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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na sua biografia de Pio V (sim, esse, o papa de Lepanto) - Saint Pie V, le pape intempestif (Le Cerf, 2018) - frei Philippe Verdin, também dominicano, entusiasma-se com o facto de três personalidades tão distintas (Pio V, Carlos Borromeo, Filipe Néri, todos aliás posteriormente canonizados) se terem conjugado para desenvolver a reforma católica da Igreja pós tridentina. Vale a pena traduzir-te um trecho saboroso e esclarecedor, em que o biógrafo coteja Pio com Filipe, ambos eles amigos e veneradores de Carlos, que lhes retribuía na mesma moeda:

 

   Pio V não o compreende (a Filipe Néri). O papa inquieta-se com a sua doutrina e amizades com judeus e ciganos. Não gosta dessa loucura saltitante, a raiar o desrespeito, daquelas pantominas. Convoca-o e põe-no em sentido. Mas Filipe é edificante pela submissão e humildade. E Carlos intervém para lembrar os frutos do ministério oratoriano - [Filipe é fundador da Congregação do Oratório, à qual, mais tarde, pertencerão os nossos Bartolomeu do Quental, Manuel Bernardes e Luís António Verney] - e diz ao papa: «Filipe e vós combateis o mesmo combate, Santo Padre. Tendes a mesma paixão pela liturgia, os mesmos mestres teatinos, o mesmo zelo pela Igreja. Nunca Vossa Santidade ouvirá o Filipe criticar a autoridade pontifícia, nem pôr em causa uma só vírgula das vossas bulas. Todavia, vós agis em conformidade com o vosso papel e à vossa maneira, com autoridade, enquanto que ele o faz pela influência.»  A título de curiosidade, Princesa de mim, lembro-te de que Sto. Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, conheceu pessoalmente S. Filipe Néri e admirava a bonomia da sua pastoral. S. Pio V, todavia, não se agradava com a sua aparente leviandade de maneiras, mas tolerava-as, pensando que ele era um santo, e aos santos tudo se perdoa. Escreve frei Filipe Verdin que o seu biografado diria para consigo: Ele é um amigo de Deus e há muitas moradas na casa comum, muitos membros diferentes no Corpo de Cristo. Esta diversidade é espantosa, mas inconfortável.

 

   E o dominicano francês continua: Tal incompreensão lembra-me os dois dominicanos mais famosos ao tempo da minha entrada na Ordem, e dos quais terei a sorte de me tornar amigo: Christof Schönborn, cardeal arcebispo de Viena e autor do Catecismo Católico, tal como Pio V; Timothy Radcliffe, inglês fantasista e cheio de humor, Mestre Geral da Ordem. Esses dois homens respeitavam-se, mas não se compreendiam. Timothy, de jeans rasgados e cabelo em desordem, irritava Christof, um clássico, amigo de Bento XVI. Eis o equilíbrio precário, que encontramos em cada época da Igreja, necessário à vida dela, entre a retenção hierárquica e o impulso carismático.

 

   Vem esta carta falar-te dessa misteriosa coexistência, debaixo do mesmo tecto - como também há milénios ensina o Tianxiá chinês, e podemos nós, cristãos de muitos e diversos tempos e berços, repetir, talvez chamando-lhe, não já céu, mas manto de misericórdia - de todos os homens de boa vontade que, na mensagem cristã, são a glória de Deus. Tal coexistência não é apenas simultaneidade, mas convívio e cooperação. E traz-me à memória aquela sentença de Paul Claudel: Um católico não tem aliados, só pode ter irmãos.

 

