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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

NESTE FEVEREIRO QUE SE FINA…
28 de fevereiro de 2019

 

Se estivéssemos no tempo do calendário romano, este seria o último dia do ano. Amanhã floresce o primeiro dia do mês em que se inicia a Primavera. E se os idos de Março se tornaram funestos por virtude da morte de César, o certo é que são sempre gloriosos no tocante à vida da natureza. Era neste mês coxo que se faziam os acertos astronómicos, uma vez que o trânsito anual dos astros não está acertado com a definição do tempo dos relógios e faltam uma horas que se acertam nos anos bissextos no mês último das calendas romanas. E quando explicamos aos alunos das escolas esta bizarria eles compreendem muitos mistérios cósmicos, entre os quais o do nome dos meses a seguir a Agosto. E não esqueço que tomei consciência da importância de todos estes ensinamentos um dia na cidade de Pequim, ou como agora soe dizer-se Beijing, ao deparar-me com a grande admiração que ainda hoje existe no Império do Meio pelos jesuítas astrónomos, que tornaram esse observatório o mais célebre do mundo… Acrescento que fiquei apreensivo com a subida de temperatura nos últimos dias. Fevereiro quente traz o diabo no ventre… Mas deixando essa recordação meteorológica oriental,  cito o meu Amigo Dr. António Sousa Homem, com quem me encontro religiosamente em Moledo, volta não volta, e que acaba de publicar um pequeno livro, que li com todo o agrado. Ou reli, uma vez que muito do que agora vem a lume tinha-me sido dado a ler por gentileza de meu amigo. Falo de “O Crepúsculo em Moledo e outras ilegias” (Porto Editora). E não esqueço o que me disse um dia: «Ao contrário do Tio Alberto, que se enamorou várias e repetidas vezes de senhoras estrangeiras, e que por isso conhecia os melhores hotéis de Madrid, a cor do lago de Genebra, os sabores de Paris ou o odor do Mar Cáspio, eu segui o destino dos velhos Homem de antanho, que só conheciam ou o caminho para casa ou o mapa das deambulações do senhor Dom Miguel. O velho Doutor Homem, meu pai, foi outra exceção, só possível porque o meu avô acreditava que em Inglaterra existia tudo o que valia a pena existir, tirando as quintas do Douro – e, mesmo essas, eram propriedade de súbditos ingleses. Não falo das viagens da adolescência ou da primeira juventude, claro – que me levaram a conhecer o mundo e a saber manejar mapas, talheres e línguas estrangeiras. Falo da idade adulta – ou seja, da idade em que as ilusões não sobram e em que as desilusões já não pesam». Pois bem, esta mania caturra do meu amigo António obriga-me a ir visitá-lo periodicamente a Moledo, a tiritar de frio, com uma manta que nunca me larga de escocês autêntico – que uso em Sintra, naturalmente, e menos em Azeitão, que, já sabem, são os meus poisos de eleição. Mas não é por masoquismo que subo até Moledo, no meu MG, que bem conhecem. É por puro deleite pessoal, para conversarmos longamente – sobretudo a propósito do que nos separa. Eu sou constitucionalista, descendente de gente do Mindelo, pés-frescos de velha cepa e ele ainda sonha com as ilusões do Senhor D. Miguel. E se ele partilha comigo admiração pela velha Albion, esquece-se tantas vezes (e eu estou sempre a lembrá-lo), que não foi apenas o rei de França Louis Philippe, avô da Senhora D. Amélia, que deu um empurrão decisivo, ao saudoso D. Pedro de Alcântara, foi um glorioso Whig, Charles, o segundo Conde Grey, cuja memória sempre invoco ao chegar a Westminster, sabendo que foi talvez dos governantes com maior influência depois da gloriosa revolução… E aqui vejo que meu amigo Sousa Homem tem de se contorcer um pouco, pois a Sereníssima Britânia pende no momento decisivo para o meu lado, para as minhas ideias… Mas isso é um pormenor, temos muito que nos faz encontrar – a literatura, com Dickens (de novo, mais do meu lado), mas também com  o nosso Father Brown, de Chesterton, e com as deliciosas páginas de Evelyn Waugh, ou com a pintura dos pre-rafaelitas e Dante Gabriel Rosetti, os automóveis ingleses e tanto mais. E nos portugueses gostamos os dois de Pascoais, de Amadeo e, no fundo no fundo de Agustina… E recitamos Camões e Antero, até para testarmos as nossas razoáveis memórias (que são afinal a razão do nosso existir). Agora, caímos sempre nos braços um do outro ao carpirmos o que ocorre no tremendo “Brexit”. E porque somos doutro tempo ainda nos escrevemos postais, quando não longas cartas sobre o que achamos dos tempos desvairados que correm. E se digo desvairados, sou dos que não pensa que antes era bom ou que depois de nós o dilúvio. Não. Já vivi o suficiente para perceber bem que o desvario de que falo se deve a falta de memória. A sociedade amnésica mata-se. Em todos os tempos encontramos maus e bons exemplos. E eu conheço razoavelmente os episódios bíblicos para perceber que quando David poupou Saul fê-lo não por piedade, mas por inteligência. De facto, a sabedoria é o mais difícil de administrar e essa vai e vem rapidamente em todos os tempos. Com consciência bem nítida digo, o que o meu amigo Sousa Homem também diz “depois de mim virá quem de mim bom fará”… Velho e inveterado leitor de Pascal sei bem que a História é um jogo de espelhos paralelos  em que os acontecimentos se projetam, sem nunca se repetirem, constituindo-se em reminiscências mútuas… Vejam bem que é sobre estas minudências que ocupamos as nossas conversas. E seguindo um velho jogo de infância, demo-nos da última vez que nos encontrámos a dizer à desgarrada o que o nosso devotado épico nos ensinou, num dia de desfastio. Do que se trata apenas é de uma finíssima lição de Ética…

 

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.
Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.
Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

 

Agostinho de Morais

CARTA

 

Amigo João,

 

Fizeste-me pensar nesta questão a que chamas de ganas gigantes da escrita minha, e, se acaso eu der conta de uma resposta que a interprete, dirás tu, se sim.

 

Às vezes, muitas vezes? julgo que escrevo uma obra – permite que assim a chame - de tipo indefinido, assumindo a perigosa honra de a escrever como quem vive uma morte. Penso muito nisto e, se assim for, cabe aqui uma atitude febril que necessariamente vem do interior e mergulha em ruturas, horizontes, compreensões, triunfo de vontades radicais, denúncias, disciplinas indiscretas, nervosas mesmo, até que uma escrita paciente dá lugar à gigantesca impaciência da liberdade, àquela que sacode o jugo, aquele exato jugo que até transforma os pontos de vista de um mundo que se atreva a não ser igual ao mundo. Então aí, levanto-me da cama num ai que morro tão escrava se nada escrever que até a política e a história e os gnus da savana me recusam a essência de repelir os males remediáveis como se só me restasse entregar o homem ao homem ou eu a mim.

 

E escrevo, então e muitas vezes, mesmo doente, escrevo; mesmo agarrada a uma pátria sem território ou as lágrimas não se escoassem lá onde e aonde se não sabe.

 

Assim a hereditariedade da morte, essa safada e tranquila condição que não cauciona qualquer recusa ou não trocasse cigarros com a vida, transforma-se, para se proteger, numa palavra escrita, e assim materializa uma esperança como possibilidade humana, e essa possibilidade não é, nem nunca foi, colonizada, e, talvez por isso, surja na minha escrita com ganas de gigantesco ímpeto.

 

João que o grande perigo é julgarmo-nos no céu das ideias onde se perpetuam as relações de subordinação, e, não nos termos como temíveis imposturas urbi et orbi. Aceita-se a desigualdade real de todas as condições como se existisse um lugar onde o homem pode descansar da humanidade. Logo, a escrita que tem ganas de gigante talvez seja aquela que conhece ser mais humano o esconder do jogo do que a paisagem bucólica de muita da humanidade exposta.

 

E levanto-me de novo ou não tivesse ainda diante de mim uma mulher que morre e vive alvo permanente do atirador emboscado, e, sabendo-se presa, escreve sobre muitos assassinos potenciais, apenas passageiramente inaptos para lhe interromper o destino.

 

Enfim incapaz de se corrigir, eis algo que pode abraçar uma mão que escreve e que adquiriu uma mentalidade de amor e guerra, ambos, sabe-se, atiram mil tiros no preciso momento em que o relâmpago da evidência ilumina o conhecimento. E escreve-se uma e outra vez! E o olhar dos olhos não é modo itinerante, nem qualidade saída dos limbos se se não escrever mais claramente que talvez os acontecimentos não tenham acontecido o suficiente. Quais? Todos os que estão fora do sentimento de um violino, de uma palavra, de uma tinta, de um murro, de uma memória, enfim de tudo o que não conheça o jeito da pluralidade

 

E que saudade de uma gratidão fundamental e eu a merecesse.

 

Bj

Teresa a tua amiga  

 

Teresa Bracinha Vieira