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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Bob Law e as pinturas pretas.

 

‘I have, or I think I have, my perfect work in my mind’s eye. To bring that work into reality or existence is another matter - there is always some small flaw. Some improvement to be made. And it is this seeking after quality that most interests me.’, Bob Law, 1977

 

Nos anos sessenta, Bob Law trabalhava entre vários pólos paradoxais - o cheio e o vazio; a imagem e o objeto; a plenitude e a incompletude.

 

As pinturas pretas, de Bob Law, desejam encontrar uma nova forma de perfeição na intenção e na execução da tela mas também tornar inteligível uma perfeição naquilo que o fruidor observa. São soma e subtração - várias camadas de cores (por exemplo vermelho, azul, roxo) são sobrepostas cuidadosamente e pacientemente debaixo do preto. São a marca, a existência e a sombra do ser humano no mundo. São unidades completas porque em simultâneo conseguem ser presença e negação, ausência e reflexão, expansão e contração. São irreproduzíveis e insubstituíveis, só existem como objeto físico que tem de ser visto como uma coisa real e palpável. Law acredita que uma pintura é capaz de mudar aquele que a vê, mas as pessoas não mudam as pinturas. Uma pintura é um objeto permanente. Segundo Law as pessoas que olham as pinturas são subjetivas e influenciáveis e as pinturas são elementos físicos permanentes e objetivos.

 

Em simultâneo, às pinturas pretas, Law fazia desenhos de margem preenchidos ou esvaziados. Os desenhos de campo metafísicos, feitos no final dos anos cinquenta, que gravavam a experiência de um corpo num lugar concreto (privilegiando a relação física com o mundo), constituem a origem das pinturas pretas.

 

Todas as pinturas têm o mesmo tamanho (168 x 176 cm), que corresponde ao tamanho de um corpo de braços esticados e abertos - e pretendem ser grandes o suficiente para serem periféricas quando vistas.

 

‘I remember Le Corbusier’s teachings really impressed me. When he designed his architecture, he said a room should be the height of a man with his arm raised above his head; and then he worked out a blue and red scale into the human form, a modular system dividing up proportions. I also came across it in Leonardo, and in Islamic art, where they work out the configuration of mandalas and domes on the human scale, beautifully.’, Bob Law, 1974

 

Cada pintura é feita com o objetivo de criar uma imagem única. Não há uma pintura igual à outra - as diferenças acontecem por causa da quantidade de cores sucessivamente aplicadas em camadas. A tinta pode ser colocada na totalidade da superfície, só numa área central ou só nas margens da tela. Cada pintura é irrepetível e é feita, no mínimo de nove ou dez camadas de tinta (o título de cada uma revela as cores usadas).

 

‘They’re black or blackish, because that’s the pigment which works. It makes a big pool, it sucks the light in rather than out, and you can’t quite focus on the pigmentation because the eye is trying to find the right wavelength, the pupil oscillates in its attempt to get the right colour vibration. It can’t quite make it, and so you get this hovering hole. I have done pink paintings, green paintings, almost every colour; but I found the most successful to be in the longer wavelengths - blues and violets.’, Bob Law, 1974

 

A tinta deve ser distribuída uniformemente e secar sem falhas num longo processo de espera - apenas uma pintura em oito tem sucesso. Cada camada, assim que colocada, leva dois dias a secar. Este processo técnico de grande perícia, envolve longos períodos de contemplação - Bob Law concentrava toda a sua atenção a ver a pintura. Assim que terminada, a tela, é posta de parte de maneira a permitir um novo recomeço - a nova tela transporta, por isso, somente, através da memória do sujeito, a experiência do trabalho anterior.

 

‘The work becomes a very serious trial and examination process in which the artist is solely responsible to himself for the quality and conviction of the work.’, Bob Law, July 1977

 

Ana Ruepp

REVOLUÇÃO COPERNICANA NA IGREJA

 

1. Foi uma verdadeira revolução copernicana. Com Copérnico, ficámos a saber que não é o Sol que gira à volta da Terra, é a Terra que gira à volta do Sol. Com a Cimeira no Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado, para se tomar consciência da monstruosidade da pedofilia na Igreja e pôr-lhe termo, convocada, num gesto inédito, corajoso e histórico, que se impunha, do Papa Francisco, ficámos a saber que, de agora em diante, o centro não continuará a ser ocupado pela Igreja enquanto instituição, mas pelas vítimas, que serão defendidas com toda a seriedade.

 

No encerramento, perante os 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, superiores e superioras gerais de ordens e congregações religiosas, peritos e alguns leigos,  Francisco, num discurso histórico, muito bem elaborado e com dados arrepiantes sobre o abuso físico e psicológico de menores e adultos vulneráveis não só dentro da Igreja mas transversalmente na  sociedade global, incluindo as famílias e outras instituições (nesta abrangência, as vítimas são muitos milhões), comprometeu-se a que a Igreja “não se cansará de fazer tudo o que é necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido abusos de tipo sexual” e que nunca “tentará encobrir ou subestimar nenhum caso”.

 

Perante o horror da pedofilia, afirmou que ela lhe fazia lembrar “a prática religiosa cruel, difundida no passado em algumas culturas, de oferecer seres humanos (muitas vezes crianças) como sacrifício às divindades nos ritos pagãos”. Perante a “monstruosidade da pedofilia” na Igreja, assegurou: “Quero reafirmar com clareza: se na Igreja se descobrir nem que seja um único caso (que representa em si mesmo uma monstruosidade), esse caso será enfrentado com a máxima seriedade”. Prova inequívoca disso foi, ainda antes da Cimeira, a redução ao estado laical do ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrick, e, depois, no passado dia 26, a sanção imposta ao cardeal australiano George Pell, a terceira figura do topo da Igreja, ex-superministro das finanças do Vaticano, condenado por abuso sexual de menores: enquanto decorre o recurso nos tribunais, está suspenso e impedido de  contactar, seja de que modo for, com menores.

