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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em carta já datada de 24 de junho de 2018, publicada no blogue do CNC, falei-te de Gabriel Fauré e do seu Requiem. Dizia-te então, citando o compositor francês que eu apelidara de "agnóstico muito religioso", que o meu Requiem é tão meigo como eu. O meu Requiem... já alguém disse que ele não exprime o susto da morte, já lhe chamaram canção de embalar a morte: é uma feliz libertação, aspiração à felicidade do além, mais do que doloroso trânsito. Gosto intrinsecamente dessa peça sem terrores nem temores, ameaças justiceiras ou fanfarras. Soa-me mais a acolhimento pela ternura de Deus do ser humano que regressa a casa do pai. E, afinal, é isso que Requiem quer dizer: descanso. Eis o que essa missa pede: dá-lhe, Senhor, o descanso eterno. E a esperança logo acrescenta: entre os esplendores da luz perpétua...

 

  Volto a escutar hoje o Requiem de Fauré, lembrando-me de frei Bernardo Domingues, irmão do frei Bento que acorreu ao Porto para o acompanhar à beira do mistério. E a tantos amigos, mulheres e homens, que lá vão partindo na secreta viagem, também lhes faço companhia com essa música toda feita de acenos evangélicos. Talvez não haja alegria maior do que a desse encontro com a misericórdia de Deus e dos humanos todos. Sinto-o muito nesta tarde de sexta feira, quando me chega a notícia de que o frei Bernardo morreu de madrugada.

 

   Melhor do que eu, diz Vladimir Jankélévitch num dos textos de L´Enchantement Musical: O Requiem de Fauré é como o amor e a morte. Depois de tudo o que já foi dito, que mais conseguiremos dizer? E, todavia, é facto: ouvimos os sublimes arpejos do Sanctus e os acentos patéticos do Libera me como se pela primeira vez os escutássemos. O mistério do Ofertório, o alegreto bergamasco do Agnus Dei, o azul seráfico do In Paradisum, todos temas inesgotáveis de meditação e exaltação. [O canto do Agnus Dei, na missa de Requiem, por três vezes pede o descanso para o morto: Agnus Dei qui tollis pecata mundi dona eis requiem. Repara, Princesa de mim, que Jankélévitch chama, a esse andamento em alegreto no Requiem de Gabriel Fauré, bergamasco, sublinhando assim a alegria dançante de uma música que lhe evoca a bergamasca, dança ligeira (como a tarantela) da região de Bérgamo.]

 

   Confidencio-te hoje, Princesa de mim, a minha experiência espiritual na escuta desta obra musical, porque ela me ajuda a uma contemplação evangélica do mistério da vida e da morte humanas. Até pela fraternidade em que esse mesmo mistério se torna presente, nesta irmandade de todos nós, os da mesma humana condição, aqui algures no inacabado (Quelque part dans l´inachevé, outro título de Jankélévitch). No momento em que encaro a morte de um amigo, estou de certo modo a interiorizá-la: há sempre um pouco de nós que morre com os amigos que partem, com qualquer humano que se morre, e há ainda essoutra parte de nós, que fica, bem viva pela força persistente que nos diz como há algo em nós, na comunhão de todos nós, que não irá morrer. Esta é doravante a comunicação mais forte que temos com os que já não vemos agora. Afinal, estamos sempre em comunhão com todos os que são - pela, e na, sua e nossa humanidade - o nosso próximo, confundidos na mesma condição, na vida e na morte. 

 

Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

A VIDA DOS LIVROS

De 25 de fevereiro a 3 de março de 2019

 

 

«Antologia» de Fernando Echevarría (Afrontamento, 2010) permite-nos tomar contacto com a obra de um dos grandes poetas portugueses contemporâneos – num momento em que é muito justamente homenageado na passagem do seu 90º aniversário (26.2.1929).

 

INTERROGAR O QUOTIDIANO
“O Vinho e o centeio abrem a mesa / àquele peso de fulgor sagrado / que nos reúne. Quase sacramenta / como a luz do concerto no trabalho / que aqui trazemos. E depomos tensa / para que nutra, com tua graça, o hábito de nos sentarmos a receber da terra / o que demos à terra. E partilhamos. / Que deste pão o nosso olhar se acenda. / E o vinho atine a só nos alegrarmos / para o esforço difícil da tarefa / dar fruto de justiça a todos quantos / tão apartados e famintos dela, / faltam ao peso e ao fulgor dos anos” (Geórgicas, 1998). Fernando Echevarría é um poeta em quem o talento e a capacidade de sedução se aliam naturalmente. E no poema com que iniciamos este texto, sentimos intensamente a ligação natural entre o quotidiano e o sagrado. E essa naturalidade encontramos ao longo de uma obra intensamente sentida, em que a natureza está à nossa beira perante a fantástica capacidade de renovar a vida a cada instante. E recebemos o eco nítido: “Talvez o sonho seja fundamento / de assim ligeiras serem as cidades. / Andarmos ruas ao nosso pensamento / as leva a abrir maior assiduidade / aos passos que pousamos no momento / de a transparência negar a antiguidade. / Por isso nelas somente passa o vento / se a sonhá-lo passarmos na cidade…” (Introdução à Filosofia, 1981). Misteriosamente, dir-se-ia que a realidade e o sonho se entrecruzam, já que a poesia é vista como a chave para todas as perguntas. O poeta é português com raízes em Espanha. Autor de obra traduzida nas principais línguas europeias, como francês, castelhano, inglês ou romeno, nasceu em Cabezón de la Sal (Santander, Espanha) em 26 de fevereiro de 1929, filho de pai português — que se exilara no país vizinho na sequência do fracasso da Monarquia do Norte — e de mãe espanhola, veio com dois anos morar para Grijó, Vila Nova de Gaia. Em 1940, entrou no Colégio Cristo Rei (Redentoristas), que frequentou até 1946, seguindo de novo para Espanha onde concluiu os estudos de Filosofia e Teologia, no seminário de Astorga, após ter feito o noviciado em Nava del Rey (Valladolid). Em 1956, ano em que publicou “Entre Dois Anjos”, terminou o serviço militar em Coimbra, regressando ao Porto para dar aulas ao ensino secundário, no Colégio de Gaia. Em 1961, emigrou para Paris, onde participou nos círculos oposicionistas portugueses. Aderiu ao Movimento de Ação Revolucionária (MAR), próximo do “grupo de Argel” e de Humberto Delgado. E através de Delgado, adere à Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), e vai para Argélia em 1963, é um dos fundadores da LUAR  (Liga de Unidade e Ação Revolucionária) com Emídio Guerreiro e Hermínio da Palma Inácio. José Augusto Seabra, com quem estará mais tarde na “Nova Renascença”, é um dos seus próximos contactos intelectuais e políticos. Três anos depois, volta para Paris, onde permanece exilado até 1974. Depois de 25 de Abril, recusou lugares políticos e continua a trabalhar até aos anos oitenta como professor de Francês no Centro de Orientação Social para Refugiados. Depois regressa a Portugal e fixa-se no Porto.

 

UMA OBRA POLIFACETADA
Escreve em português, e só ocasionalmente nas línguas castelhana e francesa, e colaborou em diversas revistas como “Graal”, “Colóquio/Letras”, “Limiar” e “Nova Renascença”. Com extensa obra poética, após Entre Dois Anjos, seguem-se em edições de autor e pequenas editoras, as obras Tréguas para o Amor (1958), Sobre as Horas (1963), Ritmo Real (1971), um livro de arte, com gravuras de Flor Campino, A Base e o Timbre (1974), Media Vita (1979), Introdução à Filosofia (1981) e Fenomenologia (1984). Após o regresso a Portugal, inicia uma relação editorial com as Edições Afrontamento, onde publica Figuras (1987), Poesia (1956–1979) (1989) — reedição dos livros compreendidos entre aquelas duas datas  —, Sobre os Mortos (1991), Poesia 1980-1984 (1994), Uso de Penumbra (1995), Geórgicas (1998), Poesia 1987-1991 (2000), Introdução à Poesia (2001), Epifanias (2006), Obra Inacabada (2006), Lugar de Estudo (2009), Antologia (2010), In Terra Viventium (2011), Categorias e Outras Paisagens (2013) e Obra Inacabada (2 volumes, 2016). E ouvimo-o: “às vezes a velhice reconhece / o júbilo crescente de irmos indo. / Os passos, graves, contam. Mas só esse / esplendor vagaroso de caminho / que eleva o corpo a condição celeste / onde estremece o espírito” (Lugar de Estudo, 2009). Fernando Echevarría recebeu inúmeros prémios, avultando: em 1982, Prémio de Poesia do Pen Club por Introdução à Filosofia; em 1987, o Prémio Inasset por Figuras; em 1991, o Grande Prémio de Poesia da APE por Sobre os Mortos; em 1998, o Prémio Luís Miguel Nava por Geórgicas; também pela mesma obra, o Prémio António Ramos Rosa, na sua primeira edição, em 1999, da Câmara Municipal de Faro; e ainda por Geórgicas, de novo o Prémio de Poesia do Pen Club em 1999; em 2002 o Prémio Teixeira de Pascoais; em 2005, pelo conjunto da sua obra, foi distinguido como o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura; em 2007, o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen por Obra Inacabada; ainda em 2007, o Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus, por Epifanias; em 2010, de novo o Grande Prémio de Poesia da APE por Lugar de Estudo; e em 2015, recebe o Prémio Casino da Póvoa, nas Correntes d’Escritas, por Categorias e Outras Paisagens.

 

UM POETA QUE PROCURA…
Que busca, afinal, o poeta? “As cidades longínquas são felizes. / Cantam ao sol implícito do mármore. / E, diáfanas, vogam. Sem raízes, / mas ao ritmo das fontes pelas árvores. / Ou, lavada brancura, ruboriza / ao poente dos bosques consagrados / a deuses forasteiros, em que a brisa / acorda, antiga, as harpas e os fados. / Harpas e fados que o fundo da cidade / de si exuma, quando se ilumina / a inteligência que, por ela, se há de / iluminar, leitura repentina. / Que o que é feliz é o longe da cidade / errar tão branco ao fundo da retina” (Introdução à Filosofia, 1981). E que é afinal a poesia? Invocando Maria de Lourdes Belchior, em “Magnificat”, o poeta faz a definição irrepreensível: “Mas sabemos que quanto nos fez falta / deixou ao espaço um esplendor feliz, / dilatado a fronteiras de país / onde a dor nem se dói. Porque só é alta…” (Uso de Penumbra, 1995).

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença