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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta sexta feira grisalha e um tanto quanto chuvosa e ventosa em que, neste ano de 2019, aterrou entre nós a celestial festa de Todos os Santos, as minhas ferrugens obrigaram-me a participar pela televisão na missa celebrada na Igreja de Santa Beatriz da Silva, em Lisboa. Eis um dia de alegria muito íntima - tão íntima que me faz chorar - e todos os anos a comemoro com o todo de mim, pois que é memória não de mortos mas de vivos, alguns dos quais foram habitantes do meu sangue antigo, muito antes de eu mesmo saber que por eles existo, outros da minha vida remota já ou próxima ainda, das minhas casas, amizades e amores, encantos e desilusões, inquietações, anseios e interrogações... E mais tantos, tantos, com quem partilhei ou quis partilhar a minha fé, sem contar com todos os de mim ignorados companheiros, que creio sempre amigos, não sei, mas necessariamente comungantes da mesma humana condição.

 

   Gosto deste amor universal que nos abraça na festa dos vivos, e tão solar e feliz me faz sorrir em dia aparentemente cinzento: reúno-me com a vida que não vejo agora -  com a dos que, incluindo meu irmão mais novo, saíram este ano da nossa vista -  e essa miríade de incógnitos de mim, agora junta, na memória presente do amor eterno, à de todos aqueles mais próximos cujas lembranças, dia após dia, me povoam de afetos a alma.

 

   Eis-me assim a pensarsentir, simultaneamente, o desprendimento e o reencontro, como se estivesse em Antan, o lugar situado no meio do universo e centro dessa fábula e parábola que é o maravilhoso livro da polaca Olga Tocarczuk (Nobel da Literatura 2019), intitulado - traduzo da versão francesa - Deus , o tempo, os homens e os anjos...

 

   No centro de Antan, Deus elevou uma colina que todos os anos é invadida por uma nuvem de besouros. Por isso a gente lhe chama a Montanha dos Besouros. Porque Deus trata de criar, e o homem de inventar nomes. Mais adiante, quase a chegar ao fim do livro, a escritora conta-nos, em curto trecho intitulado O Tempo do Jogo:

 

   «No sétimo mundo, os descendentes dos primeiros homens viajaram de país em país e acabaram por chegar a um vale mirífico. "Vamos lá, disseram eles, vamos construir uma cidade e uma torre que atinja o céu, para permanecermos um só povo e não nos deixarmos dispersar por Deus..." Logo se entregaram ao trabalho, juntaram pedras e utilizaram alcatrão como cimento. Assim edificaram uma cidade imensa, no meio da qual se erguia a torre. Acabou por atingir tal altura que, lá de cima, se conseguia ver o que estava para além dos oito mundos. Quando o céu estava limpo, os que trabalhavam lá em cima faziam uma pala com as mãos - para não serem cegos pelo sol - e conseguiam enxergar os pés de Deus, tal como o corpo monstruoso da serpente devoradora do tempo.

 

   Com a ajuda de paus, alguns deles tentavam sondar o espaço acima das suas cabeças.

 

   Deus observava-os com inquietação e pensava consigo: "Enquanto forem um só povo e falarem uma só língua, só poderão agir à sua maneira... Vou confundir as suas línguas e encerrá-los dentro deles próprios. Farei com que já não se entendam entre eles. E então se levantarão uns contra os outros. E Me deixarão, a Mim, em paz." E Deus fez o que tinha decidido.

 

   Os homens dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, e tornaram-se inimigos uns dos outros. Mas guardaram a lembrança do que tinham visto. Ora, aquele que viu a cerca do mundo sofre mais do que ninguém a sua condição de prisioneiro».

 

   Já no primeiro capítulo - O Tempo de Antan - está escrito, todavia, que Antan está rodeada por dois rios: o Negro, profundo e sombrio, que se junta, no moinho, ao Branco, pouco fundo e vivo. Então se encontram os seus cursos, primeiro "lado a lado, indecisos, intimidados por essa aproximação tão aguardada". Logo se "precipitam um no outro e se perdem no seu abraço. E o rio que dali nasce já não é Branco nem Negro, mas é poderoso e faz girar sem pena a roda do moinho". Será porque os quatro pontos cardeais de Antan estão guardados pelos arcanjos Rafael, Gabriel, Miguel e Uriel, como nos diz o conto? Ou antes não estará Olga Tokarczuk a evocar uma revelação apocalíptica (perdoa-me a forma enfática) de São João, lida na missa de hoje? Assim:

 

   Eu, João, vi um anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em voz alta aos quatro anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus.» E ouvi o número dos que tinham sido marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro.»

 

   Esses todos, diz-nos depois o mesmo São João, "são os que vieram da grande tribulação, cujas túnicas foram lavadas e branqueadas pelo sangue do Cordeiro."

 

   Só de pensarmos nele já nos faz bem o amor universal.

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

OS TEATROS ROMANOS EM PORTUGAL

 

O “Público” e a editora “Tinta da China” publicaram 25 volumes, série intitulada “Portugal, um Retrospetiva”, dirigida por Rui Tavares e reunindo dezenas de autores, que analisam, numa visão retrospetiva, a evolução histórico-cultural do país abordada precisamente a partir do ano corrente (vol. 1) até ao ano 500 a.C.

 

Trata-se efetivamente de uma História factual e cultural da evolução na perspetiva do significado histórico, insista-se, mas no seu conjunto prospetivo da evolução do país e da especifidade da sua cultura. E é de assinalar a homogeneidade e coerência alcançada num programa que reúne, insista-se, dezenas de autores.

 

Ora, no que respeita às origens do teatro português - e não hesitamos em assim designar o temário numa época em que Portugal, como país independente, estava longe – assinala-se o estudo de Lídia Fernandes, autora do volume 24, sobre a criação e prática de teatro a partir a do ano de 57 d. C. na Lusitânia, e designadamente na “Felicias Iulia Olissipo”, origem da atual cidade de Lisboa. E é oportuno lembrar que o Teatro Romano ainda hoje constitui um espaço de produção de espetáculos de teatro. (coleção citada, nº 24, novembro 2019).

 

Lídia Fernandes evoca os primeiros trabalhos de localização do Teatro Romano, que remontam a 1798. Hoje musealizado, o Teatro Romano de Lisboa documenta de forma eloquente uma atividade sociocultural que merece o maior destaque.

 

E nesse aspeto, o estudo de Lídia Fernandes complementa de forma eloquente o que se sabe, e como se sabe, da tradição de espetáculo nas origens da cidade de Lisboa. Sem entrar em pormenores, há que referir designadamente alguns aspetos que merecem ampla consideração. E desde logo, a circunstância de que haverá, no prolongamento das obras de recuperação, muito ainda a recuperar.

 

Sem entrar em detalhes, evocamos aqui alguns aspetos desenvolvidos no estudo de Lídia Fernandes. Designadamente, e não entramos em pormenores, o que hoje se pode documentar é a própria dimensão do teatro no seu conjunto, e designadamente nas obras de recuperação e de renovação, ocorridas a partir do ano de 57 d. C., ano em que Nero impulsionou em Roma a atividade cultural, mas através de um anfiteatro de madeira.

 

Ora, “em Felicitas Iulia Olissipo o teatro sofria importantes obras de renovação precisamente nesse mesmo ano”. E mais acrescenta que “o ofertante das obras de renovação do teatro era um liberto, ele próprio concedendo a liberdade aos seus escravos, provavelmente na mesma ocasião em que inaugura a obra do monumento cénico”.

 

E só mais uma referência, esta de um livro da minha autoria.

 

Efetivamente, em “Teatros de Portugal” (2006), numa breve referência, assinalo que “o Teatro, datável da era de Augusto mas remodelado no tempo de Nero (século I) foi metodicamente vandalizado para aproveitamento da materiais na reconstrução da Baixa Pombalina. E só a partir dos anos 60 do século passado e mesmo assim com interrupções se procedeu à recuperação possível”...

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

8. GILBERTO FREYRE E O LUSO-TROPICALISMO
CRÍTICAS E MÉRITOS (V)

 

Outra das resistências ao luso-tropicalismo, advém da ênfase que Freyre dá à componente árabe e africana na constituição do caráter nacional português, o que contrariava a perspetiva que em geral se defendia em Portugal, a começar pelo ensino, de valorizar quase predominantemente a reconquista cristã e, por arrastamento, a influência europeia.   

 

Esta resistência está interrelacionada com outra, a da miscigenação que, nomeadamente nas décadas de 30 e 40, era tida como de consequências negativas, uma vez que os mestiços eram tidos como biologicamente inferiores. Chegou-se a defender o povoamento das colónias africanas por gentes brancas e numerosas, de ambos os sexos, para evitar a mistura das raças (colonização étnica). Mistura racial que Vicente Ferreira e Armindo Monteiro, entre outros, não aceitavam, distanciando-se de GF, pelo que a experiência brasileira da mestiçagem não se podia repetir no império colonial português. Apenas com o início da guerra em Angola e a ida de Adriano Moreira para o Ministério do Ultramar, houve a promulgação de medidas legislativas inspiradas no luso-tropicalismo.

 

Já o reconhecimento da especial capacidade dos portugueses para a colonização mereceu aceitação unânime, desde sempre, no Estado Novo. 

 

Mas será a partir da década de 50 que o pensamento Gilbertiano terá uma receção mais favorável, após a segunda grande guerra mundial, quando os impérios coloniais europeus entram em declínio e se começa a dar mais importância à sua produção literária e teórica.   

 

Todavia, mesmo nessa época, o luso-tropicalismo nunca foi tido como discurso oficial do Estado Novo. Sendo este nacionalista, as facetas desnacionalizadoras do pensamento de Freyre foram esquecidas, desde a valorização simultânea dos contributos africanos, ameríndios, europeus e orientais, até à não aceitação de uma congregação dos povos de Língua Portuguesa em que fosse preponderante o predomínio do Brasil.   

 

Ciente da sua independência, contra-argumenta àqueles que o acusaram de aceitar um convite, em 1951, do Ministro do Ultramar português a viajar pelo império, com o facto de ter recusado os dois anteriores e de ter sido convidado pelos governos da União Indiana e da União Soviética, o que tem como prova da sua não conotação com qualquer ideologia política em particular.       

 

Outro sinal de querer manter a sua independência, demarcando-se da política, é dado pelo próprio quando afirma que se é verdade que há ideias suas que foram seguidas pelo Estado Novo; também é verdade que o foram por diferentes intelectuais portugueses provenientes de várias áreas. Citem-se, entre muitos, José Osório de Oliveira, Carlos Malheiro Dias, padre Joaquim Alves Correia, António Sérgio, Maria Archer, Manuel Múrias, Adriano Moreira, Jorge Dias e Almerindo Lessa.

 

Mário Soares, socialista, que foi Presidente da República e Primeiro Ministro de Portugal, em discurso de inauguração da sala Caloute Gulbenkian, na Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, em 29/03/87, a propósito do luso-tropicalismo, afirmou: “Esta teoria foi mal aproveitada no tempo do antigo regime, mas, justamente, eu quis demonstrar que a obra de Gilberto Freyre era admirada em Portugal, não só por aqueles que eram partidários do colonialismo, como pelo Portugal livre, democrático e moderno que eu represento”(citado por Vamireh Chacon, em “O Futuro Político da Lusofonia”, Verbo, 02, p. 85). 

 

Ainda Mário Soares, em entrevista ao “Jornal de Brasília”, em 30/01/00, declarou que decorridos os anos e lendo de novo Freyre, “Aquilo que ele disse sobre luso-tropicalismo é verdadeiro, é uma cultura própria e temos que desenvolvê-la no futuro” (ibidem, p. 49). 

