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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MAIS 30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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  (XXVI) A IRONIA DE ALEXANDRE O’NEILL

 

Alexandre O’Neill (1924-1986) foi entre nós um dos mais dotados artífices da escrita do português do último século. Em Caixadòclos definiu o seu autorretrato com especial culto da ironia. António Tabucchi salientava, aliás, a importância da cultura portuguesa do picaresco, do chiste e do anedótico, que teve no poeta expressão superlativa: «– Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim? / – Que és o esticalarica que se vê. / – Público em geral, acaso o meu nome... / – Vai mas é vender banha de cobra! / – Lisboa, meu berço, tu que me conheces... / – Este é dos que fala sozinho na rua... / – Campdòrique, então, não dizes nada? / – Ai tão silvatávares que ele vem hoje! / – Rua do Jasmim, anda, diz que sim! / – É o do terceiro, nunca tem dinheiro... / – Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você... / – Dos dois ou três nomes que o surrealismo... / – Ah, agora sim, fazem-me justiça! / – Olha o caixadòclos todo satisfeito / a ler as notícias...» (Feira Cabisbaixa, 1965)

Quando nas comemorações do dia 10 de Junho de 1990, António Alçada Baptista anunciou a publicação das “Poesias Completas – 1951-1986” (Imprensa Nacional) fê-lo com a consciência plena de que homenageava um poeta singular que ajudou (e muito) à introspeção nacional, que traduz bem do carácter português. Uma ironia forte e subtil, o uso do escárnio e maldizer, desde os trovadores a Nicolau Tolentino, com linguagem de hoje, concedem a O’Neill um lugar especial na literatura. “Há mar e mar, há ir e voltar” – criou a fórmula mágica, mas viu recusada outra, por ser rebarbativa: “Vá de Metro, Satanás”. Quanto ao encontro com o Grupo Surrealista de Lisboa (1947) apesar de saudações sentidas a Breton (“Deflagraste em nós na sempiterna circunstância: a pasmaceira”) e Éluard (“Cantaste a beleza proferiste a verdade / (…) Disseste o que devias dizer”), o poeta considerava essencial não se levar muito a sério, demarcou-se de escolas e cartilhas. E em 1951 rompeu formalmente com o surrealismo como escola, sem deixar o apego às marcas indeléveis dessa influência – “É tempo de acordar nas trevas do real / na desolada promessa / do dia verdadeiro” (Tempo de Fantasmas). A ironia será marca permanente. “No Reino da Dinamarca” (1958), vemo-lo seguir o próprio caminho – “Ó Cesário Verde como eu queria / Que estivesses aqui!”. Há humor e mágoa, rir e roer… “E se fossemos rir, / Rir de tudo tanto, / Que à força de rir / nos tornássemos pranto…”. E em “Abandono Vigiado” (1960): “Teima? Que topete! / Que se julga ele / Se um tigre acabou / nesta sala em tapete?”. Alexandre O’Neill perscruta sempre o quotidiano, não como realidade pacata, mas como reflexão, excesso e divertimento – como no jogo dos sinais ortográficos. A vírgula – “Quando estou mal disposta / (e estou-o muitas vezes) / mudo o sentido às frases, / complico tudo”. O ponto – “Que eu saiba / só em Éluard sou único e final”.

Eis-nos perante a libertação da arte e pela arte – este o seu programa, a que voltou sempre, conversando e desconversando, moendo e remoendo incessantemente as palavras, com recusa sistemática de uma Poesia com maiúscula, já que preferiu o retrato “à la minuta” do país em diminutivo. E na “Feira Cabisbaixa” desenha Portugal (“se fosses só três sílabas”), diferença a diferença para chegar até nós (“se fosses só o sal, o sol, o sul, / o ladino pardal, / o manso boi coloquial”…). Das doceiras de Amarante aos toureiros da Golegã, “não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço, / galo que cante a cores na minha prateleira”. Mas quem é, afinal, Portugal? “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, / golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, / rocim engraxado, / feira cabisbaixa, / meu remorso, / meu remorso de todos nós”. Portugal magistralmente esboçado por um impressionista de génio. Como poderemos entender-nos sem ler o seu português castiço, que Tabucchi endeusava (como os sinais sonoros de Maria Parda). “País engravatado todo o ano / e a assoar-se na gravata por engano”. O’Neill impagável, olhar atento, para dentro de nós: “Subamos e desçamos a Avenida, / enquanto esperamos por uma outra / (ou pela outra) vida”…" E, em Um Adeus Português (1958), sente-se a força de uma cultura, que O’Neill entendeu como ninguém, onde lírica, tragédia e ironia se encontram sempre: “Nesta curva tão terna e lancinante / que vai ser que já é teu desaparecimento / digo-te adeus / e como um adolescente / tropeço de ternura / por ti». Do mesmo modo que a Peregrinação Interior de António Alçada tem Alexandre por marca: « - Quem? O infinito? / Diz-lhe que entre. / Faz bem ao infinito / Estar entre gente.» (Abandono Vigiado).

GOM

Oiçamos a voz do poeta!

 

 

 


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SÁNDOR MÁRAI


  DO TRATADO DA AMIZADE


Aprende-se que há um amor a todos os títulos fecundo quando os homens são capazes de criar e de manter a vivência de uma amizade como salto qualitativo na forma de viver.


O romance As Velas Ardem Até ao Fim tem sido merecidamente aclamado, mas um autor como Sándor Márai, nunca por excesso será nomeado, tal a força da sua imensa inteligência no poderosíssimo discurso escrito.


Entramos num ecossistema de leitura diferente de cada vez que revisitamos estas velas que ardem qualitativamente catalisadoras de transformações profundas e que sempre direi a reler neste romance.


A magia de um diálogo deslumbrante neste livro, acode ao mistério do tudo e do nada, há quarenta e um anos vivido lado a lado com o que se não pode resolver, ou, por se tratar de ideias falsas, ou, por tão perto e de tão perto, que já não acresce reconhecer o que afinal de nós nunca saiu e tanto no outro se procurou.


E procurou-se no jeito dos porquês e dos comos, ambos miseravelmente idênticos, ambos fórmula sem testemunha que deponha benevolente.


Afinal, da leitura deste livro fabuloso, também resulta que a tudo se sobrevive e, talvez que muitos silêncios sejam mais humanos do que as palavras alguma vez o foram, na ânsia de qualificar a vida.


Existem muitos crimes que os códigos não reconhecem pois que pouco sabem de conteúdos. Também existem misérias e grandiosidades, vaidades e preconceitos que ardem como as velas, muitas, ainda assim, expectantes que se não apaguem de morte esquecida.


E reli e irei reler e apelo à (re)leitura deste romance de Sándor Márai As Velas Ardem Até ao Fim. Todas as noites têm luz quando se sugere um livro como este, pleno de palavras meticulosamente talhadas na alma das pedras.


A realidade é um pormenor na luz flutuante do salão que abriga o diálogo entre dois homens, amigos inseparáveis. Amigos migratórios. Amigos que reconhecem os defeitos e as consequências dos mesmos. Amigos que se não amam apenas pelas virtudes e pelas fidelidades. Amigos até que ambos amparam a bala que afinal não era inteiramente sincera.


Também existe uma mulher neste livro, tal como a amizade que quando surge é um destino.


Também é no seio de uma comum permissão secreta que não se deseja libertar as verdades que em comunhão com uma paixão tiveram ambição de soldado.


E houve guerra. E solidão. E castelos e conventos e cortinas e uma nudez humana que responde com toda a sua vida.


Também existem muitos significados de caça que só muito mais tarde se entendem. Em verdade, as caças têm muito de despedidas, têm muito do foste tu que me chamaste?


Com tudo o que de brilhante nos ocorre quando lemos este livro, o caos da criação onde se desenvolve a dignidade humana, é ainda mais cintilante, quando o sentimos como uma obrigação nobre, tão nobre que faz parte do ofício do entendimento, como andar a cavalo, ou participar num concerto de Chopin.


Oculta e exposta está a sensualidade deste livro. Surge-nos como consequência natural das circunstâncias que levam as mãos ao tremor, tão antigo na paixão, quanto jovem e permanente ao posto de vigia: licor líquido cor de púrpura a quem no acto de leitura o não descuida.


Citando Sándor
“Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. E talvez haja outras coisas que também se separam nesses momentos (…) já não é noite, mas ainda não é dia.”


E nem sempre se argumenta com palavras da razão. Digo.

Teresa Bracinha Vieira
31.03.10


Obs: Solicitou-se a reposição do presente texto