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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

John Ruskin - Arte, Trabalho e Sociedade. (Parte 1)

 

'But now having no true business, we pour our whole-masculine energy into the false business of money-making; and having no true emotion, we must have false emotions dressed up for us to play with, not innocently, as children with dolls, but guiltly and darkly.', John Ruskin

 

Ao experienciar constantemente beleza no mundo, somos ensinados a ver a vida na sua mais pura verdade.

 

O pensamento de John Ruskin (1819-1900) transporta a ideia de que a arte não tem qualquer relação com o intelecto ou com o conhecimento. Apresenta sim uma incessante busca pelo sagrado e pela verdade das coisas que demonstram a simultaneidade de Deus e da Natureza. Ruskin acreditava que a educação do gosto poderia influenciar a formação de um carácter. Debatia-se a favor do constante encantamento e glorificação pelo mundo. 

 

Ruskin acreditava no uso da técnica pura, sem artifícios nem seduções, quase como uma prática religiosa, que implicava o retorno a uma condição social e a um ofício humilde e cuidadoso, que poderia trazer o contentamento puro. O artista já não é apenas um visionário isolado do mundo, mas um homem em polémica com a sociedade. O artista gostaria agora de afirmar a solidariedade como sendo o empenho primordial de todos os povos e todos os seres humanos. Cada linha, cada risco desenhado por este novo artista, se verdadeira, deverá ser intensa, inteira e decisiva, contendo todas as intenções possíveis. Ruskin reconhecia o trabalho automático da máquina como sendo o possível libertador do trabalho repetitivo e monótono. 

 

'Fine Art is that in which the hand, the head, and the heart of man go together.', J. Ruskin

 

Ruskin protestava contra a busca exclusiva do lucro na era da Revolução Industrial, contra a exploração do homem pelo homem, assumindo assim uma postura política claramente socialista. Para Ruskin, uma sociedade baseada no tratamento desigual e indiferente em relação às pessoas e ao meio ambiente é alheia à beleza.

 

'When men are rightly occupied, their amusement grows out of their work, as the colour-petals out of a fruitful flower - when they are faithfully helpful and compassionate, all their emotions become steady, deep, perpetual and vivifying to the soul as the natural pulse to the body.', J. Ruskin

 

Ana Ruepp

A MARCA AMARELA E O LUAR DE LONDRES

 

TU CÁ TU LÁ
COM O PATRIMÓNIO
Especial. 5 de dezembro de 2018

 

Passeio por Londres. A chuva miudinha não para. Mas entre as nuvens, aparece tímido o célebre luar londrino descrito por João de Lemos, e que não esqueço, recordando as noites serenas de inverno de outrora, entre poemas e declamações…

Passo em Limehouse e vêm-me à lembrança as leituras juvenis de E. P. Jacobs e da sua “Marca Amarela”.

Foi mesmo aí o cenário do misterioso enredo.

Os mistérios podiam ser desvendados nas salas do Centaur Club…

Como anglófilo incorrigível, dou-me a pensar nos efeitos desta dolorosa separação que se chama Brexit…

Alguma coisa se passará, antes deste divórcio que ninguém quer, mas que ninguém sabe como se ver livre dele.

Por agora, prefiro, porém, ficar-me a lembrar o poema célebre de João de Lemos.

Poderia invocar um texto pungente de William Blake.

Mas prefiro por estes dias citar um romântico em “Impressões e Recordações”.

Esperemos o que irão decidir os Comuns… E leio os conselhos avisados de Timothy Garton Ash.

Por que razão não chega uma centelha de bom senso?

 

«É noite; o astro saudoso
Rompe a custo um plúmbeo céu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, húmido véu:
Traz perdida a cor de prata,
Nas águas não se retrata,
Não beija no campo a flor,
Não traz cortejo de estrelas,
Não fala d'amor às belas,
Não fala aos homens d'amor.

Meiga lua! os teus segredos
Onde os deixaste ficar?
Deixaste-os nos arvoredos
Das praias d'além do mar?
Foi na terra tua amada,
Nessa terra tão banhada
Por teu límpido clarão?
Foi na terra dos verdores,
Na pátria dos meus amores,
Pátria do meu coração?

Oh! que foi!... deixaste o brilho
Nos montes de Portugal,
Lá onde nasce o tomilho,
Onde há fontes de cristal;
Lá onde viceja a rosa,
Onde a leve mariposa
Se espaneja à luz do sol;
Lá onde Deus concedera
Que em noites de Primavera
Se escutasse o rouxinol.

