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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Acerca do cubismo de Picasso, segundo Gertrude Stein.

 

‘So when the contemporaries were forced by the war to recognise cubism, cubism as it had been created by Picasso who saw a reality that was not the vision of the nineteenth century, which was not a thing seen but felt, which was a thing that was not based upon nature but opposed to nature like the houses in Spain are opposed to the landscape, like the round is opposed to cubes.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

No livro ‘Picasso’ de Gertrude Stein lê-se que a guerra trás a mudança que toda a gente espera. É a violenta materialização de uma transformação radical que já se deu na sociedade mas que ainda não se reconhece (talvez só os criadores a consigam sentir). Obriga e impõe um diferente e radical modo de ver.

 

O cubismo representa um completo novo modo de ver. Um modo de ver o mundo verdadeiramente do século XX. É inesperado e nunca visto. O século XIX esgotou-se na necessidade de se ter um modelo. A verdade, de que o progresso e a ciência, era o único meio possível de gerar modos de expressão, perdeu significado.

 

‘At present another composition is commencing, each generation has its composition, people do not change from one generation to another generation but the composition that surrounds them changes.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

Para Stein nada muda de uma geração para a outra. As pessoas são exatamente as mesmas, com as mesmas necessidades, com os mesmos desejos, com as mesmas virtudes, qualidades e as mesmas falhas. O que muda é a circunstância, o que muda são as coisas que nos rodeiam (as ruas, os edifícios, os meios de transporte, as roupas). E o criador é sensível às mudanças. A sua arte é inevitavelmente influenciada pela maneira como cada geração se move num momento preciso.

 

‘So then the composition of that epoch depended upon the way the roads are frequented, the composition of each epoch depends upon the way the frequented roads are frequented people remain the same, the way their roads are frequented is what changes from one century to another and it is that that makes the composition that is before the eyes of every one of that generation and it is that that makes the composition that a creator creates.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

O cubismo é composição. Uma composição em que tudo tem a mesma importância, onde não existe um centro. É uma composição nova, sem princípio nem fim e que vai para além dos limites da tela.

 

O cubismo é a afirmação de que nem tudo se resume ao prazer das descobertas científicas. É um novo modo de expressão, completamente criado por Picasso, que mostra exatamente aquilo que se vê, que privilegia um lado e não o outro, sem se deixar interferir pelo conhecimento do objeto que se têm à partida. É uma maneira de expressão que mostra o objeto sem a intersecção do saber ou da lembrança. Stein escreve que Picasso quando vê um olho, o outro olho deixa de existir. E Picasso, como pintor que é, deseja afirmar somente aquilo que ele vê. Na verdade o resto que se acrescenta é uma reconstrução feita pela memória.

 

‘...and so the cubism of Picasso was an effort to make a picture of these visible things and the result was disconcerting for him and for the others, but what else could he do, a creator can only do one thing, he can only continue, that is all he can do.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

E Picasso preocupa-se somente com as coisas, com aquilo que lhe é realmente visível. De Courbet a Van Gogh e a Matisse, a natureza era vista como tal, como toda a gente a via e a preocupação destes pintores era a de expressar essa visão partilhada.

 

O esforço de Picasso é outro. É o de expressar a única e irrepetível forma de ver as coisas que o rodeiam - e tenta expressar a existência dessas coisas sem se deixar interferir pelo hábito de já as ter visto e de já as conhecer. As coisas pintadas são as coisas vistas, mais especificamente, vistas através de um olhar que depende de uma específica posição física no espaço.

 

Matisse and all the others saw the twentieth century with their eyes but they saw the reality of the nineteenth century, Picasso was the only one in painting who saw the twentieth century with his eyes and saw its reality and consequently his struggle was terrifying, terrifying for himself and for the others, because he had nothing to help him, the past did not help him, nor the present, he had to do it all alone...’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

O cubismo é oposição. Para Gertrude Stein o cubismo faz parte da vida quotidiana de Espanha. O cubismo é arquitetura espanhola - linhas que cortam abruptamente a paisagem. Por isso o cubismo representa todo o trabalho do ser humano que está em descontinuidade e em desarmonia com a natureza. O humano opõe-se ao natural. A esfera opõe-se ao cubo. As casas opõe-se à paisagem. O estático opõe-se ao que se move. O pequeno opõe-se ao dominante. E Picasso tenta, na sua pintura, expressar formas que se opõe, que se separam (apesar de formarem um só todo). As linhas pintadas opõem-se aos objetos vistos. O mundo real opõe-se a um modo de ver particular.