 

2. No discurso de encerramento, Francisco deixou oito directivas para o futuro, de que deixo aí uma síntese:

 

2.1. A protecção dos menores. “O objectivo principal de qualquer medida é proteger os menores e impedir que sejam vítimas de qualquer abuso psicológico e físico”. Assim, é preciso mudar a mentalidade, para “combater a atitude defensivo-reactiva de salvaguardar a instituição, dando prioridade às vítimas dos abusos em todos os sentidos”. Ouvir o Mestre Jesus: “Ai de quem escandalizar um destes pequenos. Mais lhe valeria que lhe atassem a mó de um moinho ao pescoço e o lançassem ao fundo do mar.”

 

2.2. Seriedade impecável. “Desejo reiterar agora que a Igreja não se cansará de fazer tudo o que for necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido estes crimes. A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar nenhum caso.”

 

2.3. Uma verdadeira purificação. Os pastores (bispos, padres...) devem empenhar-se renovadamente no seu compromisso de santidade, “cuja configuração com Cristo Bom Pastor é um direito do Povo de Deus”. A Igreja perguntar-se-á “como proteger os menores, como evitar essas desgraças, como tratar e reintegrar as vítimas, como fortalecer a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja mas também da sociedade.”

 

2.4. A formação do clero. “A exigência da selecção e da formação dos candidatos ao sacerdócio, com critérios não só negativos, preocupados principalmente com excluir as pessoas problemáticas, mas também positivos, para oferecer um caminho de formação equilibrado aos candidatos idóneos, orientado para a santidade e no qual se contemple a virtude da castidade.”

 

Note-se que, em propostas anteriores, Francisco já tinha exigido “avaliação psicológica dos candidatos através de peritos credenciados”.

 

2.5. Reforçar e verificar as directrizes das Conferências Episcopais. Isto, para que se perceba que há “a exigência da unidade dos bispos na aplicação de parâmetros que tenham valor de normas e não só de orientação”. Explicitando: as normas são para aplicar universalmente em toda a Igreja, sem os subterfúgios da sua aplicação segundo as culturas.

 

2.6. Acompanhar as pessoas abusadas. “O mal que viveram deixa nelas feridas indeléveis que se manifestam em rancor e tendência para a autodestruição. Portanto, a Igreja tem o dever de oferecer-lhes todo o apoio necessário, valendo-se de peritos nesta matéria. Escutar, deixai-me dizer ‘perder tempo’ a escutar.”

 

2.7. O mundo digital. “A protecção dos menores deve ter em conta as novas formas de abuso sexual”, através das novas tecnologias. “É preciso animar os países e as autoridades a aplicar todas as medidas necessárias para limitar os sítios da internet que ameaçam a dignidade da pessoa humana, do homem, da mulher e, de modo particular, dos menores: o delito não goza do direito à liberdade”. E lembra novas normas “sobre os delitos mais graves” aprovadas pelo Papa Bento XVI em 2010, onde foram acrescentados como novos casos de delitos “a aquisição, a retenção ou divulgação” realizada por um clérigo, “em qualquer forma e com qualquer tipo de meio, de imagens pornográficas de menores”.

 

2.8. O turismo sexual. “A conduta, o olhar, a atitude dos discípulos e dos servidores de Jesus há-de saber reconhecer a imagem de Deus em cada criatura humana, a começar pelos mais inocentes”. “As autoridades governamentais devem dar prioridade e agir com urgência para combater o tráfico e a exploração económica dos menores.”

 

3. Houve analistas e vítimas que protestaram, clamando que, afinal, segundo a expressão corrente, a montanha pariu um rato.

 

Embora os compreenda, não têm razão. Esquecem que se trata de directivas. As normas, a dar-lhes conteúdo, com opções e acções concretas e eficazes, virão em breve. De facto, tem de haver um “antes” e um “depois” desta Cimeira. Caso contrário, isto é, se, como se comprometeu o Papa Francisco, “não voltar a ser absolutamente credível e digna de confiança”, a Igreja caminhará, concretamente no Ocidente, para a sua autodestruição.

 

P.S.: Foi a sepultar, no passado dia 23, Frei Bernardo Domingues. Pude ver, no funeral, várias centenas de pessoas e muitas lágrimas sentidas. Afinal, também há padres que se dedicam generosamente aos outros, apoiando muitas vidas e iluminando caminhos.

 

Por mim, gostava de deixar um testemunho pessoal. Se não estou enganado, foi em 1972. Eu era um jovem professor no ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), Porto, de que ele era o Director. Também regia uma cadeira de “Humanismo ateu e humanismo cristão”. E houve um Bispo que me foi acusar de herético... Frei Bernardo disse-lhe: “Senhor Bispo, primeiro mande-nos por escrito as heresias dele. Depois, vamos analisar se são heresias ou não. Só então podemos tirar as consequências”. O Bispo não escreveu.

 

Fica  aqui a minha sentida homenagem a um homem bom e intelectualmente honesto e livre.

