Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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DESCOBERTA NA CIDADE VELHA NA ILHA DE SANTIAGO 5 de fevereiro de 2019.
Já regressado a terras lusas, vindo da Sildávia, escrevo sob a invocação do pelourinho da Ribeira Grande (Cidade Velha), Cabo Verde, no momento em que acaba de ser descoberta uma capela provavelmente quinhentista na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. E chamo sempre a atenção para a configuração do pelourinho da velha capital, que invoca o melhor municipalismo como nos foi ensinado por Herculano… Nas obras de beneficiação que decorrem no templo, prevendo-se que o mesmo possa ser restituído à sua traça original ainda este ano da Graça de 2019, confirmou-se a descoberta de uma capela que pode datar de 1495 e que se encontra cheia de pedras e entulho, em resultado de diversos desabamentos dos terrenos que ladeiam a Igreja. Não se trata de algo completamente inesperado, uma vez que os arqueólogos do projeto “Concha” já vinham assinalando a forte probabilidade de encontrarem uma capela antiga dos primórdios da construção do templo. Agora parece tudo apontar nesse sentido, havendo uma grande curiosidade da parte da comunidade científica em conhecer como se apresenta esse precioso elemento que ajudará decisivamente a conhecer a história não apenas da Igreja, mas também da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. É um dos edifícios mais antigos da cidade construído a partir de 1495 no estilo gótico português, foi mais tarde ampliado, sempre sob os auspícios da mesma confraria dos homens pretos, que assim demonstrava ter influência e poder económico assinaláveis. O Padre António Vieira ali pregou, indo de Portugal para o Brasil. Ainda se imagina a verve do imperador da língua portuguesa, perante uma comunidade que o deixa impressionado. E o célebre Pedre disse, sem esconder a admiração: “há aqui padres tão negros como azeviche. Mas só neste particular são diferentes dos de Portugal, porque são doutos, tão morigerados, tão bons músicos que fazem inveja aos melhores das melhores catedrais de Portugal”. Não é preciso dizer mais sobre o que era a Ribeira Grande e sobre qual a sua importância. E hoje perante o esqueleto da velha cidade percebemos que o Padre Vieira encontrou uma população culta e laboriosa. A Cidade, como sabemos foi assaltada no início do século XVIII pelos corsários franceses que levaram tudo, incluindo os sinos da catedral. Daí a mudança da capital para a Cidade da Praia, mais protegida de intempéries e assaltos… Estou, como compreendem, muito curioso por ver o resultado da intervenção dos arqueólogos e para perceber plenamente toda a riqueza do gótico português no sul da Macaronésia. A Cidade Velha está hoje classificada como Património Mundial da UNESCO e é uma importante referência, já que falamos da memória de um antigo entreposto de escravos (enquanto a Goreia foi uma prisão de escravos). Assim, para quantos desejam o debate sobre os claros e escuros da presença africana dos europeus, aqui não há dúvidas. Ninguém quer iludir a História e as suas tragédias – mas isso não pode fazer esquecer tudo o mais. A necessidade de evitar anacronismos, bem como do estudo e da reflexão históricos numa perspetiva crítica, não esquecendo o lado mau e refletindo também sobre os benefícios… Continuaremos neste tema… Por hoje, envio um abraço, aproveitando para deixar-vos com um texto extraordinário de William Shakespeare, o célebre Soneto nº 30, na tradução exemplar de Vasco Graça Moura.
SONETO Nº 30
"Quando em meu mudo e doce pensamento chamo à lembrança as coisas que passaram choro o que em vão busquei e me sustento gastando o tempo em penas que ficaram. E afogo os olhos (pouco afins ao pranto) por amigos que a morte em treva esconde e choro a dor de amar cerrada há tanto e a visão que se foi e não responde. E então me enlutam lutos já passados, me falam desventura e desventura, lamentos tristemente lamentados. Pago o que já paguei e com usura. Mas basta em ti pensar, amigo, e assim têm cura as perdas e as tristezas fim."
Cinquenta anos depois da sua morte, António Sérgio (1883-1969), o célebre autor dos “Ensaios”, deve ser revisitado, na sua obra multifacetada, com renovado interesse.