 

‘Everyone was forced by the war which made them understand that things had changed to other things and that they had not stayed the same things, they will force then to accept Picasso.’, Gertrude Stein in ‘Picasso’

 

Ana Ruepp

O B. I. DOS CRISTÃOS

 

1. No início do século XX, A. Loisy fez uma afirmação que é decisiva para a compreensão dos problemas dramáticos por que passa a Igreja: “Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, mas o que veio foi a Igreja”. Realmente, não se pode dizer que Jesus fundou a Igreja. Jesus é o fundamento da Igreja, mas não o seu fundador.

 

Jesus anunciou o Reino de Deus. E o que é o Reino de Deus? O próprio Jesus, na sua pessoa, na sua palavra, na sua vida, na sua morte e ressurreição. Ele é o Vivente em Deus para sempre. O que é que anunciou? Que Deus é Abbá, querido Pai, e também podemos e devemos dizer que é Mãe, Mãe querida. Como Pai e Mãe, Deus quer o bem, a alegria, a felicidade, a realização plena de todos os seus filhos e filhas e nem na morte os abandona: na morte, não se cai no nada, entra-se na plenitude da Vida. Foi essa fé que moveu Jesus, realizando, por palavras e obras, o Reino de Deus, o Reino da fraternidade, da paz, da solidariedade e da verdadeira liberdade, para todos, a começar pelos mais frágeis, abandonados, pobres, aflitos, marginalizados, desprezados, desvalorizados... Para Deus, todos valem infinitamente.

 

Muitos acreditaram em Jesus, cada vez mais homens e mulheres, através dos primeiros discípulos,  foram acreditando nEle e, através dEle, em Deus, no Deus de Jesus. E foram surgindo comunidades cristãs fraternas no mundo inteiro, realizando o Reino de Deus. Nelas, o amor era a lei suprema: “vede como se amam”, diziam os pagãos.

 

Evidentemente, com o tempo, foi-se impondo a necessidade de uma organização mínima para essas comunidades, a que chamaram Igrejas, e, depois, para  a Igreja toda, espalhada pelo mundo. Aí, foi-se instalando o perigo maior: a Igreja como organização foi sucumbindo, concretamente a partir de Constantino, à tentação de tornar-se uma instituição de poder cada vez mais poderosa, dominadora, centralizada, imperial. Contrariando a vontade de Jesus que tinha dito: “sois todos irmãos”, “quem quiser ser o maior torne-se servidor de todos”, seguindo o meu exemplo: “não vim para ser servido mas para servir”, a Igreja afirmou-se como hierarquia, com duas classes: clérigos e leigos, os que mandam e os que obedecem. A situação agravou-se com a reforma gregoriana e a romanização, como se lê no famoso Dictatus Papae, do Papa Gregório VII (século XI): “A Igreja romana foi fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés todos os príncipes beijam.” Com esta concepção imperial surgiu também a corte, o fausto, as vestimentas de luxo (ainda hoje os cardeais são chamados os purpurados) e dignidades e títulos que Jesus não reconheceria: Eminência, Excelência Reverendíssima, Monsenhor, etc. E as celebrações da Eucaristia, que deveriam ser celebrações de família e em família, foram em parte substituídas por Pontificais, nos quais há muito dos rituais das cortes dos reis... O clericalismo e o carreirismo avançaram em crescendo e foi-se impondo um hierarcocentrismo, já que, como escreveu o Papa Pio X, fora da hierarquia, dos clérigos, o resto dos fiéis tem como única missão “aceitar ser governado e obedecer”.