   Un catholique n´a pas d´alliés - eis o título de uma coletânea da correspondência epistolar de Jacques Maritain com Paul Claudel, Georges Bernanos e François Mauriac, todos franceses do século XX, e católicos, o primeiro  sendo um filósofo oriundo de família protestante e republicana,  os outros três grandes escritores, dois deles, aliás, consagrados pelo Nobel e membros da Académie Française.[Só Bernanos ficou fora das honras oficiais, por opção própria, tendo recusado três vezes a Légion d´Honneur - considerando que só a soldados era devida - e chegado a dizer, bem ao seu jeito, acerca da Academia: Je ne voudrais empêcher personne de s´habiller d´une manière ridicule, mais il y a des vérités qu´on ne saurait dire, ni même écrire, en habit de carnaval.] O professor Henri Quantin, organizador desta edição (Éditions du Cerf, 2018), a dado passo da sua introdução, escreve: As cartas aqui reunidas testemunham que pode haver correspondência epistolar sem «correspondência de ideias e de gostos», porque o Evangelho é uma boa nova para anunciar, não uma ideologia para triunfar. A Igreja não é um partido político cujos membros tenham de, ou seguir uma linha eleitoral ou, então, bater com a porta, mas uma família cujas reuniões podem exaltar-se, vez sim, vez não, sem que os irmãos deixem por isso de ter o mesmo Pai. Eis palavras de uma das últimas cartas de Claudel a Maritain: «Espero que tenha esquecido os nossos pequenos desentendimentos, que pessoalmente nunca me impediram de reconhecer em si um irmão com quem tenho orgulho de partilhar uma fé comum». Aquando desses «pequenos desentendimentos», Claudel até chegara a chamar imbecil a Maritain, mas trata-se, afinal, de um adjetivo muitas vezes utilizado entre irmãos... 

 

   Explica Quantrain queTal fraternidade conflitual explica a ordem escolhida para este volume: começar por Mauriac, continuar com Claudel e acabar com Bernanos é uma maneira de submeter a caridade e a paciência dos Maritain a provas de dificuldade crescente. É certo que os irmãos não são aliados, mas certas alianças feitas por um irmão podem tornar mais difícil a vida em fraternidade. A defesa de Drumont por Bernanos será, por exemplo, difícil de aceitar pelo autor de L´impossible antisémitisme. De maneira geral, na ordem das ideias políticas em sentido lato, Claudel e Bernanos afastam-se muitas vezes de Mauriac, ficando este mais próximo das posições de Maritain. Note-se que esses papéis não estão estabelecidos para sempre: se a oposição a Maurras junta, pelo menos de 1927 a 1932, Maritain, Mauriac e Claudel contra Bernanos, a guerra de Espanha, pelo contrário, vê uma frente Maritain-Mauriac-Bernanos opor-se a um Claudel fervente defensor da Igreja espanhola e dos nacionalistas. O sabor dessas trocas deve, aliás, muito aos dramas históricos que lhes são, simultaneamente, pano de fundo e campo de batalha.

 

   Na minha mocidade, li muito estes quatro autores de que te falo agora, com gosto especial por Mauriac romancista e Bernanos escritor de combate, que devorava. E essas leituras feitas entre os catorze e os dezassete anos marcaram-me muito: hoje ainda, quando penso em honestidade intelectual e frontalidade profética, recordo Les grands cimetières sous la lune, La France et les robots, La grande peur des biens pensants; e para falar de língua francesa lindamente escrita, vou buscar trechos de Mauriac para ilustração... tal como me abismo nas suas visões de negruras e alvuras das almas. 

 

   Aliás, para partilhar essas experiências contigo, traduzo-te um passo do Bloc-notes de François Mauriac, com data de Domingo, 6 de novembro de 1960, registando o velório a Raïssa Maritain [Ocorreu-me este trecho várias vezes, neste mês e meio, ao meditar na morte recente de dois muito queridos amigos, ambos embaixadores, João de Deus Bramão Ramos e Nuno da Cunha e Távora Silveira e Lorena. Amizades com mais, ou muito mais, de seis décadas, apesar de as vidas vagabundas de todos três nos terem, com frequência, geograficamente afastado, sem todavia quebrar diálogos e partilhas]:

 

   Ajoelhado ao lado de Jacques Maritain, no quarto em que Raïssa Maritain descansa, contemplo avidamente essa bela fronte, donde se retirou o pensamento, e que todavia dele conserva a irradiação. O corpo tornado coisa deveria ser igual às coisas (que é no que se torna um bicho morto). Podem dizer que não acreditam na alma: ela nunca me parece tão visível como quando já lá não está: o rosto dessa mulher duas vezes inspirada, pois que vivia de Deus e era poeta, esse rosto, no momento de se desfazer e voltar a ser pó, de não ser nada, guarda o estigma de um pensamento para sempre ausente, mas é infinitamente mais do que um pensamento. 