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 3 MAR 2019

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

 

UMA EXTRAORDINÁRIA REVELAÇÃO

 

Na nota da última semana dei-vos conta do último livro de António Sousa Homem e da minha comunicação com ele, graças às qualidades mediúnicas de um outro amigo. Remeto para o que então disse, para quem tenha dúvidas. Hoje tenho o grande prazer de acolher um texto fundamental que me foi enviado com data de 29 de fevereiro de 2019 pelo meu Amigo Embaixador Francisco Seixas da Costa sobre uma figura fundamental do início do século passado, Augusto Maria de Saa – injustamente esquecido pela voragem dos tempos. Hoje tudo fica esclarecido. E para os que ficaram intrigados com o postal representando a Praça do Comércio que apresentei, esclareço que se trata do local do seu funesto e trágico passamento. Por uma coincidência quase irónica, mas certamente trágica, esclarecemos que esse histórico postal foi encontrado no bolso do casaco do malogrado herói. A Extraordinária Revelação é a de todos os pormenores que hoje se apresentam. E cabe-me ainda acrescentar o seguinte: há nas redes sociais (dizem-me…) a notícia falsa a correr de que Augusto Maria de Saa não existe. Posso asseverar-vos como fica demonstrado na amostra junta que a figura é mesmo das mais notáveis, das mais inolvidáveis, das mais perenes da nossa vida intelectual. E daí a sua vera efígie aqui apresentada. Fico muito grato ao Centro de Estudos Saaianos (em constituição) e aos seus mentores e dirigentes.

 

Agostinho de Morais 

 

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Daguerreótipo na Bahia em 1889.

 

 

SAA VIVE !

 

Ao comemorarem-se os 165 anos do seu nascimento, começa a agigantar-se no panteão da memória popular essa personagem ímpar da cidadania e da cultura, que deixou um rasto indelével que só muito recentemente começa a ser recuperado em toda a sua dimensão, e que deu pelo nome de Augusto Maria de Saa.

 

Augusto Maria de Saa nasceu, como é sabido, a 29 de Fevereiro de 1854, numa barraca de courela na zona de Lisboa que hoje se chama Olaias, ao tempo designada por Picheleira. Numa carta a sua irmã Ephygénia, Augusto ironizou um dia com a raridade da data: "Às vezes, até parece que não nasci". Mas nasceu, ao menos para a lenda e para a glória.

 

Seu pai chamava-se Joaquim Saa, camponês da Merceana, que havia vindo para a periferia de Lisboa à procura de um qualquer parco sustento, nesses tempos de fome posteriores às guerras liberais. Sua mãe, Maria das Neves, teve a triste sina de ser o resultado de um pecaminoso encontro entre um padre miguelista, refugiado numa quinta da Malveira, e uma antiga aia, recém-regressada do Brasil, de D. Carlota Joaquina. O Brasil começava a firmar-se no destino do nosso Augusto.

 

Maria das Neves tem um início de vida dramático. Levada pela mãe e pelos ventos do infortúnio para a zona da Mouraria, aí haveria de se desgraçar, seduzida por um rufião e, dali em diante, daria o corpo na luta pela vida, até ter conhecido Joaquim. Seria ele a resgatá-la daquela miséria e iria ser o pai da prole de 11 filhos, de que Augusto seria o "caçula".

 

O pai Joaquim não deu, porém, vida fácil a Maria das Neves. Propenso ao abuso do álcool, criou na família um constante ambiente de violência e agressão, que o afastou, sucessivamente, do carinho dos filhos, oferecendo à mulher um quotidiano de inferno. Também numa carta a Ephygenia, a irmã de quem era mais próximo, uma epistolografia onde hoje assenta o pouco que se conhece dos tempos da sua família lisboeta, Augusto relembra, com tristeza irónica, a frase que o pai, quando ébrio, repetia como lema da sua vida: "Homem que é homem, dá coça diária na mulher".

 

Chegado a este ponto, o leitor dificilmente imaginará como pôde nascer, deste ambiente de dissolução, um ser superior como Augusto Maria de Saa. Nem nós imaginamos.

 

Chamado pelo imperativo material da vida, o nosso Augusto partiu um dia para o Brasil, a sugestão do seu tio Zagalo, irmão do pai, que ali fizera vida.

 

Não vamos agora entrar em detalhes, porque eles ficariam sempre aquém da realidade, sobre o que foi o seu percurso notável nessas terras da colónia perdida. Fiquemos apenas com uma síntese indicativa do fresco renascentista que foi a sua vida de eleição: da literatura à pintura, da filologia à música, da medicina à arte das viagens, da antropologia à ciência náutica, da agricultura científica à enologia, da astrologia às ciências ocultas, da física à matemática, por quase tudo passou o nosso Augusto, em todas essas áreas deixou a marca da sua inteligência e perspicácia.

 

O Brasil deve-lhe muito, nós devemos-lhe a honra de ser nosso compatriota. Ele, a nós, deve-nos a morte. É que, imagine o leitor, Augusto viria a morrer, em Lisboa, de forma inglória, sobre a pedra fria da rua do Arsenal, na histórica e fatídica tarde de 1 de Fevereiro de 1908.

 

Talvez valha a pena saber um pouco mais sobre as condições dramáticas dessa sua desaparição do mundo dos vivos. “Só a essência perpétua da morte oferece digna guarida à graça efémera da vida”, diria, premonitório, esse grande clássico do nosso Augusto que foi o grande Crabtree*

 

Uma morte que resgata a vida

 

Um apelo dramático de família fizera Augusto regressar do Brasil a Portugal, em finais de 1907, para ver, pela última vez, pelo Natal, a sua querida irmã Ephygenia, a esvair-se da vida, numa tísica sem remissão, no palacete à Junqueira, construído com os ouros do seu trabalho no Brasil. Tinha 54 anos, o nosso Augusto, e eles começavam a pesar-lhe, confessava.

