos de lá chegar."...   ... A ciência e a religião são totalmente incompatíveis. Basicamente, a religião diz: "O teu cérebro é demasiado insignificante para compreender, nunca compreenderás. Há apenas a possibilidade de poderes perceber depois de morreres." Eu prefiro o conhecimento deste lado do túmulo.

 

   O entrevistador sendo o doutor Carlos Fiolhais, professor de Física na Universidade de Coimbra - e que, em meu entender, tem capacidade para trazer ao Público algo muito mais consistente do que as banalidades de Atkins - arrisca, ainda assim, na sequência dessa declaração sobre ciência e religião, uma pergunta: «Mas há exemplos em contrário. Por exemplo, no século passado, o padre católico Georges Lemaître investigou cosmologia, tendo sido ele a propor a ideia de Big Bang. Acreditava em Deus, ao mesmo tempo que produzia trabalho científico de qualidade.» Resposta: Sem dúvida. Isso significa que estava a produzir trabalho científico de qualidade, mas não significa que a teologia dele estivesse correta.

 

   Ora aí está! Eis a chave de oiro para encerrar esta carta: além de Química, e de leis naturais (terá ele consultado um filósofo epistemólogo para saber a que chamamos leis naturais?), o professor Atkins sabe dizer-nos, sem hesitação, quando é que qualquer teologia está correta ou errada. E ao defunto auto da fé substitui ele o auto da química. Brilhante!  

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

TRADIÇÃO DE EDIFÍCIOS DE TEATRO E DE CULTURA EM VILA DO CONDE

 

A monumentalidade histórica de Vila do Conde remonta aos inícios do século XIV: pelo menos desde 1318, com o Convento de Santa Clara, fundado e construído por D. Afonso Sanches, filho do Rei D. Dinis e de D. Teresa Martins. Restaurado e beneficiado a partir da década de 70 do século XVIII, como tal sobreviveu como Mosteiro e residência eclesial, expressão corrente na época, até 1893, ano em que falece a última monja e o edifício é entregue ao Ministério da Justiça.

 

Mas entretanto, em 1778 efetuam-se trabalhos de restauro e alargamento do Mosteiro. E nessa data inicia a construção do que ficou conhecido como o “Submosteiro”, este segundo traça de um arquiteto relevante, Henrique Ventura Lobo de seu nome. Daí que, em 1912, o historiador Castro e Solla, publique um estudo relacionando os dois monumentos, para lá da proximidade urbana.  (cfr. Castro e Solla “Notas de um Antiquário” in “Ilustração Villacondense” setembro de 2012). Trata-se de um belo edifício da época.

 

Mas o que aqui queremos referir é que o Submosteiro foi adquirido em 1985 pela Camara Municipal que o converteu em auditório, segundo projeto do Arquiteto Maia Gomes.

 

Em 2012, publiquei um estudo intitulado “Teatros em Portugal – Espaços e Arquitetura” em edição de Mediatexto e do Centro Nacional de Cultura.

 

No Prefácio desse livro, Guilherme d´Oliveira Martins refere “os recintos teatrais, a partir do encontro entre o espaço que foi sagrado e uma nova vocação profana – o Mosteiro de Enxobregas, o antigo teatro de Penafiel, o Convento e o Subconvento de Vila do Conde, o exemplo de Trancoso os Conventos e Misericórdias do Alentejo e quatro casos algarvios. E o certo é que esse encontro do sagrado e do profano permite o entendimento do fenómeno teatral a partir das suas origens mais remotas e essenciais”. (pág. 9).        

 

Nesse livro, refiro ainda que “a Câmara Municipal de Vila do Conde adquiriu o Cine-Teatro Neiva, belo exemplar da geração dos Cine-Teatros dos anos 40”.

 

Efetivamente, acrescento, trata-se de um cine-teatro inaugurado em 1949, encerrado nos anos 80 e agora recuperado com uma lotação de cerca de 550 lugares na sala principal, em plateia e dois balcões, e ainda uma sala experimental de 120 lugares.

 

 

DUARTE IVO CRUZ 

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXIX - IMPRESSIONISMO

 

1. Movimento artístico cujo nome advém da tela de Monet Impréssion, que repudiava a pintura académica e de estúdio de natureza clássica, recusando um estilo que idealizasse obras baseadas na mitologia, iconografia religiosa, história ou antiguidade clássica, contrariando uma técnica de pintura tida como adequada e precisa.

 

O impressionismo faz sobressair o reflexo da luz nos objetos e não os próprios objetos, com pinceladas urgentes, momentâneas, velocistas, com explosões de cor compactas, breves, ao ar livre, onde a luz muda permanentemente, captando a sensação de um momento passageiro, em que a informalidade e a velocidade era essencial, em oposição ao ambiente académico, artificial, controlado e solene do estúdio.   

 

Captavam o aspeto momentâneo, singular e continuamente em mudança das coisas, partindo dos efeitos óticos da luz e das cores, normalmente claras, decompondo-as em manchas e pinceladas finas e pequenas, que ao serem observadas a uma determinada distância, refletiam o jogo da luz e do cromatismo, sem dependerem, no essencial, dos contornos, volume corpóreo e da profundidade. 

 

Há quem diga que pinta o espaço que medeia entre nós e os objetos. 

 

O desenho torna-se secundário. É a cor que dá forma. 

 

Embora no contexto atual da arte moderna o impressionismo seja tido como adequado e encantador, por representar e retratar cenas reconhecíveis de uma maneira figurativa, por confronto com a desumanização do cubismo, abstracionismo, dadaísmo e arte concetual, não foi o que as pessoas pensaram aquando do seu aparecimento, dado que, na época, os impressionistas foram tidos como um grupo de arrivistas, rebelde e radical, pintando obras artísticas tidas como meras caricaturas não adequadas aos cânones da Academia, onde imperava o estilo neoclassicista do Renascimento. 

 

Baudelaire, no ensaio O Pintor na Vida Moderna, fez uma interpretação atualista e atualizada do que estava a acontecer, usando o seu estatuto de escritor e poeta consagrado para avalizar os impressionistas, pelo que muitas das suas ideias foram  incorporadas nos princípios básicos fundadores do impressionismo. 

 

Desafiando os artistas a distinguirem na vida moderna o eterno do transitório, tendo como fim essencial da arte captar o universal no presente do quotidiano, escreveu: 

 

“A modernidade é o transitório, o fugitivo, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável. Existiu uma modernidade para cada pintor antigo; a maior parte dos belos retratos que nos ficaram de tempos anteriores estão revestidos de vestuário da sua época. São perfeitamente harmoniosos porque o fato, o penteado e mesmo o gesto, o olhar e o sorriso (cada época tem o seu porte, o seu olhar e mesmo o seu sorriso) formam um todo de uma completa vitalidade. Este elemento transitório, fugitivo, cujas metamorfoses são tão frequentes, não tendes o direito de o desprezar ou de o dispensar. Ao suprimi-lo, caireis forçosamente no vazio de uma beleza abstrata e indefinível, como a da única mulher antes do primeiro pecado”.   

 

2. Teve como principais representantes Manet, Monet, Renoir, Degas, Pissarro, Sisley e,  entre outras, como pinturas célebres Olympia e Almoço na Relva (1863, Édouard Manet), Impression, Soleil Levant (Impressão, Nascer do Sol, 1872, Claude Monet), A Aula de Dança (1874, Edgar Degas), onde são várias as influências sofridas, desde os paisagistas de Barbizon, os efeitos da luz natural do pintor inglês Turner e as xilogravuras japonesas coloridas e bidimensionais Ukiyo-e, com o seu significado de imagens de um mundo flutuante. 

 

As últimas consequências da técnica impressionista, desenvolveram-se com o neoimpressionismo (pontilhismo), a partir de 1885, nomeadamente com Seurat e Signac. Desenvolveu-se paralelamente ao processo físico visual, uma distribuição produzida por refração da luz através de um modo prismático das tonalidades, donde deriva o divisionismo, representando-as na tela via uso das cores puras aplicadas em forma de pequenos pontos aplicados uns contra os outros, formando uma espécie de teia.

 

Seurat era também artista gráfico, além de pintor, ficando conhecido por telas figurativas e paisagísticas, de grande força luminosa e estrutura matemática, enquanto Signac, além de pintor, foi escritor e artista gráfico, pintando paisagens com o movimento de redemoinho das cores.         

 

Na escultura, há que referir Rodin, com trabalhos em gesso, mármore e bronze, alusivos a formas plásticas de jogos permanentes de luz e sombras, exemplificando-o O Beijo (1866) e Os Burgueses de Calais (1884).

 

Reproduzindo, de igual modo, temas atuais e novos temas relacionados com a vida boémia e burguesa de Paris, o impressionismo opôs-se à pintura histórica e de género idealizada e tida como adequada para a época, tendo em atenção as inovações provocadas pela fotografia, estudos químicos sobre a cor do químico Chevreul, a pintura paisagística inglesa do século XVIII e do ar-livre fomentada e praticada pela escola de Barbizon. 

 

18.12.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

 

Das estrelas: pois que já nascemos

 

Tantas vezes são as que penso que Dante procurou o modelo do seu inferno no nosso mundo real e sem qualquer dificuldade o descreveu. Contudo, quando narrou o céu, enfrentou-o uma inexcedível dificuldade, pelo facto do nosso mundo não oferecer nada de análogo. Cada um de nós tem um arquidiabo e vomita que sofrer e morrer e esquecer a fraternidade e a solidariedade é modo de nos matarmos mutuamente como destino. Enfim, se as dores deste espetáculo de medo que é o mundo nos entrassem em antros pelos olhos, reconheceríamos rapidamente a que espécie de mundo pertencemos. Seres atormentados só subsistem a devorar-se uns aos outros, e só se conserva a vida a preços do sofrer, e eis o absurdo gritante de tudo isto. Os olhos, e neles o olhar gelado, no meio da dor que os tenta a uma outra vontade de viver diferente. Mas eles quedam-se sem vacilar, não se fundem a não ser com eles mesmos.

 

Os otimistas de uma espécie harmoniosa expuseram-nos este mundo com uma candeia, guiaram as nossas interpretações, e giraram os nossos olhos para um lado da vida que fizesse pensar ou refletir. Tentaram. Ensinaram-nos que a existência humana é naturalmente um sonho efémero e assim deve ser aceite e vivida, e que os dias com fantasia não são de todo a razão oposta de um cadáver nos fazer sérios e silenciosos de repente, são sim, o sentir ali, um campo de batalha que a todos respeita e um dia ele nos tocará exigindo-nos o essencial. Um dia, há sempre um dia, em que terra e mar se mesclam e nas nossas mãos um irreconhecível gelo não permite qualquer fruto. Chega então uma dor inteligente, pode imaginar-se mesmo uma dor que nos aumenta a sensibilidade e nos faz sentir nas tragédias e nas comédias, atores de gabarito. Afinal quanto tempo andámos nos repastos do nada? Durante quanto tempo nos sentámos desprovidos de alegrias na pedra agelasta? E se tudo isso tiver sido em vão? Se até a história natural da dor for em vão? Que caçada estranha em que caçadores e caçados dividem as suas próprias carniças. Vive-se em privação mesmo quando se tem filhos, e muito se vive em casamentos forçados connosco próprios em que divórcio algum nos chega para autocrítica.

 

Contudo Romeu e Julieta adquiriram uma gloria imortal sobre o poder do amor com uma força e perseverança incríveis, embora vítimas das circunstancias exteriores que os separavam. Não creio que nos seja possível duvidar da realidade do amor, no entanto, uma questão tão importante deixada sobretudo ao dizer dos poetas, sinto-a, confesso, algo descurada dos caminhos dos filósofos, e, mesmo relendo Platão, nele encontro o amor grego, um domínio de mito e de jogos de palavras. Ainda assim na vida real o amor é a mais convicta de todas as molas como finalidade do esforço humano para a felicidade! Crê-se mesmo que no sono da morte do amor ainda existem sonhos. Estranho conforto de um fiel traidor que assim nos surge em jeito de prolongamento de existência. Mas enfim, creio sim que projetar a geração seguinte numa condição de entender o amor como algo que seja escolha individual e instinto e chave e diversidade, não se trata de uma vantagem individual, mas antes meio de garantir uma outra constituição da humanidade futura, porque o amor se transforma em vontade de espécie, e, ainda que seja dor, relativo a um bem de todos nós, não valerá ele a pena? O áspero realismo dos limites que vivem no amor é infinitamente mais nobre do que os sentimentos letais que desafiam esse amor. Ainda assim há que estarmos atentos porque a nossa natureza precisa de ser admirada e, deste modo, o ser que é a pessoa amada, nosso alvo da criação, somos nós, constituídos de um suposto novo ser diferente na nossa natureza, e esse ser não se contenta a não ser que sejamos nós o essencial.

 

Afinal que seres mal constituídos e desarmoniosos somos nós? Somos até a intriga que um dia conduz ao desamor e um dia ele não é mais do que um desenlace acessório. Aqui a força definitiva da morte acode-nos, se o ser amado partir e nós, nós, logo de modo exclusivo, ousamos descrever o que enfim foi nosso e tudo o que diz o mundo não impele à verdade de nada: nós somos finalmente essa verdade; essa dor, essa realidade de pacto e rodeios e manobras e limites e esforços, e de tudo isto, só nós temos a propriedade registral e mesmo assim somos infelizes! 

 

Creio que em todos os fins que a vida humana tem, digno de consideração e de dor interpretada será sempre a impossibilidade de viver o amor, pois ao trocarmos os olhares que não destroem a vida, eventualmente seremos capazes de uma harmoniosa criação de sentires. Eventualmente

das estrelas: pois que já nascemos

numa luta de vencidos entoada na Aleluia que tanta sabedoria exige

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A cidade segundo Georges Perec.

 

'There's nothing inhuman in a town, unless it's our own humanity.', Georges Perec, 'Species of Spaces'

 

Segundo Georges Perec em 'Species of Spaces', encontrar uma só definição para cidade, poderia ser demasiado ambicioso - não é possível explicar ou justificar a existência da cidade. A cidade existe e é um facto. É o espaço por excelência do mundo contemporâneo. O ser humano nasce, cresce e respira na cidade.

 

'O ar é a casa mais alta - a mais rica - desta aldeia', Luiza Neto Jorge

 

E Georges Perec sugere, os seguintes exercícios, para que melhor se consiga entender a existência da cidade como uma espécie de espaço: 

 

- Identificar distinções elementares   entre, por exemplo, o que é cidade e o que não é cidade - o que é que acontece fisicamente quando a cidade acaba? 

 

'For example one absolutely foolproof method for telling whether you're in Paris or outside Paris consists of looking at the numbers of the buses. If they have two digits, you're in Paris, if they have three digits, you're outside Paris.', G. Perec

 

- Reconhecer que os subúrbios apresentam uma tendência muito forte em deixar de ser subúrbios. A cidade nunca é o que foi, está sempre em constante mutação. 

 

'Remember, that the Arc de Triomphe was built in the country.', G. Perec

 

- Estabelecer uma relação direta entre a cidade e tudo relacionado com pedra, betão, asfalto, aglomeração de gente desconhecida, monumentos, instituições, trânsito, bocados de céu.

 

- Desistir de todas as ideias preconcebidas e de conceitos já preparados. E sim falar sobre a cidade de modo simples, óbvio e familiar.

 

'There's something frightening in the very ideia of the town; you get the impression you can fasten only on to tragic or despairing images of it...', G. Perec

 

- Para que deixe de ser um território desconhecido, Perec aconselha a que se construa uma ideia (nem que seja vaga) da cidade no seu todo - ao encontrar referências e preferências, ao associar memórias a espaços e a formas construídas e ao andar a pé ou de autocarro aleatoriamente ou com um itinerário sistemático.

 

'I like my town, but I can't say exactly what I like about it.', G. Perec

 

Ana Ruepp

GLOBALIZAÇÃO E ÉTICA GLOBAL

 

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é: 1. inevitável, 2. ambivalente (com ganhadores e perdedores), 3. não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também — e isto é o mais importante — dirigível”. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de “metafísica do mercado” e de uma sociedade de mercado total.