Tu vens, ó lua, tu deixas
Talvez há pouco o país,
Onde do bosque as madeixas
Já têm um flóreo matiz;
Amaste do ar a doçura,
Do azul céu a formosura,
Das águas o suspirar;
Como hás-de agora entre gelos
Dardejar teus raios belos,
Fumo e névoa aqui amar?

Quem viu as margens do Lima,
Do Mondego os salgueirais,
Quem andou por Tejo acima,
Por cima dos seus cristais,
Quem foi ao meu pátrio Douro,
Sobre fina areia d'ouro,
Raios de prata esparzir,
Não pode amar outra terra
Nem sob o céu d'Inglaterra
Doces sorrisos sorrir.

Das cidades a princesa
Tens aqui; mas Deus, igual
Não quis dar-lhe essa lindeza
Do teu e meu Portugal;
Aqui, a indústria e as artes,
Além, de todas as partes,
A natureza sem véu;
Aqui, oiro e pedrarias,
Ruas mil, mil arcarias,
Além, a terra e o céu!

Vastas serras de tijolo,
Estátuas, praças sem fim
Retalham, cobrem o solo,
Mas não me encantam a mim;
Na minha pátria, uma aldeia,
Por noites de lua cheia,
É tão bela e tão feliz!...
Amo as casinhas da serra,
Co'a lua da minha terra,
Nas terras do meu país.

Eu e tu, casta deidade,
Padecemos igual dor,
Temos a mesma saudade,
Sentimos o mesmo amor:
Em Portugal, o teu rosto,
De riso e luz é composto,
Aqui, triste e sem clarão;
Eu lá, sinto-me contente,
Aqui, lembrança pungente
Faz-me negro o coração.

Eia, pois, ó astro amigo,
Voltemos aos puros céus,
Leva-me, ó lua, contigo
Preso num raio dos teus;
Voltemos ambos, voltemos,
Que nem eu, nem tu podemos
Aqui ser quais Deus nos fez;
Terás brilho, eu terei vida,
Eu já livre, e tu despida
Das nuvens do céu inglês».

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

MANDELA: A LIBERDADE E O PERDÃO

 

Em mais uma homenagem da Academia das Ciências a Nelson Mandela, no passado dia 20 de Novembro, também participei com uma comunicação, de que fica aí o essencial.

 

1. Há uma experiência de fundo: o ser humano não é objecto, coisa. Olhamos para as coisas como um “isso”, mas olhamos para os seres humanos como um “alguém”. Alguém que é um “tu” como eu e, ao mesmo tempo, um tu que não sou eu: outro eu e um eu outro, formando um “nós”. O outro, no seu rosto e olhar, impõe-se-me como um “alguém corporal”, a visibilidade de uma interioridade inacessível que se mostra e impõe.

 

A experiência radical de não se ser coisa dá-se na consciência da liberdade. Cada um, cada uma, faz a experiência originária de ser dado, dada, a si mesmo, a si mesma, experiência que se explicita na consciência de autoposse. Somos senhores e donos de nós. Muito cedo, a criança é capaz de dizer ao pai ou à mãe: não és minha dona, meu dono. Pertenço, antes de mais, a mim próprio, a mim própria.

 

Claro que a liberdade não é demonstrável. Aliás, se o fosse, não seria liberdade, mas coisa. A liberdade apresenta-se nesta experiência de autoposse e, consequentemente, na experiência de responsabilidade: respondo por mim e pelo que faço. Dada a neotenia — vimos ao mundo por fazer —, temos pela frente a tarefa essencial, constitutiva: fazermo-nos a nós mesmos, uns com os outros, no mundo. Poder-se-ia acrescentar que a experiência da liberdade é uma experiência transcendental: a liberdade afirma-se, mesmo na sua negação. De facto, se tudo estivesse sob o determinismo, não seria possível colocar a questão da liberdade e do determinismo enquanto tal.

 

A liberdade é o fundamento da dignidade humana. Perante alguém livre, impõe-se o respeito (de respicere: ver e ser visto no mútuo reconhecimento). Cá está: o ser humano não é coisa, não é meio; por isso, não tem preço, reflectiu Kant. Embora a liberdade humana seja finita e sempre em situação, a pessoa pertence ao reino dos fins. A dignidade co-implica direitos fundamentais, que se impõe reconhecer: não se trata de concedê-los, mas de reconhecê-los.

 

Uma vez que o ser humano se tem de fazer a si mesmo — fazendo tudo o que faz, está a fazer-se a si próprio, de tal modo que o resultado pode ser uma obra de arte ou um monstro —, está sempre sob a sua responsabilidade última. Daqui deriva a angústia que sempre nos acompanha. De tal modo que, como bem viu Dostoievsky, na lenda do Grande Inquisidor, em Os Irmãos Karamazov, há uma dialéctica fundamental entre a liberdade e a segurança, estando muitos — a maior parte? — na disposição de entregar o fardo da liberdade a quem queira ficar com ele, aproveitando-se disso. Entre a liberdade e a segurança, muitos preferem a segurança: a segurança da norma, do não risco, do não ousar.

 

Em síntese, a liberdade significa autoposse, de tal modo que cada um, cada uma, pode e tem de tomar decisões no quadro da realização-de-si-no-mundo-com-os-outros. A liberdade, mesmo se condicionada e em situação, implica, portanto, não sujeição total aos determinismos físicos, genéticos, psicológicos ou sócio-culturais. De facto, depois de todos os condicionamentos físicos, genéticos, culturais, ainda podemos perguntar: o que vou eu fazer de mim com tudo isso? Também não é liberdade a pura espontaneidade ou a arbitrariedade — não é liberdade, por exemplo, fazer pura e simplesmente o que apetece: paradoxalmente, isso é necessidade —, pois o que a “define” é a auto-determinação segundo razões, a tomada de decisões racionais, tendo por critério último a plena realização humana de todos os seres humanos. Assim, a liberdade é ao mesmo tempo liberdade de: liberdade de determinismos e constrangimentos que impedem a sua realização, e liberdade para: liberdade para a realização de valores nos vários níveis, a começar pelo reconhecimento da liberdade dos outros, pois a liberdade verdadeira quer liberdades. A liberdade não se limita à experiência da sua realidade transcendental e interior, pois exige condições de possibilidade da sua realização concreta nos diferentes domínios: condições económicas, culturais, políticas...

 

2. Estive várias vezes na África do Sul, ainda no tempo do apartheid, da segregação racial. Ainda vi escrita, por exemplo, em bancos de jardim, ou indicação de praia, nas carruagens dos comboios, a ordem: “Whites only” (só para brancos). Se pude visitar o Soweto, foi porque o afável bispo católico de Joanesburgo, que não era racista, pediu ao pároco negro que me acompanhasse. E fui bem recebido. Mas a segregação estava sempre presente: nasciam em hospitais para negros, viviam em bairros exclusivamente de negros, iam à escola só para negros, levavam-nos a casa em autocarros exclusivamente para negros...

 

Muitas vezes me perguntei como é que aquela ignomínia iria acabar. Seria possível, sem um banho de sangue? Porque, ali, era o intolerável. A pessoa era ferida no mais profundo do seu ser: na sua in-finita dignidade de ser livre e auto-determinar-se.

 

Foi possível. Pacificamente, abriu-se o caminho para negociações em ordem à democracia no quadro da coexistência racial e do diálogo. Isso deveu-se certamente também à inteligência política e humana do presidente De Klerk, no novo contexto político e geoestratégico criado pela queda do muro de Berlim. Mas, para evitar a tragédia, o espírito e a acção de Mandela foram determinantes.

 

3. Está tudo na sua autobiografia: Long Walk to Freedom. Mandela não teve nenhuma “iluminação” ou “aparição”, mas a acumulação de ofensas, de indignidades, despertou nele “ira e rebeldia” e o desejo de combater o sistema que oprimia o seu povo. “Não houve um dia concreto em que dissesse: a partir de agora dedicarei as minhas energias à libertação do meu povo, dei por mim a fazê-lo simplesmente e não podia agir de outro modo”.

 

Objectivo da luta? Como se dizia na “Constituição pela Liberdade”, abolição da discriminação racial e a igualdade de direitos para todos. Era preciso destruir o apartheid, “a própria encarnação da injustiça”. Acabou “convertido, por lei, num criminoso”, mas não tinha a menor dúvida de que a posteridade reivindicaria a sua inocência.

