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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Manuel Graça Dias e Egas José Vieira - o elogio à vida e o fascínio pela descoberta.

 

‘Nós queremos ser todos iguais perante a lei, temos essa vontade e construímos edifícios organizativos que o garantam. A democracia é, onde conseguimos chegar, no mundo ocidental, no sentido de garantir a todos igualdade - o acesso à cultura e a todos os bens, à vida digna, ao trabalho... Mas, sentimos cada vez mais que somos profundamente diferentes uns dos outros e que essa gestão da vontade de igualdade passa também pelo respeito pelas nossas diferenças. E eu acho, sinceramente, que a cidade consegue, desde há muito tempo reunir todas essas diferenças e geri-las com alguma facilidade.’, Manuel Graça Dias, 2006

 

Ao fazer como mais ninguém faz, Manuel Graça Dias e Egas José Vieira concretizam de modo irrepetível, nos seus projetos, um constante elogio à vida. A paixão pelas formas construídas e pela cidade, permite-lhes descobrir a beleza e a harmonia, onde se suporia apenas encontrar o caos, a desumanização, a velocidade, a máquina, o artificial, o escuro e o despedaçado.

 

Manuel Graça Dias e Egas José Vieira (MGD+EJV) formaram, desde 1985, o atelier ‘Contemporânea’. E desde muito cedo, os seus projetos se formulam sempre num lugar real e concreto. A exploração claramente expressiva, dos elementos formais e construtivos, advém da enorme importância que é dada à diferença e ao particular; à fluidez entre o interior e o exterior; aos desfasamentos subtis; e ao construir no construído.

 

MGD+EJV resgatam o gosto pela cidade - compacta e não dispersa, aberta e não fechada - com todas as suas características e atributos, como sendo a plataforma ideal para a vida do homem que gosta de se estabelecer em conjunto com os outros.

 

MGD+EJV, através dos seus projetos, fazem parecer que o mundo é fluído e todas as coisas se complementam. Talvez, por isso concebam uma arquitetura que se predispõe a ter um lugar concreto, que deseja pertencer a alguém e que anseia ser óbvia, acessível e inclusiva.

 

MGD+EJV olham o existente e a banalidade como um potencial. Introduzem a arquitetura como uma nova forma que valoriza a cultura urbana, o seu ritmo, a sua mudança e a sua artificialidade. Acreditam que arquitetura é uma oportunidade de recuperar, de emendar e de estimular novas relações com um território (que, idealmente, se quer sempre solidário e compartilhado).

 

Atravessar a pé uma enorme avenida larga, por uma ponte aérea, percorrer um túnel, mesmo que só de automóvel, ocupar o espaço com as pegadas de um viaduto terá (pode e deve ter) sempre que ser encontrado em estruturas que nos redimam desse esforço, desse incómodo, desses rasgões, dessas barreiras que o excesso dos modos individuais reclama e, tão desastrosamente a cidade contemporânea tem vindo a aceitar. Tentámos sempre associar um fator lúdico (de desperdício, de contemplação) a ações tão pequenas, tão pobres, tão redutoras; combatemo-las com o seu oposto.’, MGD+EJV, 2006

 

Os projetos de MGD+EJV desejam descodificar a arquitetura e as suas diversas camadas de complexidade. É uma arquitetura, obviamente planeada, desenhada, detalhada e refletida, mas que, por um lado, se relaciona com o seu tempo e com os lugares mais banais e que por outro lado, dá uma dimensão mais profunda ao existir do homem no espaço (nos recantos, na luz, na cor, nos volumes que sobressaiem).

 

A curiosidade, a descoberta pelo novo, pelo desconhecido, pelo inesperado e pelo inconstante advém de uma permanente insatisfação. MGD+EJV conseguem descobrir arquitetura em muita coisa que não é arquitetura e acreditam que o acontecimento/objeto mais banal se pode tornar de repente fascinante, com outras e várias leituras - porque tudo é passível de ser transformado e utilizado como referência e inspiração. E talvez por isso, MGD+EJV não produzam o espectável, as suas soluções saiem da norma e permitem o cruzamento de diversos temas, sensibilidades, assuntos, mas onde transparece também uma grande admiração pela arquitetura dos outros (as referências não precisam de ser propriamente eruditas).

