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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

TERRA JUSTA: CAUSAS E VALORES DA HUMANIDADE

 

Também fora de Lisboa ou do Porto, há iniciativas de relevância mundial, que merecem a atenção de todos, também como exemplo.

 

Hoje, quero felicitar, muito sinceramente, Fafe, na pessoa do seu ilustre Presidente, Raul Cunha. Porque Fafe já não é símbolo da “justiça de Fafe”. É símbolo da justiça, sim, mas da Terra Justa: Encontro internacional de Causas e Valores da Humanidade. Em Fafe, com inexcedível força e dignidade, celebra-se e combate-se pela cidadania universal, na liberdade, na justiça e na paz. Concretamente através dessa iniciativa anual, por onde têm passado grande figuras de renome, como António Guterres, o cardeal Maradiaga, Manuela Eanes, Eduardo Lourenço, Leonor Beleza, Artur Santos Silva... Ali têm sido homenageadas grandes instituições de cultura e solidariedade: a Fundação Calouste Gulbenkian; a Fundação António Champalimaud; o IAC (Instituto de Apoio à Criança); a Agenzia Habeshia, uma ONG fundamental para salvar vidas de refugiados; a UNICEF, uma agência das Nações Unidas, essencial na defesa dos direitos das crianças, tantas vezes espezinhados; Talitha Kum, a organização internacional que trabalha em rede contra o tráfico de pessoas...

 

Deixo aí algumas chaves de leitura deste prestigiado Encontro Internacional.

 

1. Terra Justa. Aí está uma utopia. Mas qual é a função da utopia? Ela tem duas funções principais: constatar o ainda não do que deve ser e, ao mesmo tempo, obrigar a lutar pela transformação do presente a caminho de um futuro com a realização desse dever-ser.

 

2. Porquê? Porque se trata do imperativo de Causas e Valores da Humanidade na Terra. E a Terra há só uma, uma só Terra: a Terra da Humanidade. Há 13.700 milhões de anos foi o Big Bang. A Terra terá uns 5.000 milhões de anos, a vida apareceu há uns 4.000 milhões de anos e, depois, a evolução continuou e há uns 150 mil anos aparecemos nós, o Homo sapiens sapiens — acrescento sempre: e demens demens (sapiente sapiente e demente demente). De qualquer modo, é em nós, seres humanos, autoconscientes, que este gigantesco processo da evolução sabe de si e toma consciência de si.

O ser humano será sempre objecto de espanto para si próprio. Talvez tenha sido Pascal quem de modo mais pertinente e lúcido “definiu” a condição humana, ao escrever que se situa algures entre “o nada e o infinito” (le néant et l’infini). Por isso, o ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, pergunta ao Infinito pelo Infinito, isto é, de um modo ou outro, por Deus. É nesta sua condição que eu vejo o fundamento da dignidade humana. De facto, se o ser humano, finito, frágil, débil, mortal, pergunta ao Infinito pelo Infinito, é porque tem algo de infinito nele e, por isso, não é da ordem das coisas, porque é fim. Na verdade, o que é que há para lá do Infinito? A pessoa humana é fim e não meio. Como escreveu Kant, as coisas são meios para outra coisa e, assim, têm um preço; o ser humano é fim e não meio e, por isso, não tem preço, mas dignidade. Aí está, pois, a resposta para a pergunta: Porquê o combate pela Terra Justa? Porque é o combate pela dignidade de todas as pessoas.

 

3. Todos os seres humanos são dignos e a Terra é de todos. E aqui colocase para todos um dos problemas maiores: a questão da ecologia, do meio ambiente. E entra a política. Aristóteles definiu o ser humano como “animal político”. Porquê? Porque, ao contrário dos outros animais, que produzem sons, exprimindo prazer ou desprazer, o Homem tem linguagem duplamente articulada, pela qual debate o bom e o mau, o justo e o injusto, o digno e o indigno. Já se tornou claro que hoje, tomando consciência de que há uma só Terra e uma só Humanidade, sendo todos igualmente dignos, a política tem de ser global, tem de ter o horizonte de um mundo global. Só há, portanto, futuro com uma Governança Global.

 

4. O ser humano é como uma árvore: somos enraizados, temos um lugar de nascimento, uma história única, estamos situados, mas, ao mesmo tempo, estamos abertos, ilimitadamente abertos aos outros, a todos os outros, a possibilidades sem fim. Nesta abertura, mostra-se que somos constitutivamente em relação. Fazemo-nos uns com os outros. A nossa relação é local e global, nesse enraizamento de uma situação concreta e única e numa abertura sem fim.

 

5. Característica essencial do ser humano é a neotenia, isto é, nascemos prematuros, sendo esta a condição de possibilidade de sermos o que somos: humanos. Enquanto os outros animais já nascem feitos, o ser humano nasce por fazer. Então, qual é a sua missão e tarefa? Fazer-se a si mesmo. Fazendo o que fazemos, estamos sempre a fazer-nos a nós próprios, de tal modo que no fim pode resultar uma obra de arte ou, permita-se a expressão, uma porcaria. Como devemos fazer-nos? Uma vez que somos livres — auto-possuímonos e somos responsáveis —, devemos fazer-nos bem. Concretamente, fazermo-nos com a interligação da bondade e da razão. De facto, a bondade sozinha não abre horizontes e pode não abrir caminhos; a razão sozinha pode ser cruel. Da conexão da razão e da bondade resultará certamente uma Humanidade boa, justa, livre e a viver em paz.

 

6. Já não há Deus? Deus, ao contrário do que se pensa e diz, existe, o que se passa é que, como reflectiu o filósofo G. Agamben, tornou-se Dinheiro. E o ídolo Dinheiro é o valor que mede todos os outros valores, afirmando-se acima deles. Por isso, o Papa Francisco não se cansa de repetir, na linha do que disse Jesus, que não é possível servir a Deus, Pai-Mãe de todos os homens e mulheres, interessado no bem de todos, e servir o Dinheiro enquanto o novo único deus. A financeirização especulativa da economia “mata” e faz um número incontável de vítimas. A política tem, pois, de ser acompanhada da ética. E, mais uma vez, precisamos urgentemente de uma Governança Global (não digo um Governo Mundial). De facto, problema maior hoje é que os mercados são globais, mas a política é local, nacional, quando muito, regional. Como se pode regular assim os mercados?

 

7. Last but not least, é cada vez mais urgente o diálogo inter-religioso, como desde há anos não se cansa de sublinhar o célebre teólogo Hans Küng, autor principal da “Declaração para uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial.”

 

É claro: sem um novo ethos, isto é, sem uma nova atitude ética, concretamente, sem justiça social global, continuará a violência, a guerra, e não haverá paz.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 20 JAN 2019

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

CONTINUAÇÃO DE UMA CARTA QUE RECEBEMOS DE KLOW…
22 de janeiro de 2019

 


Prosseguimos a missiva que recebemos do nosso colaborador e amigo Agostinho de Morais, que ainda se encontra na cidade de Klow, capital da Sildávia.

 

«Continuo a deambular por esta cidade tão acolhedora. Ontem mesmo voltei a estar com o meu amigo Oliveira da Figueira, numa amena conversa. Lembrámo-nos que a sua primeira aparição nestas aventuras aconteceu em 1932, como personagem de «Os Charutos do Faraó», num episódio em que Tintin é atirado ao Mar Vermelho, por engano, num sarcófago egípcio. Salvo «in extremis», o nosso herói encontrou-o na embarcação que milagrosamente o recolheu. Oliveira da Figueira diz: «se puder ajudá-lo, posso fornecer-lhe a preços competitivos qualquer artigo de que necessite». Começou então por um conjunto flamante de gravatas, às riscas, às bolas ou com figuras exóticas. Seguiu-se um lote de magníficos sabres, com lâminas de Toledo, mil outras bijuterias e muitos brindes: um despertador, escova de dentes etc… Tintin saiu carregado de inutilidades, com um balde, um regador, uma gaiola com papagaio, uns esquis, tacos de golfe, uma casota e uma coleira de cão, além de um despertador. E ingenuamente confessa: «Ainda bem que não me deixei levar pela conversa dele. A tipos como este acabamos sempre por comprar uma série de coisas inúteis»… Já na costa árabe, Oliveira da Figueira demonstrará a sua inefável arte de convencer. Chamam-lhe «o-branco-que-vende-tudo»… E ele reconhece-se orgulhoso: «Então que tal? Chama-se a isto eficiência! E o melhor é que os meus clientes voltarão». De facto, voltam, mas quem aparece a protestar (sem razão, é certo) parece ter ingerido um naco de sabão, que lhe produz mal-estar pelas bolas de sabão que o atormentam. Daí a maldição: «Antes da Lua Nova, o meu Senhor, o Xeque Patrash Pacha, ter-te-á castigado»… Encontramos mais tarde Figueira no «País do Ouro Negro», obra iniciada em 1939, interrompida pela guerra e recomeçada em 1948. Aí, ajuda Tintin a encontrar os segredos do Dr. Müller, descobrindo um subterfúgio.

 

Mascarado de sobrinho do comerciante, sob o nome de Álvaro, com um aspeto bizarro, levemente atrasado, quase invisual é supostamente vítima de uma estória que o português vai contando sem parar para distrair quantos visavam impedir o acesso aos segredos do vilão. É extraordinária a capacidade efabulatória de Oliveira da Figueira. Inventa que o sobrinho é filho de um criador de caracóis, vítima de uma trama terrível que envolve uma mulher rica que morre de desgosto aos noventa e sete anos e a influência de duas imortais palavras, ditas em português, «Oh! Oh!», cujo sentido, alcance e influência nunca chegamos a conhecer… Depois, em «Carvão no Porão» («Coke en Stock», publicado no «Cavaleiro Andante», em 1959 e 1960, sob o título «Mercadores de Ébano»), Tintin e o seu amigo, Capitão Haddock, pedem apoio e hospitalidade em Wadesdah. Lembro-me, aos sábados de manhã, da expectativa que tínhamos antes de ler a continuação das peripécias. Oliveira da Figueira recebe surpreendido e assustado a visita noturna, com a cidade em estado de sítio, cheia de cartazes a pedir a captura de Tintin. «Que faz aqui, desgraçado? Não sabe que tem a cabeça a prémio?». Há agitação e um conflito entre a Arabair e o Emir…

 

Tintin diz que precisa absolutamente de ajudar o Emir e Oliveira da Figueira informa que ele teve de fugir para casa de Patrash Pacha. Tintin e Haddock treinam desesperadamente o equilíbrio das bilhas à cabeça, para que possam não dar nas vistas, mascarados de mulheres árabes, cobertas com burkas. O resultado do treino é desastroso. Os estragos são enormes e os cacos enchem o armazém do comerciante arruinado, que se vê na obrigação de dizer às clientes que as bilhas estão esgotadas. No momento da verdade, tudo parece salvo, mas eis que uma mulher árabe descobre a barba hirsuta do capitão e foge escandalizada. O desastre anuncia-se, mas no final tudo se arranja graças ao apoio providencial de Oliveira da Figueira. Recordámos gostosamente estes episódios. E verifiquei que o meu querido Oliveira da Figueira continua igual a si mesmo. Não sei que idade tem. Continua a cuidar-se. Nenhuma das suas qualidades se encontra adormecida. E fala, fala, fala… Comunicou-me, porém, que partirá para um lugar que não me quis revelar qual para dirigir os seus negócios… E hoje fico-me por aqui. Continuarei a informar-vos sobre o que encontrei neste país adorável…

 

Agostinho de Morais  

A VIDA DOS LIVROS

De 21 a 27 de janeiro de 2019.

 

«O Algarve Económico durante o Século XVI» de Joaquim Romero Magalhães (edição de Sul, Sol, Sal, Faro, 2018) é uma obra fundamental da moderna historiografia económica portuguesa, que nos permite compreender como o Algarve teve um papel fundamental na génese da expansão portuguesa.

 

 

VOZ CRÍTICA, ATENÇÃO DESPERTA
Conheci-o como cidadão e como historiador, sempre voz crítica e atenção desperta – e deste modo nos tornámos amigos. Um dia, lançou-me o desafio – havia que encontrar e publicar as lições de Afonso Costa na Universidade de Coimbra, por ocasião dos cem anos da República. Aceitei a proposta, já que se tratava de matéria que não era estranha na minha vida universitária. Não sabia eu em que me iria meter. Mas compromisso era compromisso, e não descansei enquanto não encontrei a versão completa das lições. Fui mantendo Romero Magalhães ao corrente das minhas dificuldades. Afinal, ainda que as lições fossem citadas nas principais bibliografias, o certo é que a sebenta não constava de nenhuma das bibliotecas da rede pública. Ou seja, as lições foram citadas durante muitos anos sem que houvesse alguém a olhar sequer para elas. Finalmente, como explico na introdução ao livro que finalmente se tornou possível, graças à busca persistente de Judite Cavaleiro Paixão, às pistas dadas por Jorge Alarcão, um dia que nos encontrámos em Coimbra (eu deveria pesquisar nos manuscritos da Biblioteca Geral, já que se tratava de uma sebenta – mas esta estava truncada), e à milagrosa aparição na biblioteca pessoal de Luís Bigotte Chorão (sem que ele suspeitasse que o volume que tinha era único), chegámos a bom porto e a sugestão do meu amigo Joaquim Antero Romero Magalhães pôde ser cumprida. Assim a Imprensa Nacional publicou os Apontamentos das Preleções do Dr. Afonso Costa sobre Ciência Económica e Direito Económico Português, correspondentes ao ano letivo de 1896-97, inseridos na Biblioteca Republicana (2015).

 

UMA VIDA DE CIDADÃO ESTUDIOSO
Ao longo da vida, fomo-nos encontrando, por boas razões. Conheci-o em andanças políticas – como deputado constituinte, como Secretário de Estado da Orientação Pedagógica – por motivos históricos, na Comissão dos Descobrimentos e por razões afetivas, pela admiração por seu pai, o Doutor Joaquim Magalhães, professor de minha mãe no Liceu de Faro, com quem tive o gosto de conversar longamente nas ruas da capital algarvia, e até pelas nossas afinidades eletivas relativamente a Antero de Quental. Importa não esquecer que o nome próprio de Joaquim Antero se deveu ao facto de ter nascido exatamente na data do centenário do nascimento do autor dos “Sonetos”, 18 de abril de 1942. Com o pai e o filho tive o grato prazer de recordar esta circunstância feliz de calendário. Nasceu em Loulé, estudou no Liceu de Faro, onde seu pai seria Reitor, e rumou para Coimbra, primeiro para o curso de Direito e logo no fim do primeiro ano inscreveu-se na Faculdade de Letras, em Histórico-Filosóficas. Durante a crise académica teve papel ativo, sendo Presidente da Associação Académica de Coimbra em 1964-65, bem como do TEUC – Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra. A sua tese de licenciatura foi sobre o Algarve Económico do século XVI, constituindo uma referência inovadora, hoje essencial para a compreensão da história económica portuguesa. Doutorou-se em 1984, sendo fundamental na afirmação da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Pode, aliás, dizer-se que Romero Magalhães dividiu o seu labor cívico e científico entre Coimbra e o Algarve. Foi desde cedo um grande defensor da criação da Universidade do Algarve, tendo tido nela uma colaboração científica e pedagógica da maior relevância. A sua biografia é muito rica, não sendo possível ser-se exaustivo. Foi professor convidado na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, na Universidade S. Paulo, e em Yale. Em 1993, colaborou no terceiro volume da História de Portugal de José Mattoso. Foi diretor da revista Oceanos, e em 2009 publicou a obra Vem aí a República! 1906-1910. Com Manuel Viegas Guerreiro deu à estampa duas obras essenciais sobre o Algarve no Século XVI - a Corografia do Reino do Algarve, escrita em 1577 por Frei João de S. José e História do Reino do Algarve, da autoria de Henrique Fernandes Sarrão. Em 1999, foi nomeado como comissário-geral da Comissão dos Descobrimentos até 2002, tendo feito parte da Comissão Consultiva das Comemorações do Centenário da República de 2009 a 2011.

 

A MELHOR HISTORIOGRAFIA
A recente reedição de O Algarve Económico durante o Século XVI pela nova editora algarvia “Sul, Sol, Sal” é um acontecimento assinalável. Foi sobre isso que conversámos, a última vez que nos vimos, em Loulé, no Convento Espírito Santo, a assinalar os 25 anos da revista do Arquivo Municipal de Loulé – “Al’-Ulyá”. E falámos das “Atas da Vereação de Loulé dos séculos XIV-XV”, agora à disposição dos estudiosos graças ao seu labor científico. Se no estudo sobre o Algarve Económico deparamos com um grande historiador, sentimos também a influência de Magalhães Godinho. E a abrir a nova edição, podemos ler: “Era o verão de 1964. Em Albufeira passava férias Vitorino Magalhães Godinho, não há muito afastado de professor da Universidade Técnica de Lisboa por opositor ao regime (1962). Nem por isso deixava de ser o mais prestigiado historiador português. Tendo lido alguns dos seus trabalhos (…) entendi que valia a pena procura-lo para que orientasse a minha dissertação de licenciatura”. O jovem foi então procura-lo, o mestre acolheu-o com “lanheza e boa disposição”. E aqueles foram uns dias de praia inesquecíveis. O estudante tinha ideias ambiciosas, mas o experiente professor indicou como tema adequado o da Economia algarvia – até partindo da citada Corografia de 1577. Assim se desenvolveu o trabalho, com a orientação formal de Salvador Dias Arnaut, mas a condução de Magalhães Godinho. As vicissitudes da investigação arquivística foram diversas – desde a consulta (mais fácil) da documentação de Loulé, graças à confiança de Eduardo Delgado Pinto, então presidente da Câmara, às milhentas dificuldades na Torre do Tombo, apesar da preciosa ajuda de zelosos funcionários e de A. H. Oliveira Marques, que conhecia bem o Fundo Antigo. Mas a lição era recebida “em casa de Magalhães Godinho, onde o ouvia e apresentava as dificuldades que sentia e onde como resposta saía com braçadas de livros que tinha que ler porque mais devia e ainda havia muito para trabalhar”. Hoje, confessa, talvez tivesse havido excessiva influência de Braudel, mas a panóplia de autores considerados (não esqueçamos Albert Silbert), a orientação do mestre e as qualidades do autor permitem considerar que o resultado é importante, para a compreensão duma economia que correspondia, na prática, a uma península da Andaluzia, com polos em Lagos, Faro e Tavira, que a lógica atlântica afastará do Mediterrâneo. O trabalho vale por ser “escorado em documentos de arquivo, alguns nunca utilizados, como os livros de vereações da Câmara de Loulé ou os livros das Misericórdias de Lagos, Tavira e da Biblioteca Municipal de Faro”. É essa matéria-prima que concede originalidade à obra e que permite corrigir tantos lugares comuns que persistiam. Em suma, relido agora o livro mantém o maior interesse – a população, a paisagem, os cereais, o gado, as frutas, a pesca, as indústrias, o comércio e a sociedade permitem-nos compreender o ontem e o hoje. Orlando Ribeiro, Oliveira Marques, Aníbal de Almeida e Ruben Andresen Leitão fizeram justos elogios. E basta ler tudo para ficarmos cientes de que lidamos com a melhor historiografia.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Chamou-me há dias a atenção o título de uma crónica de Ana Ruepp no blogue do Centro Nacional de Cultura: A cidade segundo George Perec. Assim mesmo, George escrito à inglesa, e não Georges à francesa. No texto, todavia, a ortografia do nome do escritor francês está correta, ainda que as citações de passos da sua obra, nesse caso do ensaio Espèces d´Espaces (ou Spaces Species na tradução inglesa da Penguin) sejam todas reproduzidas da versão anglo-saxónica, e sem tradução para português. Estranhei o facto, até porque Georges Perec apenas publicou um ensaio, esse mesmo, sendo o resto da sua obra livresca publicada em vida constituída por seis romances (alguns bem longos), mais dois livros de poesia, dois autobiográficos, e duas peças de teatro. Nascido em Paris, em 1936, de pais judeus polacos imigrados em França e vítimas da guerra e da ocupação nazi logo no início dos anos 40. Será admitido no CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) em 1961, como documentalista no laboratório de neurofisiologia médica, que deixará em 1978 para se tornar exclusivamente um homem de letras. Nesse ano, quatro antes de morrer de cancro no pulmão (1982), publica La Vie mode d´emploi, romance originalíssimo, que lhe valeu ser entrevistado por Jean-Louis Ézine para o Magazine Littéraire:

 

   - V. é o acrobata da literatura contemporânea...  ...faz proezas, mas será romancista? - Quero ser!

 

   Na verdade, se, além do volume e da importância do género romance no conjunto da sua obra, considerarmos que os dois maiores prémios literários que recebeu foram atribuídos a romances seus (o Renaudot a Les Choses e o Médicis a La Vie mode d´emploi), ou ainda o que, afinal, ele próprio pretende dizer de si numa conferência proferida na Universidade de Warwick, que intitulou Pouvoir et limites du romancier français contemporain, é indiscutível que ele se reconhecia na vontade e na realidade da sua condição de romancista. Mesmo apesar da versatilidade da sua obra (Bernard Magné diz bem: Ses romans se suivent sans se ressembler - os seus romances sucedem-se sem se parecerem), ou da sua desconcertante originalidade, que torna impossível classifica-lo em qualquer "escola" ou "estilo". Quando lemos Perec, espanta-nos a extensão da sua erudição por diversíssimos campos, e o trabalho da sua cultura, infatigável na procura e consideração de coisas e conceitos, capaz ainda de criar e prover uma artesania do real e do imaginário. Mutatis mutandis - desculpa-me a ousadia, Princesa de mim, mas se fores psicanalista de textos talvez me entendas - ao ler as seis centenas e meia (?) de páginas de La Ve mode d´emploi, muitas vezes visualmente me ocorre a Sagrada Família de Barcelona, do "ourives" Gaudi.

 

   Magné, responsável pela edição e apresentação da coleção dos seis romances publicados em vida do autor e mais dois póstumos (La Pochotèque, 2004), observa como aquele «romancista francês contemporâneo», surpreendente pela sua versatilidade, gabando-se de «nunca ter escrito dois livros semelhantes», só poderá, evidentemente, oferecer aos seus leitores romances díspares, passando, em quatro anos, da pintura flaubertiana de uma geração (Les Choses, uma história dos anos 60) à narrativa burlesca de Quel petit vélo à guidon chromé au fond de la cour? (1966), cujo título constitui, por si só, uma provocação, voltando depois a ser sério, regressando a Proust e ao Bartleby de Melville para escrever o seu terceiro romance Un homme qui dort (1967), antes de redigir um romance inteiro sem E: La Disparition (1969). E será, Princesa de mim, tal ausência de letras E em todo o texto, sinal, estigma ou sacramento de O Desaparecimento?

 

   Mas parece-me acertado perceber, subjacente à sua incessante busca de originalidade e surpresa - e por paradoxal que este reparo surja -, uma intenção de realismo, no sentido em que Lukács significava o realismo crítico: O realismo não é um estilo entre muitos outros, mas a própria base de toda a literatura. Pensamento e sentida inspiração que Perec retoma ao dizer do realismo: Não se trata de uma escola, de uma técnica, de uma tradição: a função da literatura é ser realista. Ou ainda: A primeira exigência do realismo é a vontade de totalidade.

 

   Tal intuição e procura da realidade escondida e fecundante das coisas será, talvez, o início propulsor de uma visão quase inversora da ordem de tudo o que vemos e julgamos conhecer. Nesse sentido, Espèces d´espaces talvez não seja, de facto, propriamente um ensaio sobre a plasticidade, a ocupação ou a construção do espaço, nem do seu desenho ou arquitetura, mas muito mais um exercício de entendimento dos espaços como apenas função da presença humana que os habita. Assim, são certeiramente reveladoras do olhar pereciano as citações que dele faz Ana Ruepp, por exemplo: Não há nada desumano numa cidade, a não ser a nossa própria humanidade...   ... Gosto da minha cidade, mas não sei dizer exatamente de que é que gosto nela. A ilustração dos espaços desenhados pela íntima habitação deles pelos humanos é, afinal, o "enredo" dos romances de La Vie mode d´emploi, que mais não são do que narrativas curtas e incisivas de momentos ou segmentos de vidas, gestos e memórias dos moradores e ex-moradores dum edifício de apartamentos em Paris, todos estes, aliás, identificados pelos nomes dos seus ocupantes, quer nos subtítulos dos capítulos respetivos, quer numa "planta" vertical do próprio edifício. E, definitivamente, se as escadas do prédio, cujo elevador está quase sempre avariado, são caminho de encontros e intercâmbios, mesmo essas são habitadas, animadas, por gente: Nas escadas passam as sombras furtivas de todos os que um dia lá estiveram (Capítulo XVII, Dans l´escalier, 2). E as sucessivas visitas que o leitor vai fazendo por todo o edifício são como um percurso de diaporamas, em que as pessoas e a disposição, formas e cores, dos espaços e objetos são histórias ilustradas. Até lá poderia estar a Casa da Mariquinhas, do Alfredo Marceneiro. [ai vê-la ao Museu do Fado, é lá que está, não é?]. As salas e quartos podem estar desertos de gentes, os móveis e coisas várias dizem-nos quem elas são. Textos inteiros só nos descrevem objetos em espaços que foram ou são habitados, simples inertes testemunhos de presenças vivas: Será algo como uma lembrança petrificada - escreve Perec - como um desses quadros de Magritte em que não sabemos muito bem se a pedra se tornou viva ou se a vida se mumificou, algo como uma imagem fixada uma vez por todas, indelével...

 

   O texto de La Vie mode d´emploi é fracionado, como um puzzle, em minúsculos capítulos e subcapítulos, e o próprio subtítulo da capa do livro indica que não se trata de um romance, mas de romances: La Vie mode d´emploi - Romans. O capítulo I subintitula-se Dans l´escalier (Nas escadas), sendo que tal intitulação se repetirá em vários capítulos seguintes: o espaço é parte integrante das personagens, como se estas o definissem sem lhe dar identidade própria. As escadas comuns são o acesso de todos e cada um ao seu próprio espaço, assim têm os espaços espécies. E assim começa esse capítulo I(traduzo):

 

   Sim, isso poderia começar assim, aqui mesmo, desta maneira um pouco pesada e lenta, neste local neutro que é de todos e de ninguém, onde as pessoas se cruzam sem quase se verem, onde a vida do imóvel se repercute, longínqua e regular. Do que se passa por detrás das pesadas portas dos apartamentos, quase sempre só percebemos ecos afastados, esses pedaços, esses restos. esses esboços, esses começos, esses incidentes ou acidentes que se desenrolam no que chamamos as «partes comuns». esses barulhinhos filtrados que o tapete de lã vermelha abafa, esses embriões de vida comunitária que nunca passam dos patamares. Os habitantes dum mesmo imóvel vivem a poucos centímetros uns dos outros, uma mera divisória os separa, partilham os mesmos espaços que se repetem ao longo dos andares, fazem os mesmos gestos ao mesmo tempo, abrir a torneira, puxar o autoclismo, acender a luz, pôr a mesa, algumas dezenas de existências simultâneas que se repetem de andar em andar, e de imóvel em imóvel, e de rua em rua.

 

   No fundo, fica por descobrir a arquitetura comum, o enigma (puzzle, em inglês) do ser urbano. No preambulo do livro de que falamos, Princesa de mim, Georges Perec cita Paul Klee (cf. Pädagogisches Skizzenbuch): O olhar segue os caminhos que a obra lhe preparou. E analisa então o seu conceito do puzzle como lição sobre a perceção do real e do seu espaço:

 

   À partida, a arte do puzzle parece uma arte breve, uma arte esguia, cabendo inteirinha num magro ensinamento da Gestalttheorie (teoria da forma): o objeto visado  -  quer se trate de um ato percetivo, duma aprendizagem, dum sistema fisiológico ou, no caso presente, dum puzzle de madeira  -  não é uma soma de elementos que se deveriam isolar e analisar primeiro, mas um conjunto, isto é, uma forma, uma estrutura : o elemento não é preexistente ao conjunto, nem mais imediato nem mais antigo, não são os elementos que determinam o conjunto, mas o conjunto que determina os elementos : o conhecimento do todo e das suas leis, do conjunto e da sua estrutura, não poderá ser deduzido do conhecimento separado das partes que o compõem : quer isso dizer que podemos olhar para uma peça de puzzle durante três dias e julgar tudo saber da sua configuração e da sua cor sem termos avançado sequer um pouquinho : apenas conta a possibilidade de ligar essa peça a outras peças, e nesse sentido há algo de comum entre a arte do puzzle e a arte do gô; só as pedras reunidas ganharão um carácter legível, ganharão sentido: considerada isoladamente uma peça dum puzzle não quer dizer nada ; é somente uma questão impossível, desafio opaco ; mas logo que tivermos conseguido, ao fim de vários minutos de ensaios e erros, ou em meio segundo prodigiosamente inspirado, a conectá-la com uma das suas vizinhas, eis que a peça deixa de existir enquanto peça : a intensa dificuldade que precedeu essa aproximação, não só já não tem razão de existir, mas até parece nunca a ter tido, a tal ponto se tornou evidência : as duas peças milagrosamente reunidas mais não são do que uma só, por sua vez fonte de erro, de hesitação, de desapontamento e de expectativa.

 

   Tenho os Romans § Récits de Georges Perec entre os livros vários que me tentam, e me desafiam o sono, à cabeceira da cama. Nesta viragem de um algarismo da data anual (de 8 para 9), longe da estridência das cidades, encontrei neles o meu espaço interior, como voz clamando no silêncio dos campos. Mais do que levar-me a refletir sobre as efemérides do ano terminado - e ano em que me foram morrendo tantos amigos de décadas - este estado de mediatização entre o passado e o interrogado, o visto, o entrevisto e o invisível, prende-me à meditação de Valène, o mais antigo locatário desse edifício de apartamentos no XVIIème de Paris:

 

   Valène, por vezes, tinha a impressão de que o tempo se tinha quedado, suspenso, imóvel em redor de uma espera que ele desconhecia. A própria ideia daquele quadro que ele projetava fazer e cujas imagens expostas, explodidas, tinham começado a assombrar todos os seus instantes, mobilando os seus sonhos, forçando as suas lembranças, a própria ideia desse imóvel esventrado pondo a nu as rachas do seu passado, o desmoronamento do seu presente, esse amontoamento sem continuação de histórias grandiosas ou irrisórias, frívolas ou lamentáveis, faziam-lhe o efeito de um mausoléu grotesco levantado à memória de comparsas petrificados em posturas derradeiras tão insignificantes na solenidade como na banalidade, como se ele tivesse querido simultaneamente prevenir e atrasar essas mortes lentas ou vivas que, de piso para piso, pareciam querer invadir a casa inteira.

 

   Georges Perec bem sente e sabe que, se o passamento dos humanos pelo espaço-tempo neste sempre deixa o rasto dessa passagem, indelevelmente também o marca como efémero: Um dia sobretudo, será a casa inteira a desaparecer, e morrerão aquela rua e o bairro inteiro. Levará tempo. Ao princípio, parecerá uma lenda, um rumor apenas plausível: teremos ouvido falar duma extensão possível do parque Monceau, ou dum projeto de grande hotel, ou duma ligação direta entre o Eliseu e Roissy que tomará para ir ter ao periférico o trajeto da avenida de Courcelles. Depois, serão mais precisos os boatos; dir-nos-ão o nome dos promotores e a natureza exata das suas ambições, que luxuosas brochuras em quadricromia virão ilustrar...

 

   ... Mas antes que do solo surjam esses cubos de vidro, de aço e de betão, haverá o longo apalavrar das vendas e das retomas, das indemnizações, das permutas, dos realojamentos, das expulsões. Uma após uma, serão encerradas as lojas, e não serão trespassadas, uma a uma serão muradas as janelas dos apartamentos devolutos, e arrombados os seus soalhos para desencorajar aproveitadores e sem-abrigo. A rua mais não será do que uma sequência de fachadas cegas - janelas semelhantes a olhos sem pensamento - alternando com paliçadas maculadas de cartazes e grafiti nostálgicos...

 

   ... Quem é que, diante dum imóvel parisiense, nunca pensou que ele era indestrutível? Uma bomba, um incêndio, um tremor de terra poderão certamente derrubá-lo, mas se assim não for? Comparado a um indivíduo, uma família, ou mesmo uma dinastia, parecem inalteráveis uma cidade, uma rua, uma casa, inacessíveis ao tempo, aos acidentes da vida humana, a tal ponto que cremos poder confrontar e opor a fragilidade da nossa condição à invulnerabilidade da pedra. Mas a mesma febre que, por volta de 1850, nas Batignolles como em Clichy, em Ménilmontant como na Butte-aux-Cailles, em Balard como no Pré Saint-Gervais, fez surgir da terra estes edifícios, esganar-se-á doravante a destruí-los...

 

   ... Os bulldozers infatigáveis dos niveladores virão levar os restos: toneladas e mais toneladas de detritos e de poeiras. 

 

   E mais te digo, Princesa de mim: quem se lembrará hoje de que o Arco do Triunfo, em Paris, foi levantado no campo? ou quantos se avisarão de olhar para as matrículas dos autocarros para saber se estão nessa cidade? Retomo afinal, nestas duas interrogações, mais duas citações de Georges Perec feitas na tradução inglesa utilizada pelo artigo referido no início desta carta. E revejo-me em Paris - onde hoje vivem filha, genro e três netos -, cidade entre outras a que pertenço, porque qualquer ser humano guarda sempre um pouco, ou muito, dos espaços que habitou.

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

OS TEATROS DAS COLÓNIAS NO INÍCIO DO SÉCULO XX

 

Fazemos hoje aqui uma evocação de teatros em funcionamento nas colónias portuguesas a partir do início do século passado. E vale a pena desde logo referir que havia na época uma tradição de espetáculo, efetuado a partir de Lisboa por companhias que se deslocavam às colonias africanas, e que dessa forma reforçavam uma certa, se bem que ténue atividade cultural.