 

Nesse primeiro dia de Fevereiro, destroçado pelo espectáculo da crescente tragédia doméstica, Augusto toma uma caleche e decide apanhar o ar fresco do Terreiro do Paço, beber uma aguardente no Marinho da Arcada, que tanto alimentava as suas saudades nas tardes quentes das terras além do Atlântico. A essa hora, o Martinho regurgitava de caras que o nosso Augusto não conhecia, figurões dos ministérios a fumar horas da preguiça, algumas personagens jovens com ar circunspecto, chapéu negro na mão e papéis no sovaco, graves nas suas bigodaças, em cujos murmúrios se pressentiam conspirações e incontáveis intrigas. A República rondava, a vida política sentia-se espessa. Como que por contraponto, a certa altura, a notícia espalha-se: Suas Majestades estão a chegar de barca ao Terreiro do Paço, regressadas de Vila Viçosa !

 

O nosso Augusto vê, num segundo, o destino colocar-lhe perto, pela primeira vez, essas figuras que a História quisera símbolos do seu Portugal. No Brasil, o Império já se fora, a República estava vibrante, Augusto tinha ido com os ventos do tempo, mas a memória do Portugal eterno estava toda ali, nessas personagens que breve iriam atracar ao Cais das Colunas. Segue assim o grupo que abandona o Martinho sob impulso da notícia e cruza o Terreiro. Vai colocar-se, com alguns outros, na esquina com o Arsenal, na perspectiva de poder gozar a passagem das Majestades. Do poste onde se encostara, via ao longe o Rossio, onde prometera encontrar-se ao fim da tarde com gente amiga, antes de uma jantarada no Grémio, onde iria nessa noite.

 

Do lado do cais, o movimento adensa-se. Suas Majestades avançam na carruagem, escoltada pelos guardas a cavalo, chanfalho preso à cintura. Alvoroçado com esse inesperado encontro com a História, Augusto logo descortina o recorte avantajado do rei, nove anos mais novo do que ele próprio. Ao lado, a figura elegante da rainha D. Amélia, acenando com estudada displicência. De costas na carruagem, uma figura jovem agita a mão em direcção de aos populares que aplaudem. Deve ser o príncipe D. Luiz Filipe, pensa. Eram os seus Reis, estava a vê-los pela primeira vez, com um orgulho patriótico de expatriado a agitá-lo por dentro.

 

Quase sem tempo para se descobrir, para saudar a sua Realeza, o nosso Augusto é impelido a abeirar-se da rua, por uma pequena multidão que largou o conforto da arcada para ver, ainda mais de perto, os passantes Braganças. É esse escasso grupo de pessoas, quiçá mais movidas pela curiosidade do que pelo amor à Coroa, que agora faz quase alas à carruagem, roçadas pelos cavalos da Guarda, no curvar lento da saída do Terreiro.

 

O que se passa, de seguida, é tempo de segundos. Do lado contrário da rua, Augusto ouve o que lhe parece, distintamente, serem dois tiros, seguidos de um alvoroço surdo de gente. O rei parece-lhe cair prostrado, a cabeça pendente sobre o encosto. D. Amélia soergue-se, lívida, do banco. Mais tiros, vindos sabe-se lá de onde, cruzam a esquina da praça, misturados com gritos e imprecações. Augusto vê surgir lesta, ao seu lado, uma figura esguia, de capote, que avança com um revólver na mão, que aponta certeiro à figura de D. Luiz Filipe, que se deixa cair na base da carruagem. O tal homem continua, não desiste, aproxima-se mais das carruagem e D. Amélia, com a coragem da raiva, sacode-lhe o braço assassino com um ramo de flores. O braço desvia-se, o assassino desequilibra-se e do fuzil sai-lhe, enviezado, um último tiro, antes que um chanfalho da Guarda Real o atire ao solo. Esse tiro, o tiro errado, é o tiro certeiro que atravessa a nuca do nosso Augusto Maria de Saa.

 

A rua passa a um inferno de sangue e gritos. As reais figuras são rapidamente recolhidas no Arsenal, o Buíça e o Costa – os regicidas que a História acolheria nas suas páginas – são trucidados, nos minutos seguintes, pela raiva impotente da Guarda, com a ajuda de populares enfurecidos. Ninguém se preocupa com o corpo exangue de Augusto Maria de Saa, com a face na pedra suja, a sobrecasaca cinza manchada pelo vermelho do sangue português que o Brasil alimentara. Na confusão trágica dessa tarde, o país perdera o rei e o príncipe herdeiro, mas a Monarquia continuava, pelo menos por ora. O que acabara, de vez, era o destino de uma figura ímpar que a História iria esquecer por muito tempo: Augusto Maria de Saa.

 

A hora pública de Saa

 

A justiça chegou tarde, mas chegou ! O considerado programa "Ritornello", da Antena 2 da RDP, dirigido por Jorge Rodrigues, dedicou a sua emissão de 1 de Abril de 2005 à figura de Augusto Maria de Saa. Para muitos parecia um missão inviável: era lá possível que a obra de Saa fosse levada ao público português com esta expressão mediática ! Mas sim, era verdade, a Antena 2, em colaboração com a Rádio Cultura, de Brasília, sempre atenta ao grandes valores culturais que lhe cumpre preservar e promover, esteve à altura dos seus pergaminhos e, sob a batuta de Jorge Rodrigues, soube fazer-se eco da vida e obra desse gigante da cultura que foi Saa. Bem haja !

 

Durante quase duas horas, os dois países de língua portuguesa e o mundo foram brindados com depoimentos que trouxeram à tona da realidade cultural luso-brasileira aspectos importantíssimos do espólio de Saa. Um professor universitário brasileiro leu dois inspirados poemas do tempo tropical do nosso Augusto, prenhes da saudade lusa que marcou a sua aventura brasileira. Familiares de Saa, hoje perdidos na Rondónia, deram conta de como a sua memória continua a ser acarinhada na família índia que criou na Amazónia, onde hoje sobrevivem frutos luso-tropicais, que acabam por dar razão póstuma a Gilberto Freyre. Revelações sobre cartas de Eça de Queiroz a Saa, existentes nos arquivos de São Petersburgo foram feitas por um especialista em temas russos. Figuras do meio académico revelaram a explosão crescente de estudos saaianos que atravessa o Brasil, quiçá (melhor diríamos, "quissá"...) premonitórios da abertura próxima de um cátedra.

 

O programa trouxe ainda à tona os trabalhos sobre Saa em curso do Departamento de Linguística do polo experimental de Taguatinga, dependente da Universidade Católica de Abadiania Leste (UCAL). Além disso, foi referida a conhecida dedicação à temática do autor que ocupa o Professor Romário Ibirapuera, da Universidade de Rondónia, figura incontornável da investigação saaiana, em especial depois da iniciativa da reedição desse marco linguístico, há muito esgotado e objecto de especulação nos alfarrabistas, que é a "Recolha crítica de interjeições tupi", que Saa publicou, em edição do autor, em 1887.

 

O programa Ritornello prestou um inestimável serviço à memória cultural luso-brasileira, ao alertar para a necessidade de uma iniciativa forte que leve Saa ao povo, através da publicação das suas Obras Completas, se possível em edição de bolso. A questão tinha um sentido de urgência, porque acabava de ser tornado público que a editora francesa Gallimard estaria a processar a tradução urgente de toda a obra de Saa, a incluir nos seus clássicos da colecção "La Pléiade", publicação em papel bíblia, ao lado de Montesquieu, de Voltaire, de Hugo e de um único português, até agora, Fernando Pessoa, também de Lobo Antunes, no futuro. Se não nos adiantarmos, se não houver um choque das consciências lusas, não nos espantemos de ver as seguintes obras de Saa, entre muitas outras, com uma chancela parisiense:

 

- "Prolegómenos à teoria dinâmica do conflito", obra de ciências políticas, morais e antropológicas, publicada por Saa ao tempo em que dirigia a Gazeta Democrática de Paranoá;

- "Olhai a Europa!", opúsculo-manifesto onde, pela primeira vez, se refere uma possível "carta constitucional" europeia;

- "As volteaduras da musicalidade recorrente", texto de teoria musical que, curiosamente foi o tema central de um seminário interdiscipinar realizado pelo professor holandês Schopp Innkop, em Hobbart, na Tasmânia, organizado pelos "Círculos Musicais Heineken", com apoio da prestigiada "Fundação Foster";

- "O equilíbrio da ruptura no voltâmetro de potência suspeitada", obra no domínio da física que tem já uma edição em servo-croata, infelizmente esgotada.

 

Finalmente, caro leitor, a obra de Augusto Maria de Saa começa a reaparecer em toda a sua grandeza. Já não era sem tempo, mas, para os que lutaram ao longo destes anos para que tal acontecesse, ainda parece mentira !

 

Lisboa, 29 de fevereiro de 2019

 

Francisco Seixas da Costa

Embaixador e presidente do CES (Círculo de Estudos Saaianos), em formação.

 

*Crabtree, Joseph William, “The new global philosophy and the impact of the Cornwall school dissent”, London, Barley & Peacock, third ed, 1887, pg. 623

 

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 4 a 10 de março de 2019

 

O «Dicionário de História de Portugal» de Joel Serrão (Figueirinhas) constitui um precioso elemento de estudo sobre a historiografia portuguesa, numa perspetiva rigorosa e pedagógica, com grande qualidade científica e capacidade de abrir e alargar horizontes. É uma obra indispensável.

 

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PEDAGOGO EXEMPLAR

Joel Serrão (1919-2008) foi um pedagogo exemplar, que soube ao longo da vida fazer dos ofícios de pensador e de historiador uma permanente ação de cidadania. O seu labor científico foi sempre feito a pensar nos seus alunos, nos seus leitores e na necessidade de fazer da reflexão uma exigência permanente. Quando hoje nos lembramos da importância do “Dicionário de História de Portugal”, percebemos a determinação e a generosidade de quem se empenhou em preencher uma lacuna na nossa perspetiva cultural. Mas só alguém com uma extraordinária capacidade de ver largo e com uma férrea capacidade de trabalho pôde realizar uma empresa muito difícil, em que a marca de grande qualidade fica bem patente, não só em cada entrada, mas no conjunto realizado. Vê-se como o coordenador foi obrigado, com grande mestria, a preencher todos os espaços previstos e necessários. Mas igualmente descobrimos, em algumas remissões, o drama sentido nos atrasos de alguns colaboradores. Quem coordena obras coletivas sabe bem a angústia que sente, quando um texto falta no momento em que deve entrar na tipografia. Ora, tratando-se de um Dicionário saído em fascículos, esse drama surgia agravado pelos inexoráveis compromissos da Editora. Só o conhecimento, o trabalho, a persistência, o cumprimento determinado do compromisso assumido de um professor e de um intelectual de exceção puderam superar as angústias e os contratempos. Conheci-o bem, mas não tive o gosto de ser seu aluno. Posso dizer, porém, que fui desde muito cedo seu ávido leitor. Foi através dele que li sistematicamente os “seareiros” e, antes de todos, António Sérgio, seguindo-se Jaime Cortesão e Raul Proença. Recordo especialmente a minha saudosa professora Maria Lucília Estanco Louro, que nos fazia ler os grandes mestres da História política como modo de aprender a realizar uma verdadeira Escola de Cidadãos – do mesmo que nos levava às conferências dos grandes mestres, desde o pensamento às artes, numa imersão total em banhos lustrais de sabedoria e sensibilidade. Eram momentos de puro deleite, através dos quais compreendíamos como o diálogo entre filósofos da Escola de Atenas, retratados por Rafael, começava na capacidade de saber perguntar… E pouco antes de nos deixar, Maria Lucília foi ter comigo à Casa Fernando Pessoa para dizer que não podia ficar para uma conferência. E nesse momento pudemos lembrar esse tempo em que Joel Serrão nos ensinava pelos seus escritas a ler melhor o mundo e o tempo e em que ouvíamos as canções de 1789, como sinal de liberdade.

 

A PAIXÃO DA HISTORIOGRAFIA

No tempo em que nos aproximámos, o ensaísta e historiador mergulhava no âmago da gloriosa geração de 1870, e naturalmente foi Antero que nos fez encontrar pessoalmente, compreendendo no que viria a ser O Primeiro Fradique Mendes (Livros Horizonte, 1985), como as figuras dessa idade de ouro se complementaram na diferença e se projetaram no século seguinte. “Pouco ou nada se compreenderá das origens do escritor Eça de Queiroz se não tivermos em vista a conjugação de duas perspetivas: a primeira, é que ele foi um homem da geração, cujos valores e objetivos fundamentais haviam sido esboçados pelos juvenis escritos de Antero; e a segunda, é que esse facto, além de comprovado, lhe não tolheu a singular originalidade da sua procura, a partir de um magma cultural mais ou menos comum”. E sem sombra de anacronismo, é o próprio Joel Serrão que irá encontrar ecos dessa riqueza criadora no Livro do Desassossego de Bernardo Soares – ou seja, é a modernidade que se encontra a si própria nas suas diversas facetas. E Carlos Fradique Mendes vai ser, no percurso da sua afirmação, o ponto de encontro de um singular heterónimo coletivo, envolvendo Antero, Batalha Reis e Eça. E este último dirá: “Antero, mesmo troçando e amaldiçoando, era um ateniense: e à sua ironia convinha, mais que à de nenhum outro ironista, o nobre epíteto homérico de alada. Os seus ditos abriam através da sua geração grandes sulcos luminosos e puros”. Havia, pois, uma indicação de sentido de marcha orientada para o futuro. Contudo, do que se tratou inicialmente com Fradique, no dizer de Batalha Reis, foi um tremendo simulacro: “o nosso plano era considerável e terrível: tratava-se de criar uma filosofia cujos ideais fossem diametralmente opostos aos ideais geralmente aceites, deduzindo, com implacável e impassível lógica, todas as consequências sistemáticas dos pontos de partida, por monstruosas que elas parecessem. Dessa filosofia saía naturalmente uma poesia, toda uma literatura especial, que o Antero de Quental, o Eça de Queiroz e eu, nos propúnhamos construir a frio, aplicando os processos revelados pelas análises da Crítica moderna, desmontando e armando a emoção e o sentimento, como se fossem máquinas materiais conhecidas e reproduzíveis”. E esse satanismo mais não seria do que a procura de um gesto original, capaz de prenunciar novos caminhos críticos. Estaríamos perante o realismo em poesia, e a demarcação nítida do romantismo decaído.

 

FRADIQUE MENDES

E depois da revelação do poeta no seu espaço próprio, escrito a várias mãos, encontramos em 1870 Fradique Mendes, no capítulo XXX de O Mistério da Estrada de Sintra, da autoria partilhada de Eça e Ramalho Ortigão, saído em folhetins no “Diário de Notícias”: “sentado no sofá com um abandono asiático”, “verdadeiramente original e superior”, “um excêntrico, distinto”, de “caráter impecável”, “originalidade violenta, quase cruel”, “amigo de Baudelaire” – que “tocava admiravelmente violoncelo, era um notável jogador de wist, tinha viajado no Oriente, estivera na Meca e contava que fora corsário grego”… Dir-se-ia que a personagem vai ganhando vida, para além da poesia que tinha publicado. E assim Eça vai apoderar-se da figura. E o certo é que já não é o mero símbolo, algo marginal na obra de uma geração, que desejava deixar clara a sua identidade. Agora, já temos uma figura central, base de um verdadeiro romance epistolar – ao lado de Amaro, Basílio, Carlos da Maia, João da Ega, Jacinto, Zé Fernandes e Gonçalo Mendes da Maia. Em bom rigor, é uma personagem multifacetada, capaz de gerar fascinação e de se constituir em voz de um tempo singularíssimo. “A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Páscoa – justamente na semana em que ele regressara da África Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admirável datava de Lisboa, do ano remoto de 1867. Foi no Verão desse ano, numa tarde, no Café Martinho, que encontrei num número já amarrotado da ‘Revolução de Setembro’, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam”… Os versos significavam uma definição nova, muito mais do que um estilo inolvidável. Este estava representado pela própria personagem, que se tornou símbolo de uma geração, de uma obra, de uma força crítica. Assim, Eça e toda a geração de 1870 superam o romantismo do elogio mútuo, mas atingem a sua plena consumação num naturalismo que não segue cânones de escola e se abre para o simbolismo, anunciando o modernismo do século XX, como necessidade a um tempo crítica e construtiva em relação à sociedade. Joel Serrão compreendeu-o plenamente na sua análise rigorosa e certeira de Fradique.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Já que teimei em voltar a escutar o concerto em ré menor, para piano e orquestra, de Johann Brahms, ouvindo ainda o "prelúdio" verbal de Leonard Bernstein - que dirigia a Filarmónica de Nova Iorque e o solista Glenn Gould -, tal como te contei em carta anterior, deixa-me traduzir-te uns trechos da conversa entre Seiji Ozawa e Haruki Murakami sobre a audição que, eles também, fizeram deste registo. Não o fiz na outra carta, para deixar-te só com as palavras de Bernstein e o meu sentimento. Para começar, o romancista e melómano Murakami comenta, pouco depois da música começar, que tudo aquilo lhe parece muito lento, tão surpreendentemente lento que talvez justifique a prévia advertência de Bernstein. Ao que o maestro Ozawa retorque: É evidente que este trecho é tocado de acordo com um ritmo binário amplo, dois tempos que se decompõem assim: um dois três, quatro cinco seis. Lenny dirige-o como se houvesse seis, porque um simples ritmo binário seria demasiado lento para manter um intervalo consistente entre as batidas. Não tem opção. Em geral, antes será um e e, dois e e, dirigido um...dois... É claro que há uma data de maneiras de o fazer, mas acontece que quase todos os maestros o fazem assim. Aqui, com um tempo tão lento, repito, Bernstein não podia manter um intervalo consistente entre as batidas, e por isso se viu obrigado a dirigir em: um dois três, quatro cinco seis. Eis por que falta fluidez à orquestra e ela se atola.