 

   O original está num francês muito bonito, mas reflete bem essa sensibilidade da alma, tão feminina, que levava François Mauriac a tão bem escrever sobre as mulheres, como nesse romance do claro-escuro de uma vida humana que é Thérèse Desqueyroux. E já que te falo desta, também te digo como entre o filósofo tomista, de origem republicana e protestante, e o escritor burguês, de origem conservadora e católica, se foi desenvolvendo - até pelos processos de conversão próprios a cada um deles - um profundo entendimento espiritual (apesar da embirração de Mauriac com o tomismo). Este trecho de Maritain, que de seguida te traduzo - tirado da Réponse à Jean Cocteau, que a Librairie Stock publicou, em maio de 1926, simultaneamente com a Lettre à Jacques Maritain, do mesmo Cocteau - mostra bem, como diz Michel Bressolette, um ponto de encontro Maritain-Mauriac muito íntimo. Qualquer leitor de Thérèse Desqueyroux, por exemplo, o notará:

 

   Entre o mundo da poesia e o da santidade há uma relação de analogia, e tomo esta palavra com toda a força que lhe dão os metafísicos, com tudo o que ela significa, para eles, de parentesco e de distância.

 

   Mesmo para com o pecado, a arte ainda imita a graça. Quem não conhece as regiões do mal pouco entende desse universo. O artista também conhece as rugas do coração, e visita os lugares inferiores.

 

   Quiçá outro jeito de confirmar esta afirmação de Jacques Maritain seja a troca de incompreensões mútuas e contrições sentidas entre o filósofo e Georges Bernanos. Este, quando panfletário, deixava-se cair em tentações de grandiloquência feroz, daquelas que, tantas vezes assediam os corações proféticos. Nalgumas delas terá sido, foi mesmo, injusto, acintoso até, para com Jacques Maritain, por tabela magoando muito Raissa. Não vou agora, Princesa de mim, contar-te histórias dessas, muito menos comentá-las. Espero que sejam suficientemente elucidativos - e servindo o propósito desta minha carta - os trechos dos próprios protagonistas, que seguidamente traduzo. São bilhetes e cartas:

  

           De Raissa Maritain a Georges Bernanos, a 4 de abril de 1930:

 

                      Excelentíssimo Senhor:

   Se o bilhete que lhe enviei, na ausência de Jacques, lhe causou mágoa, lamento imenso. Mas como podia eu pensar que o senhor quisesse mesmo comunicar a sua dor a alguém que publicamente acusou de ensinar aos amigos «a ciência e as delícias do pecado mortal»? O meu primeiro impulso foi escrever-lhe, mas disse para comigo que alguém que não cessa de desentender as intenções do Jacques só poderia acolher mal um testemunho de amizade da nossa parte...   ... Se hoje lhe escrevo é porque, no fim de uma carta dura, pede todavia ao Jacques que reze por si. E isso toca-me profundamente. Creia, senhor, que perdemos um amigo que nunca deixámos de amar, e que toda a pena é nossa.

 

          De G. B. para Jacques Maritain, a 30 de agosto de 1930:

 

                     Meu Caro Maritain:

 ...Perdoe-me não lhe ter agradecido as suas duas cartas, estive muito doente. Parece-me que me conhece mal. Mas dizemos isso sempre! Ao fim e ao cabo, nem tenho bem a certeza de saber mais do que V. acerca do mesmo assunto. Assim sendo, creio que será melhor aturarmo-nos tal qual somos, pacientemente, ou mesmo alegremente (ambos temos lados cómicos!), esperando que a meiga piedade de Deus nos cubra.

   As minhas melhores e especiais homenagens à Senhora Maritain, com a minha afetuosa mágoa de, por vezes, lhe causar pena. E pense em mim diante de Deus.

 

          De R. M. a G. B., a 24 de maio de 1931

 

                   Caro Amigo:

 ...Toca-me, mais do que sei dizer, a amizade que V. me testemunha. Sensibilizo-me, admirada, porque não a mereço.  Mas é desse mais acima dos meus méritos que verdadeiramente preciso, porque só o dom opera a salvação.

