Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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“A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca” é da autoria de William Shakespeare (1564-1616) e foi escrita entre 1599 e 1601, tendo lugar no Reino da Dinamarca. Conta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, Hamlet, o rei, executado por Cláudio, seu irmão que o envenenou e em seguida usurpou o trono, casando-se com a rainha Gertrude.
A Dinamarca estava em luta com a Noruega e havia o risco de uma invasão liderada pelo príncipe Fórtinbras. O tema deriva da lenda de “Amleth”, preservada no século XIII pelo cronista Saxo Gramaticus, na sua Gesta Danorum. O reino da Dinamarca é o mais antigo da Europa e começou a consolidar-se no final do século VIII, numa história complexa e rica. Tudo começa numa noite fria no Castelo de Elsinore. As sentinelas dizem a Horácio, amigo de Hamlet, que viram o fantasma do rei morto. E Horácio encontra-se com o Fantasma. Então Hamlet deseja vê-lo com seus próprios olhos e consegue. O espírito revela a Hamlet que Cláudio matou o pai com veneno e pede que o filho vingue tal crime. Hamlet concorda, apesar das dúvidas, decidindo aparentar a loucura para não levantar suspeitas. Ocupados com os assuntos de Estado, Cláudio e Gertrude tentam defender-se da invasão norueguesa. Preocupados com o comportamento de Hamlet e com a sua profunda depressão pela morte do pai, pedem a Rosencrantz e Guildenstern, para descobrirem a causa da estranha mudança de comportamento de Hamlet. Polónio, o primeiro conselheiro de Cláudio, e Laertes, seu filho, de partida para França, não acreditam na sinceridade dos amores de Hamlet por Ofélia, filha de Polónio, dissuadindo-a dessa ligação. Ofélia também está preocupada com o comportamento estranho de Hamlet, mas confessa ao pai que o príncipe vai encontrar-se com ela no palácio. Polónio percebe que Ofélia ama Hamlet, e interpreta a loucura do Príncipe em virtude desse amor – e avisa Cláudio e Gertrude do que se passa. Hamlet mantém a dúvida sobre o segredo revelado pelo espetro e aproveita a chegada a Elsinore de uma trupe de cómicos para encenar a representação do assassinato, para tentar demonstrar a culpa ou a inocência de Cláudio. Quando ocorre a representação do crime, Cláudio ergue-se e abandona a sala, o que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. Cláudio teme pela própria vida e decide enviar Hamlet para Inglaterra, com Rosencrantz e Guildenstern, para ser eliminado. Gertrude chama o filho ao seu quarto. No caminho, Hamlet hesita em matar Cláudio, mas não o faz porque este está em oração. Polónio espia por detrás das cortinas, mas denuncia a sua presença. Hamlet julga tratar-se de Cláudio e mata-o com uma estocada certeira através do cortinado. O Fantasma volta a aparecer, continua a pedir vingança, mas pede que Hamlet trate a sua mãe com doçura. Conhecendo a morte do pai, Ofélia enlouquece. Laertes regressa de França e não duvida da culpa de Hamlet. Cláudio propõe a Laertes uma luta à espada com Hamlet onde o primeiro utilizará uma espada envenenada, enquanto a Hamlet será dada uma taça de vinho com veneno. Gertrude dá a notícia de que Ofélia morreu afogada. Junto da que será a sepultura de Ofélia, Hamlet aparece com Horácio e segura o crânio que deve ser do velho bobo Yorick, que conheceu na infância. “Ser ou não ser, eis a questão”. Quando o cortejo fúnebre surge liderado por Laertes, este envolve-se com Hamlet, mas os circunstantes separam-nos. No regresso a Elsinore, Hamlet é desafiado a lutar à espada com Laertes. O duelo inicia-se e Hamlet atinge Laertes três vezes sem ser atingido por ele. Cláudio oferece a taça envenenada a Hamlet, mas este recusa-a e é a Rainha que bebe o vinho. O duelo prossegue e Laertes atinge Hamlet, mas o príncipe da Dinamarca também atinge o antagonista num estoque fatal. A Rainha morre e Laertes também, revelando o plano de Cláudio. Então Hamlet consuma o pedido de seu pai e põe fim à vida do rei. Ao morrer, Hamlet pede a Horácio que viva para poder contar a todos a sua história e a verdade sobre o que havia de podre no Reino da Dinamarca.
(Sophia de Mello Breyner Andresen é autora de uma das mais belas traduções em português desta obra-prima).
Como te disse na última carta, era ainda muito novo quando a leitura de Terre des Hommes me levou a reflectir sobre a complexidade crescente da relação do homem com a máquina, esta sendo aqui entendida em sentido lato, como aparelho abrangendo os de comando simplesmente manual e todos os que respondam a outras energias, mecânicas, eléctricas, ou ainda, nos tempos hodiernos, a programações informáticas que as tornem aparentemente autónomas no seu funcionamento. O livro de que te falo radica numa série de artigos sobre aviação que Saint-Ex. escreveu, a partir de 1932, para a revista Marianne. Reunidos, acabam por se tornar obra de ficção meditativa mais do que colectânea de notas ou reportagens jornalísticas, e dão nova amplitude á reflexão de um piloto aviador sobre o seu próprio ofício, considerado à luz da cultura e da civilização que o circunstanciam. Entre outras questões, levantam, Princesa de mim, a da cada vez mais intrigante dialéctica entre o ser humano e os seus instrumentos, as suas máquinas. E sempre, como sustento de qualquer conto moral, a obsessão perseguidora da nossa vida : O que é Ser Humano?