 

E recuando ainda mais no tempo e na história, recorda-se o que Eça escreveu em “Os Maias”, a propósito do projeto do Conde de Gouvarinho para a criação de teatros em África. Trata-se de uma conversa com João da Ega no Teatro da Trindade:

 

«Ega então afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geográfico pela África, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado... / Toda a face do Conde reluzia, escarlate, de prazer. / - Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colónias, todas as coisas belas, todas as coisas grandes estão feitas.  Libertaram-se já os escravos; deu-se-lhes já uma suficiente noção de moral cristã; organizaram-se já os serviços aduaneiros... Enfim, o melhor está feito. Em todo o caso, há ainda detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Luanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso a dar. Em Luanda, precisava-se bem um teatro normal, como elemento civilizador!» (“Os Maias” cap. XVI).

 

 Ora bem: temos aqui citado Sousa Bastos e o seu “Diccionário do Theatro Português” (ed. 1908), onde descreve, por vezes em muito vastas referencias, nada menos do que 2002 Teatros, em Portugal   e nas colónias.

 

 E os das colónias eram então os seguintes: Teatro Africano, de São Tiago de Cabo Verde, com 14 camarotes, 7 frisas, 120 lugres de plateia e geral; Teatro Caridade de São Vicente de Cabo Verde; Teatro Garrett de Moçâmedes, com 30 camarotes de duas ordens, 110 lugres de plateia, 60 de geral e 40 de galeria; Teatro de Luanda, com plateia, duas ordens de camarotes e lotação de 300 lugares; e Teatro de S. Tomé, este em sucessivos edifícios adaptados...

 

Isto, em 1908.

 

Mas vale a pena citar outra vez  “Os Maias”.

 

Quando o Conde Gouvarinho é nomeado ministro, o João da Ega faz troça: “Lá vai o Gouvarinho batendo para o poder, a mandar representar a Dama das Camélias no sertão!” 

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

22. A BANALIZAÇÃO DA FOTOGRAFIA


A fotografia foi uma arte.

 

Uma arte de memória.   

 

De avivar a memória e ter boas recordações.

 

Discreta, pessoal, familiar, intransmissível. 

 

Um bem escasso, raro e precioso.

 

Testemunho de momentos marcantes.

 

Copiando a realidade e colando-a em molduras e álbuns de família.

 

Desafiante e senhora dos seus limites, sabendo que o invisível, o imaterial e o impalpável não se fotografam. 


Gradualmente democratizou-se. 

 

Atualmente banalizou-se.   

 

E massificou-se.

 

Hoje há a banalização da fotografia e inflaciona-se o seu culto via digital.

 

A fotografia analógica rareia.

 

Tornou-se uma relíquia.

 

Em paralelo com cartas ou missivas escritas à mão, com caligrafia identitária e singular, por maioria de razão se a tinta permanente.

 

Com a quantificação fotográfica altamente estandardizada, veio a banalização, a menorização da privacidade, a publicidade e transmissibilidade universalizada e indiscriminada.

 

Impera uma fotografia indiscreta, narcísica, hedonista, padronizada e massificada como meio para divulgação nas redes sociais, através de um fotografar maciço que as novas tecnologias proporcionam, em que a câmara fotográfica quase não pesa nem ocupa espaço.

 

Uma fotografia consumista, alheia da privacidade, sob o pretexto do global e do cosmopolitismo.

 

Sem esquecer as selfies, o gosto e o like de grandiosos, imensos e gloriosos eventos a publicar  no Facebook, no Instagram e onde der, com sonante identificação geográfica, local e pessoal. 

 

Mas há também a beleza, tantas vezes de natureza fugidia, que contemplamos e encontramos, que pode ser apreendida, captada e possuída tirando fotografias através de uma mera câmara ou máquina fotográfica (analógica ou atualizada), inversamente proporcional à sua banalização, massificação e consumo impulsivo.

 

Há, então, que desbanalizar a fotografia, dignificando-a e dando-lhe um maior lugar na nossa vida.    

 

 

15.01.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

TINTIN

 

Camilo,

 

Sempre acontece querer dizer mais de uns textos seus do que de outros, não por faltar qualidade a algum deles, mas, porque saltam palavras mais diretas aos olhos de cada um que as lê e todos somos diferentes no que o olhar, nos olhos, segura.

 

Quando vendi o submarino e o foguetão de Tintin, ambos adquiridos em Paris num antiquário, senti que podia ir neles escondida para poder chorar e rezar quando quisessem fazer mal ao Tintin, ou, se ele se visse aflito na decisão dos seus percursos, pudesse estar eu sempre próxima e atenta e sofresse com ele as loucuras, e mais, pudessem as minhas lágrimas salvá-lo e por elas rezando ao mistério, rezando às perplexidades que buscava nos cantinhos dos quadrados da banda desenhada. O meu pai atualizava a minha coleção de banda desenhada, constantemente, e, recordando-lhe eu sempre essa necessidade sem cerimónia. Colocava ele quase em segredo em cima da cómoda do meu quarto os novos cadernos de Tintin, a fim de me espantar de encantamento quando eu desse conta de que as histórias afinal eram libertação.

 

Quando vendi - promessa cumprida a quem vendi - os objetos que faziam capa das revistas de Tintin, logo pensei que nesse dia tinha crescido muito ainda que não entendesse para que lado.

 

Hoje ao ler o que o Camilo citou

 

Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo (confissão de Alberto Caeiro)  

 

julgo ter entendido o silêncio que muito me fez crescer, mas agora de um outro jeito. Julgo tê-lo entendido como uma possibilidade rara de ser fundamento da própria transgressão: uma seiva. Sim, uma seiva que nos é divulgada existir, mas muito por dentro, muito por comunhão.

 

O António Alçada não era tão tranquilo quanto parecia – assim o compreendi também, e o seu filho Luís, confidenciou-me um dia, ser igualmente essa a sua opinião - e por isso no seu livro de homenagem, e ao contrário de todos os que nele participaram, depois de umas palavras minhas, citei um poema de revolta do seu poeta O’Neill ou não tivesse sido esse poema o que ele escolhera depois de, alternadamente, lermos um ao outro uma das aventuras de Tintin, enquanto a minha mãe nos olhava através de seus contagiantes olhos verdes, e, nos referia, de outro modo, a nossa, a de todos, coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

E enfim, o despojamento de que me falava o Alçada, sobretudo nos largos meses antes de partir, tinha muito de religioso, muito de clarividência, muito do conteúdo do destino que, em paz, cada um devia tentar aceder sobretudo pelo silêncio.

 

Deste modo Camilo lhe agradeço o texto que enviou, círculo de luz, aparência e essência, e que todos os dias e noites de claro, saibamos olhar o mundo também pela memória.

 

Sua Amiga Teresa

 

Teresa Bracinha Vieira

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Carlos Botelho e as pinturas de Nova Iorque.

 

Felizmente pode subir-se quando se quiser ao miradouro do Rockefeller Center ou ao 102º andar do Empire State Building e mirar, de alturas vertiginosas, a poderosa cidade; de dia, quando ela é um mar de rochas cinzento-azuladas, exótica incomparável, fria e bela, onde dificilmente se imaginam corações humanos a bater, mas onde batem milhões deles; e de noite, quando estremece e nela se vislumbra um mar de futilidade, sonho infantil de toda a gente, que nos subjuga e encanta.’, Ilse Losa, ‘Ida e Volta à Procura de Babbitt’

 

As pinturas que Carlos Botelho fez após regressar de Nova Iorque, em 1939, são a afirmação plena de um meio eficaz, narrativo e gráfico para referir-se ao mundo urbano à sua volta (muitas foram feitas de memória utilizando os desenhos feitos no local). A pintura de Nova Iorque, de Botelho é espessa, densa, abragente e particular. 

