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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VINGANÇA DE MARILYN

 

É mentira! E se me voltarem a perguntar, voltarei a dizer que é mentira. Marilyn, em The Misfits, não interpretou personagem nenhuma. Vingando-se de Arthur Miller, o marido com que estava a romper o seu terceiro casamento, foi só ela mesma, ela, a própria, ao longo desse filme maldito de tantas maldições e de que falo por ter quase a minha idade.

 

O genérico final do filme desmente-me: está lá escrito que a personagem dela se chama Roslyn Taber. Começamos por vê-la a tentar memorizar as falas que vai dizer ao juiz para se divorciar e não demoramos muito a saber que foi stripper, perdendo no bar duma cidade perdida o que os homens supõem que as mulheres perdem por eles ganharem, quando ganham, alguma coisa. Que se lixe o genérico, não há personagem nenhuma: The Misfits, como qualquer filme, mente com os dentes todos, e se os filmes têm dentes!

 

The Misfits é um filme de John Huston. Quem o escreveu – porque embora nestes tempos tão visuais custe reconhecê-lo, os filmes são escritos – foi Arthur Miller. Escritor, dramaturgo, se algum dia no século 30 alguém se lembrar dele há-de ser, se ainda houver raiva masculina, por ter sido marido de Marilyn. A mesma raiva que, agora, me faz ser injusto.

 

Miller era dono de uma mente literária e convencera-se que Marilyn nunca tivera um papel à sua medida. Via, como todos os literatos, mal cinema. Bem lhe podiam mostrar o Gentlemen Prefer Blondes, de Hawks, ou o Seven Year Itch, de Billy Wilder, que ele sempre os veria sem os ver.

 

O que ele via era a Marilyn que tinha à frente dos olhos. Via o ciclone emocional do casamento deles. Via, de Marilyn, a insatisfação voluptuosa, redonda e carnal, tão infantil às vezes, via a invulgar dualidade cartesiana que era a alma e o corpo dessa mulher.

 

Era isso que via, e foi o que Miller escreveu. Quando leu o script, Marilyn não gostou do espelho. Se calhar, adivinho eu, já se tinha visto assim e já se tinha visto melhor. E vingou-se.

 

A conselho de Truman Capote, Marilyn fora aluna de Constance Collier, actriz britânica e shakespeareana, e aprendeu com ela que não tinha teatro dentro de si. Katharine Hepburn, Bette Davis, até mesmo Lauren Bacall, tinham teatro, colocação, dicção. Ela não. O que tinha, e a professora Collier lhe mostrou, era fragilidade, a súbita luminosidade de um raio de sol, a beleza subtil de uma labareda no meio da noite. Coisas que não enchem um palco, mas fazem a felicidade da câmara de cinema. Como em The Misfits.  Filmada por Huston com um soft focus que a faz irreal, Marilyn paira no ar como pólen e a voz com que diz as falas é de uma ingenuidade de jardim-escola.

 

Passara tudo por Marilyn: abusos, violência, droga, humilhação. Mas nesse filme, em frente à câmara, Marilyn era só a imagem da inocência depois do pecado, a virgindade que, afinal, nunca se perde. E deixem-me dizer-vos: santo Deus, o que a inocência e a virgindade podem ser tristes.

 

Manuel S. Fonseca
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de setembro de 2019

 

Acaba de ser publicado “Antero, Portugal como Tragédia”, volume VII das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2019) com prefácio, organização e notas de Ana Maria Almeida Martins. Trata-se de uma obra fundamental, na qual é o grande ensaísta que se apresenta na lógica sequência do grande Mestre que foi Antero de Quental.

 


GRANDE INTÉRPRETE DE PORTUGAL
Falar de Eduardo Lourenço é invocar o grande intérprete de Portugal. E se é um português que fala, o certo é que a sua reflexão abre horizontes, recusando uma visão fechada ou retrospetiva da nossa identidade, abrindo-lhe novas dimensões, não providenciais ou mitológicas, mas capazes de integrar o imaginário crítico num diálogo diacrónico e sincrónico de diversos tempos e culturas. Para o ensaísta, Antero de Quental é a maior referência intelectual portuguesa e o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano. E assim Antero marcou o começo da nossa modernidade, sendo o seu verdadeiro fundador. As Conferências Democráticas, as Causas da Decadência, mas também o pensamento filosófico são marcos decisivos que se projetam na modernização e na abertura da cultura portuguesa e das culturas de língua portuguesa. Mas Eduardo Lourenço chama-nos a atenção para que não devemos esquecer quantos ainda se opõem a Antero e ao que ele continua a significar: “a visão unanimista da Geração de Setenta que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos e antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que com matéria viva o atravessaram”. E pode dizer-se que este alerta é válido para Antero e para Eduardo Lourenço, uma vez que uma leitura atenta do ensaísmo do autor de “O Labirinto da Saudade” está muito longe de simplificações, quiçá providencialistas, que quer Antero quer Lourenço sempre recusaram. O autor de «Portugal como Destino» é uma personalidade multifacetada que se singulariza pela coerência entre um pensamento independente e uma permanente atenção à sociedade portuguesa, à sua cultura, numa perspetiva ampla, avultando a reflexão sobre uma Europa aberta ao mundo e nunca fechada numa qualquer fortaleza encerrada no egoísmo e no preconceito. Em lugar de alimentar uma ilusão sobre qualquer lusofonia paternalista ou uniformizadora, o ensaísta alerta-nos para a exigência de entendermos a modernidade como um ponto de encontro entre a racionalidade ou o idealismo e a emotividade dramática e poética.

 

A PROCURA DAS RAÍZES
É a imagem e a miragem da lusofonia que têm de ser encaradas a partir da «chama plural» que leva a entender que língua alguma é invenção do povo que a fala, já que é a fala que o inventa. Sob a influência inequívoca de Antero de Quental, como reconheceu em «Poesia e Metafísica», o pensador exprime a sua grande admiração pelo facto de o voluntarismo do autor dos «Sonetos» não abdicar «da referência ética, no sentido mais radical, e esta, por sua vez, só encontra o seu fundamento na referência metafísica e o seu cumprimento como ideal último naquela aspiração que ele designou de “santidade”. Que no final da sua vida a tenha concebido mais sob a forma budista que cristã nada retira à exigência que nela se encarna. A esse título, Antero é o único intelectual comprometido com a ação que não transigiu com o comum espírito do seu tempo. No entanto, «os homens de alta exigência ética e mística – e Antero foi um deles – são sempre um pouco arcaicos» - como salienta, com aguda lucidez, num tempo demasiado carregado de leituras fechadas e definitivas. E se falamos da importância de uma geração que só por ironia pode ser qualificada de vencida, tão grande foi a sua influência, como só acontece para situações absolutamente excecionais, temos ainda de voltar ao facto de ter sido Eduardo Lourenço a ver no «universo» de «Orpheu» o que vai muito para além da circunstância em que se afirmou.

 

O QUE TÍNHAMOS A PROVAR, PROVÁMOS
Mas o ensaísta de «Labirinto da Saudade» é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. Portugal é uma série de milagres. Herculano chamou-lhe vontade. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural, sempre. «A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. Premonitoriamente, em nome da geração nova foi Antero de Quental quem definiu o programa positivo, que nunca poderá ser confundido com qualquer lógica de “vencidismo”. Se dúvidas houvesse, aqui está o corolário lógico da análise das causas da decadência. Só o sentido crítico permitirá retomar um caminho positivo de transformação e de progresso. Para muitos, depois da dureza do discurso, fica a surpresa pela determinação conclusiva. E pode dizer-se que o ensaísmo de Eduardo Lourenço assenta nesta extraordinária visão – que mais atrás se encontra em Garrett e Herculano e que se traduz na vivência dos fatores democráticos na formação de Portugal que o melhor ensaísmo do século XX desenvolveu. É a fidelidade de Antero à memória, é a compreensão da força das raízes, é a exigência da radicalidade crítica da modernidade que aqui se sente: «Meus senhores: há 1800 anos apresentava o mundo romano um singular espetáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía (…) ao lado dela, no meio dela, uma sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos. A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais uma grande civilização. Chamou-se a isto o Cristianismo. Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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     Minha Princesa de mim:

 

   Para começar esta em consonância com coisas que, em carta anterior te disse, Princesa, traduzo-te um trecho, quiçá algo longo, do capítulo XXVII do Pilote de Guerre do nosso já amigo Antoine de Saint-Exupéry. Mas creio também que nos ajudará a perceber porque é que alguns sages dizem que o cristianismo não é um humanismo... Sabes? Penso que é, talvez transcendental, pela pessoa de Cristo com duas naturezas, a divina e a humana. Afinal, conceitos e palavras valem sobretudo pelo sentido que lhes atribuímos... Sabemos bem que o cristianismo não é panteísta, nem os santos que inspiram devoções e cultos cristãos são deuses ; nem sequer budas. Mas não negaremos que o Novo Testamento está cheio de referências à humanidade nova, chamada à união com Deus pelo sacrifício e ressurreição de Jesus Cristo, o Novo Adão, de cujo corpo todos somos membros. Posso até dizer que o cristianismo é um humanismo resgatado e preparado para um mundo novo. E, no final de contas, é certamente a religião que professa a humanidade de Deus. A tal ponto, que até nos leva a perceber que já no Antigo Testamento o Deus Único do povo judeu vai surgindo no quotidiano dos homens.

   Os trechos que abaixo traduzo são todos respigados do penúltimo capítulo do Pilote de Guerre, o XXVIII. No seu conjunto, constituem, mais do que o cerne da meditação proposta pelo autor do livro, quiçá uma summa do pensarsentir de Antoine de Saint-Exupéry :

   Estraguei tudo. Delapidei a herança. Deixei apodrecer a noção de homem (humano).

   Para salvar esse culto de um príncipe contemplado através dos indivíduos, e a alta qualidade das relações que esse culto fundava, a minha civilização tinha, todavia, gasto uma energia e um génio consideráveis. Todos os esforços do «humanismo» se consagraram a esse objectivo. O humanismo escolheu para sua exclusiva missão iluminar e perpetuar a primazia do homem sobre o indivíduo. O humanismo apregoou o homem.

   Mas quando se trata de falar sobre o homem, torna-se incómoda a linguagem. Diferencia-se o homem dos homens. Não se diz nada de essencial sobre a catedral, se se falar só das pedras. E nada de essencial se diz do homem, se se procurar defini-lo por qualidades de homem. Assim sendo, o humanismo laborou em direcção a uma barreira. Procurou encontrar a noção de homem por uma argumentação lógica e moral, e a transportá-lo assim para as consciências.

   Não há explicação verbal capaz de substituir a contemplação. A unidade do ser não é transportável pelas palavras. Se quisesse ensinar a homens, cuja civilização o ignorasse, o amor de uma pátria ou de uma terra própria, não disporia de qualquer argumento para os comover. O que compõe uma terra nossa são campos, pastagens, e gado. Cada um, e todos juntos, têm por função enriquecer. E todavia, na terra nossa, algo escapa à análise dos materiais, já que há proprietários que, por amor à sua terra, se arruinariam para salvá-la. É pois pelo contrário esse «algo» que enobrece com particular qualidade os materiais. Estes tornam-se gado de uma terra, prados de uma terra, campos de uma terra...

   Assim também nos tornamos no homem de uma pátria, dum ofício, duma civilização, de uma religião. Mas antes de nos reclamarmos de tais seres, convém fundá-los em nós. Pois que linguagem alguma transportará o sentimento da pátria até onde ele não estiver. Só por actos fundaremos em nós o ser que reclamamos. Um ser não pertence ao império da linguagem, mas ao dos actos. O nosso humanismo menosprezou os actos. Falhou em sua tentativa.

 

   [Apenas este parêntese, Princesa de mim, para te lembrar ditos antigos, máximas e propósitos de vida, que ouvíamos na infância, tais como : Res non verba. Ou, já jovens crescidos, aqueles rasgos de divertidas observações queirosianas, em que, por exemplo, se comparavam profissões de fé patrioteiras a declarações de amor declamadas "a uma espanhola barata".]

  

   Eis que o acto essencial recebe aqui um nome : é o sacrifício.

   Sacrifício não significa nem amputação nem penitência. É essencialmente um acto. É um dom de si mesmo ao ser que se pretende reclamar. Só compreenderá o que é uma terra sua aquele que lhe tiver sacrificado uma parte de si, tiver lutado para a salvar, e esforçado por torna-la mais bela. Então lhe virá o amor da sua terra. A nossa terra não é uma soma de interesses, e será errado pensá-lo. É a soma dos dons.

   Enquanto a minha civilização se apoiou em Deus, conseguiu salvar essa noção do sacrifício que fundava Deus no coração do homem (humano). O humanismo menosprezou o papel essencial do sacrifício. Pretendeu transportar o homem (humano) por palavras e não por actos.

