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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 13 a 19 de abril de 2020

 

Marcel Proust escreveu um pequeno ensaio intitulado Sobre a Leitura, (trad. José Augusto Mourão, Vega, 1991) que merece ser lido com atenção, nestes dias de confinamento.

 

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LIVROS PREFERIDOS

“Talvez não haja dias da nossa infância mais plenamente vividos que aqueles que julgamos deixar sem os viver, aqueles que passámos com um livro preferido”. Foi Marcel Proust quem o disse no seu pequeno ensaio que serviu de prefácio à tradução que fez de Sésame et ses Lys, de John Ruskin, sob o título “Journées de Lecture” Não por acaso, foi Ruskin quem considerou a leitura como o grão de sésamo, pão para o espírito e remédio contra a ignorância dos povos, tesouro escondido da arte de educar. Não falamos, porém, de algo abstrato, mas de uma realidade que tem a ver com a essência das artes e que corresponde ao facto de as gerações comunicarem entre si pela cultura ao longo dos séculos. Umberto Eco dizia, por isso, que a diferença entre quem lê e quem não lê, está em que uns viverão no máximo algumas décadas, enquanto os que leem podem “viver” o correspondente a cinco mil anos, que é a idade da civilização. E que é ler? Não apenas o ato de nos isolarmos num mágico encontro, mas o de podermos usufruir do prazer da transmissão sempre renovada no tempo da palavra. Sabemos que foram os “aedos” da antiguidade que transmitiram aos povos oralmente os grandes poemas… Mas não precisamos de ir tão longe. Basta lembrarmo-nos dos contos tradicionais que ouvimos na nossa infância da boca dos mais velhos. Não esqueço as diversas versões desses relatos que ouvi a uma das minhas avós – a ponto de pedirmos este ou aquele desenlace, de acordo com o que antes tínhamos ouvido. Tenho nos meus ouvidos a voz de minha Mãe a recriar as fábulas tradicionais… E recordo a leitura compassada do dia-a-dia de um ano escolar descrito por Edmundo de Amicis, em “Il Cuore” (“Coração”), obra realizada para ajudar as escolas na unificação italiana. Nunca esquecerei “O pequeno escrevente florentino” e as palavras desse extraordinário relato de solidariedade filial: “Era um gracioso florentino de doze anos, negro de cabelos e alvo de rosto; filho mais velho de um empregado dos caminhos-de-ferro que, tendo muita família e pequeno ordenado, vivia com dificuldades. O pai estimava-o muito, e era bom e indulgente com ele em tudo, menos no que se referia à escola. (…) E por muito que o rapaz estudasse, o pai exortava-o sempre a estudar mais”… No entanto, Júlio, assim se chamava ele, ajudava, às escondidas, o pai a adiantar o trabalho noturno de escrever os endereços em cintas para uma editorial. Mas a falta de sono começou a afetar o aproveitamento do jovem estudante. E o pai não percebeu que se tratava do resultado da generosidade do filho… O relato era seguido com atenção. Aquele como os outros. A cada palavra correspondia uma imagem impressiva – de afeto e angústia.

 

LEITURA EM VOZ ALTA

A leitura em voz alta, com as palavras claras e bem compassadas envolvia ainda a recordação de poemas inesquecíveis ou de passagens de Sermões do Padre António Vieira. Posso dizer que o prazer da leitura começou pela audição desses textos ou pela sua memorização. De Camões, havia uma pequena edição do centenário de 1880, que permitia ler e ouvir a bela expressão de um português tão belo e tão próximo… “Alma minha gentil que te partiste”; “Aquela triste e leda madrugada”; “Sete anos de pastor Jacob servia”; “Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha”; “Erros meus, má fortuna, amor ardente”… E havia ainda o “Romanceiro” de Garrett e a “Nau Catrineta”, num relato de tentação e ventura – “Lá vem a Nau Catrineta / Que tem muito que contar! / Ouvide, agora, senhores, / Uma história de pasmar”… E Antero de Quental tinha um lugar especial no culto da memória familiar (“Num sonho todo feito de incerteza / De noturna e indizível ansiedade”…) – para não falar de João de Deus, Cesário, Camilo Pessanha ou Fernando Pessoa… Felizmente, ao chegar ao Liceu de Pedro Nunes, encontrei em Maria de Lourdes Lapas de Gusmão, uma cultora fantástica da leitura em voz alta. E com que prazer chegávamos à segunda-feira, para ouvirmos e lermos a “Odisseia”, mergulhando na mitologia grega e na viagem iniciática de Ulisses. A leitura em voz alta permitia podermos lidar naturalmente com a sintaxe, o Dicionário e os segredos da etimologia. Era a edição de João de Barros, da Sá da Costa, contada às crianças e lembradas ao povo. E continuámos com a “Eneida” e seguimos para “As Minas de Salomão” na companhia inconfundível de Alão de Quartelmar, devidamente reformulado por Eça de Queiroz.

 

LEITORES COMPULSIVOS E NÃO TANTO…

Voltando ao ensaio de Proust, o prazer da leitura em voz alta e a aprendizagem de cor de textos referenciais, leva ao gosto de ler no exercício pessoalíssimo de recato e de silêncio, como um “prazer divino”, tantas vezes inoportunamente suspenso pelo “jogo para o qual um amigo vinha buscar-nos na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigava a levantar os olhos da página ou a mudar de lugar, a merenda que nos tinham obrigado a levar e que deixávamos ao lado sobre o banco, sem lhe tocar, enquanto por cima da nossa cabeça, o sol diminuía de força no céu azul, o jantar por causa do qual tinha sido preciso voltar para casa e durante o qual não pensávamos senão em ir lá para cima para terminar logo a seguir, o capítulo interrompido…”. Quantos de nós não sentimos isto mesmo. E quanto a leitores compulsivos, é superior às suas forças poder resistir a esse prazer incontido. Dir-se-á que hoje cada vez menos se lê. Não é assim. Há motivos de preocupação, mas não devemos simplificar. Há excelentes leitores, ao lado dos renitentes. Essa é a experiência corrente. Conto os exemplos mais diversos, a começar nos leitores compulsivos, para quem se aplica o que nos diz Marcel Proust, e os pouco motivados. O meu conselho é sempre de que a leitura do puro prazer não pode confundir-se com sacrifício. Do que falamos é da leitura que nos dá gosto e que permite entender melhor o mundo e a vida… Ler é um sinal de atenção e de cuidado. A leitura atenta permite tomar contacto com a cultura e as artes e ter informação sobre a realidade que nos cerca – desde a comunidade em que vivemos às bulas dos medicamentos. Temos de ser exigentes. Tanto se salvam vidas com a leitura motivadora de um poema como com a leitura de boa informação médica ou cívica. Não há, porém, receitas para criar leitores. Criam-se bons leitores pelo bom uso da língua e de uma comunicação clara, compreensível, correta e atraente. E se falamos de boa leitura, não esquecemos o teatro e o canto. Temos de conhecer os clássicos, para que o verbo e o vocabulário sejam rigorosos, mas simples. A leitura e as artes estão intimamente ligadas. A desvalorização da retórica e da oratória e o desconhecimento dos melhores cultores da língua são sinais de pobreza cultural. Por isso, é importante cultivar a leitura em voz alta e a aprendizagem de cor de belos textos ou poemas. Precisamos de saber colocar a voz e de prevenir e não cometer erros gramaticais. Não se trata de formar gramáticos, mas de assegurar uma boa cidadania, para que sejamos compreendidos por todos.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

MISSAS "VIRTUAIS": NÃO JUNTOS, MAS UNIDOS

 

Advertências prévias

 

Insisto constantemente em que no Novo Testamento há duas “definições” de Deus — evidentemente, Deus não é definível, mas são tentativas de dizer algo sobre o seu mistério. Na Primeira Carta de São João, está escrito que Deus é Agapê, Amor incondicional. O Evangelho segundo São João começa assim: “No princípio, era o Logos e o Logos era Deus. E tudo foi criado pelo Logos.” Logos significa palavra, razão, inteligência. Deus é, portanto, Amor e Razão e, assim, a existência humana autêntica resultará da convergência e interpenetração da bondade e da razão, da inteligência e do amor.

 

Também a fé não só não pode contradizer a razão como deve ser razoável e, como diz São Pedro, é preciso dar razões da esperança.

 

Dou exemplos, para mostrar a necessidade de compreender e superar ideias feitas.

 

1. Jesus andou sobre as águas, como está no Evangelho? Não. Na perspectiva bíblica, o mar é símbolo do mal; dizer que Jesus andou sobre as águas é dizer que ele está acima do mal e nos liberta dele, como fez com São Pedro, que já estava a afundar-se. Percebe-se então o que está no Apocalipse, o último livro da Bíblia: “Haverá um céu novo e uma nova terra e já não haverá mar”, isto é, já não haverá mal.

 

Falando no Apocalipse, é preciso, nestes tempos terríveis, prevenir contra as profecias do horror e do fim do mundo. Impõe-se saber ler. De facto, o Apocalipse tem o sentido oposto ao vulgarizado: em tempos de perseguição, quer, utilizando linguagem simbólica e até cifrada, animar os cristãos, que devem confiar na vitória de Deus e de Cristo. E os números? É este o seu significado: 3 é um número perfeito e o número de Deus; 3+4=7 ou 3x4=12, para simbolizar a plenitude (os dias da criação ou a aliança de Deus, respectivamente), os 144.000 assinalados são o múltiplo de 3x4x12x1000 — 1000 também é a plenitude — e simbolizam o novo povo de Deus. Em sentido contrário, a metade destes números só pode significar o não-tempo de Deus e a sua não-aliança, como é o caso de três e meio e de seis. Assim, 666 é o número da Besta, um símbolo numérico do nome e título de Domiciano, imperador perseguidor.

 

2. Jesus ressuscitou mortos? Não. Caso contrário, como é que, sendo o Além o maior abismo da nossa curiosidade, ninguém perguntou a Lázaro como é, se esteve lá quatro dias? Os relatos sobre as ressurreições operadas por Jesus são o que se chama “parábolas em acção”. O seu conteúdo é o anúncio da esperança firme na vida eterna: o que o crente espera para lá da morte — a vida plena em Deus — já está presente na fé.

 

3. O Anjo apareceu a Nossa Senhora para lhe anunciar que ia ser mãe de Jesus? Não. O que lá está é muito mais profundo, pois o que é espiritual é sempre mais fundo e passa-se no interior: como todas as mães, Maria reflectiu, meditou sobre o “milagre” que lhe acontecera.

 

Nossa Senhora é virgem? Os Evangelhos não são um tratado de anatomia. O que lá está é que Jesus é especial, tem uma relação única com Deus.

 

4. Há milagres? No sentido estrito da palavra, isto é, uma intervenção especial de Deus para interromper o curso das leis da natureza e a favor de uns e não de outros, não. Um Deus intervencionista implica ateísmo, pois supõe que Ele criou e se afastou do mundo, para, de vez em quando, intervir nele a pedido. Ora, Deus Criador está sempre infinitamente presente à sua criação e aos seres humanos, que são concriadores. Há os milagres do amor.

 

5. Então, para que serve a oração? Rezar é estar com Deus, no mais fundo e íntimo de si, e falar com Ele como se fala com um amigo, com o pai, com a mãe. Porque Deus é Pai-Mãe. Falar-lhe das dúvidas e perplexidades. Fazer-lhe perguntas: porque é que, no meio dos horrores destes tempos de tribulação da covid-19, não faz nada? Será que existe? Jesus na Cruz gritou aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, mas continuando a confiar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.”

 

Pedir o quê? Pedir a nós mesmos força para fazermos o que devemos e generosidade para estarmos com todos, sobretudo com quem ninguém está.

 

Presença física e presença real

 

Entrando mais directamente no que aqui nos traz, a pergunta é: os católicos acreditam na presença real de Jesus na Eucaristia? A resposta é clara: sim. Mas é urgente compreender, para não se cair no desastre.

 

Por exemplo. 1. Um bispo perguntou-me uma vez: “O que é que se responde a uma criança de 12 anos que, depois de uma procissão do Santíssimo, me veio dizer: ‘Tu não levavas o Jesus, pois não? Tu não podias com Ele!...’”. Respondi-lhe: “O que é que se deve responder exactamente eu não sei. Mas sei que se não deve ensinar o que, depois, leva até uma criança a fazer observações dessas.” 2. Uma vez uma médica, crente, disse-me que tinha pena de não comungar. Mas ficou-lhe, de miúda, uma impressão tal do Corpo de Cristo na hóstia que ainda hoje, ao pensar em comungar, se lhe embrulha o estômago. 3. O filósofo Hegel viu bem o perigo da coisificação. Referindo-se à Eucaristia, escreveu que, segundo a representação católica, “a hóstia — essa coisa exterior, sensível, não espiritual — é, mediante a consagração, o Deus presente — Deus como coisa”.

 

O que é que se passou?

 

Jesus, na iminência da morte, ofereceu uma ceia, a Última Ceia. Abençoando o pão e o vinho, que significam a entrega da sua pessoa, fiel à Verdade e ao Amor, por amor a todos, disse: “Comei e bebei todos. Fazei isto em memória de mim.” Em hebraico, “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue” quer dizer: Isto sou eu, a minha pessoa, a minha vida entregue por vós. Os primeiros cristãos reuniam-se na casa de um companheiro ou companheira (de cum+panis: comer o pão em conjunto) e, recordando essa Ceia e todos os banquetes que Jesus teve com tantos, incluindo pecadores, a oferecer o júbilo da salvação, e tudo o que Jesus fez e é, celebravam “o partir do pão”, uma refeição festiva e fraterna, abertos à esperança de um futuro novo na plenitude da Vida, porque Jesus é o Vivente para sempre.

 

Depois, também porque eram acusados de não oferecerem sacrifícios à divindade, a Missa foi perdendo o carácter de banquete festivo e fraterno e começou a ser concebida mais como sacrifício. Havia aí uma imolação — ainda li isso num manual de Teologia: uma mactatio mystica Christi (matação mística de Cristo) — e discutia-se se essa imolação era real, moral, sacramental.

 

Daqui resultaram equívocos tremendos. É claro que Jesus não fugiu, aceitou a morte de cruz e entregou-se a si mesmo a Deus. Mas não à maneira de vítima sacrificial, para aplacar a ira de Deus. Jesus foi vítima dos homens e não de Deus. Uma concepção sacrificial contradiz a revelação essencial de Jesus: “Deus é Amor incondicional”. Ele não precisa de sacrifícios expiatórios. É uma concepção arbitrária e sacrificial de Deus que leva alguns à blasfémia de dizer que esta covid-19 é um castigo de Deus. Por outro lado, com esta concepção sacrificial apareceu o padre-sacerdote que oferece o sacrifício e, consequentemente, o celibato obrigatório e a chaga do clericalismo, já que o padre adquiria um poder divino: o de, como “outro Cristo”, só ele “trazer Cristo à Terra”, realizando o milagre da transubstanciação, só ele perdoar os pecados, decidindo da salvação ou da condenação...

 

A Eucaristia deixou, pois, de ser celebração festiva em que todos participavam activamente — e só assim fazia sentido —, para tornar-se um sacrifício objectivo autónomo, que o padre até podia celebrar sozinho e que oferecia pelas almas do purgatório e outras intenções. Era possível ir à Missa e não comungar, pois, nela, estava-se “de fora”. Acontece mesmo esta distorção: as “Missas oficiais”, a que assistem agnósticos, ateus, indiferentes, grandes ladrões, sem arrependimento nem qualquer propósito de emenda...

 

 E volta a pergunta: Jesus está realmente presente na Eucaristia? Sim. Mas é preciso distinguir entre presença físico-coisista e presença real pessoal. Um homem e uma mulher, pela relação sexual, estão fisicamente presentes, mas, se não houver amor, estão realmente ausentes como pessoas. Também pode acontecer que tenham de estar fisicamente ausentes, por motivos de trabalho, por exemplo, mas, se houver amor, continua a presença real entre eles. Então, o que falta nas comunidades cristãs? A conversão ao projecto de Jesus. Precisamente nesta não conversão é que São Paulo via que “comemos o pão e bebemos o cálice do Senhor indignamente”, tornando-nos “réus do corpo e do sangue do Senhor”, isto é, culpados da sua morte: de facto, o que ele condena na comunidade de Corinto é que não haja partilha real e que, enquanto uns comem lautamente e se embebedam, outros passem fome.

 

 Afinal, é tudo mais simples mas também mais exigente e libertador.

 

Concelebrar “coronoviricamente”

 

 Na situação de confinamento em casa, porque é que as pessoas, isoladas ou em família, ao participar na Eucaristia pela televisão ou outros meios, não hão-de concelebrar e comungar realmente e não só “espiritualmente”, como é aconselhado? Para ser real, não tem a comunhão de ser sempre espiritual?? Quanto à confissão, porque não confessar-se por telefone ou, como disse o Papa Francisco, “directamente” a Deus?

 

 Assim, frente à televisão, coloque-se na mesa pão e vinho, também uma vela, símbolo da luz de Cristo, acompanhe-se a celebração, escutando a Palavra de Deus, oferecendo o pão e o vinho, símbolos da nossa vida, que pedimos seja transformada e vivificada em Cristo ao serviço da Humanidade inteira. E partilhemos o Pão da Vida e o Vinho da alegria que não tem fim. E esperando poder em breve (quando?), de novo, como habitualmente em comunidade plena, unidos e todos juntos, dando as mãos, celebrar outra vez a Páscoa da Ressurreição.

 

 Há oferta maior, mais felicitante, de esperança e sentido para a Humanidade do que o Evangelho vivo de Jesus? A realizar na vida e a celebrar em Eucaristia.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia da

Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Artigo publicado Jornal SOL | ABR 2020

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Noites insones me vão oferecendo tempos de leitura que, deixando-me cair na tentação de viajar no tempo e no espaço, vou cedendo à novelística e poesia japonesa. Há um qualquer mistério de mim, mesmo para mim, nessa contemplação, ou espiritual comprazimento, de visões nipónicas... Por estranhas e distantes que sejam as suas origens, misturam-se-me cá dentro, sinto-me assim como o lado de lá daquele pântano japonês de que fala o Shusako Endo e tudo digere e recria... Nesta noite de longa vigília que tarde acabou, muito longamente penseissenti este haiku de Yamaguchi  Seishi, poeta nascido no início do século passado (1901), primeiro de uma série inspirada por visita aos túmulos imperiais de Mukden:

 

                     Ryo samuku
                     Jitsugetsu sora ni
                     Terashiau

 

   Versos de 5, 7, 5 sílabas que, a meu livre jeito, assim traduzo:

 

                     Gélidas tumbas:
                     no alto céu, sol e lua 
                     se contemplam

 

   Inexorável, a morte de humanos deixa indiferentes os astros. De nada valerão, a reis e imperadores, os monumentais túmulos que pretendiam abriga-los. Mas, ao recordar nestes dias tantos familiares e amigos que, há bem pouco, repentinamente, deixei de poder ver fora da saudade, e ainda tanta, tanta, gente que, só por andar na rua e falar a outros, é surpreendida pela morte, reencontro a sageza de São João Evangelista neste trecho do seu evangelho que segue o sinal deixado pela ressurreição de Lázaro:

 

   Então, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus reuniram conselho e disseram: «Que havemos de fazer, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se o deixarmos continuar assim, todos acreditarão nele, e virão os romanos destruir o nosso lugar santo e toda a nação.» Então, Caifás, que era sumo sacerdote naquele ano, disse-lhes: «Vós não sabeis nada: não compreendeis que é melhor morrer um só homem pelo povo do que perecer a nação inteira?» Não disse isto por si próprio, mas, porque era sumo sacerdote nesse ano, profetizou que Jesus havia de morrer pela nação, e não só pela nação, mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus que andavam dispersos. A partir desse dia, decidiram matar Jesus.

 

   Já por várias vezes te disse, e escrevi em cartas anteriores, que nenhum de nós - dos que por cá vamos andando - tem qualquer experiência da morte. Nem pode ter. A morte de cada um é sua própria, única, inexorável e irrepetível. Apenas podemos ter - e tantas vezes temos - a experiência da dor que a morte de outros nos causa. Até o evangelho nos diz que, ainda que consciente da sua própria morte, e ciente do modo e circunstância em que ela lhe viria, o mesmo Jesus, pouco antes, choraria sentidamente a morte de Lázaro, seu amigo. E todavia  sabia que o iria ressuscitar, em sinal inequívoco do poder de Deus Pai. Mas em sinal, também, de que a sua misericórdia não é o entreolhar do sol e da lua, nem se comove pela monumentalidade dos depósitos fúnebres. Antes será movida pela dor verdadeira de que perde um amigo.

 

   A narrativa da ressurreição de Lázaro e sua circunstância, feita no Evangelho segundo João, mexe nesse ponto tão misterioso e profundo da nossa humanidade. O trecho do capítulo 11, que acima te transcrevo, dá-lhe outra continuidade: a justificação que dá Caifás para que Jesus seja sacrificado (impõe-se que um homem só morra pelo povo) é mais do que simples argumento de uma razão de Estado. De certo modo, afinal, leva facetas gnósticas daquele evangelista a mergulhar as suas raízes na tradição profética do judaísmo, destituindo ainda esta de carácter nacionalista, para lhe conferir uma vocação universal. A morte e ressurreição de Jesus Cristo não salvará apenas a nação de Israel, mas redimirá a humanidade inteira. Deus Pai não é indiferente ao destino de todos nós.

  

   Talvez para nos levar a meditar sobre isto, a liturgia da Igreja Católica nos proponha a proclamação desse passo do evangelho no 5.º sábado da quaresma, na véspera de Domingo de Ramos, festa da aclamação triunfal de Jesus pelo povo de Jerusalém, a abrir a Semana Maior, ou Santa, esta que terminará no silêncio sepulcral de Sábado Santo, dia de luto absoluto e sem celebrações, depois da memória da Paixão e Morte do Senhor, celebrada em Quinta e Sexta-Feira Santa, e já anunciada e relatada pelo texto de um dos evangelhos sinópticos em Domingo de Ramos. Este ano coube a vez a São Mateus, o que me serviu de convite para uma comovida e atenta escuta do correspondente auto musical de Johann Sebastian Bach. [E sempre me lembro da primeira vez que ouvi a peça, que coincidiu com a minha primeira ida ao Teatro de S. Carlos, em Lisboa, teria eu uns nove ou de anos... Desde então, repito a sua audição anual, seguida, no silêncio de Sábado próximo, da Paixão Segundo São João, do mesmo compositor. E fica-me uma impressão de visita onírica a uma história e um mundo reais, com alguns apontamentos psicológicos que me fazem refletir no paradoxo da nossa condição humana, como, por exemplo, nas diferentes formas de cobardia, de autoavaliação, de arrependimento, de justificação ou de desespero, como nos dramas pessoais de Pedro-que-negou-três-vezes, Pilatos-que-lavou-as-mãos, Judas-que-se-enforcou.]

 

   O que se chama de Mistério Pascal seduz-me desde a infância, quiçá não tanto pela irrupção de um poder divino, como muito mais pela humanidade do encontro de Deus. E não só frequentemente me ocorrem imagens do acolhimento do Pai ao filho pródigo - até já te escrevi um dia que, ao contemplá-las, tanto vejo o filho arrependido como o Pai que também pede perdão- mas calam-se-me bem no fundo do coração essas palavras de São Paulo aos filipenses que lemos na missa de Ramos: Cristo Jesusque era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo. Assumindo a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte na cruz.

 

   [A versão portuguesa deste passo do evangelho que consta dos lecionários e missais em uso, tal como a das traduções diretas do grego, quer a de Frederico Lourenço, quer a do cónego José Falcão, dizem todas morte de cruz. Arrepio-me sempre que assim leio ou ouço, ocorre-me a expressão assinar de cruz. Bem sei que se trata da versão literal do genitivo grego que, aliás, na vulgata latina reza assim: Humiliavit semetipsum, factos obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. E nessas línguas clássicas, tal genitivo não me surpreende nem aborrece. Mas em português, não só me soa muito mal, como nunca entendo porque não hão de tais textos recordar que sempre dizemos: Jesus Cristo morreu na cruz. Qualquer tradução deve encontrar a forma idiomática mais autêntica, isto é, procurar comunicar, mais do que reproduzir literalmente um original.]

 

   Os textos evangélicos buscam, afinal, o verdadeiro pensarsentir de cada um de nós. As suas narrativas trazem-nos a perceção de acontecimentos históricos conservada e cultivada nas memórias e pelas sensibilidades diversas de comunidades coevas ou próximas do tempo de Jesus. Por isso mesmo nos levam sempre a comunhões na esperança e no amor e, simultaneamente à renovação perene, interrogativa e incansavelmente descobridora da fé alimentada por sucessivas gerações de crentes. A cristandade é, tal como o Filho do Pai, que lhe deu o seu nome de Cristo, uma humanidade histórica. O cristianismo não é alguma abstração: é a procura incessante da prática do amor fraterno.

 

   Dizemos que é tácito algo que não se manifesta e permanece calado. Tácito era o nome de um historiador romano do tempo do imperador Tibério e dos primeiros cristãos, que muito pouco ou quase nada escreveu dos mesmos cristãos. Dele te falarei, Princesa de mim, na próxima carta. 

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

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                    Minha Princesa de mim:

 

   Ao ler hoje, como é meu hábito diário, pela manhã nascente, o trecho do Evangelho proposto para o dia, comovi-me profundamente, como quase sempre me acontece ao silenciosamente entrar no texto de São João, pois que assim se nomeia o suposto autor do quarto evangelho, bem distinto dos três sinópticos, escrito provavelmente já na primeira década do século segundo, por alguém que não se cruzou pessoalmente com Jesus Nazareno. Este magnífico testemunho da vida adulta e do ensino, paixão, morte e ressurreição de Cristo aponta assim, nos dois últimos versículos (24 e 25) do seu capítulo final, o seu autor : Este é o discípulo que testemunhou estas coisas e as escreveu. E sabemos que o testemunho dele é verdadeiro. São muitas as outras coisas que Jesus fez, que, se fossem escritas uma a uma, não penso que o mundo tivesse espaço para tantos livros escritos. Mas, mais do que concluir daí a sua atribuição a redator contemporâneo de Jesus, designadamente João, filho de Zebedeu e pescador quiçá analfabeto e certamente ignorante da língua grega escrita, poderá talvez deduzir-se que o texto é, de facto, o registo posterior de memórias de uma comunidade cristã formada à volta de um João. Registo tal que, aliás, se terá elaborado por uma construção teológica dessa tradição de fé. Mas, Princesa de mim, remeto-te para a consulta da nota introdutória ao Evangelho de João, incluída pelo Prof. Frederico Lourenço na edição da sua tradução portuguesa (que aqui utilizamos) pela Quetzal (Lisboa, 2016). Nesta carta, só quero reproduzir o trecho que tanto me comoveu:

   Depois de ter lavado os pés deles, pegou na sua roupa e voltou a reclinar-se à mesa. Disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me "o Mestre" e "o Senhor" e dizeis bem. Sou de facto. Se eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós vos deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos um exemplo para que, tal como eu fiz, façais vós também. Amém, Amém vos digo, o escravo não é maior do que o amo dele, nem um apóstolo é maior do que Aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem aventurados sois se as fizerdes.
   Este trecho do capítulo 13 é como um prefácio à maravilhosa súmula da verdade cristã, que Jesus amorosamente nos dá, como João regista nos versículos 9 a 17 do capítulo 14, passo marcante do seu discurso de despedida, antes de partir, pela via crucis, a caminho da Paixão que o aguarda e lemos descrita pelo mesmo João em Sexta Feira Santa :

   Tal como me amou o Pai, assim eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, tal como eu observo os mandamentos de meu Pai e permaneço no amor d´Ele. Disse-vos estas coisas para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria se complete. Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros tal como eu vos amei. Ninguém possui maior amor do que este, que alguém dê a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos se fizerdes as coisas que vos mando. Nunca vos chamo escravos, porque o escravo não sabe o que faz o seu amo. Chamo-vos amigos, porque todas as coisas que ouvi do meu Pai vos dei a conhecer. Não fostes vós que me escolheste mas eu que vos escolhi e vos estabeleci, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça, para que aquilo que pedirdes ao Pai em meu nome ele vos dê. As coisas que vos mando são que vos ameis uns aos outros.

   Mas foi hoje mais funda a minha emoção, pela circunstância difícil que estamos vivendo, e sobretudo pelo muito que ela tem movido o meu modo de pensarsentir a realidade humana, não só dos que muito sofrem, mas também de tantos e tantos que, generosamente, se vão oferecendo e esforçando para a todos trazerem um apoio, um alívio, um amigo, um aconchego, a nossa humanidade comum. Nem todos, talvez nem muitos, sejam cristãos confessos ou sequer crentes simplesmente. São apenas seres humanos livres que, pela singela consciência do ser antiquíssimo que todos somos na comunhão da nossa condição, vão distribuindo essa graça de frutos que em cada um permanecem, como lembrança, esperança e promessa de comunidade em amor. 

   A leitura que qualquer cristão faça dos capítulos 13 a 17 do evangelho de João nunca poderá ser sectária, nem sequer clubista. A mensagem ali contida só pode ser entendida à luz do versículo que afirma: Na casa de meu Pai há muitas moradas (Jo.14, 2). No seu Christian Beginnings: from Nazareth to Nicea, 30 a 325 DC (Penguin, 2013) Geza Vermes, professor de Estudos Judaicos na Universidade de Oxford, judeu de origem húngara, que estudou em Budapeste e Lovaina e passou por um período católico (creio que até foi padre jesuíta), falando do cristianismo joanino, escreve: Jesus o Filho, ou o Filho de Deus: é o título de Filho e não o de Messias que mais acertadamente descreve o Jesus joanino. E mais adiante diz: Na perspetiva religiosa do Quarto Evangelho, o Filho é enviado por Deus Pai, não como juiz final, mas como dispensador de vida. E o próprio Geza Vermes faz questão em recordar de que vida se trata, citando outro passo de João (17, 22-24): E eu dei-lhes a glória que Tu me deste para que sejam um, tal como nós somos um. Eu estou neles e Tu em mim, para que eles atinjam a completude em um, para que o mundo saiba que Tu me enviaste e os amaste tal como me amaste a mim. Pai, aqueles que me deste, quero que estejam também comigo onde eu estiver, para que contemplem a minha glória, que Tu me deste, porque me amaste antes da fundação do mundo... Daí que o professor oxoniano ouse dizer que, além da redenção da humanidade do pecado, o propósito da Incarnação do Filho é a deificação dos humanos.

   Em Sexta e Sábado Santos, fui sobretudo escutando, a meditar nos textos, as "Paixões" segundo Bach (S. Mateus, S. João e... S. Marcos, sim, quase desconhecida). A última estrofe cantada pelo coro de Marcos reza assim:

 

               Bei deinem Grab und Leichenstein,
               Will Ich mich stetes, mein Jesu, weiden,
               Und über dein verdienstlich Leiden
               Von Herzen froh un dankbar sein.

 

   Traduzo assim, acrescentando também os últimos quatro versos: "Junto da tua tumba e sua pedra
                                                                                                              para sempre quero ficar, ó meu Jesus!
                                                                                                              E graças à tua admirável Paixão
                                                                                                              estar de coração alegre e reconhecido
                                                                                                              e teu será este epitáfio:
                                                                                                              Da tua morte nasce a minha vida,
                                                                                                              aqui jaz a angústia dos meus pecados,
                                                                                                              que com Jesus aqui mesmo sepultei".

 

   Sobre a noite que vai caindo em dia de Sábado Santo se ergue a luz alegre das vestes de um anjo do Senhor que, rolando a pedra que fechava o túmulo, se senta em cima dela, diz às mulheres: Não temais. Sei que procurais Jesus, o crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou, tal como afirmou.

   E em comunhão com todos, sobretudo aqueles que com pandemias se defrontam, pensossinto comigo que um dia será completa a nossa alegria. Seja já nossa essa semente da Páscoa de hoje.

 

            Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

UM SÉCULO SOBRE A PRIMEIRA PEÇA CONHECIDA DE ALMADA NEGREIROS

 

Nesta alternativa entre teatros-edifícios e teatros-textos, fazemos hoje referência ao “Antes de Começar” de Almada Negreiros, escrita há exatamente um século e que constitui a mais antiga peça "sobrevivente" do teatro criado pelo autor. Isto porque antes Almada teria escrito em 1912 dois textos teatrais desaparecidos, “O Moinho” e “23, 2º Andar” , tal como se perderam “Pensão de Família”, “A Civilizada”, “Os Outros” e cenas de peças que felizmente sobreviveram, algumas  em versões posteriores.

 

E por isso, “Antes de Começar”, título que assume valor simbólico, constitui a peça mais antiga de Almada que chegou até nós. Justifica-se assim esta referência ao centenário, sendo certo que a ela nos temos referido numa perspetiva dramatúrgica global, enriquecida, digamos assim, pelo conhecimento direto do teatro de Almada e do próprio autor, amigo de família.

 

E importa ter presente a simbologia que Almada atribui à sua obra dramatúrgica, como aliás à sua vastíssima e excecionalíssima criação artística e cultural. Orgulho-me pois de o ter conhecido bem.

 

E tenha-se então presente que o teatro de Almada Negreiros cerca de 15 peças, assume no seu conjunto a simbologia do lema que também é identificável na restante obra criacional: “1+1=1” marca esta expressão dramática que, afinal, surge também na restante, vastíssima, variadíssima e qualificadíssima obra do autor.

 

 E recordo, a propósito, que na pintura do pórtico da Faculdade de Letras de Lisboa, da autoria de Almada, “Todo o Mundo” é igual a “Ninguém”.

 

“Antes de Começar” é um diálogo de bonecos que assumem a luta de comunicação, busca de entendimento, a generalização da individualidade para o conjunto humano, em suma, a passagem do particular para o geral, raiz e essência da obra conjunta de Almada.

 

Tal como já noutro lado escrevemos, trata-se afinal de uma luta pelo entendimento, um esforço de comunicabilidade, a já referida passagem do particular para o geral numa expressão identificativa que em si mesma se consubstancia no simbolismo de  “1+1=1”.  É pois nessa passagem a identificação dos dois personagens que aparentemente seriam diferentes, mas não são.

 

E essa constatação permite-nos reproduzir um conjunto de citações retiradas desta e de outras peças de Almada, e que marcam a unidade tanto da sua obra teatral como da sua inigualável criatividade artística, aqui na fórmula do texto e do espetáculo.

 

Pois, como veremos em próximo artigo, esta conjunção estética e filosófica marca todo o conjunto do teatro de Almada Negreiros, no total das 15 peças, das quais se perderam diversas, e cenas de outras que completa ou parcialmente sobreviveram: mas em qualquer caso, o conjunto marca pela coerência, pela qualidade e pela homogeneidade estética de forma e conteúdo!

 

DUARTE IVO CRUZ 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

46. UMA CONCEÇÃO HUMANISTA E INTERNACIONAL DE CIÊNCIA

 

Se a ciência do Renascimento tinha como caraterísticas dominantes a observação, a experiência e o método experimental, também a do século XIX e XX se baseia na convicção de que o ser humano está sujeito às mesmas leis físicas que regem o universo  e de que o método experimental é aplicável aos vários ramos da ciência e do pensamento humano.   

 

A ciência era e é tida como obra da humanidade, com benefícios extensivos a todos, sem nacionalismos nem disputas pessoais. 

 

Testemunho presente desta conceção humanista e internacional da ciência, é o testamento do sueco Alfredo Nobel que, em 1896, deixou a sua fortuna a uma instituição incumbida de distribuir todos os anos cinco prémios às cinco pessoas que no decurso do ano prestassem maiores serviços à humanidade.

 

Pessoas a premiar: “a quem no domínio da física tenha feito a descoberta ou invento mais importante”, “a quem na química tenha feito a descoberta mais importante ou chegado a maior aperfeiçoamento”, “ao autor da mais importante descoberta no domínio da fisiologia ou da medicina”, “ao que tenha produzido a obra literária mais notável no sentido do idealismo” e ao “que tenha feito mais ou melhor para a obra da fraternidade dos povos, para a supressão dos armamentos, assim como para a formação ou propagação dos congressos da paz”.     

 

Químico inventor da dinamite, Nobel morreu magoado com o uso dos seus inventos para fins belicistas, ordenando que, após a sua morte, fosse feita a entrega de cinco prémios em física, química, medicina, literatura e para quem contribuísse de modo decisivo para a paz mundial (o prémio na área da economia foi criado, em 1969, em sua memória).

 

É o exemplo de mais um cientista para quem o seu trabalho não foi só felicidade pelo facto de a ciência ser progressiva, poderosa e inquestionável para si e os leigos em geral, acabando por colocar no mesmo patamar, e em pé de igualdade, ciências exatas, humanas e sociais.   

 

Alfredo Nobel apercebeu-se, por experiência própria, que enquanto a ciência evoluía, dominando a natureza e vencendo obstáculos, a inteligência humana procurava novas técnicas para se destruir, com o aparecimento de novas armas de destruição e um agudizar da guerra e conflitos bélicos.     

 

Curioso, nesta sequência, que premiasse a medicina, a literatura e a paz como contributos que podem humanizar o poder destruidor da ciência e da tecnologia, não desvalorizando ou vaticinando a hecatombe das humanidades, ao invés de quem elogia e diviniza as ciências exatas.   

 

É uma conceção de um cientista para quem o pesadelo de George Orwell, de uma ditadura tecnológica, com um controlo total da vida das pessoas, num mundo de cidadãos convertidos em autómatos, é de evitar através do não desaparecimento da cultura como questionamento permanente da realidade, agudizado se houver uma degradação das humanidades e do seu espírito crítico.       

 

Reduzir a ciência apenas a uma sua parte, desprezando ou ignorando o estudo das múltiplas ciências que estudam toda a complexidade humana, é não só uma forma de incultura, mas também um modo de fugirmos da realidade e vivermos num mundo virtual.  

 

10.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CARTAS DE BEBER - 1

 

Miguel;

 

Embora tenha sabido de ti por outros amigos comuns, saber de ti por ti, faz acender uma outra vela que esclarece dúvidas que me preocupavam desde que, daqui, partiste para o mundo.

 

Envio-te a galeria aberta de Caragh Thuring, a leste de Londres, Caragh que não se cansa de procurar de onde vieram as coisas, buscando as imagens e as ideias de todos os recantos da vida, criando os atalhos certeiros para ir até ao fundo e reconsiderar, reposicionar até as sombras, e vir de volta ao quadro que lhe dará outra janela panorâmica do que procura.

 

Em rigor, fui edificando muito do que pensava da tua pintura nestas perguntas: poderá o Miguel ter encontrado na Colômbia a proximidade com a distância que por aqui procurava e sempre lhe fugia? Poderá o Miguel, agora, andar a espreitar Thuring ou ter mesmo trocado com ela dicas e acenos para encontrarem, em paz, o vaso de onde a flor cresce clara e tranquila?

 

Miguel, olá Miguel, que pela tua carta se deduz, o teu não receio de ser, mesmo dentro das irrelevâncias das realidades que, aliás, não tentas explicar, antes sugerir-nos que as possamos percorrer, por muito embaraçoso que seja para todos nós, não termos já iniciado um percurso por aí. Eis como senti as fotografias dos teus quadros que me enviaste em diálogo com a tua carta. Julgo ter visto nelas que a tua pintura já não ameaça amanhecer: ela anda de mão com as manhãs.

 

Julgo que o teu processo passou por um confiar no desconfortável, creio que o mistério da tua pintura, nunca tu o conhecerás, é como estar sempre a ler um livro que enxerta outros, até que seja completado, e, nem mesmo quando o completas, tens uma noção exacta do que ele é, e no que se terá completado.

 

Recordo que me dizias que por aqui só encontravas superfícies planas e imóveis, e no entanto amavas muito este país, sobretudo a sua luz, mas receavas que por aqui não fosses capaz de uma pintura sedutora. No entanto, dizes, é nesta luz que pensas quando pintas.

 

Recordas-te daquele dia em que me propuseste pintar a quatro mãos sendo que eu deveria pensar nas cores como palavras? E disseste-me: todos serão trabalhos falhados, não te preocupes. Tudo é preparatório. Como bem sabes, nunca se sabe quando se encontra algo.

 

De facto Miguel, sempre que senti a tua falta, a falta da nossa amizade se ver no tacto das tintas e das palavras, pensava em ti como um pássaro em direcção lá onde e aonde tu partiste sem nunca teres vivido retirado daqui. E sim, agora respondo-te, a rocha continua lá na praia do Bueiro e é tua e minha vizinha, estejamos nós longe ou cada vez mais perto das coisas invisíveis, ela aguarda-nos mar adentro.

 

Miguel continuas com a ideia de um dia fazermos um filme? Afinal qual a razão de alguém o querer ver? Apenas no Outono, os crisântemos, talvez soubessem…não?

 

Que bom Miguel, já vires a caminho não sabes quando.

 

Afinal a maneira confortável de olhar para algo e reconhecê-lo imediatamente, é um desejo forte, e, como estamos ambos cansados, será bom o abraço.

 

Sim, será algo como uma manta de lã sobre os joelhos e sob ela estarmos de novo, mas obviamente de uma maneira diferente. Será o nosso estúdio com as nossas poeiras aquelas que não renegam as nossas responsabilidades.

 

Agora, ambos sabemos, existem sumos de pedra. Existe o decanto da vida. Existem os portões abertos ou fechados ao silêncio. E que alegria os pássaros com saudades das florestas!

 

Querido Miguel,

 

retribuo o teu abraço imenso e peço que o estendas à tua Santa Cruz de Mompox.

 

Isa

 

Teresa Bracinha Vieira

DOS "NOVÍSSIMOS KEYNESIANOS"

 

Para minha surpresa, que desde os anos 70 me venho assumindo como neokeynesiano, constato que o COVID19 converteu às minhas teses muitos ultraliberais, alguns, ex-adeptos das teses monetaristas, outros, ex-“supply-sliders”, e outros, ainda, que não sabem o que tudo isso representa, mas que têm como princípio existencial mudarem de ideias sempre que as mesmas não são conciliáveis com os seus interesses pessoais.

 

Pelos vistos, muitos são aqueles que, quando descobrem que se está confrontado com uma crise insusceptível de ser solucionada com mero recurso aos mecanismos ditados pela “ mão invisível”, optam por suspender, ainda que temporariamente, as suas convicções neo-liberais, adoptando uma postura pró-intervencionismo estatal.

 

Vem tudo isto a propósito de estarmos confrontados com uma situação que, por ser dramática e por se apresentar insusceptível de ser ultrapassada sem recorrer a uma flexibilização dos critérios de convergência nominal na UEM, impõe, simultaneamente, que sejam dados passos fundamentais no sentido de uma reforma das políticas e das instituições existentes no que se convencionou designar de “ área do euro”.

 

É preciso completar a União Monetária com a União Económica e com a implementação de uma maior União Política da Europa.

 

Importa reforçar o Orçamento da UE e passar a haver um Orçamento da UEM.

 

Importa reforçar os fundos estruturais e os mecanismos de transferência de recursos do “ centro europeu” para as “ periferias europeias”.

 

Importa criar um Ministério da Economia e das Finanças Europeu.

 

Importa possibilitar que o BCE passe a poder comprar dívida pública no mercado primário “ a la Roubini”.

 

Importa que a UEM caminhe no sentido da aceitação da mutualização da dívida.

 

Importa dar passos no sentido da implementação de um Plano Europeu de Recuperação Económica Pluri-Anual.

 

Michael Cox, na sua “ International History since 1989”, procurou explicar que entre as teses liberais optimistas de Francis Fukuyama e o radicalismo de Noam Chomsky, existem as contribuições teóricas realistas de Mearsheimer e de Huntington, as quais pretendem atender às especificidades económicas, políticas, sociais e culturais a que os povos estão, necessariamente, confinados.

 

E se é verdade que o “ realismo” nos leva a admitir que as reformas acima mencionadas não podem ser feitas num dia, sem se entrar em linha de conta com toda a problemática da correlação de forças endógenas e exógenas, também não é menos verdade que alguma transformação tem que existir no momento único que atravessamos.

 

Talvez uma solução um tanto híbrida.

 

Talvez a aceitação de algumas das ideias acima mencionadas, que não de todas.

 

Mas, algo vai ter de acontecer, para que o projecto desenhado por Jean Monet e Robert Schumann, os “ founding fathers” da EUROPA, continue a fazer sentido.
Nem mais, nem menos...

 

António Rebelo de Sousa

A SABEDORIA DE VIVER. 2

 

Como prometido, dou continuidade à crónica da semana passada, com pensamentos, estórias, contos..., a partir das “Sabedorias do mundo”.

 

Atendendo à situação de confinamento em casa, resumo, numa segunda parte, dez conselhos do dominicano Frei Betto, que, durante a ditadura brasileira, esteve preso em celas de isolamento. Evidentemente, eles aplicam-se adaptando-os às diferentes situações.

 

I. A sabedoria de viver (continuação)

 

4. Paciência inteligente

 

4.1. “A paciência é um remédio universal para todos os males”. (Provérbio nigeriano).

 

4.2. “Um adolescente japonês foi ter com um mestre de artes marciais e perguntou-lhe quanto tempo seria necessário para aprender esta arte.

 

   — ‘Dez anos’, disse-lhe o mestre.

  — ‘Dez anos? É demais. Nunca terei força para esperar!’.

 — ‘Então, vinte anos’, disse-lhe o mestre.” (Conto japonês).

 

4.3. “Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora consagrava a sua vida a ensinar o budismo zen aos jovens. Apesar da sua idade, dizia-se em voz baixa que era ainda capaz de enfrentar qualquer adversário. Um dia chegou um guerreiro conhecido pela sua total falta de escrúpulos. Era célebre pela sua técnica de provocação: esperava que o seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência rara para aproveitar-se dos erros cometidos, contra-atacava com a rapidez do raio. Este jovem e impaciente guerreiro nunca tinha perdido um combate. Como conhecia a reputação do samurai, tinha vindo para vencê-lo e aumentar a sua glória. 

 

Todos os estudantes se opunham a esta ideia, mas o velho mestre aceitou o desafio. Reuniram-se todos numa praça da cidade e o jovem guerreiro começou a insultar o velho mestre. Atirou-lhe pedras, cuspiu-lhe na cara, gritou dizendo todas as ofensas conhecidas, incluindo ofensas contra os seus antepassados. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. Ao cair da noite, esgotado e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

 

Desapontados por verem o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os estudantes perguntaram: — ‘Como suportou esta indignidade? Porque é que não se serviu da espada, mesmo sabendo que ia perder o combate, em vez de exibir a sua cobardia diante de nós todos?’ — ‘Se alguém vos oferece um presente e vós não aceitais, a quem pertence o presente?’, perguntou o samurai. — ‘A quem tentou dá-lo‘, respondeu um dos discípulos. — ‘Isso vale também para a inveja, a raiva e os insultos’, disse o mestre. ‘Quando não são aceites, pertencem sempre a quem os leva no coração’.” (Conto japonês).

 

Aqui, eu lembrei-me do jogador brasileiro Dani Alves, do Barcelona, a quem, há alguns anos, em pleno jogo, quiseram humilhar, atirando bananas para o campo. E ele? Descascou uma banana e comeu-a. Ridicularizou os imbecis e triunfou com inteligência sobre quem, racista, queria humilhá-lo.

 

5. A morte

 

5.1. “Que fazes? – ‘Procuro um meio de não morrer.’ – ‘E dá resultado?’- ‘Para já, sim. Até agora deu’.” (Estória da cultura muçulmana).

 

5.2. “Uma bela manhã, o califa de uma grande cidade viu correr para ele num estado de grande agitação o seu primeiro vizir. Perguntou as razões desta inquietação e o vizir disse-lhe: — ‘Suplico-te, permite-me deixar a cidade hoje mesmo’ — ‘Porquê?’ — ‘Esta manhã, ao atravessar a praça para vir ao palácio, senti-me tocado no ombro. Voltei-me e vi a morte que me olhava fixamente’. — ‘A morte?’ — ‘Sim, a morte. Reconheci-a perfeitamente, toda vestida de preto com um lenço vermelho. Ela está cá e olhou para mim para meter-me medo. Ela anda à procura de mim, estou certo disso. Vou buscar o meu melhor cavalo e poderei chegar esta noite a Samarcanda’. - ‘Era realmente a morte?’ Tens a certeza disso?’ - ‘Absoluta. Vi-a como te estou a ver a ti. Tenho a certeza de que era ela. Deixa-me partir, peço-te.’ O califa que tinha afecto pelo seu vizir, deixou-o partir.

 

O homem voltou a casa, pôs a sela ao primeiro dos seus cavalos e atravessou a galope uma das portas da cidade, na direcção de Samarcanda. Um pouco mais tarde, o califa, atormentado por um pensamento secreto, decidiu disfarçar-se, como fazia por vezes, e sair do palácio. Sozinho, dirigiu-se à grande praça no meio do barulho do mercado, procurou a morte com os olhos e viu-a, reconheceu-a. O vizir não se tinha enganado. Era da morte que realmente se tratava, alta e magra, toda vestida de preto, o rosto meio dissimulado sob um lenço de algodão vermelho. Ela passava de um grupo a outro no mercado, sem que dessem por ela, batendo com o dedo no ombro de um homem que organizava a sua loja, tocando o braço de uma mulher carregada de menta, evitando uma criança que corria para ela.

 

O califa dirigiu-se na direcção da morte. Ela reconheceu-o imediatamente, apesar de disfarçado, e inclinou-se em sinal de respeito. — ‘Tenho uma pergunta a pôr-te’, disse-lhe o califa, com voz baixa. — ‘Estou a ouvir-te’. — ‘O meu primeiro vizir é um homem ainda jovem, cheio de saúde, eficaz e honesto. Porque é que esta manhã, quando vinha para o palácio, lhe tocaste e o apavoraste? Porque é que olhaste para ele com ar ameaçador?’

 

A morte pareceu levemente surpreendida e respondeu ao califa: — ‘Não queria apavorá-lo. Não olhei para ele com ar ameaçador. O que aconteceu simplesmente é que, quando por acaso esbarrámos um no outro no meio da multidão e o reconheci, não pude deixar de manifestar o meu espanto, que ele terá tomado como uma ameaça.’ — ‘Porquê esse espanto?’, perguntou o califa. — ‘Porque, respondeu a morte, não esperava vê-lo aqui. Tenho encontro com ele esta noite, em Samarcanda’.” (Versão de um dos contos mais famosos do mundo, a lembrar a morte inevitável; a morte, que é o impensável que obriga a pensar).

 

5.3. “Somos todos visitantes deste tempo, deste lugar; apenas os atravessamos. O nosso objectivo é observar, aprender, crescer, amar. Depois, voltaremos a casa.” (Provérbio aborígene).

 

5.4 “Onde se encontra o lugar da luz, se aquele que dá a vida se esconde?” (Poema azteca).

 

5.5. “Quando nascestes, chorastes, mas o mundo rejubilou. Vivei a vossa vida de tal modo que, quando morrerdes, o mundo chore e vós rejubileis.” (Provérbio ameríndio).

 

5.6. “A morte não passa de um casamento com a eternidade.” (Provérbio iraniano).

 

II. Dez conselhos de Frei Betto para enfrentar o confinamento forçado pela pandemia

 

1. Mantenha o corpo e a cabeça juntos. Estar com o corpo em casa e a mente focada lá fora pode causar depressão.

 

2. Crie rotina. Imponha-se uma agenda de actividades. Exercícios físicos, leituras, limpezas, cozinhar, investigar na net...

 

3. Não fique todo o santo dia diante da televisão ou do computador. Diversifique as suas ocupações.

 

4. Use o telefone para ligar a parentes e amigos, não esqueça os mais vulneráveis e sós.

 

5. Dedique-se a um trabalho manual: reparar coisas, coser, cozinhar...

 

6. Entretenha-se com jogos. Se está com outras pessoas, estabeleça um momento do dia para jogar xadrez, damas, cartas...

 

7. Escreva um Diário sobre a quarentena. Colocar no papel ou no computador ideias, apreciações, sentimentos, é profundamente terapêutico.

 

8. Se houver crianças ou outros adultos em casa, partilhe com elas as tarefas domésticas.

 

9. Medite. Mesmo que não seja religioso, aprenda a meditar, pois isso limpa a mente, retém a imaginação, evita a ansiedade e alivia tensões.

 

10. Não se convença de que a pandemia acabará rapidamente ou durará x meses. Aja como se o período de reclusão fosse durar muito tempo. Na prisão, não há nada pior do que o advogado que garante ao cliente que recuperará a liberdade dentro de dois ou três meses.

 

III. Concelebrar “coronoviricamente”

 

Aqui, digo eu. Se o leitor ou a leitora são católicos e costumam seguir a Missa pela televisão ou outros meios, saibam que podem, em casa, celebrar a Eucaristia em sentido pleno e comungar. Como explico num texto publicado ontem no jornal SOL.

 

A fé, como diz a etimologia — fides, fiar-se de, confiar —, dá esperança, confiança. E a oração deve ser uma conversa com Deus, que é Pai-Mãe, falar com Ele como quem fala com um amigo íntimo, com o pai, com a mãe, expor-lhe dúvidas, medos, perplexidades, fazer-lhe perguntas... Jesus na Cruz (estamos na Semana Santa) também rezou perguntando a Deus, no horror da Cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, mas continuou a confiar: “Nas tuas mãos, Pai, entrego o meu espírito”... 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 ABR 2020

O BEM E O MAL

 

O pai morrera e ele nunca mais almoçava. O caixão era paupérrimo, uma coisa dickensiana ao lado da qual caminhava a aflita dor da mãe. O futuro Charlot, vinha atrás da urna do pai e do pranto da mãe. Para distrair a fome, ia mimando, caricatural, o sofrimento materno. Tão expressivo que o irmão soltava gargalhadas. Toda a criança é cruel, dir-se-á. O futuro diria que ele era mau como as cobras.

 

Há outra morte a atravessar-lhe biografia e obra. O primeiro filho de Chaplin nasceu mal-formado e morreu após três dias de angústia. Duas semanas depois, sem indulgência, Chaplin fazia testes a actores para o que seria o filme-querubim a que chamamos “The Kid”. Fê-lo como quem se cura com o próprio veneno.

 

Ignóbil foi também a inspiração de “The Gold Rush”. O brutal rigor de um Inverno isola um grupo de pesquisadores de ouro. Para sobreviverem comem os cadáveres dos que vão tombando. Depois de ver o que Chaplin fez com esse material, até nem me parece estranho que Cristo em Canaã tivesse transformado a água em vinho. Como se convertem tragédias em comédias, que estranha alquimia transforma a crueldade em angelical inocência? A maldade é, aposto, um ingrediente essencial. Vejamos.

 

“Mau como as cobras” foi o que disseram quase todas as mulheres de Chaplin. Numa altura em que as ligas puritanas marcavam Hollywood homem a homem, uma menor, Mildred Harris, clamou estar grávida dele. Sem poder arriscar o escândalo, o genial Chaplin casou-se. Estava à espera dela no registo e vendo chegar a juvenil figura não resistiu a um comentário sibilino: “Sinto um bocadinho de pena dela.” Não era caso para menos, em dois anos estavam divorciados e ela acusava-o, provavelmente com inteira verdade, de crueldade mental. Mas sem esses dois anos de tortura de Mildred será que Chaplin teria algum dia criado “City Lights”?

 

Reincidiu. Lembram-se da Lita Grey do “The Kid”? Tinha 12 anos. Aos 15, Chaplin chamou-a para ser a estrela de “The Gold Rush”. Ainda chegou a filmar, mas Lita descobriu-se, de repente e não por acaso, em estado interessante. Novo casamento urgente e obrigatório, nova tragédia pessoal. Chaplin abandonou-a num palácio dourado, enquanto se locupletava em infidelidades que incluíam a actriz que a substituiu e uma amiga que Lita lhe apresentara. A declaração de Lita no divórcio foi histórica: acusava Chaplin de todas as crueldades e mesmo de uma heterodoxa abordagem à relação sexual que a lei californiana condenava. Era, de frente ou de costas, mau como as cobras.

 

A desumanidade de Chaplin explica a humanidade da sua obra? O facto é que as tragédias, próprias ou alheias, foram o capital cómico dos seus filmes. O narcisismo, o ressentimento, a perversidade, a mesquinhez, a infidelidade geraram obras-primas. Atrevo-me: só do mal pode vir algum bem.

 

Manuel S. Fonseca