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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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E OUTRA AINDA A JOSÉ SARAMAGO


Meu Caro José Saramago:


   ...meu pai mal pode andar, acho que  lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o coração à procura de terra para descansar... diz Baltasar Sete Sóis, no Memorial do Convento,  quando, sob o efeito da saudade do desaparecido padre Bartolomeu e duns púcaros de vinho a mais, a sua mente oscila entre o aparente disparate de tal pensamento - que, todavia lhe inspira, a si, meu caro Saramago, essa frase que imagina a morte tão humana e tão bonita - e a confusão que as ideias sobre Deus geram em cabeças fragilizadas. Cito: ...Deus não tem a mão esquerda porque é à sua direita que senta os seus eleitos, e uma vez que os condenados vão para o inferno, à esquerda de Deus não vem a ficar ninguém, ora, se não fica lá ninguém, para que quereria Deus a mão esquerda, se a mão esquerda não serve, quer dizer que não existe, a minha mão serve porque não existe, é só a diferença, Talvez à esquerda de Deus esteja outro deus, talvez Deus esteja sentado à direita doutro deus, talvez Deus seja só um eleito doutro deus, talvez sejamos todos deuses sentados, donde é que estas coisas me vêm à cabeça é que eu não sei, disse Manuel Milho, e Baltasar rematou, Então sou eu o último da fila, à minha esquerda é que não se pode sentar ninguém, comigo acaba-se o mundo, donde vêm tais coisas à cabeça destes rústicos, analfabetos todos, menos João Anes, que tem algumas letras, é que nós não sabemos.


   
Venho saboreando a sua frase, tão humana e tão bonita: meu pai mal pode andar, acho que lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o coração à procura de terra para descansar.  Tantas vezes eu mesmo propriamente me sinto assim... tantas quantas me surpreendo a pensarsentir que um homem é árvore, nascida para crescer, dar sombra e fruto, e morrer de pé, num abraço ao chão que lhe sustentou a vida. Depois do abate, poderão queimar-me para dar calor e luz ainda, sem pretensões, apenas porque, para tal, possa ter algum préstimo. Nada me pertenceu ou pertence, só eu pertenci e pertencerei sempre a esse devir de que Deus é dono, e a que chamamos vida por vir, universo inteiro. 


   Nem aos filhos de Zebedeu Jesus garantiu lugares de privilégio no Reino do Pai, nem Baltasar sabe se, sentado no último lugar da fila, será ele o primeiro a cair pela esquerda, ou quando o mundo for acabar. Da mão esquerda de Deus, da sua utilidade e desígnios, tanto nada sabem os sábios humanos (incluindo os que se enaltecem de títulos sacerdotais) como João Anes ou qualquer dos seus analfabetos companheiros etilizados. Por mim, apenas ouso tentar adivinhar que, com mão esquerda ou sem ela, Deus terá decidido que o seu segredo só pode ser guardado no coração de cada humano de boa vontade.


    E ainda arrisco dizer que o José Saramago não discordará totalmente de mim, sobretudo se lhe ocorrer que, por me encontrar ainda do lado de cá da contemplação do mistério da vida e da morte, nesta idade e condição, também poderei sentir-me como quando era menino pequenino e carente de tudo, impotente ansiando por que uma inefável ternura tenha misericórdia de mim.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

SHAKESPEARE NOVAMENTE NO TEATRO EM PORTUGAL


Neste ambiente de retraimento, será oportuno referir as notícias de um espetáculo determinante no Teatro Municipal Mirita Casimiro, a cargo do hoje tradicional mas atual e prestigiado Teatro Experimental de Cascais – TEC. Trata-se então de uma montagem do arquiclássico “Hamlet” a partir do arquiclássico Shakespeare, dirigido por Carlos Avilez: e será então, como dissemos, referir a continuidade desta iniciativa, a centralidade tradicional de cultura urbana inerente e a sobrevivência, digamos assim, do próprio TEC.


Pois de facto vale a pena recordar a tradição histórica do TEC, a sua tradicionalíssima relevância urbana e cultural e a coerência com que motiva a cultura de espetáculo do seu meio.


O TEC vem de há dezenas de anos e mantém a seletividade de repertório e de abordagem de espetáculo. E mais: a direção artística, neste espetáculo mas antes ao longo de décadas, de Carlos Avilez, nome que, insista-se,  evoca também dezenas de anos de atuação, concilia-se bem com a exigência tradicional do TEC em si mesmo e da descentralização pública e cultural inerente: pois não é fácil  levar à cena  o “Hamlet”.


E nesse aspeto, será relevante insistir na qualidade e modernidade cénica e literária de textos e temas desta natureza, mas também, no que diz respeito ao tema agora aqui referido, da relevância que, numa perspetiva de história do espetáculo, gerou a criação do próprio TEC.


Precisamente, na “História do Teatro Português” que publiquei há exatos 20 anos, faço uma referência ao Teatro Experimental de Cascais e a Carlos Avilez, exemplo do que aí cito no âmbito de uma ação global de modernidade que refiro, insiste-se, como exemplo, e da transformação de grupos e companhias  independentes e experimentais em projetos estáveis, sólidos e consistentes de profissionalismo de exigência cultural.


Avilez é referido precisamente na sua ligação ao Teatro Experimental de Cascais. E como bem sabemos, o “Hamlet” de Shakespeare concilia a indiscutível qualidade cénica e literária com uma também indiscutível atualidade temática.


E cita-se agora a opinião de Luiz Francisco Rebello, designadamente no seu livro intitulado “100 Anos de Teatro Português (1880-1980)”, onde efetua uma análise relevante, pela autoria em si, mas também pela apreciação crítica da atividade.  Designadamente, escreve que os espetáculos criados por Avilez foram “quase sempre discutíveis mas nunca indiferentes”, o que em rigor constitui um elogio, concorde-se ou não com o respetivo conteúdo crítico.


E acrescentamos: não confundir esse livro acima citado com a “Breve História do Teatro Português” também de Rebello.


Finalmente, importa insistir na dimensão de pesquisa criacional de Luis Francisco Rebello: e as duas expressões, neste caso concreto, completam-se. Basta ter presente a vasta dramaturgia e também a vasta literacia, sendo a primeira sobretudo concentrada na dupla área de criação dramatúrgica e de pesquisa da História do Teatro, sendo certo que as duas dimensões se completam e são coerentes entre si…


E mais: nascido em 1924, Luiz Francisco Rebello surge em 1946 ligado à fundação do Teatro Estúdio do Salitre e em 1947 estreou a sua primeira peça conhecida, “O Mundo Começou às 5 e 47”.


E foram imensas as atividades ligadas à criação ou à gestão do mundo teatral…


A elas voltaremos.

 

DUARTE IVO CRUZ

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