 

   Estas palavras foram sendo escritas pelo capitão piloto aviador Antoine de Saint-Exupéry, no activo, nos primeiros anos da segunda grande guerra. Reflectem actos efectivos, e sobre eles pensamsentem. O seu avião foi finamente abatido sobre o mar, em missão de reconhecimento, já próximo do fim da guerra. E desapareceu. Mas recordo-o sempre, ao ler este passo da 1ª Carta de São João : «Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama permanece na morte." Na verdade, é do ensinamento, não só de São João, mas da própria essência do cristianismo : já que nenhum de nós viu Deus, não poderemos então dizer que amamos a Deus, que ninguém vê (ou o Homem, conceito abstracto), se não amarmos os indivíduos que são nossos irmãos.

   Aliás, vou confidenciar-te, Princesa de mim, uma experiência íntima que tenho vindo a viver, ao longo do ano que passa. Parece-me que o amor fraterno é como que um adiantamento do nosso encontro final com Deus. Neste sentido, é um verdadeiro acto de fé, pois é substância das coisas que esperamos. Venho perdendo, como sabes, a companhia física de muitos amigos, cujos corpos são cremados ou enterrados. Acabo, agora mesmo, enquanto te escrevo, de saber que morreu o meu querido amigo João Maria Torre do Valle, exímio guitarrista, que tantas vezes, e em tantas partes do mundo, com sua guitarra portuguesa e a companhia da viola de fado do Fernando Alvim, me acompanhou quando eu cantava. Também falávamos muito, desde os tempos da Faculdade de Direito de Lisboa, de outros temas, e esses diálogos ainda não morreram. Acontece-me agarrar no telefone para falar ao Gaëtan, meu irmão de sangue, morto há quase dois meses, ou ao João de Deus ou ao Nuno Lorena.. e a muitos outros que a morte nos tirou da vista  -  alguns há quinze anos, como o António Luciano Sousa Franco, ou mais ou menos, como o Francisco Sá Carneiro, o Magalhães Mota, o Rogério Martins ou o Vítor Wengorovius. Todavia diferentes entre si, a cada um deles e muitos outros, e outras, me ligaram laços de profunda amizade, dessa tal que a liberdade e o gosto do diálogo edificam dentro de nós e em nós permanece para sempre. Ainda há dias, quando deveria fazer anos a Maria Benedita, falei com o Gonçalo, viúvo e triste, mas sustentado por essa presença invisível do amor, que é muito mais do que memória. E também ele me confidenciou que nunca apagava das suas listas os números de telefone dos amigos por agora longe do alcance das nossas redes de comunicação...

   Todos individualmente reconhecidos e amados. Todos vivos na nossa humanidade comum, a tal que mora no coração de Deus.

                                      Camilo Maria

  

 Camilo Martins de Oliveira

 

NO BRASIL, COLÓQUIO SOBRE TEATRO PORTUGUÊS

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Referimos hoje a celebração, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro - URFJ, de um colóquio sobre o centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andersen e de Jorge de Sena, ambos como bem sabemos escritores e dramaturgos de grande prestígio. Intitulado justamente “Sena & Sophia: Centenários”, o colóquio é uma oportuna iniciativa do Real Gabinete Português de Leitura e precisamente da Cátedra Jorge de Sena da referida Universidade: e é interessante referir esta dualidade temática, Sophia e Sena, a partir insista-se, do centenário do nascimento de ambos os escritores, sendo certo que Sena falece em 1978, e Sophia em 2004.

Já aqui evocamos o teatro de Sophia, em três artigos recentes, onde analisamos a dramaturgia desta extraordinária escritora que tanto prestigiou a criatividade poética, literária e dramatúrgica da literatura de língua portuguesa. Para esses artigos remetemos, salientando, entretanto, uma vez mais, a relevância e projeção que o colóquio representa, tendo em vista o âmbito prestigiado e prestigiante da UFRJ.

Mas veja-se agora que é interessante e prestigiante para as entidades organizadoras e também obviamente para a cultura portuguesa em geral, esta evocação da obra e da personalidade de Jorge de Sena. E então, merece o maior destaque a circunstância de que a iniciava se deve à precisamente designada Cátedra Jorge de Sena, da Faculdade de Letras da UFRJ, o que demostra a relevância do escritor.

E dado que esta rubrica se constitui precisamente num conjunto de análises a partir da arte cénica, referiremos então sobretudo a dramaturgia de Jorge de Sena, sem esquecer, note-se, a heterogeneidade e qualidade da sua obra geral, que noutra ocasião poderemos analisar.

Efetivamente, Jorge de Sena, apara além de um ato breve inicial de expressão mais realista, “Luto” (1938), inicia em 1945 uma renovação das expressões do teatro-texto, através algo paradoxalmente de reestruturação do teatro de temário histórico, com “O Indesejado - António Rei” (1945). E logo aí ressalta a modernização/inquirição dos temas e do estilo dominante do teatro: trata-se efetivamente de uma tragédia anti sebastianista, digamos assim, que como tal rompe com uma tradição clássica secular no teatro português...

E mais escreveu para a cena Jorge de Sena, perdoe-se a quase redundância, através de uma série de textos dramáticos que vão buscar a temas por vezes de evocação histórica como que uma análise crítica da realidade do seu tempo: assim temos “Amparo de Mãe” (1948), “Ulisseia Adúltera” (1948), “A Morte do Papa” (1964), “O Império do Oriente” (1964), “O Banquete de Dionísios” (1969), “Prometeu ou o Homem que Pensava demais” (1971).

Mas não ficou por aqui a intervenção do Jorge de Sena no teatro. Na verdade, colaborou com António Pedro e nos relevantes - na época pela renovação e culturalmente ainda hoje - Companheiros do Pátio das Comédias e Teatro Experimental do Porto. E mais: de junho a setembro de 1948, Jorge de Sena adaptou para a rádio nada menos do que 13 romances policiais emitidos no então importante Radio Clube Português num programa produzido por António Pedro, com quem aliás colaborou no Teatro Experimental do Porto.

Tal como como escreveu Luis Francisco Rebello, parte das peças de Jorge de Sena “direta ou indiretamente se reconduzem á estética e à ética do surrealismo”. (in “O Jogo dos Homens” 1971). E tal como eu próprio escrevi, e seja-me permitida as auto citações, “Jorge de Sena representa a mais acabada continuidade e complementaridade entre o Surrealismo e o Classicismo”, no contexto de “uma visão muito ácida e crítica da sociedade portuguesa…” (in História do Teatro Português” ed. Verbo 2001 e “Teatro em Portugal” ed. CTT 2012).

 

DUARTE IVO CRUZ

   

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LV - GILBERTO FREYRE

 

Defende Gilberto Freyre estar dentro da tradição portuguesa do Brasil, como no Oriente e em África, a tendência de assimilação de outros elementos, mesmo se estranhos.

Exemplifica-o com o português (idioma) tido como o primado número um da cultura de origem maioritariamente portuguesa no Brasil, falando de uma língua portuguesa enriquecida e mestiça, por aquilo que já assimilou do indígena, do africano, do holandês, do castelhano, do francês, do inglês, a qual não deve significar nunca uma exclusividade purista contrária, per si, à lusa tradição de assimilação. Assimilação sem violência, atenta a oportunidade que sempre, ou quase sempre, lhes tem dado de se exprimirem, de modo a que se faça docemente e por interpenetração.

Transportando tal capacidade de adaptação e assimilação do idioma e tradição portuguesa para o Brasil, defende que a tradição brasileira pode enriquecer-se, e muito, no contacto com as culturas levadas pelos imigrantes alemães, espanhóis, húngaros, italianos, japoneses, judeus, poloneses, entre outros.

Escreve, a propósito:
“De modo nenhum me parece que idiomas com o rico conteúdo cultural do alemão ou do italiano devam ser desprezados ou combatidos como inimigos pela gente brasileira. …devem ser aceites como estímulos ao nosso progresso cultural. Mas nunca, é claro, ao ponto de qualquer dos dois - o idioma alemão ou italiano - tomar, em qualquer regia, o lugar da língua tradicional, essencial, nacional que é a portuguesa. Esta que se enriqueça de germanismos e italianismos, como já se enriqueceu de indianismos, de africanismos, galicismos, mas continuando, na sua estrutura e nas suas condições de desenvolvimento, a língua portuguesa e a língua de todo o Brasil. A língua, também, desse conjunto transnacional de calores de cultura que é o mundo de formação lusitana” (“O Mundo que o Português Criou”, Prefácio).

Pluralidade de cultura sim, dentro do primado da cultura de origem predominantemente portuguesa e cristã, não renegando o critério histórico de formação luso-brasileira, pelo que o que for hostil a essa formação é contrário aos interesses do Brasil.
Assim, embora o Brasil deva defender e preservar a sua tradicional cultura luso-brasileira, não deve fechar-se nela, antes sim defendê-la, desenvolvendo-a.

Afirma que a língua portuguesa se vem destacando “(…) cada vez mais das línguas simplesmente neolatinas, pela crescente tropicalização das suas vozes, dos seus sons, do seu modo de corresponder a estilos e a conveniências de populações de várias origens, etnias e culturas, integradas em países quentes, dentro das normas de interpenetração ou de tolerância que tornam possível uma pax lusitana, diferente da romana e principalmente da britânica” (“O Luso e o Trópico”).

São seus exemplos palavras como amorenar, bronzear, banzar, xingar, cucutar, sol tropical, sol do trópico, num “português com açúcar” (ou chocolate?) de sotaque e pronúncia brasileira nas suas vozes e sons tropicais.

Trata-se de uma conceção pioneira em que as áreas culturais viriam a ter uma importância crescente no século atual, representando o luso-tropicalismo uma antecipação da lusofonia ou comunidade lusófona, institucionalizada através da CPLP, uma realidade plural em que a comunidade internacional está identificada.

 

06.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

ESTE LIVRO É UM CORAÇÃO QUE O ESCREVE EM JEITO DE ORAÇÃO.

 

Ela, como ninguém, ensinou-me a importância de exercitar a gratidão.
Ela, como ninguém, mostrou-me que é o facto de esperarmos um destino comum que nos faz cúmplices e irmãos na aventura do caminho.»
Filipe Condado

 

José Tolentino de Mendonça e Filipe Condado atentos ao parto da alma de Etty Hillesum, porque se vive sempre e primeiro por dentro; porque a reconciliação é o pré parto que expele qualquer ódio que mine o entendimento da vida espiritual, porque se o desejo desta for identificado e abraçado pela única porta que nos conduz a nós e aos outros: então saberemos que nos referimos ao amor; então julgo que sei um pouco do itinerário deste livro.

 

Emocionou-me profundamente a leitura deste livro: os excertos do diário de Etty, as fotografias e as palavras de Filipe Condado, as palavras de Tolentino.

 

Este livro propõe um horizonte que não se esgota através do humano, mas por aí encontra a sua expressão/mediação de chegar lá onde e aonde se trabalha espiritualmente a vida, sobretudo para nela confrontarmos os pontos dolorosos, quantas vezes vividos na nossa família (não se escolhe lugar onde se nasce, nem pai nem mãe, nem outros pontos de partida) que nos condicionaram o sonho de muitos modos, e até nos fizeram sentir abandonados, ou, como diz Etty ao falar de casa

É tragicómico, não sei que tipo de casa é esta, mas aqui uma pessoa não progride.

 

Esta substância aniquiladora, da qual se apercebe Etty insinua-se sólida na sua vida e ela receia que prisioneira, perpetue aquela mistura de barbarismo e cultura, espécie de qualquer coisa que era, sem nunca ter sido, e, no entanto fora.

 

Talvez a partir daqui, por um caminho ou outro, comecemos um começo sem fugirmos de nós, e escutando-nos, até que nessa escuta caiba a nossa vulnerabilidade, a nossa necessidade de aperfeiçoamento a cada hora, a fim de expelirmos a tal

Tralha humana e matagal manhoso

que temos em nós, se não passarmos também da cabeça para o coração como diz Spier a Etty.

E tudo isto com a ajuda do silêncio.

 

Só o silêncio nos aproxima a pergunta: quantas pessoas existem em cada um de nós? Creio que pergunta semelhante aproximou Etty Hillesum a um caminho com Deus; um caminho, o tal caminho muito encostadinho ao seu íntimo, tão encostadinho que lhe confiava um calor de xaile de mãe, um calor que a apaziguava consigo mesma.

 

A partir desta conciliação, interpretei, abre-se sempre uma vastidão apta há muito! A tanto! que até o que nos ensina a ocupar-nos dos outros é o mesmo que se ocupou da nossa mão e nos disse de algum modo que

Existe algo de «Deus» na Nona de Beethoven.

 

Surge-me uma Etty Hillesum que se não quer perder em constantes campos de batalha; uma Etty que deixa o umbigo para espreitar um tantinho de eternidade, outro tantinho dentro dela que é a intuição de encontrar uma sabedoria que a faça pessoa, e não um conhecimento que lhe aporte poder.

