Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Lições de Arquitetura de Herman Hertzberger.


«Os conceitos de público e privado podem ser vistos e compreendidos em termos relativos como uma série de qualidades espaciais que, diferindo gradualmente, referem-se ao acesso, à responsabilidade, à relação entre a propriedade privada e a supervisão de unidades espaciais específicas.» (Hertzberger 1991,13).


No livro Lições de Arquitetura de Herman Hertzberger (1991) lê-se que o arquiteto, de maneira a envolver ativamente as pessoas no espaço, deve dar atenção especial: ao uso do espaço público como se fosse privado; à demarcação territorial; às formas de acesso; à articulação de materiais; à luz e à cor. O arquiteto deve assim deixar em aberto a possibilidade de se modificar o ordenamento e o acabamento do espaço. Daí a importância do diálogo permanente entre o arquiteto e o utilizador, de modo a possibilitar a indispensável humanização das formas construídas.


O arquiteto tem um papel fundamental no equilíbrio entre o espaço público e o espaço privado. Deve permitir uma reciprocidade entre a forma e o uso, mas também uma interpretação ao mesmo tempo coletiva e individual. Segundo Hertzberger o arquiteto deve atender à forma, à estrutura, à ocupação, à competência e ao desempenho – só assim haverá mais espaço para a interpretação. O objeto construído representa o coletivo e a maneira como pode ser interpretado, representa as exigências individuais. Desta forma o individual reconcilia-se com o coletivo - e o arquiteto tem, nessa relação, uma função insubstituível.


Para Hertzberger, a intervenção do arquiteto tem uma função essencial que é a de criar oportunidades que levem à participação das pessoas e à descentralização das responsabilidades. O segredo é dar ao espaço público uma forma tal que a comunidade se sinta pessoalmente responsável por eles, fazendo com que cada membro da comunidade contribua à sua maneira para um ambiente com o qual se possa relacionar e identificar.


A Rua surge então como sala de estar comunitária. O arquiteto tem uma influência decisiva na mudança de mentalidades, ao intervir na organização espacial e tornando a Rua um espaço de convivência e ao permitir uma interação social quotidiana. O arquiteto, ao interceder no domínio público retoma os interesses pela comunidade e pela reconstrução do interior da cidade. Deste modo o ordenamento da cidade deve acontecer através da determinação de uma estrutura capaz de regulamentar e de gerar uma coerência espacial. Mas o ordenamento deve funcionar não como um imperativo, mas como uma forma de liberdade. O arquiteto deve ter sempre presente que as contínuas mudanças da cidade e das formas construídas, ao longo do tempo, não devem perturbar a identidade original da conceção.


O livro acentua a ideia de que se deve dar especial atenção à funcionalidade, à flexibilidade e à polivalência dos espaços: «O que fazemos deve constituir uma oferta, deve ter a capacidade de provocar sempre reações específicas adequadas a situações específicas. Assim, não deve ser apenas neutro e flexível - e, portanto, não específico - mas deve possuir aquela eficácia mais ampla a que chamamos polivalência.» (Hertzberger 1991, 152).

 

«Os arquitetos não deveriam apenas demonstrar o que é possível, deveriam também, e especialmente, indicar as possibilidades que são inerentes ao projeto e estão ao alcance de todos. É da máxima importância compreender que há muito a aprender com as reações individuais dos moradores às sugestões contidas no projeto.» (Hertzberger 1991, 158).

 

Para Hertzberger, o arquiteto deve usar ao máximo a sua imaginação, para ser capaz de identificar-se com os utentes e, assim, compreender como o seu projeto irá ser interpretado. A arquitetura deve, sobretudo, desempenhar um papel ativo na vida das pessoas e deve por isso contribuir para ler, descodificar, explicar e desvendar o mundo que nos rodeia.


"Devemos sempre procurar atingir a qualidade em tantos níveis quantos se fizerem necessários, para criar um ambiente que não sirva exclusivamente a um grupo particular de pessoas, mas a todos, sem distinção. A arquitetura pode ser descrita como convidativa se o seu projeto for tão acessível aos marginalizados pela sociedade quanto aos membros do sistema, e se pudermos imaginá-la existindo em qualquer contexto cultural imaginável" (Hertzberger 1991, 267) 

 

Ana Ruepp