Sentenças lapidares, escritas há quase noventa anos, são hoje interpelativas de aspectos importantes da nossa condição de homo faber. Assim, por exemplo : L´usage d´un instrument savant n´a pas fait de toi un technicien sec. Il me semble qu´ils confondent but et moyen ceux qui s´effraient par trop de nos progrès techniques. Quiconque lutte dans l´unique espoir de biens matériels, en effet, ne recolte rien qui vaille de vivre. Mais la machine n´est pas un but : c´est un Outil. Un Outil comme la charrue. Também deste texto se destaca a constante preocupação moral do escritor francês : não será por utilizarmos instrumentos aperfeiçoados que nos convertemos em puros técnicos, pois que o utente não se transforma - como o amante na coisa amada - na ferramenta que lhe viabiliza a acção. Além de que o humano que labuta não dará sentido ao seu labor se lhe der só a razão de ser simples gerador de bens apenas materiais. O trabalho humano, o ofício de cada um de nós, vale sobretudo como factor de relacionamento e sentido da nossa vida. E, todavia, a máquina que o sustenta e possibilita, mais não é do que uma ferramenta, um instrumento ao serviço da pessoa. A esta pertence e obedece, tal como a charrua só abrirá na terra os sulcos que o lavrador quiser.
[Abro aqui este parêntese, para introduzir o alerta que, nestes tempos de informatização, digitalização e inteligências artificiais, me surge do pesadelo das notícias, e me assalta : a visão de famílias inteiras, às mesas dos restaurantes, "clicando telèlés e tabletes", de adolescentes que em seus quartos se encerram com as máquinas que lhes trazem "vidas" virtuais e essa contemptatio mundi, cuja seiva não é qualquer espiritualidade, nem contemplação apocalíptica, mas antes um atropelo de ilusões ininterruptamente oferecidas... Como se ser humano não fosse ser em relação, nem o amor convivial a circunstância necessária da construção de um mundo de justiça e paz. Curiosamente, tudo isso acontece numa época em que o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos meios de comunicação, ou media, deveria facultar a acessibilidade mútua de pessoas e culturas. E precisamente quando os centros de mais adiantada investigação e experiência do funcionamento do cérebro humano - designadamente entre os idosos, incluindo centenários - vem demonstrar que o grande tónico e forte conservante da saúde mental é o exercício do diálogo, do convívio, da tertúlia.]
Devo, contudo, regressar à citação de Saint-Ex. respigada de Terre des Hommes (traduzo) : Se julgamos que a máquina estraga o homem, talvez seja por nos faltar o recuo necessário à avaliação dos efeitos de transformações tão rápidas quanto as que padecemos. Nos anos trinta do século passado, talvez tal fizesse mais sentido do que hoje, pensam alguns. Mas eu diria, Princesa de mim, que que me parece ainda bem pertinente - e não pode ser escamoteada - a preocupação de que nos falta o recuo necessário à avaliação dos efeitos de transformações tão rápidas quanto as que padecemos. Sobretudo pela força financeira da chamada revolução informática, cujo poder, crescentemente político também, se vai concentrando num grupo reduzido de agentes que, com seus produtos, invadem os mercados e as vidas de populações inteiras e ainda (só ainda? ou já?) destituídas de capacidades de resistência e libertação dos sistemas e comportamentos que lhes foram sendo impostos. Não te vou pintar um quadro do que se passa e vai aparecendo : olhando à tua volta, Princesa de mim, verás bem, quiçá melhor do que eu, como pode ser inquietante o panorama.
Não consinto, todavia, em virar antiprogressista, considerando maléfico o progresso tecnológico só porque ainda não entendemos bem todos os seus efeitos, decorrentes e colaterais, ou nos sentimos mais seguros quando nos acomodamos ao passado. Escreve Saint-Ex. que a vida do passado nos parece responder melhor à nossa natureza, pela simples razão de que responde melhor à nossa linguagem. E continua, sempre no texto do capítulo III (L´Avion) de Terre des Hommes :
Cada progresso nos foi expulsando para mais longe dos hábitos que tínhamos acabado de adquirir e, na verdade, somos emigrantes que ainda não fundaram a sua pátria.
Todos somos jovens bárbaros maravilhados ainda pelos nossos novos brinquedos. As nossas corridas de aviões não têm nenhum outro sentido. Aquele sobe mais alto, corre mais depressa. Esquecemo-nos do porquê da corrida. Provisoriamente a corrida torna-se mais importante do que o seu objecto. E é sempre assim. Para o colonial que funda um império, o sentido da vida é conquistar. O soldado despreza o colono. Mas afinal o objectivo dessa conquista não seria, precisamente, o estabelecimento desse colono? Assim, na exaltação dos nossos progressos, fizemos os homens servirem para assentar ferrovias, edificar fábricas, perfurar poços de petróleo. E acabámos por esquecer que levantávamos essas construções para servir os homens. A nossa moral foi, enquanto durou a conquista, uma moral de soldados. Mas agora temos de colonizar. Temos de tornar viva esta casa nova que ainda não tem rosto. Para uns, a verdade estará em construir, para outros em habitar.
A nossa casa tornar-se-á sem dúvida, a pouco e pouco, mais humana. E a própria máquina, quanto mais aperfeiçoada, mais se apagará por detrás do seu papel.
Um dos grandes desafios do nosso tempo é, sem sombra de dúvida, a aprendizagem da domesticação dos instrumentos novos, ou ferramentas, que o progresso tecnológico vem pondo ao nosso dispor. Para cumprirmos o preceito humanista de que O Homem é a medida de todas as coisas. Aliás, a lembrança presente deste princípio servirá também de sustento à nossa consideração de outras ameaças que, além da alienação da inteligência humana em aparelhos que nos embotam a consciência e exilam o espírito crítico, planam sobre uma civilização que, não só nos vai constrangendo a liberdade criadora do espírito, como esgotando os recursos da terra que é a nossa circunstância. Muitas vezes me acontece evocar, Princesa de mim, o famoso e já esquecido relatório Meadows (ou do Clube de Roma) que, apesar das suas incertezas e muita coisa incompleta, nos abria os olhos, já lá vão quase 50 anos! Entretanto, vão-se multiplicando os ensaios e as teses acerca do declínio ou desabamento da nossa civilização térmico-industrial, e surge uma nova disciplina da investigação científica : a colapsologia. Designação tão significativa quanto assustadora. O nosso meio-ambiente, a nossa terra, estariam em fase terminal, como já as espécies em vias de extinção! Que este grito, valha o que valer, não nos deixe todavia olvidar "o cerne da questão" : insistimos em ver tudo com estando fora de nós, não só porque nos tornamos estranhos ao mundo que é nossa circunstância, e nossa casa, mas também, quiçá sobretudo, porque todos os dias vamos obliterando a grandeza inigualável da nossa própria humanidade.
Mas tal esquecimento é, simplesmente, o do princípio fundador do humanismo : o Ser Humano é a medida de todas as coisas. E diz bem Saint-Exupéry, na última frase de Terre des Hommes : Seul l´Esprit, s´il soufle sur la glaise, peut créer l´Homme. Pelo que não posso deixar de te referir aqui, lembrados também pelo meu amigo Marcello Duarte Mathias, os dois parágrafos do livro que antecedem essa sentença final. Começam por enquadrar a cena num compartimento de comboio, cujos "wagon-lits" e primeira classe seguiam vazios, mas cuja terceira ia cheia de gente, pobres polacos deportados de França para a sua terra natal, em vésperas de guerra. Traduzo:
Sentei-me à frente de um casal. Entre o homem e a mulher, a criança arranjara como pôde o seu nicho e dormia. Mas virou-se durante o sono e o seu rosto surgiu-me à luz da vigília. Ah! que adorável rosto! Daquele casal tinha nascido uma espécie de fruto de oiro. Daqueles monteses pesados nascera aquele milagre de encanto e graça. Debrucei-me sobre aquela fronte lisa, sobre aquela boca em beicinho, e disse para comigo: eis um rosto de músico, eis Mozart em criança, eis uma bela promessa de vida. Os principezinhos das lendas em nada diferiam dele : protegido, rodeado, cultivado, em quanto não se poderia ele tornar! Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, eis que todos os jardineiros se comovem. Isola-se a rosa, cultiva-se a rosa, é favorecida. Mas não há jardineiro para os homens. Mozart menino será, como os outros, marcado pela máquina de embutir. Mozart produzirá as suas mais altas alegrias de música podre, em malcheirosos cafés concerto. Mozart está condenado.
E voltei para a minha carruagem. Dizia para comigo : estas pessoas em nada sofrem do seu fado. Não é, de modo algum, a caridade que aqui me atormenta. Não se trata, nunca, de nos enternecermos sobre uma chaga eternamente reaberta. As que a têm não a sentem. Antes é algo como a espécie humana, e não o indivíduo, que aqui é ferido, que é lesado. Em nada acredito na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. Não me atormenta esta miséria na qual, ao fim e ao cabo, nos instalamos tão bem como na preguiça. Gerações inteiras de orientais vivem na porcaria e gostam dela. O que me atormenta, não é curável pelas sopas populares. O que me atormenta não são essas covas, nem essas corcundas, nem essa fealdade. Antes é, em cada um desses homens, Mozart assassinado.
Só o Espírito, se soprar sobre o barro, pode criar o Homem.
“O SENTIMENTO TRÁGICO DA VIDA” DE MIGUEL DE UNAMUNO (XXIV)
“Del Sentimento Trágico de la Vida en los hombres y en los pueblos” de Miguel de Unamuno (1864-1936) é uma obra-prima do pensamento europeu. A obra foi terminada em 1912 e foi recebida com muitas incompreensões. Hoje apresenta toda a sua força e pujança, ao lado das de Marco Aurélio, Kierkegaard ou Antero de Quental, na interrogação sobre a existência humana.
Não será a consciência uma enfermidade? – pergunta o autor. E qual o ponto de partida pessoal e afetivo de toda a filosofia e de toda a religião? Afinal, não podemos conceber-nos como não existência. Daí a sede de imortalidade inerente à existência pessoal, como pulsão vital dificilmente racionalizável. Assim se entendem as limitações da teologia, incapaz, muitas vezes, de responder às interrogações essenciais. O que une a fé do carvoeiro à de Teresa de Ávila? A cada passo os diversos racionalismos procuram respostas demonstráveis, para as angústias vitais, mas as soluções depressa se transformam em dissoluções.
Demonstram-se os limites? Justificam-se? Paradoxalmente, sendo limites, deixam sempre campo para o que não pode demonstrar-se. Hume ou Kant disseram-no com meridiana clareza. Leia-se o “Parménides” de Platão – “cada um existe e não existe, ele e o outro existem e não existem, aparecem e não aparecem em relação a si mesmos e uns em relação aos outros”. E Miguel de Unamuno acrescenta: “Todo o vital é irracional, e todo o racional é antivital, porque a razão é essencialmente cética”. O racional é relacional e a razão limita-se tantas vezes a relacionar elementos irracionais…
Sente-se intensamente o passo laborioso do pensador, interrogando-se, jogando com os elementos disponíveis, em busca da verdade, como realidade fugidia e contraditória. E encontra o amor, a dor e a compaixão - amor filho do engano e pai do desengano, consolo no desconsolo, único remédio contra a morte… E sente-se no amor que a carne tem espírito. “Queremos não só salvar-nos, mas salvar o mundo do nada. E para isto Deus. Tal é a sua finalidade sentida”. A fé inicial é informe, vaga, caótica, potencial. É a esperança que a orienta - “se a fé é a substância da esperança, esta é por sua vez a forma da fé”. O Deus cordial leva-nos à vida, à dor e à compaixão - e à caridade como impulso para libertar o próximo da dor. Aí está o cerne da espiritualidade. Escândalo, agonia (no sentido grego de luta) e loucura - “e é loucura grande querer penetrar no mistério além-túmulo; loucura querer sobrepor as nossas imaginações, cheias de contradição íntima, por cima do que uma sã razão nos dita”. E o salmantino cita o nosso Antero: “Disse um homem de Estado inglês (…), que era também por certo um perspicaz observador e um filósofo, Horácio Walpole, que a vida é uma tragédia para os que sentem e uma comédia para os que pensam. Pois bem: se temos de acabar tragicamente, nós, portugueses, que sentimos, talvez prefiramos esse destino terrível, mas nobre, ao outro que nos está reservado, e num futuro não muito remoto, a Inglaterra que pensa e calcula, porventura tenha o destino de acabar miserável e comicamente”. E a personagem de Quixote, símbolo da humanidade contraditória, vem à baila – “a ciência não dá a D. Quixote o que este lhe pede. ‘Que não lhe peça isso – dir-se-á; que não se resigne, que aceite a vida e a verdade como são’. Mas ele não as aceita, e pede sinais, sobre que faz Sancho, que está a seu lado. E não é que D. Quixote não compreenda quem assim lhe fala, ele que procura resignar-se e aceitar a vida e a verdade racionais. Não; as suas necessidades efetivas são maiores. Pedantearia? Quem sabe!...” E assim continuamos a clamar no deserto, segundo o sentimento trágico da vida…
Unamuno sentiu-o na pele à beira da morte, como ressentimento trágico, no paraninfo de Salamanca, a 12 de outubro de 1936, perante o grito de Millán Astray “Abajo la Inteligencia!; Viva la muerte!”. “Às vezes ficar calado equivale a mentir, porque o silêncio pode interpretar-se como aquiescência (…) Este é o templo da inteligência. E eu sou o sumo-sacerdote. Estais a profanar o seu recinto sagrado. Vencereis, porque vos sobra a força bruta. Mas não convencereis. Para convencer há que persuadir. E para persuadir seria necessário algo que vos falta: razão e direito na luta. Parece-me inútil pedir-vos que penseis na Espanha…”
Em artigos anteriores, aqui publicados e que em parte aqui transcrevemos, passamos em revista os vestígios dos teatros romanos existentes no território português. Mas, justifica-se uma breve referência ao teatro e ao circo romano de Mérida (Espanha), e isto por pelo menos três motivos: Mérida foi a capital da Lusitânia; o teatro e o circo de Mérida são os mais bem conservados e relevantes da Península, e foram-no no período romano; e constituem um exemplar centro de produção de espetáculos, dada a conservação, beneficiação e utilização, no ponto de vista de património construído e museológico.