 

2. Neste sentido, em Setembro de 1993, teve lugar em Chicago o Parlamento das Religiões, com a presença de uns 6500 participantes e onde 150 pessoas qualificadas, representando as diferentes religiões e movimentos de tipo religioso do mundo inteiro assinaram o Manifesto ou Declaração de Princípios para uma Ética Mundial. O texto fora preparado essencialmente por Hans Küng.

 

Ainda no contexto das celebrações dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, vale a pena retornar a esses princípios. Como escreveu Küng, não se trata de uma duplicação da Declaração dos Direitos Humanos nem de uma declaração política nem de uma prédica casuística nem de um tratado filosófico nem de uma idealização religiosa ou da busca de uma religião universal unitária. Trata-se exactamente desse consenso de base, mínimo, referente a valores vinculantes, a critérios e normas inamovíveis e a atitudes morais fundamentais. Supõe-se que estes mínimos éticos, que assentam na constatação de uma convergência já existente nas tradições religiosas, podem ser assumidos por todos os seres humanos, independentemente da sua relação com a religião.

 

Neste consenso mínimo de base, a exigência fundamental é: todo o ser humano deve ser tratado humanamente, de modo humano. Porquê? Porque todo o ser humano, sem distinção de sexo, idade, raça, classe, cor, língua, religião, ideias políticas, condição social, possui dignidade inviolável e inalienável.

 

Por outro lado, para agir de forma verdadeiramente humana, vale, antes de mais, a regra de ouro: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” (formulada positivamente: faz aos outros o que queres que te façam a ti). “Esta deveria ser a norma incondicionada, absoluta, para todas as esferas da vida, para a família e para as comunidades, para raças, nações e religiões”. Esta regra de ouro concretiza-se em quatro directrizes ou orientações antiquíssimas e inalteráveis: comprometimento com uma cultura da não-violência e do respeito pela vida (não matarás: respeita toda a vida); comprometimento com uma cultura da solidariedade e com uma ordem económica justa (não roubarás: age com justiça); comprometimento com uma cultura da tolerância e uma vida vivida com veracidade (não mentirás: fala e age com verdade); comprometimento com uma cultura da igualdade de direitos e com uma irmandade entre homem e mulher (não prostituirás nem te prostituirás, não abusarás da sexualidade: respeitai-vos e amai-vos mutuamente).

 

Trata-se de uma Declaração assinada por “pessoas religiosas”, que têm a convicção de que “o mundo empírico dado não é a realidade e a verdade última, suprema”, que, portanto, fundamentam o seu viver na Realidade última e dela extraem, em atitude de confiança, na oração e na meditação, na palavra e no silêncio, a sua força espiritual e a sua esperança. Na presente crise de valores, “estamos convencidos de que são precisamente as religiões que, apesar de todos os abusos e frequentes fracassos históricos, podem assumir a responsabilidade de que as esperanças, objectivos, ideais e critérios de que a Humanidade precisa para a convivência na paz sejam mantidos, fundamentados e vividos”.

 

3. Estou profundamente convencido de que é neste espírito que o Papa Francisco viajará em Fevereiro próximo (3-5) para Abu Dhabi, capital dos Emiratos Árabes. A finalidade da visita, correspondendo a um convite do príncipe herdeiro, Mohammed bin Zayed, e da Igreja, é precisamente participar num encontro inter-religioso internacional sobre a “Irmandade humana”, na convicção de que o diálogo inter-religioso é essencial para evitar a violência e abrir caminho para a paz.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo públicado no DN | 15 DEZ 2018

A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de dezembro de 2018.

 

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz (Companhia das Letras, 2018), que acaba de ser publicado, nasceu da viagem ao Vietname e ao Camboja, organizada pelo Centro Nacional de Cultura, em 2017.

 

GEOGRAFIAS DENTRO DE NÓS
O objetivo dessa viagem seria encontrar vestígios dos portugueses nesses lugares tão distantes – e, no dizer do autor, “porventura, encontrar essas mesmas geografias dentro de nós”… A novela agora vinda a lume tem ainda com outra origem o texto escrito por Afonso Cruz para o espetáculo “Pasta e Basta”, da autoria de Giacomo Scalisi com cocriação de Miguel Fragata e que mistura “teatro e culinária, fazendo das receitas uma metáfora da própria criação, enquanto encontro de ingredientes de várias proveniências”. A obra parte da ideia de um pai que escreve à filha que não conhece para contar-lhe a sua própria história, que é, afinal, de ambos. “Esta história, minha e de tua mãe, é também tua. (…) No lugar onde me encontro, a felicidade é um luxo, e talvez por isso, porque pela primeira vez me encontro numa situação verdadeiramente desesperada, tenha alcançado aquilo que o conforto ou a abundância ou a segurança nunca me deram, esse estranho júbilo que se deixa afetar pelo mundo, pelas suas circunstâncias e que, malgrado a dor que nos rodeia, mantém em nós um sorriso intocado, invulnerável, por debaixo das aparências mais desconcertantes ou sofridas”. Estamos, deste modo, perante uma entrega e uma troca de natureza emocional. E a viagem à Cochinchina visa “encontrar e perceber aquilo que está mais perto de nós, aquilo que nos habita”. Estamos perante uma busca que leva a ir “para lá do longe”, o que significa a procura de quem somos, “com as relações mais próximas, com os nossos erros, com as nossas paixões, com as nossas dores e, ao somar tudo isto, entre sofrimento e júbilo”. E assim talvez se possa ir ao encontro da felicidade. “Cochinchina era para o meu pai o lugar para lá do lugar. Uma pessoa podia pecar, mas a Cochinchina era o meta-pecado, a fera suprema, o ponto onde a razão enlouquece, estava para lá de Deus. Uma pessoa podia imaginar a extensão do mundo, mas a Cochinchina era um passo além da nossa imaginação. Como nunca tinha sentido uma paixão verdadeira, ainda não sabia que a mesma definição se poderia aplicar ao amor: fera suprema, enlouquecimento da razão, ponto para lá de Deus ou da imaginação”… E aqui nos encontramos perante um mistério que precisa de ser desvendado. Este pai encontrou o amor com a mãe desta filha que desconhece e está distante. “A tua mãe, por não falar corretamente, tinha a poesia do que erra, que, por vezes é a mais bela”.

 

UM SENTIDO RELATO DE AMOR
E toda a história é um sentido relato de amor. O apelo “Quando chegas?”, logo após o nascimento daquele pequeno ser que era sua filha – tem especial intensidade, como a tentativa de comunicar com a sua própria mãe no leito de morte para lhe dizer que teria de partir ao encontro do amor distante. “Mas fora ela quem partira”. Encontro e desencontros. Que é, afinal, a vida? O amor antigo esmorecera e um novo amor distante tornara-se vivo e bem presente. E o certo é que naquele momento era o amor de sua mãe que ele lembrava como definitivamente perdido, enquanto realidade próxima. E a morte sobrepôs-se à vida. Para complicar tudo, se a partida foi impedida pela morte da mãe, a verdade é que sua mulher anuncia-lhe que está também grávida. “Tinha-se instalado um grande dilema: magoar uma ou magoar outra, o que deveria escolher? E as nossas famílias? E tu? E a gravidez da minha mulher? E os meus princípios? Não havia maneira nenhuma da sair moralmente ileso daquela situação. E, mais uma vez, a conversa foi adiada, precisava de meditar sobre tudo o que me acontecia, interior e exteriormente”… A distância alargou-se. E os adiamentos sucederam-se. A criança que se anunciava não nasceu e a mulher ficou impossibilitada de ter filhos. A pouco e pouco, veio o efeito progressivo da idade. Subitamente chegou, inesperada, a viuvez, por um choque anafilático provocado pelas picadas de um enxame de abelhas… Mas “não me dera conta de que tudo desaparecera da minha vida, a minha mãe, a tua mãe, o meu pai, o meu melhor amigo, a minha mulher. Não me dera conta de que não fora somente o meu passado a desaparecer, tinha feito a mesma prestidigitação com o futuro: nessa atividade fastidiosa que é viver e a vida plena (e não plena), também tu tinhas desaparecido”… É o momento em que decide ir ao encontro da sua segunda família na Cochinchina. E lembra o princípio de “Anna Karenina” de Tolstoi que dá título à novela: “Todas as famílias felizes se parecem, todas as infelizes são infelizes à sua maneira”. Do mesmo modo que invoca a expressão de Aristóteles: “As pessoas são boas de uma maneira, e más de inúmeras”…

 

A TREMENDA MEMÓRIA
Uma busca no Vietname e no Camboja obriga a lidar com a tremenda memória da guerra. Em Ho Chi Minh procurou a morada de onde recebia a correspondência. Era um restaurante, e aí obteve a informação de que a amada teria partido para Phnom Pehn, capital do Camboja. E a procura prosseguiu, mas a história que encontrou no novo destino confirmou as piores suspeitas. Havia uma carta que não tinha sido enviada e o negrume da notícia da morte. O guia, perante a trágica desilusão, aconselhou-o a visitar Angkor Vat – “o maior templo jamais construído foi esquecido e rapidamente ficou coberto de vegetação (…). A sumptuosidade é já prolegómeno da ruína, mas é precisamente o esforço de edificar, conhecendo à partida o triste destino desse ato, que coroa a vida”. Mas acontecem milagres. Numa viagem de negócios no aeroporto de Hanói, ouviu o nome de sua filha. Talvez fosse coincidência, mas não era. No avião para Hue, conseguiu sentar-se a seu lado. “Conversámos mas não nos podíamos compreender, eu falava a minha língua, tu dizias alguma coisa na tua, não tínhamos um idioma comum para comunicarmos. (…) Evidentemente que não te disse que era teu pai, por vários motivos: não saberia como fazê-lo sem parecer louco, não teria forma de te explicar o que quer que fosse. Adiei, Fá-lo-ia na altura certa, agora que te tinha encontrado…”. Um pequeno saco de cannabis ditaria, porém, o destino final desta novela. “De todas as coisas que fiz, as duas mais importantes foram ter-te dado a vida e ter-te salvado a vida”… E vem a lembrança o dominicano Frei Gaspar da Cruz que acabou por converter uma única pessoa – que morreu antes do frade regressar… Mas, afinal, foi preciso viajar até aos antípodas para encontrar a verdadeira terra – a alegria e a plenitude do outro…  

 


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Creio que foi Robert Brasilach quem primeiro apelidou o grande Georges Bernanos de l´anarchiste chrétien. Terá, pois, dito O anarquista cristão... Todos sabemos que tem havido e vai havendo anarquistas cristãos (ainda escreverei uma carta a contar-te histórias), mas a distinção especial de Bernanos por Brasilach traz, a meu ver, água no bico, quiçá aponte algum desvio ou um lançar a confusão. O próprio Pio XII, todavia, mesmo sendo papa, não se deixou levar pelas acusações de desordem ou heresia feitas contra o escritor de combate e romancista. Aos que com ele insistiam para que pusesse no Index dos livros proibidos alguns de Bernanos, respondeu um dia: "Lá que aquilo queima, queima! Mas é fogo que ilumina!" O crítico e ensaísta Sébastien Lapaque, cronista de Le Figaro, no seu Georges Bernanos - encore une fois (Les Provinciales, Paris, 1998 e 2018 - edição aumentada) abre-nos uma janela sobre a escrita ardente e luminosa do autor de Journal d´un Curé de Campagne, La Joie, Sous le Soleil de Satan, etc.:

 

   Não nos enganemos: a preocupação que atravessa o Soleil de Satan é idêntica à que origina La Grande Peur, e aqueles que caridosamente se esquecem do segundo desses livros, fariam melhor se o aceitassem. Em ambos Bernanos denuncia um mundo que cinicamente labora para poder passar sem alma. Em ambas as obras ele anuncia o advento de uma nova forma de barbárie. Procura comover os seus leitores - "que importa se de amizade se de cólera?" - e a levá-los a ajoelharem-se e a chamar por Deus.

 

   [La Grande Peur des bien-pensants (1931) é o primeiro de sete ensaios, dos quais La France contre les robots (1945), de que também já te falei, foi o último. Entre ambos, contamos Les Grands Cimetières sous la lune (1938), Nous autres Français (1939), Scandale de la vérité (1939), Lettre aux Anglais (1942) e Les Enfants humiliés (1939/40) que, todavia, só foi editado em 1949, a título póstumo.]

 

   Um mundo sem alma, essa tentação, ou deriva já, das nossas sociedades economicistas, quais cegos para a queda num barranco, é a nossa rendição, cultural e civilizacional, à tirania do dinheiro. Assim, há três quartos de século, clamava a voz profética de Bernanos, como neste passo de La France contre les robots, livro de que te falei ainda em carta recente, aliás, quando o ofereci à minha neta Inês, pela sua entrada na faculdade de direito da Sorbonne: O reino do Dinheiro é o reino dos Velhos. Num mundo entregue à ditadura do Lucro, qualquer homem capaz de preferir a honra ao dinheiro é necessariamente reduzido à impotência. Eis a condenação do espírito da juventude... Se, para infelicidade nossa, o dinheiro for, continuar a ser, a obrigatória motivação principal dos nossos comportamentos sociais, tudo o mais, nas nossas vidas, irá perdendo sentido, e do muito, muito, que nos constitui como pessoas humanas seremos esvaziados. Recorro à expressão lapidar de Adriano Moreira, que tantas vezes lembro: É substituir o valor pelo preço.

 

   De nada valerá pedir a Deus que nos livre do mal... se não nos livrarmos, nós mesmos, de tal miséria.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

NUM LIVRO RECENTE, TEATROS DO PASSADO AO FUTURO

 

Fazemos hoje referência um livro muito recente: “100 Futurismo”, se intitula, organizado por Dionísio Vila Maior e Annabela Rita (Edições Esgotadas., 2018). Trata-se de um muito extenso volume de cerca de 650 páginas, que reúne textos de 50 autores, entre os quais com muito gosto me incluo com uma evocação crítica sobre “Almada Negreiros, um Dramaturgo Futurista”, resumindo estudos que durante décadas efetuei, redigi e publiquei, sobretudo baseados na profunda amizade familiar e na também profunda e vastíssima admiração que Almada motivou e significou. Perdoe-se esta nota pessoal...

 

No que respeita aos Teatros - edifícios citados no livro, saliento agora o estudo de excelente qualidade, da autoria de Ana Isabel de Vasconcelos, intitulado “Contra o Gosto Público que Sustenta o Teatro: Almada e o Panorama Teatral de uma Época”.

 

A propósito da chamada Conferência Futurista que Almada Negreiros pronunciou em 17 de abril de 1917 no então chamado Teatro República, antes Teatro D. Amélia e depois Teatro e Cinema São Luiz, Ana Isabel Vasconcelos refere e analisa um conjunto de teatros que, já na transição dos séculos XIX/XX, marcaram a vida teatral portuguesa, tanto no que respeita aos edifícios em si mesmos, com aos repertórios mais marcantes.

 

Desde logo o Teatro D. Amélia - República- São Luiz já citado. Mas também o Teatro Ginásio, o Teatro Avenida, o Teatro da Trindade, o Eden então Teatro (e episodicamente voltaria a ser) o Teatro Apolo, e ainda o que a autora denomina, e bem, “palcos de 2ª, como o Fantástico e o Povo (que) apresentam revistas”...

 

Citamos o comentário que Ana Isabel Vasconcelos faz ao teatro produzido por autores portugueses.

 

“Nessa época, os dramaturgos portugueses têm uma relação muito próxima com o palco. As suas criações são sobretudo enformadas pelo que tradicionalmente agrada ao público e pelas escolhas dos empresários, ambos tantas vezes responsabilizados – ainda que por razões diferentes - pela falta de inovação e de renovação dos palcos portugueses. Numa lógica mercantilista, em que o nível cultural do “consumidor” é muito baixo, torna-se difícil compatibilizar o horizonte de expetativas com propostas dramatúrgicas mais modernas. Sempre que se arriscaram tendências de teor inovador, os resultados foram tímidos e de pouca duração”. E em nota: “Basta lembrar as experiências do Teatro Livre, do Teatro Moderno e já em 1925, o Teatro Novo de António Ferro, que, apesar de inovadoras não conseguiram resistir”. 

 

E assim foi!

DUARTE IVO CRUZ