 

Botelho consegue revelar uma Nova Iorque ‘banhada de sol, outras vezes envolvida em nevoeiro e, depois, cintilante, colorida, fantástica’ (I. Losa). 

 

Botelho talvez deseje alegorizar uma América desmedida e de contrastes. 

 

Os arranha-céus transformam-se em objetos, em corpos que expulsam fumo. O tamanho colossal de alguns edificios perde o seu poder esmagador nas telas pequenas - as dimensões, as proporções, a plasticidade nas pinturas demonstram sempre uma facilidade gráfica, uma sintetização dos motivos, uma planificação das volumetrias, um entendimento intuitivo. 

 

Há anúncios luminosos que rompem a continuidade visual, os cartazes mostram mensagens, sobrepõem-se alçados, sucedem-se aberturas, articulam-se dimensões e volumetrias e escadas. Botelho pratica aqui todo o arsenal de recursos formais com um inigualável domínio do espaço de uma urbanidade em conflito - surgem sinagogas, catedrais, lavandarias abandonadas, ruas residenciais, equipamentos industriais, os subúrbios, atividades portuárias. 

 

O pintor encontra em Nova Iorque novas cores para a sua narrativa: o vermelho-tijolo e os rosas pálidos dos objetos construídos, os verdes atmosféricos carregados de fumo e de ruído, os azuis desbotados dos céus longínquos.

 

A uniformidade moderna da arquitetura estimula o gosto de Botelho pelo geometrizante e pelo abstrato que funde os edifícios numa mancha unitária de ocres, rosas e azuis. 

 

Os carros que cruzam a cidade, as pessoas que passam (com um guarda-chuva aberto ou a passear um cão) evidenciam um gosto pela banda desenhada.

 

As pinturas de Nova Iorque situam-se na vanguarda de tudo o que então se fazia em Portugal. Dá-se a entender o dinamismo e a diversidade das soluções espaciais urbanas que mudam de dia e de noite, nas frentes e nas traseiras.

 

Pela primeira vez desde que cheguei à América estou instalada num hotel e logo num da 7a avenida, no centro de Manhattan. Logicamente devia gozar umas vistas magníficas sobre a cidade, daquele género das que vêm descritas em mil e um livros e artigos. Era assim que eu julgava acontecer. Mas não aconteceu. Não pude permitir-me um quarto com janela rasgada nem virado para a rua. Tive de contentar-me com este com janelinha insignificante, que dá para um pátio das traseiras, sujo, mal cheiroso, triste.’, Ilse Losa, ‘Ida e Volta à Procura de Babbitt’.

 

Ana Ruepp

 

A IGREJA E O SEXO

 

Na sua obsessão pelo sexo, a Igreja não pode reclamar-se de Jesus. De facto, segundo os Evangelhos, Jesus raramente falou de sexo e, quando o fez, foi provocado por perguntas que lhe fizeram. E, aí, apelou para o amor, a fidelidade no casal e a igualdade do homem e da mulher. Apaixonado pela felicidade das pessoas, participou em festas de casamento e até fez com que aparecesse o vinho que faltava: 600 litros! Ele próprio celibatário, não impôs o celibato: São Pedro, por exemplo, era casado, e o celibato obrigatório para os padres na Igreja do Ocidente só começou a impor-se no século XI, com o Papa Gregório VII.

 

O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi, essencialmente, a influência perniciosa da gnose, que, contra o cristianismo autêntico, desprezava a matéria e o corpo. Depois, Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada – ele seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram --, formulou, como solução para o problema do mal, a doutrina do pecado original. E a questão é que esse pecado foi entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos os seres  humanos são pecadores -, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.  Finalmente, com a reforma gregoriana, foi-se erguendo a tríplice coluna sobre que assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).

 

Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos e fardos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, que consideravam ofensiva dos direitos humanos.

 

No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser “um imenso, incómodo e multifacetado mistério”, vale tudo? É claro que não, reconhecendo o catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa que “a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher – ao contrário”. Chegou-se à degradação boçal da prostituição nos e dos média, digo eu. Uma sexualidade degradada e desumanizante, na busca exclusiva do prazer venéreo e utilizando o outro como simples meio!

 

De qualquer forma, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita? O Cardeal Carlo Martini, exegeta bíblico eminente e antigo arcebispo de Milão, interrogou precisamente esta lei do celibato obrigatório e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae e que “a solidão da decisão” por parte do Papa Paulo VI, depois de ter retirado a discussão do tema aos padres conciliares, não foi certamente “um pressuposto favorável” para tratar a questão da sexualidade e da família, reconheceu que os anos de distância da sua publicação “nos poderiam permitir um novo olhar”. “É um sinal de grandeza e auto-consciência alguém confessar os seus erros e visão limitada.” Assim, Martini pensava que um novo Papa “talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o  desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade.” Muitos esperam uma palavra de orientação sobre o corpo, o casamento e a família. “Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção.”

 

Sobre estes e outros temas é o que tem procurado fazer o Papa Francisco. Leia-se, por exemplo, a exortação Amoris Laetitia, “A Alegria do Amor”, precisamente sobre uma nova visão da família e da sexualidade, que, para ser verdadeiramente humana, tem de envolver o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual.

 

E chamo a atenção para a elegância com que tratou o tema num diálogo recente com um grupo de jovens da Diocese de Grenoble. Duas jovens interrogaram-no precisamente sobre a sexualidade, perguntando concretamente se o facto de pertencerem à primeira geração que ousa falar abertamente destes temas não explica as incompreensões e o silêncio embaraçado dos mais velhos. Francisco respondeu: “A sexualidade, o sexo, é um presente de Deus. Não é de modo nenhum um tabu. É um dom de Deus, um presente que o Senhor nos dá. Tem dois objectivos: amar-se e gerar vida. É uma paixão, e um amor apaixonado. O verdadeiro amor é apaixonado. O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre e a dá-la com o corpo e a alma”, declarou o Papa com força.

 

“Quando Deus criou o homem e a mulher, a Bíblia diz que os dois são a imagem e a semelhança de Deus. Os dois, não apenas Adão ou só Eva, mas os dois em conjunto”, insistiu. “E Jesus vai mais além e diz: o homem e também a mulher deixarão o seu pai e a sua mãe e unir-se-ão e serão... uma só pessoa?... uma só identidade?... Uma só fé no casamento?... Uma só carne! Esta é a grandeza da sexualidade. E é assim que se deve falar da sexualidade. E deve-se viver a sexualidade assim, nesta dimensão do amor entre homem e mulher por toda a vida. É verdade que as nossas fraquezas, as nossas quedas espirituais, nos levam a usar a sexualidade fora deste caminho tão belo do amor entre o homem e a mulher. Mas são quedas, como todos os pecados. A mentira, a cólera são pecados capitais, mas isso não é a sexualidade do amor: é a sexualidade coisificada, desligada do amor e utilizada para o divertimento”, explicou.

 

Francisco sublinhou ainda o paradoxo que consiste no facto de a mais bela dimensão da criação divina ser também “a mais atacada pela mundanidade, pelo espírito do mal”. A pornografia, por exemplo, depende de uma “indústria da sexualidade desligada do amor”. “É uma degeneração em relação ao nível em que Deus a colocou, e faz-se muito dinheiro com este comércio. Mas a sexualidade é grande: cultivai a vossa dimensão sexual, a vossa identidade sexual. Cultivai-a bem. E preparai-a para o amor, para inseri-la neste amor que vos acompanhará durante toda a vida”.

 

Por outro lado, mesmo se o Documento final do recente Sínodo dos bispos sobre os jovens e com os jovens ficou aquém das expectativas, no “Instrumentum laboris”, texto de preparação e de base para o debate, reconhecia-se que “muitos jovens católicos não seguem as indicações da moral sexual da Igreja”, e que há “temas controversos” como os anticonceptivos, a homossexualidade, o aborto, o casamento ou a questão de género. O texto, apresentado pelo cardeal Baldisseri, aceitava que é preciso debater “abertamente e sem preconceitos”  esses e outros temas, do desemprego às novas tecnologias, passando pelos desafios das migrações, o trabalho precário, as drogas, o papel da mulher. Entretanto, nesse Sínodo, houve vozes como a do bispo auxiliar de Lyon, Emmanuel Gobilliard, que abriu a porta do Sínodo aos LGBT: “Quem sou eu para excluí-los?” Francisco disse sempre que o problema não é a homossexualidade, mas “o lóbi gay”, como outros lóbis. Mais recentemente, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Presidente da Conferência Episcopal Alemã, reclamou uma revisão do celibato obrigatório: “Estou convencido de que o grande impulso de renovação do Vaticano II não está a avançar nem a ser entendido na sua profundidade.”

 

Entretanto, a Igreja carrega com essa chaga que é a pedofilia por parte do clero. O Papa Francisco está disposto a usar mão firme nesse combate. No discurso natalício à Cúria, depois de ter reafirmado que mesmo um só caso de abuso seria “uma monstruosidade por si mesmo”, declarou: “Aos que abusam dos menores quero dizer-lhes: convertei-vos e entregai-vos à justiça humana, e preparai-vos para a justiça divina”. Agradeceu aos jornalistas “que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas”. A Igreja levará à justiça “seja quem for” que tenha cometido abusos. E convocou os Presidentes das Conferências Episcopais do mundo inteiro para uma reunião anti-abusos, que enfrente esta chaga dolorosíssima. Como disse o director editorial do Dicastério (Ministério) para a Comunicação do Vaticano, Andrea Tornelli: “O objectivo é que todos tenham absolutamente claro o que se deve fazer (e não fazer) frente aos abusos”. Trata-se de “transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar” a praga dos abusos “não só do corpo da Igreja, mas também da sociedade”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no Observador | 12 JAN 2019

AO CORRER DA PENA

 

Uma carta para Garcia

 

Chegou-nos às mãos um exemplar de “Uma carta para Garcia” de Elbert Hubbard, editado em 1924 pela Seara Nova, onde é explicada a expressão muito usada em Portugal “Levar uma carta a Garcia”.

 

A Seara Nova ao editar este pequeno trabalho tenta divulgar a lição de energia, amor dedicado ao trabalho, estímulo pelo bem comum em prol da concretização de um resultado benéfico, sem levantar dificuldades.

 

O autor desta obra, filósofo e escritor dos Estados Unidos da América (EUA), diz-nos que demorou uma simples hora a escrevê-la, em 22 de fevereiro de 1899, data coincidente com o aniversário natalício de George Washington, depois de um dia de trabalho em que ele se tinha esforçado por induzir uns camponeses a vencerem o seu estado comatoso e a serem eficazmente ativos e empreendedores.

 

Quando estalou a guerra entre a Espanha e os EUA em 1898, tornava-se urgente e necessária a maior rapidez em contactar com o chefe dos revoltosos cubanos, o General Garcia, que estava nas montanhas agrestes de Cuba não se sabendo, todavia, o lugar exato em que o mesmo se encontrava. O então presidente dos EUA tinha de assegurar a cooperação daquele General com a maior brevidade. Alguém lembrou o presidente que existia um homem de nome Rowan que talvez pudesse encontrar Garcia pelo que foi mandado chamar e deram-lhe uma carta para entregar a Garcia. Rowan guardou a carta e quatro dias depois desembarcou de um pequeno barco na linha costeira de Cuba entrando pelo mato agreste. Três semanas depois saiu do lado oposto da ilha, depois de ter atravessado a pé um largo campo inóspito, não sem que tivesse entregue a carta a Garcia.

 

Hubbard decidiu relatar e publicar o atrás referido após uma discussão com o seu filho Alberto em que este considerou que Rowan foi o principal herói da guerra de Cuba pois terá ido, só, e cumprido a missão que lhe incumbiram: ”Levar uma carta para Garcia”. O autor verificou que seu filho tinha razão; um herói é sempre um homem que faz o seu trabalho completo, sem hesitações ou dúvidas.

 

O artigo foi publicado sem nome, devido à necessidade de ser publicado na revista Felisteu de março de 1899. Esta saiu e logo chegaram inúmeros pedidos de mais exemplares. Quando perguntada a causa de tantos pedidos disseram somente: “foi o artigo que se refere a Garcia”.

 

Verificou-se um êxito inédito deste número da revista e o artigo acabou por ser divulgado sob forma de folheto por todo o país, reimpresso em mais de duzentas revistas e jornais e traduzido em várias línguas.

 

O príncipe russo Iliakoff, diretor dos “Caminhos de Ferro Russos”, encontrava-se, nessa época, nos Estados Unidos da América, viu o folheto e interessou-se muitíssimo levando-o para o distribuir naquela empresa. O folheto surgiu então na Rússia, Alemanha, França, Espanha, Indostão e China e, durante a guerra entre a Rússia e o Japão (1904-1905), foi entregue a todos os soldados russos um exemplar de “uma carta para Garcia”. Os japoneses tiveram conhecimento do folheto através dos militares que foram feitos seus prisioneiros e assim o folheto foi traduzido e entregue um exemplar aos funcionários, civis e militares, do governo japonês.

 

Quando o presidente Mac Kinley deu a carta a Rowan este não perguntou nem quem era nem onde ele se encontrava, tomou a ordem como uma missão a cumprir.

 

Podemos dizer que Rowan é o modelo de homem que para qualquer um devia servir como exemplo quando tem uma tarefa a desempenhar e que em vez de um lamento, quê ou porquê, concentra as suas enegias para fazer o que deve, tal como: “Levar uma carta a Garcia”.

 

Carlos Rosa