E já agora podemos acrescentar que o Teatro Romano de Medelin, próximo de Mérida, foi um dos galardoados com o Prémio de Conservação da Europa Nostra 2013.
Evoque-se então Mérida e a sua região como capital da Província romana da Lusitânia. Refere Carlos Fabião que “a grande criação de Augusto na Lusitânia foi sem duvida a colónia Augusta Emerita”, a qual “viria a tornar-se a capital da província lusitana e tudo, desde a denominação ao seu primitivo urbanismo, procurava glorificar a pessoa do imperador”.
E noutro local, o mesmo autor especifica que a nova província dividia-se em três circunscrições jurídicas, chamadas conventos, com as respetivas capitais em Augusta Emerita, Pax Julia (Beja) e Scalabis (sob a atual Santarém). Estas três cidades tinham estatuto colonial, entenda-se, todas receberam contingentes de cidadãos romanos, o que se percebe, pela relevância que teriam no quadro administrativo traçado”.
Veríssimo Serrão descreve estes itinerários e constata que “o quadro rodoviário dos nossos dias assente ainda em grande parte, no original traçado romano”.
A vida cultural, então como hoje, tem ligações diretas e condicionalismos óbvios com a atividade económica e com a projeção dos centros urbanos. E o levantamento dos três itinerários romanos entre Lisboa e Mérida, detalhadamente descritos sobretudo por Vergílio Correia, dá noticia da importância que a ligação entres as duas cidades assumia, no período da dominação romana, sendo Mérida, repita-se, a capital da Lusitânia.
Infelizmente, como vimos nesta série de artigos, dos teatros e anfiteatros romanos, em Portugal, pouco resta…
DUARTE IVO CRUZ
Bibliografia citada: Carlos Fabião - “A Herança Romana em Portugal” e “Uma Historia da Arqueologia Portuguesa” Vegílio Correia - “A Arquitetura do Ocidente da Lusitânia Romana: entre o público e o privado”
John Steinbeck (1902-1968) baseou-se numa passagem do célebre poema de Júlia Ward Howe (1819-1910) para intitular esta saga (“The Grapes of Wrath”, 1939), passada nos tempos negros da grande crise americana dos anos trinta do século XX. Não podemos compreender, aliás, o “New Deal” de Franklin Delano Roosevelt e a determinação em iniciar uma era de políticas sociais, orientada para a justiça das pessoas concretas, sem lermos esta obra fundamental de Steinbeck.
Em pano de fundo deste romance heroico está a corajosa atitude do Presidente democrata no sentido de ultrapassar os dogmatismos económicos, fundando um novo contrato social, que marcaria todo o século e o pós-guerra. O romance é protagonizado pela família dos Joads, pobres rendeiros expulsos da sua quinta no Oklahoma pelos efeitos tremendos da crise, pela pressão dos bancos na cobrança de dívidas, pela seca, pela mecanização e pela falta de resposta da produção agrícola. À “grande depressão” somaram-se os efeitos do “Dust Bowl”, fenómeno climático originado pelas erradas práticas agrícolas intensivas de muitas décadas, que secaram os terrenos e geraram condições para a ocorrência de tempestades de areia que destruíam a produção agrícola. Os Joads foram obrigados a partir para a Califórnia, em busca de emprego, terra e dignidade.
O livro é o relato desse caminho trágico e foi muito criticado pelos fazendeiros, por o considerarem alarmista e exagerado. No entanto, logo em 1939 foi um grande sucesso editorial, com muitos milhares de obras vendidas, quer pelo interesse do tema, quer pela escrita fluida e brilhante, obtendo o Prémio Pulitzer e o National Book Award, os mais prestigiados prémios literários americanos. Steinbeck receberia em 1962 o Prémio Nobel da Literatura.