 

   E eis que então, nesta conversa - quiçá como sinal de que um grande músico está sempre atento , e aberto, não só à escrita original da música, mas também à recriação que, vez após vez, a faz acontecer - quando Murakami lhe aponta, logo à entrada do piano, que este também vai lento, Ozawa responde: Sim, mas tal parece-me bastante aceitável, sobretudo quando nunca se ouviu este trecho noutra versão. Temos a impressão de que foi escrito assim. Dir-se-ia quase uma ária bucólica, tocada com grande descontração...   ... Escute bem: quando chegamos a esse passo é impossível não nos encantarmos...

 

   Atrevo-me a dizer-te que a avaliação global deste registo do concerto de Brahms - por Ozawa e Murakami - não busca ser abonatória, provavelmente pela cedência de Bernstein à imposição de Gould... E, como admirador, discípulo e assistente de Lenny, que o maestro japonês sempre foi, até lhe custou discordar daquela iniciativa do mestre se explicar à plateia antes do concerto. Todavia, tem plena consciência de que, se Bernstein tivesse tomado a outra opção, isto é, a de encarregar um assistente de o substituir na altura, o escolhido seria forçosamente ele próprio, Seiji. Susto enorme, que até em sonhos o assombra... Mas a amizade verdadeira é fiel, não se deixa ressentir com faltas ou mesmo pequenos defeitos daqueles a quem bem queremos. O que não impedirá Ozawa - pois que a amizade também deve ser lúcida - de estabelecer outra comparação: a dessa interpretação de Bernstein com Gould com uma deste mesmo pianista canadiano com a Cleveland Orchestra, dirigida por um assistente de George Szell, pois este se recusara a seguir os tempi queridos pelo solista. Traduzo-te o trecho dos comentários durante a audição do solo para piano do primeiro andamento do concerto:

 

Ozawa - É surpreendentemente lento, mas contudo, assim tocado por Gould, funciona. Não ficamos com a impressão de que o tempo está errado.

 

Murakami - Ele devia ter um sentido muito afinado do ritmo. Isto é, era capaz de manter um tempo tão espreguiçado e simultaneamente inserir o som do piano na estrutura da orquestra...

 

Ozawa - Tinha uma compreensão do fluxo musical à prova de bala. E, por outro lado, o Lenny tinha razão ao dizer que ele se atirava de corpo e alma...

 

   Como terás percebido, Princesa de mim, delicio-me com estas conversas entre músicos e melómanos [alguns fãs quiçá não possam ler uma partitura, mas talvez utopicamente a saibam de ouvido e de cor(ação)]. Confirmam-me, como crisma na fé, que o universo da música é o do tempo de encontros inesperados com uma revelação sempre irrepetível no mesmo modo...

 

   Acontecimento, eis tudo o que ela é, entrega de um inexplicável de nós a um momento de sons que nos cativam. Assim também entendo os títulos de livros de Vladimir Jankélévitch: L´Enchantement Musical (o encantamento ou feitiço musical), La Musique et l´Inneffable (a música e o inefável), Debussy et le Mystère de l´Instant (Debussy e o mistério do instante). E creio que cada instante é a chave da escuta musical. Por isso me retiro agora mesmo da escrita desta carta, e não ouvirei mais música hoje. Amanhã, esteja cinzento e chuvoso o dia, ou radioso de sol já primaveril, sozinho novamente escutarei o concerto em ré menor de Brahms, para piano e orquestra, interpretado por Bernstein, com a Sinfónica de Nova Iorque, e por Glenn Gould. Sem me lembrar já dos comentários que aqui te traduzi, nem de emoções das minhas audições passadas. Mas tão somente, porque nunca pude evitá-lo, com o sentimento de gratidão por uma partilha procurada. Por quem dá e quem recebe. "Ortodoxos","puristas", "fundamentalistas" poderão julgar de outro modo, mas eu pensossinto que as vidas e seus dons, sejam reflexão profunda ou audácia liberta, entregam-se-nos, não para serem julgados, mas para que partilhemos um novo salto, um passo, um encanto, uma interrogação. No caso presente, sou comovido pela coragem fraterna e humana de dois intérpretes (um grande maestro e um pianista genial) que aceitaram revelar-se publicamente na simultaneidade das suas ideias divergentes, das suas respetivas imperfeições mas, sobretudo, no esforço passional de busca da compreensão de uma oferta de música escrita pelo alemão Johannes Brahms um século antes, quiçá sob o desgosto da morte trágica do seu amigo Robert Schumann. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

OS PROBLEMAS DO VELHO TEATRO PORTALEGRENSE

 

Novamente são referidos pela imprensa e pelas autoridades locais os problemas relativos ao velho Teatro Portalegrense, que aliás já abordamos em diversas ocasiões. E no entanto, o Teatro Portalegrense, independentemente da qualidade e potencial do edifício e da sua cada vez mais difícil situação, merece referência mesmo na perspetiva do historial do teatro português: assim, José Régio ficou marcado pela longa atividade docente na cidade; atores de relevo, como designadamente Artur Semedo lá se estrearam; e lá subiu à cena pela última vez Amélia Rey Colaço, num espetáculo de despedida, precisamente com “EL- Rei Sebastião” de Régio.

