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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NOS NOVENTA ANOS DE TINTIN, CRÓNICA DE KLOW

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CADA ROCA COM SEU FUSO…
Episódio especial, 11 de janeiro de 2019

 

«Na sequência de “Tu Cá Tu Lá Com o Património”, iniciámos uma nova série para 2019, da autoria do nosso amigo Agostinho de Morais.

São crónicas amenas deste “gentleman farmer”, afilhado de Frei Agostinho da Cruz, de idade incerta, mas com uns bons anos de vida e de experiência. É um jardineiro nas horas vagas, cuida do seu MGA com mil cuidados e vive obcecado com o Brexit, com pavor que as peças para o seu vetusto automóvel se tornem incomportáveis de preço. É um anglófilo inveterado, cônsul honorário da Sildávia, detetive nas horas vagas, colecionador de borboletas exóticas, especialista em autores como Chesterton e Evelyn Waugh, e de Histórias aos Quadradinhos, pratica xadrez e bridge, e cultiva a teoria dos jogos. Em tempos escreveu três complexos opúsculos com misteriosos títulos “Para o Estudo do Paradoxo de Zenão – Aquiles e a Tartaruga” , “História da Sildávia até à Atualidade” e “ As Misteriosas descobertas do Father Brown”… São páginas de puro humor, história e matemática. É um conhecedor de temas históricos e linguísticos, e lê textos antigos em sânscrito, grego e latim. Quanto ao mais, é o que resultar das suas crónicas, a não perder!».

 

 

 

Eis o telegrama que acabamos de receber da cidade de Klow:

 

«Escrevo no dia 10 de janeiro de 2019, exatamente noventa anos depois da primeira publicação das aventuras de Tintin, no “Petit Vingtième”. Faço-o da cidade de Klow, capital da Sildávia, país adorável dos Balcãs. Aqui passaram-se momentos fundamentais na vida do herói de Hergé., que gosto sempre de lembrar.  Vim passar uns dias de férias a este país, em homenagem a todos os cultores das histórias de quadradinhos. Bianca Castafiore definiu a Sildávia como “um país encantador, para quem gosta de velharias”. A Sildávia nasceu em 1127 quando o chefe tribal Hvegui expulsou turcos e adotou o nome Muskar. A Bordúria, o país arquirrival, ocupou a Sildávia em 1195, mas em 1275 a independência foi reconquistada. O rei Otokar IV tornou-se monarca em 1360 quando o barão Staszrvitch reclamou o trono e o atacou com uma espada, mas Otokar derrubou-o com seu cetro – então tornado símbolo nacional. Eis a razão do célebre título “O Cetro de Otokar” E, desde então, o rei da Sildávia deve trazer consigo o cetro e mostrá-lo ao povo no Dia de São Vladimir, sem o que perderá a sua legitimidade. Aquele que tiver o cetro será o novo rei. Sabemos bem que isso é assim pela leitura da obra de Hergé.. Em 1939 a Sildávia ficou sob o risco de uma invasão de sua vizinha Bordúria como parte de um plano para expulsar Otokar XII. Tintin desenvolveu uma estratégia para neutralizar a situação. Assim, de modo pacífico, Otokar XII viu-se regressado à plenitude poderes no seu pequeno reino, graças ao jovem e destemido Tintin, algo como um monarca constitucional de seu país. Ordenou a seus ministros e generais que se fizessem as mudanças necessárias para evitar um golpe e uma nova invasão. E assim se iniciou um longo paríodo de paz. Podem crer que é com sentida emoção que aqui me acho. O tempo está soalheiro, mas o frio é bastante… E para minha surpresa, aqui me encontrei quando ia a chegar ao Hotel Astória – Klow, onde estou hospedado, a figura mais bizarra que imaginar se possa, e que aqui veio, como eu, para celebrar os 90 anos de Tintin – bela e vetusta idade – falo-vos da figura rotunda de Oliveira da Figueira, o português mais célebre do mundo. Contou-me, aliás, que é sócio deste Hotel, que nos acolhe. A Bordúria regressou à instabilidade, que parecia afastada. Mas a Sildávia vive momentos de paz e moderada prosperidade, é por isso um bom lugar para prosperar, descansar e comemorar o glorioso aniversário de Tintin… Oliveira da Figueira está velho, mas feliz… Continuarei a escrever-vos desta terra tão acolhedora. Hoje apenas vos escrevo, porém,  para homenagear o herói, prometendo voltar ao relato de viagem nesta terra de História rica e vicissitudes diversas….»

 

Agostinho de Morais

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XLII - EXPRESSIONISMO

 

Movimento artístico alemão dramático e trágico, de grande densidade psicológica e reflexiva, cujos artistas supervalorizavam o eu e a necessidade de exprimir as suas ansiedades e conflitos pessoais, alguns com preocupações de denúncia social, havendo neles uma angústia de viver, ao invés da alegria de viver do fauvismo, apesar das suas semelhanças com o fauvismo francês.

 

Reagiu contra o naturalismo e o impressionismo, tendo como antecessores Cézanne, Gauguin, Jugendstil, Van Gogh, Hodler e Munch, recorrendo a cores fortes para a captação angustiante e dramática e a explicitação dos sentimentos e das vivências psíquicas, recebendo várias influências, à semelhança do fauvismo, entre elas a valorização do indivíduo, a atenção a civilizações primitivas e exóticas (Gauguin), as cores intensas e deformação da natureza (Van Gogh), a alucinação das figuras (Munch), a crítica à sociedade burguesa (Nietzsche).

 

A imagem é simplificada, deformada, brutalizada remetendo, por um lado, para modelos arcaicos, primitivos ou infantis, de pendor regressivo e, em contrapartida, tratando temas relacionados com a época de então, denunciando a civilização moderna e usando os instrumentos da crise contra a própria sociedade, produzindo-se uma contradição entre a forma e o conteúdo expresso.

 

Não foi um movimento unitário, tendo como representantes principais das várias manifestações expressionistas, Die Brucke (A Ponte), Der Blaue Reiter (O Cavalo Azul) e Der Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade).  

 

Die Brucke (A Ponte) foi criado em 1905 por Heckel, Schmidt-Rottluff e Kirhner, ao qual se juntaram Emil Nolde, Max Pechstein e Otto Muller. 

 

Concebem a arte como uma conceção do mundo e não como uma mera exigência estética, manifestam-se contra a sociedade urbana, denunciam com angústia a crueldade e a corrupção, sacrificam a beleza pelas suas ideias, sentimentos e paixões sobre temas da vida quotidiana, em que as cores e formas usadas arbitrariamente nas suas telas  pretendem provocar no observador um sentimento de assombro, medo ou rejeição, como em Mulher ao Espelho, Cinco Mulheres na Rua e Rua com Mulher de Vermelho.

 

O português Cristiano Cruz foi expressionista com grande influência de Kirchner.

 

Der Blaue Reiter (O Cavalo Azul), nasce em Munique, em 1909, sendo herdeiro do simbolismo, misticismo russo e do expressionismo do Die Brucke, tendo como figura fundamental Kandinsky, além de Franz Marc, Kubin e Munster. 

 

É um expressionismo que não tem o sentido dramático e trágico do primeiro grupo (Die Brucke), que procura uma dimensão espiritual, não necessariamente metafísica, a par da emotividade e contacto com a natureza, onde impera uma expressividade emotiva e espiritual, dando um valor emotivo, por vezes irracional, à cor, sem perder a harmonia cromática. Exemplificam-no O Sonho (1912), de Marc, com cores usadas de modo arbitrário nas figuras e paisagem, sobressaindo os cavalos azuis, transmitindo uma sensação de calma, recolhimento e serenidade. Outro exemplo: Com o Arco Negro (1912), de Kandinsky.   

 

Der Neue Salichkeit (Nova Objetividade, regressa à pintura figurativa, sendo desapiedada e dura, após a experiência da guerra, retratando a miséria humana e a morte em contraste com a riqueza e ostentação das elites e do poder, tendo como representantes Max Beckmann, Otto Dix e George Grosz. Veja-se Cenas da Rua Kurfurstendam (1915), de Grosz.   

 

Além da pintura, o expressionismo estendeu-se ao ensaio, ao drama, à música e à literatura em geral.

 

A sua angústia de viver, caraterizada pelo absurdo, ceticismo, desespero, pessimismo, crueldade, ansiedade e sentimentos de horror, repulsa, rutura e sofrimento, evasão da opressão, luta contra a desumanização, crítica da sociedade burguesa e troça do que é belo, fez surgir, pelo seu caráter multifacetado e variedade de géneros que desenvolveu, nomes marcantes no mundo literário, como Kafka, Brecht, Camus (O Estrangeiro),  entre outros.

 

08.01.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício