Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:


   Regressando ao nosso filósofo sul coreano, Byung Chul Han, formado na Alemanha, e ao seu livro de 2019, Vom Verschwinden der Rituale, que te citei na minha carta anterior, ressalto: Os ritos são ações simbólicas. Transmitem e representam aqueles valores e ordens que mantêm coesa uma comunidade. Geram uma comunidade sem comunicação, enquanto que o que hoje predomina é uma comunicação sem comunidade. A perceção simbólica é constitutiva dos rituais. O símbolo, palavra que vem do grego symbolon, significava originalmente um sinal de reconhecimento ou uma «contrasenha»...  ... parto uma tabuinha de argila, guardo uma metade e entrego a outra a outrem, em sinal de hospitalidade. Deste modo, o símbolo serve para nos reconhecermos. É, assim, uma forma peculiar de repetição.


   
E cita longamente H-G Gadamer:


   Re-conhecer não é voltar a ver uma coisa. Uma série de encontros não é um re-conhecimento, antes re-conhecer significa reconhecer algo como o que já se conhece. O que propriamente constitui o processo de «instalação num lugar» - utilizo aqui uma expressão de Hegel - é que qualquer re-conhecimento se desprendeu da contingência da primeira apresentação e subiu ao ideal. Todos sabemos isso. No re-conhecimento acontece sempre conhecer-se mais propriamente o que foi possível no momentâneo desconcerto do primeiro encontro. O re-conhecer capta a permanência no fugidio. 


   
Faço agora, Princesa de mim, duas breves reflexões sobre as questões que temos vindo a abordar. Recordo-as porque são parte da minha experiência pessoal da vida ou, se preferires, de meditações suscitadas por um qualquer momento de reconhecimento do que me vai acontecendo.


   Assim, tem-me ocorrido, ao olhar para um regato, um ribeiro ou um rio, perguntar-me o que ele realmente será, para além das águas que naquele preciso instante à minha vista correm, nem saberei eu bem para onde, águas fugidias que não verei mais. Evoco as águas que vejo, não me lembro logo do leito que as encaminha, e quiçá outras águas passadas cavaram. Num mapa, os rios todos não são águas que ali não vemos, mas apenas traços cujo desenho nos aponta cursos de águas invisíveis. Os rios são, pois, cursos de água. Ocorre-me então que são destinos de águas, fados que elas, desde a sua nascente, ignoram...


   Curiosamente, Byung-Chul Han, sem pensar em rios, escreve: Ao ser uma forma de reconhecimento, a perceção  simbólica percebe o duradouro. Assim se liberta o mundo da sua contingência e se lhe outorga uma permanência. O mundo sofre hoje de uma carência de simbólico. Os dados e as informações carecem de toda a força simbólica e por isso não permitem qualquer reconhecimento. No vazio simbólico se perdem as imagens e metáforas geradoras de sentido e fundadoras de comunidade, que dão estabilidade à vida. Diminui a experiência da duração. E aumenta radicalmente a contingência 


   
Os cursos dos rios são sempre caminhos novos, conduzem a mares ignotos e descobertas, a encontros de outros fados, em que os reencontros se farão pelo reconhecimento do que, em cada um de nós vai continuando insuspeito.


   Nos meus primeiros anos de vida no Japão, ajudou-me muito uma certa disponibilidade para a presença em reuniões com japoneses, apesar da minha ignorância da língua. Qualquer intérprete não conseguia traduzir-me nem metade do que se ia dizendo, e quanto mais sério fosse o assunto assim se prolongaria o encontro pelo exercício do nemawashi, ou prática de "partir pedra", isto é, de repetir até à exaustão as ideias anteriormente expostas e os pontos de acordo conseguidos. Tal não seria tempo perdido, visto que, claramente definido e partilhado o contexto, seria mais rápida e eficaz a participação futura na obra comum. Aí comecei a entender o que lera em obras de antropólogos anglo-saxónicos sobre "high context communication": que a comunicação, como partilha eminentemente comunitária, não é só algo de herdado, mas pode e deve ser, em cada e para cada geração, algo que se constrói pela atenção e a escuta mútuas. O que, evidentemente, logo requer que cada parte saiba o que está a querer dizer. Isto é : que tenha consciência de que qualquer palavra não pode ser passageira, menos ainda fugidia, mas seja uma porta para o que se segue... Aí começa um compromisso de responsabilidade, ou seja, a sageza de que deverei sempre responder pelo que afirmo. Simultaneamente se desenvolve um esforço de escuta e atenção, como fator necessário de qualquer comunicação que, para ser partilha real, é necessariamente afirmação própria e descoberta do outro. Reconhecimento, para lá das diferenças, convergências e divergências. Comunidade humana. Comunidade que se constrói ao prescindirmos dessa linguagem pletórica de neologismos com que se vão mascarando vacuidades, ignorância e desconsideração dos outros.

 

Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

Pág. 4/4