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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

66. A LIBERDADE DE EXPRESSÃO QUE NOS LIBERTA


A liberdade de expressão, nas sociedades democráticas, tem um valor estruturante e  pessoal.


Sendo estruturalmente antiautoritária, autocorrige-se.


Países com mais elevados níveis de educação e literacia, são candidatos mais fortes à democracia, ciência e liberdade, incluindo a liberdade de expressão.


Tem intrinsecamente subjacente o debate livre entre “verdades” diferentes, que não admite donos da verdade, dada a sua permanente imperfeição e incerteza.


Questionando a autoridade, erodindo o dogmatismo, expurgando a superstição, exige para sua sobrevivência e progresso que as pessoas se encontrem e falem livremente, tendo o direito de fazer perguntas, aceitando que a democracia e a liberdade são, por natureza, imperfeitas.


Permite-nos interpelar o passado, o presente e o futuro.


Tem como dado adquirido, por exemplo, que a visão da História não é só uma. 


Não é apenas a visão do vencedor, mas também a do vencido, ou de outros.


Prevenindo eventuais intolerâncias que não nos façam regressar a uma visão única: a dos vencedores, heróis e conquistadores, a dos vencidos, fracos e perdedores.


Tendo sempre presente que se justifica mais para interpelar, contradizer, dizer mal (mesmo que chocante), e não para dizer bem ou estar de acordo, dado que, quando assim é, não somos incomodados, contrariados, questionados ou perseguidos, só assim não sendo quando se falta à verdade, fazem afirmações maledicentes ou haja uma violação abjeta da defesa da privacidade.


Mas tal liberdade implica que lutemos não só pela nossa liberdade, mas também pela de todos, sem monitorização, fiscalização e policiamento da liberdade de expressão e do pensamento.   


É essa liberdade que nos liberta e concede uma libertação pessoal e dos controlos sociais, o direito a dizer coisas mal-ditas e à indignação, que uma opinião imponderada e não rigorosa possa ser legítima, a querer reescrever (ou não) a História, a uma história não única e plural.


Sem a linguagem dos totalitarismos e atos suprematistas, possibilitando a quem a usufrui exprimir-se em liberdade, por causas nobres, sem um cânone inquisitorial de intolerâncias e de valores, que também beneficia aqueles que sem ela se amputariam e a querem censurar ou extinguir.


Essa liberdade de expressão foi alcançada por muitos que nos antecederam temporalmente e que hoje são tidos como velharias e antiquados, precisamente por quem, tantas vezes, está protegido por essa liberdade tão penosamente conquistada, nem sempre reconhecida e valorizada, porque manipulada, lutando apenas pela sua liberdade, não pela dos outros.   

 

20.11.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

GONÇALO RIBEIRO TELLES (1922-2020)

 

São visíveis os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, na transparência serena do sorriso de Gonçalo Ribeiro Telles.

Sempre este sábio criou ao futuro, um lugar verde, para que a duração do tempo, lá onde e aonde, sempre fosse uma seiva à qualidade de vida das gentes.

A paisagem acordará sempre por Gonçalo Ribeiro Telles, abrirá as janelas aos horizontes, e muito é, foi e será o nosso o dever.

 

Muito obrigada!

 

Teresa Bracinha Vieira

VIDA

 

E de repente a consciência diz-nos que somos aonde estamos
Que poderemos não saber nunca o quanto precisamos uns dos outros
Que o inexprimível se atou, pedra segura, à perna da ave
Que a Natureza não poderá ser cópia da paisagem
Que na comunhão se estabelece o nós
Que existem instantes felizes entre os tormentos
Que o berço da mãe-mundo-pátria é razão
Que a fusão dos amantes passou a dar-se num grito
E o destino moço
De novo
Foi nascimento

 

Teresa Bracinha Vieira

O PAPA FRANCISCO CONFESSA-SE. 2

 

1. Penso muitas vezes na solidão do Papa. Chega ao Vaticano, que não conhece por dentro, concretamente, a sua secular e gigantesca burocracia. Não tem mulher nem família com ele. E os amigos?! Sabe que os seus gestos, atitudes, discursos, homilias, tudo será escrutinado até ao mínimo pormenor. Vive e trabalha num palácio, guardas fazem-lhe continência ao passar. Aquele palácio é testemunha de muitas histórias, ao longo do tempo, tantas vezes nada, mesmo nada, edificantes, pelo contrário, revelando o pior da natureza humana e do poder, sobretudo quando absoluto. Dali também se transmitiu imensa esperança a milhões de pessoas em todo o mundo, e isso constitui mais uma preocupação: o que fizer vai influenciar um número incalculável de vidas. O Papa é um dos homens mais poderosos do mundo. No entanto, deve sentir-se tantas vezes só... Até sabe que, resignando, não é livre de escolher o lugar onde quer viver os últimos dias em tranquilidade. De facto, como ex-chefe de Estado, quem assume a responsabilidade da sua segurança? Pensei nisso quando recentemente o ex-Papa Bento XVI esteve na Alemanha para despedir-se do irmão em finais de vida e de como ruas ficaram encerradas, com soldados a guardar os telhados. É sabido que Paulo VI pensou em resignar e não ficaria no Vaticano, mandou preparar quartos num convento... Francisco, quando resignar, não quereria ficar no Vaticano, complicando a vida do sucessor, mas...


2. O jornalista da AdnKronos também veio ao assunto. E Francisco, na sua sinceridade: “Se estou só? Pensei nisso. E cheguei à conclusão de que existem dois níveis de solidão. Alguém pode dizer: sinto-me só, porque quem devia colaborar não colabora, porque quem deveria sujar as mãos pelo próximo não o faz, porque não seguem a minha linha e por aí adiante, e esta é uma solidão digamos... funcional. Depois, há uma solidão substancial, que eu não sinto, porque encontrei tantíssima gente que corre riscos por mim, coloca a sua vida em risco, que se bate com convicção, pois sabe que estamos no que está correcto e que o caminho empreendido, mesmo entre mil obstáculos e naturais resistências, é o correcto. Houve exemplos de maldades, de traições que ferem quem crê na Igreja. Essas pessoas não são certamente religiosas de clausura.”


Francisco não sabe se vencerá ou não a batalha. Mas com amorosa resolução diz-se seguro de uma coisa: “Sei que devo travá-la, fui chamado para travá-la, depois será o Senhor a dizer se fiz bem ou se fiz mal. Sinceramente, não estou muito optimista (sorri), mas confio em Deus e nas pessoas fiéis a Deus. Lembro-me de que quando estava em Córdova, rezava, confessava, escrevia, um dia vou à biblioteca procurar um livro e dou com 6-7 volumes sobre a história dos Papas e entre os meus antiquíssimos antecessores encontrei alguns exemplos não propriamente edificantes.”


Como reage às críticas que lhe chegam do interior da Igreja? E há tantas! Por causa das uniões civis dos homossexuais, da abertura à comunhão dos divorciados recasados, do acordo com a China... Francisco pensa durante uns segundos e responde: “Não diria a verdade e insultaria a sua inteligência, se dissesse que elas te deixam bem. Não agradam a ninguém, especialmente quando são bofetadas na cara, quando fazem mal se são ditas de má-fé e com malvadez. Mas com a mesma convicção lhe digo que as críticas podem ser construtivas, e então assumo-as totalmente, porque a crítica leva a examinar-me, a fazer um exame de consciência, a perguntar-me se errei, em quê e porquê errei, se fiz bem, se fiz mal, se podia fazer melhor. O Papa escuta todas as críticas e depois faz o discernimento, discernimento que é a linha-guia do meu percurso, sobre tudo, sobre todos. E aqui — continuou — seria importante uma comunicação honesta para descrever a verdade sobre o que está a acontecer no interior da Igreja. É verdade, portanto, que, se na crítica devo encontrar inspiração para fazer melhor, não posso, por outro lado, deixar-me arrastar por tudo o que de pouco positivo escrevem sobre o Papa.”


O jornalista comenta que hoje o maior ataque dos inimigos figadais de Francisco é preparar um sucessor contrário. Eu, pessoalmente, penso que não é possível voltar atrás em relação a Francisco. Porque as pessoas gostaram do seu estilo, dos seus gestos, da sua proximidade às pessoas, da sua proximidade ao Evangelho... E que pensa Francisco sobre a sucessão? “Também eu penso naquele que virá depois de mim, sou o primeiro a falar disso. Recentemente, submeti-me a exames médicos de rotina, os médicos disseram-me que um deles podia fazer-se a cada cinco anos ou anualmente, eles inclinavam-se para que fosse a cada cinco anos, eu disse: façamo-lo ano a ano, nunca se sabe.” Aqui, o jornalista observa: desta vez o sorriso foi mais generoso.


Seja como for, a pergunta é inevitável: E que futuro para a Igreja? Francisco conta uma história que lhe desagradou: “Soube de um bispo que afirmou que, com esta pandemia, as pessoas “desabituaram-se” — foi esta a palavra — de ir à igreja, que as pessoas não voltarão a ajoelhar-se diante de um crucifixo ou a receber a comunhão. Eu digo que se esta “gente”, como lhe chama o bispo, ia à igreja por hábito, então é melhor que fique em casa. É o Espírito Santo que chama a gente. Talvez após esta dura provação, com estas novas dificuldades, com o sofrimento que entra nas casas, os fiéis sejam mais verdadeiros, mais autênticos. Acredite em mim: vai ser assim.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 NOV 2020

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Saber ver a Arquitectura de Bruno Zevi (Parte II).


Para Bruno Zevi, como foi visto na semana passada, o espaço é o protagonista da arquitetura. Mas importa representá-lo. No entanto, a arquitetura possui dimensões para além das quatro. É preciso considerar sempre a vida. Nenhuma representação é suficiente (as plantas, as fachadas, as fotografias…). ‘Devemos nós ir, ser incluídos, tornarmo-nos e sentirmo-nos parte e medida do conjunto arquitetónico, devemos nós próprios mover-nos’. Tudo o mais é mera alusão ou função preparatória.


E quais as várias idades do espaço? O templo grego ignora o espaço interior mas glorifica a escala humana - enquanto morada impenetrável dos deuses, pois os ritos decorriam no exterior. O espaço romano é concebido estaticamente, rompendo, porém, com a perspetiva grega e assumindo o "génio arquitetónico" - a autoridade domina a multidão dos cidadãos e anuncia que o império existe e é potência e razão da vida. A igreja cristã é o lugar de reunião, de comunhão e de oração dos fiéis - junta a escala humana dos gregos e a consciência do espaço interior dos romanos, negando, contudo, o sentido romano da gravidade estática. No período bizantino, há uma aceleração direcional e uma dilatação - partindo de dois pontos fixos do ambiente principal, a superfície mural foge do centro do edifício e lança-se para o exterior, dilatando o espaço interior. Dos séculos VIII ao X, verificamos a procura de uma nova relação com o espaço, retardando o tempo, interrompendo com rudeza os ritmos - de que é exemplo a igreja de Santa Maria in Cosmedin (Roma). O templo românico adquire segurança em si e na dialética das suas forças - move-se no que Zevi considera uma métrica que tem paralelo na poesia. Se do ponto de vista construtivo o gótico aprofunda e conclui a investigação românica, a verdade é que há uma distinção clara de propósitos - os espaços estão em antítese com a escala humana, pela primeira vez na história, em lugar da estabilidade temos o combate - em lugar do equilíbrio das diretrizes visuais ou da predominância de uma diretriz, temos o contraponto de duas diretrizes, vertical e horizontal. Com o Renascimento, abre-se uma nova fase - passa a ser o homem, aprendendo a lei do espaço, a possuir o segredo do edifício - em vez das fugas bizantinas, da sucessão dos arcos românicos ou do contraste atormentado do gótico, Brunelleschi recorre a relações matemáticas simples, um único percurso, uma única lei, uma única unidade de medida. No século XVI não há uma renovação das conceções espaciais, mas um novo conceito de volumetria, de equilíbrio estático e formal, num gosto que prefere "a uma linha e a um plano cromático, um todo sem quebras e uma consistente e, muitas vezes, monumental solidez" - triunfando o volume e a plástica como em S. Pedro de Roma. O barroco é a libertação espacial, é a libertação mental das regras dos tratadistas, das convenções, da geometria elementar e da estaticidade, é a libertação da simetria e da antítese entre interior e exterior - (como são diferentes os palácios Farnese e Barberini…) -, em vez das duas dimensões do gótico encontramos agora uma lógica ondulante, seguindo os instrumentos mas não os ideais de quinhentos. O período neoclássico e eclético do século XIX "é uma época de mediocridade inventiva e de esterilidade poética" - a redenção ocorre na urbanística, nos espaços exteriores, os novos bairros, os novos transportes, a sociedade industrial, propuseram-se, afinal, as primeiras soluções da sociedade moderna. E chegamos à arquitetura moderna do espaço orgânico e da "planta livre" reassumindo-se a vontade gótica da continuidade espacial, não como sonho mas como resultado de uma reflexão social, retomando-se a experiência barroca do movimento como consequência funcional, recuperando-se a métrica espacial do Renascimento em equipamentos coletivos… O funcionalismo e o movimento orgânico são as duas correntes espaciais que se afirmam - a primeira desde a Escola de Chicago a Le Corbusier; a segunda através de Frank Lloyd Wright - apontando para a escala humana, repudiando toda a arquitetura que se sobrepõe ao homem ou que é independente dele. 

 

 Ana Ruepp

A VIDA DOS LIVROS

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   De 16 a 22 de novembro de 2020

 

“Gonçalo Ribeiro Telles - A Fotobiografia”, de Fernando Santos Pessoa (Argumentum, 2011) - é um repositório rigoroso que nos apresenta a personalidade fascinante de alguém a quem muito Portugal deve, como defensor determinado da natureza e do meio ambiente e como cidadão empenhado na salvaguarda da cultura portuguesa.

 

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MODELAR A PAISAGEM

“O homem desempenha na modelação da paisagem um papel muito importante; pode ser considerado, neste aspeto, como um autêntico criador de beleza”. (Cidade Nova, 1956, IV série, 4). Esta citação pioneira é emblemática de um percurso riquíssimo e exigente – que nos deixa uma herança que temos de respeitar e prosseguir. Gonçalo Ribeiro Telles é uma referência da sociedade portuguesa pela ligação que sempre soube estabelecer entre a cidadania e o exercício apaixonado da sua profissão de arquiteto paisagista, discípulo de Francisco Caldeira Cabral - com quem escreveu o fundamental “A Árvore em Portugal”, defesa intransigente das culturas tradicionais. Nunca o vimos indiferente em relação a qualquer tema relevante que pudesse ser discutido em qualquer momento. Por isso, Eduardo Lourenço chamou-lhe “Jardineiro de Deus”. Quando a defesa do meio ambiente e da qualidade de vida era ainda algo muito distante e quase exótico relativamente às preocupações imediatas, por muito que o tema começasse a ser discutido no inicio dos anos setenta com crescente projeção comunicacional, a verdade é que desde sempre, a partir das origens do Centro Nacional de Cultura, nos anos quarenta e cinquenta, e da revista “Cidade Nova”, Gonçalo Ribeiro Telles pôs a tónica na dignidade da pessoa humana inserida numa natureza respeitada e equilibrada. Daí que não seja estranho que o encontremos, e a muitos dos seus amigos mais chegados, como Henrique Barrilaro Ruas, João Camossa Saldanha, Luís Coimbra ou Augusto Ferreira do Amaral em movimentos alargados na defesa da liberdade e da democracia. Dir-se-ia que é natural essa ligação e esse caminho de abertura e de inconformismo. Liberdade e tradição estão intimamente ligados ao magistério deste homem singular para quem o amor à terra e à História era algo tão natural como o ato de respirar. No entanto, para Gonçalo Ribeiro Telles a tradição não se confundia com o que se repete ou com qualquer inércia que se impõe contra o dever de completar e enriquecer pelo valor humano a herança recebida das gerações que nos antecederam. Tradição é traditio, isto é, a capacidade de transmitir generosamente e em movimento o que cada geração herda e cria. Mas a traditio é, por essência, dinâmica – daí o movimento de dar e receber, enquanto a revolutio é o regresso ao mesmo ponto de partida, num movimento circular. O seu empenhamento monárquico deve-se a esta conceção genuína baseada na tradição. A pessoa e a comunidade são elementos cruciais – como o património cultural, material, imaterial, natural, paisagístico, até às tecnologias novas e à criação contemporânea. Patres e múnus, o dever de preservar a herança dos nossos pais, eis o que tem de ser lembrado. Assim, Gonçalo Ribeiro Telles sempre se manifestou como um espírito livre para quem o mais importante são as pessoas e não os regimes formais. Daí o seu comunalismo de base – e a sua capacidade para debater e refletir com todos.

 

ECONOMIA PARA AS PESSOAS

A economia existe para as pessoas. As culturas tradicionais devem ser preservadas e protegidas - uma vez que correspondem àquilo que o tempo testou através do exemplo e da experiência. Veja-se como a preservação do património tem de seguir os métodos e os materiais tradicionais. A sociedade constrói-se pela confluência fecunda entre a singularidade das pessoas e o bem comum. A obra da autoria do Arquiteto Fernando Santos Pessoa dá-nos o percurso humano do homem, cidadão atento, disponível, generoso, capaz de fazer do diálogo entre as pessoas e a natureza algo de vivo e perene. Nada lhe era indiferente, e com que entusiasmo o víamos abraçar as causas que realmente valem a pena. Na cidade bateu-se pelos corredores verdes, pelas hortas urbanas, por um urbanismo que pusesse as pessoas em primeiro lugar. No campo, compreendendo Portugal como um rico continente em miniatura, como Orlando Ribeiro ensinou, pugnou sempre pelo respeito do que nos foi legado desde tempos imemoriais. E invoco especialmente o muito que o Centro Nacional de Cultura lhe deve. Gonçalo Ribeiro Telles é o elo que liga à primeira geração do Centro, fundado por António José Seabra, Afonso Botelho e Gastão da Cunha Ferreira, num tempo em que Almada Negreiros e Fernando Amado ligaram cultura e teatro, conferências e debates, convívio e reflexão. Depois, foi o momento de Sophia de Mello Breyner, de Francisco de Sousa Tavares, de António Alçada Baptista - até à presença luminosa de Helena Vaz da Silva... Gonçalo foi uma presença permanente e ativa no CNC, nunca deixando que a cultura fosse de mera circunstância. E foi assim que a cultura no CNC se tornou ciente de que a criatividade e a ecologia andam a par, como uma ética pública de liberdade e responsabilidade, de cidadania e de respeito da dignidade humana.

 

UM PERCURSO POLÍTICO

Com António Viana Barreto foi o autor do projeto dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, galardoado pelo Prémio Valmor de 1975. Um dia, disse, aliás, que a sua ambição para Portugal era que se tornasse uma espécie de Gulbenkian. Não por acaso, foi o Coro da Gulbenkian que acompanhou as cerimónias religiosas de despedida de Ribeiro Telles no Mosteiro dos Jerónimos. Em 2013 foi galardoado com o Prémio Geoffrey Jellicoe, o “Nobel” da Arquitetura Paisagística. Consciente da importância da cidadania ativa, teve uma participação política corajosa que determinou a consideração como persona non grata do antigo regime, com consequências gravosas. Apoiou Humberto Delgado, com Luís Almeida Braga, Rolão Preto e Vieira de Almeida, também monárquicos; subscreveu em 1959 e 1965 três importantes documentos de católicos em denúncia da ausência de liberdade, da censura, e da repressão; participou ao lado de Mário Soares, Sophia e Francisco de Sousa Tavares em 1969 na CEUD; interveio no Congresso da Oposição Democrática; fundou o PPM e foi membro dos governos provisórios da democracia, foi um dos líderes da Aliança Democrática com Francisco Sá Carneiro e Diogo Freitas do Amaral, foi vereador independente nas listas do Partido Socialista no Município de Lisboa e fundou o Movimento Partido da Terra (1993). O corredor verde de Lisboa, a ele se deve, e o novo Parque da Praça de Espanha terá o seu nome; Lisboa Capital Verde da Europa tem-no como inspirador. Muito devemos a Gonçalo Ribeiro Telles – por isso é com legítimo orgulho que o lembramos como mestre da liberdade, da dignidade e do humanismo.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Li esta manhã, numa revista católica francesa (La Vie, nº 3922), uma conversa sobre a separação e a morte, que me comoveu, sobretudo nestes tempos de pandemia. Inumação imediata, rigidez do protocolo funerário, interdição dos funerais familiares... As medidas sanitárias que rodearam a morte na Primavera passada deixaram traumatismos entre os vivos. Como podemos consolar-nos sem ter podido acompanhar os últimos momentos dos nossos próximos? Nem honrá-los por um ritual de adeus coletivo? Eis chegados os dias de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos, duas festas concomitantes que, este ano, se revestem de mais gravidade. Com o minuto de silêncio respeitado nas escolas a 2 de novembro, em memória do professor Samuel Paty. [Em Portugal, o Dia de Luto Nacional pelas vítimas do Covid19 e a bandeira a meia haste no Palácio de Belém]. Com o reforço das medidas sanitárias face à retoma da epidemia. Face à morte, por que gestos, por que presença, por que esperança nos consolaremos? La Vie reuniu, em 9 de outubro, a psicóloga e autora Marie de Hennezel e a escritora Anne-Dauphine Julliand, ambas tendo publicado livros sobre o assunto. A primeira, com L’Adieu Interdit (Plon) lança um grito de alarme a uma sociedade que esqueceu a morte; a segunda regressa, em Consolation (Les Arènes), ao lugar certo para acompanhar o luto. Anne-Dauphine Julliand dá testemunho dos laços que lhe permitiram, após a morte das suas duas filhas, afetadas pela mesma doença genética, conjugar a paz que nos dá vida e o desgosto que permanece. Numa presença rara e lúcida a questões que muitas vezes não queremos abordar, as duas experiências cruzam-se para nos revelarem convicções íntimas e universais. Palavras certas, cheias de força de viver, num encontro evidente de que saímos transformados. 


  
Ambas as intervenientes testemunharam experiências das suas vidas. Mas, finalmente, também nós nos reconhecemos nelas, ao recordarmos familiares e amigos que, mesmo à margem do covid 19, morreram em tempos de pandemia e confinamento, foram exumados sem assistência, sepultados ou cremados quase em segredo... E, sobretudo, não tiveram o conforto de uma mão, de uma presença amiga e próxima a acompanhá-los na misteriosa viagem. Em muitos casos, será difícil dizer quem se sentiu mais solitário e impotente, se o moribundo ou se cada um daqueles que ansiavam - por mais uma vez, quiçá derradeira, transmitir-lhe ou partilhar um sopro de vida com ele...


   Penseissenti melhor esta alma de uma irrepetível despedida - que, aliás, é uma profunda ação de graças pelo dom da vida - ao ler como Anne-Dauphine conta as mortes de ambas as filhas:


   Vivi-as diferentemente, pois elas eram pequeninas - uma com três anos e três quartos, outra com dez e meio. Mas sentimos nelas ambas uma indescritível intensidade de vida. A Thaïs, hospitalizada em casa, viveu mais um ano e uma semana do que o  prognosticado pelos médicos. E dois meses antes da morte da Azylis, senti que a atitude da minha filha tinha mudado, porque ela tirava proveito de tudo, de cada momento. Passámos férias na ilha de Yeu - foi um dos mais belos momentos das nossas vidas - e sentimo-la cheia de vida e do que nos queria transmitir: o seu amor pela vida. Nas horas anteriores à morte, cada uma das nossas filhas teve um sobressalto, ambas estiveram muito ternas. A Azylis abriu os olhos, ri-se, apertou uma mão e tudo passou por esse simples gesto. Aquele adeus diz-nos tudo o que a vida lhe trouxe. Partilho o ponto de vista da Maria de Hennezel: a relação perdura porque o amor perdura - o amor que nos liga uns aos outros. A Azylis dizia-nos: «Eu também continuarei a amar-vos à minha maneira». Estou persuadida de que morrer é um ato. Não escolhemos morrer, nem padecemos a morte: vivemo-la.


   
Este tão simples relato é, afinal, extremamente denso, profundamente interrogativo pela nudez da condição humana que descobre. Talvez por isso, Marie de Hennezel apenas comentou: Esse trabalho do trespasse pode tão somente ser a intensidade de um olhar, um modo de abraçar alguém. E dou comigo a pensarsentir a morte como trabalho de parto. 

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

MEMÓRIAS DE EMÍLIO RUI VILAR (II) - O CITAC

 

Em texto anterior, referimos o livro de memórias de Emílio Rui Vilar, recentemente publicado, denominado “Varia II - Memoriae”. E tivemos então ensejo de evocar algumas ligações ao teatro como criatividade literária e como arte de espetáculo. Hoje, precisamente, damos conta de textos também evocativos do CITAC - Centro de Estudos de Teatro da Academia de Coimbra, a que Vilar presidiu.


Ora, o que sobretudo nos interessou foi o relacionamento entre a criação do CITAC e a renovação empreendida, a nível cultural e profissional, por diversíssimas individualidades e entidades, de uma forma ou de outra ligadas à atividade teatral. E nesse aspeto, o que aqui nos propomos evocar é a ligação a projetos e atividades de expressão teatral, citadas no livro e que marcaram a cultura e a sociedade portuguesa, durante décadas. Vale pois a pena estas breves referências.


Sobretudo, evocamos o texto publicado em 2006 para comemorar os 50 anos do CITAC. Pois, para além do âmbito direto da análise em si, faz-se um conjunto de referências a iniciativas de estudo e produção teatral ligadas aos meios estudantis, mas sobretudo, a evocação da personalidades que marcaram, na época, o teatro português, fossem ou não aqui nascidos e prosseguissem ou não carreiras e ações de expressão teatral.


Nesse aspeto, tem o maior interesse a evocação de iniciativas que na época estabeleceram a ligação do teatro estudantil e universitário com a própria cultura teatral subjacente, mas também com o profissionalismo que, mesmo em Portugal, ia marcando a cultura e a sociedade...


Muito concretamente, o CITAC constitui pois o grande tema de dois textos, o primeiro datado de 1961, o segundo datado de 2006. E é então de referir que Emílio Rui Vilar presidia ao CITAC em 1961 e nessas funções inaugurou o III Ciclo de Teatro.


E mais relevante, será então o outro texto evocativo dos 50 anos do CITAC, o qual “nasce”, diz-nos o texto, em 26 de fevereiro de 1956, data de aprovação dos estatutos pela Associação Académica de Coimbra. Em 1961, Vilar era presidente da Direção.


Mas mais relevante ainda, será o outro texto evocativo do CITAC, este referente ao cinquentenário celebrado pois em 2006. E aí, Vilar evoca especificamente algumas iniciativas de teatro estudantil, como designadamente o TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra ou o CAIT - Círculo Académico de Iniciação Teatral. Mas o que agora mais nos importa é sobretudo referir como nessas décadas o meio teatral português se ia afirmando, através de grupos estudantis ou profissionais, sem dúvida, mas sobretudo pela criatividade dramatúrgica que nessa época foi de facto relevante e que Vilar evoca com objetividade. E nesse aspeto, são referidas atividades de relevo cultural em diversos países.


Mas o que aqui ainda mais nos interessa é sobretudo evocar a estreia de textos de autores portugueses mas também o relacionamento com o teatro que na altura era feito pelas companhias profissionais e pelas companhias de estudantes. Desde logo, segundo texto evocativo do CITAC no livro de Paulo Quintela, evoque-se designadamente um Circulo Académico de Iniciação teatral – CAIT, formado por alunos do Liceu D. João III!... desse não temos grande notícia.


Mas Vilar evoca autores e teatrólogos que, enfrentando óbvias dificuldades, desenvolveram o teatro em Portugal. Mesmo quando as origens dessa renovação também se ligam a meios culturais e teatrais bem mais desenvolvidos. E nesse aspeto, são citados por exemplo o Teatro-Estúdio do Salitre de Gino Saviotti, o Círculo de Cultura Teatral e o Teatro Experimental do Porto de António Pedro. E mais tem havido, e mais haverá a dizer...

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

65. DA SOBREPOSIÇÃO DA OBRA DE ARTE AO SEU AUTOR


Qualquer obra de arte deve ser julgada por si, sem interferências do juízo (moral ou outro) que se tenha do seu autor, não a submetendo às consequências de um julgamento do respetivo artista ou intermediário, ou de quem a promove e divulga, não a colocando na dependência de códigos ao serviço de qualquer coisa, tipo regimes totalitários, expulsando, prendendo ou assassinando os seus autores, tidos como dissidentes, e destruindo ou queimando a sua obra.


Valendo por si, independentemente das opções e condutas do seu autor, quando a obra não se sobrepõe às contingências pessoais por que passou ou passa o seu autor, é medíocre, havendo que saber fazer a separação entre a obra em si ou ao serviço de qualquer coisa.


Acresce que as obras de arte não se afirmam, desvirtuam ou esgotam nos temas que representam, são sempre transcontextuais, transnacionais e transcontemporâneas, isentas de culpas, desmandos ou pecados humanos, apresentando-se perante nós num permanente e renovado renascer de desafio à inteligência, sensibilidade, sentido crítico e estético, perceção e compreensão de novos saberes.


Se Caravaggio foi um assassino, a sua obra deve ser destruída, proibida, queimada?


O futurismo italiano e o seu valor, atentas as simpatias pró-faschistas de muitos dos seus cultores e seguidores, deve ser erradicado da nossa memória, apagando-o da história?


O anti-semitismo de Wagner, justifica que se destrua ou queime a sua obra?


E quanto às acusações de anti-semitismo e de simpatias nazis de Céline?


E as acusações de violação contra Roman Polanski, entre tantos outros, e tantas figuras públicas, justificam que a sua carreira cinematográfica seja apagada, inviabilizando a compreensão da história do cinema?


Não é legítimo separar a obra do homem, do seu autor?


É sabido que o génio de alguém não o torna uma boa pessoa.


A arte está acima do autor, liberta-se dele, do seu criador.


Há quem não acredite que a obra de arte e o artista sejam separáveis, tendo tal dissociação como impossível, pelo que há quem defenda, por exemplo, que deve ser proibida a exibição e retrospetivas da obra de Polanski, nem ele ser premiado.


É falacioso estabelecer uma relação imediata e direta entre a obra e o autor, como o demonstra a vida e a obra de Fernando Pessoa, tendo todo o artista como um fingidor, por analogia com os poetas.

 

13.11.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

LUC FERRY: UM NOVO PODER DO AMOR

 

Sem dúvida que os nossos filhos conhecerão ainda as guerras, para as quais o fanatismo e o fundamentalismo fornecerão o motivo. No entanto, não é nem o egoísmo, nem a perseguição cega dos interesses que poderão salvar o mundo, mas a lógica da fraternidade e da entreajuda, do prazer de dar mais do que de receber.   Luc Ferry


Conhecer e entender uma espiritualidade para além do religioso e procurando o sentido da vida através de um novo poder do amor aniquilando o egoísmo natural do homem, permite que esse homem procure o seu próximo através de um caminho em favor daqueles que amamos, encontrando um sentido da vida num humanismo sem a conceção religiosa da qual muitos se afastaram, ou da qual nunca fizeram parte, e, sobretudo, quando o distanciamento religioso dos nossos dias, é uma realidade bem percetível.


Então, analisar a transcendência do amor e a sua centralidade na conceção filosófica, é a forte base nesta leitura de Ferry.


Em 2011 tive conhecimento deste livro que propunha uma espiritualidade laica como uma possibilidade de aperfeiçoamento do homem já não crente ou nunca crente.


Ferry, não se desprende de conceitos religiosos, de tal modo que nos deixa ver claramente, através da sua filosofia soteriológica, um certo regresso à religião para o entendimento de que cada uma oferece um tipo diferente de salvação, de palavra, de princípio, e que possuindo a sua própria soteriologia, algumas dão ênfase ao relacionamento do homem em unidade com Deus, outras dão ênfase ao aprimoramento do conhecimento humano como forma de se obter a salvação.


Ferry propõe um homem que se arranque de si, para o melhor de si mesmo, e para se oferecer à compaixão, à transcendência do amor, à espiritualidade sem a ajuda de Deus: afinal, uma proposta terrena de salvação que cabe ao homem demonstrar.


A ausência de um deus, de uma felicidade ou de uma razão, terá aberto espaço para uma nova procura do amor.


Ferry crê que a procura do amor, hoje, e o modo de o expressar, pode passar por abarcar uma espiritualidade laica/ateísta à qual nos propõe reflexão.


Na verdade, por diversas maneiras se vivencia a espiritualidade, e entre a racionalidade e a celebração emocional (Alain de Botton e André Comte-Sponville) busca-se um pensamento humanista que tem de ter suporte e repouso no que dá sentido à nossa existência.


O amor toda a gente o sente, mesmo com banalidade. Todavia, se ele não for apenas uma experiencia íntima desde o princípio dos nossos tempos, talvez ele seja o princípio fundador que reorganiza valores e vida, procure sobretudo a ação desinteressada, exatamente aquela que testemunhará do que é próprio do homem.


«O amor sempre foi para mim
A mais importante das questões,
ou mesmo talvez a única.»

STENDHAL


Acrescenta Ferry

Um novo humanismo nasceu, que regista e leva em conta as evoluções do último século (…) as alteridades, as desconstruções das tradições (…) e ainda que as obras de arte do passado não tenham sido tornadas obsoletas pelas mais recentes, é preciso determo-nos à compreensão do tempo presente.


A espiritualidade que vive neste livro propõe-se alterar o ver o mundo, bem como a nossa real capacidade para o mudar no exato e mesmo movimento.          

 

Teresa Bracinha Vieira