TESTEMUNHO PEDAGÓGICO Preocupado, ao longo da vida, com o testemunho pedagógico para as gerações futuras, o ensaísta foi um cultor incansável do sentido crítico. E hoje, perante a crise do pensamento político, é necessário lermos e ouvirmos os seus ensaios, nos quais nos propõe, em lugar de receitas ou de caminhos pré-fabricados, vias múltiplas centradas na autonomia e na responsabilidade, articulando a importância da singularidade individual (ou não fosse ele um idealista racional) com a solidariedade voluntária (baseada no cooperativismo). Note-se que, no fugaz tempo em que foi Ministro da Instrução Pública deixou duas marcas indeléveis que ainda hoje merecem referência: a criação da Junta de Orientação dos Estudos (Decreto nº 9332, de 29 de dezembro de 1923) e do Instituto do Cancro. A Junta foi criada no sentido da abertura dos nossos investigadores e estudantes ao contacto internacional, através de bolsas de estudo e de formações avançadas (que teria continuidade na Junta de Educação Nacional, no Instituto de Alta Cultura, chegando ao Instituto Camões). Devemos lembrar ainda que José de Azeredo Perdigão, um sergiano confesso, desenvolveu, na linha do mestre, corajosamente o apoio ao conhecimento na Fundação Calouste Gulbenkian, com belos frutos na abertura de horizontes e no apoio a personalidades, independentemente do seu alinhamento político. O Instituto Português para o Estudo do Cancro (Decreto nº 9333, de 29 de dezembro de 1923), hoje Instituto Português de Oncologia, que o Professor Francisco Gentil animou, dando projeção internacional e grande prestígio, é um exemplo premonitório da necessidade de ligação estreita entre a ciência e a saúde. Poucos governantes têm a seu favor uma tão importante marca simbólica de valor perene. É notável como num período curtíssimo encontramos duas decisões cruciais, por partirem da compreensão de que o desenvolvimento humano tem de se centrar na educação, na ciência e na cultura – e de que a dignidade humana só se defende com atos concretos orientados para a abertura de horizontes e para a cooperação além fronteiras.
POLEMISTA AGUERRIDO Se António Sérgio foi um polemista aguerrido, o certo é que, hoje, na distância do tempo, podemos afirmar que, na senda de figuras que tanto admirou, como Herculano e Antero de Quental, preocupou-se em modernizar Portugal, seguindo a lição da Geração de 1870, não na lógica do pessimismo, mas na perspetiva de superar a mediocridade, sem iludir defeitos e limitações. O empenhamento na causa da Instrução Pública é significativo e facilmente o verificamos na leitura da sua vasta bibliografia. Foi importante a passagem por Genebra com sua mulher D. Luísa Sérgio e compreendemos como António Sérgio pensou a modernização do País através do estudo e do conhecimento das mais modernas tendências do pensamento. Leia-se a série de ensaios publicados na revista “A Águia”, da Renascença Portuguesa, sobre a “Educação Cívica”, que continua a ter interesse e atualidade pela defesa de uma cidadania ativa e pela ideia de República Escolar, na linha do pensamento de John Dewey e dos mais fecundos pedagogistas do seu tempo. E a verdade é que aí encontramos uma preocupação fundamental em que o rigor, a exigência se aliam à motivação e à tomada de consciência fecunda de cidadãos livres e iguais, autónomos e responsáveis, empenhados e solidários. Para Sérgio a escola era lugar natural de cidadania, e as mais recentes investigações das neurociências confirmam a importância de considerar desde a infância a aprendizagem da cidadania e do compromisso solidário. A sociedade não está fora da escola, faz parte intrínseca da vida escolar e da comunidade educativa. Do mesmo modo, o cooperativismo constitui não uma receita teórica, mas um desafio prático, que ainda hoje continua por cumprir, sendo um elemento que a história recente tornou mais atual. A ação cooperativista de António Sérgio constitui, aliás, uma indelével marca política que, apesar das resistências, continua a ser relevante. De facto, nem o Estado nem o mercado só por si podem responder às exigências da sociedade e da economia. Assim, para que não haja um Estado produtor, centralizado e burocrático ou um mercado vulnerável e incapaz de garantir eficiência e equidade ou de assegurar uma concorrência sã e equilibrada, impõe-se a criação de uma economia cooperativa, capaz de realizar um Estado catalisador e ordenador e um mercado justo...
REFLEXÃO NECESSÁRIA A obra do escritor é rica de reflexão, mas pode dizer-se que o espírito de reformador está enraizado na sua atitude intelectual. Daí a riqueza e atualidade da sua obra, na qual pretende descobrir a chave das nossas limitações e das nossas fragilidades. Trata-se de procurar, na linha das “causas da Decadência” de Antero, linhas de orientação e de ação capazes de garantir a superação do nosso atraso. Daí a dualidade transporte / fixação, na qual há uma procura determinada no sentido de um maior e melhor aproveitamento dos recursos próprios – a começar nas pessoas e a continuar nos recursos disponíveis – no território, na inserção internacional e na cooperação científica e técnica. Quando António Sérgio publicou a sua Antologia dos Economistas Portugueses (1924) ou quando proferiu a conferência sobre “as duas políticas nacionais” (1925), dada à estampa no segundo volume dos Ensaios, lembrou que três autores seiscentistas, Luís Mendes de Vasconcelos, Severim de Faria e Duarte Ribeiro de Macedo, iniciaram a doutrina da política da Fixação, contra a política do Transporte; e o reformismo português, desde aí até agora, será o desenvolvimento dos princípios que defenderam nas suas obras. Em Vasconcelos é a Fixação, pela agricultura; em Severim, pela agricultura e pelas indústrias; em Macedo, finalmente, são as minúcias de um programa de fomento industrial”. Logo no final do século XVII, porém, o dinheiro das minas do Brasil e mais tarde os empréstimos do constitucionalismo e as remessas dos emigrantes adiaram a realização das ideias dos três reformadores. Mas o seu espírito continua, ressalvadas as distâncias e qualquer anacronismo, vivo e pertinente, em nome de um reformismo que foi assumido por Herculano, pela geração de 1870, pela “Seara Nova” e pelo moderno pensamento democrático. Como afirmou o ensaísta: “parece-me que os males de que nos queixamos são fatalíssima consequência da estrutura da sociedade, - e que só portanto terão remédio se nos metermos firmemente a transformar essa estrutura, o que não é possível com pregações, nem com políticas de autoritarismo, nem com reformas só pedagógicas, - mas com reformas sociais e pedagógicas concatenadas, entrelaçadas como fios de um tecido único, as quais preparem o nosso povo para um uso razoável da liberdade e para empreender por si mesmo a sua emancipação social-económica”.
Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
«O não-sei-quê é para o intelectualismo um tema inesgotável de inquietude e perplexidade: cultiva em nós essa espécie de desconforto intelectual e de má consciência, esse mal-estar nascido da incompletude que Platão designava por aporia e que, à sua maneira, é bem um mal de amor, uma nostalgia erótica, uma insuficiência amorosa. Esse «desejo de coisas inexistentes», pelo qual Gabriel Fauré caracteriza a divina frase do adagio do seu segundo quarteto, não será ele também o segredo do não-sei-quê e do encanto quase doloroso que ele por vezes segrega?
Este trecho da apresentação, pelo próprio autor, do livro La manière et l´occasion, primeiro volume da obra Le Je-ne-sais-quoi et le Presque-rien, publicada pelas Éditions du Seuil (Paris,1980), diz-me pessoalmente muito, não só sobre o espírito que animou toda a escrita do filósofo francês Vladimir Jankélévitch (judeu de origem russa), como sobre a inspiração que ela foi para mim, desde 1957, quando descobri esta obra, então editada pelas PUF (Presses Universitaires de France) num só volume. A edição presente (1980) alarga-se por três volumes, correspondendo o primeiro e o terceiro a textos da primeira edição (1957), ainda que profundamente revistos, e sendo o segundo um texto totalmente inédito. Os títulos dos outros dois volumes da trilogia atual são La Méconnaissance, le Malentendu e La Volonté de Vouloir.
Lembro-te ainda, Princesa de mim, dessa coincidência no gosto pela música de Gabriel Fauré, sobretudo a de câmara, de que Jankélévitch recorda o adagio do segundo quarteto, mas também, no meu caso, pelo amor à sua missa de requiem, de que te falei em carta quase recente. Se releres algumas das minhas cartas, verás bem como a noção de imperfeição (como algo inacabado, incompleto) é recorrente no meu discorrer, é sempre a perspetiva por que olho para a nossa própria condição humana, sem nunca pretender adivinhar-lhe o tempo e o modo de adventícia perfeição, mas amando-a sem cessar, na esperança do não-sei-quê, apesar de sermos um quase-nada. Eis o meu "mal de amor, nostalgia erótica, insuficiência amorosa, desejo de coisas inexistentes"... E é nessa contemplação do não-sei-quê pelo eu-quase-nada, que todos os dias renasço feito fé, a fé cuja substância é o tudo do algo que há de vir. Não sei quanto da "minha filosofia" foi influenciado ou será coincidente com o pensamento filosófico de Jankélévitch, mas neste encontro uma inspiração que me anima a pensar, quiçá em busca daquele algures no inacabado que dá título à coletânea de conversas de Vladimir com Beatrice Berlowitz:
Quelque part dans l´inachevé (Gallimard, Paris, 1978). O inacabado, para mim, disse-te eu, abre-se sobre o algo que há de vir. Mas antes, por seu lado, o filósofo francês escreveu:
É verdade que esse algo é a unidade da natureza primitiva, a qual é coisa assinalável e, em suma, dizível: mas o facto de ser objeto de uma reminiscência pré-natal e dum voto meta-empírico maiores do que qualquer desejo sensível obriga Aristófanes a expô-lo metafisicamente e a dar-lhe um carácter tão inexplicável quanto inesgotável. Sem esse misterioso e sobrenatural Allo ti, a aporia de amor descrita em Fedra seria, ela também, uma evasiva? Tendo enumerado à maneira de Aristóteles as características da beleza poética, o jesuíta Rapin escreve: «Ainda há na poesia certas coisas inefáveis que não podemos explicar. Tais coisas são como que os mistérios dela.»
... ...Esse «ainda» poético, tal como o algo erótico do discurso de Aristófanes, é uma alusão ao infinito e uma abertura ao indizível; esse "resíduo" de mistério é a única coisa que vale a pena, a única que importaria conhecer e que, como se propositadamente, permanece irreconhecível. O segredo, tal como diríamos da morte, está decididamente bem guardado, a ignorância humana foi decididamente bem combinada! Muitos nomes puderam ter sido dados a esse inominado inominável, muitas definições propostas para esse «algo outro» que não é precisamente como os outros porque em geral não é nenhuma coisa, nem coisa alguma.
Tenho feito, vezes sem conta, uma experiência sensível, uma contemplação sensorial, de tal mistério secreto - se assim, Princesa de mim, lhe quiseres chamar. Atalhando, dir-te-ei que o monumento português que mais amorosamente visito é aquele céu aberto pelo inacabamento das capelas imperfeitas, no Convento de Nossa Senhora da Vitória, na Batalha. É magnífica aquela estrutura de humana arquitetura, edificada para se fechar no topo e todavia incompleta, tão comovente testemunha, já meio milenar, da nossa imperfeição, por esforçada que esta seja... Como seria a nossa humanidade se todos nós aprendêssemos a reconhecer e amar com gratidão e alegria fraterna esta nossa imperfeita condição? Não te falo de resignação mas, antes e só, de consciência da nossa realidade presente, que também aspira à ascensão pelo espaço aberto da nossa liberdade. O nosso ser humano, imperfeito sim, mas em aberto, porque livre, não o vejo, não o pensossinto como vítima castigada de um pecado original, nem tampouco, nihilisticamente, como acaso sem porvir, destituído de qualquer sentido. Cada um de nós sabe que morrerá, mas não sabe quando. Nem sequer sabe o que é verdadeiramente a morte, para além do biologicamente verificável e juridicamente determinável. E, como discorre Jankélévitch num texto esclarecidamente intitulado Mors certa, hora incerta, tal ignorância cronológica basta para tornar lacunar o nosso conhecimento do que a morte realmente é:
O conhecimento cronológico, dizíamos nós, implica, a fortiori, o conhecimento «ontológico». Ou, se tal linguagem me for permitida, é a «quandoïdade» que implica a «quodidade», e não inversamente! [Ou seja: só se sabe quando, quando se sabe o quê].
E não será por tal razão que a data da nossa própria morte nos é sempre subtraída? Mors certa, hora incerta! Platão conta como Zeus, tendo retirado aos homens o dom da imortalidade, mas desejando todavia tornar-lhes mais suportável o castigo, decidiu que eles morreriam mas não teriam a presciência do dia nem da hora: foi-lhes assim poupado o suplício contranatura do condenado à morte. O homem sabe que morrerá, mas não sabe quando; e quem não sabe quando nem sequer sabe o quê, apenas sabe o facto na intensidade e urgência dramática; não sente a angústia crescer; ou, melhor, só «sabe que», mas por ciência geral e, de certo modo, silogística. Tudo se passa como se o destino nos subtraísse a data da morte para nos desviar do aprofundamento da sua natureza.
A partir duma certa idade, mais ditada pela condição própria do que propriamente pela nossa contagem cronológica, a morte surge-nos - mais do que como certeza preanunciada mas sem rosto nem data conhecida - como uma lembrança, uma antecipada recordação de nós, que entretanto já nos habituamos a evocar os nossos próximos que vão partindo. E só sabemos que o-não-sei-quê que nos espera em quando ignorado terá nesse momento uma resposta nossa, não instantânea mas longamente conservada no percurso desta vida que deixamos. Será um sim sincero e só nosso, tão inato como aquele que, ao nascermos, o nosso primeiro choro disse à vida. Porque, tal como ao princípio queríamos ver e depois querer, também agora ousaremos aquilo para que não sabíamos estar tão bem preparados. Talvez por não nos termos reconhecido nesse quase-nada (le Presque rien). Para ilustração do que te escrevo, Princesa de mim, vou buscar uma imagem de Vladimir Jankélévitch, escrita num contexto muito diferente, pela ocasião e pelo propósito, do deste final de carta minha:
O pássaro não é um doutor em ciências que possa explicar aos seus confrades o segredo do voo. Enquanto vamos discutindo sobre o seu caso, a andorinha, sem mais explicações, levanta voo perante os espantados doutores... E, assim também, não há vontade sábia que possa explicar à Academia o mecanismo da decisão: mas em menos tempo do que o necessário para dizer o monossílabo Fiat, o pássaro Vontade já cumpriu o perigoso salto, o passo aventureiro, o voo heroico do querer; a vontade, deixando o firme apoio do ser, já se lançou no vácuo.
Há momentos em que, estranha e entranhadamente, sentimos confiança, afinal, no tudo desconhecido da nossa condição.
Num estudo muito recente, publicado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, sobre “O Teatro de Henrique Lopes de Mendonça”, tive ensejo de analisar o conjunto de mais de 30 títulos de peças e textos de maior ou menor vocação de espetáculo deste grande dramaturgo e escritor, que nos deixou designadamente a letra de “A Portuguesa”: aí incluímos, precisamente, a transcrição das três estrofes da íntegra do poema épico que Alfredo Keil musicou.
Sobre a dramaturgia, importa agora frisar que Lopes de Mendonça (1856-1931) foi representado em praticamente toda a rede de teatros e salas de espetáculo da transição dos séculos XIX/XX, com destaque óbvio para as grandes salas de Lisboa, designadamente o Teatro de D. Maria II e o Teatro da Trindade, mas também teatros (e depois cineteatros) a nível nacional.
O que queremos salientar é a doutrina, chamemos-lhe assim, que Lopes de Mendoça nos deixou sobretudo na síntese efetuada numa conferência a que deu o nome de “Crise do Teatro Português”. Importa referir que essa “crise” ocorria no inicio do século XX: na verdade, a conferência data precisamente de 1901.
Ora recordamos que nessa transição do século funcionavam em Portugal e nas colónias cerca de uma centena de teatros. E mesmo assim, Henrique Lopes de Mendonça faz a conferência, publicada na imprensa e precisamente intitulada “A Crise do Teatro Português”. Ora a verdade é que o título de certo modo contém uma contradição: pois a “crise” comportava na época ainda assim centenas de teatros e salas de espetáculo.
Destaco então algumas passagens do texto de Henrique Lopes de Mendonça sobre “A Crise do Teatro Português”.
Desde logo, a ausência de público. Mas aí, há como que uma contradição, pois Lopes de Mendonça reconhece que são poucas as capitais em que a população local, sem o auxílio da população “flutuante que entre nós é mínima, concorre com maior assiduidade aos espetáculos públicos”.
E tal como escrevi no livro acima citado, Henrique Lopes de Mendonça enumera como razão principal dessa relativa crise a falta de apoio aos escritores e aos dramaturgos, a quem refere e qualifica como “trabalhadores do espírito”. E mais refere a articulação entre os interesses legítimos das empresas com o apoio recebido das entidades públicas.
Não perdeu atualidade...
(cfr. Duarte Ivo Cruz “O Essencial sobre o Teatro de Henrique Lopes de Mendonça” ed. INCM 2018)
Há que expurgar determinada fatalidade, crítica ou indiferença resignada a que tantos portugueses se agarram, a que não é alheia uma auto-flagelação, miserabilismo e pessimismo de que se faz eco, entre nós, uma certa elite pensante detentora de domínio e prestígio sobre o grupo social, uma certa filosofia e imprensa portuguesa onde se faz o culto de tudo o que nos inferioriza, com um especial gosto tendencioso, tido como real (mesmo quando falso), de nos fazer sobressair com o que existe de pior na Europa omitindo, tantas vezes, o que temos de bom ou de melhor.
Com o recurso tão frequente, entre nós, ao país mais atrasado da Europa em tudo ou quase tudo, em último lugar em tudo o que é bom e em primeiro no que é mau, falseando intencionalmente ou por ignorância a verdade, quando a Europa é constituída por mais de quarenta países, generalizando-se (muitas vezes) a todo o continente europeu ou a toda a União Europeia o que se deveria generalizar, comparativamente e por confronto, e tão só, a todos ou alguns países da UE ou da Europa Ocidental.
Isto prova, quanto a nós, portugueses, que não é só o “ferrete” dos antigos emigrantes analfabetos, incultos e pobres que deu causa à aludida inferiorização.
Por exemplo, em termos europeus, e agarrando mais de perto o continente de que fazemos parte, integram a Europa os seguintes países: Islândia, Irlanda, Reino Unido, Portugal, Espanha, França, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorrússia, Ucrânia, Polónia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Áustria, Suíça, Itália, Eslovénia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro, Sérvia, Kosovo, Albânia, Grécia, República da Macedónia, Bulgária, Roménia, República Moldova, Chipre, Malta, bem como a Turquia, Azerbaijão e Cazaquistão (transcontinentais, com parte europeia e asiática, em paralelo com a Rússia), sem esquecer a Geórgia, Arménia (tido como um país político, social e culturalmente europeu), Andorra, Mónaco, Listenstaine, São Marinho e o Estado do Vaticano. Não será faltar impudentemente à verdade dizer-se (com assiduidade) que Portugal é o último, segundo, terceiro ou quarto país mais atrasado a nível europeu, quando os elementos conhecidos, em termos estatísticos, de estudo ou investigação, na maioria das áreas, contemplam apenas, e tantas vezes, oito, dez, quinze, vinte países (por vezes menos) num universo de mais de quatro dezenas de países? O mesmo relevando, com inerentes adaptações, em escala menor, a nível do total de membros da UE e do ocidente europeu.
Por maioria de razão se tivermos presente existirem duzentos países (por arredondamento) a nível global.
Permanece uma conceção eurocêntrica e imperial, em que o centro nuclear planetário, por excelência, continua a ser a Europa, em detrimento dos demais continentes, em maioria.
Há que excluir este culto doentio de um discurso catastrofista, interessado em só nos diminuir, apetecendo concluir que, a termos tanto queixume, por maioria de razão têm legitimidade para o ter a quase totalidade dos Outros, porque excluídos das sociedades 15% a 20% mais ricas e desenvolvidas do mundo onde, mesmo assim, nos incluímos.
Há que combater uma visão “egocêntrica negativa” de quem se acha pobre por se comparar apenas com os mais ricos, de um povo que regressou ao ponto de partida após longas viagens, findo o Império e superada (ou não) a depressão, à semelhança do que sucede, em maior ou menor grau, em antigas potências coloniais como a Inglaterra, França, Países Baixos e Espanha.
Trata-se de um estranho culto de dizer mal de nós próprios, essencialmente no nosso país, menorizando-o e menosprezando-o com qualificativos que vêm de longe, como a piolheira, a parvónia, a parvalheira, a espelunca e a choldra, sem qualquer fundamento sólido, como o provam a nossa história e marcas deixadas pelo mundo, e em contraste com a natureza privilegiada que os nossos emigrantes e o português em geral usufruem no estrangeiro.
O que não exclui uma crítica pedagógica e construtiva pela positiva, sempre e quando necessário, mesmo que em si não favorável, tomando como referência, por exemplo, países mais evoluídos e adequadamente proporcionais em dimensão, população e inovação, tendo-se como melhor pedagogia a análise que potencia o que há de melhor e não a que só sabe realçar o que está mal.
O que não nos impede de sonhar com outro país, sempre para melhor, sem azedumes, desancar por desancar e sem sermos facciosos.