 

Nestas situações, é legítima a violência até à luta armada? Os teólogos têm colocado a questão da guerra justa e a licitude do derrube do governo tirânico. Mandela confessava-se um homem não violento e explicava que não dependia dos negros renunciar à violência, mas do Governo; o seu propósito era atacar objectivos militares, não as pessoas. Apenas procurava a igualdade política e o princípio de “uma pessoa, um voto”, num Estado unitário sem homelands.

 

Depois de 27 anos de cárcere, viu Mandela finalmente a liberdade. E o “milagre” aconteceu. Quis despedir-se dos guardas, agradecendo-lhes “as suas atenções um a um”. Fora-se convencendo de que, afinal, mesmo aqueles que o tinham mantido na prisão durante vinte e sete anos e meio “eram essencialmente humanos”. Mandela confessava-se convictamente cristão. Esta sua condição terá sido decisiva para evitar o ódio e o ressentimento — as “paixões tristes”, como escreveu Espinosa. “Queria que toda a África do Sul visse que amava os meus inimigos, embora odiasse o sistema que nos tinha enfrentado.” Manteve a liberdade maior: o domínio de si. Afinal, tudo está naquele gesto de apertar a mão aos carcereiros e convidá-los para o banquete de inauguração da nova presidência da "nação arco-íris".

 

Mandela percebera que os seus carcereiros eram seres humanos habitados pelo medo. Ora, o medo é do pior que há. O medo tolhe a razão e a capacidade de pensar. É preciso ter medo de quem tem medo, de tal modo que a primeira libertação tem de ser a libertação do medo. Também e sobretudo no universo da religião. Aterrados pelo medo de Deus, homens e mulheres que se julgam religiosos caminham fatalmente para desgraças tenebrosas. Por isso, a Bíblia é atravessada pela compreensão histórica lenta, que culmina em Jesus, através da sua experiência, palavras e acções, de que a única tentativa de "definir" Deus é (está em São João): Ho theós agapê estín (Deus é amor incondicional, Deus é Força infinita de criar e só sabe amar).

 

Como era cristão, Mandela sabia que se deve perdoar aos inimigos. Pelo Evangelho, também sabia que os romanos enquanto potência de ocupação podiam obrigar um judeu a transportar a bagagem na distância de uma milha, sendo neste contexto que se percebe o que Jesus diz: "Faz uma segunda milha de livre vontade." Talvez o romano começasse a conversar, e quem sabe se não acabariam por beber um copo juntos? A reconciliação, a solução pacífica dos conflitos é preferível à violência e à guerra. E Jesus, do alto da cruz, rezou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

 

De qualquer modo, o perdão é um milagre, também em política. Jürgen Habermas, agnóstico, talvez o maior filósofo vivo e o mais influente, que quereria uma filosofia que herdasse, num processo de secularização mediante a razão comunicativa, os conteúdos semânticos da religião e a sua força, reconheceu que há um resto na religião não herdável pela simples razão. Disse-o num discurso famoso, por ocasião da recepção do prémio da paz dos livreiros alemães e já depois dos acontecimentos trágicos do 11 de Setembro de 2001. Esse resto tem a ver nomeadamente com o drama do perdão.

 

O perdão, em última análise, já não pertence à ordem do jurídico nem do político. No perdão do imperdoável, é a razão humana enquanto capacidade do cálculo que é superada, pois nem o algoz tem direito ao perdão nem a vítima é obrigada a perdoar. Como escreveu o filósofo Jacques Derrida, perdoar o imperdoável aponta para algo que está para lá da imanência, "qualquer coisa de trans-humano": "na ideia do perdão há a da transcendência", pois realiza-se um gesto que já não está ao nível da imanência humana. Aí, começa o domínio da religião. "A partir desta ideia do impossível, deste ‘desejo’ ou deste ‘pensamento’ do perdão, deste pensamento do desconhecido e do transfenomenal, pode muito bem tentar-se uma génese do religioso."

 

4. Como escreveu Lídia Jorge, “Não há livro de instruções para salvar a vida. Só a literatura se aproxima desse imenso livro.” Isto significa que a liberdade leva consigo uma luta e uma história sem fim de libertação. Como insiste São Paulo, “foi para a liberdade que Cristo nos libertou”. Na presente situação do mundo, esta luta tem três exigências essenciais. Uma é a da libertação interior: conquistar-se a si próprio, naquele processo que as religiões chamam de conversão ao melhor de si e ao amor. Depois, como sublinha o teólogo Hans Küng, “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões”, o que implica a urgência do diálogo inter-religioso e intercultural, colocando no centro o interesse da realização plena de todos os homens e mulheres enquanto pessoas. Para lá de outros pilares, este diálogo implica a leitura histórico-crítica dos textos sagrados, o Estado laico, separando Igreja e Estado como garantia da liberdade religiosa (a laicidade, que não se confunde com o laicismo, é uma conquista histórica da Humanidade) e um projecto de ética mundial. Num mundo globalizado, impõe-se terminar com a cisão entre, por um lado, os chamados mercados, poderes fácticos globais, e, por outro, a política, da ordem do dever-ser, ainda local ou, quando muito, regional. Algo que se aproxime de uma “governança” global, com instâncias políticas globais, para uma ordem económico-financeira justa e equitativa, é essencial, se se quiser evitar o abismo e a catástrofe.

 

5. É neste contexto que há muito propugno algo de parecido com um Plano Marshall para a África. Sob a protecção de “São” Nelson Mandela, porque, como diz o Professor Adriano Moreira, Mandela não é um santo canonizado pela Igreja, mas é um santo da Humanidade.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 1 DEZ 2018

A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de dezembro de 2018.

 

A “Suma Oriental” de Tomé Pires (c. 1465-1540) é uma preciosa obra escrita em 1515 a pedido de Afonso de Albuquerque e destinada a ser lida pelo Rei D. Manuel sobre a presença portuguesa na Malásia, no Índico e na Ásia. Merece ser lembrada, a propósito da Exposição do Museu do Oriente sobre “Três Embaixadas Europeias à China” coordenada por Jorge Santos Alves.

 

 

 

AS TRÊS EMBAIXADAS
A Exposição do Museu do Oriente sobre “Três Embaixadas Europeias à China” é um dos repositórios históricos mais importantes no nosso panorama expositivo atual, documentado de modo exemplar – permitindo a compreensão de um relacionamento pioneiro dos portugueses com o Grande Império do Meio. E permito-me destacar o excelente trabalho do Comissário Jorge Santos Alves – bem como a justíssima dedicatória ao Embaixador João de Deus Ramos, diplomata e estudioso, que há pouco nos deixou, e que certamente teria o maior gosto em ver documentados três momentos fundamentais da nossa História. De facto, para quem tenha interesse em conhecer melhor a nossa presença no grande continente asiático, torna-se indispensável ir ao Museu do Oriente – pelo rigor e requinte da exposição aí patente. De que Embaixadas falamos? Da missão papal dirigida por Frei Lourenço de Portugal, embaixador do Papa Inocêncio IV, nomeado em 1245, para ir aos Mongóis e à Ásia, passando pelo próximo e médio Oriente. Infelizmente, não chegou a partir, mas contribuiu decisivamente para a importante Pax Mongólica. Os mongóis tinham chegado a Viena e se é verdade que Genghis Khan morrera em 1227, o certo é que as conquistas dos seus descendentes continuaram, ameaçadoras e imprevisíveis. O que conseguiria essa gente? Havia, pois, que dominar os acontecimentos, prevenindo males maiores. Lembre-se que a partida de Marco Polo só se verificaria em 1271. Contudo, havia na Respublica Christiana a consciência de que haveria que contrariar o expansionismo asiático dos Mongóis. A segunda Embaixada é a de Tomé Pires, em 1517, realizada por esse boticário, quadro administrativo e diplomata – autor célebre da “Suma Oriental” e que se tornaria o primeiro Embaixador de um Estado europeu à dinastia Ming, que governava a China desde 1368. A “Suma Oriental” é uma descrição de tudo o que existia de relevante em política, geoestratégia, religião, antropologia e etnografia. Afonso de Albuquerque enviou essa informação preciosa ao Rei de Portugal. Afinal, Tomé Pires fora enviado para Malaca para fiscalizar os gastos do Erário Público – e por isso vai ocupar-se de um grande inquérito que tem como resultado a “Suma”. Depois é chamado a Goa e informam-no que foi escolhido para formar uma embaixada ao Imperador da China, que leva presentes, como capacetes, espadas, armaduras, mas também coral encarnado… As referências à importância de Malaca e o lançamento de um entendimento duradouro no extremo oriente são elementos fundamentais desse encontro.

 

AQUÉM DAS EXPECTATIVAS
Diz-se muitas vezes que a Embaixada não teve o resultado esperado. Diz-se que teria sido cometido um erro diplomático. D. Manuel trataria o Imperador como seu irmão. Ora, o Imperador da China não tem irmãos, muito menos de um povo distante e bárbaro. O certo, porém, é que a Embaixada de Tomé Pires permitiu uma aproximação entre culturas e contribuiu decisivamente para um melhor conhecimento mútuo. Por fim, falamos da embaixada de Francisco Pacheco de Sampaio, em pleno século XVIII no reinado de D. José, num mundo muito diferente dos dois primeiros, em que a América começa a ser relevante e a África tem de ser referida, nas rotas marítimas para o Índico. Os elementos que encontramos ao longo da exposição são muitas vezes surpreendentes – obrigando a uma visita atenta e circunstanciada. Como disse o saudoso Embaixador João de Deus Ramos no belo catálogo. “Frei Lourenço de Portugal merecia ser melhor conhecido e estudado por ter vivido numa época de profundas convulsões sócio-políticas e por ter estado envolvido em alguns acontecimentos que as determinaram”. O conflito entre o Papa e o Sacro-Império, as tensões entre a Cristandade ocidental e oriental, o fim da dinastia e do califado Abássida em Bagdad – eis o pano de fundo de um momento rico e multifacetado. Apesar de Freio Lourenço de Portugal não ter partido, a verdade é que contribuiu decisivamente para a aproximação em relação à Ásia, e em especial à China. Para Inocêncio IV haveria que compreender as potencialidades de novas culturas e novos povos, para a expansão da mensagem de Cristo.

 

UMA CARTA EXTRAORDINÁRIA
As peças expostas são todas de grande interesse histórico e documental, permitindo-me referir a célebre carta, nunca antes mostrada ao público, do Imperador da China Quianlong para o Rei D. José e que se encontra na Biblioteca da Ajuda. É de 1763 e está escrita sobre seda amarela com decoração polícroma em três línguas: manchu, chinês e português. A carta diz-nos que o Imperador interpreta o gesto cortês do embaixador do Rei de Portugal como uma prova de que há monarcas em terras distantes desejosos de prestar vassalagem periódica a Imperadores do Centro do Mundo. O Embaixador lera tudo o que havia no arquivo real sobre a China. De facto, a Livraria de Mafra estava muito bem apetrechada nesse domínio. A embaixada era composta por 70 pessoas – e foi recebida pelo Imperador três vezes, o que é absolutamente excecional. O Imperador simpatizou, de facto, com Pacheco de Sampaio e pediu que ficasse mais tempo. A carta de seda amarela é um marco extraordinário. Há ainda outros presentes como tecidos, porcelanas, chás e objetos de laca… É verdade que D. José não teria ficado muito agradado ao ser tratado como vassalo, no entanto, o reconhecimento, nos termos em que ocorreu, significa um ato de respeito, que permitiria desenvolver uma relação pacífica. Em suma a Exposição sobre as três embaixadas é uma oportunidade única, para compreendermos a importância do relacionamento pioneiro de Portugal com o Império do Meio. A História faz-se no contacto com a vida quotidiana e com o espírito de aventura!    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Hoje, já me interrogo sobre se o sentimento de superioridade do vulgo português será uma sensação de pertença a uma raça eleita (seja o que for que isso signifique), ou antes a convicção de uma insuperabilidade pessoal, isto é, de quem - Zé Povinho ou Urraca Antiga - se sente sempre comparativamente melhor, atendendo aos critérios a que ocasionalmente vá submetendo os cotejos consentidos. A minha nação poderá estar cheiinha de defeitos, os meus compatriotas poderão ser todos, ou quase, uma cambada de gente pouco recomendável, mas eu inda serei um trunfo fora do baralho, pouco ou nada tenho a aprender com os outros, tudo faço como me der na bola... Esta segunda hipótese oferece quiçá a vantagem de veicular a conciliação da autoconsciência da própria superioridade com a tão complexa subconsciência da sua receada inferioridade. Mas, infelizmente para os próprios e para quem os queira orientar, é tremenda caixa de pandora de traumas e problemas essa tal subconsciência da própria alteza. Tenho, para comigo, que, ao abri-la, se libertam e revelam carências de convívio e cultura, ou uma qualquer medrosa incapacidade de diálogo. Por isso mesmo tanta gente só se descontrai e respira quando se sente em sintonia inata no ambiente do seu grupo, onde reinam concordâncias recíprocas e preconceitos comuns, e facilmente surge uma agressividade fautora de processos de intenção relativamente às outras espécies, aos de fora! A cena política portuguesa e a sua circunstância, muitos artigos de opinião e - arrepiantemente - os comentários de leitores "on line" a notícias publicadas (sejam falsas ou não) dão triste testemunho dessa realidade. E, mais tristemente ainda, da falta de objetividade e liberdade interior - ou seja, da ausência de espírito crítico - do português vulgar.

 

 [Relembro, Princesa de mim, que o espírito crítico, contrariamente ao leviano, procura ser bem informado e rigoroso - é culto, no sentido de que se lavra - não é boateiro, nem a montante, nem a jusante; e não é clubista.]

 

    Resulta da leviandade reinante - da pressa de se tirarem (de factos ocorridos ou meros rumores, de ditos mal avisados ou mal contextualizados) projeções mediáticas ou vantagens concorrenciais - não serem as questões nacionais postas em contexto de diálogo construtivo, nem os factos, os actos e os ditos objetivamente analisados... Tudo, insistentemente, se coloca em perspetivas parciais, preconceituosas, facciosas, "marketingosas". Os debates públicos tendem mais a ser processos de intenções do que exercícios conjuntos de esclarecimento mútuo e busca de compreensões e soluções para serviço do bem comum. Ou, quando se fala de si mais do que se acusa o outro, reclamam-se glórias e baratinam-se promessas. O resultado de tudo isto é o descrédito e a desconfiança ambientes. Só quando, em verdade, nos dispusermos a trabalhar pelo aperfeiçoamento geral - e, por isso mesmo, procurarmos ser mais perfeitos e ajudarmos os outros (próximos, achegados ou divergentes) a querer sê-lo também - é que estaremos consonantes com Jesus (Lucas, 6, 45, tradução de Frederico Lourenço): A pessoa boa tira do bom tesouro do seu coração o que é bom; e a pessoa má, do mau tesouro tira o que é mau; pois é a partir da abundância do coração que a boca fala. A boataria maledicente ou insidiosamente suspeitosa, a indigitação apriorística de bodes expiatórios, os incessantes ataques "ad hominem", a arrogância de quem sempre se julga com razão (até porque os outros, doutro clube, partido ou cor, são invariavelmente incompetentes, ignorantes, mentecaptos ou tudo isso ao mesmo tempo) vão quotidianamente enevoando o ambiente, tornando-o caótico e incompreensível, quando não o envenenam, tornando-o irrespirável e detestável.

 

   Assim, também eu - que tanta gente por aí classifica como homem de direita - não conheço qualquer direita portuguesa, enquanto fundamentação e organização de ideias, ou proposta de programas. Aquilo a que por aí se chama direita é uma mistura líquida de pensarsentires que vêm de antigos regimes e vão até fantasias liberais (e ultraliberais) ou levam a posições conciliadoras de eleitores mais ao jeito da social-democracia. País de população maioritariamente católica, nunca Portugal registou com força um partido da chamada democracia cristã. Curiosamente, o programa político de 1933 (Estado Novo) foi o que, teoricamente embora, mais incluiu apropriações de princípios coincidentes ou decorrentes dos defendidos pela encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII. Noutros países europeus, monarquias e repúblicas, de maioria católica ou protestante, traços, ora marcantes, ora mais ténues, durante décadas foram distinguindo, mutatis mutandis, conservadores dos liberais, ambos dos socialistas, e todos estes dos democratas cristãos. Mas a várias vicissitudes históricas, mais ou menos traumatizantes (guerras, descolonizações, envelhecimento das populações autóctones), juntaram-se outros fatores de mudança (imigração massiva, crises de identidade e dos regimes políticos e socioeconómicos). E a decorrente confusão demográfica, cultural e social propicia surtos de incertezas, incompreensões e receios, cujo alastramento - até por falta de convicção e de reação clara das estruturas políticas existentes - abre alas à entrada crescente de propostas populistas, mais inspiradas por ressentimento, raiva ou descontentamento do que pela procura serena e justa de soluções democráticas e construtivas de futuro comum. Dividem-se, cada vez mais, os povos e as gentes, em bons e maus, "nossos" e do reviralho, ao ritmo do volume crescente da gritaria desgarrada geral: reivindica-se, exige-se, desespera-se, mas pensa-se pouco e, com calma, nada. Esquecemos que é indispensável acertar o tempo e o modo necessários à viabilização de qualquer projeto, uma revolução sendo, por definição, o regresso ao ponto de partida, à estaca zero. Mais os prejuízos e as oportunidades perdidas entretanto. E vamos olvidando os pobres, os mais pequenos, porque os brados indignados que hoje ouvimos são, cada vez mais, os das classes sociais que foram tendo acesso ao consumo que comanda o desejo e o lucro. Aliás, aqueles que foram sendo retirados da subterra humana da pobreza, em todos os países do mundo, são os que mais teimarão em superar a herança do que foram, são os que quererão possuir mais. A erradicação da insuportável pobreza não é questão resolúvel sem uma política voluntarista de inspiração ética humanista. Já pensaste, Princesa de mim, em quantas populações foram privadas dos seus ecossistemas, ou remetidas à sordidez de desterros suburbanos? Tudo isto dá, e muito, para pensarsentir...

 

    Pois também é claro que as ideias e os programas, como os interesses e os objetivos, vão evoluindo e mudando, como as próprias pessoas. Mas, da medida do rigor racional na formulação de juízos críticos, isto é, da liberdade cultivada do espírito crítico, irá sempre depender a animação dos grupos cívicos que pretendam propor ideias e práticas ao exercício político da governação. O que será sempre melhor do que nos entretermos, cada um a seu jeito, com diferenciar-nos entre bons e maus, desde certas "esquerdas" que apelidam de "direitas fascistas ou fascizantes" um ramalhete de partidos - cujas flores podem, além do CDS e do PSD, eventualmente incluir a rosa socialista - a "irónicos"  autoproclamados "direitistas" que se acham o "máximo, pecébe?" quando só apontam disparates às "esquerdas encostadas".

 

   A própria ideia de esquerda e direita pressupõe a visão clara dos posicionamentos relativos de uma e de outra... Mas, na atualidade, com a raríssima exceção de certa esquerda ou direita passadista, todos dançam o vira da confusão em torno de um ponto que a todos faz girar: a caça ao voto, a busca da popularidade necessária a um lugar ao sol.

  

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DO TEATRO NO PAÇO DA RIBEIRA

 

Nesta alternativa de teatros históricos decorrentes da inovação romântica e pós-romântica e os teatros mais modernos, aí incluindo os do que chamamos a geração dos cineteatros e os teatros atuais, referimos hoje, precisamente numa “retrospetiva histórica”, o denominado Teatro do Paço da Ribeira em Lisboa. Mas será então oportuno situar uma cronologia que reforça o carater específico e a memória deste efémero monumento urbano.

 

Desde logo porque o Teatro é integrado no próprio Palácio Real, situado no que é hoje o Terreiro do Paço – Praça do Comércio. O Palácio começa a ser construído em 1498 para residência da Corte, sendo D. Manuel I à data Rei de Portugal. O Trono e a Corte instalam-se em 1503 mas o terramoto de 1755 destrói por completo o Palácio que como tal não será reconstruído – e isto, sendo certo que o Paço da Ribeira já em parte sobrevivera a outro sismo, em 1531.

 

Na série de livros sobre Casamentos da Família Real Portuguesa, coordenados por Ana Maria S. Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria, encontramos no Volume IV, editado em outubro último, um estudo sobre este Palácio, da autoria de Carla Alferes Pinto, com referências a espetáculos nele produzidos para a Corte. Aí designadamente se remete para “um grande serão tão ao gosto de D. Manuel I e da filha mais nova, D. Beatriz” ocorrido em 4 de agosto de 1521, assinalando as festividades do casamento desta.

 

Houve baile real. E acrescenta o texto de Carla Alferes Pinto que aqui citamos (pág.179):

 

“Depois dos folguedos, e enquanto os membros da corte se acomodavam em cadeiras, almofadas ou se mantinham de pé (segundo o rigoroso figurino das precedências cortesãs), e descansavam, teve lugar a encenação da tragicomédia Cortes de Júpiter escrita por Gil Vicente para a ocasião”.

 

O estudo prossegue em dezenas de páginas que descrevem todo o contexto politico, social e cultural da negociação e do noivado de D. Beatriz.  Mas o que aqui nos importa sublinhar é precisamente o enquadramento da “transformação” do Palácio em Teatro, episódica e circunstancial que tenha sido: e não muito mais se poderia aliás dizer, como vimos, do Palácio em si, desaparecido com foi menos de 60 anos depois de inaugurado!  

 

DUARTE IVO CRUZ

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