 

2. O Concílio Vaticano II foi um dos acontecimentos mais importantes (para De Gaulle, o mais importante) do século XX, ao recentrar a Igreja em Jesus e no Evangelho. Mas essa Primavera foi curta, já que rapidamente veio o Inverno.

 

Para retomar a Primavera, chegou o Papa Francisco, um Papa cristão e um líder político-moral global, um dos mais influentes e mais amados, se não o mais amado. Não se esqueceu dos pobres; anuncia  e faz caminhos a favor da justiça, da fraternidade e da paz, dos “três T”: tecto, terra, trabalho; combate o capitalismo desenfreado e desregulado, o ídolo que mata; é simples, humano, dá risadas, beija, consola, vai ao encontro dos desafortunados e entrega-lhes a esperança; insiste no diálogo ecuménico e inter-religioso; não condenou teólogos nem tolheu a liberdade de pensar a fé; não tem medo nem sequer da morte, porque tem fé e sabe que é amado por Deus... Anuncia por palavras e obras o Reino de Deus, a Boa Nova de Jesus, e quer que a Igreja — a Igreja são todos os baptizados — faça o mesmo. Por isso, declara que a corte, o clericalismo e o carreirismo são “a peste” do papado e da Igreja. Uma reforma funda da Cúria está a caminho, o mesmo acontecendo com o Banco do Vaticano.

 

Nuclear para a sua revolução são a descentralização e o caminho sinodal (caminhar juntos e em conjunto) da Igreja local e universal. Aí está o Sínodo para a Amazónia, um mini-Vaticano II,  que abre hoje em Roma e estará  activo até 27 deste mês. Dada a sua importância decisiva, pois será marca determinante deste pontificado, dedicar-lhe-ei a crónica do próximo Domingo.

 

É natural que Francisco tenha adversários, opositores e mesmo inimigos, dentro e fora da Igreja, que o acusam até de heresia. Forçam as acusações para que ele se demita. Mas ele não tem medo e não resigna. E também não há razões para temer um cisma. Como disse recentemente numa entrevista o cardeal alemão Walter Kasper, teólogo eminente, grande amigo e defensor de Francisco — “Eu estou encantado com este Papa. Penso que ele é o Papa preciso para este momento da história do mundo” —, “os que agitam o espantalho do cisma são pequenos grupos que estão abertamente contra o Papa, mas é preciso saber e ter em conta que são poucos, muito poucos, embora façam muito ruído”. Acrescentou: “O Papa continua a ter muitíssima força. Tem um dinamismo interior que o empurra para seguir adiante e não tem medo das críticas que circulam contra ele, inclusivamente dentro do mundo católico. Segue o seu caminho e está muito bem, mesmo fisicamente, para um homem de 82 anos. E a prova está em que continua a trabalhar incansavelmente.” E não há o perigo de voltar atrás?, perguntou o jornalista José Manuel Vidal. Resposta: “Penso que no próximo conclave não se pode eleger um Papa contrário. As pessoas não aceitariam. Não é possível a marcha atrás, não é possível. As pessoas não aceitariam isso, porque querem um Papa normal, humano e não um Papa imperial.”  

 

Neste contexto, deve-se sublinhar a importância da criação, ontem, de novos cardeais, incluindo o português José Tolentino Calaça de Mendonça. Com essa criação, Francisco assegura a sua sucessão. De facto, a partir de ontem, a maioria dos cardeais eleitores foram nomeados por ele próprio: há agora 128,  67 criados por ele, 42 por Bento XVI e 19 por João Paulo II. Só que é decisivo, digo eu, que não se deixem levar por lóbis (o Papa também não gosta de lóbis) e sigam o bilhete de identidade dos cristãos, descrito por Francisco na igreja de Rakovski, Bulgária, num diálogo com crianças que tinham acabado de receber a Primeira Comunhão. Disse então: “o nosso documento de identidade” é este: “Deus é nosso Pai, Jesus é nosso Irmão, a Igreja é nossa família, nós somos irmãos, a nossa lei é o amor. E o nosso apelido é cristãos:”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 OUT 2019