 

E este livro também se pode ler abrindo-se em qualquer página. E este livro também se lê só vendo os desenhos; e este livro é uma preciosidade contra o medo e não o simplifica, antes o sossega: eis a tranquilidade.

 

Quando uma pessoa leva uma vida interior, talvez nem haja tanta diferença entre estar fora ou dentro dos muros de um campo.

 

O campo de concentração: o trabalho do espírito a enfrentá-lo de dentro para fora.

 

Lembrei-me que se torturam barbaramente os elefantes para lhes retirarem o espírito, isto é, para os subjugar e humilhar pela dor, faze-los ceder, desaparecer de si. Mas como fazer sumir no ar as humilhações no campo de concentração? E Etty escreveu

Esta manhã desfrutei do vasto céu (..). Diria eu que Etty nos propõe o céu total, mesmo que visto por uma brecha minúscula.

 

E chega outra proposta de pensamento: será que o maior roubo que nos é feito, é feito por nós próprios? Se assim for é necessário o despojamento material e de aparência, para melhor vivermos uma vida em cada dia, uma vida na posteridade, e dentro dela, acolhe-se então, simplesmente, a morte.

 

Etty deixou de estar revoltada, mas resignada nunca! Foi capaz, sim, de tirar energia do sofrimento e como escreveu

A partir de agora vou extrair o essencial de tudo com o meu espírito e guardá-lo para tempos de vacas magras.

 

Se Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar a Deus.

 

Saberemos todos os caminhos que em nós se abrem ao entendimento da condição humana? Da sua índole? Saberemos nós perdoar-nos para que possamos perdoar os outros?

 

Saltam-me os poemas à memória, e todos eles sabem que à beira do morrer se descobre a paz da vida, e na mochila que connosco há-de partir em frutos e cereais vocacionados ao indizível sossego, digo, que mesmo que expressão alguma de desgosto humano não me seja alheia, que o absoluto possa conter em si o bem e o mal

Uma pessoa deve ser a sua própria pátria

e estar preparada para todos os inícios, acrescento, mesmo que eu não saiba como, mesmo que esteja eu num descampado de mim, saiba a minha mão por ela, que a estendo para ti.

 

Teresa Bracinha Vieira

DEUS AOS RICOS: “INSENSATOS!”

 

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1. É mau ser rico? Não, de maneira nenhuma. Ai de nós, se não houvesse ricos, com iniciativa e capacidade para investir, criar riqueza, dar emprego a tanta gente, fazer progredir um país e o mundo! A riqueza, diz a Bíblia, é uma bênção. A pobreza, essa é uma maldição. O que é que podemos fazer sem algum dinheiro? Mesmo para fazer o bem e ajudar outros precisamos também de dinheiro. A expressão “Igreja dos pobres” pode levar a equívocos, pois não se trata de realizar “o ideal” de todos serem pobres. Pelo contrário: “Igreja dos pobres e para os pobres”, para acabar com um mundo de pobres que não têm aquele mínimo que lhes permita realizar a sua dignidade humana e cristã.

Pense-se na “parábola dos talentos”. Um dos contemplados foi condenado porque nada fez com o seu talento. Cada um de nós é ele, é ela, o que a família e a natureza nos deram gratuitamente e também o resultado do que conquistámos com o nosso trabalho e o nosso esforço.

 

2. Então porque é que a Bíblia condena os ricos: “Ai de vós, os ricos!”, proclama Jesus no Evangelho. Porque há a riqueza que é preciso condenar.

2.1. Em primeiro lugar, é maldita a riqueza roubada, a que provém do roubo, da exploração. E, meu Deus!, o que se rouba, também neste país! Aos milhões e milhões! Uma desgraça! Por exemplo, há Bancos que se afundam e o Estado, isto é, nós, os contribuintes (alguém viu o Estado?), pagamos milhares de milhões e não acontece nada, nem sequer um julgamento. Foi a antiga Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal que afirmou recentemente que o Estado está “capturado” por redes de corrupção e compadrio: “Há efectivamente algumas redes que capturaram o Estado e que utilizam o aparelho do Estado para a prática de actos ilícitos... Se nós pensarmos um pouco naquilo que são as redes de corrupção e de compadrio, nas áreas da contratação pública, que se espalham às vezes por vários organismos de vários ministérios, autarquias e serviços directos ou indirectos do Estado, infelizmente nós estamos sempre a verificar isso.” E há os pequenos e os grandes ladrões, como já Lutero se queixava: “Quando olhamos para o mundo de hoje através de todas as camadas sociais, constatamos que não passa de um grande, enorme covil cheio de ladrões... Aqui, seria necessário calar quanto aos pequenos ladrões particulares, para atacar os grandes e violentos, que diariamente roubam não uma ou duas cidades, mas a Alemanha inteira... Assim vai o mundo: quem pode roubar pública e notoriamente vai em paz e livre e recebe aplausos. Em contraposição, os pequenos ladrões, se são apanhados, têm de carregar com a culpa, o castigo e a vergonha. Os grandes ladrões públicos devem, porém, saber que perante Deus são isso mesmo: os grandes ladrões.” O que Lutero disse há quinhentos anos para a Alemanha de então, desgraçadamente vale hoje para o mundo todo, incluindo Portugal.

2.2. É amaldiçoada a riqueza insolidária, também com a Natureza (veja-se o que se passa, por exemplo, com a Amazónia). Não se trata, portanto, de acabar com a riqueza, mas de tornar solidários os ricos. Ai dos ricos que exploram os trabalhadores, que fogem aos impostos, que esmagam os pobres, que só pensam neles mesmos, abandonando à miséria os desgraçados e tantos que morrem à fome. Uma das vergonhas maiores da Humanidade é que há hoje comida suficiente no mundo para que todos pudessem viver e não somos capazes de erguer um sistema de distribuição que impeça a morte à fome ou em consequência dela de 40.000 pessoas por dia, segundo algumas estatísticas. E alguns dos maiores fluxos financeiros do mundo têm a ver com matar: pense-se no armamento, nas drogas, na prostituição...

2.3. A maldição maior provém do facto de se fazer do dinheiro um ídolo.

Jesus foi claro: “Não podeis servir a Deus e a Dinheiro”, com maiúscula, Mammôn, um deus a quem entregais a vossa vida e salvação. E contou uma parábola: “Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer?, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos, descansa, come, bebe e regala-te’. Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vais morrer; e o que acumulaste para quem será?”

Está aquele rico, de noite, deitado na cama, sozinho, não tem ninguém, apenas aquele pensamento soberbo e auto-satisfeito de que tem riqueza suficiente para muitos anos. Não tem uma mulher amiga, não tem amigos, não pensa nos familiares, nos pobres e desgraçados, nos seus trabalhadores a quem talvez explore, não tem ninguém, é só ele, exaltado e exultante: “Descansa, come, bebe e regala-te!” Mas, de repente, assalta-o o terror da morte: “Esta noite vais morrer!” Afinal, tudo o que acumulou para quem será? Está angustiado. “Insensato!”, diz-lhe Deus. Para que foi a sua vida? Quem vai salvá-lo? Todas as suas riquezas acabam ali. Como escreve o grande exegeta Xabier Pikaza, “este rico néscio, insensato, imagina céus de dinheiro e sofre terrores de morte.” Não lhe resta nada.

 

3. Por muito dinheiro que tenhamos, é necessário perceber (e não é preciso pensar muito) que há âmbitos essenciais da vida, o essencial, em que seremos sempre pobres, porque o dinheiro não compra tudo. A amizade não se compra. A alegria interior verdadeira não se compra. A honra não se compra. A dignidade também não. A salvação eterna não se compra. Deus, sim, Deus, não se compra. Ele há a graça, o gratuito.

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 SET 2019

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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UMA NOTA FINAL – OS TEXTOS ANTIGOS (XXXII)

Italo Calvino disse que um clássico “é um livro que ainda não acabou de dizer o que tem para dizer”.
Ao falarmos de trinta clássicos das Letras, lembrámo-lo, e fizemos uma escolha aleatória, considerando a vida contemporânea.

Importa, porém, não esquecer as grandes obras da espiritualidade, que continuam a ser referências fundamentais das diferentes sociedades e culturas.

Escolhemos hoje três livros finais, que continuam a influenciar decisivamente a vida dos nossos dias. Sem entrar em exemplos concretos, basta regressarmos a diversos dos livros escolhidos, para rapidamente encontrarmos alusões, referências e símbolos, incompreensíveis sem recorrermos aos textos que hoje recordamos.

Lembrando-nos da origem indo-europeia das nossas culturas, começamos por “Bhagavad Gita”, a “canção do bem-aventurado”, escrito em sânscrito (língua donde provêm quase todas as línguas europeias). É um texto religioso hindu. Faz parte do épico Mahabharata, embora seja de composição mais recente que o restante livro. A versão que chegou aos nossos dias data do século IV a.C.. Relata o diálogo de Krishna, suprema personalidade divina, com Seu discípulo guerreiro, em pleno campo de batalha. O tema é da iluminação diretamente de Krishna e da ciência da autorrealização. No desenrolar da conversa são colocados pontos importantes do bramanismo. A obra é uma das principais escrituras sagradas da cultura da Índia, designadamente na religião Vaishnava, com ramificações de fé em Vishnu ou Krishna. Deus está para o mundo como o artista para o seu trabalho. Deus será o Criador (Brahma), o Conservador (Vishnu) e o Destruidor (Shiva), que, no fim devolve todas as formas finitas à natureza primordial donde emergira. O “Bhagavad Gita” contém a essência do conhecimento védico da Índia e é considerado um dos grandes clássicos espiritualistas da humanidade.

Já a “Bíblia” é composta do Antigo e do Novo Testamento, tendo o “Antigo Testamento” sido escrito entre 1500 a. C e 450 a. C., e o “Novo Testamento” entre 45 e 90 da nossa era, em cerca de 1600 anos. Estamos perante uma verdadeira biblioteca, de muitos autores e de diversas circunstâncias. Enquanto uma certa tradição coloca no tempo de Moisés a autoria dos primeiros cinco livros da Bíblia (Pentateuco), muitos estudiosos consideram que foram compilados apenas depois do exílio babilónico (século IV a. C.), a partir de outros textos datados entre os séculos décimo e o quarto antes de Cristo. O “Pentateuco” (cinco rolos) é designado pelos judeus como “Torá”, palavra hebraica que significa instrução ou Lei, tendo Moisés sido o seu principal autor. É o ensinamento judeu através da história – “e viver segundo a Lei é viver no tempo a vida da eternidade”. O “Novo Testamento” apresenta a história de Jesus Cristo, Filho de Deus, e a pregação dos seus ensinamentos durante a Sua vida e após a morte e Ressurreição, em Quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), a partir da ideia de “Boa Nova”, os “Atos dos Apóstolos”, as Cartas dos Apóstolos, em especial de Paulo e o “Apocalipse de S. João”.

O Alcorão é o livro sagrado do Islão. Os muçulmanos consideram que se trata da palavra literal Deus (Alah) revelada ao profeta Muhammad (Maomé), ao longo de um período de vinte e três anos. 92 capítulos foram revelados em Meca, e 22 em Medina. Está assim organizado em 114 capítulos, denominados suras, divididas em livros, seções, partes e versículos. A palavra Alcorão deriva do verbo árabe que significa declamar ou recitar. Os capítulos estão dispostos de acordo com a sua extensão e não de acordo com a ordem cronológica da revelação. Cada sura pode por sua vez ser subdividida em versículos. O número de versículos é de cerca de 6600. A sura maior é a segunda, com 286 versículos e as suras menores possuem apenas três versículos. Os capítulos são tradicionalmente identificados pelos nomes e não pelos números – A Vaca, A Abelha, O Figo ou A Aurora, por exemplo.

Os clássicos dos clássicos são, afinal, os que sempre têm algo para dizer.

 

Agostinho de Morais

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 2 a 8 de setembro de 2019

 

“Poesia 61” (Faro, 1961) não foi um cânone ou uma orientação, mas um encontro, em que houve uma procura de radicalidade por diversos caminhos.