 

06.12.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICA DA CULTURA

 

Entrava-se no salão das inúmeras janelas daquele solar e mesmo sendo verão, logo se antecipava a recordação dos cheiros e dos sabores de Natal que começavam a bater na porta da memória aquando do final das vindimas.

 

A revelação de que o sabor do leite-creme era uma lição de afeto da bisavó e que os bolinhos de bolina teriam a exata dose de canela que lembrava o abraço-lugar-doce onde se adormecia seguro como em nenhum local, sendo este o dos braços da avó, e eis as surpreendentes realidades que nos diziam sem palavras, o que só os cheiros e os sabores sabem dizer transformando os ambientes em amor e paz.

 

A verdade é que o cheiro do trabalho das cozinhas espalhava-se pela casa abraçando todos no inicial silêncio dos manjares. Era um silêncio muito espiritual, era um silêncio de segredo infalível, pois nele as verdades expunham-se sem medo de que as mentiras ou deturpações ou sofreres do dia-a-dia, não fossem por elas vencidas de tanta compreensão.

 

E eis que este ano, em Miranda do Douro, as sopas e outros condutos servidos na Balbina deram azo ao ouvir da história de uma avó, que, passando todas as possibilidades de receitas dentro de um único pão de saberes, multiplicou as recordações das épocas tutelares, em que bastava o vapor dos caldos para que, na memória, se desenhasse a distinção entre o puro e o impuro, a inocência e a toalha de mesa, como uma salvação aos dias duros do resto do ano.

 

Não há dúvida de que de norte a sul de um país, de norte a sul do mundo, a comida é algo que ousa conviver com a vida dando-lhe cores, tráficos de sentido, poesias sem ornamentos, e leva à vida, não apenas a mera saciação, mas sobretudo o louvor sossegado das recordações tranquilas dos sabores, dos cheiros, das orações, dos entusiasmos, do contributo do dizível e do indizível e expõe-se também como ética e estética reabilitando o que nos faz feliz como dantes. Entenda-se este dantes como o tempo da experiência sem medo.

 

Assim, neste sentido, qualquer manjar, ainda que só de pão, é um ensaio humano exposto aos dias e às noites das nossas fragilidades e vulnerabilidades; é uma procura conjunta de cintilação na paisagem que nos liga ao mais fundo.

 

Há que saber que com ou sem épocas festivas marcadas no calendário, à mesa, o silêncio e os olhares dizem muito do que não sabemos. Os chãos destas mesas estão postos também com a toalha da terra, tudo é um convite ao exercício da atenção, um tempo que relata o eu e o nós, enquanto entregamos ao outro, o azeite, o sal, a possibilidade do reencontro com o que afinal julgáramos perdido.

 

Enfim, o leite-creme ou os bolinhos de bolina, a roupa velha do bacalhau do dia anterior, o peixe fresco ou a fruta de qualquer época do ano, todos afinal dialogam connosco em compromisso.

 

Resta-nos saber partilhar. Resta-nos saber que em tudo isto há excesso que se deve doar em doação doada e que possamos perceber quase tudo sem necessidade de dizer muito.

 

Cremos que um dos grandes desafios é, em cada dia, voltar a olhar e a saborear tudo pela primeira vez, como um acolhimento mútuo, uma intimidade, uma morada, uma resposta, uma visita à oficina dos sonhos reais.

 

Teresa Bracinha Vieira

FRANCISCO NA TAILÂNDIA: O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

 

Era um sonho desde os tempos da juventude: ser missionário no Japão. A vida não o permitiu, mas Francisco acabou por realizar em parte, na semana passada, esse sonho, ao visitar durante sete dias (19-26) a Tailândia e o Japão. A partir da Ásia, Francisco deixou mensagens decisivas para o mundo, acentuando, na Tailândia, a importância fundamental do diálogo inter-religioso, e, no Japão, condenando como crime imoral não só a guerra nuclear mas também a simples posse de armamento atómico.

 

Hoje, incidirei na mensagem a partir da Tailândia. O próprio Francisco, após o seu regresso a Roma, na passada Quarta-Feira, na audiência geral, resumiu a sua estada na Tailândia. “Na Tailândia, prestei homenagem à rica tradição espiritual e cultural do povo thai, o povo do belo sorriso. As pessoas estão sempre a sorrir. Animei o impulso pela harmonia entre as diversas componentes da nação, para que o desenvolvimento económico possa beneficiar a todos e se curem as feridas da exploração, especialmente de mulheres, de meninas e meninos, expostos à prostituição e ao tráfico. A religião budista é parte integrante da história e da vida deste povo, por isso fui visitar o Patriarca Supremo dos budistas, prosseguindo o caminho da estima recíproca, começada pelos meus predecessores, para que cresçam no mundo a compaixão e a fraternidade. Neste sentido, foi muito significativo o encontro ecuménico e inter-religioso, celebrado na maior Universidade do país.”

 

Há muitos anos que o famoso teólogo Hans Küng não se cansa de proclamar que “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões” e não haverá paz entre as religiões sem conhecimento e reconhecimento mútuo e, consequentemente, diálogo.

 

Como não podia deixar de ser, Francisco fez do diálogo inter-religioso uma das marcas essenciais do seu pontificado, e isso ficou bem claro também nesta visita à Tailândia. Enquanto no sul do país um grave e sangrento conflito confronta separatistas muçulmanos e forças governamentais, insistiu na necessidade do diálogo inter-religioso como “serviço a favor da harmonia social na construção de sociedades justas, compassivas e inclusivas.”

 

Logo no primeiro dia da sua visita oficial, num acontecimento histórico, encontrou-se no templo budista Wat Ratchabophit com o Patriarca Supremo Somdet Phra Maha Munivong, chefe do budismo oficial tailandês, começando por lembrar que o encontro se inscrevia “dentro do caminho de reconhecimento mútuo” iniciado pelos predecessores, e convidando a “aumentar não só o respeito mas também a amizade entre as nossas comunidades”, cinquenta anos depois da primeira visita de um patriarca budista a Paulo VI, tendo João Paulo II visitado também aquele templo. “Pequenos passos que ajudam a testemunhar, não só nas nossas comunidades mas também no nosso mundo tão inclinado a gerar e propagar divisões e exclusões, que a cultura do encontro é possível”. Referiu os fundamentos do budismo, que fazem parte indelével da identidade dos tailandeses, com “o seu modo de reverenciar a vida e os seus anciãos, prosseguir um estilo de vida sóbrio baseado na contemplação, no desapego, no trabalho duro e na disciplina”, permitindo definir a Tailândia como “o povo do sorriso”. “Possibilidades como estas lembram-nos como é importante que as religiões se manifestem cada vez mais como faróis de esperança, promotoras e garantes de fraternidade”, agradecendo ao povo tailandês que “desde a chegada do cristianismo à Tailândia, há uns quatro séculos e meio, os católicos, embora sendo um grupo minoritário, tenham desfrutado da liberdade na prática religiosa e durante muitos anos vivido em harmonia com os seus irmãos e irmãs budistas”. Os responsáveis religiosos, lembrou, devem oferecer ao mundo “uma palavra de esperança capaz de alimentar e apoiar os que são sempre os mais afectados pelas divisões”. Pelo seu lado, reiterou o seu “compromisso pessoal e o de toda a Igreja a favor do fortalecimento do diálogo aberto e respeitoso ao serviço da paz e do bem-estar deste povo”. Assim, “poderemos estimular entre os fiéis das nossas religiões a elaboração de novas iniciativas de caridade, capazes de gerar e multiplicar projectos concretos no caminho da fraternidade, especialmente para os mais pobres e na relação com a nossa tão maltratada casa comum”, para contribuir para “a construção de uma cultura da compaixão, da fraternidade e do encontro tanto aqui como noutras partes do mundo.”

 

O Papa Francisco deu um exemplo concreto, visitando o hospital Saint-Louis, fundado em 1898 por um bispo francês, que o confiou às Irmãs de São Paulo de Chartres, e que testemunha, explicou, “o precioso serviço que a Igreja oferece ao povo tailandês”. Aí, deixou palavras de inexcedível empatia e humanidade. “Todos vós, membros desta comunidade terapêutica, sois discípulos missionários quando, olhando para um doente, aprendeis a chamá-lo pelo seu nome. Estai abertos ao imprevisível”. “Realizais uma das maiores obras de misericórdia, uma vez que o vosso compromisso vai muito para lá de um simples e louvável exercício de medicina. Deveis ir para lá, abertos ao imprevisível”. Deveis “receber e abraçar a vida conforme chega à urgência do hospital para ser atendida com piedade especial, que nasce do respeito e amor à dignidade de todos os seres humanos”. “Os vossos esforços e o trabalho das muitas instituições que representais são o testemunho vivo do cuidado e da atenção que estamos chamados a mostrar a todas as pessoas, especialmente aos idosos, aos jovens e aos mais vulneráveis”. “Todos sabemos que a doença traz sempre consigo grandes interrogações. A nossa primeira reacção pode ser a de nos rebelarmos e até viver momentos de desconcerto e desolação. É o grito de dor, e é bom que assim seja: o próprio Jesus sofreu isso e fê-lo”.

 

No termo da sua visita e antes de partir para o Japão, Francisco, evocando os desafios do país e do mundo perante responsáveis de diferentes religiões (budistas, hindus, muçulmanos, sikhs) e confissões cristãs, voltou a apelar à cooperação inter-religiosa. “Os rápidos progressos, prometendo aparentemente um mundo melhor, coexistem com a persistência trágica de conflitos: migrações, expatriações, fomes e guerras, sem contar a degradação e a destruição da nossa casa comum. Todas estas situações colocam-nos em alerta e lembram-nos que nenhuma região nem nenhuma parte da nossa família humana pode considerar-se ou construir-se como uma entidade estranha ou imunizada em relação aos outros”, impondo-se, portanto, a salvaguarda contra “a lógica do fechar-se em si mesmo” e a defesa da “lógica do encontro e do diálogo na reciprocidade”. Em ordem à “solução dos conflitos”, à “compreensão entre as pessoas” e à “salvaguarda da criação”, “as religiões, sem por isso renunciarem às suas características essenciais e às suas diferenças próprias, têm um enorme contributo a dar e a oferecer”. O Papa apelou aos responsáveis religiosos que “construam fundamentos sólidos, ancorados no respeito e no reconhecimento da dignidade das pessoas, na promoção de um humanismo integral capaz de reconhecer e de reclamar a defesa da nossa casa comum”.

 

Neste seu discurso, pronunciado na Universidade Chulalongkorn, do nome de um rei de Sião, primeiro chefe de Estado não cristão recebido, segundo o diário La Croix, no Vaticano em 1897, Francisco insistiu ainda na necessidade de “aceitar a exigência de defender a dignidade humana” e “respeitar o direito
à liberdade religiosa”. Numa Tailândia budista, onde os idosos são muito considerados, Francisco manifestou também a sua satisfação por ver “preservadas as raízes necessárias para que o vosso povo não desvaneça por detrás de slogans que acabam por esvaziar e hipotecar a alma das novas gerações. Continuai a fazer com que os mais  jovens descubram a bagagem cultural da sociedade em que vivem. Ajudai os jovens a descobrir a riqueza viva do passado e ir em busca das suas raízes, com vista ao seu crescimento e às escolhas que são chamados a fazer.”

 

Neste contexto de diálogo inter-religioso, Francisco insistiu na sua mensagem constante: “O missionário não é um mercenário da fé nem um gerador de prosélitos. A evangelização não consiste em somar o número de membros nem aparecer como poderosos, mas em abrir portas para viver e partilhar o abraço, misericordioso e que cura, de Deus Pai, que nos faz família.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 DEZ 2019

A PROFESSORA INGLESA

 

Tenho o fetiche da professora inglesa. Confesso e explico-me.

 

O sexo estampado na cara de Marilyn ou de Brigitte Bardot repugnava a Hitchcock. Preferia a sexualidade das britânicas. Uma professora inglesa – é ele a contar – vai connosco no táxi e, a meio da cândida conversa sobre o tempo e Henrique VIII, é perfeitamente capaz, súbito e sem explicações, de nos atirar a mão à braguilha.  

 

Truffaut, que o entrevistava, ficou de boca aberta até Hitchcock rematar: “Só com mulheres dessas pode haver descoberta do sexo.”

 

Na esperança de ser lido nas escolas formativas e nas associações sindicais de professores, sugiro que as conversas de Hitchcock com Truffaut passem a ser obrigatórias na formação docente. Debate esclarecido nunca fez mal a ninguém.

 

Esta inocente concepção da sexualidade atinge o seu expoente em “Rear Window” e “To Catch a Thief “, protagonizados pela loiríssima, angelicamente linda, Grace Kelly. Com ela contracenam Jimmy Stewart e Cary Grant. Nenhum parece ter vontade de lhe tocar.

 

Stewart, no começo de “Rear Window”, tem uma perna engessada e senta-se à indiscreta janela a espiar os vizinhos, procurando na vida deles a excitação que a forçada reclusão não lhe dá. Também não o excita a ideia de casar com a rica Grace Kelly que acha fútil, vinda de um ambiente tão rarefeito como a nossa Quinta da Marinha, a cabeça feita em vestidos, jóias e jantares milionários.

 

O espectador já sabe isto tudo e ainda não viu Grace Kelly. Quando primeiro a vemos, o que vemos é a sua sombra. O imobilizado Stewart adormeceu. Sobre a rija perna de gesso desliza uma sombra humana que passa ao ventre, e avança pelo peito, até lhe tapar o rosto. O perfume dela acorda-o, abrem-se-lhe os olhos e vê-a. Nós também pelos olhos dele. E o que vemos é a perfeição. Por ela pecaria o Espírito Santo se a sua língua de fogo tivesse olhos.

 

Por não ver na sombra a essência de Grace é que Stewart a não quer. Vê o gelo louro e a pele imaculada. Mas não ouve o vulcão que o sussurrado adágio da voz dela anuncia. “Como vai a tua perna?” pergunta. “E o teu estômago?” diz a seguir. É uma voz de sombras macias que promete correr-lhe a anatomia toda.

 

Grace Kelly toma a iniciativa também em “To Catch a Thief”. Cary Grant é ou foi um ladrão de jóias. Grace traz ao pescoço um colar refulgente que chama nomes ao seu decote. Se o paraíso é uma voz então é o paraíso que da boca dela convida Grant: “Toca-lhe!” E a mão dela a oferecer à dele a exposta jóia: “Agarra-a”.

 

Nesses filmes de crimes e roubos, Hitchcock fez de Grace Kelly a mais erótica jóia da sua colecção. A forma civilizadíssima e elegante como a filma só realça a húmida convulsão que a faz dizer a Stewart: “Quando quero um homem, quero tudo o que ele tem.”

 

Por estes sonhos ninfomaníacos de Hitchcock perpassa a sombra de uma professora inglesa.

 

Manuel S. Fonseca

A VIDA DOS LIVROS

De 2 a 8 de dezembro de 2019

 

Passam cinquenta anos sobre a morte de José Régio (1901-1969), autor multifacetado, que escreveu “A Velha Casa” (1945-1966), que considerou ser como a sua mais importante obra de ficção e “uma meditação sobre a vida humana, sobre a condição humana”.

 

 

MARGENS DO MONDEGO
“Uma coisa sei de certeza: Que nunca me arrependi de ter ido para Coimbra. Lá ganhei novos amigos. De lá saiu a presença. Lá passei pelo menos alguns dos anos mais felizes da minha vida. E creio que a minha criação literária lucrou com a ida para Coimbra, pois lá achei elementos para um fecundo ambiente literário que não acharia no Porto”. É o próprio José Régio quem o confessa, num dos seus últimos escritos, Confissão de Um Homem Religioso (1971), esta sua ligação muito especial a Coimbra. É verdade que as raízes de Régio estão em Vila da Conde e aí sentimos a força das bases telúricas, éticas e literárias. Mas o núcleo das amizades do poeta e romancista, encontramo-lo na cidade do Mondego, em Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, Edmundo de Bettencourt, Miguel Torga, Vitorino Nemésio ou Afonso Duarte… Aí começará a publicar (Poemas de Deus e do Diabo, 1925) e a ter contacto com a literatura como realidade viva, ligada necessariamente ao quotidiano e à cidadania. E no primeiro livro de poemas surge logo a associação a seu irmão Júlio (Saul Dias), desenhador e pintor que é uma extraordinária referência do segundo modernismo, com vincada influência de Chagall. Depois, nas andanças docentes, Régio fixará em Portalegre o seu lugar de vida, em alternância com Vila do Conde. Para o biógrafo e intérprete fiel de Régio, Eugénio Lisboa: “o mais importante da sua biografia decorreu, como é o caso de tantos de nós, dentro de si próprio. As suas tempestades foram sobretudo interiores e são essas que irrigam, com vigor o tecido da sua obra” (José Régio ou a Confissão Relutante, Rolim, 1988). A consideração de Eduardo Lourenço sobre o carácter da obra de Régio e sobre a natureza da presença levará, no entanto, a uma estranha acumulação de equívocos, que só uma leitura mais atenta de “Presença ou a contrarrevolução do modernismo” (“Comércio do Porto”, 14.6.60) poderá esclarecer. O próprio Eduardo Lourenço preocupou-se em clarificar o que tinha dito, acrescentando a uma nova versão do texto o qualificativo “português” ao modernismo e um ponto de interrogação no final, procurando afastar qualquer entendimento político ou literal nessa ideia. Deste modo, Eugénio Lisboa, na comparação entre os dois modernismos, o de Orpheu e o da presença, afirma mesmo: “o primeiro modernismo foi um momento de convulsão e o segundo um momento de reflexão e consolidação” (Ibidem.). Um e o outro completam-se e diferenciam-se. E até se percebe que Nemésio tenha preferido, em dado momento, criar um outro órgão de ideias - a Revista de Portugal (1937) talvez menos contaminada com a proximidade dos modernismos… A razão parece hoje irónica, mas foi invocada.

 

É VIVO O ORIGINAL
“Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima de uma personalidade artística. A primeira condição de uma obra viva é pois ter uma personalidade a obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos, superficialmente, o que o diferencia dos mais (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo, o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade, calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto destes temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidade não passarão de um truque literário” (presença, nº 1, 1927). Eis o programa de Régio, que prefere, na sua batalha pela “Literatura Viva”, afirmar: “à personalidade do artista-criador nada proíbe a presença senão que se falseie; nada impõe senão que se revele” (“O Primeiro de Janeiro”, 25.10.44). No entanto, se desconfiava das originalidades “demasiado exibicionistas”, acusava de conformismo a falta de originalidade e a falta de sinceridade. Numa palavra, o certo é que a presença tornou-se o verdadeiro arauto que exprimiu quão relevante e visível foi a geração de Orpheu.

 

O SEGUNDO MODERNISMO
Todavia, o segundo modernismo era, essencialmente, um momento de reflexão e consolidação – e é essa distinção que Eduardo Lourenço quis fazer, de modo metafórico. Aliás, o próprio Régio assume esta ambiguidade, quando põe a dialogar, em A Velha Casa, Lelito com seu irmão João, e este diz: “Tornas falsas muitas coisas que são em si verdadeiras e sinceras”. E se o tema político merece toda a atenção tal deve-se à independência da revista e dos seus animadores, acima de toda a suspeita, e sob muitas desconfianças. Não houve, de facto, conciliação com o regime nascido em 1926 – vejam-se, por exemplo, a publicação do texto fortemente crítico de Raul Leal, aquando da homenagem coimbrã a António Correia de Oliveira (1930); a identificação de Régio relativamente à posição política de António Sérgio; e a tomada de posição de Guilherme Castilho, José Marmelo e Silva e João Campos, quando a presença fechou as portas (1940), dando ênfase à fidelidade da revista aos valores do espírito que estavam a ser destruídos pelos senhores da guerra. O modernismo não era, assim, uma receita, mas uma atitude: “qualquer mestre de hoje só é modernista na medida em que, sem ter de negar seja qual for das descobertas vitais do passado, se encaminha para novas descobertas e antevê novos mundos… que podem não ser mais do que a imprevista sondagem dos mundos já conhecidos” (presença, nº 23, dezembro de 1929). Régio foi sempre um escritor verdadeiramente livre, e encontramos nele: a compreensão da renovação da cultura portuguesa no século XX, com a geração de Orpheu, mas também com Teixeira de Pascoaes e o melhor da Renascença Portuguesa; ou com a consideração do modernismo não como uma escola ou um grupo, mas como uma atitude orientada para a compreensão dos novos mundos; na interrogação aberta e inconformista da transcendência – na linha de Dostoievski, Tolstoi, Proust, Claudel e Gide. Régio não é apenas poeta – é sobretudo dramaturgo, ensaísta e romancista, e nesses domínios encontramos alguma da melhor expressão da sua criatividade. David Mourão-Ferreira dirá: “Penetrante, arguto, tão apto por vezes para a síntese impressionista como para a análise psicológico-literária…”. A 22 de dezembro de 1969, em Vila do Conde, deixou-nos José Maria dos Reis Pereira, depois de uma vida de pedagogo, de escritor, de dramaturgo, de romancista, de novelista, de poeta, de contista, de ensaísta, de cronista, de memorialista. Foi há cinquenta anos. A sua obra multifacetada permite-nos compreender a existência humana através da literatura e da arte. E hoje voltamos a ler: “Era a hora do estudo da tarde, e Lelito pensava. As Catilinárias abertas na carteira, o dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis na mão – pareciam demonstrar que Lelito prepareva a sua lição de latim. Mas Lelito não pensava nas Catilinárias. Na realidade nem pensava…”       

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Afligido por dores insistentes - e que me vão acometendo com maior frequência - tenho todavia passado uma deliciosa manhã outonal, posto em casa e avistando os campos largos em redor, e que, aqui e ali, vão amarelecendo e despindo-se. Escuto música da Renascença e do Barroco nascente, interpretada por Il Giardino Armonico sob direção de Giovanni Antonini. Gratificante álbum este, reunindo peças de dezassete compositores, produzido e editado pela Alpha-Classics, sob o título genérico de La Morte della Ragione, claramente respigado de um verso do Cancioneiro do grande Petrarca (Canzoniere, CCXI): Reinam os sentidos, é morta a razão. Contudo, quer esta música, quer a sua ilustração por imagens de Hyeronimus Bosch, de Caravaggio, e doutros pintores dos séculos XVI/XVII levam-me a refletir sobre o ensinamento de Erasmo (Moriae Encomium, ou Elogio da Loucura, capítulo XXXVIII) sobre as duas formas da loucura (traduzo): Na verdade, há dois tipos de loucura: a primeira é a que as fúrias vingadoras fazem surgir dos infernos sempre que, soltando as suas serpentes, introduzem no coração dos mortais o ardor da guerra ou a insaciável sede de ouro... A segunda é muito diferente desta, já que é loucura filha da Loucura e, portanto, aquilo que no mundo mais desejável é. Produz-se de cada vez que uma doce ilusão do espírito liberta a alma de angustiantes cuidados e a mergulha em alegrias maiores.

 

   Haverá, quiçá, outras mais loucuras. Talvez as que são simultaneamente origem e fruto de prazeres vários, por regra geral ditos prazeres da carne. Ao contemplar, neste preciso instante, cenas do Jardim das Delícias, do Bosch, ocorre-me uma sentença de Stéphane Audeguy, escritor francês, no seu artigo sugestivamente intitulado L´Empire de l´Incandescense (Le Nouveau Magazine Littéraire, nº 21, setembro de 2019) sobre Georges Simenon, erotómano inveterado, que se gabava de ter conhecido carnalmente 10.000 mulheres. Traduzo: De facto, o jovem Simenon, aluno de padres, depressa perdeu qualquer vocação religiosa, posto que se impunha que escolhesse o seu campo em matéria da origem do mundo. Ou, mais precisamente: a partir do momento em que Simenon faz a experiência essencial dessa desordem do mundo que se chama prazer gozado, deixa de acreditar seja no que for.

 

   Gustave Flaubert, quando viajava por Itália em companhia de sua irmã Carolina e do marido desta, Émile Hamard, perturbou-se, em Génova, com a visão da Tentação de Santo Antão de Breughel, ao ponto de, em carta a seu amigo Alfred Le Poittevin, com data de 13 de Maio de 1845, confidenciar que a obra do pintor flamengo o incitara a escrever, para teatro, sobre tal tentação... ou loucura: A Tentação, de Breughel: uma mulher deitada, nua, com um Amor a um canto... Enquanto olhava para a Tentação de Breughel, chegaram um senhor e uma senhora que se foram logo embora. A expressão dos seus semblantes diante daquelas telas era algo de muito profundo como estupidez. Cumpriam um dever...

 

   Nos seus apontamentos de viagem (Notes de Voyage - Palais Balbi, à Gênes - La Tentation de Saint Antoine, de Breughel), o mesmo escritor diz mais: Ao fundo, de ambos os lados, sobre cada uma das colinas, duas cabeças monstruosas de diabos, meio vivos, meio montanhas. Em baixo, à esquerda, Santo Antão entre três mulheres, e ele a desviar a cabeça para evitar as carícias delas; elas estão nuas, brancas, sorriem e procuram envolve-lo nos braços. Frente ao espectador, mesmo na parte de baixo do quadro, a Gula, nua até à cintura, magra, com a cabeça ornada de ornamentos vermelhos e verdes, triste cara, pescoço demasiado longo e esticado como o dum guindaste, desenhando uma curva na direção da nuca, com clavículas salientes lhe apresenta um prato cheio de coloridos petiscos. Homem a cavalo num barril; cabeças surgindo do ventre de animais; rãs com braços e a saltar no chão; homem com nariz vermelho em cima dum cavalo disforme, rodeado de demónios ; dragão alado a planar, tudo no mesmo plano. Conjunto em formigueiro, grasnando e gargalhando, em jeito grotesco e arrebatado, sob a bonomia de cada pormenor. Tal quadro parece-nos inicialmente confuso, mas, depois, torna-se estranho para a maioria, divertido para alguns, algo mais ainda para outros: para mim, apagou toda a galeria em que está exposto, já nem sequer me lembro do resto...

 

   No próprio texto da Tentation de Saint Antoine, Flaubert escreve um monólogo do santo eremita, ao ler um passo da Bíblia que diz: «A Rainha de Sabá, conhecendo a glória de Salomão, veio tentá-lo, propondo-lhe enigmas». Como é que ela contava tentá-lo? Também o Diabo quis tentar Jesus! Mas Jesus triunfou porque era Deus, e Salomão graças, talvez, à sua ciência de mágico. E como tal ciência é sublime! Pois o mundo - assim me explicou um filósofo - forma um todo cujas partes todas se influenciam umas às outras, como órgãos do mesmo corpo. Trata-se de conhecer os amores e as repulsões naturais das coisas, e pô-las depois em jogo?... Poderemos então modificar o que nos parece ordem imutável?

 

   Eis a questão, Princesa de mim, que me ocorreu durante a leitura daquela afirmação do Audeguy, acima citada: a partir do momento em que faz essa experiência da desordem do mundo, que é o prazer gozado, Simenon deixa de acreditar seja no que for. Mas será assim o prazer desordem sempre e, concomitantemente, inimigo original da fé? Em cada vez que experimento e sinto prazer, será que o delicioso desabrochar dos meus sentidos é advertente sinal de rebelião e insurreição? Tal, na verdade, parece ter sido frequentemente a conclusão de muito pensamento moral e religioso. Daí a estima em que eram tidos os chamados exemplos de culpabilização, penitência, sofrimentos, sacrifícios e sevícias auto infligidos em castigo desse pecado, ou dessa fraqueza moral, que seria cair na tentação da carne, obra do diabo ou, simplesmente, razão primeira de relaxamento e desordem vital. Aliás, essas fraquezas da carne, em representações pictóricas ou literárias, são quase sempre a cedência e cadência de homens (machos) ao demoníaco poder de sedução de mulheres nuas ou fêmeas oferecidas... Tanto isto nos diz sobre a misoginia da nossa cultura, e de Santo Agostinho e o maniqueísmo... A tal ponto, que até o que, nos quadros de Breughel e doutros, nos pode parecer meramente cómico ou alegórico, se torna, nos comentários de Flaubert, numa profunda impressão de carne despida para o sexo. Pelo que me parece legítimo perguntar-nos, Princesa de mim, que obscuras razões levaram a que o prazer que Deus criou para que se fosse gerando a vida tivesse sido estranhamente "convertido" em algo abominável e digno do fogo de qualquer suposto inferno. Lê as Bem Aventuranças da Boa Nova, bem como - ainda segundo Jesus Cristo - o inquérito a que cada um de nós será submetido no dia do Juízo. Fala-se aí de sexo ou de misericórdia? 

 

   Noutra ordem de reflexões, também me pergunto porque é que o século XVIII, o das Luzes, do triunfo do iluminismo racional, terá sido, sobretudo na pátria dos filósofos, uma época tão prolífera da literatura libertina e da própria libertinagem dos comportamentos. Ordem e desordem, como as duas faces de Janus? Ou não será que um certo rigorismo moral é de per si provocador, catalisador de revoltas, ousadias e atos desordeiros? Como também poderemos pensar que, afinal, o pecado maior não estará nas fraquezas da carne, mas no orgulho do espírito, seja este religioso (iluminado pela revelação divina, tantas vezes mal entendida) ou laico (iluminado pela razão humana, tantas vezes abusiva). A primeira edição, que eu conheça, de La Philosophie dans le Boudoir ou les Instituteurs immoraux, do Marquês de Sade, data de 1795, e apresenta-se como obra póstuma do autor de Justine. O respetivo subtítulo elucida-nos de que se trata de Dialogues destinés à l´éducation des jeunes demoiselles. Isto é: uma obra, quase compêndio, de iniciação à libertinagem. Não vou comentá-la, nem observar de perto a pornografia ali descrita em cenas a que, com certeira ironia, Roland Barthes chamou "pornogramas." Mas como o livro está recheado de considerações filosóficas sobre o prazer, a liberdade, a natureza, a religião e a política, traduzo-te uma delas, referente ao filósofo Dolmancé, personagem que, provavelmente, representará Sade (como mostrarei adiante): Só sacrificando tudo à voluptuosidade é que esse indivíduo infeliz chamado homem, sem culpa de ter sido atirado para este triste universo, poderá conseguir semear algumas rosas sobre os espinhos da vida. Mas não esqueçamos o retrato do autor dessas afirmações: Alto e de bela figura, olhos vivos e espirituosos, mas em cujos traços também se desenha algo de duro e um pouco mau...   ...o ateu mais famoso, o homem mais imoral...   ...a corrupção mais completa e mais inteira, o indivíduo mais malevolente e celerado que pode haver no mundo... Afinal, parece que a raiz do mal estará num qualquer uso da nossa consciência. Ora, a consciência humana é um paradoxo entre a natureza, em sentido bruto, e a graça como destino. Pelo que pensossinto que os moralistas, em vez de pregarem códigos minuciosos e castigadores, talvez devessem promover a promoção das consciências da gente para a liberdade da vida.

 

   As línguas dos povos ou, melhor dizendo, a língua que o povo fala é, nos seus modos vários e evolutivos, nas suas modas vocabulares, sinal atento de como vão mudando os valores, com suas referências (a cultura), e os comportamentos das gentes. Recordo, Princesa de mim, como, há décadas atrás, ser relaxado significava ser descuidado, relapso, imoral; nos tempos hodiernos, relaxar é descontrair, procurar sentir-se bem, recuperar tranquilidade e gosto da vida. Independentemente das normas por que nos regemos, a aspiração universal do ser moral é ser feliz. Apesar de se ter enformado em igrejas e doutrinas viciadas na "delícia" da pregação e exercício duma certa "justiça imperial", o próprio Cristianismo, logo nos seus textos neotestamentários e patrísticos, ressuma a esse anseio de felicidade, gosto de viver, alegria de libertação. Este profundo e antiquíssimo impulso do ser humano para a vida (ou, como escreveu S. João, para que seja completa a nossa alegria) não deve, não pode, ser ignorado. Não te digo isto agora, Princesa de mim, em defesa e promoção de libertinagem, mas a pensar na ordem da caridade, ou progresso do amor, de que nos fala São Bernardo, o reformador cisterciense da Ordem de São Bento. Um milénio, ou quase, antes de nós. Noutro contexto cultural e não só. Mas, mutatis mutandis, e fazendo nós algum esforço de entendimento do dito na sua própria circunstância, talvez possamos animar-nos um pouco com o olhar da clemência divina sobre a nossa sempre paradoxal condição. Traduzo trechos dos Sermones in Canticum Canticorum,coisas que um monge medievo disse e escreveu sobre o poema erótico que é o Cântico dos Cânticos:

 

   O rei introduziu-me na adega do vinho e ordenou em mim a caridade (Cântico dos Cânticos 2, 4). Eis qual me parece ser o sentido literal do primeiro capítulo: em conformidade com os seus desejos, a esposa teve um interlúdio doce e íntimo com o seu bem amado e, assim que este se afastou, regressa para junto das moças. Foi de tal modo excitada e acesa pela vista e palavras do Esposo, que parece etilizada. E como as moças se espantam com tal novidade e lhe perguntam porquê, responde que não há que estranhar que ela tenha sido aquecida pelo vinho, já que entrou na adega. Eis aqui o sentido literal. Em sentido espiritual, ela também não nega estar embriagada, mas de amor, que não de vinho...

 

   A fechar esta parábola, ou enigma, não sei, chama-lhe o que quiseres, minha Princesa de mim, não resisto a traduzir-te, da versão original francesa da Bible de Jérusalem, os versículos 3, 4 e 5 da parte 2 do primeiro poema do Cântico dos Cânticos:

 

               Como macieira entre as árvores de um pomar,
               assim é o meu amante entre os rapazes.
               À sua tão desejada sombra me sentei,
               e é tão doce o seu fruto ao meu sabor.
               Levou-me à adega,
               e o estandarte que sobre mim levanta é amor.
               Sustentai-me com bolos de passas,
               reanimai-me com maçãs,
               pois que de amor desfaleço.
               Pôs o seu braço esquerdo sob a minha cabeça
               e com o seu direito me abraça.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira