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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 6 a 12 de abril de 2020

 

“Dicionário de Lugares Imaginários” de Alberto Manguel e de Gianni Guadalupi, com tradução de Carlos Vaz Marques e Ana Falcão Bastos (Tinta da China, 2013) é, como o nome indica, um livro de referência, onde a imaginação impera. Mais do que o simples repositório de elementos conhecidos, trata-se de uma fecunda e apetecível recriação.

 


UM EXERCÍCIO ROMANESCO
Verdadeiramente, estamos perante um autêntico exercício romanesco que se estende no tempo, mas que procura centra-se em diversos espaços. Trata-se, assim de um poderoso exercício de imaginação que parte da informação dada pelas fontes originais. Tudo começou quando Gianni Guadalupi (1943-2007), um “viajante sedentário”, teve a ideia de escrever um guia turístico para Selene, a cidade dos vampiros, do romance do francês Paul Féval (1816-1887), sobre as cautelas a ter quanto aos vampiros, onde se podia comer e dormir ou não se devia estar de modo algum. Guadalupi traduziu para italiano autores como Kipling, Borges, Allende e Benedetti, editando diversos livros e antologias dedicados a viagens, reais e imaginárias. Estudou temas diversos, como os jesuítas na China, os viajantes setecentistas na Pérsia e no Oriente, os portugueses na Índia ou a descoberta da América e os pioneiros aeronáuticos italianos. Publicado originalmente em 1980, o Dicionário de que falamos foi aumentado em 1987 e 1999 e integra não só lugares previsíveis do mundo literário como Ruritânia, Shangri-La, Xanadu, Atlântida, Oz, o País da Maravilhas de Lewis Carroll, Utopia, Nárnia, os países de Gulliver, a ilha de Crusoé, mas também as criações de Tolkien, Dylan Thomas, Edgar Rice Borroughs, Conan Doyle ou de Cervantes e Rabelais… Se é verdade que o ponto de partida foi o encontro com a literatura conhecida, a-pouco-e-pouco o universo foi-se alargando, para lugares que um viajante pudesse querer visitar, deixando de lado os céus, os infernos e o futuro, e incluindo apenas o nosso planeta. Excluíram-se lugares como Balbec de Proust, Wessex de Hardy, Yoknapatawpha de Faulkner e Barchester de Trollope por verdadeiramente serem disfarces de lugares reais. E, a partir daqui, houve uma escolha em que o imaginário e a verosimilhança se foram articulando e afinando. E houve que ilustrar o livro, com rigor e sobriedade, e assim foram escolhidos Graham Greenfield e Eric Beddows, e James Cook para os mapas.

 

UMA ANTIGA NECESSIDADE
“É muito antiga a necessidade de inventar países e depois dizer como o autor os encontrou”. Assim aconteceu com a “Epopeia de Gilgamesh”, que é uma crónica da viagem de um rei ao Reino dos Mortos ou com a “Odisseia”, em que Ulisses viaja entre Troia e Ítaca…De facto, nos primórdios, as ilhas imaginárias foram gregas: a ilha dos Ciclopes, o reino de Circe, a sociedade da Atlântida. Os árabes também imaginaram ilhas. “As Mil e Uma Noites” têm ilhas mágicas que vogam nos mares, transformam-se em baleias ou voam nos céus. No entanto, a verdadeira geografia imaginária das ilhas surge com Thomas Morus em “Utopia”, que propositadamente é batizada como não tendo lugar algum, donde vem um português, Rafael Hitlodeu. Tendo arquitetado a obra com Erasmo de Roterdão, Morus ganhará muitos seguidores, como Campanella, Bacon, Rabelais, Voltaire, Fourier, Montesquieu, Huxley, H. G, Wells – segundo o método ideal didático – positivo e negativo – baseado numa alegoria, que se contrapõe às sociedades reais vividas por cada um. A ilha de Crusoé é real, mas o autor concede liberdade a Robinson, para dar ênfase à importância da singularidade. Já Jonathan Swift faz Gulliver viajar ao encontro de sociedades que são autênticos “espelhos deformadores” do nosso próprio mundo: em Lilliput tudo é pequeno e ridículo, em Brodingnag tudo é enorme, o que leva o rei desse lugar distante a comparar os homens a pequenos vermes desprezíveis. A ilha de Laputa, que voa nos céus, e Lagado levam Swift a denunciar projetos científicos ilusórios, enquanto em Glubbdubdrib, ilha de feiticeiros e de mágicos, as mentiras dos historiadores são postas a nu, enquanto, na ilha dos Houyhnhms, os brutais yahoos são cavalos que no fundo se assemelham a nós. E no esteio do crítico severo e implacável que Swift foi, encontraremos autores modernos como Bioy Casares, Italo Calvino, Haruki Murakami, Garcia Marquez e Umberto Eco.

 

UM DICIONÁRIO ESPECIAL
As 1200 entradas deste Dicionário permitem viajarmos no inesgotável mundo da imaginação. E podemos encontrar das mais antigas referências deste repositório logo na Atlântida, “vasto continente-ilha submerso sob as águas do Atlântico por volta de 9560 a. C.” e referenciado desde Platão até Conan Doyle. E não podemos deixar de associar aos Açores e à Macaronésia… Mas lembramos ainda a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, com Calemplui, a ilha ao largo da costa da China, na foz de um dos grandes rios, rodeada por uma muralha de 26 palmos de altura, construída com lajes tão perfeitas que a parede parece feita de uma só peça. E ciclo bretão? Camelot, capital do reino de Logres no sul de Inglaterra, é a corte do rei Artur, não podendo esquecer-se Avalon e mediatamente o célebre Amadis de Gaula. E continuando com referências próximas e conhecidas, José Saramago traz-nos a Ilha dos Cegos. Misteriosamente, Nedim Gürsel leva-nos ao Cemitério dos Livros Não Publicados, estranho armazém de obras impossíveis, daí devendo partir-se para o Reino da Imaginação, lugar sempre verdejante, governado por uma imperatriz bondosa, secundada pela embaixadora princesa da História e pela controversa Madame Moda. E, em contraponto, Jorge Luís Borges lembra a estranha Cidade dos Imortais, em tempos habitada por Homero e onde Joseph Cartaphillus, antigo comerciante de Esmirna, deve ter encontrado um antídoto eficaz contra o estigma, pois morreu a bordo do «Zeus» em outubro de 1929 e foi enterrado na Ilha de Ios. Já Ishmaelia é o país em que Evelyn Waugh celebrizou por engano um pobre jornalista. Tolkien põe-nos na Terra Média, onde encontramos a raiz da História na música de Eru ou Iluvatár, origem de toda a criação e o mais poderoso dos seres. Eru possui a Chama Imperecível que animou os Ainur, os Sagrados, a primeira das suas criações… E Umberto Eco inventa a Ilha da Véspera “porque os visitantes são incapazes de fixar um ponto no espaço a partir do qual se possa medir o tempo, o que torna impossível inscrever a Ilha no presente…” E num movimento sempre tão intenso, não poderemos deixar de lembrar, como corolário de tudo, Xavier de Maistre na sua viagem à volta do quarto de 1794, talvez o mais criativo de todos os lugares imaginários… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Hoje, apenas te mando um imaginário bilhete postal, com as ilustrações que nele descobrires.

 

   Pela madrugada, entrou-me pela varanda do quarto uma luz leitosa e acordei cercado por cerrado nevoeiro. Foi-se desvanecendo com o espreguiçar do sol, mas logo voltou a fechar-se. Talvez fosse uma saudade da noite a chamar à paisagem uma penumbra de silêncio. Afinal, já erguido e remoçado, o astro rei limpou os ares e fez-se luz. E ocorreu-me este haiku, penso que de Masaoka Shiki, poeta da era Meiji, na viragem do século XIX para o XX:

 

                      Haru no hi ya
                      hito nanimo senu
                      komura kana

 

   Três versos com cinco, sete e cinco sílabas. Que, livremente, o meu pensarsentir traduz assim:

 

                     Dia de Primavera:
                     neste lugar isolado
                     ninguém faz nada

 

   Desço ao rés do chão sobre os campos, e com eles me confundo em ação de graças pela solidão que o sol aquece.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

EVOCAÇÃO DO TEATRO DE JORGE DE SENA

 

Foi noticiada a morte de Mécia de Sena, viúva de Jorge de Sena (1919-1978), escritor e dramaturgo de grande prestígio e qualidade. De assinalar que Mécia completara exatos 100 anos, o que obviamente merece referência. Era irmã de Óscar Lopes, o que desde logo reforça a ideia de uma sólida formação e atividade de escrita e de cultura.

 

Aqui evocamos então novamente a obra dramatúrgica de Jorge de Sena, desde logo pondo em relevo a qualidade e abrangência cultural deste autor, que tanto marcou e marca a literatura portuguesa.

 

E no que toca ao teatro, é adequado lembrar outra vez a abrangência dessa dramaturgia, de certo modo algo inesperada num escritor que tanto marcou como tal a sua geração, mas que sobretudo completou, digamos assim, a sua atividade literária com diversas abordagens da criação teatral.

 

Como já tive ocasião de escrever, o teatro de Jorge de Sena representa a mais acabada continuidade e complementaridade entre o surrealismo e o classicismo. E isto porque, se abstrairmos um ato breve de toada realista-naturalista, “Luto” (1938), nos 18 anos do autor, a grande entrada de Jorge de Sena no teatro faz-se através de um texto exemplar na reformulação da estrutura e da linguagem clássica. Trata-se de “O Indesejado (António, Rei)” - 1945), tragédia da negação do sebastianismo e texto exemplar na contenção grave, compassada mas muito intensa da sua linguagem poética ( in “ História do Teatro Português” ed. Verbo 2001 págs. 299/300).

 

Enumero as restantes peças que Jorge de Sena publicou, isto para além de mais esboços, obras incompletas ou intenções expressas mas não concretizadas. E refiro então essas seis peças:

 

“Amparo de Mãe” (1948), “Ulisseia Adúltera” (1948), “A Morte do Papa” (1964), “O Império do Oriente” (1964), “O Banquete de Dionísios” (1969), “Epimeteu ou o Homem que Pensava Depois” (1971).

 

Este conjunto dramático assume diversificados estilos. Só como exemplos, referirei designadamente o verso de “O Indesejado”. Acrescento o surrealismo subjacente de “Amparo de Mãe” ou de “Ulisseia Adúltera”, isto para citar, precisamente, as três primeiras peças conhecidas do autor.

 

 E saliento que em “O Indesejado”, como referi a peça inicial conhecida desta dramaturgia, a qualidade da versificação desde logo revelaria o sentido de conciliação da escrita e da cena, ou, dito de outra forma, do texto e do espetáculo.

 

E a propósito, cito Luiz Francisco Rebello, que qualifica Sena como poeta, assim mesmo, e que qualifica “O Indesejado” como “admirável tragédia histórica em verso branco”.

 

Luiz Francisco Rebello refere o próprio Jorge de Sena, o qual sobre esta peça escreveu que se trata da “tragédia de uma consciência nacional lutando contra a abstração e sujeição crescente do seu próprio destino”. E acrescenta Rebello que a peça “opõe ao mito sebastianista a desencantada lucidez de uma condição humana portuguesa moldada pela fatalidade histórica”... (in ”Breve História do Teatro Português”).

 

E essa visão permitiu-me referir a qualidade aglutinadora da obra teatral de Jorge de Sena: pois como escrevi em “Introdução do Teatro Português do Século XX” (Espiral Editora), “para lá das disparidades, não há dúvida, estamos perante uma obra una, inteira, comum”!

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

45. CIÊNCIA, HUMANIDADES E HUMANISMO (II)

 

Não consta que o Renascimento tenha sido uma época de infelicidade e não reconhecimento do trabalho dos seus autores, como movimento literário, artístico e científico que foi, mesmo aquando da leitura, redescoberta e compreensão dos nomes mais representativos da antiguidade grega e latina, como Sócrates, Platão, Homero, Cícero, Virgílio, Ovídio, Suetónio, Tito Lívio, revivendo-os e fazendo-os renascer, apesar de serem passado.

 

O humanismo é tido como o pai do Renascimento significando, etimologicamente, culto, civilizado, onde a pessoa é o centro e objeto fulcral tendo, como nomes permanentes, Erasmo, Dante, Petrarca e Bocácio na literatura, na pintura e arquitetura Rafael, na escultura, pintura, poesia, urbanismo e arquitetura Miguel Ângelo, na sociologia e política Maquiavel e Tomás Moro.

 

Teve também cientistas, entre os quais Leonardo da Vinci e Copérnico. 

 

Leonardo foi astrónomo, engenheiro, matemático, geólogo, médico, investigador, desenhador, pintor, poeta, escultor, um humanista, um homem de ciência e das humanidades, mais que qualquer outro do seu tempo, até ao atual.

 

Copérnico foi um genial cientista do movimento científico humanista e renascentista, afirmando que a Terra girava, com outros planetas, à volta do Sol, o que foi completado e verificado, mais tarde, por Kepler e Galileu. 

 

Este movimento científico frutificou em grandes descobertas como as de Vesálio (pai da anatomia), Servet (leis da circulação do sangue) e Pedro Nunes (cientista e humanista português, inventor do nónio).   

 

Este humanismo prova que para ser integral e íntegro, nada melhor que a interligação entre as humanidades e a ciência, embora realidades autónomas, mas não independentes, face a face numa relação de colaboração e interdependência recíproca. 

 

À data, tão reconhecidos eram os homens das humanidades, como da ciência, tão infelizes, perseguidos e condenados podiam ser os primeiros (Damião de Góis, entre nós), como os segundos (Galileu), como Einstein também é censurado e responsabilizado pelo seu saber ao serviço da bomba atómica, de que o próprio se culpabilizaria e não mais se libertaria, apesar de hoje as humanidades serem tidas de menor valia e mais penalizadas que a ciência. 

 

A que acresce a menorização que é dada às humanidades, no fim da vida, por Steiner, entre outros, quiçá num desabafo de pontual pessimismo, por antagonismo com a maioria do seu legado, abalando admiradores, e com o qual não concordamos.   

 

Embora seja imperioso ter consciência que na ciência e tecnologia pode sempre haver o lado negro das trevas, que desumaniza, e o lado bom, que humaniza. 

 

A energia nuclear pode ser benéfica ou maléfica consoante o uso que tiver para alcançar o fim pretendido.   

 

É, por exemplo, um benefício para a humanidade na cintigrafia óssea, avaliação da função renal com o renograma, no avaliar da função alveolar com a cintigrafia pulmonar, no avaliar da função do miocárdio com a cintigrafia cardíaca e em muitas outras aplicações na medicina, particularmente na doença oncológica, mas também pode ser destrutiva, mediante o uso da bomba atómica. 

 

De igual modo o saber ler, escrever e falar línguas é imprescindível para qualquer pessoa, incluindo as da ciência e da tecnologia, bem como uma notável obra literária, musical ou das artes em geral que beneficie a idealização e perpetuação da nossa espécie, mas não é um ideal a seguir, se destrutiva e sem sentido crítico, havendo também o lado solar e sombrio das humanidades.   

 

O que se impõe é uma ética humanista que imponha limites, colocando o ser humano, na sua dignidade, acima de qualquer utopia científica e tecnológica por mais importante, progressiva e poderosa que seja, em comunhão e conjugação de esforços e reciprocidade com as humanidades e o humanismo.

 

03.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

ANA HATHERLY: A ROMÃ. DE FRENTE E ASSIM DE DENTRO, AS TISANAS.

 

Poderia haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã. Poderia existir uma maneira melhor de sair do impasse sem que acreditasse que dentro da romã estava a resposta que procurava? Sentou-se à mesa.

 

Pensativamente continuava a olhar para a romã como uma possibilidade. Afinal existiam letras e algarismos nas sementes das romãs: existia aquela cor inconfundível do líquido-sangue que vertia.

 

Um dia, no tabliê de um táxi estava pousada uma romã:

 

- A romã não cai porquê?

 

- Tem adesivo – disse, secamente o motorista.

 

- Mas sabe que a romã é uma peça do mistério da vida?

 

- Ó amigo, estou a ver que o amigo é das religiões do porque tira e do porque deixa, e mais isto e aquilo, e os pecadores e a salvação? Desculpe lá, não acredito em coisas do além.

 

- Não, não. Eu falei do mistério da romã porque se eu fosse crente era a altura de rezar ou não andasse indeciso cá numa coisa importante. Contudo não sou crente, e por isso limito-me a ter medo, medo que dentro das romãs esteja um destino que se atire a mim se as abrir. É estranho isto que digo, eu sei. Esqueça. Não devia ter falado.

 

- Sabe amigo, não percebo nada do que diz, mas coloquei adesivo na romã para ela não cair pois por superstição quero que a romã ande comigo uns tempos, mas assim fechadinha, por dentro são um bocado complicadas, de facto: muitas circulares e muitos entroncamentos…percebe? Até sangue…é estranho é…

 

- E não receia que ela apodreça e já não o possa proteger?

 

- Não, não receio. Sabe, eu nunca vi uma romã podre. Já as vi secas, mas não podres. Elas vão mudando de cor, acastanham, depois atrofiam e de repente parece que já não estão lá: como se dentro delas, ninguém! É giro, parece que entram em metamorfose lá como os bichinhos da seda que o meu filho tem. O casulo fica abandonado, vazio.

 

Voltou-lhe à memória aquela fotografia em que segurava na mão uma romã. Aquela idade fora cúmplice dos segredos das romãs e das razões pelas quais se lhe ofereciam, muito de repente, as decifrações. Para tanto, bastara-lhe a autópsia que fizera a uma romã que tinha na sua mão, e logo, a outra sua mão escrevente, derramara a tinta bem vermelha logogrifos sobre o papel. Agora confirmava que fora como se acontecesse algo aquém do Jogo. Escreveu então que a romã, insinuara-lhe a fragmentação de tudo e de todos, e ele não a entendera. Chegava enfim o momento de ter a coragem de abrir uma romã qualquer apenas para se certificar se poderia chamar literatura às notas esparsas.

 

Lera As Tisanas de Ana Hatherly as tais que constituem uma espécie de cidade-estado construída pela escrita criadora (…) as tais que também são o excelente filtro da vida através da pintura. Lera As Tisanas e ficara numa experiência íntima tão forte que, receava bem não possuir o saber de a gerir como desejava.

 

Estou triste e só. Ligo o rádio. Oiço duas das últimas Canções de Strauss. Sinto de uma maneira profunda a sua fluidez cromática, a sua riqueza orquestral. Os metais soam como vibrantes florestas. A voz da cantora é a de uma grande ave solitária. Sinto-me um lobo sem alcateia. Quando se está muito só o gemido transforma-se em uivo.

 

(Tisana 387 do livro 463 tisanas que em 2006 conteve o conjunto destes poemas, publicado por Quimera Editore)

 

E perguntava-se agora se poderia ainda haver uma outra solução que não fosse a de abrir a romã?, qual a razão de não a deixar assim na sua metamorfose secreta, e, intuir, solitariamente, as lições que lhe iriam decidir a Sorte?, aquela mesma que ilude até tiranos, aquela que julga só saber coisas pelos seus olhos.

 

Teresa Bracinha Vieira

A SABEDORIA DE VIVER. 1

 

O mais recente número de “Philosophie Magazine”. Hors-Série: “Sagesses du monde”, Inverno-Primavera 2020, passa em revista as “sabedorias do mundo” e refere concretamente a Índia, a China, o Japão, as Américas e África. Dele retirei alguns provérbios, contos, estórias, paradoxos..., que levam a pensar. Aliás, grandes pensadores europeus, como, por exemplo, A. Schopenhauer e M. Heidegger, foram beber a essas sabedorias, sobretudo sabedorias orientais, inspiração para a sua filosofia.

 

Nestes tempos dramáticos e sombrios, que vêm interrogar sociedades do imediatismo consumista e alarve, da corrupção pérfida e invasiva, da banalidade imperante, do prazer e do ter que de tudo se querem apoderar corrosivamente, é bom, aproveitando uma Quaresma forçada ou auto-imposta, parar e ouvir, no silêncio, a voz da sabedoria e do sentido. É esse o propósito simples do que aí fica, em antologia que organizei.

 

1. A sabedoria

 

1.1. “Um dia, um homem veio ver um sábio e perguntou-lhe: — ‘Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?’. O sábio não respondeu. Tendo repetido várias vezes a pergunta sem resultado, o homem retirou-se.

 

Mas regressou no dia seguinte e fez a mesma pergunta: — ‘Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?’ Não recebeu resposta.

 

Veio de novo no terceiro dia: — ‘Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?’ Por fim, o sábio dirigiu-se a um lago e, entrando na água, pediu ao homem que o seguisse. Chegado a uma profundidade suficiente, agarrou-o pelos ombros e manteve-o debaixo da água, apesar dos esforços que ele fazia para se libertar. Ao cabo de uns instantes, o sábio largou-o e, quando o homem voltou, com grande dificuldade, a respirar, o sábio perguntou-lhe: — ‘Diz-me, quando estavas metido dentro da água, qual era o teu maior desejo? Sem hesitação, o jovem respondeu: — Ar! Ar! Precisava de ar’. — ‘Não terias preferido a riqueza, os prazeres, o poder? Não pensaste em nenhuma destas coisas?’ — ‘Não, Mestre, eu precisava era de ar e só pensava nisso’. — ‘Pois bem, continuou o sábio, para adquirir a sabedoria, é preciso desejá-la tão intensamente como há pouco desejaste ar. É preciso lutar por ela, excluindo toda e qualquer outra ambição na vida. Ela deve ser a única aspiração, noite e dia. Se procurares a sabedoria com esse fervor, encontrá-la-ás um dia.’” (Conto filosófico).

 

1.2. “O silêncio é a sabedoria de todas as sabedorias; olha, vê e cala-te.” (Provérbio marroquino).

 

1.3. “Havia em Bagdad um louco que não dizia nada nem ouvia nada. Perguntaram-lhe: — ‘Pobre louco, porque é que não dizes nunca uma palavra?’ O louco: — ‘A quem quereis que me dirija? Não vejo aqui ninguém que possa responder-me’.” (Conto árabe).   

 

1.4. “Não há caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.” (Lao-tsé).

 

1.5. “O nosso grande sonho, diz um astrofísico a um papua, é encontrar vida no planeta Marte’. —Porquê?’, perguntou o papua. ‘Quer isso dizer que a vossa vida é um fracasso?’”. (Estória papua).

 

1.6. “Aquele que é senhor de si mesmo é maior do que aquele que é o senhor do mundo.” (Buda).

 

1.7. “Começa-se a envelhecer, quando se deixa de aprender.” (Provérbio japonês).

 

2. Eu e o outro

 

2.1. “O homem é os outros homens”. (Provérbio banto).

 

2.2. “Para se amar, é preciso conhecer-se. Se não conhecemos, não amamos.” (Provérbio indonésio).

 

2 . 3. “Aquele que guarda a amplidão do coração aberto é como o céu. Nada o ofende. Aquele que procura prejudicar prejudica-se a si mesmo, permanece só com o eco dos seus insultos.” (Texto búdico).

 

2.4. “As faltas dos outros são fáceis de ver. As nossas dificilmente as vemos.” (Buda).

 

2.5. “Em vez de dar um peixe a um homem com fome, ensina-o a pescar.” (Lao-tsé).

 

3. Ter e ser

 

3.1. “Não ter nada a perder é ser bem rico.” (Provérbio chinês).

 

3.2. “Quem tem muito dinheiro é sem dúvida feliz. Quem possui muita cevada é sem dúvida feliz. Mas quem não possui nada pode dormir.” (Canto sumério).

 

3.3. “Mesmo se tens pouco para comer, partilha com alguém mais pobre do que tu.” (Provérbio sudanês).

 

3.4. “O que dás é teu para sempre, o que guardas está para sempre perdido.” (Provérbio sufi).

 

3.5. “Um rei do Oriente acabava de receber como presente um manto soberbo feito com fios de ouro e de prata, enviado pelo imperador da China.

 

O rei vestiu o manto e pediu a Nasreddin: — ‘Quanto achas que eu valho?’ Nasreddin examinou longamente a personagem e o seu manto, depois acabou por dizer: — ‘Tu vales 500 moedas de ouro’. — Tu não estás a pensar. O manto sozinho vale 500 moedas de ouro’. — ‘Eu sei, contei precisamente o preço do manto’.” (Estória da cultura muçulmana).

 

3.6. Num certo país, havia um homem muito rico e outro muito pobre.

 

“O homem muito rico subiu com o filho ao cimo de uma colina, mostrou-lhe a paisagem à volta e disse: — ‘Olha. Um dia, tudo isto será teu’.

 

O homem muito pobre subiu também ao cimo da mesma colina com o filho, mostrou-lhe a paisagem  à volta e disse: ‘Olha! Que beleza!’.” (Conto oriental).

(Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 MAR 2020

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