   Procuro, à luz dessa amizade, situar o mal tão gravoso que V. disse do Jacques, e compreendo que V. só possa pensá-lo quando entra nessa região, a certos títulos não-humana, da polémica cujo objetivo não é a verdade mas a batalha por uma causa à qual julgamos tudo poder sacrificar, mesmo a amizade e a justiça, porque milagrosamente parece em si conter tudo isso, e sobre tudo o mais prevalecer.

   É nessa região da polémica que também incluo o seu livro sobre Drumont. [Raïssa refere-se a La Grande peur des bien pensants, onde, na verdade, se encontram textos suspeitosamente inspirados de algum antissemitismo].

   O amor apaixonado da França, o conhecimento concreto, vital, da pessoa e da sua história são como labaredas a percorrer todas essas páginas, e ali tudo serve para alimentar esse fogo e propagar esse incêndio. Mas como poderei levar-lho a mal? Pois se, quando a palha de certos argumentos tiver ardido, ficará o rasto imortal de um coração que muito amou.

   Tampouco é o antissemitismo que me magoa no seu livro. Na verdade, pouco lugar lhe deu. E não tenho o menor desejo de defender as «potências do dinheiro», mesmo que sejam judias. Aliás, pessoalmente, não conheço judeus ricos. Na minha família, sempre fomos pobres, e talvez por isso eu tivesse tido, pelo Mendiant Ingrat, amor à primeira vista. [Referência, aqui, a Léon Bloy, de quem já te falei, admirado por Bernanos, padrinho de batismo dos Maritain, que ele próprio apoiara no caminho da conversão. Como verás, Princesa de mim, Bernanos, na resposta, terminará a carta recordando a memória do "velho padrinho, na meiga piedade de Deus, que um dia nos reunirá"]

 

             De G.B. para R. M., a 28 de março de 1933

 

                                   Querida Senhora e Amiga:

 ... há por vezes uma espécie de florinha no terreno vago ao qual, apesar de tudo, não posso chamar jardim nem vida minha. Eis aqui uma que colhi para si: fui muito estúpido, outrora, ao magoá-la, e peço-lhe perdão por isso. Com muito afeto, na memória do vosso velho padrinho e na meiga piedade de Deus, que certamente um dia nos reunirá.

 

                       De R. M. para G. B., a 31 de março de 1933

 

                    Caro Amigo:

   Essa florinha que me envia não pode ter sido colhida num «terreno vago», vem direitinha do jardim da caridade.

   Dizer: magoei-a, peço-lhe perdão, é de uma simplicidade rara, é algo raro e puro como a boa vontade.

   Considerava a questão resolvida entre nós; a sua carta é, pois, um belo excesso, pelo qual vos fico infinitamente reconhecida.

 

   Afinal, sobre a relação, por vezes difícil, entre Bernanos e os Maritain sempre planou a lição de Léon Bloy, o «mendigo ingrato»: a busca de Deus como caminho de reconciliação. Em fevereiro da 1947, ano e meio antes de morrer Georges Bernanos escrevia, num texto intitulado Dans l´amitié de Léon Bloy: O nosso Bloy, o nosso velho Bloy, que de acordo com a predição do senhor seu pai, terá falhado tudo, não nos falhou a nós, a nós seus amigos, e até seus discípulos, pelo menos seus afilhados ao mesmo título que Maritain e Van der Meer.

   Esses livros, recentemente ou agora publicados, de que te falo, levam-me a revisitar a biblioteca de meus pais - da qual pouco me sobra, à parte edições antigas do Eça e do Camilo, em português, e outras mais esparsas de autores franceses et alia... Estes são sobretudo católicos militantes, dos que minha Mãe lia na Universidade de Lovaina, quando por lá andava. Até conservo uma tese de doutoramento, escrita em francês, por um português, sobre a nossa Constituição de 1933... Interessante, nunca encontrei nada parecido em Portugal. Curiosamente, antes de assinar esta carta, surge-me a imagem de minha Mãe, comodamente sentada na sua sala de estar, de óculos postos, a ler Maritain; e a de meu Pai, mais sonora, já deitado no quarto onde lhe ia dar as boas noites, rindo com gosto em divertida leitura de A Relíquia ou do Tintin en Amérique. Por acaso, ainda tenho os mesmos exemplares (hoje dizem cópias) de ambos... E dou graças a Deus pela minha vida ter tido tantos momentos de Graça com graça.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

QUANDO SE CANTAVA ÓPERA NO PALÁCIO DE QUELUZ

 

Refere-se novamente a alternância entre teatros históricos, teatros românticos e neo-românticos, cineteatros e teatros contemporâneos, bem como a sequência de crónicas e evocações de edifícios de vocação de espetáculo e edifícios onde também se produziram espetáculos, mesmo que para tal não fossem especificamente concebidos e construídos.

 

E assim, nessa alternância de temas, descrições e evocações, citamos hoje um Palácio que constitui referencial histórico e arquitetónico de primeiro plano, e onde se produziram espetáculos de envolvimento cénico e musical.

 

Trata-se do Palácio de Queluz, não na globalidade histórica e monumental inerente, mas na realização, também na perspetiva histórica, de espetáculos cénicos, designadamente de componente musical. E evocamos três eventos dignos de registo.

 

Em primeiro lugar, a criação de um edifício de madeira, projeto do arquiteto Inácio de Oliveira Bernardes, onde a partir de 1790 se realizaram espetáculos de musica e teatro. De início foi episódica a sua atividade, e D. Maria I manda destruir o edifício, para se erguer no local o Pavilhão onde se instalou depois de enviuvar. Posteriormente, e durante largos anos, aí se alojaram figuras oficiais, designadamente Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial.

 

Mas havia uma tradição de espetáculo que remonta a anos anteriores. E nesse sentido, e tal como já tivemos ocasião de escrever, ficou uma história no mínimo insólita, a do rei D. Miguel a interpretar o papel de D. Quixote na ópera de António José da Silva, com musica atribuída a António Teixeira.

 

Sabemos bem que se trata da primeira peça de António José da Silva, datada de 1733 com o nome de “Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança”. E podemos acrescentar: o que até nós chegou da produção musical de António Teixeira (1703-1755?), hoje mais ou menos esquecido, permite-nos avaliar o que deverá ter sido o espetáculo.

 

Isto apesar de João de Freitas Branco não garantir a autoria da musica de cena do “D. Quixote”: mas refere-a em outros textos da António José.  

 

Certo é que a grande maioria das peças de António José da Silva foi executada com suporte musical de António Teixeira. Pode pois aceitar-se que também dele terá sido a música do “D. Quixote”, o que garantiria a qualidade!

 

DUARTE IVO CRUZ

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

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XLI – FAUVISMO

 

No Salão de Outono de 1905, em Paris, um grupo de jovens novos pintores expõe telas marcadas pela agressividade das cores, onde a cor é empregue em tons puros, fortes e contrastantes, sem preocupações com a exatidão do tom local, usando formas e contornos indefinidos, composições planas e simplificadas. Foram denominados “fauves” (feras), uma vez se assemelhar a rugidos, a violência do seu trabalho, na distorção das formas e cores. Incluía Matisse, Derain, Puy, Manguin, Vlaminck, Rouault, a que se juntaram ulteriormente Dufy, Marquet e Van Dongen.

 

Este movimento artístico francês, conhecido por fauvismo, não aceita o papel representativo da pintura tradicional, apreciando a arte primitiva e infantil, liberta de convencionalismos, utilizando a mancha livre de cor, grandes saturações e contrastes cromáticos, em que o quadro não tem de ser fiel ao real e o tema é uma interpretação livre do artista.

 

O protagonismo dá-se ao nível da cor, brilhante e agressiva, usando preferencialmente cores primárias, de pinceladas vigorosas, soltas ou corpulentos empastes.

 

Faz o culto de uma maior alegria de viver, por confronto com o expressionismo alemão, mais dramático e marcado pela angústia de viver, embora parte integrante do expressionismo no seu todo, havendo quem fale do expressionismo francês, diferenciando-o do alemão.

 

Matisse foi o pintor fundamental do fauvismo, defendendo a harmonia cromática, desmistificando o retrato, apelando a uma ingenuidade e espontaneidade no olhar, à cor pura, ao decorativismo na arte, ao intimismo, num preenchimento total do espaço pictórico, com figuras simplificadas, um desenho de traços puros, grande saturação cromática, primitivismo, visão pura das coisas e uso da bidimensionalidade.

 

Em A Alegria de Viver (1905/6), exemplo conseguido do fauvismo, as figuras reduzem-se a manchas de cor que os contornos quase não delimitam, numa visão a cores de figuras excêntricas rudemente desenhadas, com alegres inovações cromáticas. Em A Dança (1910), sobressai a natureza expressiva das cores, que se impõem na plenitude, por entre formas muito simplificadas.

 

O fauvismo tem um sentido decorativo profundo, procurando a alegria de viver.

A experiência fauve, embora marcante, foi curta, sendo 1906 o ano em que se manifestou plenamente, com uma maior intensificação do cromatismo em Matisse, Marquet e Duffy, verificando-se a adesão de Braque e dos russos Jawlensky e Kandinsky, tendo os seus protagonistas adotado posteriormente outras linguagens pictóricas.

 

01.01.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

CHARLIE CHAPLIN

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Teus olhos perscrutantes são meus olhos vagabundos. Tua irmã sou, se me aceitares

 

E como disseste “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre” e só se conhecem céus, conhecendo as noites fundas do ódio, do poder cego, do desprezo e da clemência do amar que exprimiste mudo com a extrema dignidade de um cavalheiro. Na tua cartola, na tua bengala de bambu, no teu fraque, nos teus sapatos imensos e desgastados, não foste grande, foste gigante e nunca foste o fim de uma era, ou não tivesses partido deste mundo que encheste de significado durante a gentileza do teu dormir.

 

Em 1977 ano da tua morte, juntamo-nos um grupo de amigos para falar de ti para homenagear algumas das tuas frases. Tudo o resto, pois que o teu resto é mundo todo, já sabíamos que se vai fatiando deitando laço à idade que nos chega

 

e num espírito sem clausura, tu

 

Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis”;

 

“Amo o público, mas não o admiro. Como indivíduos, sim. Mas, como multidão, não passa de um monstro sem cabeça”;

 

“A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la - mas quem consegue descobre tudo”;

 

Enfim o que pode extrair a nossa imaginação dos teus filmes expressa bem o quanto neles o que importa não é a realidade.

 

Sempre o meu choro ao vê-los foi meu aplauso total. Sempre senti uma dor brilhante naquela mímica. Deixava-me a pensar nos corações de estopa lacrimosos a expor as suas contradanças e repudiava o que ainda hoje repudio: refiro-me ao eterno jardim sempre prostituído por malabaristas de estudadas esgrimas.

 

Agora, de manhã, quando te escrevo, é tudo grato…mas Chaplin ao meio dia já muito é duro, a noite é amarga, e, ao amanhecer, contigo também aprendi que do vagabundo despertam aos poucos as ânsias de caminhar e assim a andar nos pomos.

 

Grata te sou pois julgo ter entendido de ti um jeito de conhecer o indizível do morrer, da perda dele ao largar o mundo já que me deixaste a hipótese de encontrar no negrume o que resta da luz.

 

PS

A vida é maravilhosa se não se tem medo dela, sim é certo Chaplin, e é um texto irreversível no qual para irmos a jogo haveria que inventar outra comédia humana, outra trave mestra que fosse um outro dia, de repente.

 

Teresa Bracinha Vieira

DESAFIOS PARA FRANCISCO

 

Perante uma das mais graves crises de sempre da Igreja, o desafio maior para Francisco continuará a ser tentar converter a cristãos os católicos, começando pela cúpula: cardeais, bispos, padres, religiosos e religiosas. Essa conversão implicará uma organização eclesial na linha do Evangelho.

 

 O próximo ano será marcado por acontecimentos decisivos para se saber qual o lugar que a História reservará a Francisco:  um Papa da continuidade ou o  Papa da ruptura que se impõe.

 

1. Em Fevereiro, reunião em Roma com os Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo sobre a pedofilia. Ter-se-á a coragem de tomar medidas que acabem com essa podridão estrutural na Igreja? Vão ser abertos os arquivos para ficar a claro por uma vez tudo o que tem acontecido? E serão devidamente sancionados, colaborando também com a justiça civil, os abusadores e os encobridores? E para a formação dos novos padres: mais presença feminina e testes de maturidade, também com peritos credenciados de saúde mental?

 

2. Em Março, será aprovada a nova Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana, Governo central da Igreja. Continuará o centralismo ou haverá uma Constituição democrática, de comunhão, com representação de todos, incluindo as mulheres, e das Igrejas locais do mundo, superando o dualismo clero-leigos a substituir pela relação viva: comunidade-ministérios (serviços)?

 

3. O Sínodo sobre a Amazónia em Outubro: ocasião para aumentar a consciência ecológica global e avançar com novos ministérios, incluindo a ordenação de homens casados?

 

4. Em Janeiro, na Jornada Mundial da Juventude no Panamá: o anúncio da próxima Jornada em Portugal em 2022, com o regresso do Papa ao país, constituirá um novo impulso para reanimar a Igreja em Portugal, que parece continuar paralisada?

 

Ano novo 2019 bom e feliz!

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 29 DEZ 2018

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim,

                                              

Queridos Amigos:

 

                                           Nuvem neste instante

                                              feita nossa

                                           libertação

                                              do exílio

 

   Quadra não sei, recolhi-a de Enfin le royaume - quatrains (Gallimard, 2018), de François Cheng. Presumindo que o poeta chinês da Académie Française a tenha escrito em francês, dessa versão a traduzi. O original reza assim:

 

                                           Nuage un instant

                                              apprivoisé,

                                           Tu nous délivres

                                              de notre exil.

 

   A coletânea de poemas (quadras chinesas, poderá dizer-se?) que este livro encerra é um insistente, melodioso e exigente, apelo a sair de nós. Como aquela definição que Plotino (270 a.C.) dá da inteligência, como movimento do nosso pensamento que o ergue das coisas inferiores para nos levantar a alma até ao que é superior. Mas tal movimento, mesmo nesse instante da nossa busca em que cativamos a passageira nuvem que nos livra deste exílio, ou nos liberta como verdade encontrada, só pode existir e ter sentido na nossa consciência. Ou seja, citando São Tomás de Aquino (Summa Theologiae, Ia IIae q. 19a.5): Se a tua razão se revoltar contra a afirmação de que Cristo é Filho de Deus, seria ofensa a Deus acreditares na divindade de Cristo. Eis, Princesa de mim, o que muitos convictos ateus e devotos crentes nem sempre entendem: qualquer de nós só verdadeiramente pensassente a verdade, em liberdade... Veritas liberabit vos, isto é, a verdade vos libertará - não significa que um achado científico, nem qualquer dogma ortodoxo, por si só, ou por muita pregação, seja definitivo e triunfador. Antes nos alerta para que, tal como o conhecimento científico é contínua descoberta, a Boa Nova é incessante anúncio da libertação do nosso exílio. Chama-nos a ser vigilantes, atentos à chegada de cada instante em que se manifesta como vocação à conversão. Tal como a ciência, a fé, o amor ou a paz, nunca estão perfeitos: são vocações, sempre a pedir resposta, um passo mais de ação renovadora. E a precisar de cultura, de um espírito que se lavre para se abrir à sementeira. Dessas vocações se pode dizer que são graça, um dom. Repetindo Raïssa Maritain, só o dom opera a salvação.

 

   Ora, nem todos recebemos o dom da fé, ou não o descobrimos a chamar por nós. E se não nos tocou nem toca, mantem-se estranho, porque não há força nem lógica que imponha a fé. Quem a tem, ou julga ter, dela apenas pode dar testemunho. Para o cristão, o testemunho da fé dá-se pelo amor e pela paz. Eu não posso dar a fé seja a quem for, posso procurar dar o meu amor e a minha paz a toda a gente.

 

   Em tempos de tantas incertezas, interrogações, expectativas e desilusões, a fé cada vez menos se anuncia como dogma, e cada vez mais se testemunha pelo amor e pela paz que soubermos irradiar, para comunhão de todos na esperança que a todos nos deve animar. E é dando esse testemunho, com empenho na defesa da terra e na construção de uma casa comum, que se anuncia, no dia a dia, a Boa Nova. Que 2019 seja ano mais despido de preconceitos, desconfianças e negações, para que nos nossos dons de amor e de paz se manifeste a Graça.

 

Camilo Maria  

                                         
Camilo Martins de Oliveira

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