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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NO ÚLTIMO ANDAR DO PRÉDIO AMARELO

 

Ela vivia ali, no último andar daquele estranho prédio amarelo. Um prédio que sacudia para a rua a janela do seu quarto sempre que se anoitava. Um prédio que ora estava ali onde não se sabe o como de seu acesso, ora estava noutro local meio gaveto que deixava o prédio mais suspenso, mais esguio, mais alto, quase a palpar o ar para sentir equilíbrio que o agarrasse da queda ou do voo, pois, a qualquer momento, o prédio quase se deixava cair todo ele e não apenas a janela do quarto de Constança.

 

Entrava-se diretamente da escada para a ínfima cozinha, composta por dois armários velhos e uma pedra funda de lava loiça sempre cheia de pratos acumulados por lavar. Loiça de plasticina meio dependurada quase até ao chão. Uma janela esguia deixava ver outros telhados velhos, raros de telhas, desbotados de cor e agarrados a canadianas, que, não impediam a inclinação sobre o prédio amarelo; e, afinal, assim se fazia a companhia dos vizinhos. As ténues luzes chegavam pela janela e sem nada dizer respondia-se com a luminosidade morna da lâmpada da cozinha pendurada do tecto e adornada por um pano de crochet.

 

Da cozinha, passava-se ao quarto escuro, esconso e estreito, dividido desta por uma cortina de pano. A cama, larga embrulhada numa colcha-cobertor quase fugia para fora do prédio se os pesadelos acossassem por excesso o sono de Constança. Um bidé de pés de ferro e bacia de esmalte agrupava quatro catos ali plantados num sossego de secura aos pés da cama. Só um grande espelho de moldura de madeira parecia refletir a luz vinda da cozinha para o quarto interior, agravando-lhe a escuridão.

 

E é mais ou menos assim que sonho o local onde vivo, disse-me Constança

podes crer que é um sonho que não me faz medo, mas intriga-me e desconforta-me por recear ser verdade que tudo assim exista num quadro de um artista que eu desconheço, mas onde até eu lá esteja, ou, será que existo assim a habitar uma casa igual a esta dentro de um conto de um escritor ou num romance em que exista esta realidade que até eu nela seja sinal da personagem que habita o absurdo? Há neste sonho que se repete, de quando em vez, um orvalho solitário e gelado que me toca o rosto quando me deito, mas eu não fujo. Há também um ruído de suspiro fundo naquela casa que indica uma vida clandestina que ali mora e que não recuso ser a minha por perícia de memória que aceito.

 

Diz-me, isto surpreende-te, ou,  para ti pode ser senão mesmo uma ameaça?

 

Constança! Que indícios de percurso vivo e me movimento em direção aos caprichos da vida? Não sei. Às vezes, lanço a rede ao umbigo do mundo para o trazer até mim e dele fazer porto seguro; mas também me acontece no transferir do mundo, surgir-me uma malha amarela - como a cor do teu prédio- segura na crista de uma alta e revolta onda impalpável, e ainda assim projetada dos confins impensáveis por mim, tão surpreendente como os astros antigos que melhor se seguram no nada.

 

Esta é também a descrição que pode surgir da minha casa, num último andar rasante à experiência. Aceita-a para a interpretares tal como a recebo: acordada. Aceita-a como espaço de deliberação; aceita-a como quem consome a vida, somatório dos nossos dias, sobretudo quando o nada se deverá pensar e escrever e viver com maiúscula. Lembra-te que só saídos da nossa fraqueza nos fortificamos. Não me amedronta o teu sonho. Sempre nos possui uma indizível fantasia segregada pela nossa apreensão. E sim, coloca a minha foto no teu espelho. Serei cegonha, aquela que desejas que encha sempre a solidão.

 

Teresa Bracinha Vieira