 

Independentemente desse historial histórico-dramatúrgico, importa novamente referir que o Teatro Portalegrense foi inaugurado em 1858 segundo projeto arquitetónico de José de Sousa Larcher, nome ilustre, na época bem conhecido e de certo modo ainda hoje. O Teatro estreou-se com “O Alfageme de Santarém” de Garrett.

 

O Teatro Portalegrense foi arquitetonicamente inspirado no Teatro do Ginásio de Lisboa, na sua versão oitocentista. E como tal funcionou nessa fase em que os Teatros então chamados da Província mantinham uma dupla atividade: ou serviam para exibição dos espetáculos de Lisboa em tournée nacional ou de suporte a grupos e companhias locais.

 

 Em qualquer caso, como já se disse, foi lá que Amélia subiu pela ultima vez á cena, numa dupla homenagem: à atriz que assim se despediu da cena e ao Professor do Liceu de Portalegre, José Maria dos Reis Pereira que assinava a sua vasta obra literária como José Régio...

 

 E Régio cita “Portalegre cidade/ do Alto Alentejo, cercada/ De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros,/ Morei numa casa velha/, Velha, grande, tosca e bela,/a qual quis como se fora/ feita para eu morar nela” e seguem mais 228 versos de uma beleza evocativa de amor à cidade. (in “Fado” – “Toada de Portalegre”). Citamos sempre este belíssimo poema.

 

E também já tivemos ocasião de recordar  que nos anos 80 do século passado  o Teatro Portalegrense foi destruído no interior para nele se instalar um ringue de patinagem, insolitamente rodeado de camarotes.

 

E depois foi Templo Evangélico, ao contrário, note-se, de tantas áreas públicas e de espetáculo, construídas e/ou adaptadas de antigos templos...!

 

DUARTE IVO CRUZ  

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLIV - Do Neocolonialismo e Imperialismo Linguístico
Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses
Apreciação e Crítica (I)  

 

Para Alfredo Margarido, no opúsculo “A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses”[1], o discurso lusófono procura recuperar uma parte da antiga hegemonia imperial portuguesa, pretendendo manter o colonialismo, atento o modo como o colonizado é incitado a alienar a sua autonomia para servir os interesses portugueses.

 

Após afirmar que parte significativa dos teóricos da portugalidade têm o idioma como o agente mais eficaz da unidade entre as pessoas e os territórios que ficaram marcados pela presença portuguesa, escreve:     

 

“(…) os portugueses foram obrigados a renunciar à dominação política e económica, mas procuraram assegurar o controle da língua. O drama herói cómico provocado pelo acordo ortográfico luso-afro-brasileiro, deriva dessa inquietação: se a língua não for capaz de assegurar a perenidade da dominação colonial, os portugueses ficarão mais pequenos. A exacerbação da “lusofonia” assenta nesse estrume teórico, que, espera-se, virá a ser revisto, para considerar a importância da vontade do Outro” (ibidem, p. 57).   

 

É a reedição de um comportamento colonial, a redescoberta da língua portuguesa como uma “força imperial”, que se impõe como língua homo-hegemónica, em que a lusofonia atua em nome da uniformidade, fixando a norma e anulando os dialetos,  preparando o neocolonialismo, neste caso o português, dado que “A língua nasceu em Portugal e pertence aos portugueses. Não se consegue aceitar o princípio simples de que a língua pertence àqueles que a falam!” (ib., pp. 6, 7).

 

Rejeitando a auto-complacência ou os paternalismos, formas de colonialismos, apela a uma leitura crítica do passado, desde logo no que toca ao delírio das “descobertas”, como se o Outro só existisse por obra nossa, com a agravante de que ninguém pediu perdão aos africanos pela nossa participação no tráfico negreiro.   

 

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é tida como uma comunidade utópica, “(…) como se bastasse a magia do enunciado para fazer dos colonialistas de ontem os arautos da igualdade racial de hoje” (ib., p. 25), tanto mais que a comunidade portuguesa aceita mal o modo como os antigos dominados, os “Outros”, rejeitam a violência da dominação.

 

Eis a razão desta obra: proceder ao inventário das feridas e das cicatrizes, sem “(…) ignorar que este inventário de torpezas nacionais me preocupa há já vários anos, e mais particularmente a partir do momento em que, nas antigas colónias, pude ver em ação a nossa especial maneira de “civilizar” (ib., p. 8).   

 

Não se trata de um discurso lusófono eufórico, efusivo, nem de uma comovente e emocionante retórica, nem tinha que o ser.

 

Sem ser entusiasta, nem moderado, opta por um discurso cético e descrente.

 

Porque os portugueses não podem já ter devaneios ou quimeras imperiais, transferem para a língua essas veleidades e sentimentos.    

 

Tido como um dos estudos críticos mais contundentes e emblemáticos sobre a lusofonia, não nos parece suficientemente convincente, como tentaremos fazê-lo sobressair em próximo texto.

 

26.02.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

[1] Alfredo Margarido, A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses, Edições Universitárias Lusófonas, Lisboa, 1.ª edição, Maio 2000.

 

 

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