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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 4 a 10 de novembro de 2019

 

"Antologia Poética" de Jorge de Sena (Guimarães, 2010), com organização de Jorge Fazenda Lourenço, quando se celebra o primeiro centenário do nascimento do poeta (1919-1978), permite começar a entender o carácter poliédrico da obra de um autor complexo, difícil, seguro, fecundo e tantas vezes inesperado, para quem a liberdade é a chave da capacidade criadora.

 

CENTENÁRIOS CONVERGENTES
Quatro dias apenas de diferença entre as datas de nascimento de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen é uma feliz coincidência que une dois nomes maiores da cultura portuguesas, que na vida tiveram uma relação muito próxima, bem expressa numa correspondência notável, que Rita Azevedo Gomes transpôs para a tela, numa obra tocante, na qual as duas personalidades se completam naturalmente. Não é possível compreender essa correspondência sem a presença de Francisco de Sousa Tavares, em quem todos reconheciam a coragem, a audácia e a capacidade de compreender como poucos a força das raízes culturais portuguesas. A correspondência segue o período do exílio voluntário de Jorge de Sena, depois de 1959, quando, aproveitando um congresso na Bahia, partiu para ensinar Literatura Portuguesa, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos. Antes tinha-se estabelecido uma ligação muito forte, com a presença quase quotidiana de Sena na Travessa das Mónicas, tudo culminando no episódio algo quixotesco do golpe dito da Sé, em que Sousa Tavares usou a farda gasta de miliciano e pediu a sua mulher, Sophia, que pusesse os filhos em segurança, fora de casa, na noite aprazada para a tentativa revolucionária, de 11 para 12 de março de 1959. Estavam envolvidos Manuel Serra, João Perestrelo de Vasconcelos, à altura clérigo na Sé, Fernando Oneto, o Capitão Almeida Santos, João Varela Gomes e muitos outros – além de Jorge de Sena e de António Alçada Baptista. E lembramos Sophia em “Carta(s) a Jorge de Sena”, na hora em que ele nos deixou: “… Há muito estravas longe / Mas vinham cartas poemas notícias / E pensávamos que sempre voltarias / Enquanto amigos teus aqui te esperassem - / E assim às vezes chegavas da terra estrangeira / Não como filho pródigo mas como irmão prudente / E ríamos e falávamos em redor da mesa / E tiniam talheres loiças e vidros / Com se tudo na chegada se alegrasse / Trazias contigo um certo ar de capitão das tempestades / - Grandioso vencedor e tão amargo vencido…”

 

UM DISCURSO NOTÁVEL
Se lermos um dos últimos textos de Jorge de Sena, dito na cerimónia do dia 10 de junho de 1977 podemos compreender a extraordinária dimensão cultural e cívica do poeta e ensaísta, com um sentido crítico e inovador apuradíssimo, invocando a figura de Camões, que tanto admirava. Jorge de Sena revisita o épico, dando-lhe a importância que merece, muito para além das simplificações que constituíam o modo mais fácil de o invocar, símbolo primeiro da nossa cultura. Diga-se ainda para mais que, além do seu camonismo, Sena foi pioneiro na descoberta intelectual e literária de Fernando Pessoa, num tempo em que se estava longe do reconhecimento que mais tarde veio. Coube, de facto, a Jorge de Sena o início do projeto essencial que foi a publicação do “Livro Desassossego”, em cujos prolegómenos o poeta de “Fidelidade” esteve envolvido. António M. Feijó refere, aliás, as extraordinárias intuições interpretativas de Sena que abriram novas e fecundas perspetivas. Mas, voltando a Camões, para Sena, importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». Ao invocar a figura ímpar do épico, Jorge de Sena deixou, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo».

 

O HOMEM UNIVERSAL POR EXCELÊNCIA
Para Sena, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. José Bento (que há pouco nos deixou) insistia em que Sena não se ficava pelo meio – “procurava sempre a totalidade”. Porventura sem querer, ou querendo-o intimamente, Jorge de Sena deixou nesse dia 10 de junho a mensagem fundamental de um grande poeta e ensaísta moderno – entusiasmado, na sua experiência norte-americana, com a importância do conhecimento, da educação e da ciência. Aliás, em “Sinais de Fogo”, obra-prima, apesar de incompleta, que começa no tempo da guerra de Espanha, sentimos, no dizer de Jorge Fazenda Lourenço, que “a tensão existencial entre conhecer e o agir, na vida social, amorosa, sexual, desencadeia a criação poética”. E de facto raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo. E, como afirmou ao grande amigo Ruy Cinatti, aos 22 anos, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte. Que mais é preciso? Só é preciso o que existe – eu é que exijo tudo o que existe”. E chegamos ao final do discurso da Guarda – onde se remata com o apelo para Camões (por que não para Sena?): «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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