Pode dizer-se que, na prática, a política de Roosevelt compreendeu bem a essência do drama desta família e de toda a América. A personagem principal, Tom Joad (Henry Fonda no filme de John Ford de 1940), regressa a casa saído da prisão e encontra a família decidida a abandonar a terra, depois de um ano de colheitas desastrosas e da decisão dos proprietários assumirem diretamente a titularidade da terra, mercê de novos métodos e maquinaria. O desemprego atingira os 25% da população e os rendimentos tinham sofrido uma quebra de mais de 30%. O romance relata o duro percurso para a incerteza e o desconhecido, onde o desespero e a esperança, o egoísmo e a generosidade se articulam permanentemente. Com o muito pouco dinheiro que ainda têm, transformam um velho Hudson numa carrinha onde cabe toda a família de doze pessoas, e partem para oeste, até à Califórnia, como se fora o Eldorado. Durante o caminho, entre mil peripécias, desde o início ao fim, de vida e de morte, cruzam-se com muitos outros que seguem na mesma direção e com o mesmo objetivo, atraídos por promessas de trabalho e de melhores salários. E há a evidência de uma metáfora bíblica, cheia de referências, como a Arca de Noé, Moisés, o Êxodo, a Terra Prometida… chegados à Califórnia, as melhores expectativas saem frustradas. Há muita concorrência no desemprego, o trabalho que há é pouco e mal pago. E assim os migrantes são obrigados a viver em acampamentos temporários, sob os efeitos da ganância e da exploração.
Procurando não adulterar o sentido geral da obra de Steinbeck, em que o egoísmo e a exploração se manifestam ao lado de pequenos gestos de genuína solidariedade e generosa entrega, John Ford deixa, para além do livro, uma referência ao “New Deal” e à determinação de Franklin D. Roosevelt, ele mesmo alvo de tantas incompreensões (a começar no Supremo Tribunal Federal), aludindo ao acampamento do Departamento da Agricultura, no qual a família encontra um mínimo de dignidade humana. O romance mantém atualidade sempre, uma vez que são os direitos fundamentais e a dignidade pessoal que estão em causa, compreendendo-se a economia não um modo de olhar a riqueza enquanto fim em si, mas como realidade humana.
«Memorial do Convento» de José Saramago (1922-2010) foi publicado em 1982 e constituiu um grande sucesso literário, pelo tratamento do tema, pela vivacidade e ritmo da escrita, pelo domínio da língua portuguesa.
É o retrato do rei D. João V e da sua magnificência, num tempo dominado pela riqueza do ouro do Brasil no reino, numa rica convergência de elementos contraditórios, bem evidenciados na complexidade das personagens escolhidas.
Se para Victor Hugo o protagonista de “Notre-Dame de Paris” foi a própria catedral, também para Saramago a personagem fundamental, em torno da qual tudo se desenvolve o romance, é o Convento de Mafra. «Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento de Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido»...
A riqueza do ouro, transportado em arcas, contrasta com os vários operários anónimos que contribuem para a magnífica construção. E entre eles, está Baltasar Mateus, que tem a alcunha de “Sete-Sóis” porque vive atraído pela luz, tendo perdido a mão esquerda na guerra da sucessão de Espanha. Baltazar ama Blimunda Jesus, chamada de “Sete-Luas”, porque consegue ver no escuro e por dentro das pessoas. Esta, ao ter esta capacidade, consegue recolher as vontades de cada um, como nuvens abertas ou nuvens fechadas. Os dois conhecem um clérigo visionário, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, “o voador”, marcado pelo espírito científico e pela heterodoxia religiosa, que inicia a construção de um aparelho voador, a Passarola, com o objetivo de subir em direção ao Sol, em lugares a que só Cristo e os santos tinham chegado. A concretização deste sonho torna-se uma obsessão e leva-o a viajar primeiro para a Holanda, em busca do segredo, que permitiria a Passarola voar, e depois para Coimbra, onde se doutorou. É ele, aliás, quem realiza o batismo e a comunhão de Sete-Luas e Sete-Sóis: «o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou: Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um». Após um dos voos da Passarola, Bartolomeu foge para Espanha, perseguido pela Inquisição, enquanto Blimunda e Baltasar tratam de esconder o aparelho entre os arbustos da serra e de fazer a sua manutenção.
Não podemos esquecer a figura do grande músico Domenico Scarlatti que, a convite do Padre Bartolomeu, participa no projeto da Passarola, como testemunha silenciosa. Então une-se a ciência e a arte, como reveladoras de um espírito de inovação, de respeito e de abertura ao progresso. Scarlatti instala secretamente o seu cravo na Quinta do Duque de Aveiro, onde toca a sua música e inspira a construção da Passarola, símbolo da modernidade e dos novos tempos das luzes. E quando Blimunda fica com a estranha doença do esgotamento na recolha das vontades, a arte do músico provoca uma cura completa. Um dia, Baltasar ficou preso à passarola, enquanto fazia a sua manutenção, e os cabos que a impediam de se elevar nos céus rebentaram, tendo sido levado pelos ares. A aeronave então despenha-se e Baltasar é capturado pela Inquisição, acusado de bruxaria. Blimunda recolhe, no epílogo do romance, a vontade de Baltasar, enquanto este morre, condenado à fogueira.
E quem é Baltazar? Um homem simples, rudimentar, resignado, terno e fiel, que ama Blimunda, a qual compensa a mão que lhe falta, mas que lhe permite compreender para além do que vê, aceitando o que a vida lhe oferece. E no final é Blimunda quem sobrevive, ela que aprendera tudo o que sabia ainda no seio de sua mãe, onde estivera de olhos abertos.
A Rita viera jantar comigo no dia seguinte ao acordo do divórcio e fê-lo em benefício da sua verdade. Adivinha-se que existem muitas coisas difíceis de dizer e que mortificam e que criam constrangimentos dolorosos em situações como a dela.
- Podes ler-me o que escreveste no Natal de 86?
- Sim Rita, claro que sim.
(…) e saíram do carro na Praça de Londres. De mão dada atravessaram para o lado das montras. As luzes estavam acesas em todas as árvores, o Natal chamava-a como nunca. Sentiu-se muito feliz. Olhou de novo as iluminações natalícias e todas lhe segredavam paz, encontro, vida excelsa por viver, parir, aconchego, justeza, amor finalmente, e, seguros os enigmas principais. Olharam-se e beijaram-se. A Rita e o marido viviam em inspiração, em paixão, em amor; o coração era-lhes apto às suas certezas e segredos e tudo lhes chegava numa íntima unidade. A Rita sentia mesmo um certo pasmo face ao que lhe estava a ser dado viver. Afinal tanto esperara em dor lenta, e, segurando no peito as farpas dos invasores dos terrenos serenos das mães, tal como lhe transmitira a sua mãe serem essas seguras terras, e só agora por fora e por dentro de si era completamente feliz, completamente! Era até protegida das próprias reconciliações.
Quanta delicadeza neste sentir, quanta comoção! Quanto sonho a acontecer! Poema com as coisas todas agora revelado, assim era o que acontecia, e mais do que mundo a obra era esta.
- Arderam os tempos não é?, perguntou-me a Rita.
Só tenho cinzas dessas tuas palavras que relataram tão bem o meu sentir de então. Não sei, não sei ainda como o archote queima o espaço de voo das andorinhas. Terá sido esse o meu grande lapso? Não entender a tempo essa realidade, esse espaço queimado? Só sinto que os ressentimentos me rodeiam e de dentro de mim não saem.
Violências, muitas. Tensões contraditórias, radicais, expressas agora em plena solidão em fundas dores. Limites afinal em tudo. Inconformidade com eles. Impossibilidade de bolas de Natal nas árvores. Náuseas porque ele se afastou de mim, feliz e vigoroso. Ele que atravessara comigo a Praça de Londres, num beijo indizível que em nada poderia vir a condizer com a gélida indiferença instalada. E eu, agora, numa viscosidade de memórias elevo o meu gigante não, frente ao mundo, e pertenço àquela condição que interpreta o princípio dos caminhos que violentamente enfrentam o absurdo, e uma liberdade, te digo, amiga minha, uma liberdade estranha que ainda reivindica as fomes das estrelas natalícias do Natal de 86! Que faço? Apago o céu?
Não! Amiga, vim a tua casa para brindar à semente que estoira o mundo. Nunca à que o segura já não o sendo.
George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair (1903-1950), é porventura o mais célebre dos cultores da literatura distópica no século XX, tendo escrito “Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” (1949) e “Animal Farm” (“O Triunfo dos Porcos”, 1945) obras referenciais ao lado de “Farenheit 451” de Ray Bradbury (1963), “O Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley (1932) e “Nós” de Yvegeny Zamyatin (1924).
Winston Smith é o protagonista da novela, membro do Partido Externo (Outer Party), que trabalha para o Ministério da Verdade, responsável pela propaganda. Reescreve notícias dos jornais do passado, no sentido de as pôr de acordo com a ideologia do Partido. O Ministério destrói igualmente todos os documentos que contrariem a versão oficial dos acontecimentos. Smith é um trabalhador diligente, mas odeia intimamente o Partido e sonha com a rebelião contra o Grande Irmão. A tirania era supervisionada pelo Big Brother (o Grande Irmão), líder do Partido, que pratica o culto da personalidade, buscando o poder próprio pelo poder, com subalternização do bem dos outros. Uma ostensiva preocupação em definir a verdade como realidade exclusiva e incontestável (hoje falaríamos em pós-verdade) levou George Orwell a utilizar expressões e termos como: duplipensar, crime de pensamento, novilíngua, teletela ou 2 mais 2 igual a 5.
O romance tem lugar na “Pista Número Um”, o novo nome de Inglaterra, sob o regime totalitário do Grande Irmão e da sua ideologia “IngSoc”. Diariamente, os cidadãos deveriam parar de trabalhar durante dois minutos para se dedicarem a exorcizar o “traidor” foragido Emmanuel Goldstein e, em seguida, para idolatrar a figura do Grande Irmão. Smith não tem memória da infância ou dos anos anteriores à mudança política e, ironicamente, trabalha no serviço de retificação de notícias já publicadas, publicando versões retroativas e “retificadas” de edições históricas do jornal “The Times”. Estranhamente, começa a interessar-se perigosamente pela sua colega de trabalho Julia, numa sociedade em que o sexo sem procriação é considerado crime. Ao mesmo tempo, Winston é persuadido por O'Brien, um burocrata do círculo interno do “IngSoc”, no sentido de impedir que abandone a fé no Grande Irmão.
“Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” é uma metáfora sobre o poder. George Orwell escreveu-o para denunciar o risco das sociedades modernas se deixarem dominar pela tirania do pensamento único, da idolatria e da mistificação confundida com a verdade. São os totalitarismos de diversas orientações que estão em causa, uma vez que Orwell antecipa o risco de o Estado controlar o pensamento dos cidadãos, designadamente através da manipulação da língua. Daí a criação pelos especialistas do Ministério da Verdade da “novilíngua”, que, uma vez completa, impediria qualquer opinião contrária ao regime. “Duplipensar” era, aliás, uma das mais curiosas palavras da Novilíngua correspondente a um conceito segundo o qual era possível ao indivíduo aceitar simultaneamente duas crenças diametralmente opostas – justificando a mentira. A Teletela era um televisor que permitia ver como ser visto, sendo o padrão de fundo a figura inanimada do Big Brother. Segundo a teoria da Guerra, o objetivo desta não seria vencer um inimigo nem lutar por uma causa, mas sim manter o poder das classes dominantes, limitando o acesso à educação, à cultura e aos bens materiais. A guerra serviria para destruir os bens materiais produzidos pelos mais pobres e impedir que acumulassem cultura e riqueza. Assim, um dos lemas do Partido, "guerra é paz", era explicado por Emmanuel Goldstein: "Uma paz verdadeiramente permanente seria o mesmo que a guerra permanente".
Muito se discutiu sobre a razão de ser do título por extenso de 1984, mas a explicação mais plausível é que se trata do anagrama do ano em que o romance foi escrito, trocando os dois últimos algarismos, para aproximar a realidade da Inglaterra de 1948…
1. O Papa Francisco deu no passado dia 9 uma longa entrevista ao diário italiano “La Stampa” sobre os temas anunciados no título. Dada a sua importância, fica aí uma síntese, acrescentando algumas reflexões pessoais, referentes concretamente à possibilidade da ordenação de homens casados, um dos temas na agenda dos trabalhos do próximo Sínodo para a Amazónia, a realizar em Roma no próximo mês de Outubro, e ao problema imenso e dramático das migrações.
Francisco constata que o sonho dos pais fundadores da Europa unida “se debilitou com os anos”, sendo “necessário salvá-lo”. Quando se fala dos pais fundadores, trata-se nomeadamente dos políticos franceses Robert Schuman e Jean Monnet, do alemão Konrad Adenauer e do italiano Alcide De Gasperi. Eles perceberam que era urgente superar as feridas deixadas pela Segunda Guerra Mundial e “o seu sonho teve consistência porque foi uma consequência desta unidade”. É esta unidade que está fragilizada e que é preciso valorizar e realçar. Sem renunciar, evidentemente, à própria identidade, mas sem cair nos extremos do soberanismo nem no populismo. A Europa não pode nem deve fragmentar-se. “É uma unidade não só geográfica, mas também histórica e cultural.” Apesar das dificuldades, Francisco mostra-se confiante em que, com um novo Parlamento e novos órgãos de governo, “se inicie um processo de impulso nesse sentido, que avance sem interrupções”.
Para isso, impõe-se o diálogo, pois “na União Europeia deve-se falar, argumentar, conhecer. Muitas vezes só se ouve monólogos de compromisso. Não, é preciso escutar.” Este diálogo deve ter como “mecanismo mental” o lema: “Primeiro a Europa e depois cada um de nós”. Evidentemente, este “cada um de nós não é secundário, mas a Europa conta mais”. Para um autêntico diálogo, “é necessário partir da identidade própria; a identidade própria não se negoceia, integra-se. A identidade é uma riqueza - cultural, nacional, histórica, artística - e cada país tem a sua, mas que seja integrada com o diálogo.” “Isto é decisivo: desde a identidade própria é necessário abrir-se ao diálogo para receber da identidade dos outros algumas coisas maiores. Nunca se pode esquecer que o todo é superior às partes. Cada povo conserva a sua própria identidade na unidade com os outros.”
É neste enquadramento que se deve atender aos perigos e enfrentá-los: o soberanismo e o populismo. “O soberanismo é uma atitude de isolamento. Estou preocupado porque se ouvem discursos que se parecem com os de Hitler em 1934. ´Primeiro nós. Nós... nós...’: estes são pensamentos aterradores. O soberanismo é fechar-se. Um país deve ser soberano, mas não fechado. A soberania deve ser defendida, mas as relações com outros países e com a Comunidade Europeia também devem ser protegidas e promovidas. O soberanismo é um exagero que acaba sempre mal: leva a guerras”. Acrescentou: O populismo também “fecha as nações” como o soberanismo. “O povo é soberano (tem uma maneira de pensar, de exprimir-se e de sentir, de avaliar); pelo contrário, os populismos levam-nos aos soberanismos: esse sufixo, ‘ismos’, nunca acaba bem.”
Sobre a identidade cristã da Europa, sublinhou que “a Europa tem raízes humanistas e cristãs, é a História que o diz. E quando digo isto, não separo católicos, ortodoxos e protestantes.”
Um dos desafios maiores para a Europa é a imigração. Acentuou, à partida, que não se pode perder de vista o direito à vida. “Os imigrantes chegam, principalmente, para fugir da guerra ou escapar à fome, do Médio Oriente e da África. Quanto à guerra, devemos comprometer-nos e lutar pela paz. A fome afecta principalmente a África.” Lembrou que, chegados às costas europeias, “acolher também é uma missão cristã, evangélica. As portas devem estar abertas, não fechadas.” Recebidos, apelou a que sejam acompanhados, promovidos e integrados. Ao mesmo tempo pediu prudência por parte dos governos, sublinhando que “quem governa é chamado a reflectir sobre quantos imigrantes podem ser acolhidos.”
Na entrevista, também falou do meio ambiente e, nesse contexto, do Sínodo para a Amazónia em Outubro próximo. Pediu que se leia a sua encíclica Laudato si’, “porque quem não a leu não compreenderá nunca o Sínodo sobre a Amazónia. A Laudato si’ não é uma encíclica verde, é uma encíclica social que se baseia sobre uma ‘realidade verde’, a protecção da Criação”. Para Francisco, é esta a justificação deste Sínodo: A Amazónia é “um lugar representativo e decisivo. Juntamente com os oceanos contribui de maneira determinante para a sobrevivência do planeta. Grande parte do oxigénio que respiramos vem-nos de lá. Por isso, a desflorestação significa matar a Humanidade.” Criticando os danos causados pelos interesses dos “sectores dominantes” sobre a região, desafiou a classe política a eliminar “os compadrios e corrupções” e a assumir as suas responsabilidades, “responsabilidades concretas”, para salvar a Amazónia e a Humanidade.
Ainda neste contexto, uma vez que no “Instrumento de trabalho” para o Sínodo se fala da possibilidade da ordenação de homens casados, por causa da falta de clero numa região tão extensa, foi-lhe perguntado se este será um dos temas principais do Sínodo. Resposta: “Não, de modo nenhum. Trata-se apenas de um número do “Instrumento de trabalho”. O importante serão os ministros da evangelização e os diferentes modos de evangelizar.
2. Algumas reflexões
2.1. O Papa Francisco moderou o tom ao falar da possibilidade da ordenação de homens casados. Também porque sabe que os ultraconservadores, liderados pelo cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que acusou de “herético” o documento preparatório do Sínodo, se lhe opõem também neste tema. Pessoalmente, estou convicto de que essa possibilidade se concretizará precisamente neste Sínodo, abrindo lentamente a porta ao fim da lei do celibato obrigatório e da discriminação das mulheres na Igreja. Note-se a observação de agrado de Francisco pela eleição de Úrsula von der Leyen para presidir à Comissão Europeia: “Porque uma mulher pode ser adequada para voltar a pôr em marcha a força dos pais fundadores.” As mulheres “têm a capacidade de acompanhar, unir”. Pergunta-se: Porque não também na Igreja?
2.2. Quero sublinhar a lucidez com que o porta-voz da Conferência Episcopal Espanhola, Luis Argüello, depois de constatar e lamentar que “continuam os barcos à deriva e mortos no Mediterrâneo e noutros lugares de cruzamento entre morte e esperança, opressão e liberdade, fome e segurança”, apresentou o que se poderia e deveria considerar os eixos da política migratória: “Afirmar a dignidade sagrada da vida, organizar a hospitalidade, combater as máfias e estudar as causas económicas e políticas das migrações forçadas podem ser elementos de um programa de governo para o bem comum.” O que está em causa é a nossa humanidade.
Neste contexto, eu que há muito tempo defendo algo de parecido com um “Plano Marshall” para África, quero igualmente sublinhar a lucidez das declarações do Presidente da República Portuguesa na sua recente visita oficial à Alemanha. Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que a União Europeia tem de ir “muito mais longe” na cooperação e apoio ao desenvolvimento em África: isso faz parte substancial de uma resposta “duradoura” ao “drama das migrações”. Quem emigra? “Quem não tem condições para viver onde vive”, cabendo, por isso, à União Europeia como um todo encontrar formas de ajudar a “criar essas condições”. Não se trata de “tentar resolver a questão no ponto de chegada, mas de resolvê-lo no ponto de partida”. “A Europa tem de apostar em África porque, sendo importante o relacionamento da Europa com todo o mundo, há aqui este continente vizinho, que tem muitas afinidades com a Europa desde sempre, e só isso poderá efectivamente criar condições para duradouramente não existir o drama das migrações.” O Presidente português disse ainda que a Alemanha e Portugal coincidem na necessidade de mais colaboração “entre a união Europeia e África”.
Ainda no quadro das migrações, o próprio Papa Francisco tem chamado a atenção para a necessidade de integrar os migrantes. Mas, aqui, acrescento eu, também eles terão de fazer um esforço para se integrar. Neste contexto, não posso aceitar os protestos de islamistas e feministas na Holanda contra a lei que proíbe a burka (não deixa ver nenhuma parte do rosto) e o niqab (cobre o corpo e a cara, exceptuando os olhos), lei que entrou em vigor no passado dia 1. Desde há muito tempo que me manifestei contra o uso da burka e do niqab, não por motivos religiosos, mas cívicos. De facto, no espaço público, todo o cidadão deve poder ser reconhecido.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 18 AGO 2019
Os críticos são unânimes em considerar “O Grande Gatsby” como um dos grandes romances da literatura mundial. O seu autor, Francis Scott Fitzgerald (1896-1940), tornou-se, de algum modo, um símbolo do tempo que retratou no seu livro, mas (como muitas vezes acontece) a sua obra-prima não teve imediatamente o reconhecimento que a posteridade lhe reservaria. Anthony Burguess afirmou mesmo que o livro e o autor definiram toda a geração. O amor e o drama de Scott e Zelda, as doenças, a tuberculose, o alcoolismo, a morte prematura, “Os Contos da Era do Jazz” e “Terna é a Noite” (1934) são marcas indeléveis.
Publicado em 1925, o romance passa-se entre Nova Iorque e Long Island, no verão de 1922, nos “anos loucos”, entre o fim da guerra e a grande crise. Há uma clara ambiguidade na apreciação de Fitzgerald, que admira o ambiente e o “glamour”, mas que critica o materialismo sem limites e os sinais evidentes de decadência moral. É o tempo da Lei Seca e da 18ª emenda à Constituição americana. A proibição da produção e consumo das bebidas alcoólicas gerou a especulação desenfreada e o aumento do crime organizado, tendo como símbolo Al Capone. Nick Carraway é um jovem comerciante de Midwest, que se torna amigo do vizinho Jay Gatsby, magnate célebre pelas festas que dava em Long Island. A fortuna de Gatsby é, no entanto, motivo de suspeitas, ninguém sabe o passado do anfitrião. Há ainda a referir Tom Buchanan, antigo desportista, casado com Daisy (Mia Farrow, no filme de 1974), que, por sua vez, é prima de Nick. Todos os sábados, há grande animação em casa de Gatsby, mas o entusiamo deste não é grande. E Nick descobre que o milionário só mantinha as festas na esperança de que Daisy, seu antigo amor, aparecesse. A pedido de Gatsby, Nick consegue que ele se encontre com Daisy e inicia-se uma relação explosiva. Tom apercebe-se do renascimento do amor de Gatsby por Daisy – e o seu ódio relativamente ao milionário é reforçado pelas informações que obtém sobre as atividades ilegais deste. Gatsby força Daisy a dizer a Tom que nunca o amou – o que ela faz, com alguma hesitação. Mas tudo se precipita, Daisy e Gatsby regressam a Long Island. É ela que conduz o automóvel amarelo. No caminho, ocorre um terrível acidente, é atropelada mortalmente Myrtle, mulher do garagista George Wilson, amante de Tom, que saíra desorientada de casa depois de uma discussão conjugal. Wilson fica desesperado e jura descobrir quem matou sua mulher. Tom explica-lhe que o automóvel amarelo não é seu, e que ele nada tem a ver com o tremendo desenlace. George Wilson está cego de ódio e sede de vingança. Nada ouve, apenas quer fazer justiça pelas próprias mãos. Durante toda a noite está muito agitado, profere impropérios, anda de um lado para o outro. Finalmente, parece chegar a uma conclusão e vai procurar o automóvel amarelo, dirigindo-se a casa de Tom, que prepara as malas para partir para longe com Daisy. Tom, sob ameaça de uma arma, insiste na sua inocência e refere o nome de Gatsby. Wilson, desvairado, parte ao encontro do magnate. Gatsby nada na piscina, ciente de que o amor de Daisy pode estar perdido, mas ainda lhe assiste uma remota esperança. O garagista dispara sobre Gatsby e mata-o, suicidando-se em seguida no amplo relvado da casa, outrora cenário deslumbrante. Com Gatsby morto, ninguém parece fazer caso da sua memória. Mr. Gatz, o pai, veio para o funeral, recordando a criança que seu filho foi e os compromissos que fez para que pudesse vencer na vida. Nick tenta encontrar quem vá ao enterro, mas ninguém se interessa. Apenas vão três pessoas - Nick, Mr. Gatz, e "Owl Eyes", talvez o único dos convivas das festas de Gatsby que um dia mostrou interesse a Nick pela biblioteca da casa. Quando Nick parte para o Centro-Oeste dos Estados Unidos, tudo parecia ter-se esvaído em ilusão, a relva noutro tempo impecável cresceu e o entusiasmo tão aparente daria lugar ao grande desastre…