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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de abril de 2019

 

 

Em L’Invention de la Liberté (Skira, 1964) de Jean Strobinski (1920-2019) estamos perante uma obra-prima do pensamento europeu, onde acompanhamos um rico diálogo entre as ideias e a arte, de modo a compreendermos a afirmação do valor da liberdade.

 

 

 

A FORÇA DAS IDEIAS
O historiador das ideias, teórico da literatura, escritor e médico suíço Jean Straobinski, uma das grandes referências do nosso tempo, morreu no início de março, deixando uma obra singularíssima, centrada na procura de um humanismo para a contemporaneidade. Filho de médicos judeus de origem polaca, que se fixaram na Suíça em 1913, foi discípulo da escola experimental de Edouard Claparède (1873-1940), em cujos ensinamentos se inspirou Jean Piaget (1896-1980). Apesar de plenamente integrado na sociedade genebrina, Starobinski naturalizou-se suíço só em 1948, casando-se 1954 com a médica Jacqueline Sirman. Perante o receio de seus pais sobre o futuro de uma formação literária, obtém dois doutoramentos – que lhe permitem ser assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Genebra e depois interno de clínica terapêutica no hospital cantonal. A Medicina e a Literatura vão completar-se na sua vida, em condições diferentes. É professor nos Estados Unidos, na Universidade Johns Hopkins (Baltimore, Maryland) e depois interno do Hospital Psiquiátrico de Cery (Lausanne). No final dos anos cinquenta, fixa-se na docência de História das Ideias, na Faculdade de Letras da Universidade de Genebra (1958-1985), prolongando a sua ação pedagógica no Collège de France (Paris) e depois na Escola Politécnica federal de Zurique. Estuda a vida e obra de Montaigne, Montesquieu, Rousseau, Diderot e Stendhal. Mas também o atrai o Kafka de A Colónia Penitenciária. Hölderlin, Rilke e Musil são motivos especiais de reflexão literária. Investiga, no domínio médico, a depressão e a melancolia – escrevendo Encre de la mélancolie (2012), onde procura o encontro entre literatura e melancolia, construindo o seu pensamento no jogo entre polos contrários: o mal e o remédio, a ação e a reação, a transparência e o obstáculo, a natureza e a técnica, a presença e a ausência (afirmando que “a melancolia é fundamentalmente a ausência”). Sobre Rousseau, preocupa-se com a tensão que nele encontra entre perseguição e melancolia, mas o ensaísta procura aprofundar as razões que levam a essa complementaridade. Albert Béguin e Marcel Raymond são seus mestres na crítica literária.

 

OBRA-PRIMA DO PENSAMENTO EUROPEU
No belo livro, intitulado L’Invention de la Liberté (Skira, 1964), obra-prima do pensamento europeu, afirma que “o homem esclarecido, reivindicando o direito de contradizer todas as autoridades, adquire um sentimento de oposição pelo qual sabe também tornar-se o seu próprio contraditor: às suas tentações, às suas fórmulas favoritas, o século traz a crítica, por vezes com a vontade resoluta de tentar a experiência do contrário”. Assim, enquanto René Descartes sustenta que a alma sempre pensa, a partir de ideias inatas, Locke afirma que a alma apenas tem ideias que resultam das suas sensações, não podendo haver pensamento se não for a partir dos materiais fornecidos pela experiência sensível. A alma só tem consciência de existir no instante em que sente. A reflexão segue sempre os traços deixados pelas sensações… É perante esta tomada de consciência, que encontramos o caminho que permitirá afirmar a liberdade. E esta exige um sistema social no qual a exigência de ordem seja compatível com a liberdade. Mas para que a contradição não exista, é fundamental que haja uma nova arte social. E a arte significa todo o método que tende a aperfeiçoar um dado natural de modo a introduzir mais ordem, mais acordo e mais utilidade. Assim a independência natural tem se tornar liberdade civil, conciliando a segurança individual e a autoridade do Estado e dando o legislador o exemplo da arte suprema.

 

EQUILÍBRIO ENTRE RAZÃO E SENTIMENTO
A razão esclarecida de Locke e Montesquieu garante, assim, uma composição de forças que permite equilibrar o poder do príncipe (que tende espontaneamente para a tirania) e os apetites dos particulares (que se entrelaçam de modo anárquico)… E se a Inglaterra, na sequência da Gloriosa Revolução de 1688 pôde assegurar a liberdade civil graças à separação de poderes, os Estados Unidos reuniram os colonos, através da capacidade que tiveram de respeitarem a tolerância e a moderação através do federalismo. Eis por que razão “a invenção da liberdade” deve ser vista a partir da evolução da arte do século XVIII, como a evolução da compreensão do sentido crítico, da liberdade individual e da complementaridade entre razão e sentimento. Submetido às suas sensações, detentor da razão e da sua vontade, o homem pôde inventar novas imagens e novos mitos para atestar a conquista exigente da liberdade. E assim a filosofia relaciona-se com a mitologia do prazer, a partir da jurisdição do sentimento, a inquietude dá importância à festa, ao divertimento, à sátira e ao espetáculo, a imitação da natureza obriga à articulação entre a vida, o sentido crítico e o conhecimento, bem como abre-se campo às nostalgias e às utopias, enquanto idílio impossível, melancolia das ruínas, sonhos da razão e prazer de ver. Leibniz define o ato estético como uma vontade confusa, graças à qual os espíritos são capazes de “produzir qualquer coisa que se assemelha as obras de Deus mas em pequeno”. Enquanto Diderot coloca-nos perante a contemplação do tempo: “As ideias que as ruínas despertam em mim são grandes. Tudo se menoriza, tudo perece, tudo passa. Só há o mundo que fica. Só o tempo dura. Como é velho este mundo!”. “A imagem idílica e ‘mística’ da idade média, elaborada em certos meios (desabrochando no Génio do Cristianismo de Chateaubriand) tende a transferir para o passado nacional e para a fé cristã os valores de plenitude que a tradição humanista tinha inscrito no quadro pagão”… E nesta nostalgia, a liberdade torna-se múltipla e dependente do querer. Mas “querer é prever, ver o que ainda não existe, através do que existe. Mas quando triunfa o estilo da vontade, as coisas tornam-se meios e deixam de ser amadas por elas mesmas” – como no quadro de Guardi sobre o efémero balão que é lançado... Mestre de um humanismo de horizontes largos, Starobinski aliou a antropologia, a teologia e a música, além da literatura e da medicina, interrogando tudo o que representa presença no mundo, daí a sua paixão por ver sempre mais longe e mais profundamente – até por considerar, partindo de Diderot, não ser “admissível considerar a pessoa humana como um meio: ela é um fim, na sua existência, na sua singularidade e na diferença reconhecida”. Daí a importância dos imperativos morais. A noção de próximo e a exigência de respeito pelos outros não são produtos da ciência, daí necessitarmos de encontrar limites para os respetivos abusos. A capacidade de compreender torna-se, deste modo, essencial: “o crítico é aquele que, conservando a fascinação que o texto lhe impõe, entende no entanto, preservar o direito de ver”. E que é o humanismo senão “a atenção prioritária dada à experiência humana na sua diversidade e nas suas contradições” ou “o desejo de encontrar sentido para o que acontece à nossa volta”.

 

 
Guilherme d'Oliveira Martins
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