 

O conhecimento, que permite a arquitetura de MGD+EJV, alcança-se em permanente diálogo com os outros e com as coisas construídas - numa tentativa de não cultivar o lugar comum, nem as ideias preconcebidas, colocando sempre em causa o pré-estabelecido. MGD+EJV criam por isso uma arquitetura para o quotidiano, que pode oferecer a possibilidade de transcendência, de exaltação, de emoção e até de provocação - a sua forma inclui tudo o que está à volta, numa adaptação constante a uma realidade concreta, usando aquilo que está ali, à mão.

 

Ana Ruepp

O ÍCONE DE UMA CHAIMITE NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

 

O texto que aí fica reproduz as palavras que proferi, na Assembleia da República, na passada Sexta-Feira, dia 4, na abertura da Exposição “Cinquenta Anos a Fazer P.Arte”, de António Colaço.

 

Estudante em Roma, fui à Basílica de São Pedro muitas, muitas vezes, só para ver a Pietà. De um bloco de mármore, Miguel Ângelo arrancou a Pietà, que nos comove, e, imóveis, olhamos e olhamos... e contemplamos... o que lá está: a dor, a compaixão de uma mãe com o filho morto nos braços, toda a ternura compassiva do mundo, e mais e mais... E nunca nos cansamos de olhar... Aquele mármore é sempre mais do que mármore... Foi transfigurado, transfigurou-se.

 

Em Amesterdão, contemplei as célebres Botas de van Gogh. Ninguém as pode calçar. Para que servem? Mas são as botas mais caras do mundo. O que está lá? Todos os caminhos dos homens e das mulheres... as suas dores e sofrimentos, os seus sonhos e esperanças... in-finitamente.

 

O artista, grávido de mundos, vê o que outros não vêem e ensina a ver o que se vê, sempre mais do aquilo que se vê. A arte é símbolo: uma presença que aponta para lá, sempre mais para lá, para uma ausência presente, para a transcendência... na coincidência.

 

Nestes “Cinquenta Anos de Arte” de António Colaço, o que há é todo o seu percurso de mostrar o que só o artista vê. Ele há uma terrina com furos e com máscaras: afinal, um escorredor de almas... Ofereceu-ma a mim, e eu vi a força de um confessionário, na sua força de salvação e alívio na reconciliação. Ele há uma oliveira que ardeu e que é um Cristo crucificado, a suplicar a libertação da tragédia dos incêndios... e tantas outras tragédias também. Ele há uma tigela, que é outra coisa..., também há tijolos... e isso tudo é símbolo de uma reconstrução de alguém que passa por um AVC...

 

Ele há..., ele há..., ele há 50 anos de António Colaço a fazer-se, fazendo arte com muitas artes, transfigurando, e ensinando a ver o que se vê, mas, distraídos, não vemos...

 

Tudo sob o ícone de uma Chaimite, agora desmilitarizada e obra de arte, símbolo da liberdade. Daí o nome da exposição: PALAVRIL (libertação da palavra em Abril). Na Assembleia da República, a Casa da Democracia. Daqui, em liberdade, se luta pela igualdade radical e pela fraternidade concreta. Um Evangelho: notícia boa e felicitante, como diz o étimo grego da palavra. A utopia, a realizar, de um mundo outro, um mundo outro possível e urgente...

 

Aqui chegados, impõe-se uma palavra sobre a relação complexa entre política, ética e estética.

 

Quando comparamos o ser humano e os outros animais, notamos que a linguagem duplamente articulada é característica decisiva dos humanos. Já no século XVIII, se deu essa compreensão, pois encontramos inclusivamente caricaturas com um missionário no meio da selva africana dizendo a um macaco: “Fala, e eu baptizo-te”. Se falasse, era humano. Evidentemente, esta fala refere-se ao que é próprio do ser humano: dupla articulação da linguagem.

 

Pela palavra, abrimo-nos ao mundo e o mundo abre-se a nós. Falando, damos razão disto ou daquilo, argumentamos, comprometemo-nos, formamos comunidade. Sendo a razão humana linguisticizada, só podemos compreender-nos a nós próprios em corpo, com outros e na História.

 

O Homem, pelo facto de ser “zôon lógon échon”, animal que tem logos (razão e linguagem), é também “zôon politikón”, animal social, político, diferentemente do animal, que é gregário, e a razão disso é a palavra, como bem viu Aristóteles, na Política: “A razão de o homem ser um ser social, mais do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário, é clara. Só o homem, entre os animais, possui a palavra”. E continua: “A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos face aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a cidade”.

 

A linguagem humana não se reduz à expressão emotiva do prazer e do desprazer. É capaz de fazer juízos morais, de distinguir o bem e o mal, o justo e o injusto, partilhar e debater publicamente estas apreciações. Deste modo, a linguagem está na base da ética e funda eticamente a pólis (a cidade, no sentido da vida política).

 

Que é que isto quer dizer? A política tem de assentar em valores, valores éticos e espera-se que os políticos sejam éticos. Mas, precisamente aqui, começa o paradoxo. Se fôssemos todos éticos, moralmente bons, não era necessária a política. Mas não somos. Então, precisamos de política? Claro. Mas, em última análise, precisamos da política no sentido estrito, que implica o Estado enquanto organização política da sociedade, detendo ele, o Estado, o monopólio da violência, porque não somos éticos. Se todos fossem éticos, no quadro do cada um fazer-se bem moralmente a si próprio, prestando contas de si e das contas, não seria necessária a política, que ficava reduzida à administração das coisas. As leis seriam justas e todos as cumpririam. Só porque somos egoístas, interesseiros, corruptos e corruptores, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir os conflitos. Como escreve o filósofo A. Comte-Sponville, se a moral reinasse, não teríamos necessidade de polícia, de tribunais, de forças armadas, de prisões.

 

Assim, a política não existe directamente para a ética. Mas ai de nós, sem uma conversão ética! Urgência maior é a formação ética, moral, para os valores, que não são redutíveis ao valor do Dinheiro divinizado. Sem valores éticos assumidos, remeteremos constantemente para a política, para as leis, para a regulação, para os tribunais, para as prisões... Então, só fica a lei (e aqui há ainda a questão de legislar em causa própria) e a sua sanção, no limite, um Estado totalitário e tirânico, mesmo que sob a aparência de democracia. Ora, não é possível legislar sobre tudo e, sobretudo, acabaria por ser necessário pôr um polícia junto de cada cidadão, para que cumpra a lei; como os polícias também são humanos, seria preciso pôr um polícia junto de cada polícia e assim sucessivamente... Juvenal disse: “Custos custodit nos. Quis custodiet ipsos custodes?”. "A guarda guarda-nos. Quem guardará a guarda?"

 

Significativamente, o Evangelho, notícia boa e felicitante, quando Jesus ordena: “Fazei obras boas”, no original grego está: kalá érga, obras belas. Cá está o elo entre a estética e a ética. Mesmo os pais ou os bons educadores, quando querem chamar a atenção para o bem, criticando qualquer coisa que não é moralmente boa os educandos fazerem, não dizem: “Não faças isso, porque é mal”. Dizem antes: “Não faças isso, não é bonito, é feio”.

 

Na conexão entre ética e estética, a Assembleia da República fez bem ter trazido para dentro dela a Exposição Cinquenta Anos de Arte, PALAVRIL, de António Colaço. Foi uma boa decisão, é bem, uma excelente decisão, bela decisão. António Colaço, “místico” (Jaime Gama dixit), ensina-nos a ver o que se vê e, assim, torna-nos melhores.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 7 ABR 2019