 

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FARO, 1952
Há um poema de Gastão Cruz a que gosto sempre de regressar, uma vez que me recorda o Algarve que sempre conheci, de minha mãe e de meus avós, e de tantos amigos, muitos que já partiram. O título, “Faro, 1952”, tem a marca do ano em que nasci, mas lembra-me recordações de que ouvi falar ou que presenciei, ao longo dos tempos. Há um ano, quando homenageámos em Querença Gastão Cruz no FLIQ, essas palavras soaram com especial intensidade e brilho: “O café, do outro lado a livraria / essa a meta / da tarde / quando esfria a pele / sem que / frio fique o dia, / as linguagens regressam às cúpulas / de folhas / e os treze noturnos ainda nos esperam…”. Quantas lembranças? Quando percorro aquelas ruas de Faro, não só recordo a “Gente Singular” de Manuel Teixeira Gomes, mas também, há muitos, muitos anos, o meu avô a lembrar que ali encontrava, nos dias finais da sua vida, o poeta Cândido Guerreiro. E por isso este poema ainda ganha para mim maior sentido, já que é essa mesma memória que aqui se recorda. “… Percorremos a rua / até onde entra nela a aragem da ria / e o café dum lado, do / outro a livraria, / à porta o chapéu largo e a barba / branca / dum poeta do passado”… Assim se ilustra bem a afirmação de Gastão Cruz sobre ser “poeta do real”, singularíssimo, na boa companhia de outros poetas como Sophia, Sena, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Armando Silva Carvalho, Fernando Assis Pacheco, Luiza Neto Jorge… De facto, cada um imprime na realidade que nos cerca uma marca especial de crítica e de confronto. E assim podemos entender a importância de Luiza Neto Jorge disse ao “Diário de Lisboa”, em maio de 1961: “Parece-me que entre nós o surrealismo ainda terá razão de ser – como total destruição de cânones bafientos, como reação a um ambiente social rígido”. Sim, há rutura com um certo “discursivismo”, como afirmou Gastão. E se há prenúncios relativamente a essa atitude, temos de referir os casos de António Ramos Rosa, espécie de padrinho do grupo de 1961, em Faro, com “O tempo concreto” e “O boi da paciência” (em “O Grito Claro”) e do “Poema podendo servir de posfácio” de Mário Cesariny, que encerra “O discurso sobre a reabilitação do real quotidiano”…

 

UM ANO ESPECIAL
1961 é um ano especial. Os acontecimentos nacionais sofrem uma aceleração em virtude da guerra de África. Nada será como dantes. É verdade que 1958 anunciou esse movimento uniformemente acelerado no sentido da criação da democracia – a candidatura de Humberto Delgado, sob o impulso de António Sérgio, a tomada de posição do Bispo do Porto, e o seu afastamento do país, mas também a publicação de “Mar Novo” de Sophia, como grito de alerta, perante a injusta e absurda desclassificação do projeto de João Andresen, Júlio Resende e Barata Feyo vencedor do concurso para homenagear o Infante D. Henrique em Sagres. E muitos ainda esquecem esse episódio fundamental. Lembro-me de ter sugerido a alguém que relesse o livro de Sophia de 1958, à luz desse impulso de uma genuína revolta. E tive a confirmação de que foi com surpresa que o meu interlocutor se apercebeu disso mesmo… Reuniram-se então os fatores que tornavam inexorável a liberdade. E era Sagres, e era o Algarve, e era a consciência da democracia que estava em causa. E era essa paisagem algarvia, sobretudo dominada pelo mar, que revelava a personalidade fantástica que domina o filme de João César Monteiro “Sophia de Mello Breyner Andresen” (1969). Frederico Lourenço tem razão quando afirma que é no Algarve que se inicia a Grécia de Sophia. Quando lemos “A Morte Percutiva” de Gastão Cruz, ou quando encontramos Fiama, Luísa Neto Jorge, Mara Teresa Horta e Casimiro de Brito, nos textos de 1961, compreendemos um movimento comum, marcado pela energia resultante “do embate entre o corpo que aspira à sua plenitude e um país cercado, onde todos os movimentos são vigiados ou proibidos”. Percebe-se bem uma visão pessimista, a consciência de uma doença de repressão e de guerra, ligada a uma circunstância pessoal de luto. Contudo, subjacente a esse embate, a esperança tornava-se uma coisa física, como “força dos corpos e do desejo”. E Gastão Cruz em “A Doença” precisa: “A este sítio há de o amor / ainda amor chegar / agora vamos ambos / pelos campos à espera duma dor de que viver”... Eis por que razão o curso do tempo foi revelando nessa atitude não uma escolástica, mas o reconhecimento da coexistência de caminhos múltiplos. “Uma revolta de palavras, apelando a um novo discurso” (na expressão de Luísa Neto Jorge).

 

A LUZ AMADURECE AS PEDRAS E OS FIGOS
Por estes dias, deambulei com o estio, a música das cigarras e as palavras de Gastão (“Os Poemas”, Assírio e Alvim, 2009): “A luz amadurece as / pedras e os figos nos lados dos caminhos / adoça as alfarrobas fende a casca / cinzenta das / amêndoas e desprende-as / varejamos / as que ficam presas de leve / aos ramos; / no armazém da casa amontoadas / descascar as / amêndoas o verão”. Mas também lembro o ritmo antigo, junto de quem conheci e amei: “Na horta atrás da casa laranjeiras / figueiras e uma / romãzeira junto à nora / Às vezes vagarosa a mula com antolhos / rodava toda a tarde / fazendo os alcatruzes despejar / incessantemente água”. É quase perturbador como tudo se assemelha. Estou a ver tudo como se fosse agora. Este Mediterrâneo banhado pelo Atlântico leva-nos muito longe, aos fenícios e cartagineses, aos gregos e romanos, aos misteriosos povos da língua do Sudoeste. E vêm à lembrança Manuel Viegas Guerreiro, com a sua especial atenção, às tradições e costumes, à memória imaterial, mas também Miguel Torga, sentado em Albufeira, num círculo de amigos, com o doutor Serra, a comentar a política, a gozar o fim da tarde e o luminoso pôr-do-Sol. Ainda há dias o recordei com sua filha Clara, e reluziram-lhe os olhos com essas recordações. E lembro Sophia e Ruy Belo no poema  de Gastão em “Repercussão” (2004) na Esplanada do Campo Pequeno (“Não achas que a esplanada é uma pequena pátria a que fomos fiéis?”): “o autor entrara e a presença / dele tinha tornado mais longa a hesitação / entre o sentido e o som ou suprimira-a? / É pouco fotográfica a memória / sonora e uma noite em casa de Sophia / (Que fica dos teus passos dados e perdidos?) / mais do que cada frase, cada pausa / do voo do tempo fizera a suspensão / seria primavera novamente / era talvez em tempo de tormenta / janeiro de 70 mês de febre / um dia só que na memória sobra / (o resto vem do Ruy Belo / Ruy Belo é o poeta vivo que me interessa mais / e é talvez hoje o tempo de tormenta”… Quantas memórias são suscitadas por este regresso às ruas de Faro e ao rincão algarvio, povoados por velhos amigos? Como disse ainda Gastão Cruz; “Palavras não existem / fora da nossa voz as / palavras não assistem / palavras somos nós”(A Doença, 1963).

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

“ATÉ DEUS, APÓS A CRIAÇÃO, DESCANSOU E QUIS QUE HOUVESSE UM DIA DE DESCANSO SEMANAL”

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A preguiça é, segundo a doutrina da Igreja Católica, um dos sete pecados capitais e até há um ditado que a classifica como a mãe de todos os vícios. Num tempo em que preguiçar é um luxo a que poucos podem dar-se, perguntámos ao padre Anselmo Borges porque é que a Igreja a olha como uma falta tão grave.

 

A preguiça era um dos sete pecados capitais. Porquê?
Era e é. Os pecados capitais são sete: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja, preguiça. Sete é um número perfeito. Neste caso, número perfeito dos vícios que estão à cabeça de todo o mal, por isso se chamam capitais (de capitis, cabeça) e de que as pessoas devem libertar-se. Porquê? Os vícios são-no porque estragam a nossa vida ou a vida dos outros, prejudicam-nos, fazem-nos mal. Pergunto: a preguiça não é contra uma vida autêntica? Não dizemos de alguém preguiçoso, que não trabalha nem cuida da família, que é um parasita e que está a prejudicar outros? Até há um ditado que diz que “a preguiça é a mãe de todos os vícios”.

 

Mas não é um exagero que o que hoje é quase uma necessidade ou até direito, como escreveu Lafargue, assuma tal gravidade?
No sentido que expliquei, não.
Tudo depende do que se entender por preguiça, que é um mal se for a recusa do trabalho e o tentar viver à custa dos outros ou encostado ao Estado.

 

É preciso cultivar o valor do trabalho?
Temos de “ganhar” a vida. A vida é um dom, mas, por causa da “neotenia” (viemos ao mundo por fazer e temos de fazer-nos, realizar-nos), temos de trabalhar. O trabalho é uma das características humanas que nos distinguem dos outros animais. Transformando o mundo pelo trabalho, transformamo-nos a nós e realizamo-nos. Por outro lado, o trabalho implica uma tarefa em comum: pelo trabalho, realizamo-nos coletivamente, uns com os outros. E há o trabalho enquanto esforço duro, mas também há a alegria de ter realizado um trabalho, uma obra (em inglês, trabalhar diz-se to work, que vem do grego érgon, obra). Admiramos quem realizou uma obra.

 

Que significado têm os pecados capitais?
São vícios que estão na base de uma existência má para nós e para os outros. Não é verdade que a soberba nos estraga a vida, levando à arrogância e ao desprezo dos outros? Não deve dizer-se o mesmo da avareza, pois acabamos por dar mais importância às coisas do que às pessoas? E da luxúria, que desumaniza a sexualidade? Da ira, que pode levar à violência e a matar? Da gula, que dá cabo até da saúde? Da inveja, que se entristece com o bem dos outros? E da preguiça, como disse.

Segundo a Bíblia, até Deus, após a criação, descansou e quis que houvesse um dia de descanso semanal, para que o ser humano soubesse que não é uma besta de carga. O problema agora é que as pessoas se esgotam a produzir e a consumir.

 

Fez recentemente um elogio do inútil, numa crónica sua no Diário de Notícias. A preguiça não é também uma forma desse inútil cuja importância sublinha?
Tudo depende do que se entender por preguiça, que é um mal se for a recusa do trabalho e o tentar viver à custa dos outros ou encostado ao Estado. Mas faço o elogio do inútil, e é necessário sublinhar isso num tempo em que tudo se compra e tudo se vende, como se os únicos valores fossem os do ídolo dinheiro. É preciso voltar ao gratuito: uma flor que se oferece, contemplar a beleza, fazer silêncio para ouvir melhor: a grande música, que é o divino no mundo, extasiar-se com um pôr-do-sol, a lua e as estrelas, a arte em geral, a poesia, o saber pelo saber, rezar, meditar, ir ao mais íntimo de si para tocar o essencial do mistério…

 

 

Há quem encare esse tempo de contemplação e silêncio, por exemplo, como preguiça. Numa sociedade acelerada como a nossa e centrada no trabalho e no desempenho, como conquistar tempo para essa “preguiça boa”?
É essencial tempo para o gratuito, para o ócio. A nossa palavra escola vem do grego scholê, que significa ócio. Mas trata-se do ócio próprio dos cidadãos, tempo livre para pensar (lá está a filosofia) e governar a pólis. O problema hoje é que tudo, até as férias, se tornou negócio, a negação do ócio. Tudo está mercantilizado. Outro veneno do nosso tempo: o desassossego interior, a agitação, a sociedade-espetáculo…

 

O maior problema é já não sabermos como usar o tempo livre?
Segundo a Bíblia, até Deus, após a criação, descansou e quis que houvesse um dia de descanso semanal, para que o ser humano soubesse que não é uma besta de carga. O problema agora é que as pessoas se esgotam a produzir e a consumir, até se consomem a consumir, esquecendo que o homem é, constitutivamente, trabalhador e festivo. E consumimo-nos mesmo, sem tempo para viver. Simplesmente isso: viver o milagre do ser e de existir!
Não penso que os portugueses sejam propriamente preguiçosos. Somos é pouco produtivos, por motivos vários: falta de qualificações, falta de salários justos e motivadores, falta de bons gestores…

 

O que tem a preguiça de bom e de mau?
Já lhe disse em que sentido a preguiça é mal. Mas é um bem necessário naquele outro sentido de não fazer nada, pura e simplesmente para se poder viver o milagre de existir. Somos seres festivos e precisamos de festejar, conviver com a família, apreciando um bom copo de vinho, apanhar sol relaxadamente deitados na praia…

 

Diz-se muitas vezes dos portugueses que são preguiçosos. São ou a “acusação” é uma injustiça?
Não penso que os portugueses sejam propriamente preguiçosos. Somos é pouco produtivos, por motivos vários: falta de qualificações, falta de salários justos e motivadores, falta de bons gestores… Veja-se como os trabalhadores portugueses são apreciados no estrangeiro. Reflita-se sobre as razões disso. Mas concordo que também há gente cujo ideal é viver à custa dos outros… E há maus exemplos também: o que faz metade dos deputados que, como disse Macário Correia, nada fazem de útil, apenas se passeiam a ver passar o tempo, vivendo à custa dos contribuintes?

 

 

Perfil
Anselmo Borges
Doutor em Filosofia, Anselmo Borges, 75 anos, é padre da Sociedade Missionária Portuguesa, professor universitário, comunicador e autor de vários livros em que reflete sobre a religião, o seu lugar na sociedade atual, o pensamento contemporâneo e diversas questões da atualidade. O diálogo inter-religioso e o regresso aos valores essenciais do Evangelho estão na base da sua reflexão. Anselmo Borges é cronista do Diário de Notícias.