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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

75. BELEZA E ARTE


Uma pessoa comum, da rua, associa a arte com a beleza.
Mas a arte não é necessariamente bela, nem a beleza necessariamente arte. 
A beleza é mais objetiva, a arte mais subjetiva.
A beleza biológica, por exemplo, é tida como universal, havendo estudos que provam que homens, mulheres e crianças muito, muito bonitos, o são em qualquer lugar, de Portugal à Austrália, passando pelo Japão, China, África e Américas.
O mesmo não sucede com pessoas normais, onde há discordância.  
Também a beleza artificial (fabricada) não é tida como universal.   
A beleza é, desde sempre, uma aspiração humana, é apelativa e sedutora. 
Na arte uma coisa feia pode ser uma bela representação.  
O que é feio na natureza pode ser artisticamente belo. 
O belo ou a beleza, na arte, não é a representação de uma coisa bela, mas sim uma bela representação de uma coisa, ao invés da arte clássica grega que fazia o culto da beleza, do equilíbrio, da perfeição, do absoluto, de representações anatómicas harmoniosas e proporcionalmente adequadas e sedutoras.  
Foi Marcel Duchamp que cortou a ligação entre arte e beleza, ao levar um urinol (Fonte) para uma exposição em Nova Iorque, em 1917, transformando-o numa escultura ready-made, demonstrando que qualquer objeto pode ser uma obra de arte e estar ao alcance de todos, sendo a negação de uma estética objetiva da arte em benefício de uma atitude criativa. 
Ao defender que a obra de arte devia ser desfigurada, desumanizada, dessacralizada, Duchamp colocou uma barbicha à Gioconda, tornando-a homem e desconsagrando um ícone pintado por um génio (Leonardo da Vinci), sendo a sua Mona Lisa uma negação de uma obra prima.   
Beleza e arte não são, de todo, a mesma coisa, embora possam coincidir, e quando coincidem, todos as perseguimos, porque nos ajudam a estabilizar as coisas e o mundo, a classificar e equilibrar em adequação e tranquilidade a nossa mundividência.

 

21.05.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

UMBERTO ECO E CARLO MARIA MARTINI (IV)

Em Que Crê Quem não crê? 

(Um livro acalorado e nós)

 

Cooperar num esforço comum, sem ambiguidades que valham como razão de comportamento moral, poderá ser uma das razões em que se fundamenta o dever de solidariedade sem que se invoque o transcendente como o caminho que a obriga. 


O que é humano, e com ele, o que é condicionado, pode injungir a que valha como profunda razão de atuar, o que afinal se impõe, e impõe como dever ao auxílio do outro que está em nós.


E tanto é o tanto que se pode negociar, entre nós e o nós-outro. 


Mas haverá que duvidar desta força humana, na medida em que a sua fragilidade reside no nós que se não aguentará no nosso limite? 


E se se criar um espaço, um espaço único ao respeito pela dignidade humana, aquela que é a possibilidade maior do que nós mesmos, maior, no sentido de mais elevada à vida, qual parte de um céu que a nós nos conhece com e sem véu. Já bastará? 


Desconhecemos. Somos propensos às questões de fronteira que, também aqui, expõem divergências de fundo. Indisciplinas? Tradições? Batizados? Doutrinas? O culto de Ísis, o verbo atar ou a mão do Papa? 


Mas, talvez por isso, eis uma das grandiosas razões singulares:  

apenas o diálogo, pode aportar um pouquinho de guia, lá mesmo no muito perto da morte ou da vida plena.

 

 

 Teresa Bracinha Vieira

O PERIGO DE UM DEUS BOM

 

1. Julgo que o que no Papa Francisco provoca mais a admiração das pessoas, dentro e fora da Igreja — talvez até mais fora —, é ele ser um cristão. Por palavras e obras.


O que é ser cristão? É ser discípulo de Jesus, tentar viver como ele. Jesus é o autor da maior revolução da História, que consiste na revolução da imagem de Deus. Até pessoas que se dizem cristãs continuam com a ideia de que Deus manda epidemias, por exemplo, de que Deus precisou da morte do seu Filho Jesus para se reconciliar com a Humanidade. Pergunto: que pai ou mãe decentes exigiriam a morte de um filho? Em relação ao Deus que tivesse mandado o Filho ao mundo para, pela sua morte na cruz, poder aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade só haveria uma atitude humanamente digna: ser ateu.


Na realidade, Jesus, veio, pelo contrário, revelar que Deus é Pai/Mãe, amigo de todos, que a todos dá a mão, que compreende e perdoa e quer a salvação de todos. Deus é Amor incondicional, “o seu nome é Misericórdia”, diz o Papa Francisco, que faz como Jesus: anima a todos, dá a mão aos mais pobres, abandonados, marginalizados, denuncia a economia financeira especulativa e corrupta, que mata...


Afinal, na Páscoa, a pergunta que precisamos de fazer é sempre esta: Quem mandou matar Jesus, crucificando-o? Dá que pensar e até causa arrepios: Jesus foi mandado matar, em primeiro lugar, pelos sacerdotes do Templo. Eles não toleravam que Jesus dissesse, colocando na boca de Deus estas palavras: “Eu não quero sacrifícios (de pombas, ovelhas, vitelos...), mas sim justiça e misericórdia.” Os sacerdotes viviam, até financeiramente, da exploração do povo em nome da religião. Quem mandou crucificar Jesus, a pedido dos interesses do Templo, foi o representante do Império, Pilatos. Para que é que existem os impérios senão para idominar, explorar, escravizar? Pilatos teve medo de que o fossem denuncar ao imperador por libertar um subversivo com consequências para o poder imperial. De facto, o Deus de Jesus não quer escravos nem explorados por impérios ou seja pelo que for. Deus quer a dignidade de todos.


Não é esta dignidade e justiça para todos que Francisco também anuncia, quer e pratica?


Até parece que nos damos mal com um Deus bom para todos. Talvez não seja só parecer; em geral, damo-nos mesmo mal. É que, se Deus não fosse bom, não seríamos obrigados também nós a ser bons; se Deus fosse vingativo, também nós podíamos vingar-nos; se Deus não fosse o Deus da justiça e da paz, nós também podíamos roubar, ser corruptos, fazer a guerra, matar em nome de Deus ou invocando o seu nome...


Será que temos meditado suficientemente sobre o que levou Jesus à Cruz? Jesus não morreu na cruz por vontade de Deus. Morreu por vontade dos homens. Jesus não morreu para satisfazer um Deus irado. Morreu pela causa de um Deus bom, amável. Morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor: Deus é Amor... e só quer o bem de todos. Quem nunca ouviu falar da parábola do filho pródigo, dos banquetes de Jesus com pecadores públicos, com prostitutas, acolhendo todos em nome de Deus?...


O sofrimento físico, psicológico, moral, de Jesus durante o julgamento, o abandono e a fuga dos discípulos mais próximos, a flagelação, a coroação de espinhos, o caminho do Calvário, aquelas horas de horrores na cruz, é inimaginável. Rezou a Deus, que tratava por “Abbá” (Pai querido), que o libertasse daquele suplício, que se aproximava, sentiu pavor, suou sangue, rezou aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”. Mas as últimas palavras foram de perdão e de confiança filial: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. “Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito.”


Tantas vezes a cruz verdadeira de Cristo foi insultada com cruzes peitorais de ouro com pérolas incrustadas para ostentação de quem as utilizou...


2. Aparentemente, foi o fim. Mas, lentamente, os discípulos — a primeira foi Maria Madalena,, porque amava mais — foram reflectindo sobre tudo o que viveram com Jesus, o que Ele disse, o que Ele fez, o modo como o fez até à morte e morte de Cruz, e foi-se tornando claro para eles, numa experiência avassaladora de fé, que aquele Jesus crucificado para dar testemunho do Deus que é Amor, não podia ter sido devorado pela morte. Na morte, não encontrou o nada, mas o Deus que é a Vida e Amor. Jesus é o Vivente. E reuniram-se outra vez e foram anunciar o Deus que Jesus anunciou, por palavras e obras. Deram testemunho dEle até à morte. “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos sobre os cristãos. E uma nova esperança percorreu o mundo. E quando parecia que tudo se afundava, o cristianismo venceu, como sublinhava o ateu religioso Ernst Bloch, por causa desta proclamação: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.


3. As primeiras comunidades cristãs reuniam-se e celebravam a Eucaristia com alegria nas suas casas, lembrando Jesus, a sua vida, a sua morte, a sua ressurreição, e aunciando a esperança da vida eterna plena: “Fazei isto em memória de mim”.


Mas damo-nos mal com um Deus bom. E, lentamente, porque eram acusados de ateísmo por não oferecerem sacrifícios à divindade, a Eucaristia foi transformada em sacrifício oferecido a Deus, e surgiram os sacerdotes com ordens sacras para oferecerem o sacrifico da Missa, e reapareceram os senhores do Sagrado e as duas classes na Igreja: o clero e os fiéis.


Introduziram-se as cerimónias, com mais ou menos solenidade, das cortes imperiais. O que restou (resta?) da Ceia de Jesus?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 MAIO 2021

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Entretiens sur le Béton e o equilíbrio ideal entre o artificial e o natural.


Entretiens sur le Béton
de Éric Rohmer (1969), é composto por entrevistas, ao arquitecto Claude Parent e ao teórico urbanista Paul Virilio, conduzidas por Louis Paul Letonturier e François Loyer, onde se expõem as possibilidades expressivas do betão armado - de modo a contrapor a generalizada hostilidade pública em relação à arquitetura brutalista.


Através desta entrevista, Rohmer contribui para o debate sobre modernização da arquitetura, que sucedeu à Segunda Guerra Mundial e que mobilizou cidadãos, os arquitetos e urbanistas. (Schmid 2015, 10).


Entretiens sur le Béton
apresenta uma reflexão pertinente sobre as novíssimas formas do betão - o betão foi o material que, por excelência, possibilitou o uso das formas puras, na emergência do modernismo. O arquiteto Claude Parent e o filósofo Paul Virilio, são assim chamados e entrevistados, para com a sua experiência, explicarem as qualidades plásticas e excecionais do betão e tentarem por isso afirmarem poesia nas grandes novas formas do betão à vista.


Rohmer, com este programa, proclama fé nos novos materiais, através do testemunho de Parent e Virilio. A beleza difícil dos novos materiais (que apareceram após Revolução industrial) endereçados e apresentados no documentário Métamorphoses du Paysage (1964) é aqui esquecida, porque nesta entrevista, é explorada a potencialidade estética e estrutural do betão. (Schmid 2015, 11)


A entrevista tenta assim resgatar beleza a um material, normalmente associado a formas construídas assépticas e sem alma. Segundo Parent e Virilio, o betão representa uma nova maneira de fazer arquitetura, porque unifica e permite a continuidade do espaço - ao passado pertence o uso do betão numa perspetiva meramente estética e decorativa. Ao apresentar fluidez, ritmo e a possibilidade de construir formas simples, o betão apresenta-se como sendo o primeiro elemento plástico, na história da arquitetura, antes mesmo do aparecimento do plástico, porque representa a possibilidade do movimento infinito - onde chão, parede e teto estão em constante comunicação e se unificam.


Para Parent e Virilio, nem Le Corbusier foi capaz de utilizar o betão nas suas maiores capacidades e de forma expressiva. O betão é mais vivo do que a pedra, pela sua flexibilidade e pela sua capacidade de se ligar ao que rodeia, adquirindo uma cor e uma textura diferente ao longo do tempo. Para Virilio, o betão é comunicação, é liberdade, significa movimento livre. É o novo lirismo arquitetónico.


Nesta entrevista, Virilio e Parent, acreditam que a arquitetura sobretudo deve permitir a deslocação espontânea do ser humano - é muito mais do que uma fachada e vai muito mais além do que o mero funcionalismo. E o betão pode ser esse veículo do ser humano tão desejado na arquitetura.


Na opinião de Virilio, a torre de vidro moderna representa uma arquitetura puramente visual. O betão tem a capacidade de permitir outras soluções urbanas mais dinâmicas, para além da vertical - deve possibilitar uma arquitetura que é suporte de vida. A verticalidade é estática, é a negação do dinamismo urbano e humano.


Para Virilio, a arquitetura do passado é uma arquitetura meramente protetora, que dá muita importância à cobertura e à fachada. A época contemporânea é a época da infraestrutura, do nível, do chão, do suporte e o betão reforçado tem aqui um papel fundamental, porque apresenta grandes capacidades de trabalhabilidade e de resistência.


Segundo Virilio e Parent, existem dois tipos de arquitetura a da proteção (críptica e primitiva) e a arquitetura infraestrutural (que é a arquitetura do suporte e do lugar humano, da deslocação e da circulação sociológica). A arquitetura contemporânea deve ser pois exterior e infinitamente contínua. O betão flui e permite fluir e está na base da reorientação do futuro. É uma matéria táctil e viva.


Schmid no artigo Between Classicism and Modernity (2015) argumenta que a visão de Rohmer, acerca da arquitetura moderna, em Entretiens sur le Béton, é mais uma vez ambígua, sobretudo a seu ver, por causa da insistência de Parent e de Virilio ao sublinharem e elogiarem a plasticidade e tactilidade das estruturas de betão - até considerando estas estruturas muitíssimo superiores à leveza e à estética transparente da arquitetura de Mies Van der Roher. Virilio não acredita no modelo da torre transparente como solução urbana e Rohmer, nesta entrevista, permite claramente demonstrar que o betão é uma estrutura tão especial que pode até revolucionar o desenho urbano modernista, apenas através da redefinição da sua infraestrutura.


Schmid diz que a ambiguidade de Rohmer também se manifesta nas imagens dos bunkers, porque em nada esclarecem o tipo de arquitetura que Parent e Virilio acreditam como solução. Se estivermos bem atentos e informados acerca da teoria de Parent e de Virilio, da fonction oblique (teoria que afirma rampas, ângulos e diagonais como definidores do desenho do espaço e que assim permitem uma continuidade infinita, onde público e privado se misturam e a superfície da cidade é fluída) reconhecemos que os bunkers só são mencionados pelos entrevistadores, por em nada esta ser a arquitetura representativa do betão, nem a arquitetura que defendem. O bunker representa a arquitetura epidérmica, de proteção por excelência e que se relaciona com as mais primitivas e já ultrapassadas formas construídas. Virilio afirma que estamos na era da infraestrutura e é para isso que o betão em muito pode contribuir, ao permitir reorganizar a cidade em camadas e em fluxos contínuos e infinitos.


Neste debate, Rohmer permite que a visão de Parent e Virilio, acerca de uma arquitetura do betão ambígua, contínua, fluída, dinâmica, orgânica e circulatória, tome conta do debate. Parent e Virilio fazem-nos acreditar no betão como sendo o material por excelência capaz de negar a arquitetura isolada, estática, artificial, epidérmica, encenada e petrificada da modernidade. Esta entrevista confirma o interesse de Rohmer em fazer coexistir equilibradamente o artefacto e o natural, o divino e o humano (Margulies 2014, 163). E Parent e Virilio mostram que isso poderá ser possível com uso sábio do betão.

Ana Ruepp

A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de maio de 2021

 

“Portugal – Ser e Representação” de Miguel Real (Difel, 1998) constitui uma reflexão crucial, no conjunto de uma obra que atinge os quarenta anos de persistente labor intelectual.

 

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PERMANENTE INTERROGAÇÃO

Os quarenta anos de Escrita de Miguel Real correspondem a uma permanente interrogação sobre o tema dos mitos e da essência da cultura. Eis por que razão a sua obra tem de ser analisada a partir do seu sentido crítico e não apenas através de uma identificação simplificadora das glosas que tem desenvolvido, por exemplo, a partir de Teixeira de Pascoaes, Jorge Dias, António José Saraiva e Eduardo Lourenço. De facto, o elemento dominante encontrado pelo ensaísta no homem português de “ser o que não é”, leva-nos à compreensão de que a riqueza do pensamento de Miguel Real é a sua capacidade de pôr em causa os lugares comuns e de assumir a complexidade. Tal como refere José Gil, sobre o “ensaísmo trágico”, relativamente a Eduardo Lourenço, Miguel Real não segue os dois caminhos tradicionais do pensamento filosófico – ora partindo dos grandes conceitos, com o horizonte reconfortante e estável das sínteses, como em Kant e Hegel; ora exercendo a análise pura e direta da decomposição das noções. Miguel Real prefere os conceitos, encarados como “figuras simbólicas”, a partir da função ontológica do mito. Com efeito, aceita que há dois tipos de existência – a empírica e a mítica, mas é a segunda que estrutura a primeira e fá-la consistente. A mitificação do empírico conduz-nos ao primado do sentido crítico, não havendo confusão entre a invocação dos mitos, o seu efeito, e a respetiva aceitação. Eis por que são importantes os mitos que a sociedade produz, assumindo a dupla dimensão de integração e renovação. De facto, o mito evolui e adapta-se à realidade e, simultaneamente, contribui para fazer alterar a própria realidade. Não por acaso, M. Real faz da crítica literária o seu terreno de eleição, a fim de compreender melhor a capacidade criadora. É a busca da complexidade hermeneutica, ontológica e histórico-sociológica que o preocupa. O “imaginário português” é, assim, o campo de ação do analista, como fator de liberdade, de independência e de diversidade. Ao aventurar-se no lugar dos outros e no campo do ser o que não se é,  depara-se, tantas vezes, com uma menor compreensão daquilo que verdadeiramente põe em causa. Pode, assim, aplicar-se-lhe o que Eduardo Lourenço afirma em “Heterodoxia – I”: “o homem é livre de aceder a uma visão geral da vida através duma reflexão incondicionada, cuja essência consiste na possibilidade de recusar ou discutir toda a espécie de postulados”. Por isso a distância em relação à ideia de sistema, e a evidente preferência pelo método ensaístico, tal como preconizado por Sílvio Lima. E assim eis-nos perante a interrogação exigente sobre o modo como somos e como imaginaríamos ou deveríamos ser. Daí uma especial coerência em recusar os temas circunstanciais ou as ilusões da moralidade – o que se evidencia nas incursões romanescas, com evidente sucesso, em que a singularidade dialoga com a comunidade, sem pretensão de uma qualquer conclusão edificante.

 

QUALIDADES E DEFEITOS…

Portugal é visto com qualidades e defeitos, com avanços e recuos, com características próprias, as mais das vezes contraditórias: a Providência e o anti-clericalismo; a unidade e a diversidade; o conformismo e o inconformismo; o lirismo e o picaresco, a tragédia e a ilusão. Afinal, urge denunciar o “irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”, como lemos no autor de “O Labirinto da Saudade”. Longe da placidez das explicações unívocas, encontramos no caminho da nossa História: os gestos traumáticos da independência nacional; a longa hesitação do Mestre de Avis; o desastre de Alfarrobeira; a tragédia do Infante Santo; a morte da esperança do Principe Perfeito; a loucura de D. Sebastião; a ambiguidade do Quinto Império; o efeito do Ouro do Brasil; a partida da Corte para o Brasil; a humilhação do Ultimato inglês; o colonialismo; a neutralidade colaborante do Estado Novo… Tudo se projeta na vida coletiva, na gestação e desenvolvimento dos mitos. “Os Lusíadas” são uma genial ficção, em que Camões segue os passos de Virgílio e põe-nos na linhagem de Eneias e dos heróis de Tróia. É uma ficção grandiosa que não esconde a excecionalidade de uma evolução dificilmente explicável de uma “existência crepuscular”. De facto, só a crítica, do mito e pelo mito, pode tentar encontrar uma chave para esse encontro com o destino difícil de explicar.

 

EUROPA E LUSOFONIA

Os mitos da Europa e da lusofonia obrigam, no fundo, à interrogação paradoxal sobre o velho continente e as relações ancestrais ambíguas que o tempo tem procurado resolver: depois de a Europa nos ter feito e de nós termos feito a Europa é tempo de assumir criticamente um sonho, apesar do desencantamento que resulta do confronto com a realidade. Afinal, Portugal e a Europa fazem-se mutuamente, designadamente através de uma relação ibérica inteiramente nova e absolutamente necessária… É de uma reconciliação connosco próprios que falamos, deixando de nos sentirmos marginais ou sós – com uma garantia de segurança e liberdade. De facto temos “Duas Europas”: uma, a nossa (em conjunto com a Espanha), castiça, do sul, arrastada pela má consciência de termos sido grandes; e a outra nórdica, avançada e acelerada… Já a “lusofonia” corresponderá a um espaço de língua, que não significa espaço de cultura unívoca. Tratar-se-á sempre de uma ligação de geometria variável, em que as complementaridades e as imperfeições serão muito mais importantes do que qualquer falso sucedâneo imperial. E Miguel Real diz-nos que, como nó central do imaginário português, o sebastianismo é um ativo cultural gerado pela consciência popular. Fernando Gil diz ser a alucinação um operador natural da evidência. O que obriga a que a crítica do mito se torne aguilhão de maior exigência futura. Prova póstuma de existência e desafio à lucidez. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

                                         

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM


Minha Princesa de mim: 

 

   Vários leitores me contactaram para saber um pouco mais da Galla Placídia falada na minha última CARTA. Pareceu-me interessante o que acerca dela já te escrevera, anos atrás e aqui reproduzo... 

 

INTERVALO 

Galla Placídia Augusta tem, na história da gente real, uma grandeza tão mítica como a de Dido, rainha de Cartago, que Eneias desprezou para ir fundar Roma... Ou talvez maior, precisamente por ter sido real, no tempo e no modo, o seu sonho, o seu esforço, a sua coragem e devoção. Filha de Teodósio Magno, será por essa linhagem imperial - que sempre estimou acima de tratações, sucessos e desaires - filha e irmã, mulher de imperadores... e afinal mãe, só por essa linha de fidelidade, do último imperador do Império Romano do Ocidente, Valentiniano III, morto assassinado em 455. Digo-o último, sim, porque todos os outros que se foram registando depois, até Rómulo Augusto, destituído em 476, data "oficial" do fim de tal Império, foram surgindo de manobras, crimes e intrigas, sucessivas tentativas vãs de  aguentar uma aparência de estado, já sem soberana linhagem nem a Virtus romana... Galla tinha duas forças: a do carácter teimoso e resoluto, e a da sua profunda fé e devoção cristã. Esta tê-la-á ajudado a aceitar casar-se com o visigodo Ataulfo e o romano Constâncio, e ainda a tratar e contratar com rivalidades romanas e ameaças bárbaras. A pertinácia, o faro político, ou sentido de Estado e permanência, lhe terão ditado o raciocínio e as decisões. O que, sempre, sempre, mais me tocou nessa história, eivada de intrigas e banalidades políticas, foi a possivelmente única vitória final de Galla Augusta: ela já não assistiu ao fim atroz do imperador seu filho, e fora antes finalmente inumada em Roma (junto a seu pai, é certo e significativo), em vez de repousar no mausoléu que para si mandara edificar (e ainda hoje existe) em Ravena (na altura capital do Império).  Mas, ainda que a título póstumo, viu a vitória do dogma da hipóstase das duas naturezas de Cristo, divina e humana, reunidas numa só pessoa, defendido pelo seu amigo, o papa Leão Magno ( que salvou Roma de Átila), no concílio de Calcedónia, em 451, um ano após a sua morte. Refiro este episódio da história teológica, porque Galla Augusta viveu com a obsessão da compatibilidade do divino e do humano, e vendo na pessoa de Jesus Cristo o sinal de Deus para o devir do Império Romano, a união da cidade dos homens com a cidade de Deus...  Foi essa também a obsessão de Jerónimo Savonarola. Nenhum deles, com mil anos de distância, teria, penso eu, visões teocráticas da sociedade política. Tinham, isso sim, uma entranhada fidelidade, muito íntima, ao sentido da legitimidade. Para Galla Placídia, Roma deveria acolher, tratar, federar-se até, com os bárbaros que a cercavam e penetravam, desde e para que mantivesse a unidade que a linhagem imperial garantia, e que a fé nova do império, o cristianismo que o papa representava, necessariamente consagrava. Para frei Jerónimo, não havia outra linhagem que não a vontade democrática (que afrontava e tinha expulso de Florença a tirania dos Medici, e questionava os usos, abusos e costumes do papa Borgia, Alexandro VI), cabendo aos profetas lembrar ao povo a justiça que Deus de todos nós espera e reclama.  Entre a princesa romano-bizantina de sangue e o frade mendicante nascido numa família de Ferrara, da qual pouco ou nada se sabe, tudo será diferença: a época e a circunstância, a categoria social, a inspiração das ideias e desejos, a motivação dos atos. E, todavia, passa por eles o mesmo sopro. Que lhes segredou que, se não houver fidelidade e abertura, retidão e justiça, muito se poderá perder e talvez tudo, ou quase, esteja errado. A princesa morreu sem violência, só previu o que iria acontecer ao seu império, ao seu sonho e dinastia. O dominicano foi finalmente enforcado e queimado em praça pública. E, para que o povo não guardasse relíquias do profeta, lançaram ao rio Arno as suas cinzas. Menos de um século depois, Lutero proclamava, em revolta e oposição a Roma e a muitos príncipes, a reforma protestante que, profeticamente, Savonarola, pressentira crescendo no coração dos povos, mas ignorada por quem, como dever primeiro, deveria escutar os outros... Há quem teime em servir Quem (e cá me lembro do Quem do "Ano da morte de Ricardo Reis") não possa morrer, como disse Sophia na sua "Meditação do Duque de Gandia sobre a morte de Isabel de Portugal": Nunca mais a tua face será pura, limpa e viva, nem o teu andar se poderá nos passos do tempo tecer. E nunca mais darei ao tempo a minha vida, nunca mais servirei senhor que possa morrer... Cito de cor - da memória do coração - ocorreu-me esse poema lindíssimo ao pensar em Carlos V. Creio que este imperador, mais ainda do que o Duque de Gandia, que o servia, e à imperatriz, poderia ter assim sentido a morte de Isabel de Portugal. Quiçá dois desastres íntimos  - daqueles que põem à prova qualquer fé - terão abalado Carlos de Habsburgo, e levá-lo a abdicar, para se retirar no mosteiro dos jerónimos de Yuste: a morte da mulher tão admirada e profundamente amada, e a incapacidade de consolidar uma aliança política e de fé, numa Europa que as desavenças entre católicos e protestantes dividiam, e o cerco otomano ameaçava... É certo que derrotou e fez prisioneiro Francisco I de França - o tal que, contra ele, tentou alianças com forças da Reforma e com os muçulmanos - mas o sonho que da cidade de Deus tinha era mais largo e magnânimo, para que todos vivessem em paz uns com os outros e com o Senhor de todos. Era hispano-austríaco, amorosamente casado com uma portuguesa, mas nascera na Flandres, percebia as razões dos movimentos da Reforma e as contra-razões de Roma... Talvez tenha começado a morrer à morte de Isabel, quando se sentiu tão só com o seu cansaço. Os sonetos nº. 3, 4 e 5, de amor mordido, são convívios com estas personagens. 

 

Camilo Martins de Oliveira

OUTRA EVOCAÇÃO: O CENTENÁRIO DA “ZILDA” DE ALFREDO CORTEZ


Há situações cronológicas que justificam referências adequadas à celebração respetiva. Temos aqui evocado datas e situações referenciais do teatro português e nesse sentido, justifica-se agora esta  breve referência aos 100 anos da primeira peça relevante da obra renovadora de Alfredo Cortez: a “Zilda” (1921) onde se verifica o início da obra teatral deste autor, hoje de certo modo esquecido mas que marcou, numa criação vasta e renovada, o teatro português moderno e modernizante, a que já temos feito numerosas referências.


Isto, tendo presente não só a existência de peças anteriores como sobretudo as alternâncias sucessivas da sua obra de criação dramatúrgica. Pois em rigor, a “Zilda”, datada como acima se disse de 1921, constitui a primeira grande obra de criação dramatúrgica do autor, que viria a marcar a qualidade renovadora e heterogénea ao teatro português da época moderna.  


Antes e depois desta peça, tanto a obra dramatúrgica do autor como a renovação moderna epocal, que em muitos aspetos de qualidade se impõe e como tal dura até hoje, merece esta referência cronológica: e a “Zilda” cumpre em rigor um século, desde a sua criação.


Antes disso, houve obviamente peças de renovação estética: e o realismo dominante da obra de Alfredo Cortez teve antecedentes e sobretudo uma continuidade autoral renovadora, variada mas sempre, insista-se, dominante. Alfredo Cortez é realmente um grande autor criativo da modernização do teatro português, e diversíssimas expressões da sua vasta obra cobriu e em não poucos casos renovou, desde o realismo naturalista até ao expressionismo.


Dessa heterogeneidade criativa temos muitas vezes feito análise, dando o devido destaque à sucessiva inovação/renovação, em si mesma autónoma na criatividade pessoal: pois com isto queremos frisar a inesperada renovação de certas criações deste teatro vindas de quem marcou a história contemporânea e não só do teatro português.


Precisamente, como já se disse, celebra-se este ano o centenário da primeira grande  peça de Alfredo Cortez, a  “Zilda” que concilia o realismo crítico e adequado ao ambiente cénico dominante como certa linguagem próxima do simbolismo; o que não colide, insista-se, com o realismo dominante nesta peça iniciática.


E é de salientar então que Alfredo Cortez marca a modernidade do teatro pela qualidade cénica e pela heterogeneidade de certo naturalismo dominante até a expressões à época inovadoras, desde o realismo até ao expressionismo, então muito pouco evocado na criatividade modernizante do teatro português…


E é oportuno lembrar que a “Zilda”, insista-se, primeira peça  de Cortez, desde logo revela um sentido cénico-literário bem próprio do teatro realista e que Cortez concilia com o âmago simbólico do entrecho e da linguagem e sentido de espetáculo, que manifestará ao longo de vasta e diversificada dramaturgia por ele criada: e não é então demais novamente evocar aqui e agora as variantes dessa longa produção dramática que se desenvolverá até 1940 com a “Moema” mas se prolonga ainda mais dois anos com o guião e diálogos do filme “Ala-Arriba” de Leitão de Barros.


E esta evocação justifica realçar a adaptabilidade de Alfredo Cortez a expressões diversas e à época menos cultivadas por ligações à cultura do espetáculo em si…


Realçamos, para terminar, que a última peça completa de Alfredo Cortez, abre portas a uma perspetiva de renovação que não concretizou pois insista-se, “Moema” foi a última peça completa do autor.


E registe-se que a “Moema” reflete, na temática e no ambiente a experiência africana do autor, que exerceu atividade judicial em Angola. É interessante essa convergência, que aliás está subjacente ao conjunto do seu teatro socio-realista.


Em qualquer caso, a evocação do centenário de Alfredo Cortez marca a qualidade que o teatro português alcança através da produção literária e de espetáculo de certos autores.


E vale a  pena então lembrar que se trata de uma época em que o teatro servia muitas vezes de “escapatória documental” de situação sociais então muito marcadas pela política: isto, independentemente das opções ideológicas e/ou efetivamente exercidas pelos escritores e sobretudo dramaturgos da época, que não tinham,  longe disso como bem sabemos, a atividade criacional facilitada e divulgada. Para não falar também na censura direta aos espetáculos, que não motivava a criatividade…


Sendo certo que Alfredo Cortez nesse aspeto teria sido menos prejudicado do que tantos outros!


Em qualquer caso, o que importa agora é destacar e evocar a qualidade genérica da sua obra. A ela voltaremos.

 

DUARTE IVO CRUZ

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

 

74. UMA IDEIA DE EUROPA E DE CIVILIZAÇÃO EUROPEIA


Civilização define-se por oposição à barbárie. 

Traz em si um juízo de valor.   

Um conjunto de caraterísticas espirituais e materiais. 

Começa por significar um elevado nível de desenvolvimento espiritual e social.  

São tidos por civilizados os indivíduos polidos e bem-educados. São povos e culturas que usufruem de privilégios de um nível elevado e superior de desenvolvimento científico e tecnológico, cultural, espiritual, político e social.  

Uma civilização pode reunir várias culturas, sendo interdependentes reciprocamente em termos de um mínimo de denominador comum.  

A civilização é tida como o nível mais abrangente de identidade cultural.

Enquanto a cultura agarra mais de perto os valores próprios dos grupos que lhe são mais próximos (o biológico, a família, a tribo, a terra, a pátria, o país, a língua materna), a civilização é mais abrangente, englobando várias culturas, ocupando mais espaço e perdurando mais tempo, apesar das mudanças ocorridas no seu interior.   

Abrangendo múltiplas culturas no seu seio, uma civilização pode consagrar a solução da diversidade sem unidade, da unidade sem diversidade e da unidade na diversidade.   

Que dizer da Europa e da civilização europeia?  

Embora com elementos comuns a outras civilizações, há nela elementos que a particularizam, resultantes da sua longa temporalidade.  

Tem como principal base civilizacional a tradição greco-latina e judaico-cristã, a que acresce as navegações, a tradição revolucionária e liberal e a revolução industrial, com consequências a nível dos fundamentos políticos, económicos e técnicos, entre outros.  George Steiner, na palestra A Ideia de Europa, define-a em cinco axiomas: o café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia a pé; ruas e praças com nomes de artistas, cientistas, escritores e estadistas do passado; a herança dupla de Atenas e Jerusalém; as trevas que a ensombram, mesmo nas horas mais luminosas, de Auschwitz ao Gulag.

Considerando que mesmo as ideias mais abstratas têm de estar ancoradas na realidade, questiona-se: como é que isso se aplica à ideia de Europa?     

Responde num parágrafo célebre: 

“A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos mapas essenciais da “ideia de Europa”.

Concebendo a Europa como uma identidade cultural, é a partir daqui que se deve pensar a civilização europeia e aquilo que deve ser a União Europeia, defendendo: 

“O génio da Europa é aquilo que William Blake teria chamado “a santidade do pormenor diminuto”. É o génio da diversidade linguística, cultural e social, de um mosaico pródigo que muitas vezes percorre uma distância trivial, separado por vinte quilómetros, uma divisão entre mundos. Em contraste com a terrível monotonia que se estende do ocidente de Nova Jérsia às montanhas da Califórnia”.    

É a defesa de uma solução de síntese: da unidade com diversidade.

E se o legado ontológico da Europa é o questionamento, perfilha a ideia de que a Europa ocidental pode “ter o privilégio imperativo de produzir, de pôr em prática, um humanismo secular”. E acrescenta: “Esta tarefa pertence ao espírito e ao intelecto”. 

Uma ideia de Europa e de civilização europeia que tenha como valores fundamentais a democracia, a tolerância e os direitos humanos.     

Exemplifica-o o ânimo espiritual e mental que permitiu a sobrevivência do pianista judeu-polaco Wladyslaw Szpilman, na segunda guerra mundial, com a imprescindível ajuda do oficial alemão Wehrmarcht Hosenfeld, retratado no filme O Pianista, de Polanski, ao som de Chopin, como se, naqueles momentos, a guerra não existisse, eclipsada pelo poder e força da música, unindo-os e libertando-os na adversidade, aliando  inesperadamente em dignidade, tolerância e na unidade com diversidade, duas pessoas oficialmente inimigas, fazendo jus a uma matriz europeia humanista e transversal.   

 

14.05.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

2. A CASA DOS 4 CAMINHOS: quando o propósito é o paradigma

 

 

Passeava-se hoje o pensamento enquanto lia a vida em voz alta.


Neste dia, desde que saíra da Casa dos 4 Caminhos, procurava uma direção que sabia muito além. Por isso passeava-se, assim, solto, sem dramas, abandonando-se ao cheiro das resinas e inebriado tanto quanto aprendiz.


Sabia que se não movia em áreas universais do conhecer e que muito lhe fora escapando enquanto guardador de algumas especializações.


Sabia da sua dificuldade em se atualizar como a vida.


Sabia que a sua formação continuava em tempo de múltiplos berços, com inúmeras interpretações por escutar, por concluir, e por já pouco esperançoso de ainda ser tempo do muito, decidira hoje passear-se sem inquietude maior que a do propósito.


Sabia, se sabia, que não queria apropriar-se do que de outros pensamentos recebera.


Agradecia-lhes tanto o terem-no deixado conhecer novas direção que, mais, seria impudor.


Sabia que a perceção de um código genético comum seria a leitura com a qual ouviria melhor a humanidade.


Sabia que para este conhecer, careceria de tirar férias de muitos movimentos e devagar e vulnerável, deixando de lado as metafisicas e as transcendências e os excessos de objetividade, construiria hoje o início de um paradigma que explicaria o instinto que contém a comum raiz humana.


Passeava-se hoje o pensamento.

 

Teresa Bracinha Vieira

JESUS E A IGREJA. 4

 

Na Igreja, haverá líderes no, com e para o Povo de Deus, para celebrar nas comunidades e com as comunidades a Eucaristia: a vida, a morte e a ressurreição de Jesus e da Humanidade inteira. A Eucaristia é memória da última Ceia e também de todas as refeições que Jesus tomou concretamente com pecadores e excluídos, precisamente para indicar a presença e actuação do Reino de Deus. Esses banquetes tinham causado profunda impressão nos discípulos. Jesus aliás comparou a realidade do Reino de Deus a bodas e banquete. Não se trata, pois, do padre-sacerdote do culto ritual-sacrificial. Jesus rejeitou o sacerdócio judaico e o culto sacrificial do seu tempo, e nada indica que quisesse instituir um novo culto sacrificial. Ele próprio não era “sacerdote” nem nenhum dos “Doze” nem Paulo. As suas relações com o Templo e o culto nele realizado pelos sacerdotes foram de ruptura, de tal modo que foi o sacerdócio judaico que o levou à cruz. No Novo Testamento, a palavra “sacerdote” no sentido sacrificial-cultual foi evitada. A concepção sacrificial da Eucaristia, que implica a introdução do sacerdote, é posterior, tendo na sua base sobretudo a vontade de impedir a acusação de ateísmo pelo facto de os cristãos se recusarem a prestar culto aos deuses e não oferecerem sacrifícios. Mas então o “povo sacerdotal” transformou-se na “Igreja dos padres”, e, esquecendo a Eucaristia como memorial do amor incondicional de Cristo pela Humanidade até ao fim na vida e na morte, a sua compreensão como sacrifício contribuiu para a concepção do Deus que precisa do sangue das vítimas, a começar pelo sangue do próprio Filho, em ordem a aplacar a sua ira. Deste modo, porém, continuou a história do deus sádico Moloch, em nome do qual é possível legitimar todo o sangue derramado. De facto, se Deus precisa, para ser aplacado na sua ira divina, do sangue de vítimas e até do do próprio Filho, porque é que nós não havemos também de poder derramar sangue e de vingar-nos?


Não se pode esquecer que o divino andou sempre vinculado ao belo, de tal modo que não há encontro autêntico com Deus sem o encontro com a beleza. Ora, é necessário reconhecer que frequentemente as celebrações das comunidades cristãs são confrangedoras no seu mau gosto. Quando nas igrejas se ouve a música que se ouve e se tem de escutar  as homilias que se sabe, é de espantar como é que há ainda tanta gente que vai à igreja. São necessárias celebrações familiares e belas, em que pré-apareça e se experiencie a beleza que nos redime de um quotidiano tantas vezes vulgar e vazio. Por outro lado, em casos especiais, como na situação de confinamento, por exemplo, nunca se pode esquecer que, como fizeram as primeiras comunidades, há possibilidade da celebração em casa. 


Será de acrescentar que hoje, oficialmente, só se consideram sete sacramentos. Mas Santo Agostinho falava em dezenas. E com razão, pois, se no Antigo Testamento Deus fala através de sinais e se no Novo Testamento Jesus fala mediante sinais, também a Igreja o deve fazer. Trata-se de sinais que mostram que o Reino de Deus está presente, trazendo salvação e força à Humanidade, manifestando a bondade de Deus e a sua solicitude. O que é preciso é adaptar e transformar o universo simbólico da Igreja para os novos tempos e necessidades.


Concluindo. Como escreveu J. A. Pagola, “O objectivo de Jesus foi introduzir no mundo o que ele chamava ‘o Reino de Deus’, uma sociedade estruturada de maneira justa e digna para todos, como Deus a quer. Quando Deus reina no mundo, a Humanidade progride em justiça, solidariedade, compaixão, fraternidade e paz. A isto se dedicou Jesus com verdadeira paixão. Por isso foi perseguido, torturado, executado. ‘O reino de Deus’ foi o absoluto para ele”. A conclusão é evidente: a força, o motor, o objectivo, a razão e o sentido último do cristianismo é “o Reino de Deus”, não outra coisa. “O critério para medir a identidade dos cristãos, a verdade de uma espiritualidade ou a autenticidade do que faz a Igreja é sempre ‘o Reino de Deus’. Um reino que começa aqui e alcança a sua plenitude na vida eterna.” Assim,  concluindo: “Uma das ‘heresias’ mais graves que se foi introduzindo no cristianismo é fazer da Igreja o absoluto. Pensar que a Igreja é o centro, a realidade à qual tudo o resto se há-de subordinar; fazer da Igreja o ‘substituto’ do Reino de Deus; trabalhar pela Igreja e preocuparmo-nos com os seus problemas, esquecendo o sofrimento que existe no mundo e a luta por uma organização mais justa da vida.”


O cristão acredita que o Deus Pai de Jesus Cristo é o Criador do mundo. Por isso, esta vida sobre a terra não é uma passagem ou um simples treino para a vida verdadeira do Além. Não! Esta existência neste mundo, aqui e agora, é já vida real e verdadeira, de salvação, com Deus. Mas ainda não somos o que seremos. Aguardamos a consumação e céus novos e uma terra nova. Uma religião que esqueça a Terra está inevitavelmente sob a suspeita de ilusão, como um mundo sem transcendência fica inevitavelmente sob a ameaça da desumanidade.


Como escreveu E. Schillebeeckx, quando a Igreja vive seguindo Jesus na oração e na libertação dos homens e das mulheres, “a fé na ressurreição não conhece por isso mesmo qualquer crise”. Mas, por outro lado, é preciso reconhecer e proclamar que “é melhor não ter fé na vida eterna do que confessar um Deus que, com o olhar num Além melhor, rebaixa, empequenece e humilha politicamente os seres humanos no ‘aqui e agora’”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 MAIO 2021